99 Problems
5 — Son ◆
Notas iniciais
Uma das maiores bençãos recebidas na vida de Satsuki era o seu herdeiro. Aomine Daichi era uma junção perfeita dos genes dela e de Daiki. A pele dele era clara como a da mãe, mas os fios azulados foram herdados do pai. Ele tinha os olhos róseos dela, mas os traços do marido prevaleceram no rosto do filho. O menino era uma fusão entre os dois, uma fusão que deu muito certo.
Apesar de parecer tanto com Daiki fisicamente, Daichi tinha muito da personalidade de sua mãe. E não negava o sangue que corria em suas veias e a prova disso era como conseguia se livrar de algumas encrencas, principalmente com o pai. Aproveitando que sua mulher não estava em casa, o moreno decidiu passar seu legado para o filho.
Afinal, ele já estava cursando o colegial e se tornando um homem, finalmente teriam aquela conversa entre pai e filho. Aquela famosa conversa, que esclareceria algumas coisas para Daichi. O garoto estava assistindo animes na televisão da sala, quando Daiki passou na frente dele e desligou o aparelho, ouvindo reclamações do mesmo enquanto o ignorava e apenas dizia.
– Me siga.
O garoto o olhou com desconfiança, mas obedeceu ao pai e o seguiu pela casa até a porta que dava acesso ao porão – aquele era o local sagrado de Aomine, sua caverna. Era completamente restrita ao filho, e Satsuki só tinha permissão para entrar quando se tratava da limpeza do lugar, o que não a deixava nada contente, aliás. Eles seguiram o trajeto em silêncio, depois que Daiki abriu a porta e ligou o interruptor, iluminando todo o local; enquanto desciam as escadas, os olhos de Daichi percorriam por aquele cômodo no subsolo da casa.
As paredes decoradas com pôsteres de jogadores da NBA e pôsteres do próprio Aomine Daiki quando jogava basquete no colegial, viu um arcade de pinball e um arcade de um jogo de lutas antigo – antigo não, clássico. Se lembrou das vezes que eles saíram com Satsuki e sempre que ela demorava ao fazer compras, o pai a deixava sozinha enquanto o arrastava para o fliperama; deu-se conta de que fazia muito tempo que não saía com seus pais. O cômodo ainda tinha uma televisão maior que a da sala e uma poltrona espaçosa na qual fez menção de sentar, mas foi repreendido pelo olhar de Daiki. O homem puxou um banquinho para o menino.
– Senta aí. – proferiu para o filho, enquanto sentava na poltrona. – Você sabe por que te chamei aqui?
Daichi sentou-se no banquinho, ficando de frente para o pai enquanto ponderava na pergunta feita por ele. Sabia que não estava encrencado porque estava no local sagrado de Daiki, se fosse levar uma bronca, não seria ali. Ou talvez fosse, mas o Aomine não tinha tanta criatividade quanto Satsuki quando se tratava de castigos – ela era mais severa do que ele em relação ao filho. Após pensar numa infinidade de coisas num curto espaço de tempo, o menor suspirou.
– Não faço a mínima ideia, pai. – disse, e seus olhos róseos encontraram os do mais velho. – Eu não estou encrencado, né? Quer dizer, eu não fiz nada--..
Daiki encarou o filho com uma expressão desconfiada. Geralmente quem se declarava instantaneamente inocente, era o culpado. Com certeza o garoto tinha feito algo, mas não estava ali para tratar desse assunto – seja ele qual for –, suas intenções eram outras.
– Não. – respondeu, após estudá-lo por alguns instantes. – Você está aqui porque se mostrou digno. E já está na hora de passar o meu legado para frente, e você é meu único filho.
Os orbes de Daichi brilharam de excitação.
Assim como o pai, o filho era um maníaco apaixonado por basquete. Sua mente fervilhou ao imaginar o que seria esse legado do qual o pai falava. Seria algum item raro de basquete? Algum autógrafo de um jogador foda? Ou melhor, ensinaria a ele alguma jogada extremamente poderosa, digna do Ás de Touou e de Teiko, do seu tempo de escola? Mal podia se conter, mas se demonstrasse muita euforia talvez Daiki o julgaria infantil demais. Mas não conseguiu manter a calma, essa ansiedade ele tinha puxado da mãe, com certeza.
– O que é, pai?! – sua voz soou um tom mais alto do que a habitual.
Daiki sorriu ao ver o menino tão animado.
– Você vai ver. – ergueu-se da poltrona e Daichi ia se erguer também, mas ele fez sinal para que ficasse ali. – Espere aqui.
O patriarca da família andou até as escadas, abrindo uma pequena porta que ficava embaixo das escadas. Tirou de dentro dela uma caixa grande, mas toda repleta de poeira. Ao ver o pai andando em sua direção, Daichi respirou profundamente. O que havia dentro daquela caixa era o legado de seu pai? O que poderia ser? Torcia para ser alguns artigos esportivos, provavelmente ajudaria em treinamento diário – embora treinasse com Daiki nos finais de semana, e alguns dias durante a semana no complexo esportivo de Riko – que virou a melhor amiga de Satsuki –, o Aida Sports. O homem colocou a caixa no espaço que havia entre a poltrona e o filho, e inclinou o corpo para bater as mãos na caixa e limpar a poeira.
– Esse é um legado passado de geração em geração na família Aomine. – começou, captando toda a atenção do filho. – Seu avô me passou quando eu tinha a sua idade, e agora é a sua vez. Confesso que esperei muito por esse momento. Bom, abra logo a caixa.
Agora era Daiki que mal podia conter a empolgação, queria ver como seria a reação do filho.
Extasiado pelo discurso do pai, Daichi viu-se com as mãos trêmulas quando recebeu o aval para abrir a caixa. Apenas assentiu com a cabeça e teve que se controlar para não rasgar a caixa de papelão, de tão afoito que estava. E quando o conteúdo foi revelado, o garoto não esboçou emoção alguma – entrando em contraste em tudo que Daiki imaginou.
– Esse é o seu legado? – indagou o menino, ainda fitando o interior da caixa. – Revistas de modelos?
A voz era isenta da euforia e ansiedade de antes. Era um tom completamente desinteressado e nostálgico, que por algum motivo desconhecido irritou Daiki. “Eu era assim? Geez, eu devo muitas desculpas para a Satsuki.”, pensou ao ver o menino que parecia um reflexo de seu passado.
– Esse é o nosso legado. – respondeu, sério.
Daichi rolou os olhos, visivelmente entediado.
– Você sabe que existe internet, né? – Daiki estreitou os olhos para o filho. – Ninguém mais compra essas revistas, pai. Se fosse ao menos algumas Jumps...
O homem perdeu a paciência e deu um cascudo na cabeça do filho.
– Não despreze a Mai-chan! – pegou uma das revistas e jogou sobre o colo do filho. – Existem coisas interessantes como o basquete. Peitos grandes, por exemplo. Você precisa aprender a apreciá-los.
Daichi bateu com o rosto na mão num verdadeiro facepalm. Mas tinha que concordar com o pai, peitos grandes eram maneiros. Mas ele preferia bundas grandes. Aliás, ele apreciava o corpo feminino por completo.
– Eu gosto de bundas grandes. – disse, ao folhear a revista e se deparar com Horitika Mai que além de ser muito peituda, tinha bunda grande. – Caralho, a Mai-chan é muito gostosa! – folheou mais páginas, vendo-a com biquínis cada vez menores. – Pai... Isso é... Um tesouro!
Daiki deixou um sorriso de satisfação escapar.
– Viu? Nunca despreze a Mai-chan. – disse, bagunçando os cabelos do filho.
– Isso... É tudo meu? – a voz do menino foi quase um sussurro, alternando entre a caixa e o pai.
– Esse é o seu legado. Cuide bem dele e faça bom uso.
Daichi abraçaria o pai, se não tivesse ouvido uma voz tão familiar anunciando a sua chegada.
– Estou em casa! – Satsuki disse em bom som, ao passar pela porta de entrada.
Daichi desesperou-se e tentou guardar a revista de qualquer jeito dentro da caixa – tudo o que ele não queria era ser pego no flagra pela mãe ao ver revistas que eram quase de cunho erótico. Daiki o tranqüilizou ao colocar a mão no ombro dele e dizer que distrairia Satsuki, o garoto sussurrou “obrigado” antes de ficar sozinho no santuário de Aomine.
– Bem vinda. – disse Daiki quando a encontrou na cozinha.
– Cadê o Dai-chan? Foi treinar com o Junpei-kun no Aida Sports? Eu vou fazer o jantar...
Seu marido apenas esboçou um sorriso vitorioso. Ela já sabia o que aquilo significava.
– Você mostrou o lugar para ele? – indagou, mas a resposta estava escrita na testa dele. – Você deu as revistas para ele! Daiki, o menino vai morrer de tanto se mast--...
– Ele é quase um homem, Satsuki. Ele vai perceber que existe um limite para tudo.
– Ahomine! – jogou qualquer fruta que estava em seu alcance em direção a ele. – Você está corrompendo o meu bebê!
– Até parece. – bufou o homem ao pegar a fruta e mordê-la. – Pelo o que disse, parece que ele vê essas coisas na internet.
A naturalidade com a qual Daiki falava essas coisas era o que mais preocupava Satsuki.
– ... Eu vou deixá-lo de castigo! – declarou. – E eu não vou lavar cuecas sujas de sêmen, ou seja, você vai cuidar disso!
– O-Oe, Satsuki...
– O filho é seu, você que se vire.
Naquele momento, Daiki se deu conta de que havia se condenado ao passar seu legado para o filho.
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