99 Problems
2 — Back Alley ◆
Notas iniciais
Uma das vantagens de conhecer uma pessoa desde a infância é colecionar memórias e testemunhar acontecimentos que muitos duvidariam anos depois. E Momoi Satsuki tinha um monte de histórias sobre um Aomine Daiki que todos desconheciam. Ela gostava de deter tais lembranças e mais do que isso, gostava de compartilhá-las. O moreno odiava quando ela abria a boca para falar de coisas do passado, que geralmente, eram embaraçosas – mas a deixava dizer o que queria, porque a recompensa de sua vergonha era o sorriso nostálgico que sempre decoravam os lábios cheios dela.
Ele fingia não se lembrar, mas guardava cada recordação com carinho.
E a que ela relatava era uma delas.
A história era de quando ainda estavam no primário. Estavam se preparando para ir para o ginasial, e também curtiam os últimos dias como “crianças”. Eles estudavam juntos numa escola nos arredores do bairro onde viviam, e àquela altura do campeonato, eles já iam e voltavam sozinhos, sem intervenção de adulto algum. Numa dessas voltas para casa, no meio do trajeto, os dois encontraram um gato.
– Dai-chan, um gato! – gritou a menina, apontando para o bichinho que saiu correndo.
– Onde?! – indagou o moreno, que tinha a inseparável bola de basquete em mãos e mochila nas costas.
– Ele entrou ali! – ela voltou a apontar, agora para um pequeno beco. – Vamos atrás dele!
Sem esperar uma resposta de Daiki, a garotinha de madeixas rosadas saiu em disparada em direção ao beco que era ladeado por dois prédios de dois andares. O moreninho foi atrás dela, e a viu andando devagar em direção ao gato cujo pêlo era completamente preto, mas de olhos dourados e brilhantes. Quando ela estendeu as mãos para pegá-lo, o felino passou por baixo de suas pernas.
– Satsu, cuidado! – exclamou.
Mas o gato foi de encontro a Aomine, e ficou roçando em suas pernas, como quem pedia colo. Ele sorriu e sem pensar duas vezes, jogou a bola de basquete para Momoi que a agarrou com destreza. Agachou-se para acariciar o gato, e o afago foi recebido de bom grado; o bichinho ronronava e esfregava-se contra as pernas dele. A pequena assistia a cena com as bochechas infladas, emburrada pelo gato sequer lhe ter dado alguma atenção.
– Será que ele tem dono? – a questionou enquanto erguia o corpo e consigo o gato. – Ele não tem coleira.
– Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Hmpf.
Aomine deixou um suspiro escapar e junto dele uma risadinha baixa. Aquele comportamento de Satsuki era tão típico, ela sempre fazia beicinho e desviava o olhar, franzindo o nariz. Era o que indicava que ela estava insatisfeita com a situação. Nesse caso era o gato gostar mais dele do que dela.
– Não seja assim, ele é um gato bonzinho. – disse, sorrindo. – Venha passar a mão nele.
– Não vou! – ela teria cruzado os braços em protesto se não estivesse com a bola em mãos.
Depois de longos minutos, Aomine conseguiu convencê-la. Ela se aproximou deles e estendeu a mão para o gato que a princípio, rosnou para ela. Ela fez cara feia e quase desistiu, mas o moreno estava decidido a fazer ela gostar do gato e o gato gostar dela. Apesar de ser um pouco arisco, o animal se sujeitou ao toque dela que fazia carinho atrás de suas orelhas felpudas. Por fim, ambos se renderam. Satsuki caiu de amores pelo gato e resolveu levá-lo para casa, mas antes disso Daiki a fez andar por toda aquela vizinhança perguntando se o bichinho tinha dono, ao perceberem que ele estava mesmo abandonado, eles foram para casa.
Depois de fazer mil promessas aos pais de que cuidaria bem do gatinho e deles a alertarem que um bicho de estimação era algo extremamente sério, eles a deixaram ficar com ele.
– Como devemos chamá-lo?
O moreno ponderava.
– Tem que ser um nome forte.
Ela bufou, rolando os olhos. Eles estavam sentados no chão da varanda da casa dele, já que eram vizinhos e apesar dela ter ficado com o gato, ele vivia no limiar entre as duas casas. O bichinho estava no colo de Daiki, e ele brincava com o mesmo. Ela se limitava a admirá-los enquanto pensava em algum nome criativo e que combinasse com ele.
– Vocês se parecem. – sussurrou, com um sorriso.
– Ahn? Do quê você está falando? – ele a encarou, confuso.
– Vocês dois são bem ariscos com pessoas que não conhecem e carinhosos com quem gostam. – disse, fitando-o tranquilamente. – Sem contar que ele tem pêlo escuro e a sua pele é escura também.
Ele continuava olhando para ela como se ela estivesse falando alguma idiotice. Ela estreitou os olhos para ele, que o fez calar antes mesmo de falar que ela era idiota.
– Já sei que nome colocar nele!
Ela falou tão abruptamente que assustou o gato que agora dormia no colo dele.
– Você assustou ele, sua escandalosa. – fez careta para ela que lhe mostrou a língua em resposta.
– Ele vai se chamar Dai-nyan!
– E-ei, que nome é esse?
O gato pareceu gostar do nome, pois foi para o colo dela assim que ela o pronunciou outra vez.
– Viu? Ele gostou. – ela dizia, com ar de satisfeita. – Agora eu tenho um Dai-chan e um Dai-nyan.
xXx
Kise Ryouta quase rolava de rir na quadra de basquete de Teiko após ouvir aquela história. Kuroko parecia ter achado graça em seu próprio jeito quieto e inexpressivo. Midorima ajeitava os óculos no topo do nariz e argumentava sobre o quanto gatos eram perigosos e ariscos – ele não gostava deles –, Akashi e Murasakibara não comentaram nada e o último apenas degustava seus salgadinhos e guloseimas sem se importar com nada. Satsuki ria ao contar outras peripécias de Dai-chan e Dai-nyan, enquanto o loiro ria e apanhava de Aomine que não gostava nenhum pouco de ser o centro da atenção das risadas do copiador.
Era nostálgico lembrar-se do dia em que achou o bichano num beco, mas desde aquele dia Dai-nyan teve uma boa vida, pois ele estava vivo e bem, e tanto Aomine quanto Momoi não perderam o amor por ele, mesmo com o passar dos anos.
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