Notas iniciais
AHÁ! Aposto que vocês pensaram que eu ia deixá-los na mão, não é? ahahaha Essa semana nós tivemos alguns problemas no paraíso, mas no fim das contas tudo deu certo. Eu ando meio enrolada com algumas coisas (algumas coisas relacionadas com a minha mente, tenho que admitir), então fiquei realmente com medo de não conseguir... Mas é claro que eu não desisti! E de alguma forma, cá estamos nós, voltando a trazer capítulos no prazo prometido! haha 8D Eu quero agradecer a todos os leitores! Fique absurdamente surpresa com a resposta positiva de vocês! Receberam 50 Tons de Uchiha com muito carinho e muuuita energia positiva! Fiquei tão feliz, tão emocionada, tão orgulhosa!... Orgulhosa pela minha história e por mim mesma! Obrigada, pessoal, obrigada por todo o carinho que sempre demonstraram por essa história sz~ Eu tenho vááários agradecimentos especiais pra fazer, mas a verdade é que ando enrolada, e a internet aqui tá meio esculachada... Então é bem difícil me organizar, seja pra organizar os agradecimentos ou pra conseguir responder geral! XD Então, por agora, quero agradecer a todos vocês! Obrigada por receberem 50TdU de volta! sz~

Capítulo 41 – Reação.

Sakura não tinha exatamente pensado quando entrou naquele armário.

Ela se sentiu sem chão depois de ouvir a voz de Sasuke; seu ouvido zuniu insuportavelmente, sua mente pareceu ficar turva e ela sentiu cada gota de sangue escapar de seu rosto. E apesar tudo aquilo ter acontecido em menos de um segundo, para Sakura pareceu um tempo muito longo.

Aquela era uma reação idiota, é claro. Sakura sabia que Sasuke era cunhado E primo de Kasumi, e tinha cogitado a possibilidade de vê-lo por lá, mesmo diante das garantias dadas pela esposa de Itachi, mas ainda assim...

Bem, ela não estava esperando ele naquele momento.

Antes, a ideia de vê-lo lhe dava borboletas no estômago e um frio nervoso, porém ligeiramente agradável na barriga. Ela não sabia se queria ou não, porque embora sua mente soubesse que o que era o melhor, seu coração sentia falta dele.

Mas naquele momento... Naquele momento, Sakura realmente não esperava vê-lo. Ela havia passado a uma manhã confortável, despreocupada; estava se divertindo e completamente distraída... E de repente Sasuke estava lá.

E ela sentiu que podia vomitar a qualquer momento.

Ino foi a única a perceber que Sakura estava branca como papel. Ela se aproximou da amiga com real preocupação, com intenção de ampará-la.

— Você está bem?...

— Me esconda! – Sakura pediu num sussurro.

Precisava sumir dali.

Agora!

— O quê...?

Sakura engoliu em seco; a voz dele estava próxima a porta quando tinha falado, então ela sabia que não tinha tempo a perder. Olhou ao redor do quarto e empurrou Ino – que estava no meio do caminho – com força na direção do único abrigo que conseguira encontrar: o armário da pequena Akane.

Foi só então que Kasumi pareceu notar a ação das amigas, e olhou abismada na direção das duas, que desapareceram lá dentro. Segundos depois o tique da porta foi ouvido, mas ela não conseguiu desviar os olhos do guarda-roupa, extremamente confusa.

— Kasumi?

O armário estava bagunçado e apertado, cheio das coisas que elas tinham enfiado ali, minutos atrás, para esconder a bagunça do quarto, mas apesar do desconforto, Sakura se esforçava para tapar a boca da melhor amiga, que só parou de lutar quando também conseguiu identificar a voz de Sasuke.

Ela lançou um olhar surpreso à Sakura, que se concentrava em manter-se em pé.

— Que droga... – A loira praguejou sussurrando. – Sakura, respire. Respiiire...

Sakura obedeceu. Não adiantava esconder seu nervosismo depois daquela cena.

— Isso. É só um cara, pelo amor de Deus!...

A rosada apertou os olhos e balançou a cabeça, mas Ino não sabia se ela estava negando, ou simplesmente afastando Sasuke – ou talvez a tontura que claramente sentia – da cabeça.

— Não quero esse encontro...

O sussurro de Sakura foi baixo e entrecortado, e Ino decidiu que não devia discutir.

Assim como a amiga havia feito alguns anos antes, Ino a abraçou e a apertou com carinho extremo, afagou suas costas e murmurou palavras encorajadoras.

Ela entendia como a Sakura se sentia, afinal.

Já tivera um namoro sério, intenso e cheio de carinho... Então Ino sabia como eram ruins os sentimentos que ficavam depois de um rompimento. Sabia como os pensamentos e sensações relativas à outra pessoa se tornavam complicados...

E conhecia, por experiência própria, a difícil indecisão sobre querer ou não olhar para a cara da pessoa amada, ao mesmo tempo em que lutava para resistir aos sentimentos que insistiam em ficar ali, agarrados ao coração.

Quando Shikamaru decidiu que o relacionamento não estava dando certo, eles ainda estavam no colégio. Ino havia aceitado, é claro, mas chorou a tarde inteira – longe dos olhos dele – por causa disso.

No começo da noite daquele dia, Sakura apareceu, sorridente e visivelmente constrangida, provavelmente depois de um dos pais de Ino terem-na buscado, preocupados com a filha. A rosada passara aquela noite inteira ao lado da amiga, ouvindo-a, concordando e tecendo alguns comentários – e adjetivos – ofensivos contra Shikamaru.

Quando ele se casou, não muito tempo atrás, Ino foi convidada. Eles tinham sido amigos a vida inteira, e o rompimento não fora capaz de quebrar a amizade, apesar de tê-la estremecido durante sua adolescência.

Ela foi ao casamento, festejou, sorriu e dançou. Flertou com alguns caras e brindou pela felicidade do casal. Mas quando chegou em casa naquela madrugada, estava simplesmente despedaçada, física e emocionalmente.

Sakura a estava esperando naquela noite. Sentada ao sofá, lendo qualquer coisa, ela ergueu os olhos na direção da melhor amiga antes mesmo de Ino entrar. A loira não disse uma palavra, mas mesmo assim Sakura se levantou e se atirou em sua direção, abraçando-a com um carinho tão reconfortante que ela não pôde fazer outra coisa além de chorar.

Elas tinham ficado a madrugada inteira sentadas, Ino encolhida nos braços de Sakura, que apesar de não proferir uma palavra sequer, alisava suas costas e lhe dava tapinhas leves, acalentadores, que de alguma forma faziam a loira pensar que tudo ficaria bem.

Apesar de os sentimentos de Ino vagarem nas mais profundas lembranças, e suas ações fossem as mais nobres possíveis, Sakura estava completamente alheia às suas reflexões. Na verdade, apesar de encolhida e constrangida, ela tentava aguçar a audição.

Notou que o início da conversa com Sasuke tinha sido amigável, mas então... Quando alguém – Sakura imaginava ser Fugaku – se pronunciou, a conversa começou a ficar estranha.

Kasumi soou irônica quando perguntara o motivo da visita ao sogro, e daí em diante, não só o tom, como o clima e as falas dos Uchiha entre si pareciam ficar mais e mais tensas. Mesmo Itachi, sempre tão simpático, parecia nervoso e irritadiço.

— Nós viemos falar sobre seus encontros com os Nohara.

Para Sakura, ele pareceu ligeiramente ríspido. Mas Kasumi pareceu tão confusa com o conteúdo da pergunta que não notara a forma como havia sido construída.

— Não vá vê-los, Kasumi.

Sakura estreitou os olhos, mais confusa do que já estava.

Claro que sabia do parentesco de Rin – e consequentemente de Kasumi – com os Nohara, mas embora não gostasse daqueles velhos, Sakura não conseguia imaginar o porquê Itachi pedira algo tão absurdo – e desnecessário – para a esposa, especialmente de forma tão decidida.

Quando Sasuke entrou na conversa, parecendo concordar com o irmão, Sakura enrijeceu. Não só pela sensação nervosa que percorreu seu corpo pela voz dele, mas também por simplesmente não entender porque eles estavam começando uma discussão por isso.

O clima pesou ainda mais quando Fugaku começou a falar, e Sakura teve que se afastar de Ino para se apoiar suavemente na porta do armário enquanto tentava ouvir o que o pai de Sasuke dizia.

E pasmou.

Sakura não gostava dos Nohara.

De fato, pouco se importava com eles.

Mas, de alguma forma, se ressentiu com toda aquela insatisfação exagerada que dos Uchihas, especialmente pela pressão que tentavam causar em Kasumi.

Os Nohara não eram exatamente agradáveis, mas Sakura os conhecia desde menina, e nunca tinha ouvido sequer uma história sobre o mau-caratismo que os Uchihas insinuavam que os pais de Rin possuíam.

Quando criança ela até chegara a gostar bastante da senhora Nohara, que costumava agradá-la com cachecóis e boinas de crochê no natal, além de sempre elogiar sua inteligência na frente de todos durante os jantares de família.

“Que garotinha esperta você tem, Mebuki!”, ela dizia a mãe de Sakura.

Sendo sincera consigo mesma, Sakura achava que tinha parado de gostar da Sra. Nohara – e de tentar de gostar do Sr. Nohara – quando conheceu Rin, tantos anos atrás.

A prima sempre parecia abatida, e apesar de claramente querer e precisar de companhia, os pais dela sempre afastavam qualquer um que tentasse alguma conexão com a filha; eles sempre bronqueavam Sakura à mera tentativa de aproximação e davam a desculpa de que Rin não poderia ficar sozinha diante do risco de um surto.

Mebuki e Kizashi sempre tentavam aconselhar os parentes a não fazer coisas do tipo: diziam que isolar Rin poderia piorar sua situação, mas os Nohara ou fingiam não ouvir, ou simplesmente ignoravam o que lhes era dito. E a cada ano em que Sakura topava com a prima, Rin Nohara parecia mais alheia a tudo e todos.

Mas Sakura nunca culpou os Nohara por fazerem aquele tipo de coisa... Eles não tinham instrução, afinal: eram no geral completos ignorantes, e não tinham nem como saber o que podia ou não funcionar para a melhora da filha. Eles sempre falavam de Kasumi com muito carinho e preocupação, e sempre davam um jeito de se virar para bancar as periódicas internações que supunham precisar, a ponto de pedir dinheiro aos parentes!

Ela também não acreditava que fossem capazes de abandonar Kasumi em qualquer lugar que fosse, como Sasuke insinuou para a cunhada. Afinal, não eram más pessoas, apenas... Tediosas. E chatas.

— Te arrancando dinheiro, como nós sabemos que estão.

A acusação de Sasuke fez Sakura paralisar, mas ela não teve como pensar nisso, já que tanto o desabafo quanto as acusações do Uchiha prosseguiram, mostrando que de fato Sasuke deveria estar com os nervos à flor da pele.

Sakura sentiu seu coração se despedaçar quando ele contou a Kasumi sobre a mãe, e sentiu-se sufocar quando ambos – Sasuke e Kasumi – começaram a acusar as mães um do outro.

Ino deixou escapar um “Santo Deus!” sussurrado e abismado. O tom alto da discussão a havia despertado de seus devaneios, e agora ela tentava se apoiar na outra porta do armário para, tal como a amiga, tentar ouvir melhor o que se passava – como se aquilo fosse necessário.

A discussão havia alcançado o seu limite: tanto Sasuke quanto a cunhada claramente tentavam machucar um ao outro com palavras venenosas e cruéis.

Alguém tinha que parar isso!

Sakura havia cogitado fingir que caíra do armário, só para tomar a atenção dos briguentos e fazê-los calar a maldita boca, mas no momento em que a discussão parecia ter alcançado o seu ápice, o inconfundível som de um tapa muito estalado foi ouvido, e a fez paralisar.

Por um instante que pareceu uma eternidade, tudo o que Sakura conseguiu ouvir foi a respiração tensa dos Uchihas, e então...

— Como tem coragem de fazer isso com ele?

Foi Itachi quem perguntou. Ele parecia furioso.

— Saia da minha casa agora! – Kasumi gritou. – Você nunca vai tocar na minha filha! – Ela prometeu, e Sakura sentiu seu coração sangrar.

Podia imaginar um Sasuke imóvel, olhando embasbacado na direção da cunhada, tão chocado com suas palavras quanto a própria Kasumi devia estar quando as proferiu.

A discussão entre marido e mulher prosseguiu, e se afastou até o ponto em que Sakura e Ino não podiam ouvir mais nada.

Mas Sakura sabia que Sasuke continuava ali, imóvel, talvez olhando para o mesmo ponto, chocado demais para mover um músculo sequer.

Ela mesma se sentia assim.

Sasuke amava a sobrinha, e Sakura sabia disso.

Apesar de não falar muito sobre o assunto, desde que havia descoberto o sexo do bebê, o Uchiha costumava parar em potenciais lojas de criança quando saía – acompanhado ou não, a trabalho ou por diversão –, e no geral saía delas com qualquer coisa para Akane, desde uma peça de roupa a bugigangas que os vendedores juravam ser muito práticas para as mães durante o dia-a-dia.

Ele amava a sobrinha... E adorava Kasumi.

Ouvir aquilo deve tê-lo despedaçado.

— Sasuke...

Sakura deu graças aos céus quando ouviu a voz de Fugaku, porque alguém precisava consolar Sasuke, e ela...

Sakura apertou os olhos.

Ela não podia. Não sem piorar as coisas.

Sasuke devia estar se sentindo terrivelmente humilhado, e se alguém fora da família aparecesse... Pior ainda: se Sakura aparecesse, especialmente depois da cena terrível que tinham protagonizado em seu último encontro, ele se sentiria ridículo.

—... entender a dor de Kasumi.

Sakura estreitou os olhos enquanto tentava focar na conversa dos dois. Honestamente, por mais injusto que pudesse ser, ela não conseguia pensar na dor de Kasumi agora. Sasuke sempre fora muito orgulhoso, e devia estar se sentindo terrivelmente exposto.

— Imagino que nenhum de nós esteja em seu melhor momento.

Apesar do tom irônico, ele claramente estava ferido.

— Aaaah! – Ele expeliu o ar de seus pulmões enquanto tentava se recompor para o pai. – Talvez tenha sido ótimo que o avô dela tenha se metido na minha vida e acabado com qualquer chance do meu relacionamento dar certo!

Ele rugiu quando o disse, e Sakura prendeu a respiração.

Ele não podia estar se referindo ao relacionamento deles...

— Sakura ficaria insuportável se soubesse que eu gritei com a Kasumi... – Ele prosseguiu, contrariando as conclusões da Haruno. – Ia ficar furiosa se não visitássemos Akane no hospital...

Os olhos verdes de Sakura encheram-se de lágrimas que ela tentou controlar a todo o custo, e num piscar de olhos, a menção a Hiroto Nohara ter se metido em seu relacionamento simplesmente sumiu da cabeça dela.

— Sasuke... Você acabou de conhecer aquela garota... Sei que gosta dela, mas você é jovem, bonito... Tem uma posição privilegiada. Vai conhecer muitas mulheres. Honestamente... – Ele pigarreou de maneira tímida. – Eu não sabia que você estava tão... Profundo nessa relação. Sei que gostava da garota, mas... Você passou anos tendo sentimentos por Hinata,

Hinata?!... Sasuke tinha gostado de Hinata?

De repente, toda a implicância que o Uchiha tinha com Naruto, e todo o mal-humor diante da situação do Uzumaki com a Hyuuga fizeram sentido para Sakura.

—... Sei que vai superar... – Fugaku tentou prosseguir, mas então Sasuke murmurou algo que calou completamente o pai.

Sakura tentou se encostar mais a porta do armário, tal como Ino.

— Não é só “gostar”, pai. – Ele garantiu. – Também não tem nada a ver com o que eu sentia pela Hinata.

Sakura mordeu os lábios e prendeu o ar nos pulmões.

— Eu a adoro. – Ele declarou. – Não porque ela é bonita ou porque é inteligente. Sei que ela não parece ser a maior beleza da minha lista de conquista, mas aí é que está: para mim, ela é. Eu a adoro pelo fato de que ela é mais inteligente do que eu na maior parte das vezes... E porque é insistente, teimosa, trabalhadora... Como eu.

O coração da Haruno se derreteu.

— Ela é uma cabeça-dura o tempo inteiro, mas eu a amo mesmo assim,

Ele tinha falado com tanta naturalidade que a vertigem que atingira Sakura momentos antes voltou com intensidade, e ela teve que se apoiar no canto do armário para não cair.

Sasuke não podia estar falando sério. Talvez gostasse dela, mas amar... E falar desse suposto amor com o pai? Nada daquilo era do feitio de Sasuke; era loucura!

Mas ele prosseguiu, contrariando as convicções dela:

— talvez eu a ame exatamente por essas coisas, e mesmo assim...

Sasuke pareceu engasgar, e Sakura sentiu algo muito parecido com agonia tomar conta de sua garganta; ela mal conseguia respirar.

— Eu amo ela.

Ino estava estática quando ele finalmente disse em voz alta, mas Sakura sentia que estava prestes a desmaiar de nervoso. Sua mente estava turva, seu coração bombeava como louco e ela sentia aquela sensação horrível de quentura no rosto, ao mesmo tempo em que os ouvidos zuniam irritantemente.

— Falar isso em voz alta pela primeira vez com você ouvindo ao invés dela é ridículo. – Ele forçou uma risada tristonha.

E foi quando Sakura realmente quase desabou.

— Sakura!

Ino engasgou o sussurro e tentou amparar a melhor amiga, que a abraçou imediatamente, antes de ficarem imóveis e em completo silêncio.

Depois meio minuto naquela mesma posição, Sakura, agonizada, tentou olhar pela fresta da porta para tentar encontrar qualquer um dos Uchihas e ter certeza de que não tinham percebido seu deslize.

Estava tão nervosa que não conseguiu perceber os passos de Sasuke e, portanto, quando ele abriu a porta, ela simplesmente soltou um gritinho assustado enquanto caía diretamente para os braços fortes do Uchiha, que simplesmente acabara de dizer aos sete ventos que a amava.

Sakura sentiu o aperto firme em sua cintura, e instintivamente envolveu Sasuke com os braços que ainda tremiam. Eles ficaram imóveis, provavelmente tanto pela surpresa quanto pelo constrangimento.

Sakura sentiu uma imensa vontade de apertá-lo, afogar o rosto no ombro dele e inspirar o perfume intenso que sabia que ele usava. Queria dizer que estava tudo bem... Que sentia muito, mas que tudo ficaria bem no fim das contas...

Mas não fez isso.

Sua garganta ainda parecia afogada em agonia, e seu coração pesava com tristeza e penalidade. Sabia que Sasuke não gostaria de vê-la assim, tão tocada diante da discussão que sem querer tinha presenciado, então usou aqueles segundos – aqueles preciosos instantes nos braços dele – para se recompor.

Quando finalmente sentiu que podia controlar os próprios sentimentos, Sakura apoiou as mãos nos ombros dele e afastou-se lentamente, até conseguir encarar os intensos olhos negros que costumavam assombrá-la em suas memórias.

Os olhos do homem que ela amava.

Apesar de ter consciência de que esse sentimento há muito estava lá, dentro de seu coração, pensar nele naquele momento a fez se surpreender, e diante disso os orbes esverdeados se esbugalharam ligeiramente.

E Sakura lembrou-se que nunca podia confiar em seus próprios sentimentos perto daquele homem, que de um jeito ou de outro, de maneira positiva ou negativa, sempre conseguia desconsertá-la.

~

E enquanto os olhos de Sakura e Sasuke finalmente se encontravam depois de tanto tempo, cheio de sentimentos confusos e intensos, outros pares de olhos encaravam com a mesma intensidade, não muito longe daquele quarto.

Os sentimentos de Itachi e Kasumi Uchiha, no entanto, não eram nada confusos, e toda a intensidade que emanava daquela troca de olhares era negativa, e fazia pesar todo o ambiente do quarto que compartilhavam.

— Não vou deixar que trate minha família desse jeito.

Kasumi riu.

— Você realmente espera que eu faça sala para a sua família enquanto rejeito a minha? Sinceramente...

— Eles não são sua família. – Itachi a interrompeu. Ainda sentia o seu corpo tremer. – Não te criaram, nem nunca te ajudaram em nada. Não estavam juntos de você nos momentos felizes ou tristes. Sasuke

Ele pontuou o nome do irmão.

— É mais sua família do que qualquer Nohara, e mesmo assim você o humilhou por eles. O mandou embora por eles. Diga-me, Kasumi: que direito você tem de fazer isso com a minha família? Com o meu irmão, mais do que todos. Porque você pode culpar meus pais, pode odiar meu avô. Pode detestar meu pai e não suportar minha mãe, mas não pode falar nada do Sasuke.

Ele apontou para a porta e seu tom de voz aumentou, embora Itachi sequer se desse conta disso.

— Ele sempre a respeitou. Sempre a tratou como igual, e nunca, nunca a deu motivos para se comportar daquela maneira!

Itachi falava alto, quase aos berros, mas possuía uma voz firme e cheia de autoridade.

Kasumi nunca tinha visto o marido agir daquele jeito. Eles costumavam a brigar, mas aquilo... Aquilo, aquele temperamento era uma novidade para ela, mesmo depois de tantos anos. Imaginou que todo aquele nervoso se dava a maneira com que ela tratara Sasuke, e por isso não conseguiu retrucar; de fato, ela mal conseguia respirar.

Sabia que Itachi tinha razão. Sasuke era parte de sua família, uma parte querida e preciosa. Tornara-se um irmão para ela mesmo antes de Itachi se tornar seu marido, um irmão, um cunhado... Alguém com quem se preocupava, e que sabia que se preocupava com ela também.

E mesmo assim...

Ela apertou os olhos e tentou controlar as malditas lágrimas.

Por que estavam fazendo aquilo?... Todos eles.

— Eu não vou tolerar isso. Peça desculpas.

Kasumi respirou fundo e o encarou.

Ele tem que me pedir desculpas.

Você o ameaçou. Você bateu nele...

Itachi alisou os cabelos, exasperado; começou a andar pelo quarto e parecia completamente perdido. Não conseguia acreditar naquilo... Não conseguia aceitar a maneira como o irmão tinha sido humilhado, e não conseguia nem imaginar o tamanho da mágoa que ele devia estar sentindo agora.

— Sasuke nunca apanhou nem dos meus pais, pelo amor de Deus... Como pôde fazer isso?! – Ele voltou a encará-la, o olhar em pura agonia. – Sabe o quanto meu irmão é orgulhoso. Sabe como ele deve estar se sentindo agora. E ainda... Ainda disse que o proibiria de ver nossa filha... Que direito tem disso? Diga-me!

Apesar de Kasumi saber que não estava exatamente certa, também sabia que Sasuke tampouco estava. Ele havia sido cruel e maldoso, e também tinha tentado humilhá-la com suas insinuações. Ela não queria discutir com Itachi... Não sentia vontade nem de retrucar, então se manteve parada, abraçando o próprio corpo enquanto tentava desviar-se dos olhares acusativos do marido.

— Honestamente... – Itachi riu. – Eu não sei mais o que fazer. Para começar, por que está se recusando a nos ouvir?... Os Nohara fazem tão bem assim pra você? Não é uma idiota, Kasumi. Sabe que se eles tivessem sido bons pais para sua mãe, ela iria querer vê-los de novo.

Kasumi mordeu os próprios lábios e apertou os olhos, mas as lágrimas escaparam do mesmo jeito.

— Eu só... – Ela olhou para Itachi, os olhos entreabertos e chorosos. – A senhora Nohara fez uma manta pra Akane, Itachi... Uma manta. – Soltou uma risada nervosa. – Eu nunca... Nunca pensei que a minha filha...

Ela balançou a cabeça.

— Eles foram gentis. Ouviram o que eu tinha a dizer e esclareceram minhas dúvidas. Eu sei que são pessoas que erraram, mas também sei que se arrependem de seus erros. Ela, principalmente. Se eu dei outra chance a sua família, porque não poderia dar a eles?...

— Chance? – Itachi riu sem humor; olhava-a de maneira desacreditada. – Que chance?... – Ele apontou para a porta mais uma vez – Como pode dizer isso depois de falar daquele jeito com meu pai?

— Eu só...

— Não, Kasumi. Você... Nada. Por favor, peça desculpas ao meu irmão.

Ela não o respondeu.

— Isso não vai dar certo. – Itachi riu e desviou os olhos. – Eu não sei porque pensei que morar aqui daria certo.

Os olhos castanhos da esposa caíram ao chão; Kasumi sentia seu estômago revirar de nervoso.

— Você não vai se desculpar. Com nenhum deles. E não vai parar de ver aquelas pessoas, porque não quer. Vai tentar privar o meu irmão e talvez até os meus pais de se aproximarem da nossa filha e...

— Seus pais não se importam com a nossa filha, Itachi.

Kasumi soou convicta, apesar de magoada, e Itachi emudeceu por um segundo. Então ele se aproximou, ficando um passo de distância dela, e encarou-a com tanta frieza que Kasumi sentiu cada fio de cabelo se eriçar.

— Você não conhece os meus pais. – Ele foi firme, e apesar de a esposa encolher, continuou com os olhos presos aos dele. – Mas eu conheço. E eu não vou deixar você afastar a minha família da minha filha.

~

Levou meio minuto para Sasuke enfim despertar dos devaneios que o cruzar de olhos lhe causou. E apesar de ainda querer apertá-la, beijá-la e perguntar se ela finalmente conseguia acreditar nele, o Uchiha a pousou no chão cuidadosamente e se afastou, lento e cauteloso.

Fugaku estava chocado, e Ino – que àquela altura também já tinha saído do armário, embora de maneira bem menos chamativa – olhava estática, quase engasgada na direção do casal.

Mas Sasuke e Sakura apenas se entreolharam, e nenhum dos dois conseguia pensar em qualquer coisa com sentido para dizer um ao outro.

Fugaku tentou pensar em como tornar aquela situação menos constrangedora, mas antes que conseguisse fazer qualquer coisa, Sasuke desviou os olhos da amada, pigarreou e coçou a nuca, claramente constrangido.

— Não sabíamos que estava aqui... – Foi tudo o que ele conseguiu dizer.

Ela ainda não conseguia tirar os olhos dele, e pior: ainda não conseguia pensar em qualquer coisa para dizer ou responder. Seu coração estava aos pulos, e sua mente completamente embaralhada.

Sakura tentou abrir a boca para falar alguma coisa – qualquer coisa – duas vezes, mas sua cabeça parecia um breu, e ela se sentia uma completa idiota por isso.

Ino riu alto e chamativamente.

— Nossa, nossa. Que constrangedor! Eu sinto muito por termos presenciado tudo, Sasuke, Fugaku-san. Não podíamos imaginar que vocês... – Ela gesticulou de um jeito confuso. – Bem, não podíamos imaginar qual era o assunto.

Então se aproximou de Sakura e a envolveu, sorrindo de maneira constrangida.

— Nós nos escondemos porque a Kasumi estava nervosa, como podem imaginar. Ela pensou que fosse uma visita de cortesia, e como nunca tinha recebido o senhor aqui...

Ino só percebe que tocar no nome de Kasumi fez pesar ainda mais o clima quando era tarde demais. Os Uchiha ficaram num silêncio mórbido, e foi aí que tudo realmente ficou constrangedor.

— Eu sinto muito. – Sakura falou de repente, tomando a atenção de Sasuke.

Os olhos negros pareciam mais intensos do que nunca, e Sakura sentiu o rosto se avermelhar; claro que era um pensamento estúpido, mas Sasuke parecia capaz de ler sua mente quando a olhava daquele jeito... E aquilo deixava tudo mais difícil... Porque embaralhava sua mente e a fazia sentir borboletas na barriga.

Mas Sasuke, infelizmente, não conseguia ler a mente dela. E por um instante pensou que Sakura estava se referindo ao fato de ele dizer que a amava.

— Por sua discussão com Kasumi... – Sakura desviou o olhar enquanto esclarecia.

E Sasuke quis rir quando entendeu.

É claro que ela ia fingir que ele não tinha dito nada... É claro que aquilo não ia mudar nada.

Afinal, tudo estava acabado entre os dois...

Mesmo que ele a amasse, mesmo que ela o amasse – porque Sasuke sabia que sim, ela também o amava... E mesmo que não o amasse, seus sentimentos certamente estavam muito perto disso.

Ele riu.

Definitivamente aquele não era o seu dia.

Preferia mil vezes que ela lamentasse por seus sentimentos e ignorasse a briga com a cunhada do que isso, mas é claro que sua irritante amada faria exatamente o contrário do que ele desejava que fizesse.

Sakura o olhou de canto, ligeiramente ofendida pela gargalhada que ele soltou, mas se arrependeu no instante que os olhos dele, agora cheios de ironia, voltaram a cruzar com os seus.

— Claro. A discussão. Pois é... Nós também lamentamos, mas uma hora ela vai voltar a si. Kasumi sempre foi mais racional do que sentimental. Ela se comportou dessa forma porque é sincera, assim como eu também sou, então não se preocupe: nós vamos nos acertar. Na verdade,

Ele coçou o rosto e riu de novo.

— Eu admiro e respeito a sinceridade dela. Nem todos conseguem ser assim, tão diretos... Não é mesmo? – E olhou diretamente para ela.

Sakura fechou a cara.

— Não concorda, Ino? Você também costuma ser uma pessoa direta.

Ino suspirou. Estava claro o que ele tentava fazer, mas para ela também era claro que Sakura não estava pronta para aquele tipo de discussão.

— Vamos embora... – Ela foi até a rosada e a puxou gentilmente, e apesar de não resistir, a Haruno continuou encarando o Uchiha, claramente insatisfeita e muito ofendida com suas palavras.

— Desculpe mais uma vez, Fugaku-san. – A loira voltou a pedir. – Sentimos muito por tudo isso.

Fugaku anuiu lentamente.

— Tem como voltar? Posso pedir que Itachi empreste o carro e...

— Não, não. – A loira sorriu. – Viemos com o meu carro. Obrigada.

Elas saíram sem voltar a falar com Sasuke, e Ino sequer preocupou-se em olhar para a própria Sakura, apesar de arrastá-la durante todo o caminho. Ambas sentiram um alívio imediato quando Ino trancou o carro, mas ninguém disse nada, nem enquanto saíam da casa de Obito, nem durante todo o percurso da casa de Kasumi até o sobrado que dividiam.

Apesar de a mente de Ino formular vinte perguntas por segundo, sabia que a amiga precisava de espaço. Sabia que Sakura precisava pensar, se acalmar e só então conseguiria tomar uma decisão concreta sobre o que fazer com Sasuke.

O que a Yamanaka não poderia imaginar jamais era que Sakura tentava absolutamente não pensar no ex-. E para tal, decidiu ocupar sua mente com os motivos para a reação de Kasumi diante as ações dos Uchiha ou nas milhares de possibilidades que podiam estar envolvidas no claro descontentamento de Itachi sobre os encontros dos Nohara.

E então, depois de passar minutos revivendo a memória da discussão que tinha ouvido, finalmente, depois pensar muito sobre o assunto, sua mente finalmente se atentou a uma sentença de curiosa que Sasuke fizera pouco depois de Kasumi deixar o quarto.

Algo que ela não tinha conseguido pensar até então, graças a sua mente completamente confusa.

“Talvez tenha sido ótimo que o avô dela tenha se metido na minha vida e acabado com as chances de o meu relacionamento dar certo!”, foi o que Sasuke dissera àquela altura.

E Sakura tentou imaginar, inquieta, como é que Hiroto Nohara podia ter qualquer influência para atrapalhar o seu antigo relacionamento.

~

~

Itachi tinha saído de casa.

Logo depois da discussão, ele jogara algumas roupas em uma bolsa grande, pegou o computador que usava para trabalhar, as chaves do carro e do escritório e deixou Kasumi sozinha no quarto.

Ela não pediu para ele ficar.

Não falou uma palavra de negação, nem moveu um dedo para impedi-lo apesar de ter chorado o tempo inteiro, silenciosamente, enquanto o via fazer tudo de maneira afobada. Se Itachi tivesse olhado para ela uma vez, entenderia que ela não queria aquilo... Mas, é claro, Itachi não colocou os olhos na esposa de novo – talvez exatamente por saber disso –, e deixou-a sem sequer dizer adeus.

Kasumi concluiu que ele devia ter deixado a casa com Fugaku e Sasuke, porque quando finalmente teve coragem de deixar o quarto – quase meia hora depois de Itachi sair –, não conseguiu encontrar ninguém: nem Uchiha, nem Haruno, nem Yamanaka.

Ela se viu irrevogavelmente sozinha, o que devia ser bom, já que se sentia absolutamente fraca. Então ela se trancou no quarto o dia inteiro, e fingiu estar dormindo quando os pais a procuraram a noite.

No primeiro dia depois de ser abandonada pelo marido, Kasumi sequer conseguia pensar no que faria da sua vida a partir daí. Ela não conseguiu dizer nada quando os pais perguntaram sobre Itachi, e também não foi capaz de respondê-los quando Obito descobriu tudo, provavelmente depois de uma ligação.

No segundo dia, Kasumi percebeu que Obito também não queria muito falar sobre Itachi. Ele estava preocupado com a filha, é claro, e tentava dar todo o carinho possível ao mesmo tempo em que tentava lhe dar privacidade.

No terceiro dia, Kasumi percebeu que o pai devia saber sobre a visita de Fugaku. Imaginou que o marido devia ter falado sobre isso quando conversaram por telefone, porque ela ouvira Obito praguejar enquanto se referia ao irmão, e perguntou-se se a visita realmente tinha feito com que brigassem.

No quarto dia, Kasumi começou a raciocinar, e a raiva superou a tristeza.

Como ele ousava tratá-la assim?!... Ela era a sua família agora. Ela e Akane. Kasumi conseguia entender a revolta, até a raiva pela briga que tinham tido, mas será que eles não podiam tentar conversar?!

Itachi sempre disse que o diálogo era tudo, mas toda a conversa que eles tiveram fora aquela discussão horrível, onde ambos estavam furiosos, tanto um com o outro, quanto com a situação ao seu redor!... E mesmo assim, ele a tinha deixado, e desde então não movera um dedo para tentar conversar com ela.

No quinto dia, ela pensou em engolir o orgulho e ligar para ele, mas não conseguiu fazê-lo. Ao invés disso, ligou para Hinata, e por ela descobriu que o marido estava morando na residência principal da família, com os pais e o avô.

Ele estava com a família, e tinha deixado ela e a filha de lado. Isso fez com que Kasumi decidisse que não o procuraria até que ele viesse procurá-la.

Exatamente uma semana depois de ir embora, Itachi ligou.

Queria saber sobre o bebê e sobre a saúde de Kasumi, mas não perguntou se poderia voltar. No fim da ligação, perguntou se a relação com os avós ainda estava na fase arco-íris, e depois de Kasumi lhe informar que estavam muito bem, obrigada, ele desligou.

Dez dias depois, Kasumi percebeu que talvez os avós estivessem realmente perdendo o bom-senso, ou talvez ela estivesse sendo um pouco boa demais com eles, já que Hiroto, mesmo antes de convidá-la a se sentar, a perguntou se Kasumi poderia ajudá-lo a juntar dinheiro para comprar uma moto.

Ele supostamente a queria para poder trabalhar como entregador, mas por algum motivo, o sorriso fácil e a expressão amigável não conseguiram convencê-la. Então Kasumi se desvencilhou do pedido, dizendo que não tinha muito dinheiro, já que o bebê estava prestes a chegar, e comentou que não achava a moto um transporte seguro para um senhor da idade como a do avô.

A avó disse que concordava, Hiroto riu e fez piada daquilo, mas Kasumi percebeu que ele não ficara muito satisfeito com a recusa dela.

Agora, doze dias depois da “Grande Briga” – era como ela costumava nomear aquele dia horrível em seus pensamentos –, Kasumi Uchiha estava sentada em um escritório dentro de uma delegacia, conversando agradavelmente com um grande – e raro – amigo que conquistara durante seus anos como jornalista.

Eles estavam jogando papo fora; falavam sobre família e gravidez enquanto ele procurava pelas fichas criminais que pertenciam a Seiko e, ou Hiroto Nohara.

E foi assim que ela descobriu que, assim como tantos acusaram e avisaram, o velho Nohara era realmente um estelionatário.

~

Fazia uma semana desde que Itachi decidira sair do apartamento de Sasuke para se aventurar em passar um tempo com o resto da família na mansão Uchiha. Ele estava decidido a se reconciliar com Mikoto, e talvez até voltar a tolerar Madara, mas apesar disso... A verdade é que Itachi não estava convivendo mais com eles do que antes.

O primeiro neto da geração dormia e acordava no quarto que o tinha pertencido na sua infância; tomava café na cozinha todos os dias, onde punha em dia a conversa com os empregados de longa-data da família Uchiha e jantava no quarto, depois de passar um dia inteiro no escritório.

Muito raramente topava com Madara nos corredores da Uchiha, e ainda menos com Mikoto.

Ele tentou falar com a mãe algumas poucas vezes, mas o assunto nunca ia muito longe, já que Mikoto sempre mostrava preocupação demais com Kasumi, o bebê e o fato de a nora estar “sozinha”.

Itachi considerava aquilo absolutamente irônico, uma vez que Mikoto odiara Kasumi por anos e anos, desde que a conhecera. A nora nunca fora boa o suficiente para o filho, e agora parecia que de uma hora para a outra Kasumi tinha virado o par perfeito diante de seus olhos, e se Itachi não se apressasse, segundo palavras da própria Mikoto, “poderia acabar perdendo-a”.

Mas quanto mais sua mãe defendia Kasumi, menos ele estava disposto a voltar a olhar para a cara dela. Ele sabia que a esposa não tinha pedido desculpas a Sasuke, e também sabia que ela ainda não desistira das visitas aos velhos sanguessugas – fizera questão de perguntar durante aquela ligação! – e se Kasumi não estava disposta a dar o braço a torcer a nenhuma de suas exigências, Itachi tampouco estava.

Na verdade, ele estava cansado. Exausto.

Ele notara os presentes que Mikoto tinha arranjado para Akane nas poucas vezes em que a visitara no quarto, mesmo que a mãe não os tivesse apontado. Também notou que o próprio Madara, apesar de sempre discreto, perguntava com muita freqüência sobre Obito, Kasumi e até Rin; vez em quando o questionava sobre até quando o neto pretendia ficar lá, e apesar de sempre falar isso num tom de gracejo, como se o estivesse expulsando, Itachi achava que, para alguém que tinha irrompido em seu apartamento nas vésperas de seu casamento para tentar impedi-lo, o avô parecia preocupado demais com seu casamento.

Claro, isso não o ajudou a voltar para casa.

Afinal, não era só com Kasumi que as coisas não estavam indo bem.

Quando contara ao tio sobre a visita do pai a casa, Obito surtara de tal forma que Itachi não pôde conter a língua – que nos últimos tempos andava bem ferina – e jogar na cara dele que não tinha aceitado morar com os sogros para abandonar a própria família! Depois disso, Obito tinha desligado na cara dele. E Itachi estava tão cansado deles, do pai e da filha, que sinceramente não se preocupou em retornar.

Era o fim da tarde do oitavo dia na mansão Uchiha quando Itachi encontrou o avô no sofá da sala. Como aquilo era incomum (já que Madara costumava ficar em seu quarto, no escritório ou em qualquer cômodo aonde pudesse se esconder de visitas inesperadas), entendeu que o havia feito de propósito, provavelmente para falar com o neto.

— Itachi!

Ele exclamou com falsa surpresa.

— Chegou cedo hoje!

Itachi sempre chegava no mesmo horário, raramente com poucos minutos de diferença, então lançou um olhar divertido ao avô, demonstrando que ele estava falando besteira, e tomou um lugar ao lado dele.

— O que quer, Madara?

Ele preferiu perguntar diretamente, mas sorria de maneira amigável. Estava cansado de tentar detestar a família... Cansado de condená-los, mas ainda assim amá-los, e se remoer em culpa por causa disso.

Ele amava os pais, amava o avô... E mesmo que se irritasse, se decepcionasse, mesmo que não suportasse falar com eles, não achava que isso poderia mudar algum dia, ao menos não com facilidade.

Madara pigarreou, um pouco constrangido. Dobrou o jornal que fingia ler, ajeitou-se no sofá e se aproximou do neto tanto quanto o assento permitia.

— Vai se divorciar?

Foi uma pergunta direta, franca, que soou mais preocupada do que Madara desejava e por um instante, Itachi se calou.

Honestamente, ele não tinha pensado em divórcio. Não queria ver a cara de Kasumi, isso era um fato, mas sabia que a amava, e sabia que cedo ou tarde a saudade ia pesar mais que a frustração. Divórcio, para ele, era uma palavra muito pesada, e uma decisão radical... Mas sabia que o fato de ele pensar assim não significava que Kasumi pensasse assim.

Suspirando, Itachi encostou-se às costas da poltrona e esticou o corpo tenso.

Por que sua mulher tinha que ser tão difícil?!

— Eu não sei. – Foi franco. – Não quero me divorciar, mas não sei se ela vai querer depois da nossa discussão.

Talvez fosse melhor, ele pensou. Melhor para a família de Kasumi e melhor para a família dele. Akane poderia não ser criada pelos pais juntos, mas seria criada por ambos, e estaria presente nas duas famílias, mesmo que Kasumi e Obito não quisessem.

— Sei que fui a primeira pessoa a discordar do seu casamento... Sei que brigamos por isso, e que até hoje guarda certa mágoa das coisas que falamos naquele dia...

Itachi o olhou de soslaio.

— Mas você fez sua escolha, filho. Você escolheu se casar, e ela está grávida, afinal. Se separar nessas circunstâncias, tão pouco tempo depois do casamento...

Itachi sorriu e se ajeitou na poltrona.

— Não quero me divorciar, avô. – Ele garantiu. – Só vai acontecer se ela quiser.

Madara suspirou.

— Se é filha de Obito, deve ser tão cabeça-dura quanto ele. Pode pedir o divórcio só para magoá-lo e chamar sua atenção.

Aquela era uma possibilidade na qual Itachi tinha pensado... Mas Kasumi amadurecera durante a gravidez, e ele sabia que a esposa pensaria em Akane antes de qualquer coisa.

— Não acho que vá fazer isso... Não por enquanto.

Apesar da certeza do neto, Madara estreitou os lábios.

Itachi não queria falar nisso. Era um assunto que o estressava, o deixava de mau-humor e que com certeza atrapalharia seu sono mais tarde. Por isso, decidiu investir em um assunto mais construtivo, sobre o qual há muito queria falar com o avô, e que de alguma forma poderia reparar a conduta egoísta que Itachi tivera com Sasuke naquele dia.

— Mudando de assunto... Eu queria falar com você...

Madara suspirou.

— Não estou apoiando ou torcendo para o fim do seu casamento, Itachi... Vocês não acreditam, mas minha preocupação maior sempre foi a felicidade da minha família: filhos e netos.

Itachi sorriu; era engraçado como ele se sentia divertido agora, quando meses atrás sentia vertigens só de falar de “felicidade” com o avô – que parecia ter uma concepção muito diferente da dele.

— Que bom que disse isso, avô. – Itachi apertou o joelho do velho Uchiha. – Mas eu quero falar sobre outro assunto... Quero conversar com o senhor sobre Sasuke e Sakura.

Madara estreitou as sobrancelhas, surpreso e desconfiado.

— O meu pai me contou sobre o que Hiroto Nohara está tentando fazer. Ele me disse que você tinha descoberto a conexão entre os Nohara e os Haruno... Mas sinceramente, avô, apesar do parentesco, eu não acho que Sakura...

— Aaah, isso.

Madara balançou a mão num gesto de indiferença.

— Pelo amor de Deus, como seu pai sabe disso? Eu não falei com ninguém... – Ele suspirou. – Sabia que Fugaku faria uma tempestade dentro do copo d’água se soubesse sobre aquele maldito envelope.

Itachi deu os ombros.

— Ele deve ter visto na sua mesa... Eu sei que você tem certo... Trauma com aquela gente, mas sinceramente, avô, mesmo que a Sakura tenha convivido com eles... Não acho que os conheça de verdade, ou que tiveram muita influência em sua criação.

Madara riu.

— Eu sei disso, filho. Que tolice... Mesmo antes de saber de sua ligação com os Nohara, já tinha verificado os antecedentes familiares dos Haruno. Os Nohara me escaparam, é verdade... E também é verdade de que foi uma desagradável surpresa... – Ele suspirou, coçou a nuca e balançou a cabeça. – Mas pelo que descobri recentemente, eles mal se falam. A mãe da senhorita Haruno tenta manter contato com a prima, aquela velha maldita, mas parece que se comporta assim com todos os familiares, já que tem poucos parentes.

Madara deu os ombros.

— É uma boa mulher, a senhora Haruno. Pelo que ouvi, é do tipo que se preocupa com todos. Não deve conhecer a verdade sobre os parentes, já que mora muito longe.

Itachi o olhava com uma expressão embasbacada e completamente surpresa.

— O quê? – O velho sorriu de maneira divertida. – Vocês acharam que eu ia perseguir a pobre menina?... Eu sei que estou velho, garoto, mas acha mesmo que eu sou tão idiota ao ponto de acreditar que aquele homem realmente está nos conformes com a garota? Hiroto quer dinheiro, só isso. Já que perdeu a fonte de renda que a Rin proporcionava, está tentando usar a menina dos Haruno.

Itachi suspirou longamente, nervoso.

— E agora está tentando usar a minha esposa.

Madara não pôde compreender, e olhou de maneira interrogativa na direção do neto até que ele percebesse sua muda exigência. Itachi suspirou mais uma vez, balançou a cabeça e voltou a olhar pro teto.

— Foi por isso que eu saí de casa, avô... Parece que minha esposa decidiu ser a nova fonte de renda dos Nohara.

Notas finais
Beeeem... Esse foi um capítulo difícil HUSHUHUSA Eu sei, eu sei. Vocês provavelmente esperavam algo mais suave depois do último capítulo, especialmente pelo jeito que eu consegui terminá-lo... A verdade é que na minha cabeça ainda iam umas três cenas a mais nesse capítulo, mas quando eu cheguei na 20ª página, lembrei que isso aqui não é The King, que é uma história leve e que não dava pra ficar enfiando tanta cena nervouser nos leitores de uma vez! XD Eu continuo tentando voltar a ativa. Espero que esteja me saindo bem, e que tenham gostado do capítulo, apesar de não ter muita coisa boa, propriamente dita... XD Estou tentando manter um ritmo de escrita, tentando me focar nos prazos e se Deus quiser, vou continuar assim! Obrigada por toda a força que vocês me mandaram, seja por comentários ou por PV! Suas mensagens realmente me dão um gás absurdo!... Obrigada por comentarem, por recomendarem e por continuarem amando essa história como eu! Espero que vocês tenham curtido o capítulo e continuem dispostos a acompanhar nossa história!... E que possamos nos ver na próxima semana aqui, em 50 Tons de Uchiha! Beijinhos da tia Candy!