99 Problems
10 — Think ◆
Notas iniciais
As partidas de basquete mano-a-mano com Kagami Taiga eram sempre acirradas. Ambos jogavam na mesma posição e eram quase equivalentes em força, afinal, Aomine Daiki o superava por pouco, muito pouco. Por isso, os embates eram sempre intensos e os dois se levavam ao limite – aliás, os limites eram ultrapassados. Os jogos sempre os levavam a um nível acima, onde os dois desenvolviam cada vez mais suas habilidades únicas.
O gênio que era um milagre.
E o milagre que não era milagre.
Fazia um tempo que Taiga e Daiki estavam jogando na quadra perto do Maji Burger e o ruivo estava quase ganhando a partida, e estaria se gabando do fato se não tivesse percebido o quão distraído o moreno estava. Apesar do corpo dele estar ali, a mente de seu adversário parecia estar distante. Não estava focado ou concentrado o bastante para aquela partida e quando finalmente se deu conta disso, o ás de Seirin decidiu dar uma pausa.
– Ei, idiota. – jogou a bola de basquete contra Aomine que a pegou por puro reflexo. – Está tudo bem?
A expressão estranha que Daiki esboçou quase fez o ruivo se arrepender de ter perguntado.
– Não é nada, vamos continuar. – proferiu, fazendo a bola quicar no chão.
– Não. Você tá estranho, não tá focado o suficiente. – o encarou fixamente. – Isso não é o bastante para me vencer.
– Seu maldito, não fique se achando porque tem alguns pontos à frente no placar. Isso não significa nada.
Mostrou para o outro aquele sorriso arrogante, cheio de dentes. Uma fera faminta por vitória.
– Que seja, essa partida está adiada. – disse, coçando a nuca. – Estou morrendo de fome.
Aomine rolou os olhos.
– Você só pensa em comida, Bakagami. – resmungou, mas se deu por vencido. – Que seja.
– Basquete não é tudo, Ahomine. – o respondeu, avançando para a grade que cercava a quadra.
“Basquete não é tudo, seu ganguro idiota!”
Daiki franziu o cenho. Era a segunda vez que ouvia aquela frase no mesmo dia. O que diabos estava acontecendo? Kagami tinha razão ao dizer que ele não estava focado na partida, uma vez que sua mente estava preenchida por Momoi Satsuki. A gerente de Touou tinha se apoderado dos pensamentos dele de uma forma que ele não conseguia pensar em mais nada. Nem em seus deveres de casa e muito menos no basquete, afinal, o esporte só o fazia se lembrar dela. E da recente briga que tiveram.
Seguiu Taiga, pegando suas coisas e andando ao lado dele até adentrarem o Maji Burger onde ambos sentaram juntos e o ruivo fez o pedido, o ás de Touou ainda estava perdido em seus próprios devaneios. O silêncio reinou entre eles até que o ala-pivô de Seirin resolveu se pronunciar.
– E aí, vai falar o que tá rolando? – indagou o outro que apoiou os cotovelos sobre a mesa.
– Ah... – suspirou profundamente, fazendo uma cara de tédio. – É a Satsuki, nós brigamos.
De novo, mas isso não precisava ser dito.
Kagami ficou em silêncio por alguns instantes, lembrando-se da outra vez que eles brigaram e que Momoi foi se queixar com Kuroko Tetsuya em Seirin. Aquilo parecia um déjà vu.
– Hm. – foi a única coisa que o ruivo disse.
– Não vai dizer nada? – questionou Aomine, esperando algum comentário do outro sobre o assunto.
– Não.
Aquilo irritou o moreno cuja paciência já era escassa.
– Então por que caralhos você--...
– A Momoi. – o interrompeu, antes que o outro falasse um monte de merda. – Ela se importa muito com você. Uma vez ela foi até Seirin desabafar o Kuroko, achando que você a odiava.
As feições de Daiki se abrandaram e estava surpreso em ouvir aquilo. Sabia que ela tinha ido atrás de Tetsuya depois daquela briga que precedeu a partida final da Inter High, mas não imaginava o que ela tinha dito lá.
– Ela chorou muito. – acrescentou, e pôde ver uma careta no rosto do amigo.
O motivo de Satsuki ter chorado foi a forma como Kagami a abordou sobre o fato dela gostar do Kuroko e se importar tanto com Aomine. Mas o outro não precisava saber disso.
– Droga. – resmungou, bagunçando os próprios fios azuis em sua confusão. – Não tem jeito, vou ter que me desculpar com ela. Tsc.
Kagami ficou em silêncio, como se sequer o ouvisse. Principalmente depois que o pedido deles chegou. Aomine quase se arrependeu em ter que sair ao sentir o aroma do teriyaki burger, sua comida preferida, mas ergueu-se da cadeira e tirou notas de ienes e jogou na mesa.
– Eu preciso fazer uma coisa. – proferiu para o ruivo que assentiu com a cabeça.
Não se deu ao trabalho de despedir, o veria no dia seguinte.
xXx
– O que você quer? – ingadou, de braços cruzados.
– Qual é, Satsuki. Não precisa ficar assim. – a voz do moreno era quase manhosa.
– Você está pedindo desculpas só porque quer minhas anotações emprestadas. Aposto!
– Ca-hem~
– Você é um idiota, Aomine Daiki! Estúpido, arrogante, egocêntrico, ganguro, burro!
Um sorriso decorou os lábios do ala-pivô. Quando ela o xingava assim significava que estava praticamente perdoado, embora não soubesse o motivo da chateação alheia. Seria a tão famosa TPM? Ele achava que sim.
– E você adora isso. – puxou-a para junto de si. – E eu já entendi, basquete não é tudo. E aí, vai me desculpar ou não?
Momoi viu-se com o rosto completamente enrubescido ao ser envolvida de tal maneira por Aomine na frente da porta de sua casa. Estava de noite e poucas pessoas passavam pela rua, mas ainda assim, ela se sentia constrangida, afinal, demonstrações públicas de afeto não eram bem vistas pelos japoneses mais conservadores e ela era uma moça de família.
– T-Tá, eu desculpo você. – proferiu com certa dificuldade. – Só se você me prometer uma coisa.
– O que você quiser.
Ver o amigo de infância tão complacente era no mínimo suspeito, mas ela evitou comentários que trouxesse à tona a personalidade altiva dele.
– Que não vai pensar apenas em basquete.
Daiki nem precisou responder aquilo com palavras. Apenas a apertou com mais força em seus braços enquanto a ouvia reclamar e se contorcer numa tentativa falha de se libertar.
Afinal, já havia algo que preenchia sua mente, além do esporte.
Não algo, mas alguém.
E o seu nome era Momoi Satsuki, a única mulher que o interessaria mais do que o basquete.
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