50 Tons De Uchiha
29 Pela Família.
Notas iniciais
Capítulo 29 – Pela Família.
– Francamente, Sasuke! Eu pensei que tivéssemos tido essa conversa há dez anos. O que foi que você fez com tudo o que eu te ensinei no colegial?!
Itachi ria.
Ria não, gargalhava! E feito um louco.
Sasuke não se lembrava de ter se sentido tão constrangido na vida até aquele momento, e cogitava nunca mais pedir conselhos ao irmão mais velho, depois daquela cena. Afinal, de que adiantava tentar falar com Itachi, quando o irmão iria rir e ridicularizá-lo como qualquer outra pessoa?!
Não que Sasuke tivesse outra pessoa para falar sobre aquilo.
Poderia tentar com Fugaku, mas o pai simplesmente arquearia uma das sobrancelhas e perguntaria por que diabo estava fazendo uma pergunta tão estúpida e sem sentido, quando havia tantas outras coisas importantes para se pensar.
Poderia perguntar à Mikoto, mas suspeitava que a mãe, ao contrário do pai, se importaria demais com os motivos por trás daquela questão. E, se tinha uma coisa que Sasuke definitivamente não desejava, àquela altura de seu relacionamento, era ter a mãe nos calcanhares de Sakura, perseguindo-a feito um cão farejador, como há anos fazia com Kasumi.
Poderia tentar perguntar à Naruto, mas... Naruto era Naruto. Um bom amigo, mas péssimo ouvinte. Eternamente imbecil, e preocupado demais com seus próprios problemas amorosos – que Sasuke sabia serem muito piores do que os seus – para se importar com alheios.
Enquanto via o irmão se contorcendo sobre a cadeira do escritório, debruçando-se sobre a mesa de trabalho e gargalhando com gosto, Sasuke se perguntou se não teria feito melhor em perguntar à Kasumi.
Kasumi definitivamente contaria à Itachi. E sem sombra de dúvidas zombaria de Sasuke. Mas ainda que lhe zombasse, as gargalhadas da cunhada não seriam tão constrangedoras quanto às do irmão.
Sasuke suspirou longamente, exasperado, e levantou-se com irritação.
Odiava ser motivo de piada! Especialmente para Itachi, já que o admirava tanto.
Amassou a lata de café e a jogou dentro da lixeira, pronto para se retirar quando ouviu o irmão, em meio às muitas tentativas de controlar suas risadas, enfim chamá-lo.
– Sasuke! – Itachi exclamou risonho. – Espere! – Pediu, e então forçou uma tosse. – Espere, espere... Desculpe. Isso é sério, não é? Eu posso ver pela sua cara de frustração. – O mais jovem limitou-se a respondê-lo com um insatisfeito estreitar de lábios. – Desculpe. – Itachi repetiu, embora realmente quisesse voltar a rir. – Eu vou me comportar. – Prometeu, juntando as mãos e exibindo uma expressão falsamente arrependida.
Mesmo percebendo que o irmão estava se divertindo muito à sua custa, Sasuke tornou a se sentar.
Odiava ser motivo de piada, mas ainda assim ansiava por uma resposta.
– A diferença entre sexo e amor, é o que você deseja saber... – O mais velho exalou longamente e então sorriu. – Existem muitas diferenças entre “amor” e “sexo”. – Ele lhe disse com um tom didático.
Itachi virou-se de volta à mesa e, quando tornou a girar a cadeira na direção de Sasuke, usava os óculos de Kasumi e tinha o dedo indicador direito erguido. – O sexo é o ato de união entre dois indivíduos, homo ou heterossexuados. No caso dos heteros – que acredito ser o seu caso – os órgãos reprodutores...
– Você quer parar de zombar de mim?! – Sasuke explodiu, levantando-se subitamente, com o rosto ardendo, e Itachi tornou a gargalhar. – Eu nunca mais vou te perguntar porra nenhuma, irmão imprestável! – Ele exclamou, e mais uma vez seguiu a caminho da saída.
– Sasuke! – Itachi retirou os óculos. Finalmente conseguira parar de rir, mas o sorriso em seu rosto ainda fazia o mais jovem sentir-se um idiota. – Desculpe. – Tornou a pedir, e dessa vez pareceu sincero. – Só estou um pouco surpreso. – Ele confessou. – Nunca pensei que você...
– Só esquece. – Mas embora dissesse isso, Sasuke cruzou os braços e se recostou à parede. – Só pensei que seria uma boa idéia perguntar para você. Pensei que seria a melhor pessoa para isso... – Estreitou as sobrancelhas. – Sabe, por causa da Kasumi. Eu não conheço nenhum homem que seja tão doente por uma mulher.
– Amor não é doença, irmãozinho.
Sasuke tinha sérias dúvidas quanto àquela afirmação, mas nada disse.
– Bem, de qualquer forma... – Itachi prosseguiu, e suspirou. – Sente-se. – O instruiu. – Desta vez realmente não vou brincar.
Sasuke hesitou por um instante, mas por fim sentou-se. Fê-lo com os braços cruzados e uma expressão emburrada, a mesma que costumava fazer desde os cinco anos, sempre que Itachi o contrariava.
O irmão mais velho ajeitou-se em sua própria cadeira; guardou os óculos da noiva e cruzou os braços, sorrindo divertido ao mais jovem. – Essa é uma questão muito difícil de se responder, Sasuke. – Itachi admitiu. – Mas vou tentar.
Ele respirou fundo.
– Bem... Você sabe que eu e Kasumi sequer sabíamos o nome um do outro quando ficamos juntos pela primeira vez, não? – Sasuke anuiu. – Foi em uma festa de americanos. Amigos em comum. – Itachi deu os ombros. – Eu era calouro na faculdade e ela fazia intercâmbio... Salvei-a de um idiota bêbado, e acabamos trocando uns beijos. Enchemos a cara e, quando acordei, ela estava lá.
Tomou um gole do café gelado.
– Muito romântico. – O mais jovem ironizou, mas enquanto o irmão bebia, não conseguiu conter-se. – E você... – Ele hesitou. – Sentiu algo?
Francamente, Sasuke se sentia uma idiota garota de quinze anos por verbalizar aquele tipo de pergunta, mas tentou não pensar muito nisso.
– Eu senti muitas coisas. – Itachi riu. – Foi muito estranho, porque depois de perceber o que tinha acontecido, Kasumi começou a chorar. – Ele fez uma careta. – Eu me senti um completo idiota, mas na verdade nem me importei muito... Mais tarde, descobri por nosso amigo em comum que ela era menor de idade, virgem e sem família. – Itachi coçou a nuca, como se a lembrança o incomodasse. – Me senti um imbecil, e quis procurá-la para pedir desculpas... Mas quando a achei... – Um sorriso discreto, ligeiramente nostálgico surgiu de seus lábios. – Bem, ela não parecia nenhum pouco a garota que chorou quando descobriu ter perdido a virgindade numa noite de porre... Ela me olhou como se eu fosse um nada e me disse: “ah, é só você? O que queria falar comigo?”. – Sasuke riu. – Não ria. Aquilo foi muito frustrante. – Itachi pediu, mas também riu. – No fim das contas, eu pedi desculpas, mas ela disse que aquilo não importava. Que já tinha acontecido, e nada podia ser feito. E então...
– Você se apaixonou como uma garotinha de dramas românticos. – Sasuke sugeriu com um sorriso maldoso.
– Não. – Itachi lhe sorriu em resposta. – Ela me beijou, e confundiu toda a minha cabeça. – Suspirou longamente. – E então, depois disso, começamos a sair.
– Não faz nenhum sentido para mim. – Sasuke admitiu.
– Bingo! – Itachi exclamou, apontando o dedo indicador ao irmão. – Amor não faz sentido. – Piscou, e tornou a se ajeitar na cadeira. – Na realidade, acredito que o amor nasça gradualmente... Ao menos foi assim que aconteceu comigo. – Ele bebeu mais do café gelado. – Francamente, sequer sei quando comecei a me apaixonar por essa mulher... Mas, de uma hora para a outra, simplesmente... Eu não queria ficar com ninguém além dela.
Sasuke sentiu uma pontada incômoda em seu estômago.
– Kasumi se tornou mais bonita do que todas as outras... Era mais inteligente, mais perfeita do que qualquer uma... Era perfeita para mim. – Itachi sorriu. – E, quando notei isso, pude perceber a diferença... Que existia uma diferença. – Ele deu os ombros.
Sasuke não conseguiu pensar em algo para respondê-lo.
Se Itachi o tivesse dito aquilo há quarenta e duas horas atrás, ele certamente riria do irmão e conseguiria pensar em alguma piada, mas agora nada lhe ocorria.
– Mas se você veio me perguntar isso... Suponho que também tenha percebido. Certo, Sasuke?
Sasuke pensou em rir, só para desconversar. Pensou em rir, e fazer piada do irmão, mas não conseguiu; todo seu corpo estava tenso e sua mente parecia vazia.
Ele cogitou negar, porque realmente não pensava estar apaixonado. Pensou em negar, mas imaginou que aquilo só faria com que Itachi tivesse mais convicção em suas especulações...
Não, mais que isso.
Sasuke simplesmente não conseguiu verbalizar uma negação.
Lentamente, os olhos negros ergueram-se sérios até o rosto de Itachi.
Ele sorria. Um sorriso calmo, compreensivo, que se desfez quando o som de alguém batendo à porta foi ouvido. – Espere um minuto. – Itachi o pediu, já se levantando e seguindo para fora do minúsculo escritório, enfim deixando o irmão só.
Sasuke continuou ali, sentado e imóvel. Olhando para o horizonte enquanto sua mente parecia querer reviver as memórias da noite passada.
Poderia ser verdade? Poderia Sasuke, enfim, estar apaixonado?
Ele gostava de Sakura. Sabia disso. Sabia que era louco por aquela mulher, por suas teimosias, por seu jeito ligeiramente arcaico de pensar; por seu pudor sem sentido, por sua língua afiada. Por seus olhos, tão grandes, vívidos e verdes... Por seus lábios, tão róseos...
Ele definitivamente era louco por ela. Por toda ela.
No entanto...
– Kasumi?! – A exclamação alta do irmão tirou-o de seus devaneios. Sasuke ergueu a cabeça, estreitando os olhos, estranhando. – O que aconteceu...? Kasumi!
Ele se levantou num pulo, assustado ao ouvir um grito choroso. Preocupado, apressou-se em sair do escritório de Itachi, mas paralisou quando, ao alcançar a sala, enxergou a cena:
Kasumi estava ao chão, caída e encolhida, chorando desesperadamente. Itachi agachava-se ao lado da noiva, preocupado; segurava-a pelos ombros e exclamava, exigindo explicações que ela não podia dar.
– O que aconteceu?! – Sasuke se apressou em aproximar-se do homem que a acompanhava, pálido, apavorado com a possibilidade de algo ter acontecido ao sobrinho. – Quem é-... – Mas ele se calou ao reconhecer o homem que trabalhava com o tio. – Mas que droga...?!
– Eu não sei o que aconteceu. – O outro se apressou em explicar. – O chefe me mandou trazê-la para cá, e eu trouxe! Não fiz nada com ela! – Sasuke franziu os lábios e tornou a olhar para a cunhada.
Itachi já estava em pé, coma noiva nos braços. Ele sequer parecia notar a presença dos demais na sala, portanto, simplesmente seguiu para o quarto.
– Tio Obito e Kasumi brigaram? – Sasuke tornou sua atenção ao homem, que negou prontamente. – Então o que...?
– Eu não sei... – O chofer repetiu. – Quando nós chegamos a sala, ela e patroa já estavam chorando.
– Patroa? – O homem assentiu. – Kasumi estava com Rin?
– Sim senhor.
Sasuke estreitou os lábios.
Agora sim, as coisas pareciam fazer um pouco de sentido.
~
Naruto havia tido uma ótima noite de sono, e sentia-se ligeiramente bem humorado àquela manhã. Tudo porque, na noite passada, enquanto observava Hinata – sem discrição alguma, diga-se de passagem – e Kiba, pôde perceber o quão distante e desconfortável o casal parecia sentir-se na presença um do outro.
Terrível para o relacionamento deles.
Ótimo para o humor do não tão bondoso Uzumaki.
Naruto havia acordado tão feliz, tão satisfeito com o resultado do show da noite passada que sequer pôde cogitar a possibilidade de ficar trancado, trabalhando no escritório – como havia se acostumado a ficar de uns meses para cá.
Ele levantou-se, tomou um longo banho de quarenta minutos e vestiu o seu mais confortável moletom laranja, decidido a fazer algo divertido.
Enquanto descia as escadas da residência Uzumaki, perguntava-se o que poderia fazer naquela manhã chuvosa.
Talvez convidasse Sasuke para uma competição na pista de karts que costumavam freqüentar... Ou talvez pudessem jogar boliche, ou paintball. Qualquer coisa que fosse divertida!
Ele estava pensando nisso quando encontrou Menma e Hanabi sentadas juntas na sala. Estranhou ver a irmãzinha deitada sobre o colo da melhor amiga, com o rosto enrubescido e os olhinhos azuis semicerrados e chorosos, claramente perturbados com alguma coisa.
– O que houve? – Naruto perguntou enquanto descia as escadas. Bastou ouvir a voz dele para que Menma tornasse a se sentar, reta e constrangida. – O- Onii-chan! – Ela exclamou, constrangida. – É tão cedo! Você já está em pé...
– O que houve? – Naruto a cortou, firme, enquanto sentava-se entre as amigas.
– O- O que? – Menma riu, mas não pôde convencê-lo. – Nós duas só estávamos assistindo aquilo. – Ela apontou para a TV. – É impossível não chorar com Hachi, certo? Você mesmo me disse isso.
Os lábios de Naruto se estreitaram, claramente insatisfeitos.
Cada desculpa parecia mais mentirosa.
– O que...? Por que está me olhando assim?! – Menma estava vermelha. – É a mais pura verdade! – Hanabi suspirou longamente.
– Você devia contar à ele, Menma. – Ela aconselhou, séria, e cruzou os braços. – Não só ao Naru-nii, como também à onee-chan. – Naruto arqueou as sobrancelhas e lançou à Hanabi um olhar interrogativo. – Kiba a beijou!
– Hanabi! – O grito de Menma soou furioso e extremamente acusativo.
Tanto, que Naruto teve certeza de que Hana havia lhe dito a verdade.
– Ele o quê?!
~
Rin não havia conseguido se acalmar até que Obito, depois de muito hesitar, comandasse a governanta que lhe desse a medicação indicada por Inoichi para o caso de crises sérias.
Ela havia chorado e esperneado, negando-se tomar qualquer coisa que lhe era oferecida, possivelmente traumatizada pelos anos e anos de sofrimento em clínicas onde não devia estar, mas obedeceu quando o marido a garantiu, carinhoso, que tudo aquilo era para seu próprio bem.
E cinco minutos após ser medicada, ela dormia feito um anjo.
Obito passou o resto da manhã ao lado dela.
Tentara falar com Itachi, mas não havia tido sucesso em nenhuma das vinte e duas ligações feitas; mesmo que o chofer garantisse que o sobrinho lhe dissera que “tudo estava sob controle”, ele estava aflito.
Nunca, jamais cogitaria a ideia de que Rin a reconheceria. De fato, ele queria que Kasumi conhecesse a mãe... Queria que a filha se sensibilizasse, que sentisse o amor que Rin nutria pela filha perdida, mas nunca, nem em seus piores pesadelos, poderia idealizar aquela cena!
Ver Rin chorar foi horrível e torturante, mas não conseguiu ser pior do que assistir as lágrimas silenciosas e agonizadas de sua menina.
Obito percebeu que nada era pior do que ver Kasumi ferida.
Agora, ele se sentia um completo idiota por pensar naquele encontro. Era um imbecil! Um inconsequente! Mas agora nada podia ser feito.
Rin finalmente havia sido exposta à verdade e Kasumi finalmente fora exposta a situação da mãe. Desde o começo, Obito desejava aqueles resultados, mas não conseguia sentir-se satisfeito, graças aos meios em que foram conquistados.
Era quase hora do pôr do sol, quando Rin despertou. Ele ainda estava lá, deitado ao lado dela, com o braço envolto em seus ombros, acolhendo-a da melhor maneira possível. – Você me drogou... – Ela murmurou lentamente, ainda se sentia grogue pela medicação. – Não devia ter feito isso... – Tentou se levantar, mas quase no mesmo instante, desabou sobre o marido.
– Fique quieta... – Obito a envolveu.
– Não... – Ela tentou se afastar. – Onde está ela...? Eu quero vê-la... Akane...!
– Não faça isso, querida... – Obito pressionou os lábios sobre a cabeleira castanha, incomodado com aquela situação. – Agora não, por favor...
– Onde ela está, Obito?! – A pergunta soou alta, ligeiramente agonizada.
– Ela está bem... – Ele alisou os cabelos longos da amada. – Ela está bem, mas precisa descansar... Por favor, Rin...
– Não... Eu a quero aqui... – Ela fungou. – Eu a quero aqui... Onde ela está?!
– Rin, olhe para mim. – Mas ela não quis. Continuou tentando se esquivar, continuou tentando se levantar, mas nem por um segundo quis erguer os olhos para os do esposo. – Rin! – Ele segurou seu rosto firmemente, e obrigou-a a fitá-lo. – Por favor... – Os olhos negros se estreitaram. – Nós temos que ser pacientes... Ela é uma mulher adulta...
– Eu quero a minha filha. – Ela o cortou. Sua voz foi um sussurro... Um pedido e uma ordem, dolorosa para ambos. – Eu não me importo se ela é uma adulta, ou um bebê... – Rin piscou rápido; sentia-se tremer. – Eu a quero aqui... Agora... Deitada ao meu lado. Quero abraçá-la, beijá-la... – E começou a chorar. – Quero dizê-la o quanto a amo... Por isso, por favor, Obito...
E Obito queria fazer isso. Mais do que qualquer coisa.
Ele queria ir até a casa de Itachi, buscar Kasumi, ainda que a força e levá-la até Rin. Queria que as duas conversassem, que conhecessem uma a outra, mas sabia que forçar aquele reencontro só machucaria a filha.
– Tente pensar nela... – Ele murmurou baixo. – Tente pensar no quanto Kasumi deve estar sofrendo por saber a verdade...
Rin estreitou os olhos.
– Verdade...? – Obito anuiu.
– Pense nisso, meu amor... – Ele roçou os lábios na testa dela. – Kasumi foi criada sem pais... Sem amor... – Sentiu-a encolher-se em seus braços. – Ela não está ciente de sua própria história. Não pode saber o quanto a amamos... O quanto você, principalmente, sofreu por perdê-la...
– Obito... Eu preciso dela... Preciso dela aqui, ou sinto que posso enlouquecer...
Ele a apertou.
– Você não vai enlouquecer. – Garantiu entre dentes. – Eu estou aqui, não vou permitir que isso aconteça.
– Obito...
– Ela ainda precisa aceitar, Rin... Aceitar que é nossa. – Os lábios dele roçaram na cabeleira morena. – E quando isso acontecer... Juro, por minha vida, que não vou mais permitir que ela se afaste.
~
Hinata chegou cedo ao ensaio, mas se arrependeu.
Apenas Kiba estava na garagem. Estava sentado sobre o palco improvisado, limpando sua guitarra velha favorita com um pano de flanela. Havia erguido os olhos quando ouviu a porta se abrir, e ambos tinham se cumprimentado com uma troca de sorrisos extremamente desconfortável.
Hinata ficou em pé por algum tempo, sem saber o que fazer ou para onde olhar, e o silêncio se estendeu por um curto momento.
– Você pode se sentar, sabe?
Kiba murmurou, sem tirar os olhos da guitarra. E então, hesitante e constrangida, Hinata tomou seu lugar ao lado dele.
Ela tentou olhar para o palco, para a porta, para o teto, e rezou para que os demais integrantes chegassem logo, mas tudo se mostrou inútil. O silêncio tornou a crescer, prosseguiu irritantemente, e parecia interminável.
Até Kiba decidir quebrá-lo.
– Isso não está dando certo. – Ele suspirou longamente; soltou a guitarra e coçou a nuca, desconfortável.
Hina limitou-se a baixar o rosto, extremamente constrangida. Concordava plenamente com a afirmação do outro, mas não achou certo verbalizar isso.
– Nós somos mais do que namorados, Hina. Agora somos companheiros da Time Oito! – Ele exclamou, finalmente levando os olhos na direção dela. – Não podemos ficar nesse clima. – E, diante do silencio da moça, suspirou.
Tornou os olhos castanhos à guitarra, voltou a coçar a nuca e depois de respirar fundo, voltou a trabalhar no instrumento. – Seja sincera comigo... Por que não fica logo com aquele cara?
Hinata corou.
– Está apaixonada por Naruto, e ele é claramente louco por você. – Olhou-a de soslaio. – Qual é a dificuldade em ficarem juntos?
–... É difícil de explicar. – Ela olhou para as próprias mãos, chateada. – Muitas coisas aconteceram conosco... Então você não entenderia.
– É. Realmente acho que não entenderia. – Kiba cruzou os braços, tentando conter sua irritação. – Mesmo que “muitas coisas” tenham acontecido, vocês se gostam... – Ele franziu os lábios. – Ontem, enquanto dançavam juntos...
– Foi só uma dança, Kiba. – Ela murmurou, levantando-se. – Nós somos amigos, e já dançamos juntos pelo menos um milhão de vezes. Nem por isso ficamos juntos.
O rapaz franziu o cenho.
– Vamos, Hina. Eu já disse: está na cara que se gostam. Só não compreendo o porquê de você...
– Exatamente! – Ela o interrompeu. – Você não entende! – Hinata virou-se subitamente; seus punhos apertavam e seu rosto estava vermelho. – Não entende porque não viu. Naruto não gosta de mim... – Ela baixou os olhos, perturbada. – Não como eu gosto dele, pelo menos. – E tornou a encará-lo. – Só está irritado com a possibilidade de eu me afastar!
Kiba riu com desânimo, e deitou-se sobre o palco. – Você pensa mesmo assim? Acha mesmo que é verdade? Porque isso significa que ele é um belo de um mau caráter. – Hinata enrijeceu, e apertou os punhos. – Mas você o conhece melhor do que eu. – Ele deu os ombros. – Se é esse filho da mãe que você diz, não sou eu que vou negar. – Hinata manteve-se em silêncio, um tanto irritada com a ofensa ao amado. – Mas mesmo que ele seja esse filho da mãe... Ainda gosta do Naruto.
Silêncio.
– E, por isso... – Kiba fechou os olhos. – Nós dois...
Mas antes que pudesse concluir seu pensamento, alguém entrou. Kiba se sentou, decidido a não discutir o assunto em público, mas arregalou os olhos ao ver Naruto Uzumaki ali, bufando como um touro furioso.
– N- Naruto! – Hinata parecia chocada. – O que faz aqui?... Quem te contou que estaríamos aqui?! – Ela tentou soar irritada, mas estava surpresa demais para conseguir.
– Sua irmã. – Foi tudo o que o loiro lhe respondeu.
Ele parecia... Furioso. Possesso.
– Por que está com essa cara? – Ela franziu os lábios, simulando frustração, mas sentia-se bastante assustada.
– Eu tenho alguns assuntos pendentes com o seu namoradinho. – Ele murmurou entre dentes, e sem mais explicações, começou a se aproximar do dito cujo.
Kiba estreitou as sobrancelhas, nada intimidado, e sorriu apenas para provocá-lo. – Eu vou enfiar esse sorrisinho no seu... – Naruto se calou ao sentir as mãos de Hinata agarrarem seu pulso.
– Não faça isso. – Ela murmurou, séria.
– Hoje não tem nada a ver com você, amor. – Naruto garantiu; soltou-se facilmente do aperto da Hyuuga e, rápido, alcançou o Inuzuka: ele agarrou-o pelo colarinho, puxando-o e obrigando o músico a levantar-se. E, quando Kiba estava em pé, Naruto simplesmente socou seu rosto.
– Nunca mais chega perto da minha irmã, seu filho da puta! – Ele gritou, furioso. – Mantenha essa boca suja e seu bafo de cachorro longe da minha irmãzinha, seu maldito pedófilo!
Hinata paralisou, embasbacada com a cena.
Kiba tornou a sorrir de maneira provocante. – Por quê? Não é pedofilia se ela retribuir, é? – A resposta de Naruto foi outro soco, bem no nariz do moreno.
– Naruto! – Hinata gritou, apavorada, e enfim desperta. Ela se apressou em aproximar-se, agarrou o amado pelas costas e se esforçou para afastá-lo do companheiro de equipe. – Naruto, acalme-se!... Fique calmo! – Ela gritou, e enfim conseguiu fazer com que o loiro soltasse o outro.
– “Calmo” o cacete! – Ele gritou à garota, que enrubesceu, mas manteve-se firme. – Esse maldito beijou a minha irmã... Roubou o primeiro beijo da minha irmãzinha! Eu não vou ficar parado enquanto ela está lá, chorando de frustração!
Kiba riu. Não conseguia pensar em Menma Uzumaki chorando, muito menos por um simples e estúpido beijo que ela, a propósito, havia retribuído. Ele se sentou ao chão, ignorando o olhar mortal de Naruto, e limpou o sangue de seu nariz quebrado.
– Pelo amor de Deus! Você quebrou o nariz dele por causa de um beijo?!
– Ele beijou a minha irmã! – Naruto gritou. Para ele, só aquilo servia como explicação para tudo o que ele pudesse fazer com o grande filho da puta presente naquele recinto.
– E quantos anos a Menma têm? Dezessete? – Ele franziu os lábios, claramente furioso, mas Hinata não se conteve. – Bom, se você está fazendo todo esse show – Ela gesticulou com as mãos. – Porque a sua irmã de dezessete anos teve um beijo roubado, pergunto-me o que o Neji nii-san teria feito a você, caso soubesse o que fez a mim, com ainda menos idade.
Naruto não a respondeu.
Não por não ter respostas, nem por se sentir envergonhado com aquela insinuação – porque, francamente, ele estava nervoso demais para sentir-se constrangido com o que quer que fosse. Ele simplesmente preferiu não responder, porque estava furioso, e não queria mandar a mulher que amava para o quinto dos infernos.
Sua situação com Hinata já estava ruim o suficiente sem ele fazer isso.
Lentamente, ele voltou-se para o Inuzuka. Sentiu o aperto de Hinata em seu braço esquerdo, mas não fez menção em se soltar. – Da próxima vez que estiver a um metro de distância da minha irmã... Se eu te pegar só olhando para ela... Juro, seu vira-latas: arranco seus olhos.
Soltou-se rudemente do aperto da Hyuuga, e sem olhar para ela, retirou-se, batendo a porta ao deixar o lugar.
Hinata precisou de um segundo para se recompor.
Naruto estava furioso... Furioso com ela!
Podia sentir cada membro trêmulo de seu corpo; apertou as mãos no rosto na inútil tentativa de conter as frustrantes e irritantes lágrimas, mas foi inevitável.
– Desculpe por isso. – A voz de Kiba a despertou. Lentamente, Hinata tirou as mãos do rosto e levou sua atenção a ele.
O pobre rapaz estava caído, com uma maçã do rosto levemente inchada e o nariz sangrando. Ela franziu os lábios, respirou fundo e enfim, decidiu se aproximar.
Puxou a bolsa do palco e de uma bolsinha, retirou álcool e algodão para limpar as feridas de seu possivelmente futuro ex- namorado. Kiba estava com a cara fechada e um semblante emburrado.
– Realmente beijou a Menma? – Hinata teve que perguntar.
O silêncio dele foi sua resposta. Mas, superando as expectativas do músico, a Hyuuga começou a rir. Um riso abafado, inicialmente, que se tornou alto e divertido.
– Você não devia estar me dando uns tapas por isso? – Hinata negou.
– Para ser sincera, eu cogitei essa possibilidade, então não estou muito surpresa... Mas admito: pensei que fosse ela a gostar de você, e não o contrário.
Kiba fez uma careta.
– Não gosto dela. – Murmurou.
– Ah, gosta sim.
Ele revirou os olhos.
– Tudo bem não querer ser minha namorada, Hinata. Mas pare de tentar me arranjar pretendentes para terminarmos, certo? Especialmente se elas forem garotinhas chatas, estúpidas e escandalosas.
Hinata riu, e ele acabou por sorrir também.
– É... Parece que agora é definitivo. Não dá para namorar uma garota que ri dos chifres que leva.
Hinata cogitou dizer que também havia beijado Naruto enquanto namorava Kiba, mas imaginou que seria mais inteligente e menos constrangedor para ambos não fazê-lo. De qualquer forma, apostava que ele devia suspeitar de algo.
– Tudo bem para mim.
– É claro que está. – Kiba revirou os olhos. – Porque assim que me largar, vai correr pros braços do amor da sua vida. – Ele gesticulou para a porta, e Hinata sorriu.
– Prometo não correr pros braços de ninguém... Não até ter certeza. –Kiba sorriu. – Ele merece um pouco de agonia. – Hinata completou, sorrindo levemente.
– Já que é assim... Acho que podemos continuar amigos, Hinata Hyuuga.
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