99 Problems
12 — Shelter ◆
Notas iniciais
A previsão do tempo para aquele dia era de tarde ensolarada sem pancadas de chuva, mas com certa umidade. Momoi Satsuki confiava fielmente nas previsões que passavam na televisão, e também naquelas que acompanhava em seu celular, mas fora traída. O sol iluminou o céu pelo transcorrer do dia e até mesmo no período após as aulas, onde apenas os estudantes que participavam de atividades extracurriculares era autorizados a permanecer em Touou. Foi depois do treino de basquete que tudo começou a desandar.
Aos poucos, Aomine Daiki ia se reintegrando ao time. Depois da derrota para Seirin na Winter Cup – e depois do campeonato, em si – o moreno se deu conta de que precisaria se empenhar mais para derrotar o atual campeão no próximo ano. Antes do evento esportivo mais importante do ano, que acontecia em dezembro, o ás de Touou teria muitas oportunidades de enfrentar Seirin e os outros; sem contar que vez ou outra desafiava Kagami Taiga para alguns mano-a-mano, apenas para que a rivalidade não fosse esquecida.
E naquela tarde, Daiki tinha participado do treino desde o começo, sem precisar de táticas desleais vindas de Wakamatsu – atual capitão – que se unira com Satsuki com o propósito de ameaçar a integridade de suas revistas da tão amada Mai-chan. E apesar de algumas discussões entre Wakamatsu e Aomine, junto do constante pedido de desculpas que Sakurai dava, o treino ocorreu bem. Finalmente, o moreno estava se adaptando e Satsuki podia admirar o sorriso dele durante as partidas. Isso bastava, para ela.
Só que o problema veio depois da sessão de treinos. Se despediram dos demais no pequeno ginásio da academia e partiram em direção à estação que não ficava muito longe da escola. Estavam à algumas quadras de distância quando junto do entardecer, vinha uma chuva forte. Não começou com gotinhas de advertência, era como se o céu desabasse sobre a cabeça deles, sem aviso ou previsão alguma. Por reflexo, Satsuki cobriu a cabeça com sua pasta escolar, como se ela pudesse, de alguma forma, impedir que ficasse molhada. Daiki fez o mesmo enquanto corria rapidamente pela calçada ao procurar um abrigo. E o encontrou numa espécie de loja cujo toldo os impedia de pegar toda aquela chuva. Satsuki o alcançou em seguida, arfando por não ter o mesmo fôlego que o atleta.
– D-Dai-chan... – disse, suspirando. – Eu disse... pra você... me esperar...
Vê-la naquela situação quase o fez rir. Teria rido e feito alguma brincadeira de mau gosto sobre o fato dela comer doces demais e por não fazer nenhuma atividade física e por isso estava sedentária a ponto de se cansar tanto apenas por correr alguns metros. Poderia ter dito muitas coisas, se não tivesse encarado aquele corpo. A gerente ainda resmungava algumas coisas sobre ter molhado os pés nas poças d’água, balançava a pasta tirar o excesso da chuva e então reclamava das roupas completamente ensopadas.
– Estou toda encharcada. – se queixou, fazendo bico.
Aomine sequer a ouviu, afinal, eles estavam com os uniformes de verão e ela não trajava aquele casaco verde que era sua marca registrada. O tecido da camisa de uniforme era fino demais e por ser branco, se tornava transparente – evidenciando o sutiã rosa. Como o bom observador que era (quando se tratava de peitos, claro), o moreno tentou admirar sem chamar a atenção dela, mas o sorriso malicioso que brotou nos lábios alheios não passou despercebido. Nem a direção de seus olhares nada discretos. E também tinha o fato dele não respondê-la enquanto ela falava. Então olhou na mesma rumo que os orbes azuis fitavam e se deu conta do que aquilo se tratava.
– Dai-chan, seu pervertido! – o socou na altura do abdomen.
– Ugh, mas o que diabos, Satsuki...?!
Ele grunhiu, como se tivesse sido despertado de um encantamento com aquele soco. Satsuki por sua vez, usava os braços para cobrir os seios e tampá-los do campo de visão alheio. Ela inflou as bochechas e virou-se de costas para ele sem dizer uma palavra. Mas naquela posição, ele podia encarar descaradamente a bunda da amiga de infância que era ressaltada pela saia curta e agora úmida, quase colada em sua pele. Mas Daiki não fazia aquilo por mal, Satsuki era gostosa e ele era um homem, afinal de contas. Há algum tempo ele tinha notado que eles não eram mais crianças e que ela chamava muito a atenção da massa masculina, mas ele conhecia uma Satsuki que nenhum daqueles homens jamais iriam conhecer. Eles eram amigos e talvez, no futuro, se tornassem algo ainda melhor.
Desvencilhando tais devaneios que anuviavam sua cabeça, o ala-pivô decidiu tomar alguma atitude ao ver que o corpo de Satsuki tremia suavemente diante do frio que fazia, que só agora tinha sido notado por ele. Um brisa fria assolava ambos os corpos, mas o de Aomine era aquecido devido os pensamentos nada inocentes. E tomado num ímpeto mais forte do que ele, Daiki puxou a rosada para si e a abraçou por trás. Tal ato fez Satsuki hesitar e sua voz vacilante ecoar, não alto o bastante, afinal, o som provocado pela chuva ao bater contra o toldo que os protegia ressonava sonoramente.
– O-o que você está fazendo, Ahomine?! – o timbre foi quase esganiçado.
O jovem ergueu uma sobrancelha, ainda que não ela não pudesse ver.
– Eeeh? – a interjeição se sobressaiu. – Estou te aquecendo, oras. Você não está com frio?
Satsuki sentiu uma imperiosa vontade de dar uma cotovelada na costela alheia, mas aquilo era reconfortante. Apesar de ambos estarem molhados e com as roupas úmidas, ela podia sentir muito bem o calor que o corpo do moreno emanava; desde a infância ele tinha um sangue quente, enquanto ela, apenas com um ventinho, faltava morrer de frio. Por alguns longos minutos, os dois permaneceram em silêncio. Os braços de Daiki a envolviam pela lateral do corpo e as mãos repousavam no ventre de Satsuki, cujas mãos sobrepujavam as dele, tocando-as ternamente.
– A previsão errou feio, né? – sussurrou, sentindo as bochechas corarem embora desconhecesse a razão. – Nós nem pegamos um guarda-chuva.
– É. – retorquiu, apoiando o queixo sobre o topo da cabeça dela. – Ah, acho que a minha jersey está seca dentro da mochila, quer que eu pegue?
Satsuki moveu negativamente com a cabeça, sem dizer uma palavra. Afinal, não estava disposta a admitir que estava adorando ser acolhida por seu querido Dai-chan. Então, ficaram na frente daquela loja por quase uma hora observando o cair da chuva até o cessar desta, enquanto cada um era amparado por seu porto-seguro.
Fale com o autor