A Alma de Agome
5 A partida
Notas iniciais
Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer
Bob Marley
“Difícil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama.
Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer”
Bob Marley
Quando eu acordei já era noite e só o Inuyasha estava ao meu lado. Minha mãe devia ter ido pra casa para cuidar do Souta. Minhas entranhas ainda doíam lembrando a flecha a pouco arrancada de lá, mas estavam bem melhor...
O silêncio reinava e o único barulho que eu ouvia era minha respiração e a do Inuyasha. A mim acelerada e a dele calma. Enquanto via-o dormir, sentia uma paz tão grande que não queria que aquele momento acabasse nunca. Eu podia ver as olheiras arroxeadas em torno dos seus olhos e me pesou ver seu sofrimento para ficar ao meu lado. Apesar de tudo, eu sorri porque ele estava ao meu lado. Só isso me bastava.
Ele estava deitado numa cadeira ao lado da cama e com a cabeça apoiada no meu colchão. Ele deveria estar exausto.
Minhas mãos tremiam quando acariciei seus cabelos prateados. Pousei minha mão sobre a dele e adormeci.
No dia seguinte, o médico me deu alta, dizendo que não tinha mais porque eu ficar lá no hospital se eu já estava me sentindo melhor. Apenas recomendou que eu não fizesse movimentos bruscos para que os pontos não abrissem e que daqui uma semana eu teria que voltar para retirá-los.
Já em casa, fui recebida por minhas amigas.
__ Agome! O que aconteceu na festa pra você sair correndo daquele jeito? O Houjo, coitado, ficou arrasado e o “Sr. Robbin Hood” ficou procurando o arco e as flechas dele e as encontrou sujas de sangue no jardim!—disse Eri.
__ É Agome! Quase ligamos pra a polícia pensando que você tinha sido seqüestrada... —completou Ayume.
Suspirei. O dia ia ser longo.
Inventei que tinha me machucado com a flecha e que tinha saído correndo procurando ajuda. Afinal, tinha que explicar o buraco em minha barriga.
Inuyasha estava na sala ao lado sem que elas soubessem e ouvia tudo o que dizíamos.
__ Espere ai Agome!—disse Yuka impressionada como se tivesse ligado os pontos.—Não me diga que você tentou se matar por causa daquele inútil do seu namorado! Eu sei que você estava mal por causa dele, mas não é motivo...
__Não!—olhei em direção da sala em que ele estava e respirei fundo. – Foi um acidente. Eu... Eu adoro flechas e estava brincando de atirar. Estava correndo com elas nas mãos quando eu escorreguei e... Me machuquei. Foi isso. —eu era péssima para contar mentiras, mas elas pareceram acreditar porque apenas disseram: Cuidado da próxima vez. Ficamos preocupadas.
Quando elas saíram, Inuyasha apareceu e me perguntou do porque que eu tinha pegado as flechas.
__Um homem, com um fragmento do braço direito apareceu. Tinha que me livrar dele sozinha.
__ Porque não me chamou?
Olhei para ele tipo: “Mas como é cínico!”, mas limitei a dizer: Não precisou. E além do mais, você devia estar muito ocupado naquele momento.
Acho que ele percebeu e mudou de assunto.
__ E o fragmento? Conseguiu?
__ Estão todos aqui. – Mostrei o vidrinho cheio de fragmentos.
Houve um segundo de silêncio e eu disse:
__ Eu preciso te contar uma coisa. Não sei se você vai acreditar em mim, mas é a mais pura verdade. Eu odeio mentir para você Inuyasha.
__Mas antes, eu queria te agradecer por... Por ter cuidado de mim esse tempo todo. Obrigada mesmo, Inuyasha.
__ Não precisava agradecer, mas o que houve Agome? O que quer me contar?
__Aquela flecha. Foi a Kikyou quem atirou em mim, Inuyasha. – declarei.
Ele ficou quieto por uns instantes e então começou a rir.
__ Está rindo de que?—perguntei á ele e tentando lembrar se eu tinha falado alguma coisa engraçada.
Ele ficou sério de uma hora para outra.
__O que te levou a pensar que eu ia acreditar em você?
__ Como? – indaguei incrédula. –A flecha. Você mesmo sentiu o cheiro dela!
__ Naquela noite, ela ficou comigo o tempo todo. Ela não tinha nem tempo, nem porque tentar te matar. – disse ele como se estivesse me contando algo que eu não sabia.
__Você sabe muito bem que a alma dela pertence á mim. É isso que ela quer! – eu gritei para ele incrédula.
Num movimento súbito, ele me empurrou até a parede e colocou os braços ao meu redor, me prendendo entre ele e a parede.
__Ela me avisou que você tentaria fazer minha cabeça contra ela. Mas para o seu governo nós estamos juntos agora. Como nunca estivemos antes! E nada, NADA, vai nos atrapalhar entendeu? – ele me disse rudemente. Eu tive medo. Eu nunca tinha sentido medo dele, nem mesmo quando ele se transformava, mas agora era diferente.
Meus olhos ficaram encharcados e eu disse quase num sussurro: Você pode acreditar no que quiser. Não estou te obrigando a nada! Eu só achei que...
__ Você não tem que achar nada! – ele nunca tinha falado assim comigo... – Ele suspirou e perdeu o ar rude que ele tinha, e por um instante, vislumbrei o antigo Inuyasha. –Me desculpe, Agome. Não devia ter falado assim com você...
Abaixei minha cabeça e logo depois encarei seus lindos olhos, agora tão contaminados pelo ódio e desespero.
__ Me solte!—disse decidida.
Ele retirou os braços em torno de mim, permitindo que eu saísse. Fui até a cozinha, abri uma gaveta e de lá tirei uma tesoura. Voltei para a sala e encontrei um Inuyasha diferente, rude e distante. Este nem se comparava ao homem que eu tanto amava e que estava presente segundos atrás.
Cheguei perto dele com a tesoura. Ele se encolheu como se eu fosse tentar matá-lo.
__ Eu não vou te matar! – parei um pouco e continuei – Eu vou te dar coisa melhor que um conselho. Eu vou te dar a liberdade de escolha, começando agora.
Com a tesoura cortei o colar que o prendia a mim. Ele estava livre agora. Eu não poderia mandar nele. Ele não esperava essa reação minha. Mas eu não parei. Tirei o meu colar onde guardávamos os fragmentos.
__ Aqui está. – estendi o vidrinho lotado de fragmentos
__ Se você me entregar isso, não poderá mais voltar àquela Era.- anunciou ele
__ Sei disso e peço desculpas por não poder mais te ajudar a encontrar os fragmentos...
__ Eu não preciso mais de você. Mas mesmo assim, nesta atitude você mostra o quanto vale sua palavra.
__ Não se trata da minha palavra. Trata-se de desistência. Cansei de tentar ficar ao seu lado. Sua presença só me faz mal agora. —falei por fim
__ Mal? Fui eu que sempre te salvei, te ajudei e é assim que me retribui?
__ Esse é o seu problema Inuyasha. Você só se lembra do que você fez. As coisas que fazem por você parecem não ter importância. —eu já estava chorando novamente – Eu te dei tudo o que eu sou e a única coisa que você fala pra mim é que não cumpro minhas promessas, que eu deveria ajoelhar aos teus pés para agradecer todas as vezes que você me salvou... Tudo o que fiz até hoje, desde o dia em que te conheci, foi em função de você. E sim, eu sei que devo te agradecer por todas as vezes que você me salvou, e sinto que devo começar falando verdade, mas pelo visto foi um erro. Eu te amo o suficiente para deixá-lo partir! Eu sei dos planos da Kikyou. Ela não é Kikyou que você amou há 50 anos...
__ Você não sabe de nada!—esbravejou ele – Kikyou nunca mentiria para mim! Ela me ama e eu a amo, como nunca amei, nem vou amar outra pessoa... Ela é exatamente igual ao que era há 50 anos, doce, amorosa, carinhosa... Algo que você talvez nem saiba o que é.
__ Você não sabe o que falando... Quando você me diz isso, vejo que a única coisa que eu tenho certeza é que você realmente não me conhece! Mas eu vou te dizer mais uma coisa... à cada escolha que fazemos, decepcionamos alguém, mas temos que ter o cuidado de não decepcionar as pessoas erradas.
__Obrigado pela dica, mas... Eu preciso saber de mais uma coisa. Considera-se uma pessoa tão forte, mas na primeira oportunidade desistiu.
__'Não gosto de desistir. Sempre considerei a desistência uma fraqueza. Hoje repenso e vejo que insistir demais é ser estúpido e não fraco’ Ser fraco é persistir no erro, quando a verdade está na frente dos seus olhos e você não se digna a apenas abri-los e tentar enxergar. Ser fraco é não prestar atenção nas dicas que o mundo te oferece e se prender no próprio mundo, no que considera verdade, no que é mais cômodo para você.
__ Eu não preciso mais ouvir os conselhos de uma garotinha que não controla as próprias lágrimas e ainda tenta dar conselhos quando quem mais precisa de um é ela mesma. Você não pertence àquela Era e não tem que se meter na vida dos outros.
Ele se virou e se foi. Da porta, eu o observava ir embora, meu amor por ele escorria pelos dedos como areia e aos poucos ia se transformando em ódio. Eu não poderia mais fazer nada além de cuidar da minha vida e tentar ser feliz, eu sabia que a Kikyou daria um jeito de roubar minha alma e eu não tinha medo dela. Por mais que ela levasse minha alma, não poderia me tirar as lembranças, os amigos, a família e muito menos poderia roubar meu coração.
Enquanto ele ia eu gritei:
__Ela também não pertence mais a este mundo!—mas ele já tinha ido.
“Sorri, vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz”
Notas finais
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