50 Tons De Uchiha
42 Um Não Querer Mais que Bem Querer.
Notas iniciais
Capítulo 42 – Um Não Querer Mais que Bem Querer.
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
— Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”.
Sakura Haruno nunca tinha encontrado muitas dúvidas ao longo da jornada de sua vida, então em geral se considerava uma mulher bastante decidida.
Sempre tinha sido assim.
Desde menina gostava de cuidar dos outros – fosse da mãe quando adoecia ou um cachorrinho de rua que os pais nunca a deixavam adotar –, fato que sempre a fez ser considerada uma “menina responsável” diante os adultos que a rodeavam.
Foi aos treze anos que realmente decidiu ser médica, depois de ver Tsunade Senju cuidando de uma perna que Naruto tinha quebrado durante as férias de verão na casa de campo da família – aonde Mebuki trabalhou a maior parte de sua vida.
Os pais já a tinham avisado de que aquele seria um objetivo difícil de ser alcançado: eles eram pobres demais, simples demais, e não poderiam ajudar a filha com muito, mas Sakura não desistiu.
É verdade que ela teve que abrir mão de algumas experiências durante sua juventude: namorados foram deixados de lado, convites de festas ignorados, viagens com amigos e família deixados “para outra hora”... Mas nada disso importava.
Sakura estava focada em tornar o sonho de ser médica realidade.
Em ser a Dra. Sakura Haruno.
Ela tinha se esforçado muito para alcançar a tão suada residência. Tinha trabalhado como uma condenada, às vezes em coisas que ela nem fazia ideia de como fazer, só para conseguir chegar ali.
E agora...
Agora ela se sentia um zumbi.
Os olhos verdes seguiram até a escrivaninha. Sobre ela, os dois livros que Tsunade tinha pedido para que Sakura “desse uma olhada” durante seus dias de folga ainda estavam abertos, intocáveis desde a noite passada, quando a Haruno desistiu do projeto.
Ela sinceramente não conseguia ficar focada nos parágrafos. Seus olhos doíam diante das folhas brancas, sua cabeça latejava e ela sempre sentia que o sono a faria cair de cara sobre os livros, desmaiada.
Sakura não tinha dormido muito bem na última noite, nem na anterior, e nem na anterior, e em nenhuma durante as noites que se seguiram àqueles terríveis quinze dias que se passaram desde a última vez em que tinha visto o ex-namorado.
Sem querer ou mesmo pensar nisso, seus olhos pousaram sobre a caixa de jóias – também sobre a escrivaninha – que a mãe tinha dado de presente no último natal. Ela tinha uma consciência quase insuportável de que dentro daquele porta-jóias estava a intocada pulseira que Sasuke tinha comprado para presenteá-la meses antes.
Sakura apertou os olhos.
Não queria pensar nele. Nunca queria pensar nele, mas sempre, inevitavelmente, sua mente seguia por esses caminhos.
Quando pensava na declaração... Não!, na confissão que ouvira Sasuke fazer a Fugaku, seu coração se despedaçava. Ele tinha soado tão sincero, tão verdadeiro que era impossível não pensar sobre isso.
Mas dizer que a amava não mudava o passado, e a traição de Sasuke ainda amargava na alma de Sakura. Ainda que suas desculpas fossem verdadeiras, ainda que Sasuke não tivesse dormido com Karin Uzumaki, eles ainda tinham dormido no mesmo quarto – no quarto que ele tinha reservado para passar a noite com Sakura.
Na realidade, dizer que a amava deixava aquilo tudo mais difícil e doloroso.
Aquilo era terrível...
As noites mal-dormidas estavam atrapalhando seu desempenho no hospital, e para Sakura nada, nunca tinha sido tão importante quanto o seu sonho. Seu trabalho e seus estudos estavam acima de tudo que pudesse distraí-la, mas agora...
Agora tudo o que ela conseguia pensar era que o aniversário de Sasuke Uchiha e aconteceria daqui cinco dias.
E ao invés de se focar no trabalho, nos livros e em qual caminho da medicina deveria se especializar – algo que ela ainda não tinha decidido –, a mera distração fazia sua mente divagar sobre o que poderia dar de presente para seu ex-namorado cretino.
Ela queria chorar.
Sasuke Uchiha só tinha aparecido em sua vida para bagunçar tudo.
Só tinha aparecido para deixar tudo de cabeça para baixo. E ela, que sempre tinha pensado em si mesmo como uma mulher forte e decidida, agora não fazia ideia do que sentia ou pensava.
Ao mesmo tempo em que seu coração ansiava por vê-lo, sua mente sabia que era melhor manter distância; e do mesmo jeito que Sakura queria que ele viesse atrás dela, ela sabia que, ainda que acontecesse, o mandaria embora.
Ela queria perdoá-lo, mas não se achava capaz disso.
Era tudo uma bela porcaria.
.
Sakura estava encolhida na cama em posição de feto, com os olhos fixos à escrivaninha quando Ino decidiu entrar no quarto. Já passava das onze, e a amiga não tinha saído de lá nem para comer uma bolacha.
— Até quando vai ficar no ócio?
Ela perguntou de um jeito nada gentil, enquanto se sentava ao lado de Sakura e balançava sua cintura com energia.
— Levante-se, mulher! Precisa comer alguma coisa!
Sakura a encarou com cara de poucos amigos. Não estava com disposição para se levantar, e muito menos para ter que lidar com Ino – sempre tão tagarela e sempre tão cheia de energia – enquanto tomava café.
Mas a loira tinha outros planos; ela estava decidida em trazer ânimo à Sakura, então deu-lhe um tapa forte na nádega direita – que estava ligeiramente exposta graças ao micro-shorts do pijama – que fez a rosada gritar de dor e levantar num pulo.
— Sua...!
Mas o resmungar não evitou o sorriso de vitória de Ino.
— Vamos, Sakura-chan!
A loira agarrou a cintura da rosada depois de se levantar, ela dava pulinhos cheios de energia, e toda aquela animação só conseguiu irritar mais a já mal-humorada Sakura.
— A vida é bela! – Ino exclamou. – Cheia de coisas novas para se ver e se experimentar. Cheia de pessoas para conhecer!
Sakura bufou; se esquivou da amiga e seguiu na direção da escrivaninha enquanto esfregava a nádega dolorida.
— Já levantei, pode ir. – Ela resmungou; sabia que a amiga tinha boas intenções, mas estava tão irritada!...
Ino cruzou os braços. Enquanto observava a amiga se afastar, pôde notar que ela parecia muito mais magra do que de costume. E como a loira a conhecia desde o colégio, sabia que algo estava errado.
— Não vou.
Não era natural de Sakura passar noites em claro assistindo TV – como a havia flagrado algumas vezes durante os últimos dias –, nem abdicar o café da manhã, que a própria Sakura sempre gostava de dizer que “era a refeição mais importante do dia”. Ino não sabia como estavam sendo as outras refeições dela, mas podia imaginar que também não estivessem muito saudáveis ou regulares.
— Alguma coisa está errada... Então por que você não fala nada?
Ela também conhecia Sakura o suficiente para saber que os livros abertos de qualquer jeito sobre a escrivaninha não era algo normal e, portanto, via-se no direito de questioná-la.
— Supostamente eu sou sua melhor amiga, lembra?
Sakura suspirou longamente, sentou na escrivaninha e tentou abafar um bocejo.
— Eu tenho que estudar, Ino... Não seja chata.
Ino se empertigou, ofendida.
— Chata?! Eu não estou sendo chata, você é que está sendo insuportável. – Ela apontou para a amiga. – Agindo toda depressiva, sempre choramingando ou resmungando pelos cantos. Pelo amor de Deus! Por que não vai falar com ele logo?
Ino sinceramente estava se segurando para não dizer aquilo, mas o comportamento de Sakura beirava o ridículo, e a paciência dela tinha estourado.
— Vocês não são crianças, não são adolescentes vivendo o “primeiro amor”. São adultos! Adultos, pelo amor de Deus! Por que não podem sentar e conversar sobre seus sentimentos?
Sakura fechou os olhos e contou até dez mentalmente.
É claro que Ino não entenderia. Ela sempre foi o tipo de pessoa que preferia as coisas às claras, e devia pensar que o fato de Sakura ignorar o que ouvira Sasuke dizer naquela manhã devia parecer crueldade.
— Ele não queria dizer aquilo pra mim, Ino. – Ela tentou explicar pacientemente. – Estava falando com o pai, caso não se lembre.
— Sim, mas você ouviu.
Sakura suspirou.
— Ele não diria nada daquilo se sonhasse que eu poderia estar por perto.
Ino fez um gesto indiferente com a mão.
— Isso é balela. Você está enrolando, a ele e a si mesma. O que importa se ele não sabia que estava lá? Ele estava confessando os sentimentos que sente por você, e uma vez que você ouviu, por engano ou não, tem obrigação de respondê-lo. Se o ama, diga. Se não ama, diga também. É simples, maduro. Adulto. Não entendo porque as pessoas gostam de complicar tudo...
Sakura apertou os punhos e encarou a loira com os olhos faiscando.
É claro que Ino sabia que Sakura retribuía aos sentimentos de Sasuke; a rosada tinha certeza disso. Talvez ela quisesse ajudá-la dizendo aquilo, mas para Sakura, ela não estava sendo nada além de intrometida.
— Como você pode saber?!
A Haruno soou grosseira e cortante.
— Nunca passou por isso, não é mesmo?! – Sua voz se alterou – Nunca esteve nem daquele, nem desse lado. Então como poderia saber? O que eu sei é que ele falou aquilo para outra pessoa, não para mim. Se ele me amava, devia ter me dito enquanto estávamos juntos, mas ao invés disso aquele cretino dormiu com outra. Dormiu com outra enquanto tinha um compromisso comigo!
Ino bufou.
— Você sabe que se ele tivesse transado com aquela mulher teria te dito. Sasuke não é mentiroso, até eu sei disso. Cretino, talvez. Mas não mentiroso.
— Isso não importa! – Sakura gritou. – Ele dormiu com ela, Ino! Eles compartilharam a mesma cama, dormiram com os corpos encostados um ao outro, talvez até fazendo carinho um no outro!... – A voz dela tremulava, chorosa.
Era uma cena horrível de se imaginar, mas não saía da cabeça de Sakura desde que descobrira aquela maldita foto.
—Talvez você não consiga entender, já que dorme com qualquer um que topa-...
Ela mordeu a língua assim que as palavras saíram da sua boca, mas sabia que era tarde demais. Ino a encarava como se fosse o próprio demônio.
— Prossiga – Ela mandou depois de um longo minuto de silêncio, quase fria. – Talvez eu não entenda por que...?
Sakura suspirou.
— Desculpe.
— Não, diga. Por quê?... Ah, sim. Claro. Porque eu durmo com qualquer um que topo. Nossa! – Ela se abanou. – Ouvir isso foi intenso. Mas é claro que a Sakura-puritana-Haruno ia me julgar por isso. Me surpreende que tenha demorado tanto pra falar o que pensa.
Sakura coçou a testa, exasperada.
— Pelo amor de Deus... – Sua voz ainda soava quebrada – Eu não penso nada sobre nada, Ino. Só estou cansada, irritada, magoada. Não quero que se meta nesse assunto, é tão difícil de entender?
Ino negou.
— É bem simples, na verdade. Foi um erro meu, naturalmente. Imaginei que o fato de morarmos juntas e sermos amigas – melhores amigas, eu costumava pensar – desde o colégio me dava certa liberdade. Mas, bem... Eu estava errada. Aparentemente, só você é minha melhor amiga. Para você, eu devo ser só uma vadia com quem tem que dividir a casa.
Sakura estreitou os olhos e negou com a cabeça.
— Pare de falar dessa forma... Sabe que é mentira...
— O que eu sei é que de um dia para o outro, minha melhor amiga sumiu.
Sakura ergueu os olhos e até encontrar-se com a imensidão azul que eram os olhos de Ino; eles estavam firmes, imponentes; pareciam-se como uma fortaleza gelada, mas a Haruno sabia que por trás daquilo Ino estava magoada.
— Ou talvez eu esteja errada... Ela sempre foi assim. Foi por isso que você não confiou em mim quando Sasuke foi atrás de você, não é? Porque você pensou que eu ia virar uma espécie de vilã pro seu romance.
Os lábios da rosada se espremeram numa linha reta.
— Pra mim, a amizade só é realmente verdadeira quando ambas as partes tem a liberdade de dizer e ouvir o que a outra tem a dizer. Se você acha que o fato de eu me preocupar com o seu emagrecimento repentino ou a sua insônia, ou com o seu mau-humor, ou com o seu relacionamento mal resolvido faz de mim uma pessoa intrometida, acho que temos concepções muito diferentes de “amizade”.
Sakura não soube o que dizer.
— Na teoria, você devia confiar em mim. – Ino pontuou. – E dizer tudo o que eu te perguntei por vontade própria, sem pressão. Foi por isso que eu esperei duas semanas pra vir conversar, mas... Bem, parece que eu estava errada. Você prefere remoer sozinha, não é mesmo?
— Ino...
— Pode não querer ouvir isso... Mas eu vou ser bem sincera com você, Haruno: ninguém pode atrapalhar sua vida tanto quanto você mesma. Só você pode fazer dar errado. Nem eu, nem aquela garota podemos ser a vilã do seu romance, porque Sasuke gosta de você, assim como você gosta dele. E o Sasuke pode ser o maior dos cretinos, mas quem está complicando a história é você, com a sua covardia. Claro que tem todo o direito de não querer voltar com ele, tem todo o direito de fingir que nunca ouviu aquela confissão, mas não pode culpar o Sasuke por fazer o seu relacionamento ter dado errado. Não só ele, pelo menos. Afinal, ele foi adulto o suficiente para tentar conversar.
Sakura engoliu em seco.
— Ino... – Sua voz ainda soava chorosa.
Ainda não conseguia acreditar no que tinha dito, e precisava se desculpar. Mas Ino negou com a cabeça, recusando-se a ouvir as desculpas que sabia que viriam a seguir, e saiu do quarto de Sakura batendo a porta com força.
~
Kasumi Uchiha estava sentada, acomodada em uma cafeteria qualquer.
Sobre a mesa solitária descansava uma xícara cheia de café forte, alguns bolinhos e poucas páginas que haviam sido impressas no dia anterior.
O café tinha se tornado uma bebida rara no cardápio de Kasumi desde que ela tinha descoberto a gravidez; ela vinha tentando evitá-lo a todo custo, mas bem... Não é como se estivesse proibida de beber. E como a cafeína parecia uma opção melhor do que o álcool, a Uchiha imaginou que não fosse algo com que devesse se preocupar.
As folhas que seu amigo tinha fornecido, no entanto...
A ficha criminal de Hiroto Nohara não era tão extensa quanto os Uchihas tinham insinuado ser, mas também não era boa. Ele tinha sido preso três vezes, tantos anos atrás, e fora cotado como suspeito em mais de cinco crimes de estelionato, fraude e coisas relacionadas.
Era uma ficha antiga, era verdade, mas ainda assim, era uma ficha, o que mostrava que o senhor Nohara era – ou no mínimo tinha sido — de fato um criminoso.
A primeira prisão deu-se por um golpe tolo, denunciado por uma senhorinha que o acusava de ter roubado documentos, senhas e carteiras enquanto fingia ajudá-la a lidar com a máquina do banco, mas a vítima não tinha muitas provas, e Hiroto nenhum antecedente, então foi solto logo depois.
Sua segunda prisão foi um pouco mais séria: era um golpe comum e muito praticado, onde ele fingia comprar uma coisa, realizava um pagamento falso e recebia as mercadorias – em geral carros e motos usadas – para depois sumir. Quatro vítimas apareceram para esse caso, e ele permaneceu preso por meses antes de a esposa conseguir pagar a fiança.
O terceiro crime tinha acontecido depois do nascimento de Kasumi, e chamou a atenção dela por ser consideravelmente maior do que os outros. De alguma forma, Hiroto tinha conseguido entrar num esquema grande: Tratava-se de uma casa de jogos – que foi bastante badalada na época – cheia de máquinas alteradas. Hiroto e mais três homens foram presos, e o lugar fechado.
A fiança paga por aquela prisão tinha sido muito alta para os padrões da família Nohara, e enquanto batucava com na mesa com uma caneta, Kasumi se perguntou se os Uchihas tinham alguma coisa a ver com aquilo.
Ela suspirou longamente, encostou-se à cadeira e bebericou mais um gole do café quente. Fez algumas anotações sobre a folha enquanto refletia se estava ou não sendo uma hipócrita.
Sabia que não devia procurar culpa em tudo o que pudesse indicar os Uchiha, mas era muito difícil não pensar em Madara Uchiha como “o grande vilão por trás das cortinas”.
Kasumi conhecia a mente de pessoas como aquela. Estudara muitos casos e até fez parte da cobertura de alguns, então tinha aprendido ao menos um pouco sobre o que se passa nessas mentes perturbadas.
Estelionatários tinham certo nível de psicopatia. Eram pessoas sedutoras e extrovertidas, que esbanjavam confiança e assim conquistavam facilmente a dos outros. Pessoas com uma mente sem culpa nem vergonha, que não se importavam com as conseqüências que caíam sobre os ombros de suas vítimas e gostavam de pensar estar acima dos outros – embora nem sempre fossem.
Mesmo sabendo de tudo isso, Kasumi tinha sido ludibriada. Enganada na cara dura, e vinha sendo tão estúpida que só conseguiu de fato perceber que Hiroto extrapolava os limites de “avô-recém-encontrado” recentemente, depois da briga com Sasuke.
Hiroto pedia dinheiro com muita freqüência; parecia sempre precisar de algo novo, e ela nunca tinha percebido o quão aproveitador ele estava sendo. O velho costumava agir sorridente, e fazia o pedido com uma cara de culpa constrangida; Kasumi arranjava o que imaginava que eles precisavam e pouco tempo depois, ele pedia algo ou uma quantia nova, e ela nunca tinha percebido!
Isso a deixava muito frustrada, porque Hiroto Nohara não era nenhum gênio-psicótico: ele tinha sido preso três vezes porque deixara rastros óbvios.
Ela descontou sua raiva no bolinho sobre a mesa, e deixou sua mente divagar pelos montes de evidências que tinha deixado passar por todo aquele tempo.
Ainda se lembrava das palavras acusativas de Mikoto, tantos meses atrás. Lembrava claramente da acidez na voz da mãe de Itachi enquanto enchia a boca para chamar Rin de “golpista”.
Kasumi estreitou os lábios, bebeu mais café e tentou forçar sua memória a se lembrar o que mais ela tinha dito naquela ocasião. Recordava-se vagamente de Mikoto acusando a família da mãe para defender Madara, mas não tinha certeza se a Uchiha mencionara ou não as prisões de Hiroto.
Estalou a língua.
Devia ter investigado naquela época. Isso evitaria tanta coisa...
Os olhos castanhos de Kasumi se perderam no celular, que servia de peso para os papeis sobre a mesa.
Precisava ligar para Sasuke... Precisava se desculpar.
Ainda que Hiroto Nohara tivesse se reabilitado – o que ela duvidava –, tinha sido injusta com o cunhado. Ela precisava se desculpar, mas não achava que uma ligação bastaria para desfazer todas as palavras soltas ao vento daquela manhã.
Mas antes que pudesse puxar o telefone e digitar o número dele, seu celular vibrou, e a tela se iluminou com a identificação de Itachi.
~
Sakura e Ino não costumavam brigar.
Em geral, Ino gritava e esperneava quando estava irritada com a amiga, mas Sakura nunca sequer aumentara o tom de voz durante uma discussão com a loira.
Ino era sua única amiga de verdade, afinal... E sempre tinha sido assim.
As pessoas no colégio costumavam considerar Sakura “estranha”, “esquisita” demais para se envolver. Ela tinha amizades superficiais, é verdade, mas sincera, profunda e verdadeira, apenas com Ino Yamanaka.
Mesmo hoje, Ino continuava sendo a única.
A única que Sakura sabia confiar nela acima de tudo, a única que sempre a procuraria antes de qualquer pessoa para contar suas novidades, por mais estúpidas e superficiais que pudessem ser.
Ela admirava Kasumi e Tsunade, simpatizava com Hinata Hyuuga e adorava Tenten, mas Ino era sua amiga, sua irmã, e ela francamente não iria se importar se por acaso tivesse que dar a vida por ela.
Se pudesse, daria um tiro no pé de todos os canalhas com quem ela tinha se envolvido, com todas as pessoas sem coração que a tinham magoado, e agora...
E agora ela a tinha magoado.
Sakura sabia que aquelas palavras tinham doído muito no coração da loira, e pesaram muito mais porque ela, Sakura tinha dito, do que pesariam se qualquer outro dissesse. Foi por isso que Sakura tentou procurá-la depois daquilo; porque tinha que se retratar e tinha que se desculpar... Mas ir atrás dela só piorou tudo.
Ino gritou, fez acusações sem sentido e jurou que, uma vez que Sakura não confiava nela, ela também nunca mais confiaria em Sakura.
— E se fosse o contrário?! – Ela gritou na direção da rosada. – E se eu de repente parasse de comer, de dormir, de viver por causa de um cara?... Você ficaria assistindo? Eu te digo, Sakura: não, você não faria isso. Não fez isso! Quando precisei de você estava lá para me ouvir. A diferença é que eu queria falar, queria te contar! Quis abrir meu coração!... Mas você...! Você quer guardar tudo aí dentro!
Ela bateu no próprio peito.
— E uma hora você vai sufocar!
E depois saiu de casa, em lágrimas e aos berros.
A reação de Ino podia parecer exagerada e até absurda, mas Sakura conhecia a amiga; sabia que ela tinha sido sincera, e que toda aquela explosão era resultado da mais sincera preocupação.
Mas Ino e Sakura eram pessoas muito diferentes. Ino era um livro aberto, e sempre tinha sido, enquanto Sakura... Sakura não falava dos próprios problemas; ela preferia guardar suas preocupações para si mesma, e gostava de ser assim.
No entanto, podia entender os sentimentos de Ino. Ela era uma pessoa sensível e naturalmente preocupada. Elas foram amigas por quase a vida inteira, moravam juntas, e quase sempre estavam a par da vida e dos sentimentos uma da outra – pelo menos os mais importantes.
Sakura queria muito poder culpar alguém, qualquer um por toda aquela merda, mas sabia que ninguém era mais culpado do que ela.
Porque Sakura Haruno era uma idiota que não confiava nem na própria sombra.
.
— Acredita que ela insinuou que eu sou uma vadia?!
Ino estava aos berros no restaurante, e Tenten suspirou. Era muito cedo para aquele tipo de desabafo, então ela se aproximou de Ino, a aconchegou em seus braços e murmurou palavras de encorajamento ao mesmo tempo em que pedia para parar de gritar.
— Você é meio vadia, querida. – A morena a lembrou com um sorriso meio doce, meio debochado.
— Sim, eu sou. E você pode dizer isso zombando, mas ela falou sério, e ela é minha melhor amiga! – Ino choramingou.
— Não fique pra baixo por causa disso, Ino-chan. Todas nós somos meio vadias.
— Não ela. Sakura, A Puritana não é uma vadia.
A loira engoliu outra dose do que quer que o garçom trouxera mais cedo.
— Sakura se guardou para seu primeiro amor. – Ela fez uma vozinha irritante enquanto narrava. – Sakura não sai à noite, porque prefere estudar. Sakura, A Puritana, não gosta de ficar com caras desconhecidos. Sakura, A Santíssima...
— Vamos, pare de falar bobagens das quais vai se arrepender depois.
Tenten afagou os ombros da amiga. Ino escondeu o rosto no ombro da Mitsashi e voltou a choramingar.
— Sakura não é a santa perfeita, só é muito focada. Ela quer ser médica desde menina, não é? Você acha mesmo que ela dispensava os caras porque era uma espécie de santa? – Tenten deu um sorrisinho divertido. – Ela dispensava porque homens atrapalham, isso sim.
Ino continuou chorando, e Tenten suspirou longamente.
— Vamos, Ino. Você sabe que ela não pensa mal de vocês. Sakura não é o tipo que julga as pessoas por essas coisas, só falou isso porque estava irritada, e porque se sentiu acuada. Vocês são amigas... Não deixe uma bobagem como essa machucar o seu relacionamento.
Naquele momento, repentinamente alguém pousou uma tigela grande e pesada sobre a mesa que elas se sentavam. Uma tigela grande, com alguma comida gordurosa que elas não tinham pedido.
Elas ergueram os olhos e se depararam com o rosto conhecido de Chouji Akimichi, o sorridente dono daquele estabelecimento e amigo de infância de Ino e Shikamaru Nara.
A loira fungou e fez um beicinho trêmulo quando os olhos se encontraram com os do amigo gorducho, que apesar de balançar a cabeça com ar de censura, sorria gentilmente quando se sentou.
— Atrapalhando sua chefe a trabalhar?
Ele empurrou a tigela na direção da amiga de infância, mas Ino olhou chorosa na direção de Tenten.
— Também estou te atrapalhando?!...
Tenten sorriu e negou.
— Claro que não, querida.
Para Chouji estava claro que ela só estava sendo educada, mas mesmo assim ele deu de ombros e serviu-se com uma dose generosa da bebida que as moças tinham pedido mais cedo.
— Pode ir quando precisar. – Ele avisou amigavelmente – As coisas estão calmas por aqui, então posso cuidar ela por hoje.
E então levou os olhos até a loira, que estava cabisbaixa, mastigando aos poucos o que ele tinha lhe trazido para comer.
— É uma raridade você e a Sakura brigarem a sério. – Ele observou curiosamente.
Ino deu os ombros e continuou comendo.
De alguma forma, ela parou de chorar. Parecia mais calma, então Tenten não se sentiu muito culpada quando foi obrigada a sair de lá; ela se desculpou, avisou que na verdade tinha coisas para adiantar no trabalho e foi embora.
Ino e Chouji não conversaram muito mais sobre Sakura depois daquilo. Os problemas de seu amigo de infância eram tão maiores do que a briga com sua amiga ingrata que ela nem tinha energia para insistir sobre isso.
— Como vai a Chouchou? – Ela ergueu os olhos quando perguntou.
Chouji deu de ombros.
— Ela sente falta da mãe, mas está se adaptando.
Ino concordou lentamente.
— Pensei que tinha vindo vê-la... Não vem visitar desde o funeral.
Ela suspirou.
A esposa de Chouji tinha morrido há meio ano, e embora a vida do amigo tivesse virado de cabeça para baixo, a de Ino continuara da mesmíssima forma. Claro, eles não eram tão amigos quanto tinham sido quando crianças remelentas, mas ela ainda gostava dele, se importava com sua família e se preocupava com sua filha.
Ino se perguntou se Shikamaru e a esposa tinham sido mais presentes naquele momento delicado, e imaginou que sim. Shikamaru certamente continuara próximo do amigo, e apesar de ser um preguiçoso, ele nunca deixava um amigo na mão.
Droga. Não podia falar muito de Sakura... No fim, ela também era uma porcaria de amiga. Bem merecia ter sido trocada por Temari para amadrinhar a pequena Chouchou, uns três anos antes.
— Desculpe, só vim porque sabia que podia beber e gritar sem que você me expulsasse do lugar. – Ela confessou com ar sincero, o que o fez rir. – Na verdade não sabia que tinha voltado a trabalhar.
— Ajuda. – Ele apontou pra própria cabeça. – Distrai. A Chouchou está na cozinha. – Ele apontou para o lugar com a cabeça. – Três anos e já quer ficar colada nas cozinheiras. É um jovem gênio.
Ino sorriu com ele.
— Posso ir vê-la?
Chouji deu um sorrisinho irônico que nunca tinha combinado com ele, um sorrisinho que dizia “eu sei que você não se importa” que a magoou um pouco. Mas logo ele se levantou, e estendeu a mão na direção da Yamanaka com seu natural sorriso convidativo.
E quando Ino aceitou a mão dele, pensou que talvez... Talvez devesse voltar a vida de Chouji, afinal.
~
Kasumi estava pronta para pedir mais biscoitos quando sua ligação inesperada – que não era Itachi, afinal de contas – finalmente chegou.
Ela estava quase uma hora atrasada, mas Kasumi não se importou. Não queria mesmo voltar para casa, então combinou que se encontrassem no mesmo café em que já estava quando atendeu a ligação.
Mikoto Uchiha parecia muito hesitante, muito cautelosa quando entrou na cafeteria, mas mesmo assim Kasumi a viu de imediato. Ela gastou um minuto se perguntando se deveria chamá-la, mas, por sorte, antes que pudesse se decidir, a sogra a viu e se aproximou da mesa.
Kasumi não era bondosa o suficiente para não gostar do constrangimento da mãe de Itachi. Aquela mulher a tinha perseguido por tanto tempo... E mesmo que a própria Kasumi tivesse decidido perdoá-la, ainda era bom vê-la sem graça.
Mikoto mediu a nora por um instante, então sorriu de maneira constrangida.
— Você está enorme!...
Os lábios de Kasumi se estreitaram num meio sorriso.
— Não é um bom jeito de começar uma conversa. – Ela observou, divertida, e Mikoto suspirou longamente.
— Não quis ser ofensiva... Está linda. – Ela apontou para Kasumi e sorriu de um jeito tão encantador que não parecia nem de longe a matrona manipuladora que a perseguia desde o começo de seu relacionamento com Itachi. – Só estou surpresa. Ela está atrasada?
Kasumi negou.
Seu peito se aqueceu quando ouviu a sogra tratar Akane por “ela”, porque significava que sabia que era uma menina... E que, de alguma forma, em algum momento, tinha se preocupado em perguntar.
Em algum momento tinha se interessado.
— Estamos mais ou menos na 32ª semana... Algo assim. Então ainda temos um tempo.
Mikoto assentiu, mas não disse nada. Kasumi apontou para cadeira sugestivamente, e a sogra se sentou em um piscar de olhos, muito nervosa para se manter em pé.
Nenhuma das duas soube exatamente como começar a conversa, mas como Mikoto parecia muda e temerosa, a filha de Obito decidiu demonstrar alguma piedade, mostrando que não iria matá-la com os olhos.
— A senhora me chamou para falar sobre...?
A pergunta soou suave e gentil, e surpreendeu Mikoto. Afinal, era de conhecimento geral que Kasumi Aihara era uma pessoa ácida, irônica, e que dificilmente oferecia trégua as pessoas que não gostava.
De alguma forma, isso deu coragem para Mikoto começar.
— Itachi está em casa, então... Sei que vocês...
— Ah, sim... É verdade, ele saiu de casa. – Kasumi deu os ombros e sorriu com suavidade. – Mas não comemore ainda, Mikoto-san. É só um mal entendido
Foi só quando Mikoto a olhou, com uma expressão cheia de culpa, que Kasumi de fato viu ela, e não pôde evitar a sensação de pena que a invadiu. Porque ela percebeu que a sogra realmente não estava bem.
Mikoto Uchiha sempre tinha esbanjado elegância; era uma mulher bonita, que cuidava muito de si mesma, e beirava à futilidade. Mas hoje ela estava branca, cheia de olheiras e não tinha parado nem para passar um batom.
Os cabelos longos e negros da senhora Uchiha estavam alinhados, era verdade, mas pareciam mal cuidados em comparação ao que tinham sido antes; ela ainda se vestia com elegância, mas sua postura estava torta, relaxada.
Era quase outra pessoa.
— Eu não... – Ela começou, mas então hesitou. – Eu... Só estou preocupada. Com Itachi, com você, com o bebê...
Kasumi não conseguiu evitar: arqueou uma das sobrancelhas de um jeito que pareceu desconfiado, e isso tornou tudo ainda mais difícil para a mãe de Itachi, que pigarreou, juntou as mãos e tentou pensar no que falar.
Levou um tempo para ambas entenderem que aquilo não estava funcionando.
— A senhora não está bem, Mikoto-san. – Kasumi observou – Talvez queira beber algo para se acalmar... Um chá?
Mikoto negou.
— Eu sei que é difícil acreditar depois de tanto tempo sendo... Bem... Depois de tanto tempo tentando me intrometer no relacionamento de vocês. Sei que é difícil acreditar, mas não quero que seu casamento acabe, Kasumi... Estou preocupada com vocês. Ninguém me contou, então não posso ter certeza... Mas como Itachi chegou em casa com Fugaku, me pergunto se você e o meu marido não... Bem... Entraram em algum tipo de discórdia...
Por minha culpa, ela adicionou mentalmente.
— Sei que meu sogro e eu dificultamos as coisas para vocês, então... Temo que... Talvez, por acaso, você e Itachi...
Kasumi suspirou longamente; ajeitou o pescoço e negou com a cabeça
— O meu problema com o Itachi tem muito mais a ver com os Nohara do que com os Uchiha, Mikoto-san. – Ela admitiu, e então sorriu de um jeito maldoso para a sogra. – Parece que nenhum Uchiha gosta da minha família materna.
Aquela tinha sido uma indireta muito clara, mas apesar de Mikoto se lembrar claramente de cada palavra que tinha dito à nora na discussão que desencadeara o seu inferno astral, não foi à insinuação de Kasumi que prendeu sua atenção.
— Os Nohara?! – Ela perguntou com evidente surpresa.
— Sim, os Nohara. – Kasumi sorriu diante o espanto da sogra. Ela parecia ainda mais pálida do que era normalmente. – Não a minha mãe, é claro. Itachi gosta da minha mãe, mas não gostou muito quando descobriu que eu estava tentando conhecer meus avós. Os... Como vocês chamam? Ah, sim: golpistas.
Diferente de Kasumi, Mikoto não via graça nenhuma naquilo. Ela continuou olhando fixamente para os olhos castanhos da nora, tão séria que deixaria qualquer outra pessoa sem graça. Mas Kasumi estava acostumada com as encaradas dela, então não se importou muito.
— Ficar perto dessa família... Isso não pode ser bom para você, nem para a sua criança. – A mais velha se obrigou a avisar, soando muito sincera. – Eles não são boas pessoas, Aihara.
Kasumi já sabia que parte disso era verdade, mas não resistiu a mais uma provocação. Ela se ajeitou na cadeira, puxou mais um biscoito e, enquanto mordia, olhava de maneira zombeteira para a outra.
— Você não é uma fonte muito confiável para mim, Mikoto. – Ela teve que dizer. – Ou não se lembra das coisas que me falou sobre minha mãe?...
Mikoto prendeu o ar nos pulmões.
— Você a chamou de golpista. – Kasumi a lembrou. – De interesseira. Insinuou que eu não era filha de Obito, que ela tinha se casado pra arranjar um idiota para assumir uma gravidez... E Rin é a pessoa mais doce que eu já tive a honra de conhecer na vida. Aliás!... Só para que a senhora tenha certeza: eu sou filha dele. – Kasumi ergueu o antebraço e tocou em uma das veias. – Já tiramos a prova, então não precisa se preocupar tanto com as origens da sua neta.
Mikoto tinha se encolhido tanto que parecia querer sumir.
— Eu... E-Eu... – Sua voz tremia, e seus olhos piscavam tão rápidos que Kasumi soube que ela estava segurando as lágrimas. – Eu... Eu não estava sendo sincera... – Ela admitiu. – Rin... Rin realmente é uma pessoa, uma mulher muito doce...
Ela fungou, apertou os olhos e limpou as lágrimas.
— Kasumi... Foi tudo muito... Difícil. É complicado te explicar o que eu pensava ou sentia sobre sua mãe antes de ela sumir, durante o seu sumiço e depois de ela ter voltado. Tantas coisas aconteceram... Mas eu tenho certeza que mesmo sua mãe concordaria comigo sobre os Nohara.
Kasumi já tinha pensado nisso.
Já tinha pensado em perguntar para a mãe, discretamente, se ela sentia falta de seus pais, mas temia que sua intromissão fosse prejudicá-la.
Rin tinha mostrado muitos avanços com o passar do tempo; se tornara mais feliz, mais comunicativa, mais participativa. Mas Inoichi, o médico com quem se tratava, já havia alertado a família sobre os riscos que assuntos delicados podiam trazer.
Se Kasumi trouxesse o assunto errado no momento errado, Rin poderia surtar... Ou pior: regredir em seu tratamento. E nem Nohara, nem Uchiha, nem a resposta nenhuma à curiosidade de Kasumi era tão importante quanto à saúde mental de Rin.
— É uma história longa, triste e delicada... – Mikoto continuou, alheia aos pensamentos da nora, mas então foi interrompida:
— Então me conte. – Kasumi a pediu de repente.
A Uchiha mais velha ergueu os olhos inchados na direção da nora, surpresa com a seriedade na voz e na expressão dela, que até então tinha agido de maneira despreocupada e até debochada.
— Me conte tudo o que sabe.
~
Quando Ino voltou para casa, por volta das nove da noite, estava exausta. Tinha brincado com a pequena Chouchou a tarde inteira, até que a pequena se sentisse cansada o suficiente para ser levada para a cama.
Seu corpo estava tão exausto que ela não se importaria em ir direto para o quarto, tomar um banho e cair na cama. Mas, para ser sincera, não se surpreendeu muito quando chegou e encontrou Sakura no sofá, encolhida em posição de feto e com os olhos fixos à porta de entrada da casa.
Ela parecia ter chorado a tarde inteira, mas Ino não conseguiu sentir nem um pingo de pena. Ainda estava chateada, apesar de muito mais calma.
— Ino...
Sakura se levantou num pulo ao vê-la entrar, e se aproximou numa velocidade assustadora. – Onde você estava? Estava começando a me preocupar...
Ino estreitou os lábios, mas segurou a língua.
— Ino... – Sakura tomou suas mãos. – Por favor, fale comigo...
— Tudo bem, Sakura. – A voz da loira soou cansada. – Você não quer conversar sobre o Sasuke ou o que quer que esteja te deixando na foça. Entendi. Não vou mais insistir, se é o que você quer. Só estava preocupada... Você não tem agido normalmente, eu sei que anda ouvindo broncas no hospital, que não está comendo como normalmente e nem dormindo direito. Mas se você não quer falar disso, não vou insistir.
As mãos de Sakura apertaram as dela.
— Eu não queria dizer aquilo... – Ela murmurou chorosa. – Sabe que eu nunca, nunca pensei mal de você por causa das suas saídas ou dos seus casos. Eu só... – Ela balançou a cabeça. – Isso tudo tem me deixado tão nervosa... Tão fora de mim!... Mas isso não é desculpa. Não sei onde estava com a cabeça quando te disse aquilo, e se eu ofendi...
Ino fez uma careta. É claro que a tinha ofendido, mas estava decidida a encerrar a discussão de mais cedo.
— Estava no restaurante do Chouji. O gordinho do colégio, lembra-se? A família dele era amiga da minha e da do Shikamaru. Fui lá para beber e comer de graça, mas não fiz nada demais...
— Você está certa. – Sakura a interrompeu, e a abraçou com tanta força que Ino só não caiu para trás porque a porta lhe deu equilíbrio. – Eu sou uma covarde!... Uma idiota covarde! Não consigo decidir uma coisa e manter essa decisão!... Ah, Ino...
Ela se encolheu no peito da amiga e chorou.
— É tudo uma porcaria!... Eu não consigo parar de pensar nele! Não consigo tirar aquela maldita confissão da cabeça, e também não consigo perdoá-lo!... Eu simplesmente não sei o que fazer. Estava decidida a esquecer, a seguir em frente, mas... Mas... Mas tudo é tão difícil...
Aquilo foi surpreendente. Tão chocante que Ino, por um instante, emudeceu.
— O que eu faço?...
Ino já tinha dito o que ela deveria fazer mais cedo – e de forma bastante categórica, pelo que conseguia se lembrar. Mas Sakura estava finalmente se abrindo, e parecia desesperada... Então a loira decidiu que não devia se preocupar com esse tipo de detalhes.
Se Sakura estava disposta a ouvir seus conselhos agora, que fosse! Ela iria repeti-los sem problema!
Ino recuou um pouco e afastou Sakura segurando-a pelos ombros.
— Só tem uma coisa que você pode fazer nessa situação, Sakura. – Ela foi sincera, firme e quase grosseira. – Conversar com ele. Conversar, não fazer drama, nem brigar, nem gritar, nem estapear ele ou deixá-lo fazer qualquer uma dessas coisas com você. Vocês têm que conversar um com o outro como dois adultos, falar francamente... E então decidir o que farão.
Sakura estreitou os olhos, parecendo muito tentada a voltar a chorar.
— Me escute... Eu sei que posso estar errada. Como você mesma disse, eu nunca estive na sua posição ou na dele, mas acredito que isso é algo que vocês tem que fazer. Seu relacionamento terminou muito mal resolvido... E vocês precisam se acertar, nem que seja para poder seguir em frente.
Sakura anuiu lentamente, concordando.
E decidiu que faria aquilo, nem que fosse para Ino sentir que ela confiava em sua palavra e em seus conselhos.
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Hinata estava feliz.
Se não feliz, satisfeita. Porque as coisas com Naruto estavam indo de um jeito que ela nunca podia imaginar que dariam tão certo.
Eles estavam mesmo agindo como amigos... Mais do que isso: estavam mesmo voltando a ser amigos. Sem segundas intenções, ou talvez, como Hanabi insinuara na última festa, “com segundas intenções muito bem escondidas”.
Ele não tinha dito nada quando ela dançou com Toneri na noite da confraternização, nem implicou com Kiba quando ele entrou no meio de Shion e Hinata no karaokê e juntos soltaram a voz.
Naruto tinha se comportado como Naruto se comportaria: sorridente, animado e festeiro. Ele deu idéias de brincadeiras e tentou se divertir com todos, indiscriminadamente.
Não que ele não estivesse com ciúmes. Hinata percebia as sutis mudanças na expressão, uns suspiros mais longos do que outros e bufadas que ele soltava discretamente. Sim, ele continuava com ciúmes... Mas tinha se controlado, e isso a fazia se sentir ainda melhor.
Ele também não tinha tentado seduzi-la enquanto dançaram, o que foi um alívio.
Hinata não queria tentar nada com Naruto; queria continuar vivendo por ela, sorrindo por ela, brilhando por ela. Queria estar perto do amado, mas não queria pensar em avançar aquela amizade tão cedo.
Ela gostava da Hinata que tinha se tornado: forte, independente. Que conseguia sorrir mesmo quando Naruto não estivesse por perto. E queria aproveitar essa Hinata o máximo de tempo que conseguisse.
A Hinata que brilhava por si mesma.
A Hinata que gostava de si mesma.
A Hinata que conseguia ser alguém além de filha, neta ou irmã. Que conquistara espaço e sucesso em um mundo novo, luminoso e agitado, apesar do peso sério dos nomes Hyuuga e Uchiha.
Ela se orgulhava daquela Hinata, e por enquanto, estava bem com a ideia de ter que conviver só com ela.
Naruto e Hinata estavam se reaproximando mesmo; eles trocavam mensagens todos os dias desde a confraternização no apartamento da Hyuuga, mas apesar de o Uzumaki não ter lançado nenhuma insinuação com segundas intenções, Hinata tentava deixar claro que estava satisfeita com sua atual solteirice.
Ela estava sorridente quando estacionou em frente a casa de Kurenai e Asuma Sarutobi; puxou uma sacola com docinhos que tinha comprado para a pequena Mirai, filha do casal e saltou do carro.
Kurenai era a empresária da Time 8, e tinha mandado uma mensagem urgente para todos naquela manhã, convocando todos os integrantes para visitar sua casa em uma reunião imediata com horário marcado para o começo da noite. Aparentemente era uma surpresa boa, mas a mulher não tinha adiantado nada do assunto para ninguém.
Ela foi recebida pelo sorridente Asuma e a animada Mirai, que agarrou as pernas dela em agradecimento depois de receber os doces.
O marido de Kurenai a guiou até a sala de estar; ele a avisou que era a última a chegar e todos a esperavam, mas Hinata hesitou quando notou a presença de uma pessoa que definitivamente não pertencia à Time 8 na sala em questão.
— Hinata!
Kurenai sorriu ao vê-la.
— Está atrasada.
Shino notou.
E naquele momento, Toneri Ootsutsuki se virou na direção dela, sorrindo.
— Se prepare para o primeira turnê internacional da Time 8! – Kurenai anunciou com a voz absolutamente tomada de animação.
Os olhos confusos de Hinata varreram a sala, mas ela não encontrou uma gota de descontentamento ou desânimo na expressão dos companheiros. Muito pelo contrário: todos pareciam extasiados. Kiba parecia até anestesiado: ainda lia o contrato lhe entregado mais cedo, mas apesar de estar silencioso como nunca, seus olhos brilhavam, e Hinata sabia que ele só podia estar ansioso.
Então, apesar de se sentir absolutamente atordoada, Hinata tentou sorrir.
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Sasuke chegou tarde àquela noite.
Ele estava cansado, irritado, e graças a Karin (que nem aparecia no trabalho e nem pedia a maldita demissão), estava atolado até a garganta, com o trabalho dobrado e pouca vontade de fazê-lo.
Tinha que encontrar uma nova secretária...
Mas procurar uma nova secretária implicava em ter que se livrar de Karin, ou então realocá-la para qualquer lugar da empresa, e Madara ou Fugaku – ou os dois – certamente implicaria se ele fizesse algo do tipo.
Karin era filha de Nagato Uzumaki, afinal. E ele não era só um parceiro, como também um investidor de vários negócios da Uchiha, e certamente não ficaria satisfeito se pensasse que a filha estava sendo tratada com desprezo.
Sasuke suspirou, coçou a nuca e estalou o pescoço tenso.
Quando a porta do elevador abriu, ele estava decidido a cair na cama. O banho podia ficar para a manhã seguinte, mas ele precisava cair na cama e desmaiar pelo menos até as dez horas da manhã seguinte.
Quando acordasse tentaria ligar para Naruto e pediria ao amigo que conversasse com a teimosa prima a respeito do emprego na Uchiha, mas agora... Agora ele precisava dormir.
Mas a vida tinha uma maneira muito estranha de decidir o momento das coisas, então enquanto ele se aproximava da porta de seu apartamento, ouviu uma voz suave, tímida e hesitante, que o fez despertar de uma hora para a outra.
— Sasuke-kun... – Ela murmurara.
Ele parou no meio do corredor, ergueu a cabeça – que estava baixa enquanto Sasuke a estalava – e olhou, absolutamente estupefato, Sakura Haruno parada em frente à porta de seu apartamento.
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