99 Problems
11 — Disgust ◆
Notas iniciais
Muitas pessoas achavam vantajoso o fato de Momoi Satsuki e Aomine Daiki se conhecerem desde a infância, mas em alguns momentos a garota se lamentava muito pela excessiva intimidade que tinham um com o outro. Em primeiro lugar, o moreno parecia mais filho da mãe da Satsuki do que ela própria, o que a deixava levemente enciumada algumas vezes. Mas isso era compensado pela senhora Aomine que sempre procurava agradá-la, como se fosse sua filha. Aliás, a mãe dele a considerava uma filha, uma bela menina que ela não tivera a sorte de ter, só que família é muito mais do que apenas laços sanguíneos.
Em segundo lugar, ambos tinham livre acesso à casa do outro. No começo eles ainda tinham alguma formalidade, mas eles eram vizinhos e mais do que isso, se tornaram melhores amigos. E esse era justamente o problema. Ela tinha aversão a um certo hábito que ele adquirira ainda na infância, um hábito que o acompanhava até na adolescência e mesmo agora que ele estavam no colegial. Mas somente quando estavam extremamente sozinhos.
Algo a dizia que ele fazia aquilo para irritá-la.
Eles estavam no quarto de Satsuki, aquele cômodo cujas paredes eram todas pintadas de rosa-bebê. A decoração do quarto era bem feminina; sobre a cama haveria vários ursinhos de pelúcia se Daiki não os tivesse lançado ao chão para se deitar ali. Estava preguiçosamente esparramado sobre o colchão, enquanto uma expressão de tédio era estampada em sua face; o braço estava semiflexionado enquanto ele girava a bola de basquete na ponta de seu indicador direito.
Um suspiro entediado ecoou no antro.
A gerente ignorou os sons emitidos pelo ás enquanto mantinha sua atenção focada no que fazia. Sentada junto de sua escrivaninha, a jovem respondia alguns exercícios que foram passados como dever de casa. Nem se dava ao trabalho de se queixar sobre Daiki estar relaxado enquanto ela dava duro nas lições, sabia muito bem que ele pegaria suas anotações emprestadas. Levou um bom tempo resolvendo os problemas sem se importar com os resmungos de Aomine, até finalmente terminar sua tarefa.
– Pronto, Dai-chan. – proferiu quando acabou, erguendo-se de sua cadeira e esticando o corpo.
– Demorou demais. – a voz era quase sonolenta, isenta de qualquer força de vontade.
Satsuki bufou. O moreno já não brincava mais com a bola, seus braços estavam apoiados embaixo da cabeça e seus orbes azuis fitavam o teto como se esperasse que algo extraordinário acontecesse, mas era apenas uma tarde tediosa de sábado. A amiga se aproximou sorrateiramente e se sentou na beirada da cama, exigindo espaço enquanto o empurrava na cama.
– Chega para lá. – murmurou, encaixando-se no pequeno espaço cedido pelo outro.
Daiki grunhiu em desagrado por ter que sair de sua posição agradável, mas pelo menos a tinha deitada junto de si. Essa era uma das vantagens da amizade deles, podiam se deitar juntos na cama e não ficaria estranho. Até mesmo se fossem pegos pelos pais, não haveria constrangimento.
Eles eram amigos, afinal.
Ainda que ele não se sentisse apenas assim.
Ao tê-la deitada ao seu lado, com a cabeça apoiada em ombro, o aroma das madeixas rosadas lhe invadia o nariz de um jeito impertinente. Aquele cheiro que ela possuía desde sempre, a fragrância que ele se lembrava desde que se via por gente. Um cheiro adocicado, floral, que o preenchia com pensamentos que não condiziam com a atual relação deles, de amizade. Precisava desligar-se daquilo, o quanto antes.
Esteve tão absorto em seus próprios devaneios que sequer ouviu o que a rosada lhe dizia. Claro que ela falava sobre trivialidades e que mesmo se fazendo de desinteressado, ele sempre estava pronto para ouvir o que quer que fosse que ela tinha para dizer. Mas estava em estado de choque, principalmente quando ela girou o corpo e apoiou os braços sobre o peito dele, deixando os rostos tão próximos a ponto de seus hálitos mornos se misturarem.
– Então, o que você acha? – o questionou, enquanto era encarada pelos olhos confusos dele. – Vamos ao centro comercial ou não?
Daiki ainda estava perdido, sem saber como reagir. Deixou um longo suspiro escapar de seus lábios e se manteve em silêncio. Satsuki o fitava fixamente, ainda que não entendesse muito bem a mensagem que os olhos dele tentavam lhe passar. Apenas admirava aqueles orbes, eram de um azul que inconscientemente virou sua cor preferida. E brilhavam, reluziam o reflexo rosa dos dela e por algum motivo desconhecido, sentiu-se hipnotizada por eles. E não apenas os olhos, como o formato do nariz e o desenho delicado dos lábios. Sentiu seu coração acelerar de um jeito que geralmente se sentia quando estava próxima de Kuroko Tetsuya – o que ela achou curioso, intrigante.
Então o ar ficou rarefeito. Tornou-se difícil respirar.
E não era pela aproximação perigosa, ou pelos batimentos cardíacos que aumentavam e a sufocava.
Porque se tratava de um fedor. Ao senti-lo, Satsuki torceu o nariz e pressionou os dedos contra as narinas, evitando inalar aquele cheiro terrível. Esse era o hábito de Aomine Daiki que ela mais odiava.
– Dai-chan, seu porco! – bravejou, afastando-se dele e sentando sobre a própria cama. – O que você comeu? Você está podre por dentro.
O moreno não segurou a gargalhada que irrompeu por seus lábios. Essa era uma das melhores coisas na amizade deles, ele tinha liberdade para soltar seus gases sem cerimônia. Geralmente eles vinham acompanhados de algum som constrangedor. E o fedor que se sobressaía no ambiente. E havia aqueles que eram silenciosos e mortais, de um odor mal-cheiroso que a deixava enojada. Ela achava aquilo repugnante, ele sequer se importava.
E o que acontecia depois era sempre o mesmo: ela dava broncas, o xingava e depois o acertava com tapas e socos e ele tentava em vão esquivar-se dela. Dessa vez, somente dessa vez, ele se achava o maior idiota do mundo por cortar o clima daquele jeito. Mas era necessário, ou ele não seria forte o bastante para suprimir todos aqueles sentimentos. Sentimentos que ele guardaria até o momento que ela estivesse realmente pronta.
Para quando ela superasse o fantasma de Seirin que ainda o assombrava.
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