50 Tons De Uchiha
40 Dores de Cabeça
Notas iniciais
Capítulo 40 – Dores de Cabeça
Na vida, há dores de cabeça e Dores de cabeça.
Sasuke Uchiha considerava simples dores toleráveis; apesar de cansativas, ele estava acostumado a conviver com elas. Mas existem também as Dores de cabeça, que de alguma forma fazem com que a idéia de decepar a cabeça se torne sensata – e de fato, até agradável.
Essa era a situação de Sasuke naquela fatídica manhã, enquanto aguardava – muito impaciente, por sinal – que seu pai aparecesse no hall da mansão Uchiha. Era impressionante o fato de que aquele lugar, o lar de sua infância, adolescência e do início de sua vida adulta – que não fora de fato nada mal – o fizesse se sentir tão mal agora. A mansão agora parecia grande, fria, solitária e até sufocante, e a cabeça do jovem Uchiha doía como o diabo, tamanha sua vontade de simplesmente cair fora dali.
Claro que, para Sasuke Uchiha – e ele realmente não conseguia pensar em si mesmo como “Sasuke”, uma vez que o seu sobrenome havia se tornado um sufixo quase insuportável, mas sempre presente –, nada era tão fácil assim.
— Diga-me, Itachi. Desde quando Kasumi é burra?
— Minha esposa não é burra, Sasuke.
— Eu costumava pensar assim, mas ela está me saindo uma bela idiota.
Sasuke estava claramente mal humorado.
Itachi sabia – tinha certeza – de que o problema de Kasumi era apenas uma fagulha influenciando seu humor, mas uma vez que o irmão havia se disposto a ajudá-lo, decidiu que não implicaria com ele.
Ele sabia que o principal tormento da vida de Sasuke, ao menos nos últimos tempos, era Sakura. Sabia que devia conversar com ele, aconselhá-lo sobre a conversa que haviam tido no dia anterior, mas a verdade era que Itachi estava cansado, e sua mente era completamente ocupada pelos problemas causados por sua própria mulher. Não era muito justo para com Sasuke, mas ele simplesmente não podia evitar.
— Será que o pai está pedindo pra fabricar um terno novo? Nunca vi um homem demorar tanto pra se trocar!
Sasuke sempre tinha sido muito afobado, mas em geral tentava controlar esses impulsos. Itachi sorriu, mas controlou a língua; estava decidido a não provocá-lo naquela manhã.
Mal sabia ele, no entanto, que o mais jovem queria exatamente isso. Não que gostasse quando o irmão zombava dele – ele detestava! –, mas ao menos isso o faria perceber o quão idiota estava sendo, e assim, finalmente se forçaria a calar a boca.
Sasuke sabia que estava sendo chato, mas não podia evitar. Sinceramente, Sasuke se sentia no direito de estar irritado: sua família estava um caos, sua mãe doente; sua cunhada tinha se convertido numa imbecil e seu avô, num monstro.
Ele não podia nem ter um namoro normal. Tinha que se apaixonar por uma mulher teimosa, idiota e irritante.
Apertou os olhos e pressionou as têmporas.
Tinha prometido a si mesmo que não pensaria mais nisso, que não pensaria mais nela, para a sua própria segurança – e a dela, principalmente... Mas aquilo doía. Ele mal havia pregado os olhos na última noite. Embora de fato tivesse dito a ela que não mais a procuraria depois daquela discussão horrível, Sasuke tinha, no fundo de seu coração, guardado alguma esperança. De que ela, ou talvez algo os juntasse de novo.
Eles se gostavam, afinal.
Ele a amava. E apesar de esse pensamento ser assustador, ele tinha que admitir para si mesmo que já sabia disso fazia algum tempo, mas agora... Agora nada disso adiantaria de qualquer coisa.
Mesmo que Sakura viesse até ele, Sasuke não poderia aceitá-la. E saber daquilo fazia sua cabeça doer como o inferno.
De alguma forma, Itachi sabia no que o irmão estava pensando – ou ao menos em quem ele estava pensando. Ele tinha ficado silencioso de uma hora pra outra, seus olhos, que estavam profundos graças às olheiras da noite mal dormida, pareciam perdidos em seus próprios pensamentos, e o mais velho decidiu que não poderia mais fingir que Sasuke estava bem.
Nem por Kasumi.
— Sasuke...
Ele se aproximou do irmão com hesitação, e pousou uma das mãos sobre os ombros do mais jovem. Como se despertasse, os olhos negros dele se ergueram até o rosto do irmão.
“Como você está?”; “Parece exausto...”; “Sobre a Sakura...”... Todas aquelas frases passaram pela cabeça de Itachi, mas ele simplesmente não conseguiu expressá-las.
— Sinto muito.
Foi só o que conseguiu dizer, desviando seu olhar. E Sasuke conseguiu captar todos os pensamentos do irmão por aquela única frase.
Foi naquele momento que Fugaku chegou – graças aos céus!
— Vamos... – Sasuke murmurou. Por mais que Itachi quisesse impedi-lo, não o fez. Por mais que soubesse o quanto o irmão precisava ser ouvido, não pôde detê-lo quando o viu passar pela porta... Não pode fazer nada além de segui-lo.
Depois, ele decidiu.
Depois que fizessem o que tinham que fazer naquele dia, eles resolveriam isso. Sasuke desabafaria, mesmo que Itachi precisasse usar a força para isso. Mas antes disso...
Antes disso tinha que dar um jeito na bendita esposa.
~
Sakura sabia que não estava sendo muito inteligente.
Ela sabia que ir encontrar Kasumi Uchiha para ajudá-la a organizar o quarto do bebê – uma atividade que a colocava como um membro, ou quase-membro daquele núcleo familiar – era no mínimo estúpido, uma vez que ela estava tentando se manter afastada de Sasuke.
Se conseguisse ser minimamente honesta consigo mesma, Sakura admitiria que havia acordado cedo demais apenas para ajudar uma amiga; que havia se arrumado demais para praticar uma atividade basicamente braçal, e que havia se afobado demais para chegar à casa dos Uchiha o mais depressa possível...
Mas ela não era.
Então, colocou na cabeça que tudo aquilo era por amizade, que toda a animação se devia ao fato de finalmente ter sido considerada amiga de Kasumi, uma pessoa que ela sempre admirou.
Mas, claro, o mesmo não podia se dizer de Kasumi. Ela era honesta, não só consigo, como também com os outros. Apesar de te prometido a si mesma que tentaria não se meter nos assuntos de Sasuke e Sakura, ela se conhecia bem o suficiente para saber que tinha esperanças que o cunhado aparecesse em casa uma hora ou outra durante o dia, e assim, acidentalmente ou não, acabaria promovendo um encontro entre os pombinhos teimosos.
Kasumi não era só honesta, como também astuta, e logo percebeu a situação de Sakura: ela parecia ter passado pelo menos uma hora no espelho, tentando ajeitar os cabelos de num penteado fofo – estavam ondulados, com uma trança não muito grossa em forma de arquinho –, porém pouco prático, tal como suas roupas. Ela sabia que uma gota de tinta pingada na blusa branca de bolinhas que Sakura usava a faria se perder para sempre, e apostava que a Haruno também tinha consciência disso. Ela havia chegado com quase quarenta minutos de antecedência, e havia se mostrado completamente afobada desde então.
Sakura era uma mulher inteligente, então Kasumi concluiu que, mesmo que inconscientemente, estava tão ansiosa para uma visita inesperada de Sasuke quanto a própria dona da casa.
Ino também estava lá, afinal. Fora levada pela curiosidade – afinal, não era todo dia em que Sakura madrugava para se arrumar para ajudar uma amiga— e como Kasumi de fato precisava de ajuda na mão de obra, ficou muito agradecida diante do interesse da jovem.
Por fim, depois de ficarem quase meia hora sentadas na sala de visitas tomando chá, Kasumi Uchiha finalmente pigarreou, chamando a atenção das duas visitas. Ela lhes deu um de seus sorrisos brilhantes e animadores, bateu palma uma vez e se levantou, irradiando energia – mesmo com a enorme barriga a tiracolo.
— Bem, eu sei que isso é tolice. Eu tenho dinheiro para contratar um bendito pintor – Ela riu. – mas sabem que eu gosto de fazer as coisas da minha maneira...
De fato, qualquer um que tinha trabalhado com Kasumi algum dia saberia disso.
— E eu gostaria de fazer o que posso pelo meu bebê. Com as minhas mãos. É mais simbólico, não acham?
Sakura sorriu, mas Ino arqueou a sobrancelha. Kasumi imaginou que ela suspeitava de sua intenção ao convidar Sakura tanto quanto desconfiava da boa intenção de Sakura ao aceitar o convite.
— Também vou pedir para que não comentem isso com a minha família... – Ela riu, nervosa. – Itachi e meu pai estão trabalhando, e mamãe foi para a fisioterapia com a moça que cuida da casa. – Pigarreou. – Eu lhes disse que contratei uma equipe.
Ino gargalhou.
— Uma equipe?! Bem, se Tenten estivesse aqui, realmente seria uma equipe. – Ela olhou para Sakura, zombeteira. – A Equipe Inicial do Diário de Konoha, como bem sabem.
Kasumi estreitou os lábios.
— Bem, eu queria ter chamado Tenten, mas ela está ocupada com o jornal, como podem imaginar.
Ino podia. Na verdade, Obito era quase tão terrível quanto Kasumi quando estava no controle.
E agora ela estava trabalhando em seu dia de folga para a própria Kasumi, não podia haver maior ironia.
— Mas se sua família não quer que você faça isso...
— Ah, não. Nem comece, Sakura! Se Itachi pudesse, me algemaria na cama. Ele acha que gravidez é sinônimo de invalidez.
Sakura suspirou. Itachi fazia bem o tipo de marido que agia dessa maneira, mas mesmo assim...
— Devo lembrá-la de que sou incapaz de permanecer quieta no mesmo canto por mais de meia hora? Aliás, é por isso que não aguento mais ficar aqui bebendo chá. Ah, vamos lá! O quarto já foi pintado, os móveis já estão montados... Só quero ajeitar os detalhes! Fazer um desenho bonito na parede central, pendurar alguns quadros, as cortinas... Eu faria tudo isso com Itachi, mas ele está com a agenda cheia e sou ansiosa demais para esperar mais uma semana!
Ino riu de novo, e Sakura por fim concordou, vencida. Podia entender Kasumi.
— Só os detalhes!
Ela sentiu a necessidade de adverti-la, apesar de duvidar que qualquer advertência pudesse parar Kasumi Uchiha se ela estivesse decidida. A esposa de Itachi sorriu, muito animada, e por fim se afastou do sofá para seguir na direção do quarto da futura integrante da família.
Ino resmungou sobre sua má sorte enquanto seguia a chefe, mas Sakura se deteve por um instante, enquanto lançava um olhar pensativo e ligeiramente melancólico na direção da porta.
Ao menos era certo que não havia nenhum risco de topar com Sasuke Uchiha.
Ela sentiu o ar sumir de seus pulmões por um instante; comprimiu os lábios e tentou sorrir.
— Que sorte a minha... – Murmurou para si mesma.
Mas nem ela pôde acreditar naquelas palavras.
~
Naruto acordou tarde naquela manhã; já passava das dez quando ele desceu do quarto. Passara a última tarde e o resto da noite ajudando Hinata com a bendita mudança, e aquilo o havia esgotado, mental e fisicamente.
É claro que o tal Toneri continuaria dando em cima de Hinata, mesmo que Naruto demonstrasse sua insatisfação com caras e bocas; e é claro que, graças ao claro descontento do rapaz, Menma e Hanabi fariam piadinhas sobre a situação pelo resto do dia, só para deixá-lo ou irritado, ou enciumado. Também não podia esquecer-se de Shion: é claro que ela não perderia a oportunidade de passar o resto do dia importunando-o com a memória de que ele havia se comportado como um idiota.
E Hinata, obviamente, continuava linda e bela, sorrindo de maneira simpática para todos, se fazendo de idiota desentendida o tempo inteiro.
Naruto apostava que ela tinha se divertido como nunca diante de seu sofrimento!
Tudo aquilo tinha sido no mínimo estressante, mas ao menos eles dois haviam feito as pazes. Pensar nisso o fez sorrir, porque finalmente pôde voltar a falar com Hinata como Naruto, não o babaca apaixonado que era dispensado a cada frase dita.
Pelo menos não apenas o babaca apaixonado que era dispensado a cada frase dita.
Então, apesar de tudo, mesmo depois de um dia tão difícil, Naruto havia acordado com um ligeiro bom humor. Mesmo cansado, estava ansioso para chegar à empresa e arregaçar as mangas para terminar qualquer coisa que precisasse ser feita.
Hinata havia convidado a todos os que a haviam ajudado para uma pequena confraternização naquela noite, e ele sabia que, mesmo correndo o risco de se zangar com os demais convidados, não podia perder aquela chance.
Ela obviamente estava tentando colocá-lo em sua vida de novo, e ainda que fosse como um velho amigo, Naruto não estava disposto a recusar a oferta. Não podia se dar esse luxo.
Estava pensando no que poderia levar para a festa quando chegou à sala e se deparou com a prima deitada muito à vontade num sofá, ainda de pijamas, com um pote de sorvete grande em mãos.
Como aquela imagem não podia ser boa coisa, ele foi muito cauteloso ao se aproximar.
Karin estava sozinha no país; o pai precisara viajar a negócios e ela preferiu continuar com o treinamento na Uchiha; havia ficado combinado entre Kushina e Nagato que, até o retorno do pai, ela ficaria hospedada na casa da tia.
— Não foi trabalhar? – Ele perguntou num tom curioso e inocente, enquanto tomava lugar aos pés da ruiva. – Estava tão empenhada... Nem te vi durante o café da manhã nos últimos dias.
A ruiva o respondeu com um singelo levantar de dedo – o médio, sem sequer olhar para ele. Naruto suspirou longamente, porque sabia que aquilo só podia significar uma coisa. Ele empurrou os pés dela do sofá de um modo não tão gentil, fazendo-a sentar-se.
— Eu te avisei que ia dar merda.
Ela voltou a erguer o dedo.
— O que ele fez dessa vez?
Exasperada, Karin tirou a colher da boca e lançou um olhar gélido na direção do primo. – Quer os detalhes sujos?
— Longe de mim!
Mesmo com a negação muito sincera do primo, Karin ficou tentada a dizer a verdade. Sabia que apesar da amizade, Naruto iria até Sasuke e lhe daria um belo murro se soubesse a forma como ele a havia tratado – e como ela tinha se sentido humilhada com tudo aquilo –, mas simplesmente não sentiu vontade de causar discórdia.
Sasuke já estava no inferno, de qualquer forma.
Ela sabia disso. E odiava saber.
Karin suspirou longamente, nervosa. De fato, ironicamente, ele estava num inferno muito semelhante ao dela própria: chutado pela pessoa como quem desejava ficar.
— Karin, eu te avisei que uma hora ou outra ele ia se cansar de você.
A ruiva estreitou as sobrancelhas, pensativa. Tecnicamente não era bem isso o que tinha acontecido... Ela podia se orgulhar ao dizer que ela é que tinha se cansado de ser tratada daquela forma.
— Talvez seja melhor assim. – Naruto prosseguiu – Ele tá na fossa por causa da namorada, ela tá na fossa por causa dele... Uma hora ou outra eles vão voltar, e ia ser ainda pior pra você. Sei que ia se sentir ainda pior.
Era verdade, mas Karin não queria ouvir Naruto dizer verdades, então enfiou a colher no sorvete e voltou a comer, sem se importar com o olhar reprovador do primo, que parecia estar mentalmente comparando-a com uma porca.
Naruto levou um minuto observando a prima; ela parecia estar mais que abatida: parecia furiosa, e aquilo era uma novidade. Em geral, quando Sasuke a dispensava, Karin ficava trancada no quarto, sem receber ninguém, mergulhando num estado depressivo. Talvez a raiva fosse algo bom... Talvez o fato de que Sasuke finalmente havia se envolvido seriamente com alguém – com alguém que não era ela— a tivesse feito acordar.
— Você quer que eu bata nele?
Naruto perguntou após um período de silêncio. Karin ergueu os olhos avermelhados na direção do primo e concluiu que ele falava mesmo sério... E mesmo assim, negou.
Não queria isso. Estava cansada de tudo isso.
Ela se aproximou e se aconchegou no peito de Naruto, enquanto olhava fixamente para a TV. A tela exibia uma daquelas comédias-dramáticas românticas muito melosas, e Karin engoliu o choro enquanto as cenas passavam.
Ela não precisou verbalizar a negação. Naruto entendeu que ela estava desistindo, e que não queria mais tocar naquele assunto.
Mesmo assim, ele decidiu para si mesmo, ele possivelmente daria um belo soco nas fuças de Sasuke Uchiha da próxima vez que o encontrasse.
~
Hinata acordou com um chute no rosto.
Era uma péssima maneira de acordar depois de um dia tão cansativo, mas ela não devia ficar tão surpresa com isso. Afinal, tinha dois furacões dormindo ao seu lado. Na verdade, devia sim estar surpresa, mas por acordar quase onze horas. O fato de Menma e Hanabi não conseguirem acordá-la antes disso era um milagre por si só.
Hinata se remexeu na cama, preguiçosa, e levou outro chute; dessa vez o pé ficou lá, e ela teve que contar até dez mentalmente para não acordar Menma Uzumaki – a dona do pé violento – aos tapas. Não que a ideia fosse ruim, mas ela achava que a Uzumaki merecia um pouco mais de consideração, uma vez que passara quase a noite inteira ajudando na mudança, mesmo quando os outros se foram.
Claro que depois de ajudar, ela e Hanabi deixaram o lugar um verdadeiro caos depois de decidirem fazer uma “festinha das meninas” que Hinata mais observou do que participou de fato.
Ela suspirou longamente. Não era verdade... Tinha participado dos jogos, e tinha se divertido. Só não conseguia entender como as garotas podiam ter tanta energia ao fim de um dia cansativo – ela não tinha.
Com cuidado, Hinata tentou se levantar. As duas mais jovens dormiam aos seus pés na cama, e pela posição de Hanabi, Hinata imaginou que ela é quem deveria tê-la acordado com o chute. Elas dormiam profundamente, mas se mexiam muito, às vezes bruscamente.
Como a vida inteira tinha sido assim, Hinata não se preocupou em observá-las: vestiu uma roupa qualquer e seguiu para a cozinha, decidida a arrumar toda a bagunça da noite anterior depois de engolir qualquer coisa como café da manhã.
Enquanto ligava a cafeteira e colocava dois pedaços de pão na torradeira, mentalmente tomava nota de tudo o que devia comprar para a confraternização da noite. Tinha que encomendar alguma coisa para comer, é claro. E talvez pedir para as meninas prepararem alguns jogos – elas eram mesmo boas nisso. Talvez devesse sugerir um karaokê?
Hinata fez uma careta enquanto as opções apareciam em sua mente. Ela nunca tinha sido boa em organizar festas. Eventos sim, reuniões, é claro, mas festas? Festinhas? Não, ela nunca tinha sido boa. Nunca tinha precisado ser, afinal. Era uma pessoa de muita família, mas poucos amigos.
Hinata observou o apartamento analiticamente. Ele era perfeito para uma pessoa, talvez para um casal... Mas era um lugar pequeno; tinha uma sala consideravelmente grande e um banheiro confortável, mas o quarto pequeno, a cozinha minúscula e o escritório menor ainda; definitivamente um lugar impróprio para aquele tipo de coisa.
Era uma sorte que Neji estivesse viajando com o pai e o tio! E embora estivesse magoada com o fato de nem Sasuke, nem Itachi sequer terem respondido a mensagem em que os convidava, a verdade é que era um alívio ter dois – na verdade três, já que Kasumi contava com Itachi – convidados a menos.
— Espero que todos caibam na sala...
Ela refletiu ao observar o lugar.
Foi quando o interfone tocou. Ela estranhou, já que não estava esperando nada, mas atendeu mesmo assim. Foi quando uma torrente de vozes animadas – e tão altas que ela precisou afastar o fone do ouvido – lhe desejou bom dia.
— Kiba?... Shino... E Sai...?
Estava acostumada com os berros de Kiba, mas ela nunca tinha visto Shino ou Sai aumentando o tom de voz para qualquer coisa que não fosse cantar. Eles pareciam... Bêbados?
— Vocês estão bem?
— Chegamos para comemorar seu novo apartamento! – Foi Kiba quem respondeu, com muita energia e animação. – Abre isso, abre isso! Vamos começar a festa!
Hinata riu.
— Acho que estão umas oito horas adiantadas.
— Aaah! Vamos lá! A gente te ajuda a arrumar as coisas aí! – Ela ouviu o barulho de alguma coisa metálica batendo no portão do prédio – Abre logo isso!!
Ela suspirou longamente, mas por fim os liberou para entrar.
Eram apenas três rapazes, afinal. E se eles diziam que iam ajudar, por que recusar? Eles definitivamente deviam saber mais de festas do que ela.
~
O quarto reservado para Akane era enorme – muito grande para um bebê que nem nascer tinha nascido ainda – e cheio de coisas que ela não deveria usar sozinha pelo menos até os seis anos de idade – como livros, jogos e até um laptop que, apesar de cor-de-rosa, não era exatamente infantil.
Apesar de os móveis estarem prontos e nos lugares, como a própria Kasumi havia avisado mais cedo, tudo parecia uma bagunça: tinha caixas, brinquedos e ursos espalhados por todos os lados; caixas de mantas, cobertores ou o que quer que fosse, estavam empilhadas ao lado do berço e as roupinhas – soltas ou em caixas – tomavam conta do berço e de um sofá pequeno posto encostado numa das paredes.
Tudo parecia um verdadeiro caos!
Tanto Sakura quanto Ino conheciam Kasumi, então puderam finalmente entender o motivo de ela parecer tão desesperada em busca de ajuda. Afinal, a filha de Obito sempre fora uma pessoa neurótica com organização.
Obviamente ela não podia dar conta daquele caos sozinha; algumas coisas eram pesadas, outras (como o móbile e as cortinas) precisavam ser instaladas, e estava claro que ela até então não tinha conseguido ajuda do resto da família.
Quando começou a desfazer as caixas de enfeites para pendurá-los – ou pregá-los – aonde quer que fossem seus lugares, Ino percebeu que estava errada. Aparentemente, Kasumi realmente não tinha pensado em nenhum plano maligno para ajudar Sakura e Sasuke a reatarem, e isso era absurdamente frustrante, porque significava que ela havia abdicado de seu dia de folga por nada.
À Sakura, inicialmente fora delegada a responsabilidade de organizar a “zona zoo”, como Kasumi gostava de chamar. Não era um trabalho muito difícil, mas ela precisava ajeitar o espaço para começar a trabalhar nos esboços que usaria para os benditos desenhos nas paredes.
— Os homens da família Uchiha não são muito organizados.
Kasumi comentou quando notou a testa de Sakura se enrugando em claro desespero. Eram tantas pelúcias!...
— Akane ganhou de um tudo, imagino. Meu pai não para de comprar esses ursinhos. – Ela riu enquanto erguia um dos exemplares. – Mas nem ele, nem Itachi, nem Sasuke tem a capacidade de encontrar um ponto para organizar os presentes. Eu ando bastante ocupada nos últimos tempos... Como não posso ficar aqui vigiando eles, sempre que entro no quarto tem alguma coisa nova, em algum lugar diferente.
Ela suspirou longamente, claramente cansada.
— Foi horrível tentar arrumar tudo sozinha. Mas quando acabarmos hoje... – Ela cerrou os olhos. – Eles nunca mais vão colocar uma agulha fora do lugar.
Apesar das palavras soarem rígidas e sérias, Kasumi sorriu quando voltou ao seu trabalho, que basicamente era o de dobrar e guardar, organizadamente, as dezenas de roupas que seu bebê havia ganhado – a maioria delas vinda de amigos de Itachi.
Ela estava feliz... Muito feliz. E qualquer um podia ver isso só ao olhá-la.
Apesar de todo o esforço que fizera a vida inteira para se manter firme, forte e independente, Kasumi sentia que nunca tinha sido tão feliz quanto agora, que os anos de solidão tinham ficado para trás.
A velha Kasumi tinha “perdido”: a nova tinha novos pensamentos, uma nova mente e novos sentimentos. Ela se rendera à insistência e ao amor de Obito e Itachi, mas apesar de saber que a seu velho eu tinha perdido... Bem, ela não podia se sentir mais vitoriosa.
Sentia-se completa. Não só por Itachi, não só por Obito ou Rin, mas por todos eles. Por Sasuke, por Akane. Pela família que havia conseguido conquistar.
Sua pequena Akane Uchiha teria uma família completa: com um pai, mãe, avós e um tio coruja. Ela seria criada em um lar quente, carinhoso e cheio de amor. Teria roupas novas, brinquedos e tudo o que a vida lamentavelmente tirara de Kasumi.
Enquanto dobrava uma manta vermelha feita à mão pela mãe de Rin, Kasumi não pôde deixar de sorrir. Akane tinha uma manta feita pela bisavó. Akane teria uma bisavó!... Ela alisou a barriga suavemente.
Todo aquele amor, todo aquele carinho enviado por tantas pessoas só poderiam resultar num final feliz.
Era exatamente nisso que a senhora Uchiha pensava quando as três ouviram um barulho de carro lá fora.
Sakura parou seus recortes de moldes, mas foi Kasumi a primeira a se aproximar da janela; ela se levantou com uma cara mal-humorada e foi até a grande janela para ver quem poderia ser o tratante que atrapalhava sua manhã-da-faxina.
— É o Itachi. – Suspirou – Ele está perdido, agora. Vou fazê-lo trabalhar aqui até o anoitecer.
Sakura soltou uma risadinha, Ino deu um sorriso maldoso, e Kasumi se apoiou no vidro para tentar enxergar quem acompanhava o marido.
—... Fugaku?! – Ela soltou um grito baixo, abafado. – Como ele ousa trazer o pai aqui com essa bagunça no quarto do bebê?!...
Com certeza Fugaku vinha na intenção de presentear a neta.
— Ele vai entrar aqui...
Kasumi se sentiu hiperventilar ao concluir aquilo. Não estava esperando isso!... Não via Fugaku desde o casamento, mas o sogro certamente estava lá por Akane, e o lugar estava um caos! Mataria Itachi! Definitivamente mataria Itachi!
Sakura se aproximou achando graça; Kasumi parecia em pânico, então tentou envolvê-la com os braços na intenção de acalmá-la. Mas a Uchiha negou, se esquivou e puxou Sakura até o centro do quarto antes de empurrá-la na direção às caixas que Ino tentava esvaziar.
— Vamos, me ajudem! Temos cinco minutos para tirar essa zona das vistas do meu sogro! – Ela já estava trabalhando enquanto falava. – Quero tudo o que não seja apresentável no maldito armário agora!
O armário do quarto era absurdamente grande para um quarto de bebê, então certamente daria conta do recado, mas parecia improvável que elas conseguissem se livrar de tantas caixas e embalagens... Ao menos foi o que Ino e Sakura pensaram antes de presenciar Kasumi Uchiha entrar num tipo de “modo-rage”, empurrando as coisas em tal velocidade que assustava às outras.
— Rápido!! – Ela gesticulava, e nem Ino, nem Sakura discutiram.
Em um instante o quarto estava praticamente vazio – com exceção dos móveis, dos moldes não-cortados de Sakura e do pouco que elas conseguiram organizar até então – quando elas ouviram vozes no corredor. Kasumi estava extremamente aliviada, mas Sakura empalideceu como uma folha de papel de uma hora para a outra.
Ela imaginava que não ligaria muito em aparecer para o pai ou o irmão de Sasuke. A possibilidade de eles puxarem conversa deixava-a nervosa, é verdade, mas eles dificilmente tocariam no nome do ex-. Sakura realmente não pensava em se esconder até perceber que soavam no corredor três vozes muito parecidas.
É claro que ela era incapaz de reconhecer a de Itachi ou de Fugaku, mas pôde distinguir a voz de Sasuke com extrema facilidade.
Seu coração pulou no peito.
E em sua cabeça soou um zunido tão forte que ela achou que poderia cair.
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A mansão Uchiha ficava bastante longe da casa de Obito. Umas duas horas de distância, mais ou menos. Sasuke se perguntou mais de uma vez se o tio havia comprado o imóvel na outra ponta da cidade propositalmente. Ele achava que sim, e apesar de Itachi sempre comentar que aquilo era um exagero, suspeitava que o irmão também acreditasse nisso.
— Tem certeza de que ela está aqui?
Fugaku perguntou assim que entraram na casa.
— Não quero que seu tio fique nervoso com a minha presença...
Itachi suspirou longamente.
— Itachi, seu tio não me quer perto da família dele. Eu respeito isso. Essa é a casa de Obito, e eu gostaria de resolver isso o mais rápido possível.
Sasuke balançou a cabeça, desconfortável. Entendia o que o pai queria dizer, e também entendia os motivos para o tio não querer vê-lo a meio metro de distância de Rin ou Kasumi, mas aquela era uma situação ridícula.
— Isso é ridículo. – Ouviu Itachi verbalizar seus pensamentos com um tom ríspido. – Obito insistiu para virmos morar aqui, e eu aceitei por ele, Rin e por Kasumi. Mas você é meu pai, e se eu e minha família vamos morar aqui, então é claro que sempre será bem vindo.
Ele parecia irritado.
Na verdade, todos os três pareciam e estavam irritados, mas Itachi sempre fora o menos irritável dos Uchihas, então vê-lo zangado fazia com que Sasuke se sentisse um pouco desorientado.
Ele coçou a nuca, nervoso. Balançou a cabeça e, uma vez que parecia ser o menos nervoso dali, decidiu tomar a dianteira do trio.
— Aposto que está no quarto da Akane.
Comentou brevemente, poucos instantes antes de abrir a porta do lugar em questão. Como suspeitava, Kasumi estava lá, em pé e sozinha, olhando de maneira embasbacada na porta pintada de rosa do armário – detalhe que Sasuke se lamentaria de não ter notado mais cedo.
— Kasumi?
Ela deu um pulo, espantada, e olhou para o cunhado como se ele fosse um fantasma.
— S- Sasuke! O que você...?
Ela balançou a cabeça, espantando a confusão. Tratar Sasuke daquela maneira levantaria suspeitas. Além disso, era no mínimo rude, e ele merecia mais que isso, então ela respirou fundo, colocou um sorriso no rosto e voltou a olhá-lo como se fosse a melhor surpresa do dia.
— O que vocês fazem aqui? Vi o carro chegar.
Kasumi soara muito simpática, então Sasuke arqueou uma sobrancelha de modo desconfiado. Olhou ao redor do quarto e estreitou os lábios, decidindo ignorar o comportamento estranho da cunhada.
— Viemos ver você.
Foi a voz firme de Fugaku quem a respondeu. Ele adentrou no quarto de maneira hesitante, sendo seguido por um Itachi com semblante decidido. Sasuke enrijeceu assim que pôde olhar para as feições firmes do irmão – a expressão era muito incomum para o irmão, e definitivamente mostrava que aquela não seria uma conversa fácil.
Kasumi estava diante de um Sasuke rígido, um Fugaku constrangido e um Itachi nervoso, então claramente notou que aquilo não podia ser algo bom. Ela estreitou os olhos, analisou-os com um típico olhar Uchiha e soube que aquela não poderia ser uma visita de cortesia do sogro.
Mesmo assim, ela decidiu sorrir; arqueou uma sobrancelha e olhou diretamente para Fugaku, uma vez que parecia o mais deslocado.
— Veio trazer um presente para sua neta?
Ela gesticulou ao redor do quarto.
— É o quarto dela.
Foi como se Kasumi tivesse apertado seu coração.
Fugaku não tinha trazido nada para a neta... Sequer pensara nisso.
Mikoto teria pensado nisso, é claro. Na verdade, sua esposa tinha comprado várias bugigangas que deviam ser útil, mas não tivera coragem de entregar nenhuma delas ao filho.
Fugaku quis bater a própria cabeça na parede. O fato de que seu quarto abrigava uns três ursinhos de pelúcia, mais uma bolsa de maternidade cheia de roupas para recém-nascidos deviam tê-lo feito se lembrar de trazer qualquer coisa, ou para a neta, ou para a nora, mas sua cabeça estava tão quente!... Ultimamente a única coisa em que conseguia se focar era nas frustrações – e preocupações – de sua vida.
— Tudo está lindo. – Ele comentou vagamente, embora não tivesse muita coragem de olhar em volta do quarto. Obito ou Rin, ou talvez os dois, haviam enchido aquele lugar de móveis, ursinhos e amor.
Enquanto ele não se lembrou de comprar uma chupeta sequer.
— Mas eu não...
— Não viemos falar disso. – Itachi decidiu interromper o pai, e para a sorte de Fugaku, conseguiu tomar a atenção da esposa. – Nós viemos falar sobre os seus encontros com os Nohara.
Kasumi estreitou os olhos, confusa.
— Meus encontros com-...?
— Não vá vê-los, Kasumi.
Aquilo não soou como uma ordem. Itachi conhecia Kasumi bem o suficiente para entender que uma ordem só a faria nadar contra a correnteza, mas seu tom de voz tampouco parecia soar como um pedido. Kasumi percebeu isso, e de alguma forma, a situação a irritou mais do que se ele a tivesse ordenado.
Afinal, se Itachi tivesse dado uma ordem, ela poderia só rir dele.
— Não vejo como os encontros com meus avós podem estar relacionados a qualquer um de vocês. – Ela cruzou os braços e fuzilou o marido. – Você por acaso andou me seguindo?
— Estava me escondendo algo.
— Estava escondendo do meu pai. E sabia que você ia acabar abrindo o bico. – Ela forçou uma risada nervosa, desacreditada. – Porque diabos estamos tendo essa conversa mesmo?
Sasuke suspirou.
— Eles não são quem pensa que são, Kasumi. São uns belos filhos da...
— Não vá vê-los, filha.
Fugaku finalmente conseguiu dizer, e ergueu os olhos para fitar o rosto tão parecido com o de Rin. Ela parecia chocada, não só com o pedido, mas com toda aquela situação.
— Eles não são quem você pensa que são. – Ele garantiu, mantendo firme o olhar furioso da nora. – Sei que parecem ser pessoas simples, e por isso pode achar que são inofensivos... Mas aquelas pessoas destruíram a família do seu pai.
Ela riu alto. Um riso ácido, desacreditado e ofendido.
— Desculpe, eles? Não consigo nem ouvir isso.
Ela balançou a cabeça e gesticulou com as mãos.
— Aliás, o que você está fazendo aqui, senhor Uchiha? Meu pai te botaria pra fora a pontapés, não é?
Sasuke não gostou daquilo. Ficou vermelho de raiva, e boquiaberto com a ousadia da cunhada. Estava a ponto de retrucar com ela, mas foi impedido pelo pai, que parecia muito mais tranquilo do que ele e o próprio Itachi.
— Você não estava lá, menina...
Fugaku suspirou, cansado. Estava velho demais para aquele tipo de confusão, e sabia que Kasumi era uma pessoa tão difícil quanto Obito tinha sido em sua juventude.
— Aquele homem... Ele literalmente tentou vender a sua mãe, dizendo que só a afastaria do meu irmão depois que ganhasse alguma coisa.
— Ah, claro... Diga-me, senhor Uchiha: quem trata desse tipo de negócios na Uchiha?
Kasumi cruzou os braços e olhou para o sogro de maneira debochada, mas estava consternada. Como aquele homem tinha coragem de aparecer ali do nada e lhe fazer exigências – qualquer tipo de exigências! Ele nunca tinha se preocupado em visitá-los, mesmo quando ainda viviam no antigo apartamento de Itachi. Sequer tinha demonstrado o mínimo de interesse na neta, e talvez nem soubesse que Akane era uma menina!... Como ele ousava fazer aquilo?
— Imagino que não era você, — Ela continuou – já que estava muito ocupado sucedendo o lugar do papai no legado da família. Só posso supor que o senhor Madara Uchiha lhe contou a história. E— ela adicionou ao ver que todos os três pareciam estar a ponto de retrucar – uma vez que o vovô Uchiha definitivamente não é um símbolo de cidadania e honestidade, perdoe-me se prefiro acreditar na versão das pessoas que me acolheram.
— Que te acolheram?
Sasuke riu.
— Antes ou depois de te largar no orfanato? Ou de jogar sua mãe num hospício, como se ela fosse maluca? O que de fato quase a deixou maluca...
— A sua família me jogou no orfanato! – Kasumi gritou, interrompendo-o. Ela estava vermelha e tinha a respiração irregular. – E a sua família os convenceu da loucura da minha mãe!
Sasuke arqueou uma das sobrancelhas e lançou na direção da cunhada um meio sorriso cruel, cheio de ironia e provocação. Ele estava furioso, mas se recusava a gritar ou surtar.
— Será que sua carência é tão grande que não consegue enxergar que eles estão te usando?
— Me usando?! – Ela riu de forma descontrolada; sentia seu corpo tremer de nervosismo. – Como é que eles...
— Te arrancando dinheiro, como nós sabemos que estão. – Sasuke a interrompeu.
Kasumi bem tentou retrucar, mas não conseguiu tempo, já que seu cunhado prosseguiu com um tom de voz cheio de razão, apesar de toda a irritação:
— Pelo menos a minha família não é hipócrita. Pelo menos nenhum deles está fingindo que não sabia ou que não fez nada: cada um está lidando com seus próprios pecados. A minha mãe está doente, Kasumi. Doente! – A voz dele finalmente subiu de tom. – Tem estado trancada no quarto por dias, mal consegue olhar para o meu irmão, tudo porque se sente culpada.
— Talvez porque ela seja culpada.
Apesar de ela própria não saber em que parte de sua história Mikoto Uchiha se encaixava, as palavras de Kasumi pareciam cheias de veneno, e paralisaram pai e filhos.
Fugaku sentiu seu corpo estremecer, seu corpo pesar e sua mente martelar. Ela não é culpada!, ele queria gritar, porque realmente acreditava nisso. Mikoto tinha sido usada, influenciada. Se alguém tinha culpa no que ela tinha feito, esse alguém era ele, que não a tinha protegido.
Itachi sentiu-se despedaçado.
E Sasuke simplesmente explodiu.
— Talvez a sua mãe seja culpada, afinal. Porque meu avô aceitaria meu relacionamento com Sakura – que tem as mesmas origens que Rin – tão facilmente e a rejeitaria com tanta vontade? Já pensou nisso?...
Kasumi sentiu o corpo estremecer.
— Não estou falando que ele não foi um monstro. Ele foi o culpado por toda essa droga, e vai pagar no inferno por isso. Mas pelo menos Madara não finge pra ninguém: pelo menos não fica tentando se fazer de bonzinho para nenhum de nós.
Ela forçou uma risada.
— E nem poderia, não é mesmo?
— Não! – Sasuke exclamou sorrindo, apesar da frustração. – Realmente não pode. Mas o senhor Nohara também não é..., como você disse? “Um bom exemplo de cidadania e honestidade”. Já tentou verificar a ficha criminal do seu querido avozinho?... Se tivesse curiosidade disso, saberia que ele não passa de um estelionatário de merda, que fodeu a vida da filha e da neta só pra se dar bem. E adivinha só? Agora está se dando bem em cima de você!
E foi então que, de repente, Kasumi, que estava a três passos de distância de Sasuke, estava quase em cima dele, batendo em seu rosto com tanta força que mesmo segundos depois de se afastar Sasuke ainda sentia o formato da mão dela em seu rosto, ardendo como um inferno.
Todos ficaram em um silêncio mortal pelo que pareceu uma eternidade, antes de Itachi se aproximar, agarrar o antebraço da esposa e puxá-la para longe do irmão.
— Como tem coragem de fazer isso com ele?
Ele tremia de fúria, assim como ela, que ainda não tinha tirado os olhos ácidos de cima do cunhado.
— Sai da minha casa agora! Você nunca vai tocar na minha filha!
Itachi a agarrou pelos ombros e a virou de modo que ela só pudesse olhar para ele.
— Pare de falar assim com o meu irmão! – Exigiu. – Será que você não entende? Está tão cega assim?! Ele só falou aquelas coisas porque te ama! Porque está preocupado com você! Acha que meu pai se rebaixaria a ponto de vir para cá sabendo que pode brigar com tio Obito se não estivesse preocupado?!
Kasumi balançou a cabeça e empurrou o marido.
— Eu não vou deixar os Uchiha acabarem com a minha vida, Itachi! Não de novo!
E sem esperar uma resposta, correu para fora do quarto, aos prantos. Claro que foi imediatamente seguida por Itachi, que berrava palavras pouco gentis enquanto a perseguia, provavelmente na direção do quarto que compartilhavam.
Sasuke não se mexeu.
Naquele momento não podia nem respirar.
Sentia as lágrimas queimando nos olhos, mas se recusava a derramar uma gota por aquela ingrata. Como ela ousava..! Como podia falar assim, falar aquilo para ele? Proibi-lo de ver a sobrinha! Expulsá-lo da casa do tio! Da casa de seu irmão!
Era como se ele amargasse a pior das humilhações.
— Sasuke... – Fugaku murmurou. – Eu sei que é difícil, mas pense que sua cunhada não sabe o que aconteceu ou o que está acontecendo. Ela está grávida. É um estado delicado, e suas palavras foram duras... Tente entender a dor de Kasumi.
Sasuke riu enquanto engolia o choro.
Aquilo era uma censura? Se fosse, era ainda pior do que o tapa da cunhada.
— Imagino que nenhum de nós esteja em seu melhor momento.
— Sasuke...
— Aaaah! – Ele expeliu o ar de seus pulmões. – Talvez tenha sido ótimo que o avô dela tenha se metido na minha vida e acabado com qualquer chance do meu relacionamento dar certo! – Ele rugiu.
—... Sakura ficaria insuportável se soubesse que eu gritei com Kasumi...
Ele bagunçou os cabelos e riu.
— Ia ficar furiosa se não visitássemos a Akane no hospital...
E levou os olhos vidrados até o berço da sobrinha. Honestamente, ele tinha medo de piscar... Sentia que qualquer movimento com os olhos o faria chorar, e aquilo sim seria pior do que ser humilhado por Kasumi.
Levou mais que um instante para que Fugaku digerisse as palavras do filho. Ele simplesmente não sabia como interpretar aquilo. Sasuke tinha ido tão sério assim com a garota Haruno?... Pensava tão sério nela? O filho nunca tinha ido à longo prazo em nenhum relacionamento. Sabia que ele gostava da garota, mas aquilo...
Apesar de Sasuke não notar a agonia do pai, Fugaku sentiu que ainda assim devia se pronunciar.
— Sasuke... – Ele hesitou. – Você acabou de conhecer aquela garota...
Ele se aproximou e pousou a mão no ombro do filho, que continuava sem se mexer e ainda encarava o mesmo ponto.
— Sei que gosta dela, mas você é jovem, bonito... Tem uma posição privilegiada. Vai conhecer muitas mulheres. Honestamente... – Ele pigarreou, constrangido. – Eu não sabia que você estava tão... Profundo nessa relação. Sei que gostava da garota, mas...
Sasuke riu sem humor.
“Gostar”.
— Você passou anos tendo sentimentos por Hinata, e conseguiu passar por isso sem nenhuma sequela, não é verdade? Isso porque a conhece desde menino. Sei que vai conseguir superar...
— Eu amo ela.
Sasuke murmurou baixo, mas conseguiu interromper o pai. Ele soou agonizado, e apertou os olhos enquanto confessava. – Não é só “gostar”, pai. Também não tem nada a ver com o que eu sentia pela Hinata.
Ele virou-se na direção de Fugaku e o encarou em clara sofreguidão.
— Eu a adoro. Não porque ela é bonita ou porque é inteligente. Sei que ela não parece ser a maior beleza da minha lista de conquista, mas aí é que está: para mim, ela é. Eu a adoro pelo fato de que ela é mais inteligente do que eu na maior parte das vezes. E porque é insistente, teimosa, trabalhadora... Como eu. Ela é uma cabeça-dura o tempo inteiro, mas eu a amo mesmo assim, talvez eu a ame exatamente por essas coisas, e mesmo assim...
Não posso ir atrás dela.
Não posso ficar com ela.
Ele engoliu em seco. Apesar de sempre ter respeitado e amado o pai, a verdade é que nunca tinham sido confidentes, então ele deveria se sentir envergonhado ao dizer aquelas coisas, mas... Bem, era verdade que quase podia ouvir seu coração pulsar, mas aquilo não era vergonha: era tensão, puro nervosismo.
— Eu amo ela. Falar isso em voz alta pela primeira vez com você ouvindo ao invés dela é ridículo. – Sasuke forçou uma risada que soou ácida e triste. Estava rouco, e sentia seu coração despedaçado.
Foi quando ouviram um barulho estranho vindo do armário. E então mais outro.
Em qualquer outra situação Sasuke não se irritaria com aquilo. Talvez ele nem percebesse aquilo, mas aquele momento era tão intenso, e ele se sentia tão cheio de fúria e frustração que se aproximou do armário com passos largos e irritados.
E simplesmente abriu a porta.
Foi quando Sakura – que até então se pendurava do outro lado da porta – literalmente caiu sobre ele (de um jeito muito clichê, diga-se de passagem), enquanto soltava um gritinho espantado.
Ele a segurou pela cintura firmemente, instintivamente, e foi envolvido pelos braços dela, que tremia um pouco.
E ficaram imóveis por um instante que pareceu durar uma eternidade.
Era um momento doce, mas ao mesmo tempo cruel. Sasuke queria apertá-la, afogar o rosto no ombro dela e inspirar o cheiro do perfume suave... Mas não fez nada disso. Estava em choque, e literalmente incapaz de esboçar qualquer reação.
Então continuou ali, segurando-a pela cintura e se sentindo ser abraçado pela mulher que amava.
Depois de um instante longo, ela finalmente se mexeu; se apoiou nos ombros dele – que ainda a segurava numa altura acima do chão – e afastou-se lentamente.
Foi quando os olhos dela encontraram os seus.
Os grandes orbes verdes estavam esbugalhados, e brilhavam de surpresa.
Na realidade ela parecia surpresa demais para expressar qualquer coisa além daquilo, mas Sasuke sabia o que ela tinha ouvido, e sabia que era inteligente demais para entender errado.
E foi então que Sasuke Uchiha então percebeu que a dor de cabeça que havia sentido durante o dia inteiro não era nada perto da que estava para chegar.
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