50 Tons De Uchiha
39 Seguindo?
Notas iniciais
Capítulo 39 – Seguindo?
Sakura despertou subitamente, assustada com o estrondo da porta.
Os olhos verdes e sonolentos correram de um lado para o outro em sua escrivaninha, e ela fez uma careta ao notar que adormecera – mais uma vez – sobre um dos livros que ela realmente tinha que acabar de ler. Suspirando, ela puxou os óculos de armação vermelha e analisou-os para ter certeza de que aquele cochilo não a traria prejuízos – além do intelectual.
Outro estrondo a fez suspirar.
Ino, certamente.
Por que será que ela tinha a mania de esquecer as chaves?!
Sakura se levantou preguiçosamente, sem se preocupar em olhar para o relógio. Ino nunca chegava depois do amanhecer, mas também nunca chegava antes da madrugada, e a Haruno sabia que se irritaria com a amiga, caso parasse para conferir as horas.
— Já vou! – Ela exclamou, furiosa com a insistência da Yamanaka.
Não bastava esquecer as chaves, a loira ainda tinha que bater na porta como se fosse a rainha da Inglaterra exigindo que uma criada a atendesse!... Mesmo com o aviso, a bateção não parou; em realidade, Ino parecia bem disposta a irritar Sakura, pois continuou com batuques ainda mais fortes e rápidos.
A rosada bufou; abriu a porta com fúria, pronta para mandar a melhor amiga para o quinto dos infernos, e acabou por se deparar com uma assustadora visão de seu demônio particular: Sasuke Uchiha.
Os olhos negros dele fagulhavam de ódio, de rancor, e ela simplesmente não soube como reagir.
Seu corpo recuou sem que ela pudesse perceber; seus instintos de autoproteção pareciam vir à tona inconscientemente, só de olhar para aquela expressão. E Sasuke, mesmo tendo completa consciência de que não era mais bem vindo ali, não hesitou ao adentrar a casa.
Ele bateu a porta com força, furioso, e Sakura se encolheu.
— Controlador, não é?
Aproximou-se com o rosto sério e passos firmes, fortes e pesados.
— Egocêntrico. Prepotente. – Ele riu. Agarrou-a pelo antebraço e puxou-a para perto, completamente furioso. – Sabe, até que você pode estar certa.
Ele forçou um sorriso e o aperto se tornou mais firme. Sakura se encolheu, dolorida e embasbacada. Ergueu os olhos verdes até os dele, implorando mudamente para que a soltasse... E, claro, foi ignorada.
— Eu posso ser tudo, Sakura. – Sasuke prosseguiu, estreitando os olhos negros de maneira irritadiça. – Mas pelo menos não sou covarde.
Ele cuspiu a palavra.
— Pelo menos não fujo dos meus sentimentos, das minhas vontades. E, — Seu tom aumentou. – Não sou mentiroso. – Ele adicionou com convicção.
Sakura queria empurrá-lo, espancá-lo!... Quem ele pensava que era para invadir sua casa de madrugada e tratá-la assim?!... Mas mesmo que seu corpo tremesse com a vontade de acertar um belo soco naquele narizinho empinado, ela estava paralisada.
Seu coração a paralisava, pois a tristeza se sobrepunha à fúria.
Por que ele estava aqui, afinal?... Por que estava fazendo aquilo? Por que de novo?!... Sasuke havia prometido que não a procuraria mais, não é? Então por que estava lá?! Por que não a deixava em paz?!
—... Eu amo você.
Ele murmurou depois de um curto silêncio.
Sua voz era profunda, sincera... E tal como o coração de Sakura, o aperto se afrouxou.
— Eu amo você. – Repetiu suavemente. – Sabe disso, não é?... – Ele forçou uma risada, que soou muito tristonha aos ouvidos de Sakura. – Não é possível que não saiba.
Visivelmente abalado,Sasuke alisou os cabelos negros com a mão quase trêmula. Olhou para Sakura e, depois de um instante (realmente curto) de hesitação, agarrou seu rosto com carinho e cautela.
Sakura não conseguiu se esquivar.
Não pôde.
— Eu amo você, e você me ama. – O Uchiha sussurrou, aproximou-se e roubou uma série de beijos doces, que a Haruno teve que se esforçar muito para não retribuir. Ele grunhiu. – Por que está fazendo isso comigo?... Por que está fazendo isso conosco?!... Tudo estava indo tão bem, tão... perfeito... Então por quê?
Sakura fungou, choramingou e tentou se esquivar.
Queria que ele fosse embora!... Definitivamente! Para sempre!
— Por que você está fazendo isso?! – Ela se sobressaltou. – Prometeu! Prometeu que não viria! Prometeu que me deixaria em paz!
— Eu vim porque não quero abrir mão de você. – Sasuke confessou, fitando-a com aqueles olhos negros tão intensos e quentes, que faziam cada membro do corpo de Sakura estremecer. – Não consigo fazer isso. – Apertou a mão dela sobre seu peito, e roubou-a um beijo delicado e demorado.
Afastou-se vagarosamente, somente depois de ser retribuído; alisou as faces róseas da amada e fitou-a tão profundamente que Sakura sentiu suas pernas perderem as forças.
— E você, Sakura?... Consegue?
.
— Sakura-san... Sakura-san!... Sakura-san, nós chegamos!
Sakura abriu os olhos lentamente, a contragosto.
Perdida e sonolenta, os olhos verdes vagaram pelo carro em busca do par de ônix que há instantes a havia deixado. A voz de Sasuke, tão cheia de agonia, parecia soar incansavelmente na cabeça dela, tal como aquela doce e dolorosa frase.
“Eu amo você”... “Eu amo você”...
Tolice, ela disse para si mesma.
Estupidez.
É claro que Sasuke não a amava.
Sasuke Uchiha não era capaz de amar alguém, e ainda que fosse, certamente não seria capaz de amar alguém como ela, tão inocente, tão teimosa e tão irritante aos seus olhos.
Levou um instante para Sakura notar que Sasori Akasuna, o neto da senhora Chiyo estava sentado ao seu lado no banco do passageiro, inclinado em sua direção, olhando para ela como se fosse um tipo de cobaia estranha.
A moça Haruno enrubesceu, e quase saltou ao notar o sorriso divertido e curioso expresso no rosto do ruivo.
— D- Desculpe!
Sakura gaguejou, extremamente constrangida. Ela pressionou os olhos e quis morrer quando, ao passar as mãos pelo rosto, notou que a baba escorria pela lateral de seu queixo. Fuzilou Sasori com os olhos quando o ouviu engolir uma risada.
— Não sou eu quem vai julgar o seu cansaço! – O ruivo ergueu os braços como em rendição. E então sorriu ao vê-la desviar o olhar, irritada e constrangida.
— Vamos. – Ele deu um tapinha amigável no ombro dela. – Sei que minha avó é uma megera, então você merece babar um pouco enquanto dorme.
Sakura fez uma careta.
— Bem, sua alforria foi assinada, garota. Vá para casa.
Ele apontou para a porta do carro como se estivesse apontando para as escadas do paraíso.
— Aproveite sua liberdade!
Sakura riu.
— Liberdade? Daqui dois dias eu volto pras mãos da Tsunade-sama.
Sasori fez uma careta de pena, e ela tornou a rir.
— Então aproveite os dois dias e entre em coma. – O rapaz sugeriu. – E, se quiser companhia... – Sasori apoiou o braço no encosto do banco e olhou-a de maneira sugestiva. Sakura revirou os olhos verdes, balançou a cabeça e pegou a bolsa.
— Obrigada pela carona, Sasori-san. Até mais.
E sem sequer dar um último olhar de misericórdia, deixou o automóvel.
Enquanto seguia em direção às escadas, Sakura disse a si mesma que ter dispensado Sasori em todos os encontros que se deram durante a viagem não tinha nada a ver com Sasuke. Só era cedo, cedo demais. Ela havia acabado de sair de um relacionamento complicado, e definitivamente não estava disposta a se meter com outro ricaço de nariz em pé.
Não tinha nada a ver com Sasuke.
Sakura apertou os olhos e balançou a cabeça freneticamente, como se aquela simples ação fosse capaz de expulsar o nome proibido de sua mente. Ela não tinha mais nada a ver com Sasuke Traidor Uchiha!... Desde aquela maldita noite, suas vidas não tinham absolutamente nenhuma relação!
E mesmo assim, ela sentiu-se paralisar quando alcançou a porta de casa.
Concluiu que era ridículo pensar nele quando chegava à sua própria casa, mas ainda assim sua mente flutuou para meses atrás, reavivando memórias das quais ela simplesmente não queria lembrar.
Quantas vezes Sasuke a havia perseguido?... Chegava a ser engraçado, mas Sakura não conseguia contar. Quantas vezes ele havia insistido em esperá-la ali, naquele mesmo lugar, mesmo que a porta estivesse trancada e do outro lado ela gritasse para que ele fosse embora?
Lembrar-se dele, percebeu, era algo inevitável.
Mas por que será que ela não conseguia parar de pensar naquele maldito traidor?
Por que ainda matutava tanto sobre um assunto claramente encerrado?!...
Era o fim, não tinha mais porque ter devaneios sobre aquilo.
Sasuke não a havia mais procurado depois daquela última discussão, e apesar de seu sonho, por algum motivo, algo dentro de Sakura sabia que ele não tornaria a ir atrás dela. Talvez tivesse sido a mágoa, ou talvez a firmeza em suas palavras, mas a Haruno tinha a forte impressão de que tal como prometera, Sasuke Uchiha nunca mais voltaria a atormentá-la.
Uma lágrima quente rolou por seu rosto, e ela se sentiu uma grande estúpida.
A própria Sakura tinha pedido por aquilo e, francamente, não se arrependia. Afinal, independente do tamanho ou da força da paixão que batia em seu peito, era simplesmente impossível continuar ao lado de um homem que não confiava.
Por mais que o amasse... Ela não podia seguir assim.
Sakura encostou a cabeça na porta e respirou fundo, tentando conter a imensa vontade de chorar. Era incrível como bastava passar algumas horas sem trabalho para que sua mente se voltasse à Sasuke, e...
Droga, aquilo doía.
— Sakura! – Alguém gritou das escadas, e Sak quis praguejar.
Limpou o rosto rapidamente, respirou fundo e, tentando não transparecer a dor latejante que sentia no peito, virou-se na direção da voz feminina. Lá embaixo, no começo das escadas, Kasumi Uchiha sorria e acenava ao mesmo tempo em que acariciava a barriga grande e chamativa.
~
Sasuke tinha os olhos fixos na planilha de orçamento.
Ele estava no escritório desde as cinco da manhã; fazia quase nove horas que estava sentado naquela mesa: atendendo clientes e colaboradores, verificando relatórios, analisando planilhas e desenvolvendo documentos. Karin sabia que tinha sido um dia cheio, difícil para o presidente, mas Sasuke não parecia se importar.
Há dias ele aumentava cada vez mais sua jornada de trabalho, e parecia se preocupar cada vez menos com o tempo que passava na empresa.
Hoje estava com o cabelo engomado; o terno preto no mesmo tom da calça, uma camisa branca e uma gravata vermelho-vinho muito bonita. Como há semanas, sua aparência parecia impecável, mas por algum motivo, a senhorita Uzumaki o considerou... superficial.
— O que acha de cortarmos esses gastos? – Ele circulou uma coluna na planilha no tablet e estendeu-o na direção da ruiva, que fez uma careta.
— De matéria-prima?
Ele deu os ombros.
— Podemos comprar peças prontas; estou procurando fornecedores com os critérios apropriados... Podemos economizar uns vinte e tantos por cento. O que acha?
— Acho que vai ter que demitir ou realocar um setor inteiro com isso, então não é uma decisão que possa ser tomada desse jeito, de uma hora para a outra, quando o presidente nem almoçar, almoçou.
Sasuke sorriu de canto.
— Certo. Ponto pra você. – Ele se ajeitou na cadeira e desfez o círculo. – Aliás, está livre mais tarde?
O corpo de Karin enrijeceu.
Sempre desse jeito, ela pensou com incômodo.
Já fazia mais de uma semana que ao final da tarde, quando parecia compreender que nenhum outro compromisso melhor apareceria, Sasuke se esgueirava até a mesa da secretária, lhe sorria de canto e perguntava de um jeito bastante sugestivo se ela tinha a tarde livre.
Karin sempre fora apaixonada por Sasuke. Aquilo não era nem segredo, nem mistério para ninguém. Desde a adolescência ansiava por sua atenção, por seu carinho... Então, no começo, as propostas a encheram de esperanças.
Esperanças que haviam sido cruelmente destruídas duas noites atrás, quando Sasuke a levara para o quarto de jogos com mais uma garota, até então desconhecida para a jovem Uzumaki.
Com um sorriso abatido, a ruiva baixou a fronte.
— Sua amiga vai estar lá também?
— Ah, Karin! Vamos lá! – Sasuke lhe sorriu maroto. – Aquilo foi divertido.
Ela riu. Uma risada oca, magoada.
— Não, não foi. – Confessou. – Não foi nada divertido.
Sasuke se calou.
Mesmo com o silêncio, Karin sabia que acabara com o sorriso divertido dele, mas francamente, pela primeira vez na vida, não se importou nem um pouco.
Os olhos dela se ergueram firmes e ressentidos até o rosto de Sasuke.
— Foi humilhante.
O Uchiha sentiu como se ela tivesse acertado um soco em seu estômago.
Na verdade, talvez se sentisse melhor se ela de fato o tivesse feito.
Mesmo assim ele pigarreou; se aprumou e encarou-a com severidade.
— Eu não te obriguei a nada. – Lembrou-a. – E você...
— Eu sou apaixonada por você desde os doze anos de idade!
Karin exclamou em tom acusativo, levantando-se no ato.
Sasuke se surpreendeu com aquele tom de voz. Era magoado, certamente, mas mais que isso... Era acusador. E aquilo o fez se sentir horrível.
Naruto arrancaria as vísceras dele. Ele arrancaria a cabeça dele!... E, sendo bem sincero consigo, Sasuke sabia que merecia. Quis suspirar... Quis praguejar. Desde o começo sabia Karin não era uma opção de distração saudável.
Ele sabia que ela lhe gostava, e mesmo assim...
— Não vai ser difícil pôr outra no meu lugar, não é? Aposto que aquela ruiva adoraria!... Aposto que até ia topar um tour naquele seu quarto de jogos!
Sasuke apertou os olhos e tentou afastar a voz de Sakura da cabeça.
Não. Ela não tinha nada a ver com o fato de ele voltar a se envolver com Karin.
— Eu... Eu faria tudo por você! – A ruiva prosseguiu, alheia ao devaneio do outro; sua voz foi entrecortada pelo choro contido, e Sasuke sentiu sua cabeça latejar.
— Fiz tudo para ter sua atenção!... E é assim que você me trata? Chamando outra garota pra entrar no meio da nossa... – Ela apertou os olhos e praguejou. – Eu sei lá o que temos!...
Ela escondeu o rosto com as mãos e desatou a chorar.
Sasuke não soube como reagir. De fato, sequer sabia o que falar.
Que droga estava acontecendo ali, afinal?!... Karin sempre havia se mostrado completamente sem escrúpulos, ao menos quando se tratava de sexo. Sempre havia sido tão mente aberta, tão liberal!... Porque estava agindo dessa forma?!
—... Eu sei o que você quer!... – Ela murmurou sufocada, depois de conseguir controlar o choro. Encarou-o com os olhos marejados, magoados. – Fui eu que passei três horas ouvindo seu desabafo alcoólico no casamento de Itachi, lembra-se?! Sei o que está sentindo!... Compreendo melhor do que ninguém! Mas o vazio que aquela garota deixou não vai sumir enquanto você...
Sasuke enrijeceu, e não quis mais ouvi-la.
Do que ela estava falando?
De quê droga estava falando?!
— A única coisa que pode curar esse tipo de dor é...
— Suponho... – Sasuke a interrompeu, seco. – Que não está livre mais tarde.
Ele soou frio, quase grosseiro.
E Karin se sentiu uma estúpida.
— Não. – Ela conseguiu dizer quando o ar lhe voltou aos pulmões. – Não mais. – Afirmou. – Nunca mais. – Adicionou, cheia de convicção.
Sasuke deu os ombros e apontou a porta com a cabeça. Karin levou um minuto inteiro para compreender que ele a estava mandando sair da sala, mas não levou nem um segundo para obedecê-lo quando conseguiu.
O Uchiha ficou imóvel na cadeira por um instante incontável, amargando as palavras da prima de Naruto. Seu mundo tinha virado de cabeça para baixo, sem sombra de dúvidas!... Agora até Karin o havia chutado. Karin!
Exasperado, Sasuke afrouxou a maldita gravata vermelha.
Ele se levantou num pulo, e deu passos furiosos até a cafeteira.
— Você pensa que o mundo gira ao seu redor, Sasuke. Mas não gira.
Os olhos negros se estreitaram.
Ele sequer teve forças para apertar o botão do café.
Controlador. Egocêntrico... Prepotente.
Sasuke sentiu seu peito apertar, e respirou fundo...
No fim, Sakura estava certa sobre muitos de seus julgamentos. Assim era Sasuke Uchiha: egoísta, prepotente, egocêntrico e controlador. Melhor e mais esperto do que a maioria das pessoas. Ninguém podia brincar com ele, nunca. Mas ele podia brincar com quem bem quisesse, como quisesse...
Em realidade, era bem possível que Sasuke tivesse passado a maior parte de sua vida acreditando que o mundo, belo e feliz, girava ao seu redor. Mas agora estava certo de que não.
Sua vida era uma maldita porcaria.
Uma dor de cabeça infindável.
O inferno na terra.
O avô que lhe amara e cuidara era, na realidade, um perfeito monstro; seu pai, a quem sempre admirou, havia se mostrado um grande imbecil e sua mãe, a mulher que mais amava no mundo, estava se tornando uma maluca perturbada por seus pecados.
Itachi estava ocupado demais com a mudança, tal como Hinata; Kasumi estava ocupada demais com o bebê – que nem tinha nascido ainda! – e Naruto, seu maravilhoso melhor amigo, completamente útil e compreensivo, parecia ocupado demais com seus próprios problemas.
Como se não bastasse, ele simplesmente não conseguia tirar aquela mulher irritante da cabeça nem por um segundo que fosse!... E começava a perceber que não importava entre as pernas de quem, ou de quantas mulheres ele se afogasse a noite, a última coisa que ele se lembraria antes de dormir seriam os brilhantes olhos esverdeados da senhorita Haruno, e seu nome, a primeira palavra a passar por sua mente ao despertar. Sempre.
Sakura.
Por mais que soasse idiota, a verdade é que o estômago de Sasuke contorcia todas as vezes em que ouvia aquele nome, que a propósito era irritantemente comum. Ele estava se esforçando muito para superar essas reações imbecis, que para sua frustração, lhe pareciam bastante típicas das protagonistas de mangás shoujo.
Sasuke respirou fundo.
Não importava o quanto Sakura Haruno o odiasse, refletiu, aquela era uma realidade que, por mais que quisesse, ele não podia controlar. Porque independente de qualquer coisa, incluindo os sentimentos dela e os dele, o mundo de Sasuke Uchiha girava em torno de Sakura Haruno.
E ninguém podia fazer mais nada quanto a isso.
— Sasuke.
Era a voz de Fugaku.
Sasuke sabia disso, e também sabia que seu pai imbecil jamais adentraria em seu escritório sem ser anunciado se não precisasse falar sobre alguma coisa séria, mas ainda assim precisou de um minuto para se recompor.
O Uchiha respirou fundo; pressionou as têmporas e virou-se de soslaio na direção do pai. Ele estreitou as sobrancelhas, realmente confuso por notar a presença de Itachi ao lado do pai.
— Nii-san?...
— Precisamos conversar.
~
Depois de ajeitar a pequena mesa de cama, Sakura estendeu a xícara de chá na direção da entretida Kasumi Uchiha, que parecia extremamente curiosa com os detalhes do quarto da rosada.
— Err... Não quer mesmo comer nada, Kasumi-san?
Sakura a questionou com hesitação, envergonhada com o fato de seu quarto parecer tão desorganizado.
— Claro que não. Obrigada, mas o chá é suficiente.
A morena puxou a porcelana sem nem mesmo olhar para a anfitriã. Ela bebericou o líquido, fez uma careta ao notar a quentura e tornou a analisar o cômodo pequeno e tumultuado.
O quarto de Sakura estava um verdadeiro caos: tinha toalhas penduradas no abajur; algumas roupas sobre a cama e sapatilhas espalhadas pelo chão de carpete, além de um bocado de livros abertos sobre a desorganizada escrivaninha. A bolsa de viagem da Haruno estava em cima de uma poltrona, logo a frente da cama em que estavam sentadas, e parecia a ponto de explodir.
— E- Eu não sou tão bagunceira! – Ela tentou se explicar. –Isso é por causa da viagem! Eu só vim aqui para estudar e fazer a bolsa, então não tive muito tempo para...
— Hn?... Oh! – Kasumi riu. – Querida, isso não é bagunça. Pelo menos não para mim, que estou acostumada com a bagunça dos Uchihas. – Ela deu os ombros, sorrindo, e finalmente olhou na direção da Haruno. – Estava olhando para aquilo.
Ela apontou para uma gravura na parede.
— É feito com tinta, não é? Eu achei adorável.
— O- Oh... – Sakura sentiu-se aliviada. – Sim, é feito com tinta. Na verdade não é muito difícil de fazer...
— É mesmo?! – Kasumi pareceu se iluminar. – Ótimo! Então está combinado!
Sakura franziu o cenho, incapaz de compreendê-la.
— Combinado?...
— Sim! Amanhã de manhã, na minha casa!... Ou melhor, na casa dos meus pais. Estamos nos mudando para lá... Bem, você é a pessoa escolhida para ajudar-me a arrumar o quarto da pequena Akane!
Sakura emudeceu.
— Ora, Sakura! Vamos! Eu estou pedindo piedade. Como eu deixei o trabalho, papai está tentando dar conta do meu lugar. Itachi está cheio de casos que atrasaram por causa do casamento e Sasuke fica enfurnado no escritório por umas catorze horas seguidas!... Eu não posso organizar aquele quarto sozinha, não na minha condição, e muito menos um quarto daquele tamanho!
Ela puxou as mãos da Haruno.
— Por favor, você é minha última esperança!
Choramingou, e pareceu tão sincera que Sakura desatou a rir.
— Bem, eu adoraria, Kasumi-san... – Os olhos dela se entristeceram ligeiramente. — Mas...
“Sasuke pode estar lá”.
“Você deve saber, Kasumi-san, que Sasuke e eu...”
Existia uma série de frases que poderiam ser usadas naquela constrangedora situação e, no entanto, Sakura não conseguiu verbalizar nenhuma delas. Não conseguiu saber o motivo disso, mas simplesmente não saíam por seus lábios.
— É uma amiga, Sakura... – Kasumi falou lentamente, extremamente sincera, com um tom de voz que acabou por chamar a atenção da rosada. – Eu não tenho muitos amigos, é verdade... Sei que sou uma pessoa difícil de lidar, mas... Você é minha amiga, compreende?... Então, por favor...
Sakura não conseguiu identificar sequer uma insinuação de exagero ou mentira na fala da cunhada de Sasuke. E apesar de ela saber que Kasumi poderia fazer qualquer pessoa acreditar no que quisesse, fosse verdade ou mentira, se alegrou com a declaração.
— Certo... — Ela suspirou, dando-se por vencida. — Amanhã...
~
Hinata desabou no chão dois segundos depois de soltar uma pesada caixa de papelão lacrada ao chão. Ofegando, ela tentou esticar os braços e as pernas, e fez uma careta ao ouvir estalos.
Sentia-se extremamente desanimada ao olhar para os livreiros vermelhos e vazios, belamente organizados no antigo escritório de Itachi, que agora estava prestes a se tornar sua sala de leitura.
Uma vez que todos os homens de suas famílias pareciam ocupados demais, ela não tinha podido contar com nenhuma ajuda realmente útil na mudança. O pai tinha qualquer coisa para fazer no escritório, Neji viajava a negócios, Sasuke estava enfurnado na empresa desde que terminara com Sakura e Itachi, cheio de tarefas com a chegada do bebê.
Como ela poderia pedir qualquer favor sem incomodá-los?!
Por fim, a única ajuda que podia contar era a de Hanabi, que embora tivesse garantido à irmã que estaria no apartamento antes da hora do almoço, até agora não tinha dado sequer um sinal de vida.
Com um suspiro cansado, Hinata voltou a trabalhar: após desfazer o lacre da caixa com um canivete qualquer, começou a sessão de exercícios enquanto agachava e levantava para pegar os livros e organizá-los como bem queria.
Uma playlist com suas músicas favoritas do Time Oito soava ao fundo, e quando as músicas do novo álbum – do qual ela participava – começaram a soar, ela se sentiu estranha. Obviamente já a tinha ouvido, mas para ser sincera, a intensidade da experiência não a permitiram ouvir a música realmente.
De alguma forma, sua voz parecia ainda melhor gravada... Seria só impressão?
Por algum motivo bobo, ela começou a cantarolar junto com a gravação.
Em pouco tempo estava cantando e dançando, ao mesmo tempo em que agachava e levantava para organizar os livros, já separados por autores e ordem alfabética.
— Quem é você e o que fez com a minha prima?
A voz divertida de Shion assustou Hinata ao ponto de a pobre garota, após soltar um grito surpreendido, tropeçar na caixa mediana e cair de um jeito bastante constrangedor para sua idade.
— Ah, aí está ela.
Rindo, a loira aproximou-se. Hinata agradeceu timidamente, extremamente constrangida, enquanto a irmã de Neji a ajudava a se reerguer.
— Eu não quis assustá-la. – Ela esclareceu. – Mas meu irmão disse que estava fazendo a mudança hoje, me mandou ajudá-la, sabe...
As sobrancelhas escuras da Hyuuga se estreitaram ligeiramente, desconfiadas.
Shion não havia obedecido ao irmão nem quando a havia aconselhado a parar de puxar o dente de leite. Desde quando ela ouvia Neji?... Aliás! Desde quando Shion obedecia as ordens de qualquer um, em especial Neji?!
E desde quando ela se importava em ajudar qualquer ser humano que precisasse de um mínimo de suporte?!
— Wow! É a sua voz? – Shion franziu os lábios e anuiu em satisfação. – É mesmo muito boa, Toneri! – Ela virou-se de soslaio em direção à porta, e só então Hinata pôde ver que trazia companhia.
Toneri Otsutsuki, ninguém mais, ninguém menos.
O grande produtor musical que era famoso por seus sorrisos adoráveis, seu dom na escolha de novos talentos e o fato de ser podre de rico... O mesmo Toneri que a havia elogiado por sua voz, e o mesmo que havia flertado com ela na frente de Naruto duas semanas atrás, na recepção de Tsunade.
E agora ele a tinha visto beijar o chão.
Hinata queria morrer.
— Comecei a gostar da ideia do dueto, prima.
Alheia ao constrangimento da morena, Shion bateu em seus ombros de maneira amistosa, quase companheira, e Hinata suspirou.
— Grata, mas já disse que não vou deixar a Time Oito.
— Bem, nós ainda temos algumas semanas para tentar convencê-la...
O jovem produtor aproximou-se aos poucos, olhando o espaço pequeno de um jeito bastante curioso. Ele ofereceu à Hinata um sorriso galante, que a fez rir, divertida e ligeiramente tímida.
— Garanto que sempre convenço.
Hinata estreitou as sobrancelhas de maneira duvidosa, mas ainda sorria.
— Olá, Toneri-san. Como vai? Claro que pode entrar.
A ironia explícita fez com que um sorrisinho de canto nascesse nos lábios dele; e com um olhar ansioso, Toneri puxou a pequena e delicada mão pálida.
— Olá, Hinata.
Beijou-a com cavalheirismo.
— É sempre um prazer surpreendê-la.
Sentada numa das caixas do escritório, Shion fez uma careta divertida. Embora fosse um maldito galinho, Toneri não era dado a paquerar com os talentos da agência; ainda menos aos que perseguia.
— Bem, já que estão aqui, acho que vou mesmo ter que usá-los.
Um pouco sem graça, Hinata puxou a mão de volta.
— Viu só? – Naruto soou alto, claramente incomodado – Ela não precisa da minha ajuda. Eu disse à vocês.
Quando Hinata ergueu o olhar para além do visitante de cabelos claros, deparou-se com Naruto, Menma e Hanabi ao fundo da porta. Embora o loiro parecesse falar com sua irmã, olhava diretamente para os olhos dela.
— Onii-chan, pare.
— Só estou dizendo que me arrastaram para cá por nada. – Ele esticou a mão na direção de Toneri. – Vê só? Ao que parece, ela já tem ajuda o suficiente.
— Eu não sabia que vocês finalmente tinham começado a sair... – Shion comentou casualmente, realmente surpresa com a reação pouco amigável do ex-.
Afinal, Naruto em geral tendia a ser amigável demais.
— Não estamos.
Hinata e Naruto responderam em coro, ambos incomodados, e um silêncio constrangedor se formou depois disso.
— Ele é um amigo, Shion. Só.
O Uzumaki bufou.
— Pensei que não éramos amigos, Hinata-san. Foi o que me disse da última vez que conversamos, não é?
— Okay, okay! – Shion exclamou auto, levantando-se no ato. – Que droga é essa, Naruto?! – Ela estava chocada! – Desde quando você é tão desagradável?
— E desde quando você empurra homem pra sua prima?!
Ele estava furioso.
Frustrado.
Por um instante, aquilo deixou Shion desconsertada...
No outro, ela estava irritada.
— Na realidade, tento empurrar homem pra minha prima desde que tínhamos dezoito anos da idade. – Ela estreitou os olhos – Mas o pretendente em questão foi burro o suficiente para confundir as minhas intenções ao ponto de me agarrar. E você quer parar de cantar de galo na casa dos outros?
Naruto sentiu o rosto queimar.
— Educação é tudo, queridinho. – Ela cruzou os braços e encarou-o como se fosse a dona do prédio. – Agora peça desculpas, pelo amor de Deus.
— Faça um favor para todos e vai se foder, Shion.
Ele deu as costas à todos e seguiu para longe com passos fortes e furiosos.
Hinata suspirou longamente; coçou a testa e balançou a cabeça negativamente.
— Sério, Hinata?! Ainda esse imbecil?
— Não é como se desse pra escolher. – Ela murmurou baixo, exausta.
Lançou um olhar de desculpas aos visitantes, antes de seguir em passos apressados na mesma direção em que o loiro seguira há instantes. Como Naruto esperava o elevador, ela não tardou a alcançá-lo.
— Naruto!... Naruto!
Ela agarrou o braço dele, a voz irritada.
— Qual é o seu problema?!
Ele estreitou os lábios, incomodado.
— Qual é o seu problema?!... Aquele imbecil está te cantando para levá-la embora, será que não percebe?!
— É claro que eu percebi! Mas nem por isso você precisa agir dessa forma. O que deu em você para falar com a Shion daquela maneira?!... Justo a Shion! Vocês se gostavam, lembra? Há menos de cinco anos se agarravam em tudo quanto era buraco na casa dos meus pais!
— Pare.
— O que? Não é uma mentira.
Naruto estreitou os lábios e olhou-a de canto.
— Parece enciumada.
Hinata enrubesceu.
— Não estou enciumada!
— Claro que não. – Naruto sorriu ocamente. – Você me superou, não é? Mas eu ainda não te superei, então pare. – Ele tornou a olhar para o elevador. – Não gosto de pensar que tem ciúmes. Me dá esperanças.
O silêncio se fez, longo, incômodo e constrangedor, e as portas de metal finalmente se abriram para Naruto, que adentrou sem pestanejar. Ele viu Hinata erguer os olhos em sua direção, e sentiu o peito apertar por notar que não era capaz de decifrar os seus sentimentos.
Queria que ela negasse.
Queria que ela gritasse com ele e negasse tudo o que havia acabado de afirmar.
Mas, ao invés disso, Hinata deu outro suspiro, o mais cansado até então, e adentrou no cubículo antes de as portas se fecharem.
Naruto sentiu o peito queimar, e seu coração palpitou como o de um adolescente.
— Você é idiota?
Foi tudo o que ela perguntou. A voz baixa, os olhos sérios.
— Sou. – Naruto sorriu fracamente. Respirou fundo, ergueu a cabeça e encarou o teto espelhado. – Eu sou Naruto Uzumaki, a criatura mais imbecil que o planeta terra já abrigou! – Exclamou em voz alta, e então tornou a olhar para o rosto dela.
Hinata continuava séria, e seus olhos eram impenetráveis.
— Desculpe. – Ele soou sincero. – A minha vida inteira eu fui um covarde, um medroso... E agora estou sendo um estúpido. Mas é tudo por sua causa, Hinata Hyuuga... Porque você é estupidamente linda, e eu simplesmente não consigo ver qualquer cara babando por você sem fazer nada.
Com o rosto enrubescido, Hinata desviou o olhar. Porque ele tinha que ser assim?!... Sempre tão direto, sempre tão sincero?!...
— Bem... – Ela ajeitou os cabelos timidamente. – Mudando de assunto...
— Eu não quero mudar de assunto. – Ele afirmou. – Quero que me ouça. Quero que acredite em mim. Inferno! Eu estou dizendo que te amo! – Ele gesticulou. – Que odeio quando outros caras dão em cima de você e eu não posso fazer nada! Porque, aparentemente, eu não sou nada além do seu amigo!...
— Naruto...
— Ah! Nem amigo eu sou mais, não é?
— Certo! Pare de falar!
O elevador parou na garagem, mas nenhum dos dois fez menção de descer, de modo que as portas simplesmente se fecharam de novo.
— Eu quero me desculpar... Pelo que disse no carro, naquela noite.
Com o rosto vermelho e o estômago embrulhado, ela tentou olhá-lo novamente.
— Sei que não deveria ter dito o que disse...
Hinata se aproximou lentamente, envergonhada. Envolveu-o num abraço carinhoso e extremamente hesitante, que fez Naruto paralisar completamente. A tensão de Hinata só se desfez quando, depois de um instante longo, o sentiu retribuir ao abraço; foi como se um peso saísse dos ombros dela, como se finalmente pudesse voltar a respirar.
Escondeu o rosto ligeiramente avermelhado no ombro dele, que a apertou.
— Eu devo ter enlouquecido quando disse aquilo, e sinceramente sinto muito por isso... – Ela sussurrou baixinho. – Você é meu amigo, Naruto... – Afirmou. – Meu melhor amigo, provavelmente... E independente de qualquer coisa, eu nunca, nunca vou deixar de amá-lo.
Ele exalou o ar dos pulmões.
— É muito cruel dizer isso a alguém que te ama.
Ela deu os ombros, ainda encolhida nos braços dele.
— Tudo bem, então... – Naruto balançou a cabeça em negação, alisou a cabeleira azulada e beijou-a carinhosamente. – Amigos, hein...
~
A sala da presidência da Uchiha Company dificilmente servia como um local para reuniões, menos ainda para servir como palco de uma discussão familiar que, pelo que Sasuke conseguia notar na expressão dos outros dois, seria bem longa.
Três canecas de café quente e amargo haviam sido postas na mesa do presidente, mas apesar da paixão pela bebida, nenhum dos Uchiha parecia disposto a beber nada. O mais jovem foi o primeiro a puxar seu café; ele bebericou lentamente, nunca desviando os olhos dos dois familiares à sua frente.
— Então...?
Itachi suspirou, desconfortável.
Ele parecia não querer estar ali...
Ou talvez não quisesse falar o que devia falar.
De um jeito bastante incomodado, o irmão mais velho retirou qualquer coisa do bolso e jogou na direção do irmão. Sasuke franziu o cenho e encarou com confusão a foto de família que não o dizia absolutamente nada.
— É a sua namorada.
Itachi esclareceu.
— Sasuke, você sabia que a Sakura é prima dos pais da tia Rin?
Depois de enfim compreender o teor da conversa, Sasuke suspirou longamente. Bebeu um gole gordo, repentino, de café e tentou ignorar a incômoda sensação de ter o café queimando em sua garganta.
— Sabia. – Confessou dando de ombros. – Ela reconheceu a Rin, e me contou na mesma hora... Eu pedi para não mencionar nada. Já que o tio age todo paranoico em relação aos pais da esposa, pensei que era o melhor a se fazer.
— Bom, então não pensou direito. – Fugaku falou calmamente.
Sasuke bufou.
— É só um parentesco bobo...
— Se fosse só um parentesco bobo, Sasuke, aquela família não estaria tentando tirar dinheiro do seu avô para te afastar da garota.
Aquilo o surpreendeu.
Por um segundo, Sasuke sequer pôde se mover.
— Tirar dinheiro... Espera. – Ele riu. – Do que vocês estão falando? Eu e a Sakura terminamos há semanas! Foi ela quem me chutou, para começo de conversa!... – Ele sentiu o estômago revirar, e seu rosto queimou ao notar o olhar frio do pai. – Ela não quer me ver nem pintado de ouro! Não tem como estar metida nisso!... Sakura não liga pro meu dinheiro. Ela nunca ligou!
— Ninguém está falando isso, irmão...
Itachi lhe ofereceu um sorriso penoso, que atingiu a alma de Sasuke como um raio. Não... Sakura não era interesseira. Ela não o deixava nem pagar o café, pelo amor de Deus!... Por que Itachi pensaria algo assim?! Como ele podia acreditar em algo assim?!
— Madara está mentindo. Ele está mentindo! Quer que vocês pensem mal dela!...
— Seu avô não me disse nada, Sasuke. – Fugaku afirmou. – Eu descobri. E, por favor, acalme-se. Ninguém está falando que sua namorada está envolvida... Nem eu, nem seu irmão acreditamos nessa possibilidade.
Ele garantiu, e Sasuke finalmente foi capaz de respirar.
— Mas... Se não é isso...
— Seu avô está sendo chantageado, Sasuke. Por acaso ouviu o que eu disse?... Estão tentando chantageá-lo para afastar vocês dois.
Sasuke o havia escudado, mas ainda não tinha compreendido.
— Eu vi isso acontecer uma vez, filho, e não vou deixar se repetir.
— Espere... – Sasuke riu. – Eu já disse que Sakura e eu não temos mais nada. Já disse que foi ela mesma quem me largou.
— Não é porque não estão juntos que não tem mais nada. – Fugaku pôde concluir só de olhar pro rosto do filho, que estava pálido de preocupação. – Eu nunca pensei que falaria abertamente sobre isso com vocês... Mas não há outra opção.
Ele encarou Sasuke com seriedade.
— Aquele homem pôs a filha prendeu a filha em um hospital em troca de uma pensão, Sasuke. Aquela mulher levou a própria neta para abandonar num orfanato... Eles tiraram a filha da Rin sem nenhum peso na consciência. Consegue entender isso?!
Sasuke parecia embasbacado.
— Bem, vocês fizeram o mesmo...
— Eu não sou o pai dela, nem o seu avô. Mikoto também não era a mãe da Rin, Sasuke... Para a nossa família, aquela garota não passava de uma golpista. Ela era a vilã. A mulher que tirou Obito de casa, a mulher que o fez odiar a família.
— E vocês bem que mereceram. – Sasuke soou frio.
— Eu nunca disse que não. – Fugaku confessou. – Eu sou odiado pelo meu irmão e vou ser pelo resto da minha vida. Minha sobrinha, que ironicamente se tornou minha nora, nunca se sentir confortável na minha presença... E eu nunca, nunca vou me perdoar por meu silêncio. Pelas conseqüências que ele teve sobre a vida de Obito, e principalmente sobre a vida daquela garota.
Sasuke não conseguiu respondê-lo.
Sua mente flutuava, e ele se sentia incapaz de raciocinar.
Madara estava sendo chantageado... Para afastá-lo de Sakura.
— Eu não consegui fazer nada para proteger o Obito... Mas isso não vai se repetir com o meu filho. Eu não vou permitir...
O sonho assustador que Sasuke tivera meses atrás vagou por sua cabeça como um zunido incômodo; e as imagens sinistras do casamento fracassado tornaram a atormentá-lo: uma Sakura tristonha fugindo de um casamento infeliz, e então, de repente, sendo capturada, e consequentemente condenada ao destino de Rin.
— Não precisa se preocupar, pai. – Sasuke murmurou lentamente, debilmente, interrompendo o raciocínio do pai. – Sakura e eu não temos mais nada... – Ele garantiu calmamente, a voz baixa. – E nem vamos voltar a ter. – Afirmou.
E aquilo quebrou seu coração.
Despedaçou sua alma.
— Eu não vou voltar a vê-la...
Um silêncio mórbido se fez após aquela promessa, e os dois Uchihas restantes pareceram respeitar o silêncio de Sasuke como se fosse um luto, por minutos intermináveis.
— Não é só isso, Sasuke...
Itachi decidiu dizer quando achou apropriado (ou talvez menos desapropriado).
Sasuke lançou um olhar vazio em direção ao irmão, fazendo com que Itachi finalmente pudesse ter certeza sobre as dimensões de seus sentimentos em relação à jovem Haruno.
Por um minuto, ele pensou em não dizê-lo...
Sasuke já tinha dores demais, agonias demais.
Mas ele precisava dizer... Precisava contar, desabafar.
Precisava de ajuda.
— Kasumi está se encontrando com aquelas pessoas. Sasuke. – Ele decidiu dizer. – Pior que isso: está sustentando aqueles dois.
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