Notas iniciais
enjoooooy :D:D

Não conversei com Frank pelas duas semanas seguintes. Apenas era educado, o que de certo modo já era um avanço. O motivo? Eu era um idiota covarde. Tinha muito medo de me envolver de verdade com ele. Alguns dias atrás eu nunca teria julgado possível gostar de um garoto. Mas depois dele ter me perdoado e de ter sido tão compreensivo, mudei meu modo de ver as coisas. Eu simplesmente não me achava no direito de magoá-lo mais, por que eu sabia que ele não ia me perdoar. E isso me incomodava.

Agora você pergunta, onde está aquele Gee homofóbico e fodão? Foi pastar. Isso mesmo, sumiu no mundo. Não que estivesse gostando dele, era mais um sentimento protetor que eu não sentira nem com o meu próprio irmão.

E quanto ao Bob, bem, ele continuava a me pressionar. Encontrava-me nos corredores e me perguntava como estava indo meu “romance”. Eu apenas o mandava calar aquela maldita boca. Embora soubesse que eu não podia brincar com Bob, quando ele diz, ele faz. Simples assim.

A sexta feira abria-se chuvosa. Demorei mais do que de costume para me levantar do conforto delicioso da minha cama. Meu sono estava ainda mais acentuado pela quantidade de álcool ingerido na noite anterior, em que eu fora a uma festa com Ray. Eu estava decidido a dormir pelo resto da manhã, mas fui vencido pelos gritos do meu irmão. Levantei-me, fui ao banheiro, tomei um banho rápido, já que estava atrasado, me vesti e tentei me maquiar. Por que tentei? Por que a porra do meu lápis tava sem ponta e muito pequeno para eu conseguir apontar.

- MIKEY! – Gritei, saindo do meu quarto e entrando sem permissão no dele. Parei de chofre na porta, com meus olhos arregalados.

Eu decididamente não estava acostumado a ver Frank Iero só de boxers, de quatro, tateando embaixo da cama. E estava menos acostumado ainda a ficar excitado com isso.

- Gerard! – Exclamou ele, meio assustado, pondo-se de pé, completamente sem graça.

E o que eu faço com o volume nas minhas pernas agora?

- Meu irmão tá por aqui? – Perguntei, tentando ignorar tanto o volume quanto o causador dele. Vasculhei o quarto com os olhos. Onde tá a praga do Mikey quando eu preciso dele?

- Ele já desceu – Respondeu ele, vermelho feito um pimentão.

- Droga. – Murmurei, me virando para sair.

- Posso ajudar? – Ouvi a voz de Frank, ele parecia meio inseguro.

- Depende – Girei o corpo, voltando a encará-lo, puta merda, vai morder o lábio assim no inferno – Tem lápis de olho?

Me toquei naquela hora que Frank também se maquiava. Era comum ver seus olhos contornados por uma grossa camada preta.

- Tenho – Ele riu e se inclinou sobre a escrivaninha do meu irmão, procurando o lápis. Tá, isso era provocação – Preto, marrom ou prata?

- Preto – Murmurei, me esforçando para me distrair de qualquer pensamento que envolvesse o corpo ainda inclinado na minha frente. Passei as mãos pelos meus cabelos e olhei para o teto, tentando registrar o fato de que os hematomas dele estavam desaparecendo com incrível rapidez.

- Pronto – Frank pegou o lápis e me entregou. Puta que pariu o que tava acontecendo comigo? Por que eu comecei a me sentir... estranho quando ele encostava em mim? Caralho, eu não sou gay!

- Eu devolvo daqui a pouco – Falei, girando o corpo novamente para sair do quarto. Pude ouvir apenas um fraco “ok” antes de me virar totalmente e trombar com o meu irmão.

- Porra Gerard! Quer olhar por onde anda?

- Foi mal – Disse, enquanto me levantava e estendia a mão para ele, ajudando-o a se levantar também – Me distrai.

Mikey riu e depois arregalou os olhos.

- A essa hora? Tava sonhando com quem Gee?

Olhei confuso para ele, e percebi que Mikey olhava para o meu “volume”. Corei furiosamente e percebi Frank fazendo o mesmo. Será que ele desconfiava que...?

- Ah, foi – Respondi, rindo sem graça e saindo rapidamente do quarto – Muitos filmes pornôs ontem à noite.

Ouvi a risada alta de Mikey e me tranquei no meu quarto. Ok, o que diabos estava acontecendo comigo? Eu não gostava de garotos, eu nunca me senti atraído por nenhum garoto, eu jamais quis tocar em algum garoto além do necessário. Mas Frank não era qualquer garoto.

Arranquei a calça que eu tinha acabado de colocar e me enfiei embaixo do chuveiro novamente. Um banho gelado sempre resolve. Se bem que tava frio pra raio, e eu lá, congelando. Sai do box, me vesti novamente, contente ao me ver livre daquele “problema”. Penteei meus cabelos rapidamente e finalmente pude me maquiar.

- Gee, a gente tá super atrasado – Meu irmão já entrou no meu quarto falando – Você já tá pronto?

- To – Murmurei enquanto enfiava meu tênis de qualquer jeito – Vamos logo.

Nós descemos as escadas praticamente correndo. Droga, acabei de me lembrar que eu tinha prova no segundo tempo. Comecei a praguejar, socando meus braços nos buracos do casaco.

- Frank, Mikey, no carro, já! – Gritei, indo até a garagem e entrando no carro. Logo os outros dois também entraram.

- Droga, eu tenho uma prova daqui a pouco – Grasnei, irritado com o trânsito lento. Olhei o relógio, e qualquer esperança de conseguir entrar no primeiro tempo desapareceu da minha mente.

- Calma Gee – Disse Mikey, que tinha lembrado de apanhar minha mochila enquanto eu descia as escadas – A gente vai chegar, relaxa.

Eu dirigia como um louco, sem me importar com sinais e faixas de pedestres. Minha cabeça parecia a ponto de explodir, e minha garganta ardia por causa da ressaca.

Quando chegamos na escola, conclui que de nada adiantara o meu esforço para chegar rápido. A prova já tinha começado e o meu querido professor não me deixou entrar.

- MERDA! – Gritei, girando o corpo várias vezes no mesmo lugar, tentando extravasar minha raiva. A prova de álgebra era muito importante, e seria quase impossível recuperar a nota.

- Hey, calma Gerard – Murmurou Frank, hesitando um pouco, mas tocando meu ombro levemente.

- É a prova cara! – Rangi os dentes, me aproximando involuntariamente dele. Desde aquele abraço, eu sentia uma certa vontade de tocá-lo mais vezes. De sentir aquele cheiro maravilhoso. – Eu nunca vou conseguir recuperar a nota, eu vou repetir o ano e meus pais vão me matar!

- Calma mano – Mikey passou as mãos delicadamente pelos meus cabelos, me fazendo fechar os olhos, que queimavam, por que eu estava com vontade de chorar. — Foram só cinco minutos de atraso, talvez ele deixe você fazer a prova em outro dia.

- Droga, droga, droga! – Repeti várias vezes, um pouco trêmulo e irritado. O que eu iria fazer se não conseguisse fazer a prova? Repetir o ano definitivamente não estava nos meus planos! Antes que eu percebesse, as lágrimas já escorriam pelo meu rosto.

- Acho melhor você ir para casa – Disse Mikey, suspirando – Eu iria contigo, mas tenho um trabalho para apresentar na terceira aula e...

- Eu vou com ele – Murmurou Frank, erguendo os olhos para Mikey com uma expressão determinada – Não tenho nada para hoje.

Meu irmão mordeu o lábio, parecendo confuso. Olhou para mim.

- Tudo bem Gee?

Dei de ombros e aquiesci. Se estava mesmo tudo bem para mim? Não. Eu não queria ficar sozinho com Frank, simplesmente por que tinha medo do que poderia acontecer.

Mikey se despediu de nós e disse que assim que fosse liberado iria logo para casa. Fingi não perceber o pedido quase silencioso dele para Frank. Cuide bem dele, por favor.

Fizemos o percurso para casa em silêncio. Eu não tinha vontade de falar, ainda estava pensando na maldita prova e minha cabeça doía muito, por causa da droga de ressaca.

- Você quer alguma coisa? – Perguntou Frank, enquanto eu estacionava na garagem. – Não tomou café não é? Quer que eu prepare alguma coisa?

Virei o rosto para encará-lo. Seus olhos amendoados demonstravam preocupação.

- Eu estou bem – Murmurei, encostando a cabeça ao volante – Obrigado por ter vindo Frank. Não precisava.

Pude ouvir um suspiro baixo e senti suas mãos brincando com o meu cabelo. Relaxei sob os carinhos, de certo modo, me fez sentir melhor.

- Vamos subir – Ele disse depois de um tempo – Acho que você precisa dormir.

É verdade, nessa hora eu realmente estava quase pegando no sono. Saímos da garagem e subimos direto para o meu quarto. Frank observou da porta eu arrancar meu casaco e me jogar na minha cama. Fechei os olhos e senti o edredom ser jogado em cima de mim.

- Tenta descansar – Frank sussurrou, perto do meu ouvido. Eu estremeci sem disfarces. – Vou estar lá embaixo, se você precisar de alguma coisa.

- Ok — Sussurrei de volta, e então seus lábios fizeram uma leve pressão na minha testa, e em seguida eu estava sozinho.

Esse garoto vai me enlouquecer, eu juro que vai.

- Frank? – Chamei, tentando estabilizar meu conflito interno. Parte de mim queria que ele não me ouvisse, e a outra parte clamava por ele voltar.

- Hum? – Ouvi seus passos retrocederem e me afundei um pouco mais no travesseiro.

- Fica aqui comigo – Pedi baixinho.

- Você não está se sentindo bem? – Sua voz agora estava mais próxima, como se ele estivesse debruçado sobre mim. Eu ainda não conseguia abrir os olhos.

- Só fica aqui comigo.

A hesitação dele foi breve. Não demorei muito para sentir o outro lado da cama afundar, mas não senti seu toque. Decepcionado, me virei para ele, abrindo os olhos finalmente.

- Você tá mesmo legal, Gerard? – Perguntou ele, e pude ver a confusão em seu olhar.

- To sim – Sussurrei, me aproximando mais dele na cama. Eu só queria um abraço, não deveria ser tão difícil.

Frank piscou, parecendo atordoado por alguns instantes. Depois se cobriu com o edredom também e se aproximou mais um pouco.

- Quer que eu te abrace? – Murmurou ele, encarando-me.

- Quero. – Foi só o que eu respondi, sem medo de ser rejeitado. Frank mordeu os lábios por alguns segundos, deu de ombros e finalmente me envolveu com seus braços, deixando-me apoiar minha cabeça no seu ombro.

Eu estava extremamente confortável, mas também estava com medo. Por que medo? Por que eu to confuso demais, não sei mais nada sobre os meus malditos sentimentos. E, ah, por favor, ele é tão quente, tão cheiroso, tão...!

Mas que droga, eu não sou gay!

Isso deve ser normal, sei lá. Aposto que existe milhares de garotos-homens que gostam do perfume e da temperatura do corpo dos seus amigos, se é que minha relação com Frank pode ser chamada de amizade.

E decididamente eu não precisava lembrar que ele já tinha me feito ficar excitado duas vezes. Isso também deve ser normal.

Não queria pensar na aposta, não agora, quando eu estava, mais uma vez, sendo reconfortado por ele. Eu não queria ter que magoá-lo mais, tudo o que queria era ser amigo dele. Mas quando Bob cisma com uma coisa, ele não descansa até ter o que quer.

- Obrigado – Eu disse a Frank, antes de mergulhar na inconsciência, fugindo dos meus conflitos interiores, como sempre.