A Última Chance

7 Capítulo 7 - Riscos


Notas iniciais
Só tenho a agradecer por todos os comentários maravilhosos que tenho recebido, realmente não esperava um apoio tão significativo. Muito obrigada, e espero que continuem lendo e me dando essa chance de fazer o que eu amo, que é escrever. Vocês são incríveis.

Annie. Charlie gostava de como o nome soava. Era simples, mas ao mesmo tempo delicado e bonito. Pensava nisso enquanto voltava para o próprio quarto. Tinha de pegar alguns livros, já que teria de comparecer a uma aula de História de Iléa naquela tarde.


— Alguém pode me dizer quem foi o fundador do país? — perguntou Lucius.

Charlie ficou tão animado por, depois de 28 perguntas, saber alguma resposta que levantou a mão um pouco rápido demais.

— Sim? — Lucius o encarou por um momento. Por que Charlie tinha a sensação de que o olhar do homem era sempre mais frio ao olhar para ele?

— Gregory Iléa.

— Finalmente. Como era chamada Iléa depois da Quarta Guerra Mundial?

Jasper levantou a mão primeiro, como nas últimas vinte vezes.

— Estado Americano da China.

Lucius sorriu.

— Certo mais uma vez, sr. Jasper.

Jasper abriu um leve sorriso satisfeito.

— Isso é tudo por hoje — Lucius encerrou a aula, levantando-se. — Não vou passar nenhum tipo de tarefa, embora alguns de vocês devessem considerar algumas boas noites de estudo. Não acha, sr. Charles?

Charlie respirou fundo.

— Claro... Estudo é sempre bom... Hm...

— Dispensados. — Lucius saiu da sala.

Michael encarou Charlie por um minuto e comentou com ele quando deixaram o salão:

— Não acho que Lucius goste muito de você.

— Felizmente — Charlie falou isso alto ao passar por Lucius. —, não é a ele que eu tenho de agradar. Quanto tempo temos até a próxima aula de História?

— Uma hora.

— Acho que vou dormir um pouco.

Michael ergueu uma sobrancelha.

— Talvez você não devesse tirar esse tempo para... Sabe, estudar?

— Essa é uma boa ideia também — ele sorriu. — Você deveria definitivamente fazê-lo. — e bocejou um pouco. — Boa noite.

Michael suspirou e observou Charlie desaparecer pelas escadas que levavam aos dormitórios. Ele estava andando pelo castelo quando deparou-se com a Princesa. Depois do fora que levara mais cedo, não ia cumprimentá-la.

Mas ela o fez.

— Michael! — chamou-o, fitando o rapaz por um minuto.

— Alteza?

— Eu gostaria de desculpar-me pela forma como agi mais cedo... — ela abriu um leve sorriso. — Não estava tendo um dia exatamente agradável.

— Não foi nada, senhorita.

Ela sorriu.

— Você não precisa mentir só porque eu sou a Princesa, sabe.

— Eu...

— Sim?

— Seus olhos são tão bonitos. Eles me lembram daquele poema... — Michael parou de falar, enrubescendo um pouco. — Esqueça, a senhorita provavelmente tem mais o que fazer.

— Certamente não — ela sorriu e o puxou pelo pulso. — Sempre há tempo para poesia.

Eles se sentaram perto do jardim. Ao longe, Annie podia ouvir música. Não a reconheceu, mas sabia que era Charlie. Ele não podia ouvi-los, mas ela podia ouvi-lo.

— Era algo como... — Michael suspirou, tentando lembrar-se. — "E todo dia o céu recolhe suas lágrimas / Para seus próprios olhos azuis tão claros e profundos / E chuviscando a glória do dia luminoso e leve / Sorri na testa esgotada da terra para ganhá-la se ela quiser."

— Alfred Tennyson — ela respirou fundo, apreciando. — "The Tears of Heaven".

Michael se surpreendeu.

— Exatamente!

Eles ficaram em silêncio por um momento. Michael afastou os cabelos escuros do rosto, sem ideia de o que dizer.

— "Não há silêncio na Terra — tão silenciosa / Como o que suportou / Que proferiu, que desencorajaria a Natureza / E assombraria o mundo" — citou Michael. — Emily Dickinson.

* * *

Annie passou mais algum tempo conversando com Michael. Eles quase não usavam palavras da própria autoria, respondiam um ao outro quase inteiramente com trechos de poemas. Depois de alguns minutos, Michael desculpou-se e pediu licença, pois ainda tinha mais uma aula de História. Depois que o garoto se retirou, a música no jardim mudou. Annie reconheceu a canção que associava a Charlie, Lágrimas de Ouro.

Ela riu um pouco sozinha e se encaminhou para alguma reunião econômica.

* * *

Depois da aula, os Selecionados estavam sentados no Salão de Jogos.

— Alguém viu o Brad por aí? — indagou Jasper.

— Ele está com a Princesa — respondeu Charlie, que estava jogado em um pufe amarelo afinando seu violão que já estava perfeitamente afinado há pelo menos meia hora. — Um piquenique.

E aquele era o motivo pelo o qual Charlie não estava no jardim. Ele não queria que Annie pensasse que ele a estava perseguindo ou algo assim, então achou melhor apenas ficar quieto enquanto fingia que sabia alguma coisa sobre sinuca.

* * *

— Está escurecendo — notou Annie, que estava sentada em uma toalha no gramado com Brad, comendo uma maçã. — Mas não há estrelas.

— Elas devem ter percebido o quanto estavam sendo humilhadas pelo brilho dos seus olhos e foram se esconder — ele sorriu para ela, singelo.

Brad era um daqueles rapazes obviamente bonitos, o tipo de beleza que você veria na capa de uma revista adolescente ou em uma propaganda de perfume importado. Seu cabelo cor de areia levemente cacheado contrastava com os olhos bonitos, que a fitavam com uma admiração confiante. Ele não relutava em olhar para ela, elogiá-la... O que ele achava ser uma vantagem em relação a quase todos os outros Selecionados, que morriam de medo de falar com a Princesa.

— "Deixa aqueles cuja sorte brilha nas estrelas / Gabarem-se das públicas e nobres honrarias, / Enquanto eu, impedido de tal fortuna, / Não procurei a alegria naquilo que mais prezava." — recitou a Princesa.

Brad apenas ficou olhando para ela por um minuto.

— Não reconheceu? — surpreendeu-se a moça, lembrando que Brad dissera que era um grande fã de poesia.

— Um soneto de Shakespeare.

— O vigésimo quinto, para ser exata.

O rapaz sorriu.

— Você fica linda recitando poesia.

— Bem, obrigada.

* * *

Charlie estava lendo um livro aleatório que encontrou em sua estante quando ouviu batidas na janela. Estava sozinho no quarto. Lentamente, caminhou até o vidro e o abriu. Colocou a cabeça para fora, lembrando-se de que a janela era relativamente alta. Por um instante nada viu, mas quando a desconfiança começou a atingi-lo, uma voz conhecida disse de algum lugar à sua direita:

— Psiu! Charlie!

Zack estava pendurado na janela ao lado. Esgueirou-se rapidamente para a janela de Charlie e pulou para dentro do quarto.

— Zack, o que diabos...? — Charlie parou de falar para respirar fundo e começar de novo. — Você estava entediado e pensou "Ei, que tal eu me pendurar nas janelas e ir dar uma volta pelo lado de fora do castelo LITERALMENTE"?!

— Qual é. Está todo mundo tentando espiar o encontro do Brad e da Princesa.

— Eles ainda estão lá?

— Era o que eu estava querendo descobrir, mas Lucius estava andando ali por baixo e quase me pegou... Valeu por abrir a janela, falando nisso.

— Hã, não foi nada.

Houve um silêncio pacífico por alguns segundos antes de Zack encarar o outro rapaz:

— Você não vai perguntar?

Charlie, que estava concentrado em seu livro, não olhou para Zack.

— Perguntar o quê?

— Perguntar o que eu descobri com a minha pequena viagem, oras!

Charlie não ligava muito, mas sabia que Zack não sossegaria até contar tudo em detalhes, então cedeu.

— Na verdade, não descobri muita coisa — o ruivo admitiu. — Brad parecia muito gentil, e a Princesa sorriu algumas vezes. Eles pareciam confortáveis. Afinal, por que você não parece dar a mínima?

Charlie enrubesceu. Era idiotice que se sentisse um pouco confiante, mas se sentia. E fora sincero com a Princesa quando dissera que os triunfos dos outros Selecionados não eram da conta dele.

Certo, era muita idiotice sentir-se confiante. Jasper a levara para andar a cavalo, Brad fizera um piquenique. Tudo o que Charlie tinha eram conversas ocasionais e uma aula de violão onde ele conseguira ensinar a ela um único acorde.

Mas de alguma forma, ele sentia que estava criando alguma coisa. Não estava fazendo a Princesa apaixonar-se por ele, mas estava criando uma conexão com ela. Uma conexão da qual ele gostava. Uma conexão que ele esperava fazer a diferença em meio a passeios a cavalo e piqueniques.

Era um risco alto, mas ele tinha de tentar.

Naquele momento, ele não queria ser rei. Não queria ser o favorito da Princesa. Não estava pensando em nada grande, apenas um desejo tomava sua mente: ele não queria ser mandado para casa. Não podia. E agora tinha mais um motivo: ele queria conhecer Annie. Queria conhecê-la, queria conversar com ela o tempo que pudesse, entender sua vida tão diferente da dele e como aquela cabeça ruiva funcionava. Queria saber mais sobre todas as teorias profundas dela, queria estar lá.

Simplesmente tinha uma centelha de esperança de que ela o achasse ao menos um pouco interessante, ou que gostasse de sua música, ou qualquer coisa. Apenas não queria voltar para casa.

— Charlie? — Zack ergueu uma sobrancelha. — Ainda está aí?

Charlie pegou um pedaço de papel e escreveu "Podemos conversar?".

— JAAAAAAAAAANE!

A moça abriu a porta no mesmo instante.

— Chamou, senhor?

O rapaz entregou-lhe o papel e formou com os lábios a palavra "Princesa". Ela assentiu e, com uma reverência final, retirou-se.

— Eu... vou tentar espiar por trás de um arbusto — disse Zack, saindo do quarto.

— Ei, Zack.

O ruivo se virou para fitar Charlie.

— Quê?

Charlie sorriu.

— Depois me fala o que você descobriu com essa segunda pequena viagem?

Zack riu.

— Claro, parceiro.