A Última Chance
8 Capítulo 8 - Por Quê?
Zack não estava conseguindo achar a Princesa e nem Brad. Ele estava caminhando sorrateiramente pelo castelo depois do jantar quando avistou Lucius. Tratou logo de esconder-se em um corredor paralelo e ficou grudado na parede.
Foi quando sentiu um toque em seu ombro.
— EU SÓ IA BEBER ÁGUA! E eu sei que estou demorando para ir beber água... Mas isso é porque eu preciso ir ao banheiro também! E... E eu sou ruivo, então eu posso me ofender com qualquer coisa que você me diga e denunciá-lo por bullying!
Zack enrubesceu quando virou-se e se deparou com a Princesa, rindo docemente.
— Não vai funcionar comigo, sabe.
— Por quê? Por que você é a Princesa?
— Isso também. E eu também sou ruiva, caso você não tenha percebido. Então, seguindo a sua linha de raciocínio, eu também posso denunciar você por bullying.
— Bem, seguindo a sua linha de raciocínio, a senhorita pode me denunciar por qualquer coisa, já que manda em tudo por aqui.
— O que está fazendo aqui a essa hora, sr. Zack?
—... Pegando um ar.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— É mesmo?
— Isso, e também tem o fato de essa parede ter me dado vontade de encarnar a Rizzo e começar a cantar There Are Worse Things I Could Do enquanto acho que estou grávido.
Annie sorriu.
— Eu não tenho uma resposta para isso.
— Bem, não foi exatamente uma pergunta.
— Verdade. Então aqui vai uma: Você acaba de fazer uma referência a Grease?
—... Sim...
— Eu amo Grease!
— Sério? Meu Deus, é tão velho!
— É um clássico! Encontrei num velho baú quando tinha oito anos.
— Eu invadi a casa da minha vizinha e fiquei assistindo da janela.
A Princesa fitou-o por um momento, como se não tivesse certeza de que ele estava brincando.
— Certo, eu deveria ter mentido — ele abriu seu típico sorriso torto. — Afinal, o que Vossa Alteza está fazendo aqui a essa hora?
Annie apertou com força o bilhete em sua mão esquerda e olhou para os próprios pés.
—... Pegando um ar.
Zack ergueu uma sobrancelha, imitando-a.
— É mesmo?
— Eu estava indo ao jardim... Esperava encontrar... Esqueça, não é importante — ela colocou uma mecha do cabelo ruivo atrás da orelha. — Sabe o que deveríamos fazer?
— O quê?
— Assistir Grease. Sempre quis assistir Grease com alguém que soubesse as músicas de cor.
Zack a fitou, entretido.
— Por que acha que eu sei as músicas de cor?
— Eu tenho certeza de que você sabe as músicas de cor. There are worse things I could do — ela começou a cantar, sorrindo. — Than going out with a boy... Or two...
— Even though the neighborhood thinks I'm trash, and no good... — Zack cantarolou baixinho, sem olhar para ela. — I suppose it could be true... But there are worse things I could do. Quando a senhorita tem um tempo livre à noite?
— Hã... Na verdade, só depois de amanhã, depois do Jornal Oficial.
— Ah, é. Eu havia me esquecido disso. Os Selecionados vão lá também, não é?
Ela assentiu.
— De qualquer forma, Lucius está rondando por aí. Você deveria ir dormir, sr. Zack.
— Claro, érr...
— Boa noite.
— Boa noite, Alteza.
Zack fez uma leve reverência e observou enquanto a Princesa desaparecia por entre as escadas. O garoto saiu correndo para o lado oposto e acabou batendo na porta de Charlie.
Um Charlie muito sonolento e visivelmente irritado a atendeu.
— Zack?
— Da última vez que eu chequei, sim. Bem, você pediu que eu compartilhasse minhas descobertas...
— A essa hora?!
— Sim! Da próxima vez, especifique tempo, então!
Charlie suspirou.
— Você não vai cair fora até acabar de falar, vai?
Zack fez que não com a cabeça. O moreno suspirou novamente e deu licença para que o outro garoto entrasse no quarto.
Zack sentou-se numa cadeira de madeira e desandou a falar.
— Na verdade, não achei o Brad em lugar nenhum. Eu estava me escondendo de Lucius quando a Princesa me achou. Resumindo a história, vamos assistir Grease.
— Grease?
— É, sabe... O musical.
— O que diabos é Grease?!
Zack revirou os olhos.
— Enfim. Também queria lembrar você de que daqui a dois dias vai ser a nossa primeira aparição no Jornal Oficial de Iléa.
— É?
— Charles, volte a esse mundo, por favor.
— A Princesa disse o que ela estava fazendo quando achou você?
— Disse que estava indo ao jardim. Esperava encontrar com alguém, acho. Talvez Lucius. Havia um bilhete na mão dela.
Os olhos de Charlie se acenderam.
— É?
— Mas ela já voltou para o quarto, seja lá o que você esteja pensando.
— Eu não estava pensando em nada.
* * *
Charlie acordou o mais cedo possível na manhã seguinte e ficou no jardim até a hora do almoço, a maior parte do tempo tocando violão, mas a Princesa não apareceu.
O que ele não sabia era que ela estava escutando cada nota de dentro do próprio quarto. Annie estava deitada, de olhos fechados, tentando perder-se na combinação perfeita de acordes e esquecer do problema enorme que tinha em mãos.
Vulgo dispensar treze rapazes em seis dias. Suas criadas estavam com as pastas deles. Annie não tocou nelas, apenas pediu que Sabrina lesse os nomes e fizesse quatro listas:
A) Não vou dispensar
B) Vou dispensar
C) Talvez
D) Não faço ideia de quem se trata
— Jasper Blakewood — disse Sabrina.
— A.
— Definitivamente?
— Uhum.
Ruth, que estava organizando as pilhas, colocou a ficha de Jasper na pilha A.
— Michael Waysen.
— A.
— Brad Cavanaugh.
Annie olhou para o teto por um segundo, e as teorias de conspiração voltaram à cabeça dela.
— A. Quero certificar-me de algumas coisas.
— Dennis Courier.
— Quem?
— Um Três. Aparentemente, joga vôlei. Aqui, uma foto — Sabrina mostrou a Annie uma foto de Dennis.
— D.
— Sério?
— Não sei quem é, poxa. Falei com 34 garotos naquela noite! Ao fim dela, mal lembrava o meu nome!
— Zachary Woodsen.
— A.
— Senhorita, não pode colocar todos eles nas pilhas A ou D.
Annie suspirou.
— Isso é tão difícil. Bem, continue.
— Acabamos, Alteza.
— Não acabaram, não.
— Senhorita, tenho certeza absoluta de que...
— Charlie — esclareceu a Princesa, mas logo consertou: — O sr. Charles, quero dizer. Não me perguntaram sobre ele.
— Ah, colocamos a ficha dele na pilha A, Alteza.
Annie ergueu uma sobrancelha.
— Sem me consultar?
— A senhorita troca bilhetes com ele. Fugiu do quarto ontem à noite para procurá-lo. E está com a janela aberta para ouvi-lo tocar violão.
— Bem, ele toca muito bem — ela se defendeu.
— Achamos que não seria do seu interesse dispensá-lo.
— Já que vocês colocaram na pilha A — Annie sorriu. — Podem deixar aí.
Annie jogou vôlei com Dennis Courier naquela tarde. Mandou-o para casa logo depois. Precisava compartilhar tal coisa com alguém que fosse dar um ótimo conselho, mas mesmo assim tratasse como se não fosse nada demais.
Ela só conseguia pensar em uma pessoa para tal, e odiou a si mesma por isso. Onde diabos estava Charles Hutton?!
No caminho, acabou encontrando com Jasper, que abriu um grande sorriso ao vê-la. O rosto dele todo se iluminava quando sorria, era cativante.
— Alteza!
— Ah, olá Jasper.
— Esqueceu-se de mim tão facilmente?
— Você não estava na pilha D, eu juro!
Jasper piscou algumas vezes, confuso.
— O que disse?
Annie enrubesceu.
— Nada. Nada. Deixa para lá. Bem, já me disseram que tem sido meio difícil me encontrar. Muitos lugares para ir, pessoas para ver...
Ele sorriu, fitando-a com aqueles olhos azuis que se acentuavam na pele clara.
— Tem tempo para um café?
A Princesa assentiu e permitiu que Jasper a tomasse a dianteira até algumas pequenas mesas perto do gramado. Ele puxou a cadeira para que ela se sentasse.
Jasper provavelmente não fazia ideia do quão simpático tal gesto era, mas ela, sim.
Pela primeira vez, Annie percebeu que ele tinha um caderno em mãos.
— São os seus desenhos? — ela fitou-o, curiosa.
— Bem... Sim. Pode ver depois, quando estiver sozinha, assim não precisa forçar um sorriso se não gostar — ele sorriu e entregou o caderno a ela.
— Se assim desejar...
— A senhorita parece distraída.
— Eu... Hm... — ela hesitou por um momento, mas por fim resolveu contar. Que mal poderia fazer? — Mandei Dennis Courier para casa.
Jasper arregalou os olhos.
— Eu... não sei o que dizer.
— Não quer perguntar "Por quê"?
— Seria apropriado?
— Diga-me você.
O rapaz não respondeu. Tomou mais um gole do café.
* * *
Charlie estava rondando o castelo com um bilhete na mão depois do almoço. Às vezes fitava aquela letra cursiva e redonda que ele aprendera a identificar. "Podemos conversar?", dizia o bilhete.
Era a vez de Charlie de ficar procurando por Annie de corredor em corredor.
— Hutton — ele ouviu uma voz ríspida e infelizmente conhecida atrás dele. — O que pensa que está fazendo?!
Só havia uma pessoa no palácio que o chamava assim.
— Lucius — o rapaz se virou e tentou soar gentil. — Posso ajudar?
— O senhor não deveria estar estudando?
— Eu o faria com prazer, mas não tenho livros, nem nenhum material de estudo. Até mesmo anotações são contra a lei.
— Não aprendeu nada sobre a História de Iléa em casa?
— Bem — Charlie sorriu. — Quando eu percebi que saber quantos soldados morreram na linha de frente da décima segunda batalha não iria colocar comida no prato da minha família, História saiu da minha lista de prioridades.
— Eu poria de volta nessa lista, se fosse o senhor.
— Vou pensar com carinho na sugestão.
Lucius cerrou os dentes. Charlie não entendia o desgosto do homem por ele, mas imaginou que também não estava facilitando muito a situação.
* * *
Annie passou a tarde inteira em uma reunião tediosa sobre Economia. Tal coisa a fez lembrar do Príncipe Edwin, e ela fechou os olhos para agradecer a Deus por os Selecionados serem mais interessantes do que o ex-futuro-marido dela.
Não que fosse exatamente muito difícil ser mais interessante do que Edwin.
Quando chegou ao quarto à noite, suas criadas mostraram a ela o vestido que haviam feito para o Jornal Oficial da noite seguinte.
Ele era vermelho, sem mangas. Caía até os pés e era coberto por um tecido leve e macio. Desnecessário dizer que era lindo, afinal, qualquer coisa que Ruth, Sabrina e Leah costuravam era lindo.
— Mandei Dennis para casa — anunciou Annie, de repente.
— Agora só faltam doze para essa semana. — comentou Leah.
Mas elas não perguntariam por que Annie o dispensara. Meu Deus. Naquele momento, ela só precisava de alguém que perguntasse por que! Era tão complexo assim?
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