Notas iniciais
Antes de qualquer coisa, como sempre, eu gostaria de agradecer à Jessy Chan pela 18ª recomendação de 50tonsU! Muito obrigada pelo carinho, Jessy! E por fazer esta autora feliz. sz~ Também quero agradecer à todos vocês, criaturas pacientes que sempre me esperam sem deixar de comentar... Ainda que eu não consiga responder os reviews. ;-; Vocês são todos tão lindos, que eu nem sei o que dizer. Bem... Amigos, esse é o maior capítulo que eu escrevo em muito tempo. Por isso, espero que reconsiderem seu rancor sobre o meu atraso! XD Eu sinto muito demorar tanto a postar, mas tá sendo difícil escrever esses tempos... Esse foi um capítulo muito planejado. De verdade! Eu queria muito que ele saísse perfeito, e foi por isso que demorou tanto a ser postado. Francamente, não sei se está perfeito. Não sei se acabou sendo o que eu esperava... Mas eu espero, sinceramente, que vocês consigam sentir um pouco da emoção que tentei transpassar! sz~

Capítulo 32 – O Dia.

[VINTE E CINCO ANOS ATRÁS]

Os olhos de Madara estavam fixos à janela escura do automóvel, mas ele não conseguia enxergar nada realmente. O carro seguia rápido e as imagens da paisagem lá fora mais pareciam fantásticos flashs. Mas, tão imerso em seus pensamentos, o líder da família Uchiha sequer pôde perceber quando o carro parou.

– Nós chegamos, senhor Uchiha.

O motorista, um velho senhor que já trabalhava há muito para a família o avisou e só então Madara pôde despertar de seus devaneios. Com um semblante sério, ele ergueu os orbes negros e reflexivos para encarar a triste imagem cinzenta que o bairro pobre formava.

Observou cada detalhe do lugar: as calçadas esburacadas, os muros escuros, os prédios velhos caindo aos pedaços que pareciam ser ou velhos demais ou simplesmente mal construídos. Passara minutos refletindo até decidir abrir a porta.

Ele saiu do carro sem se preocupar com a chuva, e mesmo que o motorista velhote exclamasse para que ele se protegesse da pseudotempestade, Madara simplesmente seguiu em frente, dando passos rápidos e firmes em direção aos prédios antigos.

Mesmo com a ventania, com as gotas fortes e irritantes encharcando seu sobretudo negro, longo e caro, seus passos não hesitaram nem por um instante.

Ele não hesitou nem por um instante.

Afinal, chuva nenhuma – nem qualquer doença que pudesse lhe trazer – poderia incomodá-lo mais do que a absurda situação em que seu filho do meio se metera.

Madara não precisou se identificar na portaria do prédio, uma vez que os portões estavam abertos – na verdade, escancarados – para quem quisesse entrar. Também não precisou olhar o pequeno bilhete que guardava dentro do bolso interno do casaco para lembrar-se qual o andar, ou o apartamento certo, já que tudo o que precisava saber sobre aquela gentinha já estava muito bem gravado em sua mente.

Ele andou firmemente pelas escadas mal construídas, limitando sua atenção às pequenas placas que informavam os andares, mas quando chegou ao correto – o quarto andar do Bloco C de um conjunto de prédios que deviam ser muito mais velhos do que seu falecido pai –, foi surpreendido pela imagem do mesmo homem que há semanas atormentava sua vida.

– Eu sabia que viria.

Hiroto Nohara soou divertido. Ele sorria estupidamente

– Tenho um bom café lá dentro, senhor Uchiha. Ouvi dizer que gosta.

– Meu bom café certamente é completamente diferente do seu, senhor Nohara. – O Uchiha foi ríspido. – Mas isso realmente não tem nenhuma importância. Só estou aqui para ouvir o que tem a dizer. Apenas isso. Portanto, não preciso ir...

Mas antes que Madara sequer pudesse concluir sua frase, Hiroto lhe deu os ombros; havia se encolhido dentro do casaco bege e gasto enquanto ele falava e, após afundar as mãos nos bolsos grandes, simplesmente começou a andar. – Bem, eu vou entrar. – Lhe disse, claramente sem se importar com a educação, e adentrou ao velho apartamento deixando a porta convidativamente aberta.

Madara odiou aquilo. Quem aquele homem pensava que era, afinal?! Só a ideia de ser manipulado era repugnante, e por isso pensou duas vezes antes de se mexer. Não queria entrar!... Não queria fazer absolutamente nada que aquele homem ousasse pedir, mas a hesitação, o medo e a preocupação latente de pai fê-lo entrar.

Ele estava ali por Obito, afinal. E pelo filho estaria disposto a tudo.

Francamente, o Uchiha surpreendeu-se ao perceber que o apartamento da família Nohara exalava aconchego: parecia uma simples casa de gente pobre. Arrumadinha, ajeitadinha, limpinha... Muitos “inhas”, e definitivamente nada que tivesse cogitado fazer o tipo daquela gente.

O maldito Nohara-pai já estava acomodado em uma mesa no centro da salinha de estar, encolhido abaixo dos cobertores. Ele serviu-se do café e fez menção para servir o convidado. – Eu não vim aqui para isso. – Madara suspirou longamente. Já se sentia fora do sério!

– Claro, claro. – O outro fez um gesto banal e bebericou da xícara. – Eu sei, veio falar sobre o seu ilustre filho, não é?... Bem, parece que quer ir direto ao ponto, certo senhor Uchiha? Então vamos lá.

Ele goleou o café.

– Pelo que sei, seu filho anda apaixonadinho por minha filha.

Madara conteve a vontade de estreitar os olhos; ao invés disso, arqueou alto uma das sobrancelhas, parecendo desacreditado.

– O que não é surpresa, — Hiroto prosseguiu, ignorando completamente a expressão do ricaço. – Já que Rin é uma bela e inteligente moça... – Ele suspirou longamente, sorrindo. – Como pai, admito: estou bastante orgulhoso com seu desempenho.

Aquela insinuação fez Madara explodir.

– Imagino que ainda mais orgulhoso por seu desempenho em enganar o herdeiro de um milionário. – Ele teve que dizer, mas a única resposta do pai de Rin foi uma risadinha irritantemente cômica.

– É bem satisfatório. – Ele admitiu, e aquilo foi a gota d’água.

– Escute aqui, seu grande aproveitador! – O Uchiha exclamou, apontando o dedo na direção do pobretão. – No dia em que eu ficar sabendo que Obito leva essa sua filha... Essa mulherzinha a sério, o despacho para o exterior!

Hiroto riu alto; não parecia nem de longe intimidado com a fúria do poderoso, o que frustrou Madara ainda mais. – Claro que vai. – Ele bufou e deu os ombros. – Posso imaginar você despachando seu filhinho favorito para fora do país... – A risada tornou-se mais alta quando pôde perceber que o rosto do Uchiha avermelhara-se.

– Não vai tocar em um tostão da Uchiha, Nohara. Mesmo que eu tenha que deserdar o meu filho para isso.

– O que eu duvido que faça. – Hiroto deu os ombros. – Como já expliquei, estou ciente de que Obito é o seu garotinho precioso... Não acredito que vá tirar tudo do seu pobre garotinho. Família, dinheiro... – Ele sorriu com malícia – Namorada.

– Ao menos assim ele pode aprender. Nunca vou permitir que gente da sua laia tente ameaçar o nome de nossa família!

– Bom, senhor Uchiha... Você sabe bem como são os jovens, não? Quanto mais proibir, mais vão achar que se amam. E quanto mais eles acharem que se amam... – Ele estreitou as sobrancelhas, malicioso. – Acredite, eu sei do que estou dizendo. Foi assim que consegui uma esposa, uma filha e minha atual situação financeira.

Madara trincou os dentes.

– Mas eu vejo que está ficando fora de si, meu senhor. E não quero isso. Eu o avisei, certo? Chamei-o aqui para encontrar uma solução, não adicionar preocupações.

Madara nada disse, então o Nohara prosseguiu:

– Veja bem: minha filha é uma mulher bonita e extremamente inteligente... Muito mais do que o seu filho, ouvi dizer.

Os olhos negros se cerraram. É claro que a vadia era mais inteligente do que ele!

– Uma hora ou outra, minha menina vai conseguir subir na vida. – O pobre parecia muito seguro ao afirmar aquilo. – Imagino que... Talvez... – Ele deu os ombros. – Se minha família pudesse ter mais... Suporte... Poderíamos mandá-la para o exterior. Ou ainda melhor! Um parente rico e desconhecido poderia morrer, e deixar uma pequena fortuna e uma bela mansão no interior do país. Não seria extremamente conveniente?

–... Está me chantageando.

Não foi uma pergunta. Foi uma conclusão.

– É uma proposta. – Hiroto corrigiu, ainda sorrindo. – Eu vou ajudá-lo se me ajudar. É assim que funciona no mundo humano, não é? O velho conceito de escambo.

– Está usando sua filha para conseguir dinheiro.

O Nohara deu os ombros. E Madara pensou que, se não tivesse a absoluta certeza de que aquela garota estava até o seu último fio de cabelo envolvida naquela chantagem estúpida, poderia ter sentido pena dela.

Madara se considerava um pai rígido, mas aquele homem... Era frio.

Simplesmente frio.

Pelo menos Madara realmente se importava com os filhos.

– Isso também é para o bem dela. – O Nohara deu os ombros. – Rin vai entender, porque é o melhor para todos.

– É claro que ela vai entender. – Madara apertou os punhos. – Ela sabe de tudo, não é?! – Exclamou, furioso. – Foi por isso que se aproximou do meu filho! – E o sorriso no rosto daquele homem foi sua resposta.

Madara sentiu-se sufocar.

Sentia cada um de seus músculos trêmulos, e quis matar aquele homem ali mesmo, naquele instante... Da maneira mais sangrenta possível. – Eu acho que talvez tenha dito em outra língua. – Ele sorriu forçado, mas seus dentes estavam trincados. – E por isso vou repetir: você não vai tocar em um tostão do dinheiro da minha família, entende?... Nem uma moeda. Uma hora ou outra, Obito vai perceber que a sua filha não vale o prato em que come.

Hiroto riu.

– Será mesmo? – Ele apoiou a cabeça nas mãos, fitando-o com provocante diversão. – O senhor Uchiha quer pagar para ver, então?

Madara não o respondeu. Não quis responder.

Simplesmente deu as costas para o homem e, ajeitando o casaco de maneira agitada seguiu às pressas para fora do cubículo – vulgo apartamento – podendo ouvir somente um “estarei esperando outra visita” antes de escapar.

Ele queria correr de lá. Queria ir para casa e desabafar todas suas frustrações nos braços da esposa. Pensava que nada podia piorar o seu dia, mas bastou que a porta se abrisse para que encontrasse lá o motivo de seus tormentos.

Ele conhecia Rin Nohara apenas de vista, mas a reconhecera imediatamente; a garota vestia o uniforme do prestigioso colégio que frequentava. Estava ofegante e encharcada – muito mais do que Madara.

E parecia dissimuladamente confusa por encontrá-lo ali.

– Perdão, em que posso ajudá-lo?

Ela foi gentil e suave, mas Madara continuou sério. Frio.

– Saia de perto do meu filho. – Ele sibilou com fúria, aproximando-se ameaçadoramente da mocinha, que recuara instintivamente, claramente assustada. – Se eu sonhar que está brincando com ele... – Os olhos negros se estreitaram. – Vou acabar com a sua vida.

Rin não imaginava que Madara Uchiha era um homem de palavras vazias, portanto empalideceu ao ver-se ameaçada. Sentiu-se tão perturbada que por um longo minuto, sequer conseguiu pensar em algo para respondê-lo.

Rin continuou parada, olhando pálida para o rosto muito parecido com o de Obito, estupefata com sua própria situação. Ela não conseguira pronunciar sequer uma frase inteligível, mas Madara tampouco se importava.

Ele simplesmente saiu de lá, desejando nunca mais voltar a topar com nenhum integrante daquela maldita família... E rezando para que o filho se afastasse dela.

~

[ATUALMENTE]

~

Madara havia tido sua pior semana desde muito tempo, mas aquela manhã estava sendo especialmente ruim. Ele havia acordado irritadiço e mal humorado a tal ponto que só a possibilidade de levantar-se da cama o frustrava.

Mesmo assim foi obrigado a isso.

Uma reunião havia sido marcada na semana retrasada para discutir algo na empresa. Madara não estava disposto sequer a discutir sobre o tempo, mas não reclamou quando Zetsu o chamou no quarto.

A reunião fora apresentada por Sasuke, que ansiava interessar os demais acionistas com um novo investimento que, ao menos aparentemente, tinha muito potencial.

Sasuke falou bem. Fora articulado, firme, e demonstrou dezenas de milhares de pesquisas afirmando que o produto seria bem aceito pelas classes média e alta de consumidores. Mas embora o neto tivesse feito de tudo para usar uma linguagem ligeiramente simplista – em respeito aos acionistas mais velhos e menos atualizados – Madara não havia entendido sequer uma de suas palavras.

Francamente, o patrono da família jamais havia se sentido tão inútil para a empresa quanto se sentira naquela reunião, onde ele mais pareceu um velho gagá do que qualquer outra coisa. Ele havia dito poucas palavras e o próprio podia admitir que não haviam sido suas observações mais inteligentes. Então após uma “súbita enxaqueca”, pediu desculpas e deixou o recinto.

Com toda a sinceridade, o velho avô da família poderia arranjar mil e uma desculpas para sua rabuja, mas sabia bem a verdade de seus próprios sentimentos: ele estava frustrado. Frustrado com toda aquela situação ridícula!

Fugaku definitivamente não queria querer colaborar com a paz na mansão Uchiha. Ele não havia tentado convencer ao pai novamente, depois da discussão, mas sempre fazia com que uma cópia do convite do casamento entre a bastarda e o neto traidor estivesse posta sobre a mesa do escritório, ou na cômoda do patrono da família.

O que era irritante.

Madara conhecia Itachi o suficiente para entender que tentar meter o bedelho em uma de suas escolhas de nada ia adiantar. O neto mais velho era um homem independente, afinal. Dono de seu próprio nariz. E embora fosse a criatura mais gentil do mundo, também devia ser a mais decidida.

E ainda que estivesse ciente de tudo isso, lá estava ele. O avô idiota, em frente à porta de seu teimoso neto que certamente não o escutaria. Madara suspirou longamente; balançou a cabeça, cansado, e depois de hesitar por alguns instantes finalmente decidiu bater à porta.

Não demorou nem meio minuto para que Itachi abrisse. Ele apareceu à porta desajeitado e parecia estar tentando vestir um smoking – que, francamente, não combinava muito com ele. Pareceu chocado ao ver o avô e levou longos minutos até que finalmente o permitisse entrar.

Não foi muito difícil para Madara perceber a hesitação e dúvida – presentes até mesmo na expressão corporal – de Itachi, portanto, foi fácil concluir que o neto devia saber de tudo. Ele tentou firmemente não se importar com o fato de o seu primeiro neto provavelmente o considerava um monstro, mas foi simplesmente impossível.

Itachi parecia desconfortável e irritadiço, e não poupou acidez quando decidiu lhe falar. – O que veio fazer aqui?

– O que você acha? – Madara suspirou longamente. – Eu vim tentar impedir essa sandice, é claro. Tentar protegê-lo.

O neto arqueou uma das sobrancelhas.

– “Tentar impedir”. – Ele parecia incrédulo. – Impedir exatamente o quê, avô?... Ou melhor: proteger-me de quê? De casar-me com a mulher que amo?! Ou de constituir uma família e ser plenamente feliz?... Isso é sandice para você, avô?

– Não diga besteiras... – Madara estava exausto; coçou a testa, irritadiço, e procurou as melhores palavras para prosseguir. – Não é um homem que costuma a cometer idiotices, Itachi. Dos meus netos, é o mais inteligente. Não é dado a idiotices, então é claro que esse casamento é sua atual única sandice.

Itachi bufou.

– Por que está fazendo isso? – Madara quis saber. – Para me provocar? Simplesmente isso?

– Não, avô. – A voz de Itachi soou alta. – Por incrível que pareça, eu vou me casar porque estou apaixonado.

Madara estreitou os lábios.

– Justamente por essa garota, Itachi! Por essa bastarda!... Uma menina tola, ligada a estelionatários!... Por acaso tem ideia do quão sujo o nome Uchiha vai ficar, com uma laia dessas?! – A risada de Itachi fora alta e irritadiça. – Não ria de algo sério. Você vai dar o nosso nome a uma bastarda!

– Para começo de história, — O neto o interrompeu, nervoso. – Ela não é uma bastarda. – Cruzou os braços, controlando-se ao máximo para respondê-lo como deveria, e não como ele merecia. – É uma órfã, no pior dos casos. – Ele forçou um sorriso. – Ela não tem pai, nem mãe. Então não tenho porque temer a família.

Os olhos negros esfriaram, e Madara se sentiu incomodado.

– Está agindo como um teimoso. Igual ao seu tio.

– Não, Madara. É você que está agindo como um teimoso. Pior que isso: está agindo feito um idiota, imbecil! – Ele apertou os punhos. – Como ousa vir à minha casa, às vésperas do meu casamento, dizer esse tipo de coisa sobre a minha noiva?!... Sobre a mãe da minha filha, quando sequer a conhece!

– Conheço o suficiente.

Itachi forçou uma risada que mais pareceu um rosnado.

– Não. Não conhece. Pode não acreditar, avô, mas uma pessoa é muito mais do que um monte de informação nas papeladas que o seu secretário consegue. E, mesmo lá, naqueles papéis, o que você pôde descobrir? Que Kasumi é uma pessoa teimosa, perseverante, que luta para conquistar o que quer e segue seus ideais! Tão Uchiha quanto eu e você!... Talvez até mais Uchiha que eu!

Madara se levantou num súbito, trêmulo e furioso.

– Ela não é uma Uchiha. – Pontuou firmemente.

– Pois vai ser. – Itachi garantiu, irritado. – Se não pelo tio Obito, por mim. Porque você pode até tentar me matar, Madara... – Ele apontou o dedo indicador na direção do avô, cerrando os olhos. – E eu não duvido que tente, depois de descobrir tudo o que fez com aquela pobre mulher.

Madara recuou um passo, realmente afetado pelas palavras duras. Itachi era seu neto, afinal... Seu primeiro neto. Uma criança que ele amou e cuidou, e agora estava lá, contra ele, graças aquela maldita bastarda!

Definitivamente, os Nohara deviam ser a maldição dos Uchiha.

Ele tentou pensar assim. Realmente tentou, mas seu peito pesava mais para o arrependimento do que para o ódio... E arrependimento, ele percebeu, era algo agonizante.

– Eu vou me casar, Madara Uchiha. Mesmo que você me mate por isso mais tarde. Eu vou me casar e Kasumi será uma senhora Uchiha. Tão Uchiha quanto a nossa filha, você querendo ou não!

O mais velho franziu os lábios.

– Não sabe o que está fazendo, criança... – Ele murmurou trêmulo. – Está cego! Maluco! Não consegue entender que tudo o que faço... – Estreitou os olhos. – Que tudo o que fiz... – Os lábios se espremeram. – Foi tudo por vocês. Tudo pela minha família... Porque eu os amo e quero-os em paz. Porque eu os amo e quero o melhor para todos.

Ele alisou os cabelos longos e grisalhos, exasperado.

– Sabe que nunca me importei com seu envolvimento com essa garota, Itachi... De fato, acredito que cheguei a admirá-la um dia. – Ele admitiu. – Mas se envolver com aquela família... É loucura! Hiroto Nohara é uma chave de prisão!

– Família? – Itachi estreitou os olhos. – Foi você quem trancafiou sua nora em um hospício! Que mandou sua neta para um orfanato e, pior que isso... Pagou para fazê-la de morta! Fez seu filho sofrer um inferno! E ainda tenta falar da família alheia?

– Sangue ruim aflora, Itachi.

– Então é ela quem devia correr desse casamento! – Itachi gritou. – Porque não existe sangue pior do que o seu, Madara Uchiha. Você é louco! Louco!

Sem mais nem uma gota de paciência, o neto seguiu até a porta em passos firmes e pesados; puxou-a com força e fúria, escancarando-a, e olhou sugestivamente para o avô. – Saia. – Ele ordenou. – Embora me doa muito dizer isso, eu não tenho escolha.

Os olhos do mais jovem se estreitaram.

– Não é mais bem vindo aqui. Essa é a nossa casa. Minha, da Kasumi e da nossa filha. E eu não vou deixá-lo se aproximar da minha família.

~

Kasumi fez uma careta ao sentir a picada, mas observou atentamente enquanto seu sangue era puxado pela seringa. – Isso é mesmo certo? – Ela quis saber, tentava inutilmente esconder sua ansiedade.

– O que? O exame? – A enfermeira ergueu os olhos ligeiramente. – São noventa e nove por cento de precisão, moça. Fique tranquila. – Kasumi fez outra careta.

Ela estava exausta e ao mesmo tempo estupidamente ansiosa. Sua última semana havia sido uma tremenda loucura: trabalho, casamento e muitos enjoos ocasionados pela pequena pestinha dentro dela.

Kasumi tinha dezenas de coisas para resolver, milhares de coisas para decidir e o dobro para organizar, mas mesmo assim, tudo em que conseguira pensar durante aquela bendita semana estressante fora o exame.

Obito havia cuidado para que o agendamento fosse tão logo possível e havia se esforçado para conseguir o melhor horário, de modo que não atrapalhasse a filha nem com o trabalho, nem com o casamento.

E lá estava ela agora: sozinha, porque Itachi estava ocupado, escolhendo o terno que já devia estar escolhido há semanas. Sozinha e ansiosa. Sozinha, ansiosa e ligeiramente – ela tinha que admitir – temerosa.

Claro que tudo ficou pior quando Obito adentrou a saleta. Ele veio acompanhado por uma das enfermeiras – que, aos olhos de Kasumi, parecia gentil demais – e claramente se alegrou por vê-la ali tão cedo.

– Parece que chegou antes de mim.

Apressou-se ao se sentar ao lado dela.

Kasumi, como sempre, sentiu-se extremamente desconfortável com a situação. Ela nunca havia gostado realmente da presença de Obito, mas de uns tempos para cá – mais precisamente, desde a conversa com Rin – havia se tornado mais difícil ficar perto dele, ou até mesmo pensar nele.

De fato, os preparativos do casamento a haviam afastado do escritório, o que significava que pouco se viam durante a semana, mas ainda assim era incômodo. Não por ele, propriamente dito, mas por toda a tensão que as possibilidades lhe causavam.

Se Kasumi realmente fosse a filha perdida de Obito e Rin Uchiha, tudo estaria certo. Ela não teria como não perdoá-los e acreditava que, algum dia, poderiam até mesmo chegar a ser uma família de verdade. De algum jeito, imaginava que aquela menininha milagrosa faria com que recuperassem o tempo perdido!...

Mas, se ela não fosse filha deles, tudo estaria acabado.

Não sabia se voltaria a ser aquela amargurada mulher, que não queria saber sobre seu passado desconhecido e preferia focar-se no futuro solitário a ser construído. Ela não sabia como reagiria se não fosse filha deles e, pior, não sabia como eles reagiriam.

Porque falar que Obito e Rin estavam esperançosos com Kasumi seria modéstia. Eles tinham pura convicção naquela verdade, que nem verdade ainda era. Tão convictos que ela temia inevitavelmente começar a acreditar.

Kasumi tinha medo, um medo muito grande de que no final das contas tudo desse errado. O quanto Rin choraria, se ela não fosse sua tão sonhada Akane?... O quanto Kasumi choraria, se não fosse aquela sortuda criança?

Eram todos aqueles pensamentos, todas aquelas dúvidas que faziam-na hesitar, e inevitavelmente evitar os pais.

– Isso me parece doer um pouco. É só aparência? É bom perguntar porque decidi que, já que estou aqui, deveria fazer uma bateria de exames.

Obito sorria feito uma criança.

– Incomoda um pouco...

Ele fez uma careta, mas estendeu o braço tranquilamente quando a enfermeira bonitona se aproximou. Kasumi notou – um tanto irritadiça – que a mulher desabotoara dois dos botões do uniforme, e fez uma careta de desgosto ao notar o sorriso oferecido ao pai, que a retribuiu de maneira inocente.

– E como vai sua esposa? – Kasumi deu de perguntar em tom alto, quase ameaçador. – Nossa tão doce e bela Rin.

Obito riu, mas não pareceu notar a indireta à mulher.

– Ela está melhor. Depois de conversar contigo decidiu que quer voltar a andar... Disse que, se demorar muito, vai acabar perdendo para o bebê.

Kasumi sentiu o estômago revirar de emoção, mas não pôde conter um sorriso doce. Rin, definitivamente, era uma mulher adorável.

– Sakura a está ajudando com isso. Minha perna já melhorou, mas pedi para que continuasse lá por mais um tempo... Para ajudar Rin a voltar a andar. Os médicos disseram que ela pode não voltar a andar como antes... Graças ao... Trauma...

A expressão de Obito tornara-se subitamente obscura, e Kasumi se sentiu triste por isso. Embora ele fosse irritante quando bancasse o homem eternamente feliz, era terrível vê-lo tristonho.

– Pobre Sakura. – Ela decidiu mudar de assunto. – Acho que a Uchiha está acabando com ela. Graças ao Sasuke, está pagando penitência aqui no hospital; anda bancando a secretária do casamento, porque eu e Itachi estamos completamente atolados de decisões, e ainda é a fisioterapeuta da família.

Obito deu os ombros.

– Ela parece satisfeita. Acho que gosta muito de cuidar das pessoas.

Sorriu francamente a filha, que lhe retribuiu.

– Eu também estaria satisfeita. Não por cuidar das pessoas... Mas Sasuke é muito bonito. – Ela lançou um olhar malicioso ao pai, que gargalhou. – Aliás, isso também deve ser um mau de Uchiha. Todos vocês são bonitos, chega a ser ridículo!... Os seus genes são muito bons, sem dúvidas.

O sorriso de Obito tornou-se gentil. Tanto que fê-la corar.

– Então minha neta vai ser a mais bonita de todas, já que é filha de dois Uchihas.

Ela não conseguiu respondê-lo. Não por não ter uma resposta, mas pelo simples fato de que seu coração havia palpitado e seu peito se aquecido ao ouvi-lo dizer aquilo. Kasumi sorriu levemente... Timidamente, e tornou sua atenção à enfermeira.

Obito percebeu que ela havia recuado, mas imaginou que o melhor a se fazer, naquele momento, era recuar. Dá-la espaço para pensar e refletir. Então fechou os olhos, recostou-se na cadeira confortável e simplesmente esperou.

~

Sakura despertou ao sentir um vibrar incômodo no bolso esquerdo do jaleco roçando em sua barriga. Ela fez uma careta de desagrado, remexeu-se no sofá pequeno da sala de descanso e atendeu bocejando.

– Pensei que já estivesse no hospital.

Sasuke parecia divertido por acordá-la, e perceber isso fez com que Sakura cerrasse os olhos, ligeiramente irritada.

– Eu estou. – Ela murmurou com a voz rouca, e fez uma careta ao ler as horas no redondo relógio sobre a porta da sala. – Obrigada por estragar dez dos meus trinta minutos de descanso.

Ele riu.

– Admito que gosto muito de roubar suas horas de sono, mas não desse jeito.

Sakura suspirou longamente; remexeu os ombros, esticou as pernas, preguiçosa e depois de reunir muita coragem, sentou-se. – Onde você está? – Ela quis saber.

– No hotel. O meu irmão tem muitas coisas para resolver, então me dispus a ajudá-lo depois da reunião...

– Como foi? – Sakura interrompeu-o instantaneamente, visivelmente interessada. – Eles gostaram do seu projeto?... Você conseguiu dizer tudo o que queria dizer?

Sasuke sorriu. Em geral, não gostava de falar sobre trabalho com suas garotas... Mas Sakura parecia se interessar em tudo o que ele fazia.

– Com quem você acha que está falando? É claro que eu fui bem. Eles aceitaram de primeira, nem tive que insistir muito... No fim, a apresentação ficou mais curta do que eu havia imaginado.

Sakura sorriu.

– Não fale com esse tom desinteressado. Você trabalhou muito por isso.

– Pois é. Isso não faz de mim um ótimo irmão? Depois de trabalhar tanto, ainda estou aqui, tentando acudi-lo com o que posso.

Aquela, Sakura pensou, era uma clara evasiva. Mas ela não se importou. Sabia que Sasuke gostava de falar sobre trabalho, mas compreendia que, depois de tanta tensão, talvez ele estivesse saturado.

– Enfim. Eu estive pensando: já que vamos estar aqui amanhã, para a festa, porque não emendamos a noite? Eu posso reservar um quarto legal.

– Sasuke-kun... – A voz da moça soou reprovativa, fazendo-o suspirar.

– Você só sabe trabalhar, mulher. Tente pensar no belo exemplar masculino que tem à sua disposição. – Sakura riu. – Eu falo sério. Pensei que, depois que se descobrisse mulher, especialmente por ter o Grande Eu como parceiro, se tornaria uma ninfomaníaca.

– Um ninfomaníaco é o suficiente em um casal. – Ela calçou os sapatos suspirando e seguiu até a mesinha de canto para servir-se na máquina de café. – Eu não sei se vou conseguir. Ainda estou de castigo, sabe disso. Tenho que terminar minha análise, é pra semana que vem e ainda estou na metade do livro.

– O que você precisa, querida, é de uma noite de sono.

– E quem é o culpado pela minha punição, querido?

Ele suspirou.

– Tsunade devia ser mais flexível. Com um homem como eu, como você poderia resistir a matar a residência? – Sakura revirou os olhos mais uma vez. – Eu quase posso vê-la revirando os olhos.

Sak abafou uma risadinha.

– Falo sério... – E a voz dele realmente tornara-se séria. – Nos falamos por telefone, mas quase não nos vimos durante a semana. Se te faz mais feliz, prometo que não vou segurá-la ao amanhecer.

Sakura sentiu seu rosto queimar no mesmo instante em que seu coração saltitou.

– Não me faz mais feliz... – Ela confessou num murmúrio constrangido e, ainda que Sasuke estivesse a quilômetros de distância, sentiu necessidade de remexer nos curtos cabelos róseos. – Eu também sinto sua falta...

– Eu sei.

Sak poderia ter se sentido ofendida, irritada ou até mesmo constrangida com aquela afirmação, mas de alguma maneira nada disso foi sentido. Ela simplesmente sorriu tranquilamente, como imaginava que ele também fazia do outro lado da linha.

– Então... Até mais tarde?

– Até amanhã. – Ela suspirou. – Eu ainda tenho que ir ver sua tia hoje. E vou precisar acordar cedo, já que Kasumi quer que as madrinhas se arrumem com ela.

– Posso apostar que o meu despertador é muito melhor do que o seu. – Ele tentou insistir. Mas mesmo que a namorada adorasse o fato de parecer tão adorada, tudo o que Sakura pôde fazer naquele momento vou revirar – pela terceira vez – os olhos.

– Até amanhã, Sasuke-kun.

~

Já era tarde quando Kasumi conseguiu chegar em casa.

Ela estava cansada, morta de sono, mas sua mente parecia trabalhar à mil. Mesmo que tudo parecesse supostamente perfeito, ela temia que a bomba estourasse na pior hora possível.

A organizadora de eventos, de fato, era uma mulher muito competente... Mas Kasumi estava acostumada a confiar muito mais em si mesma do que nos outros, então seu medo era inevitável.

Quando chegou ao apartamento, encontrou o lugar parcialmente escuro, e estreitou os olhos castanhos ao perceber uma única luz fraca vinda da cozinha/sala de jantar. Sorrindo, bastante curiosa e ligeiramente ansiosa, ela seguiu passos lentos até o lá, e como se tudo fosse cronometrado, no exato instante em que pisou no cômodo uma música romântica começou a soar.

Os olhos escuros estavam estreitos, mas Kasumi sorria feito uma criança. E só isso bastava para que o coração de Itachi, mesmo após tanto estresse, se acalentasse.

– Não devia estar na sua despedida de solteiro?

Ele sorriu; aproximou-se com um olhar malicioso e, gentil, segurou-a pela cintura. Kasumi instintivamente pousou ambas as mãos sobre os ombros largos. – E estou. – Itachi murmurou antes de começar a guiá-la ao ritmo da música. – Estou prestes a passar minha última noite de solteiro com a minha futura esposa. Consegue pensar em uma ideia melhor?

Ela sorriu.

– Sasuke deve estar decepcionado.

Ele negou enquanto se aproximava ainda mais.

– Ele está exausto. Deve desmaiar antes de chegar ao quarto.

Kasumi abafou uma risada; pousou a cabeça no peito forte e sentiu-o afundar o rosto em seus cabelos, visivelmente relaxado. – Eu também estou cansado... – Ele admitiu. – E imagino que você deva estar mais do que nós dois juntos.

Ela franziu o cenho, mas sorriu ao sentir um beijinho doce na cabeça.

– Mas ainda vamos comemorar juntos, certo?... Num ritmo tão lento quanto essa música... – Ele roçou os lábios sobre o rosto dela, que imediatamente ergueu a cabeça de maneira convidativa.

– Será que não dá má sorte? – Kasumi murmurou enquanto sentia-o roçar os narizes. – Nós ficarmos juntos na véspera do casamento... – Ela franziu o cenho e abriu os olhos. – Eu só conheço a superstição do vestido de noiva.

Itachi deu os ombros e suavemente tocou os lábios nos dela.

– Nada vai nos trazer má sorte, amor... Eu garanto.

~

Mikoto não queria se levantar naquela manhã.

Ela sentiu e ouviu o esposo despertar cinco minutos antes de o despertador apitar, mas não quis mostrar-se acordada – ainda que não tivesse pregado os olhos nem por cinco minutos durante a noite inteira. Viu-o levantar-se, falar com Itachi ao telefone e sentar-se à escrivaninha para resolver problemas que ela cogitou ser da empresa.

Depois de umas poucas ligações de negócios, uma ligação para Sasuke e mais outra para Itachi, finalmente seguiu até a suíte. Saiu de lá pronto: ereto em um belo terno novo que possivelmente havia sido feito sobmedida.

Mikoto o viu seguir para o espelho e ajeitar os cabelos. Observou-o ajeitar a gravata vermelha e amaciar a camisa perfeitamente lisa... Para então, finalmente, voltar-se em sua direção. Ela não precisou fingir dormir. Sabia que fazer isso com o marido seria estúpido e sem sentido. Então ambos ficaram ali, parados um longe do outro, olhando um para o outro, até Fugaku decidir se aproximar.

Diferente de Madara, Mikoto não havia sido nem minimamente pressionada pelo esposo... O que era um tanto suspeito. Afinal, Fugaku estava muito disposto a abençoar a união entre Itachi e Kasumi.

Ela sabia que, no final, o marido só desejava a paz.

Paz e união, duas coisas que a família Uchiha há muito havia esquecido.

Ele sorriu atrativamente antes de aproximar-se e se agachar em frente à cama. Gentil, puxou as mãos da esposa e com muito carinho beijou os finos dedos da senhora Uchiha. – Você devia se aprontar logo. – Ele murmurou sorridente e ergueu o tronco para beijar-lhe a testa. – O nosso filho a espera.

Mikoto estreitou os olhos.

Por algum motivo, sentia que dentre todas as pessoas presentes naquele casamento, Itachi devia ser quem menos contava com sua presença... Não. Mais do que sentir, Mikoto sabia disso.

O quão hipócrita seria ela?!

Chegar lá, levá-lo ao altar, quando Kasumi e Obito nem olhares trocariam!

Que tipo de monstro seria ela se fizesse algo assim?... E ainda que pensasse exatamente dessa forma, Mikoto não conseguia esquecer-se daquele cartão. Daquele pequeno bilhete manuscrito.

“Por ele.”

Aquelas palavras não lhe saíram da cabeça nem por um mísero instante nos dias que haviam se passado. E, de alguma forma, Mikoto pensava que embora Itachi não a estivesse esperando, Kasumi estaria.

– Ele é o nosso filho, Mikoto... – Fugaku apertou-lhe a mão. – O nosso primogênito. Não importa se estão brigados agora. E o que você fez no passado... – Ele cerrou os olhos. – Pode ser perdoado, querida.

– Se não há ciência, não pode haver perdão... Itachi pode saber de tudo a respeito da história daquela moça, mas sei que ele não contou. – Os olhos negros da mulher se estreitaram. – Esse é o nosso filho, afinal... Fiel aos seus sentimentos. Sei que ele me ama, Fugaku... E por isso permanece em silêncio. Mas também sei o quanto o faço sofrer, apenas por impor minha presença. Não só a ele, como também àquela garota... Eu não quero causar dor a ninguém. Apesar de tudo... Quero que o Itachi seja feliz. Quero que tudo dê certo hoje... – Ela suspirou. – E não sei o que faria se cruzasse com seu irmão.

Fugaku pareceu pensar por um instante; levantou-se, apenas para sentar-se a cama ao lado dela e acomodá-la em seus braços. Mikoto se encolheu como uma criança no colo da mãe, e sentiu o estômago revirar quando o amado começou com carícias gentis.

– Itachi é, de fato, um homem fiel aos seus sentimentos... Tanto quanto você, amor... – Ele roçou os lábios na cabeleira negra, mas Mikoto não se moveu. – Se você se sente dessa forma sobre Kasumi, devia falar-lhe... Assumir a sua culpa e esperar ou não o perdão.

Ela sentiu os olhos queimarem.

– Seu irmão não me perdoaria. – Ela sussurrou com a voz doída. – E Kasumi é a personificação feminina de Obito Uchiha.

–... Obito abriu mão da própria vida pela mulher que amava, Mikoto... – Fugaku falou lentamente, em tom reflexivo. – Ele foi contra os meus pais, contra os pais dela... Foi contra tudo e todos. Mas ao fazer isso mais perdeu do que ganhou. – Suspirou. – Eu não quero que isso aconteça com Itachi. – Fugaku confessou. – Quero que ele sinta que nós estamos aqui para ele... Mesmo contra a vontade de meu pai. Quero que ele saiba que, apesar de tudo o que fizemos e de tudo o que não falamos, nós dois estamos aqui. Para ele... Por ele.

Mikoto fechou os olhos; aconchegou-se mais próxima do peito do marido e relaxou ao sentir a respiração quente roçando em seu coro cabeludo.

– Meu irmão nunca vai me perdoar por minha omissão... Eu também não espero que ele me perdoe. Mas Kasumi é diferente. – A mulher cerrou os olhos. – Ela é e forte e decidida... Mas, percebi que mais do que qualquer coisa, ama Itachi. E, por ele... Acredito que possa perdoar o nosso “eu” mais jovem. Perdoar o jovem e omisso filho acuado... – Ele beijou a testa dela. – E a tola nora assustada pela nova família.

~

Kasumi não chegou a se surpreender quando, ao acordar naquela amena manhã chuvosa, encontrou o outro lado da cama vazio.

Itachi podia ser um doce de homem, mas às vezes também podia agir de modo extremamente controlador – não que ela pudesse falar alguma coisa sobre isso... – e a noiva podia apostar que, mesmo às sete, o amado já estava em pé, infernizando a vida da pobre organizadora de eventos.

O casamento seria às duas da tarde e um almoço elegante seria disposto aos convidados. Isso era tudo o que Kasumi pôde saber, uma vez que os preparativos do Buffet estavam nas mãos de Itachi e da organizadora. Em qualquer outra ocasião, não saber o que seria servido em sua própria festa a deixaria furiosa, a beira de um ataque de nervos – porque, afinal, Kasumi era uma viciada em planejamento –, mas naquele momento ela pouco se importava.

De fato, durante as semanas que haviam se seguido, mais de um milhão de vezes pediu para que o noivo lhe mandasse cópias dos contratos, cópias do cardápio, cópias, cópias e mais cópias, mas tudo o que o Uchiha fez foi ignorá-la.

Kasumi poderia ter ficado muito irritada com essa resposta – ou a falta de uma resposta –, mas com tantas coisas à mente foi impossível pensar muito nisso. Com a ajuda de Sasuke e Naruto, escolheu os bolos – embora os rapazes não tivessem feito nada além de comer –; com Sakura, Hinata – duas de suas três oficiais damas de honras –, Tenten e Ino, escolhera o vestido, a decoração da cerimônia, as flores e metade das músicas. Além de mais um milhão de detalhes dos quais, francamente, ela não conseguia lembrar-se àquela altura do campeonato.

Tudo havia acontecido rápido demais.

Cansada de seus próprios devaneios, a jornalista decidiu levantar-se. Seu coração derreteu-se ao encontrar o café da manhã – nojentamente saudável – posto à mesa pequena do apartamento junto de um post-it amarelo que dizia “Não fuja, eu te espero no altar.”.

Kasumi serviu-se das frutas exageradamente variadas, mas preferiu ignorar a vitamina – ou seria um suco? – esverdeada.

Depois de alimentada, seguiu para vestir-se. Seu “dia de noiva” começaria as nove e alguma coisa da manhã, então a morena não se preocupou com a maquiagem. Colocou um vestido de veludo bastante confortável e vestiu-se com um casaco longo; trançou os cabelos lateralmente, colocou os óculos de grau com armação quadrada e botas quentes e baixas.

Chovia levemente quando deixou o prédio, mas nem o tempo ameno conseguiu acalmar o coração da noiva, que se sentia nervosa, ansiosa – um sentimento que estava começando a incomodá-la – e, talvez mais do que qualquer coisa, agonizada.

Porque, afinal de contas, não bastavam os sentimentos confusos de uma noiva. Além de se preocupar com seu casamento, tinha que se preocupar com seus sentimentos irritantes em relação aos supostos pais.

Rin e Obito haviam sido naturalmente convidados para a união do novo casal Uchiha. A própria Kasumi concordara com o arranjo e ela mesma havia entregado o convite nas mãos do atual patrão, na empresa, simplesmente porque lhe havia parecido ser o certo ao se fazer.

Mas embora tivesse feito tudo isso com um sorriso tímido nos olhos e rosto avermelhado de timidez, a verdade é que Kasumi não estava tão certa. Assim como o convite que enviara à Mikoto, aquela ação havia sido mais impulsionada do que pensada, e era isso o que mais a assustava.

Kasumi não era hipócrita. Embora estivesse, passo a passo, seguindo para construir sua família, não se esquecido dos anos e anos de negação, de raiva e de medo.

Sim, medo.

Depois da conversa com Rin, Kasumi havia percebido que, mais que rancor, sentia medo de saber os motivos de seus pais deixarem-na à própria sorte. Na realidade ela ainda sentia medo... Medo de que tudo aquilo fosse um erro.

Medo de que, no fim, tivesse encontrado a resposta para outra garota órfã.

Ela sabia que estava sendo cruel, mas ao menos até ter certeza de seus laços de sangue, preferia manter distância dos supostos pais. Não queria iludir-se ou, pior, iludi-los. Não podia pensar em uma imagem mais dolorosa do que Obito contanto à Rin que eles não haviam encontrado sua pequena e adorada Akane...

Não conseguia pensar em uma dor maior para a mãe. Nem para si mesma.

~

Sakura suspirou longamente ao olhar para o espelho cumprido do quarto do hotel. Todas as madrinhas haviam sido instruídas a usar o mesmo modelo de vestido vermelho rubro, tomara que caia, com uma saia solta, dois dedos acima dos joelhos e busto plissado. O modelo era bonito, mas Sak temia que não combinasse com ela.

Discretamente, ela olhou de lado na direção da noiva.

Kasumi fazia careta a um espelho maior, enquanto sua terceira madrinha, Temari Nara, tentava ajeitar o véu. – Eu não quero usar isso. – A noiva fez uma careta. – Onde está aquela flor?

– Você não vai usar uma flor no dia do seu casamento, Kasumi.

– É o meu casamento. Eu posso usar uma capa, se quiser.

A loira revirou os olhos, sorrindo.

– Além disso, eu estou gigante. Olha essa barriga! Esse Itachi miserável. Eu disse um milhão de vezes que não queria me casar gorda, e olhe só! Tive que fazer trinta reajustes no maldito vestido.

– Você está linda. – Hinata a tranquilizou, sorrindo de um jeito que só ela sabia sorrir. – Acho que meu primo vai se apaixonar de novo quando a vir.

Kasumi fez uma careta, mas havia corado ligeiramente diante da afirmação.

– Mas se não se sente bem com o véu, talvez devesse usar a flor.

– Eu concordo. – Sakura tentou entrar no assunto, aproximando-se timidamente. – Deve se sentir bem, acima de tudo. – Kasumi sorriu de maneira agradecida, mas fez uma careta ao olhar para os próprios pés.

– Lamentavelmente, não acho que vou me sentir bem com esses saltos e essa barriga. Sem contar que essa pestinha não para quieta!

Hinata riu.

– É verdade.

– Você está muito temperamental. – Temari cruzou os braços, fazendo uma careta. – Muito irritadiça, em minha opinião. O que aconteceu?

Kasumi ficou séria de repente. Ela continuou com os olhos fixos no espelho, em seu reflexo, mas não parecia disposta a responder a amiga de longa data.

Hinata e Sakura se entreolharam, confusas e ligeiramente constrangidas. Aquelas duas pareciam muito íntimas, afinal. E era difícil não sentir vontade de sair para deixá-las a sós.

– Tudo bem. Não precisa me contar. – A loira deu os ombros. – Mas eu sou designer e estilista. Não vou deixar você usar essa flor ridícula no cabelo... Se ainda fosse uma florzinha bonita... – Ela resmungou. – Tudo bem, não precisa pôr o véu, mas eu vou dar um jeito nisso. – E sem esperar respostas, a ela sacou o telefone do decote do vestido.

– Ela é sempre assim. Basta ignorar. – Kasumi sugeriu quando Temari se distanciou. – Não nasceu aqui, sabe? A mãe dela é americana, Temari passou metade da vida no exterior.

Sakura assentiu lentamente, compreendendo.

– Mas é uma boa pessoa. Eu e Itachi nos conhecemos pela família dela. – Suspirou. – É uma boa amiga. Só meio perturbada. – E sorriu às moças.

Francamente, Sak pensava que Temari estava muito certa. Kasumi havia estado muito estranha durante o passar do dia. Embora estivesse visivelmente satisfeita com todo o andar da carruagem, e estivesse simplesmente encantada com as flores, os vestidos e todos os detalhes arranjados pela organizadora, vez ou outra as madrinhas a haviam flagrado muito silenciosa, reflexiva e estranhamente taciturna.

Coisa que em geral não era nem em seus dias comuns.

– Já viu o Sasuke hoje?

A pergunta imediatamente tirou-a de suas reflexões. Sakura corou levemente, como sempre fazia quando lhe perguntavam sobre Sasuke; sorriu de maneira tímida e ajeitou os escovados cabelos róseos.

– Não. – Ela confessou, suspirando. – Itachi precisava de ajuda com a festa. Sasuke é o padrinho. – Sorriu divertida. – Então tem a obrigação de se mostrar útil.

Kasumi riu.

– Ele deve estar subindo pelas paredes com a sua falta de tempo. – Foi uma observação cômica, mas tanto Sakura quanto Hinata enrubesceram ao entender seu significado. – Bem, hoje acaba parte do seu tormento. Eu agradeço por me ajudar tanto, mesmo com tão pouco tempo... A você também, Hinata. Sei que anda bastante ocupada com a banda, as ONGs e a Hyuuga.

As duas damas lhe sorriram.

– Aliás, esse vestido ficou muito bem em vocês. Fico feliz em ter acertado algo para minhas três madrinhas.

Sakura fez uma careta.

– Ora, não faça essa cara. – A morena pediu, fazendo beicinho. – Eu não quero parecer aquelas noivas vadias que escolhem vestidos horríveis para as madrinhas só para se destacar. Eu sou uma pessoa legal, embora não pareça.

Kasumi tornou a olhar para o espelho, ajeitou a parte frontal da saia de tule solta do vestido ivory e alisou a barriga. – Bem, eu estou gorda. Vou me destacar de qualquer forma.

Elas riram.

– Não está gorda. – Hinata interveio. – Está grávida. E a gravidez lhe faz bem.

– Bem. Bem grande, a gravidez me faz.

Hinata revirou os olhos, desistindo de insistir, e Sakura riu ao notar isso.

– Bem, cá estamos nós. Três Uchihas, embora Sakura seja uma futura Uchiha...

A rosada sentiu seu mundo girar diante aquela afirmação tão tola; seu estômago revirou trezentos e setenta graus – ou seja, mais que o possível – e seu rosto queimou tanto que ela imaginou que o blush não seria necessário quando se maquiasse. Seu corpo inteiro se agitou, embora ninguém parecesse perceber seu sobressalto.

– Vamos, vamos brindar! Hoje meu champanhe foi liberado.

– Poucas taças. – A rosada se obrigou a orientar, embora ainda sentisse o seu coração bombear dentro do peito.

– Tudo bem, tudo bem. – A morena já enchia as taças, alheia ao mal – ou bem – que havia causado a uma de suas damas de honra, que acabaria pensando naquela possibilidade pelo resto do dia – e quem sabe da semana. – Pronto, aqui está!

Kasumi se levantou num pulo, entregando as taças a moças.

– Um brinde aos novos tons da família Uchiha!

Ela exclamou depois de erguer sua própria taça para que pudessem brindar tinando os copos uns nos outros.

E nenhuma pareceu se importar com os flashs da câmera da fotógrafa.

~

Itachi ajeitou a gravata, ansioso.

Meia hora. Ele tinha meia hora para terminar de se vestir, e tudo sairia como o combinado. Certamente Kasumi se atrasaria por dez ou quinze minutos para terminar de se arrumar – pois embora fosse a rainha do planejamento, também sabia muito sobre atrasos –, mas ele queria ser pontual.

Itachi queria que o tempo voasse, e mal via a hora de estar lá, diante de toda aquela gente, esperando-a.

A impressa os havia descoberto e tinham infernizado tanto que o Uchiha fora obrigado a permitir – porque não queria discussões longas – que um ou dois jornalistas conhecidos de Kasumi entrassem sem câmeras.

Sasuke o havia censurado longamente pelo ato, mas o que estava feito já estava feito. Talvez a noiva ficasse feliz ao ver rostos conhecidos já que a maioria de seus convidados pertenciam à Itachi.

Alguém bateu a porta, mas não foi preciso muito esforço para adivinhar quem poderia ser. – Entre, Sasuke. – O noivo disse em voz alta, ajeitando a gravata, e o irmão abriu a porta.

Pelo espelho, Itachi lhe sorriu... Pelo menos até perceber, pelos olhos do irmão mais jovem, que algo acontecia. – Algum problema?

Ele perguntou, tomando imediatamente uma postura séria.

– Não. – O irmão o tranquilizou. – Tudo está certo, irmão. Perfeito. A organizadora é boa no que faz e está cuidando de tudo com ajuda da senhorita Mitsashi.

Aliviado, Itachi anuiu.

– Então porque essa cara?

Sasuke estreitou os lábios, extremamente sem graça.

– Estou preocupado com a sua reação. – Ele admitiu. Itachi estreitou uma das sobrancelhas e cerrou os olhos, claramente desconfiado. – Mas espero que seja a melhor. – E, sem mais delongas, Sasuke afastou-se da porta, dando espaço aos outros convidados.

Fugaku foi o primeiro a aparecer; ele puxava gentilmente uma mão pequena e delicada. Itachi sentiu seu chão estremecer, e todo o seu mundo se abalou quando percebeu do que se tratava.

Mikoto surgiu cabisbaixa, linda em um vestido claro. Extremamente entristecida, claramente constrangida... E Itachi simplesmente não soube o que dizer, nem como reagir àquela situação.

Ficou parado no mesmo lugar, olhando debilmente em direção à mãe.

Mikoto não queria olhá-lo nos olhos. Sentia seu coração sangrar por estar ali, mas ainda que o filho a odiasse, não podia deixá-lo... Não no momento mais importante de sua vida. Lentamente, reunindo toda sua coragem materna, conseguiu erguer os olhos negros para fitar o filho.

–... Eu pensei que não viria.

Foi tudo o que ele conseguiu pensar em dizer.

– Eu também. – Ela admitiu, sorrindo tristonha. – Mas estou aqui.

Ele não conseguiu pensar em uma resposta.

– Kasumi me convidou. – Ela tentou explicar, sentindo-se estupidamente envergonhada pela falta de expressão do filho. – Mas é claro que eu estou aqui por você, querido. Então se não me quiser...

Só o pensamento fez seu coração doer.

Tanto, que ela não pôde prosseguir.

Por um minuto inteiro Itachi permaneceu em silêncio. Ele pensou e repensou... Refletiu e concluiu, e por fim se aproximou dos pais. – Não sou eu quem deve perdoá-la, mãe. – Ele foi sincero; puxou as mãos da mãe gentilmente, afastando-a do pai, e beijou-as docemente. – Você foi uma boa mãe... A melhor. – Corrigiu-se. – Mesmo com sua mania de controlar a vida de todos à sua volta.

Ele sorriu tristonho.

– Sinceramente, nesse momento eu não quero pensar em coisas tristes do passado. – Lentamente, puxou a Uchiha e gentilmente envolveu-a em um abraço caloroso. – Então... Mesmo que só por hoje... Vamos ser uma família, certo?

E não se passou um segundo antes que Mikoto se desfizesse em lágrimas nos braços de seu amado filho primogênito.

~

– Você quer uma flor? Eu te dou uma flor.

Temari observava a cabeleireira ajeitar os longos e ondulados cabelos da noiva com uma tiara de prata ornamentada. – Flores e metal. Super você. – Kasumi revirou os olhos, mas ainda sorria. – O design foi criado pensando em coisas mais delicadas, mas vamos fingir que combina contigo.

– Quer parar de me ofender no dia do meu casamento?

A loira sorriu.

– Eu vou te dispensar no meu próximo casamento, está ouvindo?

– Como se você não fosse passar o resto da vida com Itachi. – Temari revirou os olhos. – Chega disso, Kasumi. Todos nós sabemos que vocês morrem de amores um pelo outro. Certo, meninas?

Tanto Hinata quanto Sakura se limitaram a um sorriso.

– Bem, eu vou procurar a minha filha. Seria uma loucura se sua noivinha roubasse os doces antes da festa, não?

– Definitivamente.

– Ótimo.

– Eu vou ajudá-la. – Hinata se levantou. – Tenho que procurar o noivinho também. Devemos aprontá-los. – A loira assentiu simplesmente, e juntas, ambas saíram do quarto.

Em geral, Sakura conseguia muito bem conversar com Kasumi a sós. Ela era uma pessoa fácil de falar, afinal... Mas hoje parecia estranha.

O silêncio da noiva enquanto tinha seus cabelos sendo aprontados incomodou Sakura de tal maneira que ela não pôde deixar de perguntar: — Kasumi... Será que algo aconteceu?

A morena pareceu surpresa quando encarou-a pelo espelho, mas sua resposta ao identificar a clara preocupação na expressão da Haruno foi um simplório e tristonho sorriso.

Aquilo não a convenceu.

Embora fosse muito constrangedor, Sakura levantou-se e se aproximou da nova amiga – porque, se ela tinha sido uma das três escolhas para dama de honra imaginava que devesse ser considerada amiga.

– Devia estar feliz, mas parece abatida... Não é culpa do neném, é?

A morena suspirou e limitou-se a uma negação abatida.

– Então...

Kasumi pareceu hesitar; ela pensou um pouco antes de pedir para que a moça do cabelo saísse para buscá-la uma água – ainda que uma jarra estivesse visivelmente exposta sobre uma das mesas laterais.

– Eu... Estou perturbada. – Lhe contou quando se viam sozinhas. – Imagino que Sasuke deva tê-la contado sobre minha situação... – Ela fez uma careta – Familiar...

Sakura corou levemente, constrangida por anuir, mas a futura Uchiha não pareceu se importar.

– Eu... Não sei o que fazer... Dentro de mim, – Ela colocou as mãos sobre o peito simbolicamente. – Tudo está agitado. Meus sentimentos estão confusos!... Eu estou tão feliz, mas ao mesmo tempo não consigo não me sentir triste.

Os olhos verdes se estreitaram.

– Durante toda a minha vida eu vivi longe dos meus pais. Eu... Odiava simplesmente ter que pensar neles, mas de repente... Quero ser filha desses dois. Tenho tanto medo de não ser que é difícil me aproximar, ou até mesmo deixar que eles se aproximem.

–... Sasuke acha que eles são seus pais. – Sakura declarou depois de pensar um pouco. Queria que ela se acalmasse, afinal... Mas Kasumi suspirou.

– Eu sei. Itachi também. Madara também. Obito e Rin, principalmente... E é disso que se trata! Todos estão esperando que eu seja a filha deles e eu quero isso. Tanto, que... Se não for... – Ela estreitou os olhos, que queimavam irritantemente. – Acho que não vou conseguir me aguentar, entende?

Sakura tentou sorrir.

– Acho que está pensando muito nisso... É um momento de felicidade, certo? Um momento seu.

–... Eu pensava que era assim também... – Os olhos castanhos da jornalista caíram até seu colo. – Mas, quando eu penso na minha filha... O que vai acontecer, quando ela se casar? Eu vou ficar tão feliz que vou querer resolver tudo... E Itachi... – Ela piscou rápido para não chorar. – Ele vai... Se sentir tão orgulhoso quando levá-la...

Kasumi obrigou-se a erguer a cabeça.

Obrigou-se a fechar os olhos e respirar fundo... Porque nada a faria chorar agora.

– Já parou para pensar que quer isso?

Ela olhou abismada para a dama de honra.

– Já parou para pensar que, talvez... Você queira isso? Talvez não por você, mas por ele? – Kasumi não soube o que responder. – Eu sei que você está confusa. – Sakura puxou suas mãos, gentil. – Mas... Que importa se eles não forem os seus pais?... Você quer que eles sejam, não é? Então que mal tem tratá-los dessa forma?

Os olhos castanhos se estreitaram, marejados.

– Posso entender o seu medo... Mas talvez ignorar os seus sentimentos agora seja o pior a se fazer. – Sakura foi sincera. – Se você se sente assim, consegue imaginar como o senhor Uchiha deve se sentir?... Ele acredita que você seja a filha dele. Realmente penso que ele a ama, porque é um homem de bom coração. – Ela suspirou. – Consegue imaginar no quão difícil deve ser para ele? A dor que deve ser perder a filha que nunca teve oportunidade de cuidar... E sequer poder ser o pai dela no dia mais importante da sua vida?... Talvez ele não seja o seu pai, mas quer cuidar de você... Não é isso que torna pai, um pai?

Kasumi sentiu-se estranha.

Conseguia ouvir, compreender e absorver cada uma das palavras pronunciadas pela mocinha Haruno, mas sentia-se tão perplexa e imersa que não podia sequer pensar em uma resposta para ela.

Na verdade, quando se levantou de súbito, não estava pensando.

Muito menos quando saiu do quarto, correndo na direção do salão, ignorando completamente as fotógrafas e as coordenadoras, que lhe diziam ainda faltar quinze minutos para sua entrada.

Ela seguiu até o saguão do hotel, e ignorou os flashs que a clicavam enquanto perguntava ao porteiro onde estavam Rin e Obito Uchiha.

– Eles ainda não chegaram, madame.

Foi tudo o que o pobre homem com a lista de convidados pôde lhe dizer, mas foi o suficiente para Kasumi erguer a saia do vestido e correr desajeitadamente com os saltos em direção à garagem do hotel.

Graças a Sasuke – que, convenientemente, estava coincidentemente próximo à portaria durante o show da futura cunhada – nenhum dos abutres pôde segui-la.

Kasumi correu tanto que pensou que cairia, mas não parou até alcançar o estacionamento ao ar livre. Ela olhou para todos os lados, cantos, e até as brechas entre os carros, tão ansiosa que tremia. Quando pôde identificar o carro chegar – uns bons dez minutos depois de ela alcançar a garagem – sentiu o coração explodir.

A chuva ainda caía leve, mas a noiva sequer podia sentir. Todo o seu corpo estava quente, na verdade. Embora o seu estômago e sua mente estivessem congelados enquanto ela via o pai sair do automóvel preto.

Ela apertou a saia do vestido, ansiosa.

– Pai!

Exclamou, mal reconhecendo a própria voz.

Demorou um pouco até que Obito se voltasse na direção dela, e o Uchiha claramente estremeceu ao vê-la ali, naquela situação (desgrenhada e ofegante) sozinha na garoa, chorando pesada e silenciosamente enquanto seguia apressada em direção ao seu carro.

Ela claramente tinha a intenção de abraçá-lo, mas se conteve no último segundo. E Obito estava tão surpreso com toda aquela situação que sequer pôde pensar nisso.

– P- Pai... – Ela gaguejou; seus lábios tremiam tanto quanto seus olhos chorosos. – Por favor... – Ela respirou fundo, mas as lágrimas continuaram a sair. Irritada consigo mesma, Kasumi escondeu o rosto.

Ela tinha prometido não chorar, mas era muito difícil.

– Eu quero que você me leve...

Sussurrou tão baixo que Obito não escutaria se não estivesse tão próximo.

Ele não pôde se mover... Não pôde sequer pensar em se nisso.

Estava chocado... Estupefato.

Como a porta do passageiro estava aberta, Rin pôde observar toda a cena do começo ao fim. Ela sorria levemente... Um sorriso tranquilo, suave e bondoso, mas não muito surpreso. E, com satisfação, ela viu o marido puxar a filha num abraço forte e firme... Com emoção, viu sua menina encolher-se nos braços dele, e então simplesmente chorar.

~

Itachi olhou para o relógio pela terceira vez, tentando não se sentir irritado.

Ele sabia que ela ia se atrasar, mas sua mente otimista havia imaginado quinze, não trinta minutos!

E lá estava ele, feito um pinguim, plantado no altar rodeado pela decoração vermelha, branca e azul, enquanto setenta pessoas o observavam como urubus. Mikoto, Fugaku e Sasuke estavam ao seu lado. Ele sabia que a mãe devia estar irritada, mas pelo menos tinha consciência de que só pioraria tudo se perturbasse a paciência do filho.

– Ela já vem, irmão. – Sasuke tentava tranquilizá-lo, mas só contribuía para o aumento de sua irritação.

Antes que ele recebesse uma resposta ácida do mais velho, no entanto, a organizadora de eventos surgiu em passos rápidos; trocou duas palavras com o músico que imediatamente começou a tocar a entrada das damas de honra.

A primeira a surgir foi Temari, sorrindo aos convidados.

A segunda Hinata, agradável e bela aos olhos de todos.

E a terceira Sakura, que sorria de maneira radiante, segurando um buquê branco, como o das demais damas de honra, e outro vermelho. Sasuke logo percebeu que ela que algo devia ter acontecido para que ela se mostrasse tão feliz, mas quando lhe lançou um olhar interrogativo, tudo o que a namorada pôde fazer foi sorrir, tão linda que ele sequer pôde pensar em outra coisa.

A música da noiva começou a soar, e todos ficaram chocados com o que viria a seguir. Aparentemente os noivinhos haviam sido trocados, já que ao invés deles, Kasumi surgiu com Obito de um lado, segurando firmemente seu braço direito e Rin do outro, andando lentamente – claramente com muita dificuldade – enquanto era cuidadosamente firmada pela filha.

De fato, nenhum dos Uchihas podia conseguir descrever suas reações – nem tampouco a dos outros – diante daquela cena. Era intenso demais... Profundo demais. Mesmo Sasuke, que era possivelmente o mais insensível dentre todos os familiares, poderia pensar direito naquele momento.

Ele simplesmente olhou, abismado.

Obito caminhava firmemente, olhando fixamente para o horizonte, embora não conseguisse pensar em nada que não fosse à mão da filha apertando seu braço. Embora tudo aquilo estivesse acontecendo ele ainda não havia conseguido absorver.

Kasumi parecia agitada, mas ele a via sorrir, claramente feliz, e até um tanto aliviada; ela dividia sua atenção entre olhares apaixonados e divertidos ao perplexo Itachi e preocupados à mãe, que caminhava com dificuldade.

Rin não chorou uma lágrima sequer, embora os outros dois tivessem chorado litros após o pedido da moça. Ela estava feliz, é claro. E visivelmente emocionada... Mas, por algum motivo, seu coração não conseguia se surpreender com aquela atitude.

Kasumi era impulsiva e sentimental. Como Obito.

Então, de alguma forma, Rin sabia que a partir daquele momento tudo ficaria bem. E os anos podiam se passar lentamente até que eles pudessem superar tudo aquilo para finalmente se tornar uma verdadeira família... Mas, de alguma forma, ela sabia que aconteceria.

Notas finais
Amanhã (sábado, 16), eu vou completar seis aninhos de namoro. ;-; Estou triste porque eu e honey-honey estaremos distantes um do outro, mas faz parte do namoro à distância... x.x Bem, estou compartilhando isso com vocês porque... Porque eu quero. -q Porque honey-honey vai ler por aqui, e eu quero que ele saiba que é muitíssimo importante para mim, e que eu o amo. O Nyah cortou metade das minhas notas finais, e eu não percebi. Bandifulos. Mas enfim... Não vou repetir, porque estou cansada. q Só quero agradecer a todos vocês pelo carinho. sz~ Até mais ver. :)