Elena

Uma coisa sobre a escola: Eu a odeio.

Os professores são chatos, a maioria dos alunos são irritantes e a comida da cantina é uma droga.

O que se salva? Damon Salvatore, meu melhor amigo... E talvez seu irmão mais novo: Stefan Salvatore.

Pelo qual eu tinha uma queda desde sempre. E que observava neste momento, em minha aula de inglês, seus cabelos dourados se moverem com a força do vento que vinha das janelas, e pensando em como fazê-lo — ele, a pessoa, não o cabelo — me notar.

Eu sei. Patético.

Mais patético que isso, só o fato de meu melhor — e único — amigo, ser dois anos mais velho que eu e já ter transado com mais da metade das garotas da escola, enquanto eu estava aqui, virgem, solteira e fantasiando várias formas de arrancar as roupas de seu irmão — que tem a minha idade, — com os dentes.

-Srtª Gilbert — minha professora chamou, — não está gostando da aula?

Eu sorri para ela e me senti meio tímida quando os olhares dos alunos se prenderam em mim.

— Estou sim, Srª Stevens.

— Então porque não presta atenção?

Maldito Stefan e seu cabelo bonito.

— Estou prestando atenção — me defendi.

— Não, você não está — ela insistiu, — porque se estivesse, saberia que está na sua vez de ler o que escreveu.

Do que ela estava falando?

— O texto! — me lembrei.

Em voz alta, porque agora os alunos riam de mim.

A Srª Stevens riu.

— Sim, Gilbert, "O texto!" — ela imitou meu tom, arrancando mais risadinhas dos alunos. — Fez o seu?

— Acho que sim — murmurei envergonhada.

— Então leia.

Revirei um pouco meus cadernos antes de olhar novamente para a professora.

— Não é uma boa ideia — falei.

Ela suspirou e se sentou atrás de sua mesa branca.

— Porque não?

— Porque ele não está bom.

Ela se ajeitou na cadeira e me encarou.

— Leia.

— Mas...

— Agora!

— Tá! Não precisa ser grossa — reclamei. — Vou ler, mas não diga que eu não avisei.

Coloquei na página onde eu havia rabiscado o texto na noite passada.

— O nome do meu texto é "Sonho", e ele tá uma droga — avisei.

— Leia, Elena — a professora mandou.

Respirei fundo e fiz o que ela pediu:

— "Ontem a noite eu o vi — li. — Não pude ver seu rosto, não realmente, mas pude perceber o quanto era bonito. O olhei e ele provavelmente sorriu para mim, mas eu não tinha como ter certeza. Nos aproximamos um do outro e ele pegou minha mão, a acariciou levemente e me puxou para uma dança. No meio da dança lhe toquei no rosto, aquele rosto envolvido por sombras, e ele beijou minha mão. Docemente. Apaixonadamente. Quando o toquei naquele momento, tive certeza de que era ele, aquilo que chamamos de metade. É, a minha metade. Eu não podia falar, minha voz simplesmente não queria sair, mas ele entendia, apenas com um olhar, tudo o que eu não poderia dizer. E eu precisava daquilo, de um momento com ele, apenas um momento para ter a resposta de todas as minhas perguntas... De repente meus olhos abriram, meus lábios sorriram, meus olhos choraram e eu não sabia o que fazer. Talvez voltar a dormir e ter meu sonho perfeito de volta, porque eu realmente esperava que fizesse parte da minha realidade". Fim — anunciei. — Viu? Uma merda, posso sentar, agora?

Srª Stevens me encarou como se eu fosse doida.

— Eu gostei do seu texto, Elena. Bastante romântico. E bonito. Não entendo porque não gostou.

— É meloso e estúpido — respondi.

Ela fez "Tisk tisk" com a boca e me encarou.

— Me responda uma pergunta, e talvez eu te dê um A+.

Isso me empolgou.

— Manda.

Ela sorriu.

— Porque a garota não conseguia ver o rosto do garoto do sonho?

Sorri. Essa era fácil.

— Porque — respondi, — ele deveria ser perfeito, e a perfeição está a nosso critério. Ela teria que imaginá-lo.

— Então o seu texto se trata da forma como cada um imaginamos a perfeição?

Encarei ela.

— Não — falei. — Eu disse que ela pode imaginar, mas no final do dia, o que resta é o mistério. É disso que se trata o texto: Do mistério.

Ela colocou as mãos sob o queixo, interessada.

— Explique — pediu.

Terra? Pode me engolir, porfavor?

— No final do dia — falei baixo, — ele pode ser qualquer um.

Ela sorriu.

— Parabéns, Gilbert. Tirou um A+.

Os alunos bateram palmas e eu me vi ficando vermelha.

Logo em seguida o sinal bateu.

Deus? Oi? Isso é algum tipo de castigo de outra vida? Porque o sinal não bateu antes de eu ler essa porcaria?

Arrumei minhas coisas e me levantei.

A metade dos alunos mais afoitos já haviam corrido porta afora.

Fiquei olhando Stefan que estava pelo menos umas três cadeiras a minha frente.

Ele era tudo o que o irmão dele não era: Contido, romântico... Perfeito. Ele não era irritante, sarcástico, não transava com todas as garotas da escola e não fazia bricadeirinhas nas horas erradas.

Stefan me pegou o olhando e sorriu para mim.

Não morra, Elena. Não morra.

— Oi — falei acenando para ele.

Ele ampliou seu sorriso e saiu da sala.

Será que eu pareci desesperada?

Ah, Deus, pensei, tenho que parar com isso.

Saí da sala logo em seguida, e dei de cara com Damon me esperando encostado na porta.

— Olá, Hermosa — sussurrou de forma sedutora para mim.

Ele estava bonito como sempre, em suas roupas escuras e jaqueta de couro.

Eu conhecia Damon desde pequena, sua mãe era minha babá, então crescemos praticamente juntos, depois começamos a estudar e nos apoiamos um no outro, melhores amigos desde sempre.

Damon estava no último ano, então suas aulas eram do outro lado da escola, mas mesmo assim, sempre que ele podia, vinha me ver entre as aulas e me acompanhava até minha próxima turma para que podéssemos conversar.

A coisa do "Hermosa" não é porque ele era espanhol ou algo do tipo — na verdade, tenho quase certeza que sua família era italiana, — é que uma vez eu o fiz ler A Mediadora, da Meg Cabot, junto comigo e fiquei comentando o quanto era bonito o Jesse do livro chamando Suzannah de Hermosa — que significa: Bela, formosa, — e ele acabou adotando isso comigo, no começo acho que era para me irritar, mas ele acabou se acostumando...

E eu gosto.

Acho que vou mostrar o "Ma Petit" do Jean-Claude em Anita Blake — Prazeres malditos para ele.

— Olá, Damon — cumprimentei. — Como foi sua aula de algebra?

Ele fez uma careta.

— Uma droga, Elena. E a sua de inglês?

Gemi interiormente e falei:

— A Srª Stevens me fez ler meu texto para a turma.

Ele balançou a cabeça em desaprovação e começamos a andar.

— E você odeia ler o que escreve em voz alta.

— E eu fui a única que teve que ler em voz alta — acrescentei.

Ele riu.

— Acho que a Srª Stevens não gosta muito de você.

Eu sorri.

— Mas ela me deu um A+.

Seu sorriso se ampliou.

— Qual texto você leu? — perguntou.

Eu ri mais alto.

— Boa tentativa — falei. — Não vou te deixar ler.

Ele me olhou com raiva enquanto abria a porta do refeitório no pátio para mim.

— Eu não disse que queria ler.

Passei pela porta aberta e caminhei até nossa mesa.

— Te conheço a mais de 15 anos, você não me engana, Damon.

Ele ficou com mais raiva e passou marchando na minha frente.

Corri um pouco para alcançá-lo e me sentei ao seu lado em cima da mesa.

Sempre fazíamos isso, nos sentávamos na nossa mesa sozinhos, sem comida, sem nada e ficávamos conversando e olhando para os outros alunos enquanto eles lanchavam em baixo do Sol. Nossa mesa, minha e de Damon, era uma das únicas duas mesas que ficavam em baixo da sombra, a nossa de uma árvore e a outra de uma pequena tenda que os alunos mais populares fizeram protesto para ter.

Eu chamo os populares de Barbies e Kens. Então vem a gente, eu e Damon, depois os caras da banda da escola, os skatistas, os Nerds e os rejeitados/drogados.

Sim, nossa escola tem essa estúpida panelinha. Eu estaria lá embaixo da lista se não fosse pelo fato de os irmãos Salvatores serem considerados os caras mais gatos da escola, e eu andar com um deles.

Na quinta série surgiu a teoria de que eu estava namorando Damon, mas então essa teoria foi descartada por Rebekah Mikalson — Barbie Rainha, — quando ela descobriu que eu não era bonita o suficiente para ficar com ele.

Meu dedo médio para isso.

— Damon — falei depois do silêncio mortal que se estendeu entre nós, — você não iria querer ler meus textos.

Ele se recusou a me olhar. E a me responder.

— Eles são melosos, ok? — continuei — Melosos. E estúpidos. E chatos. São uma merda. Você não quer lê-los.

Ele continuou sem me olhar, mas disse:

— Sou o seu melhor amigo. Eu deveria ler.

Encarei ele de boca aberta.

Então esse era o motivo de ele estar com tanta raiva?

— Você parece uma criança — reclamei.

Finalmente ele se virou para mim, parecendo estar muito ofendido.

— Me desculpa — ele disse com raiva, — vou jogar pique-esconde ali, já volto.

Ele se levantou e começou a andar, mas eu o segurei pelo braço.

— Calma, ai, bebezão. Vou ler para você.

Ele sorriu como se estivesse ganhado um carro novo e se sentou ao meu lado.

Abri minha mochila e tirei de dentro dela meu caderninho azul, onde eu escrevia tudo.

O abri em uma folha qualquer e limpei a garganta antes de ler:

— "Ela se sentia perdida. Perdida em seus medos. Perdida em seus pesadelos. Perdida dentro de sua própria vida. Ela passou tanto tempo reprimindo seus sentimentos... Os acorrentando a sete chaves no fundo mais sombrio de sua alma. Ela se sentia vazia... Entorpecida... Solitária. Há um preço a se pagar quando se desiste de seus sentimentos, você para de sentir dor, mas em troca, não sobra... Nada. Então chegou o dia em que tudo que ela queria, tudo que ela ansiava... Tudo que ela precisava era voltar a sentir. Porém quando se guarda sentimentos por tanto tempo, parece que todos morrem, apodrecem dentro daquela pessoa... E tudo o que temos é a dor. Uma dor tão completa e lacinante que a rasga por dentro, dilacerando sua alma e fazendo com que o simples ato de respirar se torne tarefa impossivel. E ela se desmancha em lágrimas... Perdida em sua própria vida... Se afogando em dor. E ninguém pode salvá-la." Pronto. Agora pare de me irritar.

E me sentei ao seu lado.

Damon ficou em silêncio por algum tempo.

— Não vai dizer nada? — perguntei.

Ele me olhou e sorriu.

— Eu gostei — falou.

O encarei com raiva.

— Mentiroso.

— Eu não minto, hermosa — disse. — Mas tenho que perguntar uma coisa.

Lá vem.

— O que?

— De que página da internet tirou isso?

Eu ri e lhe dei um tapa no braço.

— Idiota.

Ele também riu junto comigo e nos viramos para continuar olhando os alunos.

Meus olhos imediatamente se voltou para a mesa em que Stefan normalmente se sentava com seus amigos: Tyler Lockwood, Matt Donavan e Jeremy Gilbert, meu meio irmão.

Stefan estava rindo de alguma coisa, e meu Deus... Ele era tão bonito.

Jennifer Markhan, uma barbie, foi na direção dele e ambos começaram a conversar. Ela riu de algo que ele disse e passou a mão em seu braço torneado.

Vadia! Estava flertando com ele

Jennifer já havia ficado com mais da metade da escola, inclusive com o cara que estava aqui ao meu lado, e agora estava atacando Stefan.

Mas, eu duvido de que ele iria ceder. Stefan pensa com a cabeça de cima, não com a de baixo.

— O que está olhando? — Damon perguntou.

— Jennifer Markhan flertando com seu irmão — respondi sem tirar os olhos da cena.

Ela continuava passando a mão no braço de Stefan e rindo de algo.

Porque ele não dava logo um fora nela?

— Porque — Damon respondeu a pergunta que eu acabei fazendo em voz alta, — ela é bonita e engraçada. Homens gostam disso.

Virei para ele curiosa.

— Você gostava dela?

Ele deu de ombros.

— Gostava.

Arqueei uma sobrancelha para ele.

— Se gostava dela, então porque terminaram?

Ele me lançou um sorriso irônico.

— Eu não gostava dela tanto assim.

Eu ri e o empurrei levemente com meu ombro.

— Claro, porque você nunca gostou de ninguém.

— Exatamente — ele disse.

O olhei irritada.

— Eu estava brincando. Você com certeza já deve ter gostado de alguém.

Ele negou com a cabeça.

— Nunca — disse.

— Vamos lá! — insisti — Você já deve ter se apaixonado por alguém.

Damon apenas sorriu e negou com a cabeça.

— Rebekah Mikalson? — perguntei.

— Boa de cama, mas não.

— Caroline Forbes?

Ele riu.

— Ela fala demais.

— Anna?

— Não.

— Bonnie?

— Não.

— April?

Ele se virou ao meu lado e me encarou por um tempo com uma sobrancelha erguida.

— Está falando sério? — perguntou.

Assenti.

Damon arqueou mais a sobrancelha.

— Está me perguntando — disse de forma irônica, — se eu me apaixonei pela garota que tentou me esfaquear quando terminei com ela?

Ri alto com a lembrança.

— Ok — me rendi, — pergunta estúpida.

Virei meu corpo para que ficasse de frente para Damon e o encarei.

— Você deve ter se apaixonado por alguém — insisti, — no mínimo gostado. Não se namora cinco garotas por semana sem gostar de pelo menos uma.

Ele suspirou e se deitou na mesa em que nos sentávamos.

— Não sou como você, Elena.

— O que quer dizer com isso?

Damon deu de ombros.

— Nada — respondeu, — é só que... Sei lá. Você se deixa levar muito pelas emoções. E eu sou mais pela diversão.

— Não é verdade! — me defendi — Eu também nunca me apaixonei, então isso não tem nada a ver.

Ele riu alto abaixo de mim.

— Isso, porque — ele disse, — você ainda está esperando um princípe encantado aparecer e roubar seu coração. Adimita.

— Não precisa ser um principe — sussurrei.

Ele riu mais alto.

— E esse é o porque de você — ele explicou, — assim como eu, nunca se apaixonar. Provavelmente iremos ficar sozinhos pelo resto da vida. Você e seus setenta gatos e eu e meu videogame... Não seria tão ruim.

Fiquei com raiva e o estapeei com força.

Damon soltou um sonoro "Ai!", que eu ignorei.

— Posso me apaixonar na hora que eu quiser — garanti, — por quem eu quiser. Você é que vai morrer sozinho com a porra do seu videogame.

Isso fez com que Damon voltasse a ficar sentado.

— Se eu quisesse me apaixonar por alguém — ele retrucou, — eu me apaixonaria, ok? Porque eu posso ficar com a garota que eu quiser. Agora você? Eu duvido muito.

Me levantei e estufei meu peito.

— Duvida que eu consiga o cara que eu quiser, ou que eu possa me apaixonar por ele?

— Os dois.

Enfiei um dedo no peito dele.

— Eu consigo os dois. Você é que não consegue.

Ele se levantou.

— Quer apostar?

— Ah, eu quero sim!

Estávamos um de frente para o outro.

— Ok, então — disse.

E se sentou novamente.

— Espera! — falei — Tá apostado o que?

— Que eu e você conseguimos nos apaixonar por quem a gente quiser na hora que a gente quiser.

Eu ri.

— E como faremos isso?

Ele deu de ombros, mas pareceu estar pensando.

— Cada um vamos dar o nome de uma pessoa — ele disse, — e então conquistar ela.

Eu sorri.

— E não podemos ficar com niguém mais — falei, — só com essa pessoa. Isso valhe para você.

Damon me deu língua.

— Consigo ser fiel, ok?

Ri com isso, mas não disse nada.

— E se conquistarmos "a pessoa" — fiz aspas com os dedos, — temos que fazer de tudo para continuar com ela. Sem desistir e partir para outra.

Ele assentiu.

— Qual o limite de tempo? — perguntou.

Parei para pensar um pouco.

— Até o baile — respondi, — daqui um mês.

— Então daqui um mês temos que levar ao baile "a pessoa"?

— É.

Ele me encarou e arqueou a sobrancelha.

— E como vou saber que você vai estar apaixonada pela sua "pessoa"?

Parei para pensar novamente.

— Vamos ter que confiar um no outro — respondi por fim. — E eu acho que dá pra perceber essas coisas.

Me sentei novamente ao lado dele.

— E ganha quem entrar no baile primeiro — ele disse, — para não ter dois ganhadores, nem nada.

— Ok — concordei, — e o que acontece com o perdedor?

Ele olhou para um ponto invisível por um tempo, e então sorriu sombriamente.

— Se você perder — ele disse, — terá que cortar o cabelo. E pintar de verde.

— Cortar??!! — Berrei.

Ele riu.

— Sim.

— De que tamanho?! — perguntei ainda alto.

Seu sorriso sombrio cresceu mais.

— Eu mesmo irei cortar, e você terá que ficar com o cabelo picotado e verde por um mês inteiro.

— DE JEITO NENHUM!

Damon se dobrou de rir.

— Tá com medo de perder? — brincou.

Olhei ofendida para ele.

— Se eu tenho que fazer isso — falei com raiva, — você tem que raspar metade da cabeça, pintar o que sobrar do cabelo de rosa e fazer uma tatuagem com o meu nome.

— Só se você também fizer a tatuagem com meu nome se perder.

— Aceito.

Então cuspi na mão e esperei pela mão dele.

Eu não iria parar para pensar novamente, porque se eu pensasse, provavelmente desistiria da aposta.

Damon cuspiu na própria mão e apertou a minha.

Que comece o jogo.