Notas iniciais
Olá! Antes de qualquer coisa, lá vão minhas explicações: eu sei que alguns de vocês leram o capítulo (que eu excluí por medo de o Nyah me dar uma advertência) em que eu explicava a situação do meu sogro, mas aos que não leram... Bem, basicamente... Meu sogro faleceu. Depois de ficar quase um mês internado e quinze dias em coma induzido, ele partiu no dia 21 de setembro, e tudo foi bem difícil desde então, principalmente para o meu marido, que era bastante ligado ao pai. Eu sinto muito por ter demorado tanto pra voltar, mas não tinha a menor condição de eu focar numa fanfic quando minha família precisava de mim. De qualquer forma, estou tentando voltar mais uma vez, agora que as coisas estão tranquilas. Como eu sempre falo aqui pra vocês, escrever é a coisa que eu mais amo fazer na vida... tem sido bem difícil pra mim voltar aos poucos, mas eu estou tentando, e vou continuar tentando, até o fim. Como sempre, obrigada. Espero que aproveitem o capítulo... Foi feito com muito carinho e esforço, e eu não me permiti postar até que ficasse realmente satisfeita com o resultado! Por fim, boa leitura!

Capítulo 45 – Inesperado.

“Vou dizer o que tem que saber. Venha às 12h20m. – Uchiha M.”

Quando Kasumi Uchiha recebeu aquela mensagem na fatídica manhã de sábado, não sabia ao certo o que esperar.

A primeira coisa que passou por sua cabeça, naturalmente, foi sua mãe. A história de Rin era a única coisa em que ela podia pensar que o conectasse a Madara Uchiha, mas a ideia de que o poderoso chefão entrasse em contato com ela, ao invés de o contrário, não fazia sentido nenhum.

Ela era quem deveria procurá-lo.

Foi nesse ponto que a sonolência a deixou completamente, e Kasumi lembrou-se de Mikoto, mais precisamente da discussão que haviam tido dias antes. Imaginou que Madara poderia ter descoberto sobre seu encontro – e isso certamente o daria um motivo para que a procurasse.

Os relatos de Mikoto sobre a história de Rin não haviam sido de maneira nenhuma favoráveis à Madara, então Kasumi perguntou-se se o homem realmente sabia o que tinham conversado.

Mikoto certamente não devia tê-lo dito.

Talvez ele quisesse justamente descobrir o quanto a nora havia contado... Rondar Kasumi sobre o que sabia, ou até tentar calá-la – ou qualquer coisa assim.

Madara não parecia o tipo de pessoa que se esforçaria para desmentir Mikoto, que claramente estava desequilibrada, especialmente quando ela sequer tinha provas do que dizia... Mas como também não era o tipo de pessoa que chamava a neta bastarda para um almoço em pleno sábado sem dar explicações, ela achou que era uma ideia a se considerar.

Ela ainda estava refletindo sobre o que poderia ter levado Madara Uchiha àquela estranha epifania de convidá-la para almoçar, quando uma segunda mensagem fez seu celular vibrar. Nela, o velho lhe enviou o nome e o endereço do restaurante em questão.

Nem por um instante Kasumi pensou em ignorá-lo, recuar ou fugir. Então, cinco minutos depois de ler a primeira mensagem, ainda se sentindo estática pela ousadia do avô, ela enviou sua confirmação: um “OK” cortante e direto.

Foi no mínimo difícil agir com normalidade na frente dos pais durante o café da manhã, mas a distração de Obito e Rin facilitou seu trabalho. Sua refeição se passou tranquila e até animada; eles conversaram sobre coisas triviais, e principalmente sobre as ações necessárias para tornar Leorio oficialmente um membro da família.

Depois do café, Kasumi tentou gastar seu tempo brincando com o gato e arrumando o quarto de Akane – o que ainda parecia ser uma missão impossível – até que seus pais deixassem a casa.

Eram quase onze horas quando Obito e Rin saíram, e só então Kasumi se permitiu focar no grande e inesperado almoço com Madara Uchiha.

Ela tentou se arrumar da melhor forma possível: buscou seu melhor vestido, tentou sua melhor maquiagem, ajeitou os cabelos do jeito mais agradável que conseguiu e escolheu a bolsa mais cara que tinha no armário – uma que ela nunca usava, que Itachi a tinha dado de presente de aniversário uns dois anos atrás.

O resultado final não era lá essas coisas, mas Kasumi se contentou do mesmo jeito. Ela parecia um botijão enfeitado, mas ao menos era um botijão enfeitado com marcas, e ela até podia não estar exibindo beleza e elegância, mas ao menos tinha ostentação, e aquilo devia ser o bastante.

Ela se despediu de Leorio e seguiu seu caminho sem mais delongas.

Uma vez que estava a ponto de explodir de nervosismo, não se surpreendeu quando chegou lá faltando pouco menos e dez minutos para o meio dia; não se importou: foi até o recepcionista, identificou-se e deixou-se ser guiada.

O restaurante era bastante agradável, tal como sua organização: várias mesas comuns estavam espalhadas no centro do lugar de modo estratégico, mas além delas, Kasumi também viu mesas dispostas nas paredes, ao lado de janelas amplas com vista para a cidade.

Estofados de dois lugares ficavam de costas um para o outro, numa organização poltrona + mesa + poltrona, e cada um desses nichos era separado por cortinas não muito grossas e ligeiramente transparentes, o que devia trazer aos clientes a sensação de falsa privacidade.

Kasumi, é claro, foi levada para uma dessas mesas.

Ela tinha quase meia hora até a chegada do velho, então pediu um refresco qualquer e tentou se concentrar na vista bela e tranquilizante que as janelas proporcionavam do lado de fora.

Ela estava focada em sua missão de se distrair observando a paisagem urbana enquanto bebia seu suco, quando alguém ocupou o assento que ficava de costas para o dela; a pessoa em questão estava tão afobada que pareceu desabar no estofado às suas costas, o que a incomodou inexplicavelmente.

Não que Kasumi fosse o tipo de pessoa que se incomodava com os outros clientes quando esperava alguém em um estabelecimento, mas ela estava tão nervosa que qualquer coisa ao seu redor lhe trazia irritação, desde o tique-taque de um relógio próximo até as conversas animadas de pessoas que começavam a entrar no restaurante para pedir o almoço.

Ela fez uma careta; suspirou e balançou a cabeça, tentando afastar a aura negativa que se alastrava ao seu redor, pronta para seguir a própria vida, quando ouviu:

— Ah, meu caro Madara! Há quanto tempo!

Kasumi não precisou nem de trinta segundos para reconhecer a voz de Hiroto. Mas apesar de seu corpo se eriçar, sua postura se esticar e seu punho se fechar ao redor do copo de refresco à sua frente, ela não conseguiu se levantar.

Hiroto parecia animado e alegre; quase fazia parecer como se estivesse se encontrando com um grande amigo dos tempos antigos. Ele fez um pedido pomposo ao garçom que atendeu Kasumi, usando um tom muito mais altivo do que simpático, e foi só um tempo depois de o atendente se afastar com o pedido que Madara se pronunciou.

— Más lembranças? – Ele questionou de maneira desinteressada.

— Eram tempos difíceis – Hiroto concordou. – Mas já estão mudando...

Ela o ouviu se ajeitar na cadeira.

— E como anda a família, meu querido amigo? Soube que está aumentando.

Kasumi sentiu o sangue gelar.

Ele não podia estar falando de sua filha... Não podia estar ousando falar de sua filha! Principalmente naquele tom de zombaria! Kasumi apertou a saia do vestido e segurou a respiração; sentiu como uma agulha estivesse cutucando o fundo de seu olho esquerdo e teve que se segurar para não desabar ali, tamanho nervosismo.

Como ele ousava?

— Imagino que saiba mesmo, não é? Já que anda rondando a filha de Obito.

Hiroto deu uma risadinha nojenta, banhada em sarcasmo.

Claramente zombavam dela.

Os olhos de Kasumi arderam, e ela teve que se segurar muito para segurar as malditas lágrimas. Ela tentou puxar o ar para os pulmões numa tentativa inútil para se acalmar, e buscou forças para reagir.

Tinha que reagir!

— Eu não rondei ninguém... Foi ela quem veio atrás de nós. Queria descobrir sobre a família da mãe... – Ele riu de novo, de um jeito ainda mais repugnante, e Kasumi voltou a se sentir uma maldita idiota. – Acho que ela tem a péssima ideia de que Rin sente alguma saudade dos pais... Pobre moça.

— Realmente... – Ouviu Madara concordar. – Pobre moça.

Kasumi apertou os olhos e mordeu os próprios lábios, segurando os gritos de revolta que tanto queria soltar dentro da garganta; ela continuou paralisada, quase sem saber o que fazer ou o que pensar, e se sentiu ainda mais idiota por isso.

— Mas vamos direto ao assunto, Nohara.

Kasumi ainda não tinha conseguido digerir o “pobre moça”, mas mesmo assim Madara decidiu prosseguir.

— Mandou-me aquelas fotos por algum motivo, não é? ... Estou tentando entender até agora o que quis dizer com aquilo.

— Só pode estar brincando. Não ficou claro?... Sakura é minha parenta, Madara.

Ela estreitou os olhos castanhos, confusa.

Sakura? Ele certamente não podia estar falando da Haruno.

— Sim, sim. – Madara voltou a falar. – Um parentesco dos piores, é verdade. E é verdade que eu deixei isso passar quando a investiguei... Mas por mais lamentável que seja esse parentesco, Hiroto, ainda estou tentando entender porque você acha que eu me importaria com o fato de a mãe da namorada do meu neto ser prima da sua esposa.

Era a Haruno!; Kasumi exclamou mentalmente, intrigada.

Sakura, parente dos Nohara?... Não podia ser. Ela tinha frequentado a casa de Obito com certa frequência, e até atendera a própria Rin meses atrás... Em nenhuma dessas vezes Kasumi notou qualquer reconhecimento da parte de nenhuma das duas.

— Bem, eu pensei que poderia ser do seu interesse... Pensei, quem sabe, que poderia me ajudar mais um pouco, caso eu conseguisse afastá-los.

Kasumi sentiu o estômago retorcer mais uma vez. O que aquele homem estava pensando em fazer?... Mesmo que Sakura fosse parente dos Nohara, como ele podia tentar se meter na vida da garota?... Como ele ousava se meter na vida de Sasuke?

— Particularmente, não acho que vá ser muito difícil. Sakura é uma garota prática, se fizermos o acordo certo...

Foi aí que Kasumi finalmente conseguiu se levantar. Estava pronta para interrompê-los, pronta para se meter no meio da conversa e defender aquela pobre garota, mas antes que pudesse se virar, a voz de Madara voltou a paralisá-la.

Ele tinha atravessado a fala do indigesto Nohara, e foi curto, grosso e direto quando disse:

— Sakura Haruno é uma moça honesta, estudiosa, trabalhadora e perfeitamente aceitável, tanto para namorada quanto para esposa, se eles assim desejarem algum dia.

E por mais que fosse verdade, Kasumi ficou um tanto desconsertada ao ouví-lo dizer isso, já que que não conseguia imaginar Madara defendendo ninguém que não fosse ele mesmo.

Hiroto pareceu levar um instante para digerir o que o que Madara havia dito.

— Bem... – Ele pigarreou. – Já que é assim... O que eu posso fazer?... Não é como se eu estivesse desesperado, Uchiha. A nossa netinha está ajudando muito. Financeiramente, eu quero dizer.

Mesmo que já tivesse descoberto sobre a verdadeira face de Hiroto Nohara, ouvir aquilo doeu. Ela voltou a se sentir uma idiota, e pela primeira vez em muito tempo, tudo o que queria fazer era fugir dali.

Mas Kasumi Uchiha era uma pessoa teimosa, e por isso se obrigou a ficar.

Tinha que ouvir o resto daquela conversa. Tinha que aguentar.

Finalmente a Uchiha tomou coragem e virou-se, sendo rápida o suficiente para ver que seu desprezível avô Nohara fazia um gesto indicando dinheiro com suas mãos.

Ela pensou que ia vomitar.

— Mas você sabe como é: eu prefiro lidar diretamente com a fonte.

— Não vai mais sentir o cheiro de um tostão do dinheiro da minha família, Nohara. – Madara garantiu, e Kasumi pôde identificar um pequeno sorriso de vitória no rosto dele.

Realmente, ele devia estar se sentindo muito vitorioso... Devia estar se divertindo bastante à custa dela, e só pensar nisso a fazia se sentir ainda mais frustrada, ainda mais irritada e ainda mais burra.

— Bem, há controvérsias. – Hiroto ponderou. – A netinha é uma Uchiha, não é?

Ele sorria ao dizer isso, e Kasumi apertou os punhos, trêmula.

— Mas é uma pena. Pensei que íamos fechar o negócio, já que me chamou até aqui... Mas parece que Madara Uchiha anda bem moderninho, não é? Agora aceita plebéias na família?

Madara fez uma careta.

— Parece que tem uma ideia errada de mim, Nohara... – Ele se ajeitou no assento e negou com a cabeça. – O motivo de eu querer afastar o meu filho da sua filha naquela época foi porque nem você, nem sua esposa prestavam. O que automaticamente me fez concluir que Rin devia ser, se não igual, ao menos semelhante aos pais.

Finalmente, os olhos negros do Uchiha se ergueram até os de Kasumi.

— Foi um erro enorme, do qual eu me arrependo profundamente. – Ele falou cautelosamente, e Kasumi teve a certeza de que aquelas palavras eram para ela. – Eu fiz meu próprio filho sofrer, e é algo que jamais poderei consertar... Mas estou tentando fazer algo útil te mostrando isso, Kasumi.

Ela não tinha forças para respondê-lo.

Toda aquela conversa a tinha enojado, e ela se sentia tão humilhada, tão burra e estúpida que não conseguiu enxergar uma gota de sinceridade em sequer uma palavra dita pelo pai de Obito.

Ele só podia ter feito aquilo para mostrar o quão idiota ela tinha sido em tentar se aproximar dos Nohara... O quão idiota tinha sido em ter dado seu suado dinheiro nas mãos daquela escória.

Kasumi tinha muitas dúvidas sobre o que havia acontecido com sua mãe no passado, mas ao menos algo estava claro agora: o pai de Rin havia participado de seu martírio tão ativamente – se não mais – quanto o próprio Madara.

— Espero que entenda.

Madara voltou a falar, e só então ela se deu conta de que Hiroto estava virado em sua direção, vermelho, gaguejando seu nome.

— M-Meu Deus, Kasumi! Quando é que você chegou aqui?!...

Se ela não estivesse tão enjoada, teria rido da cara embasbacada do homem.

Hiroto continuou dizendo qualquer coisa sem sentido, provavelmente na intenção de enganá-la, ou ao menos dobrá-la, mas Kasumi não conseguiu ouvi-lo. Ela passou muito tempo parada, encarando Madara Uchiha, trêmula por fora, e queimando de raiva por dentro.

Por um minuto, pensou em pedir uma cadeira para o garçom. Por um minuto, ela realmente pensou que deveria sentar entre eles, sorrir acidamente e começar a fazer perguntas sobre o sequestro de Rin.

Ela precisava preencher aquelas lacunas... Precisava saber, precisava entender.

E talvez uma acareação com Madara e Hiroto fosse exatamente o que precisasse para isso, mas... Como ela poderia? Suas pernas tremiam tanto que ela sentia que só estava de pé porque ainda não tinha se mexido.

Estava tão... Furiosa...! Tão nervosa que, ainda que estivesse paralisada e muda, sentia que podia começar a gritar no meio do restaurante a qualquer momento. E de fato era o que ela queria fazer.

Os olhos de Madara e Kasumi ainda estavam fixos uns nos outros, os dela, tristonhos e frustrados, eram como uma janela aberta para Madara. Os dele, tensos e ansiosos, era uma porta trancada para Kasumi.

— Por que fez isso? – Foi tudo o que ela conseguiu soltar, engasgada.

Ele se sentiu desconfortável.

— Por que você precisava saber. – Ele falou calmamente, sincero.

Mas Kasumi negou. Balançou a cabeça em negação, e fez isso de maneira tão frenética e nervosa que o Uchiha, por um minuto, pensou que teria que levantar para acudí-la do surto.

Talvez tivesse feito isso, mas de repente ela soltou uma risada morta, desacreditada, e ele acreditou que seria melhor permanecer aonde estava.

— Atrasou tanto a minha vida... E agora ainda está tentando me humilhar?... Qual é o seu problema? Eu não preciso saber disso. – Ela apontou pra mesa, indicando ambos os avôs. – Nunca... Nunca precisei de vocês. Você... Você sequer tem ideia...?

Ela balançou a cabeça e soltou uma risada desanimada e triste.

Não ia ficar ali... Não precisava ficar ali.

Já tinha ouvido o suficiente, afinal.

Não se disporia a uma discussão tola e sem sentido, até porque duvidava que Madara ou Hiroto fossem confessar qualquer coisa que a ajudasse a chegar numa conclusão sobre os mistérios que rondavam sua história.

Kasumi sempre foi uma pessoa forte, e imaginou que se realmente quisesse... Poderia ficar ali. Poderia chamar o garçom e se sentar; poderia falar sarcasticamente com ambos, e humilhá-los de forma semelhante ao que tinham feito com ela naqueles curtos minutos de conversa, mas... Por que ela faria isso? Pra quem?

Não precisava provar nada a ninguém.

Ela respirou fundo e balançou a cabeça; deu as costas para a mesa e, de cabeça erguida, começou a se afastar dos dois. Sentia uma cólica infernal, e por sua filha, decidiu que não passaria por aquilo.

Kasumi ajeitou a bolsa, puxou uns trocados da carteira e deixou sobre a mesa que antes ocupava. Foi quando sentiu Hiroto, em pleno desespero, agarrar-lhe os antebraços, finalmente chamando a atenção da filha de Rin.

— Kasumi! – Ele exclamou, cheio de tensão. – Não é o que você está pensando!...

Ela o olhou com estranhamento, e então riu desacreditada.

— Sabe, senhor Nohara... Eu devia mesmo estar curiosa para saber qual vai ser a desculpa dessa vez, mas... A verdade é que eu não estou. Nem um pouco, para falar a verdade.

— Kasumi, por favor! Tem que me escutar!...

— Acho que já escutei o suficiente. – Ela garantiu. – E, por falar nisso...

Ela se aproximou do velho Nohara, apontando para o peito dele e o olhando com os olhos castanhos bem abertos, furiosos e vidrados, tão ameaçadora que o homem recuou.

— Se eu suspeitar que estão fazendo alguma coisa... Qualquer coisa contra Sasuke e Sakura, ou o relacionamento deles...

Ela levou os olhos até Madara, que continuava sentado, impassível, enquanto silenciosamente observava a cena.

— Juro que vão se arrepender. – Prometeu.

Madara suspirou, negou com a cabeça e desviou o olhar.

Ele não conseguia imaginar o que se passava na cabeça daquela menina. Ou ela não tinha entendido uma palavra sequer do que ele havia dito, ou não acreditara em absolutamente nada. Independente disso, uma coisa era certa: Kasumi não confiava nele. E talvez o odiasse ainda mais agora do que antes.

A Uchiha voltou a ajeitar a bolsa. Mesmo que Hiroto estivesse praticamente jogado aos seus pés, era a Madara que ela encarava. Ela saiu do restaurante dando pisadas furiosas e rápidas, e não ofereceu sequer um último olhar de desprezo para o pai de Rin, que estava aos prantos numa cena realmente constrangedora.

E com a mesma velocidade com que ele havia iniciado seu drama, Hiroto se levantou, furioso e atirou-se sobre a mesa na direção de Madara, derrubando um vaso e um copo durante o processo.

— O que você fez?! – Ele gritou, os olhos atormentados. – Por quê? Por quê?! Enlouqueceu?! Pra quê?!... Por quê?!

Madara sinceramente não conseguia entender como Hiroto Nohara, que era provavelmente o marginal mais incompetente que já havia tido o desprazer de conhecer na vida, ainda conseguia andar solto e vivo àquela altura.

Ele balançou a cabeça, lamentando-se. Levantou-se elegantemente e deu uma última olhada para o agora desesperado Hiroto.

Era uma imagem gratificante, ele não podia negar.

Hiroto estava trêmulo, e segurava a mesa com força, quase como se pudesse arrancá-la de lá. Seu rosto estava vermelho, seus olhos arregalados e sua expressão era um misto de confusão, fúria e desespero.

O Nohara não era burro, mas parecia se achar a pessoa mais perspicaz do mundo – o que não era. O homem sempre parecia ter se achado o dono do universo, melhor e mais inteligente do que qualquer um.

Era um patife que nunca havia entendido a própria insiginificância, e colocá-lo em seu devido lugar trazia um sabor doce à boca do Uchiha.

Sem conseguir resistir a sensação de vitória, Madara sorriu zombeteiro, de um jeito que só os Uchihas conseguiam sorrir e estreitou as sobrancelhas com uma expressão de puro divertimento.

— Viu só? Não há controvérsias. Eu disse que você não ia mais sentir o cheiro de um tostão da minha família.

Ele o lembrou, e deixou o outro estático. As sobrancelhas de Hiroto se estreitaram e ele conseguiu ficar ainda mais vermelho do que antes; tinha no rosto uma agradável expressão de fúria mal contida.

— Aproveite o almoço, Nohara. – Madara sugeriu espirituosamente. – Vai ser o último centavo que vai tirar da Uchiha.

.

Kasumi não olhou para trás depois de sair do restaurante, e chegou a berrar com o pobre manobrista na frente do estabelecimento, como se seus gritos pudessem fazer o coitado achar seu carro mais rápido.

O homem foi tão rápido quanto pôde, mas não era o suficiente para ela, que agarrou as chaves da mão dele e entrou furiosa no automóvel.

O caminho de volta para casa foi longo e infernal; ela não soube quando começou a chorar, mas ao alcançar a casa dos pais, sentia-se molhada e melada, com o nariz entupido e os olhos inchados; ela encostou a cabeça no volante e deixou-se desmanchar-se em lágrimas, furiosa com Madara, com Hiroto e principalmente consigo mesma.

Porque tinha que ter ido atrás dos Nohara?... Só porque os pais eram bons e inocentes, aquilo não significava que todos fossem. Ela devia ter entendido os motivos para a mãe nunca ter tocado no nome deles, devia ter entendido o claro rancor que Obito demonstrava pelos sogros... Devia ter percebido como os Nohara a estavam usando durante aquelas visitas estúpidas!

E porque tinha ido de encontro a Madara, afinal? O que ela poderia esperar de um homem como aquele?... Estava grávida, pelo amor de Deus!... Desde o começo sabia que as intenções do Uchiha não podiam ser boas, então porque, por que tinha que ser tão teimosa?

Como ela podia ter sido tão idiota?...

Uma dor no ventre a fez grunhir e chorar mais ainda; ela se encolheu, agonizada, e abraçou o próprio corpo dentro do carro.

~

Sasuke não se surpreendeu quando Naruto entrou em sua sala ao meio-dia.

Na verdade, ele se surpreenderia mais se ele não o tivesse visitado, já que de uns tempos para cá, o amigo estava fazendo questão de tomar parte de seu tempo tentando arrastá-lo para esse ou aquele restaurante, como se Sasuke não tivesse mais nada com o que se preocupar.

O Uchiha realmente estava ficando saturado da atitude do amigo, mas naquele dia, em especial, não só não se incomodou, como de certa forma se sentiu bastante grato com a fidelidade do amigo.

Não porque estava com fome... Ou ao menos não porque estava com tanta fome, mas porque algo o estava incomodando desde o amanhecer.

Ele tinha tido um sonho estranho àquela noite... Um sonho perturbador.

Um sonho em que uma Sakura mais jovem, vestida de colegial, baixava a cabeça enquanto passava por sombras mais altas.

Ele não sabia por que tinha sonhado aquilo, muito menos porque se sentira tão perturbado com aquela simples visão. Ele não se lembrava de nenhuma expressão, não se lembrava de lágrimas, nem gritos, nem nada parecido... Só dela cabisbaixa, caminhando por um corredor longo, cheio de sombras.

Enquanto tomava café mais cedo do que desejava, Sasuke chegou à conclusão de que aquele sonho certamente devia-se ao que Naruto tentara dizer no dia da discussão, e apesar de só a ideia de que as palavras do amigo tinham ficado presas em seu inconsciente fosse frustrante, ele sabia que não conseguiria parar de pensar nisso enquanto não soubesse da história toda.

— Quem é aquele na mesa da Karin? Finalmente conseguiu um quebra-galho?

Sasuke negou.

— Aquele é Juugo. Ele vai ficar no lugar da sua prima.

Os lábios de Naruto formaram um “o” perfeito de surpresa.

— Finalmente tomou coragem pra mandar a folgada embora?!

O moreno riu, mas negou.

— Ela foi realocada. O financeiro precisava de alguma ajuda, então pedi pro RH tomar as devidas providências... Ela começa em agosto, se não me engano. Eles vão entrar em contato, aí ela decide o que fazer.

Naruto estreitou os lábios, mas assentiu. Não tinha tanta certeza sobre o que a prima decidiria, mas certamente mudar de setor parecia a melhor coisa a se fazer.

— Bem... Vamos? Reservei num lugar bem bacana, é um restaurante novo aqui do centro. Uns colegas falaram que tem uma comida bem legal... Também podemos falar sobre o seu aniversário. Sei que não tá em clima de festa, mas talvez possamos sair pra comer alguma coisa juntos, Hinata, eu e você. Não fazemos isso há algum tempo, e ela disse que quer falar alguma coisa pra gente.

Sasuke se ajeitou na cadeira, um tanto desconfortável.

— Certo... Mas antes... – Ele apontou para a cadeira em frente à sua mesa. – Sente-se. Eu queria te perguntar umas coisas.

Naruto estranhou. Estreitou os olhos, os lábios e obedeceu com hesitação.

— “Algumas coisas”?... – Ele perguntou com desconfiança.

Os olhos negros caíram à mesa e Sasuke começou a brincar com uma caneta prateada que o pai havia lhe dado quando assumira seu primeiro cargo na Uchiha.

— Há uns dias... No dia da discussão...

Ele estreitou os lábios, tentando encontrar um jeito de perguntar aquilo sem parecer invasivo ou algo do tipo. Os olhos negros se estreitaram, e ele se obrigou a olhar para o não-tão-surpreso Naruto.

— Sakura teve algum tipo de problema na escola?

Naruto se apoiou na mesa, sorrindo com aquela cara de quem já esperava esse tipo de pergunta uma hora ou outra.

— Pensei que estivesse “de saco cheio”...

Sasuke suspirou e o encarou com frustração contida.

— Naruto...

— Bem, você deve imaginar.

Naruto fez uma careta chateada.

— Claro que eu não posso saber exatamente o que ela passou, já que não estava lá, mas... Você sabe que o primeiro emprego da Mebuki-san... A mãe da Sakura-chan, quero dizer. Você sabe que o primeiro trabalho dela lá em casa foi cuidando de mim, não é?

O Uchiha assentiu.

— Ela era chamada na escola com frequência. Minha mãe quase mandou ela embora por causa disso, mas... – Naruto deu os ombros. – Acho que ela explicou. Eu perdi as contas de quantas vezes vi a Sakura-chan molhada, ou coberta de farinha. – Ele balançou a mão. — Toda essa merda que você pode imaginar.

Sasuke sentiu um aperto incômodo no peito e soltou o ar, surpreso, ao mesmo tempo em que Naruto suspirava.

— Sakura-chan sempre foi meio aficionada nos estudos. Ela sempre quis ser médica, e mesmo quando estávamos em casa, costumava ser bem isolada. E você sabe como são as crianças quando topam com alguém mais... Diferente....

Sasuke sabia que Sakura tinha certa fixação por seus estudos, mas não ao ponto de se tornar diferente na escola. Sinceramente, já que Sakura sempre se mostrara absolutamente inteligente, ele nunca nem tinha imaginado que a rosada pudesse ter sido um rato-de-biblioteca em algum momento de sua vida, então ficou realmente chocado.

— No colégio ficou pior. – Naruto prosseguiu. – Eu não lembro de tê-la visto chorar quando mais nova, mas depois que entramos pro colégio... Ela conseguiu uma bolsa numa escola grande, sabe? Foi lá que conheceu a Ino. Era uma garota pobre, num colégio de elite...

O Uchiha ergueu a mão, sinalizando que ele parasse.

— Eu entendi... – Murmurou.

Não sabia se queria ouvir mais.

— Mas ela superou isso tudo. Tem até uns colegas idiotas nas redes sociais... Sempre acompanha Ino nesses encontros de turma e tudo mais. Por isso digo: ela não é de guardar rancor.

Sasuke respirou fundo e negou lentamente. Sua cabeça tinha começado a doer.

— Guardar rancor de um namorado e de um colega são coisas diferentes, Naruto.

Naruto negou.

— Não disse que só colegas fizeram isso.

Sasuke ergueu o olhar na direção do amigo, que estreitou os lábios.

— Sakura-chan não era paranóica com caras até o segundo ano.

O moreno não soube o que responder.

— Não que ela seja agora, mas... – Naruto deu os ombros. – Ela mudou bastante. Não sei explicar direito, mas antes era mais aberta com esse negócio de namoro. Depois do segundo ano ela colocou na cabeça que só ia ficar com o cara que realmente gostasse dela...

Vendo que Sasuke continuava paralisado, ele resolveu prosseguir:

— Ela era o tipo, sabe... O tipo de garota com quem esses idiotas fazem piadas.

— Que piadas? – A voz de Sasuke soou baixa e intensa.

— Sabe que piadas. Apostas sem sentido de “quem vai pegar a nerd da sala?”, “quem vai enganar a pobretona?”. “Quem vai levar a muda pra cama primeiro?”.

— Ninguém levou ela pra cama! – O Uchiha praticamente rugiu.

— O que não significa que ninguém tenha tentado. – Naruto observou.

Sasuke coçou os olhos, e tentou controlar a respiração para conter a raiva.

Sakura não parecia o tipo de garota que era atormentada por traumas. Mesmo quando ela era teimosa e recusava a aproximação de Sasuke, ela mais parecia agir por ideais do que por medo de ser machucada, então tudo aquilo soava absurdo aos ouvidos dele.

— Por que acha que eu insisti tanto quando vocês começaram a se aproximar?

— Naruto... Sakura nunca demonstrou sentir medo de homens.

— Mas também nunca demonstrou interesse por eles. Não depois do colégio... Não até vocês se envolverem, pelo menos. E eu não estou falando que ela foi agarrada, abusada. – Naruto ergueu as mãos pra cima, irritado. – Só estou dizendo que tentaram fazer isso, e ela ficou magada.

— Como pode saber? Já estava na cidade quando estávamos no colégio.

Naruto bufou. Por que ele estava desconfiando?

— Shikamaru Nara. – Ele disse impaciente. – Ele estudou com a Sakura-chan, era namorado da Ino e vivia lá em casa com as duas. Eu estava interessado, queria ficar com ela. Sakura-chan nunca deu bola pras minhas investidas, mas de um ano para o outro, ela pareceu ficar irritada com elas... Então eu decidi perguntar se ela tinha arranjado um namorado. Ele não disse muita coisa, era um cara discreto, mas eu não sou tão idiota quanto pareço... Por que é que está me olhando com essa cara de desconfiança? Eu não tenho motivos pra mentir!

Sasuke engoliu em seco, incomodado.

Ainda estava digerindo a ideia de uma Sakura jovem e inocente servindo de piada para algum babaca durante o colegial, quando o telefone tocou. Ele precisou de um minuto para recuperar sua paz de espírito, e respirou fundo antes de ligar o viva-voz.

— Fala, Juugo.

— Seu irmão está aqui. – O novo secretário o avisou.

Fazia um tempo que Itachi não aparecia na empresa. Mesmo que estivesse mau-humorado, aquilo tomou a atenção de Sasuke – o que de fato era uma benção – e ele tentou se acalmar quando voltou a falar com o secretário.

— Pode deixar entrar.

Ele mal tinha terminado de dar a ordem e a porta se abriu.

Era o próprio Itachi, que havia dispensado a cortesia do secretário de abrir a porta para anunciá-lo formalmente. Ele trazia um sorriso sereno no rosto e um embrulho não muito grande preso num dos braços, e acenou amigavelmente na direção de Naruto quando entrou na sala.

— Então é verdade que você está bancando a esposa do meu irmão!

Ele falou em tom zombeteiro, e tirou um sorriso de Naruto, que imediatamente levantou-se para cumprimentar com um abraço saudoso e fraternal o mais velho dos irmãos Uchiha.

— Itachi!... Há quanto tempo! Como estão as coisas?

Itachi deu de ombros.

Francamente, nem ele sabia como responder aquela pergunta.

— Indo, indo... – Murmurou. – Sasuke!

Itachi deu um sorriso ainda maior quando o irmão se aproximou, e o abraçou com força. Ele afastou e deu uma olhada mais ampla no Uchiha mais jovem, que parecia mais pálido e magro do que de costume.

— Naruto, você não está fazendo seu trabalho de esposa direito. – Ele balançou a cabeça como se lamentasse o fato, e olhou diretamente para Sasuke. – Não tem comido?

Ele deu os ombros.

— Não muito. – Confessou. – Muito trabalho, problemas com a secretária... Mas estou tentando ajeitar as coisas, não se preocupe. O que veio fazer aqui?

Itachi estava preocupado, mas sabia que se demonstrasse muita preocupação, Sasuke ficaria irritado, o mandaria embora e ele não conseguiria cumprir o objetivo que tinha ao ir até lá: conversar. Talvez até ouvir um desabafo do caçula.

— Eu? Só vim trazer um presente para o meu irmãozinho tolo! – Ele se afastou, ainda sorrindo, e entregou o embrulho azul para Sasuke, que estreitou as sobrancelhas de um jeito confuso.

Itachi nunca esqueceria do dia de seu aniversário.

— Kasumi finalmente te endoidou? Meu aniversário...

— É amanhã, eu sei. – O mais velho assentiu e balançou as mãos como se aquilo fosse uma informação irrelevante. – Mas eu tenho estado ocupado, você sabe. Peguei um caso grande, que tá me dando bastante dor de cabeça...

Ele suspirou.

— Decidi vir assim que tive tempo. – Deu um tapinha no rosto do irmão. – Não quero que depois fique chorando pelos cantos porque seu onii-san não veio te parabenizar.

Os olhos negros do mais novo reviraram, mas Sasuke sorriu.

— Que tal irmos os três juntos? – Naruto sugeriu. – Podemos colocar a conversa em dia... É sábado, não vai fazer mal passar da hora do almoço.

Itachi achou uma ótima ideia, já que a presença de Naruto em geral costumava distrair Sasuke, e isso poderia ajudá-lo a se abrir mais e com maior facilidade. Ele estava a ponto de concordar quando sentiu o celular vibrar, e até teria ignorado a chamada se não tivesse visto a foto de Kasumi no visor.

— Só um minuto. – Ele pediu, e se afastou um pouco. – Kasumi?

— Itachi... – Ela murmurou do outro lado da linha, o que dificultou o entendimento de Itachi. – Eu não estou me sentindo bem...

— O quê?

Então ela soltou um grunhido extremamente dolorido, e foi como se um raio o atingisse em cheio.

— Kasumi? O que está acontecendo?

Sua voz soou mais alta e ansiosa, e tanto Sasuke quanto Naruto se alarmaram.

— Só venha... Rápido... Por favor...

Itachi conhecia Kasumi bem o suficiente para saber que ela jamais ligaria para pedir qualquer coisa quando estavam brigados, a não ser que fosse muito sério. E ter consciência disso o deixou tão desesperado que ele mal conseguia se manter em pé.

Ele passou as mãos no cabelo, exaspeardo.

— Certo... Certo...

Ele se apressou em sair do escritório, tão perturbado que foi incapaz de percebeer que Naruto e Sasuke o estavam seguindo, prontos para qualquer emergência.

— Eu estou indo. Mas o que aconteceu?

— Eu não sei... – Ela confessou. – Só... Não me sinto bem, então, por favor...

Itachi assentiu, nervoso.

— Estou indo, Kasumi, mas preciso saber...

A ligação caiu de repente.

Ele olhou para o visor, desacreditado, e tentou retornar de imediato, apenas para se frustrar ao ouvir a voz de Kasumi dizendo que deixasse a mensagem na caixa postal, já que ou estava ocupada, ou sem bateria.

Ele xingou alto e apertou o botão para a garagem pela terceira vez.

— O que aconteceu? – Sasuke perguntou ao lado dele, claramente preocupado.

Itachi sequer tinha percebido a presença do irmão até então, mas a consideração de Sasuke não foi suficiente para que seu humor melhorasse.

— Não sei. – Ele soou quase grosseiro. – Por isso estou descendo.

Itachi estava com a cara fechada; a perna direita mexia num tique nervoso irritado e contínuo, e mesmo que o celular da esposa estivesse desligado, ele não desistiu de retornar a ligação.

— Vamos com você.

Não foi uma pergunta, mas um aviso. E aquilo o irritou profundamente.

Itachi virou-se na direção do irmão, claramente incomodado.

— Sasuke... – Sua voz tinha um tom de aviso.

— Você tá todo trêmulo! – O mais jovem tentou argumentar. – Não vou deixar dirigir desse jeito! Vai acabar batendo em algum lugar!

Itachi costumava amar muito seu irmão, e se estivesse um pouco mais paciente, agradeceria a atitude cuidadosa e preocupada dele; mas naquele momento, ele estava pronto para mandar Sasuke ir para um lugar não muito agradável quando Naruto tentou ponderar com um argumento melhor:

— Talvez você precise de ajuda com ela.

E como Itachi não fazia nem a mínima ideia do que devia estar acontecendo com a esposa naquele momento, simplesmente aceitou, e voltou às suas frustrantes tentativas de retornar a ligação de Kasumi.

~

Kasumi se encolheu no chão da sala, cheia de dor, gritando uma praga.

Por que aquela dor maldita não parava?...

— Por favor, Akane... O papai vai chegar logo, então, por favor...

Ela praguejou mais uma vez, e tentou respirar fundo.

Olhou para o relógio e sentiu vontade de chorar: ainda faltava no mínimo uma hora para que os pais voltassem, e ela não fazia ideia de onde Itachi estava, logo, não tinha nenhuma noção de quanto tempo levaria para que ele chegasse.

Era impressionante como, justo naquele momento, ninguém estava em casa. Nem a empregada, que tinha tirado o dia de folga, nem o motorista, que estava com Obito e Rin, nem o maldito jardineiro – e ela o odiou, mesmo que o pobre coitado só visitasse a casa quinzenalmente, e às quintas.

Kasumi olhou para a tela do celular desligado mais uma vez, furiosa. O celular nunca ficava sem bateria, e justo agora... E ela mal conseguia se mexer, que dirá procurar o carregador idiota!

Ela atirou o aparelho na parede, furiosa, e se encolheu mais, murmurando o nome da filha como se fosse uma prece.

Kasumi jamais poderia imaginar quanto tempo ficara lá, sozinha, agonizando de dor enquanto esperava alguma alma – qualquer alma! – caridosa aparecer para salvá-la, mas sentiu que o céu clareava e o mundo havia se tornado um lugar melhor quando Itachi entrou às pressas no lugar.

Ele parecia um anjo, e ela quis chorar.

Na verdade, ela chorou, mas estava tão nervosa que nem isso conseguiu notar.

Tanto Itachi quanto Naruto e Sasuke ficaram apavorados com a imagem de Kasumi, sempre tão durona e ativa, jogada ao chão, encolhida e chorando como uma menininha medrosa.

— Meu Deus, Kasumi...

Itachi e Sasuke estavam ao lado dela num piscar de olhos, e a ajudaram a se levantar com cuidado extremo.

— O que está sentindo? – Apesar de se sentir uma pilha de nervos, a voz de Itachi soou suave e tranquilizadora.

Kasumi balançou a cabeça, sem saber como explicar.

— Dói... – Ela murmurou. – Tudo dói... Acho que são contrações, mas não sei... Parecem cólicas. E a coluna fica dando pontadas... – Encostou o rosto no peito do marido, exausta. – Meu Deus, Itachi... Parece que eu vou morrer...

Ela estava pálida e mole, e realmente parecia quase-morta.

Com cuidado, Sasuke ajudou o irmão a tomá-la no colo. O mais novo se apressou em pegar a bolsa da cunhada, que estava jogada perto do lugar em que haviam-na encontrado.

— Vamos pro hospital logo. – Ele apontou para a porta.

— E- Eu dirijo! – Naruto quase gritou. Sentia-se realmente assustado, mas apesar de saber que estava em choque, sabia que, entre os três, certamente era o mais calmo.

Nem Sasuke, nem Itachi discutiram. O irmão mais novo dos Uchihas vasculhou o bolso do terno e jogou as chaves do carro na direção do amigo, e todos os três apressaram o passo.

No carro, Itachi e Sasuke tentaram seu melhor para acomodar Kasumi no banco do passageiro, mas ainda foi um trabalho difícil. O mais velho ficou lá, ao lado da esposa, tentando tranquilizá-la e segurando na garganta as perguntas que queria fazer, enquanto Sasuke e Naruto tomaram à dianteira.

Naruto tentou não acelerar como um louco, mas foi bem difícil acalmar os nervos diante dos gemidos e grunhidos doloridos da cunhada de Sasuke, que pareciam aparecer em intervalos cada vez mais curtos.

Itachi parecia prestes a chorar, e Sasuke chegou à conclusão que tinha que se acalmar e fazer alguma coisa, qualquer coisa para acalmar todo mundo ali... Então puxou o celular de Naruto do bolso do paletó do amigo e discou o primeiro número que passou pela cabeça.

Levou apenas um toque antes que ela atendesse.

— Naruto! Há quanto tempo!...

— Não desligue. – Ele pediu apressadamente, tentando conter o desespero na voz.

Sakura obviamente reconhecera sua voz, porque o tom animado que havia usado com Naruto sumira; ela emudecera por um segundo que pareceu absolutamente longo, e Sasuke teve a certeza de que desligaria.

Por sorte – por mais cruel que aquilo pudesse soar –, o gritinho dolorido de Kasumi a assustou ao ponto de continuar na linha.

— O que aconteceu?! – Ela soou alarmada, e Sasuke deu graças a Deus pela hesitação dela antes de desligar. – Sasuke-kun!

— Eu não sei... – Ele conseguiu dizer quando retomou o fôlego. – Encontramos a Kasumi acabada. – Virou-se para olhar para a cunhada, que estava encolhida nos braços do marido. – Parece estar morrendo de dor, eu não faço ideia do que...

— Traga-a para o hospital. Agora.

Os olhos negros reviraram.

— Já estamos no carro. Pelo amor de Deus, não tem nada que possamos fazer?

Sakura mordeu o lábio inferior, nervosa. Que tipo de instrução podia dar naquela situação?... Ela não era obstetra – e para ser sincera, nunca pensou em ser –, nem fazia ideia pelo quê a cunhada de Sasuke podia estar passando.

— Primeiro, tente acalmá-la. – Ela pediu, tentando soar tranquila. – Pergunte o que ela está sentindo exatamente, detalhadamente...

Mais um grito foi ouvido, mais alto do que o último, mas Sakura também ouviu Sasuke conversar com os irmãos com um tom de tranquilidade claramente forjada.

— Sakura quer saber o que ela está sentindo exatamente.

Itachi puxou o rosto da esposa, alisou as maçãs do rosto dela e pediu sua atenção num tom firme, apesar de carinhoso. – Kasumi, respire... Diga o que está sentindo.

Kasumi fez uma careta de desagrado.

— Eu já disse... Dor, muita dor. Parecem contrações, mas eu não... Eu não sei... Minha coluna também dói como o diabo... – Ela tentou respirar, mas voltou a choramingar. – É sério, parece que vou morrer de dor...

— Pontadas na coluna, dor... Muita dor. Acho que são contrações, mas essa droga não para!... – Sasuke voltou a se ajeitar no banco do passageiro, e contou com uma voz mais contida: — Ela está pálida, Sakura...

Apesar de contida, a voz de Sasuke soara esganiçada, e Sakura sentiu o estômago revirar de ansiedade e nervosismo. Tinha que se acalmar... Raciocinar. Tentou cavucar na mente qualquer coisa sobre obstetrícia que tivesse estudado.

— Ela teve algum sangramento? – Foi a primeira coisa que lhe veio a mente.

Itachi estava sentado atrás de Sasuke, com Kasumi ajeitada em seu colo, meio sentada, meio deitada, muito longe para erguer as saias da esposa, então foi Sasuke quem teve que se contorcer para chegar lá: ele ergueu a saia do vestido longo apressadamente, e sentiu o estômago congelar quando viu vestígios de sangue na parte interna das coxas da cunhada.

Ele engoliu em seco.

— Sim.

Sakura apertou os olhos e segurou um xingamento na garganta.

— Sasuke... Eu preciso saber se o bebê está mexendo, mas você não pode apavorá-la. Desliga o telefone, finge que vai acalmá-la e mexe na barriga, ouviu? Sem apavorá-los. Eu vou tomar as providências aqui. Te ligo daqui a pouco.

E sem esperar a resposta do ex, ela desligou.

Sasuke deu graças a Deus por não ter tido tempo de almoçar, porque ele realmente se sentia prestes a vomitar. Ajeitou as saias da cunhada cuidadosamente, tentando ser discreto, se ajeitou no banco e tentou conversar.

— Estou sangrando?! – A voz dela soou chorosa, quase desesperada, e Sasuke percebeu que suas ações não tinham sido tão discretas como gostaria. Ele sorriu e negou, e até que foi bem na atuação, porque Kasumi pareceu aliviada.

— Não, é claro que não... – Ele apertou o braço dela de um jeito carinhoso. – Não é sangue. – Mentiu. – Sakura disse que devem ser uns fluídos, Akane só deve estar apressada, então fique tranquila.

Itachi lançou um olhar tenso ao irmão, mas Sasuke não o correspondeu. De qualquer forma, sabia que não conseguiria enganar o irmão, então manteve seu foco na cunhada.

Primeiro, ele tentou alisar o braço dela, e então passou para a barriga; tentou estimulá-la: primeiro com uma carícia, depois mexendo de leve, enquanto tentava distraí-la perguntando pela terceira vez o que ela sentia exatamente.

— Sasuke... – Ela voltou a choramingar. – Me desculpe... Por favor, me desculpe por tudo. Eu fui tão, tão idiota, e fui tão rude com você...

Ela soluçou, e Itachi enlaçou os dedos numa das mãos da esposa. E embora Sasuke estivesse começando a entrar em pânico com a falta de agitação de Akane – que era um bebê agitado –, continuou sorrindo, esbanjando boas vibrações que não sentia.

— Kasumi, você sempre é rude comigo. – Ele brincou. – Está tudo bem...

Ela negou.

— Você estava certo... Aquelas pessoas são horríveis, e mesmo assim... Mesmo assim eu tratei você daquele jeito... Por favor, Sasuke... Eu te amo tanto, então, por favor... Por favor, me desculpe...

— Ei, ei... Pare de drama, senhora Uchiha. – Sasuke enlaçou os dedos na mão livre da cunhada. – Somos irmãos, lembra? É normal querer arrancar o couro um do outro de vez em quando.

— Se algo acontecer à Akane... – Ela fungou. – Eu nunca vou me perdoar... É tudo minha culpa... – Balançou a cabeça freneticamente. – Eu devia ter escutado vocês, mas ao invés disso...

O telefone tocou mais uma vez, interrompendo as lamentações da Uchiha.

— Nada vai acontecer, Kasumi. – Sasuke garantiu o mais suave que conseguiu, voltou a se ajeitar no assento e atendeu apressado. – Sou eu...

— Ela se mexeu? – Sakura estava estática; parecia estar correndo pelo hospital.

— Não muito. – Sasuke apertou os olhos, tentando manter a calma. – Não podemos fazer nada? Ela parece estar com muita dor... – Ele coçou a testa, atônito.

— Só trazê-la... – Sakura tinha um tom de lamentação na voz, o que deixou Sasuke ainda mais agitado. – Escute... Kasumi tem faltado às consultas, então eu não posso ter certeza, mas a Dra. estava com suspeita de hipertensão gestacional.

Ela tinha parado de correr, e agora Sasuke ouvia o barulho de folhas; imaginou que a rosada, de alguma forma, conseguira ter acesso ao prontuário da cunhada.

— Ela tem tido picos de tensão, passou por muitas situações estressantes...

— Situações estressantes... – Ele quis se jogar do carro ali mesmo.

Não podia acreditar que era culpado pela situação da cunhada.

Sakura pareceu adivinhar seus pensamentos, pois suspirou e o disse, com um tom de censura na voz: — Foi uma gestação agitada. Não é sua culpa... Escuta, você precisa se acalmar, entendeu? Ela não pode desconfiar de nada. Pode se estressar mais, e o quadro pode piorar.

Sasuke sinceramente queria chorar, mas assentiu.

Mesmo que não tivesse visto, Sakura pareceu ter entendido, porque prosseguiu:

— Olha... É claro que podem ser outras coisas... Mas diante dos sintomas, do histórico e das anotações da médica da Kasumi-san, acho que a placenta pode ter descolado.

— E isso é muito...? – Ele não conseguiu concluiu a pergunta, mas foi o suficiente para Sakura, que voltou a suspirar, dessa vez mais longamente.

— Depende muito. Com quantas semanas o bebê está?

— Trinta e poucas, algo assim.

— Ah, claro. Eu achei o registro... – Sakura suspirou de novo, coçou a cabeça e tentou colocar o cérebro para funcionar. – É menos mal, eu diria, mas... O sangramento é muito grande?

Sangramentos nunca eram bons.

— Não. – Ao menos isso era de certo alívio.

— Ela desmaiou ou algo do tipo?

— Não que eu saiba... Mas está pálida demais, e bastante fraca. Tivemos que levantar ela do chão e deitar no carro. – Ele olhou para a cunhada mais uma vez. – O corpo também fica tremendo, mas acho que pode ser por causa da dor.

— Eu vou preparar a entrada dela e contatar a obstetra, certo?... Tentem chegar rápido, e fiquem calmos...

Ela ouviu Sasuke engolir em seco mais uma vez.

— Sasuke-kun. – Ela soou rígida.

— Sim? – A voz dele soou mais esganiçada do que da última vez.

— Tudo vai dar certo... – Ela garantiu com firmeza, embora não pudesse ter certeza. – Mas você precisa ficar calmo, entende? Ela precisa ficar tranquila.

— Certo...

Sasuke passou a mão livre pelo rosto e limpou as lágrimas irritantes.

— Logo chegamos aí...

— Estou esperando. – Ela disse antes de desligar.

.

Eles não demoraram muito mais até alcançarem o hospital, e assim como Sakura disse que faria, deixou a entrada da cunhada de Sasuke pronta, poupando o tempo de Kasumi, que foi levada às pressas para a emergência, e a paciência de Itachi, que se sentia tão desolado que mal conseguia andar depois de deixar a esposa com os médicos.

A tarde passou num pulo, e Sakura se sentia uma barata tonta: se revezava entre Kasumi, os médicos e os Uchihas, indo de lá para cá durante toda a tarde.

A obstetra de Kasumi não pôde ser contatada, então a rosada teve que se virar com os médicos de plantão; eles não pareceram muito contentes em ter uma residente enfiada no consultório enquanto discutiam sobre o quadro da paciente, mas Sakura era insistente, inteligente, e havia se imposto como parenta – como a cunhada de uma Uchiha! –, então não tiveram muito que fazer.

Depois de uma série de exames e discussões, algumas horas depois de Kasumi dar entrada no hospital, os médicos chegaram à mesma conclusão que Sakura: a Uchiha realmente fora vítima de um descolamento de placenta, certamente causado pela hipertensão que tinha desenvolvido durante a gravidez.

Ficou decidido que Kasumi ficaria em observação, e os médicos tentariam meios para reverter seu quadro, mas o passar das horas não trouxe muita melhora à paciente.

Eram quase onze horas quando decidiram fazer o parto, e Sakura acompanhou o médico responsável para passar a informação aos tensos Uchihas que esperavam do lado de fora, numa área de espera.

Ela não se surpreendeu quando encontrou, além de Sasuke e Itachi, Obito e Rin.

Era óbvio que um dos dois os chamaria, mas a ideia de ter que passar a notícia para o Itachi já era ruim o suficiente, que dirá para os pais dela.

Sakura indicou ao médico quem era o marido da paciente, e juntos eles se aproximaram de Itachi, que se levantou imediatamente, e tal como Obito, aproximou-se numa velocidade surpreendente.

— Como ela está?

Foi Obito o primeiro a perguntar. Ele parecia tão angustiado...

Sakura gesticulou com as mãos, pedindo calma.

— Assim como a Haruno explicou ao senhor Uchiha mais cedo, a senhora Uchiha teve um descolamento na placenta. Tentamos reverter o quadro... – O homem coçou a nuca, um tanto nervoso. – Mas chegamos à conclusão de que a melhor solução é fazer o parto.

Itachi pareceu confuso.

— Parto?... Mas faltam umas seis semanas! – Ele exclamou, um tanto irritado.

— É o que podemos fazer agora, senhor Uchiha. – O médico o interrompeu, muito sério. – Estamos preparando a cesárea. Já conversamos com senhora Uchiha e ela já foi encaminhada para a anestesia.

— Conversaram com ela? – Itachi soou desacreditado. – Ela deve estar enlouquecendo de dor! Como é que podem perguntar pra ela?! – Ele estava vermelho de nervosismo, chegando a um estado de fúria até então desconhecido por Sakura.

— Senhor Uchiha. – O tom do doutor foi de censura. – É uma situação de risco, tanto para a mãe quanto para a criança, então eu decido o que fazer ou não.

Sakura viu Rin se encolher em uma das cadeiras atrás dos Uchihas, e viu Sasuke se aproximar da tia para envolvê-la com os braços, num consolo silencioso. Obito tinha ficado verde, e Itachi paralisara.

— Tentamos reverter a situação, mas a placenta é responsável pelo oxigênio do bebê. Quanto mais tempo demoramos para tomar uma atitude, maior fica o perigo.

Itachi apertou os olhos e praguejou. Rin choramingou nos braços de Sasuke e Obito jogou alguma coisa do bolso no chão, frustrado.

Sakura percebeu que precisava falar alguma coisa, qualquer coisa que pudesse acalmar tanto aos Uchihas quanto ao doutor, que estava claramente sem nenhuma paciência para a ignorância de Itachi.

— Kasumi-san já não sentia tantas dores quando o doutor foi falar com ela, Itachi-san. Ela estava sã, consciente, e entendeu a situação. – Ela o avisou com a voz doce e tranquila, e apertou o antebraço do ex-cunhado de leve. – Por favor, não fique tão ansioso. O doutor sabe o que está fazendo.

O médico, parecendo absorver o tom conciliador da residente, prosseguiu.

— É o mais seguro, senhor Uchiha. – Ele garantiu, tentando relaxar a postura e o tom de voz. – Tanto para a paciente, quanto para a criança.

Obito apertou uma das têmporas e se afastou, desolado ao imaginar o estado da filha, e Itachi continuou no mesmo lugar, na mesma posição, praticamente imóvel diante de toda aquela informação – que parecia pesar uma tonelada.

— Temos uma equipe muito competente, senhores. – Ele se obrigou a adicionar, e Sakura anuiu veemente.

— O doutor tem razão, Itachi-san. Por favor, tente se acalmar... Ainda vai ter que ir lá embaixo assinar mais uma papelada.

— Eu não posso entrar? – Itachi interrompeu a ex-cunhada, quase como se não pudesse ouví-la. – Posso, não posso?

O médico pareceu hesitar.

— Eu sinto muito, senhor Uchiha. Mas não. O senhor está muito nervoso, e não posso permitir que interrompa ou interfira durante a cirurgia. – Ele foi sincero. – Eu sei que é sua filha, sua esposa, compreendo seus sentimentos... Mas é principalmente pelo bem delas que preciso que tudo dê certo.

Os lábios de Itachi formaram uma linha reta.

— Sakura não pode ir?

Nenhum deles tinha reparado que Sasuke tinha se aproximado, até ele falar.

Sakura estava prestes a retrucar, dizendo que não era necessário, mas calou-se quando viu o doutor dar de ombros. Sasuke pareceu aliviado, e o tal médico a olhou pelo canto do olho, as sobrancelhas levemente arqueadas.

— Desde que não interfira. – Avisou num tom de alerta.

— N-Naturalmente!...

Ele voltou a olhar para Itachi, que não parecia satisfeito, mas ao menos estava de volta a si.

— Precisa ir à recepção pra assinar a papelada, senhor Uchiha.

Quando o irmão de Sasuke finalmente concordou, tanto o doutor quanto Sakura se despediram, e os Uchihas presentes finalmente os viram se afastar para mais uma vez entrar pelas portas que não podiam ultrapassar.

~

Madara não conseguia dormir... Estava muito perturbado para isso.

Tinha que admitir: ficara muito satisfeito quando saiu do restaurante naquela tarde. Era inegável o fato de que tinha se divertido muito com as caras e bocas de Hiroto, que fora deixado para trás confuso, perdido e ferrado.

Mas em algum momento no caminho entre aquele restaurante e seu escritório dentro da mansão Uchiha ele começou a se sentir estranho... Em algum momento durante o fim da tarde, ele se lembrou de Kasumi, de suas expressões e das poucas palavras que tinham trocado naquele restaurante, e começou a se sentir mal.

Culpado, para ser mais exato.

Ele sabia que não conhecia Kasumi Aihara. Logo, não poderia adivinhar suas reações, mas por alguma razão, imaginava que ela aguentaria melhor. Todos diziam que era durona, afinal... Ossoduro, cabeça-dura, teimosa.

Ele esperava raiva, ódio, fúria... Mas não tristeza e frustração.

Pelo menos não tanta.

Por algum motivo que Madara não conseguia entender, a neta parecia considerar que ele tivesse armado toda aquela situação para humilhá-la – como se ele não tivesse mais o que fazer!... E Madara percebeu que, tal como qualquer Uchiha, o sentimento de humilhação a havia deixado ainda pior do que o de traição que devia ter sentido ao ouvir a conversa de Hiroto.

Madara sinceramente tinha bons motivos para armar aquele encontro. Queria que a filha de Obito conhecesse a verdadeira face do velho Nohara, que enxergasse o quanto havia sido injusta com Itachi, e o quanto estava se deixando enganar, e apesar de seu plano parecer ter tido um sucesso estrondoso – afinal, até onde ele sabia, Itachi ainda não tinha voltado para casa –, não se sentia nem de longe satisfeito.

“Um erro enorme, do qual se arrependia amargamente”... Desde quando Madara Uchiha pensava daquela forma?... Desde quando tinha arrependimentos? Desde quando falava sobre seus arrependimentos?

Madara sinceramente não tinha planejado tentar justificar seus atos do passado. Por mais que suas palavras fossem verdadeiras, elas nunca tinham passado por sua cabeça até aquele momento, quando os olhos sôfregos de Kasumi se fixaram nos seus.

Por que tinha se desculpado?...

Aquilo sequer era uma desculpa? Ele nem sabia responder.

Com o passar da noite, as memórias de Obito, Rin, Kaede e os Nohara começaram a atormentá-lo. Ele lembrou-se de tudo, e imaginou como tudo poderia ter sido diferente se ele tivesse tentado confiar nos sentimentos do filho...

Perguntou-se se Kasumi teria gostado de ser sua neta, se ele tivesse permitido.

Perguntou-se se ele teria gostado de ser seu avô.

Perturbado demais com seus próprios pensamentos, e completamente consciente de que não conseguiria dormir tão cedo, ele se levantou, e decidiu ir para o escritório dar uma olhada nas pastas com relatórios que Zetsu trouxera mais cedo.

Ele não estava no comando da Uchiha oficialmente, mas nunca conseguiria deixar a empresa de lado.

— E Kasumi?...

Madara ouviu a voz do filho perguntar, e sentiu-se como se um tiro o tivesse atingido em cheio. Levou quase meio minuto para se recompor, e perceber que não podia ser uma indireta ao seu pensamento, já que Fugaku dificilmente tinha aprendido a ler mentes.

Ele notou que a voz do filho vinha do escritório, onde provavelmente buscava um pouco de privacidade para falar ao telefone.

— Como ela está?

O escritório de Fugaku ficava no mesmo corredor que o de Madara, mas eles nunca topavam um com o outro nem durante o dia, já que Fugaku preferia trabalhar na empresa – ele não gostava da ideia de trazer o trabalho para casa.

Em geral, o filho usava o escritório para emergências, quando não queria nem podia ser interrompido, ou precisava de privacidade. E embora Madara sempre tivesse respeitado muito o espaço de Fugaku, dessa vez não conseguiu evitar: aproximou-se da porta entreaberta do escritório e ficou ali, calado e imóvel, tentando absorver o que podia da conversa e torcendo para que aquela ligação trouxesse boas notícias.

— Deixei sua mãe dormindo... Ela está bem, está medicada... – Ele suspirou longamente, cansado. – É claro que eu não vou falar nada para ela, Itachi...

Madara pôde ouví-lo sentando-se na cadeira.

— Ela já foi para a cirurgia?

Cirurgia?... O rosto de Madara ficou vermelho.

— Certo... Tente se acalmar, meu filho. Passamos por algo parecido com Sasuke, embora você não saiba, e ele está aí, não está? Firme e forte. O mesmo vai acontecer com Akane, você vai ver.

Fugaku voltou a se levantar e seguiu até o pequeno bar no canto da sala; serviu um drinque enquanto ouvia o filho e tentou soar calmo quando o respondeu.

— É claro que nós vamos... Sabe que queria estar aí, não sabe?... Mas não posso chegar aí com seu tio desavisado. Também não quero deixar sua mãe sozinha... Como estou ficando em casa, ela pode desconfiar.

Ele bebeu um gole do drinque, e embora estivesse absolutamente nervoso, soou tranquilo e paciente.

— Itachi, converse com eles primeiro... Com Kasumi, principalmente. Tenho certeza de que ela vai entender seus sentimentos, e tenho certeza de que seu tio vai respeitar a vontade dela. Acalme-se... Deixe-me falar com Sasuke um pouco.

Sem conseguir controlar a paciência, Madara entrou no escritório. E apesar de Fugaku estar no bar, virado na direção da porta, ele não pareceu notá-lo.

— Sasuke, preciso que fique com seu irmão, entendeu?... Sei que seus tios estão aí, mas... – Fugaku suspirou e coçou a testa com a mesma mão que segurava o copo. – Só fique aí, por favor... Sei que seu irmão não vai conseguir, então peço a você: por favor, me avise assim que tiver notícias. Qualquer notícia, entendeu?... Obrigado, filho. Vai dar tudo certo.

E ele desligou. Foi só então que Madara conseguiu encontrar a própria voz.

— O que aconteceu?

Ele não soou nervoso nem desesperado; na verdade, quase soara desinteressado.

Fugaku o olhou de canto, bastante surpreso. Então balançou a cabeça e tomou um gole – dessa vez um gole gordo – do drinque.

— Kasumi passou mal, foi levada para o hospital... Devem estar começando a cesárea agora.

Madara sentiu um bolo na garganta.

— Parece que a médica estava suspeitando que ela tivesse pressão alta, algo assim, mas ela tem faltado a consultas desde que Itachi saiu de lá. – Fugaku desabou na cadeira e baixou a cabeça, desolado e com os olhos cheio de culpa. – Mesmo assim... Obito disse que ela estava bem de manhã...

Madara não conseguiu dizer nada.

Estava paralisado.

— É tudo minha culpa... – Fugaku murmurou, negando com a cabeça enquanto dizia. – Eu não devia ter me envolvido... – Um suspiro alto, longo e lamentoso soou de seus lábios. – Não devia ter ido lá... Não devia ter permitido que brigassem por causa daquelas pessoas. Devia ter me imposto mais, aconselhado melhor o meu filho...

Madara caminhou lentamente até a cadeira à frente da mesa do filho. Estava desconsertado, e sentia-se... Francamente, não sabia o que sentia. Era como se seu peito tivesse ficado oco de uma hora para a outra.

— Pobre Itachi... – Fugaku cerrou os olhos. – Eu sei como é infernal ver um filho nascer antes da hora... Sei como ele deve estar desesperado nesse momento. E tudo isso poderia ter sido evitado se eu não tivesse interferido... – Ele se lamentou.

Madara suspirou longamente.

Puxou o copo do filho e roubou um gole da bebida.

— Não é sua culpa, Fugaku. Nem sua, nem de Itachi. – Ele murmurou baixo, com um tom de voz sombrio. Sequer conseguia erguer o rosto para olhar nos olhos do filho, mas ainda assim conseguiu confessar: — É minha.

~

Akane Uchiha nasceu às 00h15m de 23 de julho, numa madrugada de domingo.

Pequena, cabeludinha e absolutamente adorável, a filha de Itachi e Kasumi fez a mãe chorar horrores ao ser apresentada com seus pouco mais de 1,7kg, ligeiramente suja com sangue e chorando com uma vozinha fraca e irritada.

Akane foi devidamente cuidada e examinada, e tão logo quanto possível, as enfermeiras a encaminharam para uma das incubadoras na UTI neonatal.

A cirurgia havia sido tranquila e sem maiores complicações, nem para a mãe, nem para a filha, e o médico não quis se estender: depois de terminar seu trabalho, assim que se sentiu recomposto, pediu para Sakura acompanhá-lo para levar as notícias para os Uchiha.

Apesar de saber que Akane ficaria internada, ouvir da boca do médico que a filha continuaria numa incubadora por tempo indeterminado foi difícil, e o fez se sentir culpado, inútil e impotente.

— Mas... Ela vai ficar bem, não vai?

Foi Sasuke quem conseguiu perguntar.

Sakura tentou sorrir, e o médico anuiu lentamente.

— O quadro não é ruim. Os primeiros exames foram bons, ela tem um bom peso pra idade... Não acredito que vá passar por muitas complicações. Sei que é difícil para a família, mas tentem ser positivos. A presença de todos vocês vai ser muito importante, tanto para a criança quanto para a senhora Uchiha.

Sasuke anuiu lentamente, compreendendo.

— Ela está sendo muito bem cuidada. – Sakura afirmou com o máximo de ânimo que a situação permitia. – Assim como Kasumi-san.

Itachi respirou fundo e voltou a olhar para o rosto do médico.

— Eu posso vê-las?

— É claro. – O doutor assentiu. – Vou levá-lo para ver a sua filha primeiro, depois vamos para o quarto de sua esposa.

— Meus tios não podem ir vê-la enquanto isso? – Sasuke sugeriu.

O médico estreitou os lábios.

— Melhor evitar a agitação... Talvez amanhã.

Sasuke tentou insistir, mas foi impedido pelo próprio Obito.

— Vamos esperar o tempo necessário. – Ele garantiu. – Vá, Itachi.

Itachi assentiu, e seguiu o médico com a postura tensa e passos nervosos. E tão logo ele desapareceu pela porta, Obito se aproximou de Sakura.

— Você estava com elas, não é? Como Kasumi está?... O médico não disse quase nada sobre ela, então imagino que nada tenha dado errado, mas mesmo assim...

Sakura sorriu e afagou os braços do tio de Sasuke.

— Está tudo bem, Obito-san. Ela está acordada, mas exausta. Precisa descansar... Mesmo que ele tivesse deixado que fossem vê-la agora, provavelmente a encontrariam dormindo. Kasumi-san estava bem nervosa quando Akane saiu, então devem tê-la medicado.

— Mas...

— Ela está bem. – Sakura garantiu. – Assim como o doutor falou, a cirurgia foi tranquila. Eles não tiveram mais complicações... Amanhã ela deve estar melhor, mais disposta. Vê-la agora pode só deixá-los mais ansiosos.

Obito engoliu em seco.

Só de imaginá-la dormindo numa cama de hospital era frustrante.

— Talvez vocês devessem voltar... Acredito que vão deixar Itachi-san ficar no quarto com a esposa, mas só um acompanhante é permitido por paciente. Não vamos ter onde acomodá-los.

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Sasuke suspirou, coçou a nuca e negou.

— Sabe que ninguém vai sair daqui.

— Sakura-san. – Rin finalmente se pronunciou.

Ela se levantou sem a ajuda da bengala e se aproximou lentamente, mancando um pouco, mas recusou a ajuda quando o marido ofereceu-se.

— Não conseguiríamos dormir nem se quiséssemos... – Ela tinha um sorriso penoso no rosto, mas seu tom de voz era suave e gentil. – Acha que alguém se incomodará se ficarmos por aqui?

Sakura negou.

— É claro que não... Mas a senhora, principalmente, precisa descansar.

Rin negou, e seu sorriso tornou-se doce.

— Obrigada pela preocupação, mas eu vou ficar.

A rosada suspirou diante da teimosia dos Uchihas, mas a verdade é que não esperava menos de Obito e Rin. Ela virou-se para Sasuke e sentiu-se nervosa por sentir um comichão no estômago ao notar que ele a encarava.

— Arrume alguma coisa para comerem, pelo menos. A cantina daqui já fechou, mas tem alguns fast-foods 24h perto do hospital.

Foi só quando ela disse que Sasuke se deu conta de que não tinha comido nada além de duas torradas no café da manhã.

— Tem uma máquina de café naquele corredor. – Ela apontou com a cabeça, indicando o local. – Vou ajudar no plantão hoje, se precisarem de qualquer coisa é só me dar um toque.

Sasuke anuiu.

— Obrigada, Sakura-san. – Rin se aproximou e a envolveu num abraço carinhoso, que fez Sakura enrubescer como um tomate. – Pela preocupação, pela atenção, pelos cuidados... Muito obrigada.

~

Kasumi estava meio grogue quando Itachi finalmente chegou ao quarto, mas ainda assim sorriu diante a imagem do marido. Mesmo que ele estivesse com a cara de limão azedo que fazia quando estava irritado, era muito bom saber que não estava sozinha.

— Você a viu?... – Ela perguntou baixo; sentia-se exausta.

Itachi assentiu.

Foi horrível ver sua primeira filha presa dentro de uma incubadora, mas ao mesmo tempo, tinha sido simplesmente maravilhoso finalmente conhecê-la... Finalmente ver o rostinho daquela coisinha tão amada e esperada.

— Ela é... Tão pequenininha... – Ele não conseguiu não sorrir.

Kasumi estendeu as mãos em sua direção, e ainda que Itachi estivesse furioso pela negligência que a esposa demonstrara durante sua ausência, não resistiu: se aproximou, enlaçou os dedos aos dela e pousou os lábios sobre sua testa.

— Ela está bem?... – Mesmo cansada, ela estava claramente ansiosa.

— É você que não parece bem. – Ele observou, e se afastou para ter uma visão melhor da esposa.

Kasumi parecia ter voltado dos mortos: estava molenga, pálida, com os olhos inchados e olheiras abaixo deles. O nariz estava ligeiramente vermelho, mas Itachi imaginou que se devesse ao choro.

— Itachi...

— Os médicos disseram que ela está bem, Kasumi. Imagino que seja verdade.

Ela assentiu lentamente, tentando decidir se acreditava ou não naquilo.

— Eu devia me sentir aliviada... Mas não consigo.

Itachi sentou-se ao lado dela na cama.

— Imagino que nenhum de nós vai conseguir, até levá-la para casa.

Ele alisou as faces da esposa carinhosamente, e a fitou com intensidade.

— Por que matou as consultas?

Ela hesitou, mas por fim deu os ombros.

— Kasumi...

— Eu não sei... – Ela murmurou. – Estava ocupada.

— Devia estar ocupada com o pré-natal.

Ela suspirou longamente.

— Vamos mesmo discutir isso agora?

Itachi sabia que se não discutisse isso agora, provavelmente desistiria de discutir depois. Mas Kasumi estava exausta, dolorida e preocupada, então imaginou que talvez realmente pudesse deixar esse assunto de lado.

— Seus pais estão aí, mas o médico não deixou que viessem.

Ela anuiu.

— Melhor... – Ela fez uma careta. – Meu pai ia ter um ataque se visse minha cara agora. E minha mãe ia começar a chorar.

Ambos sorriram.

— Tente convencê-los a ir dormir.

— Sabe que não vou conseguir...

— Mas pode tentar.

Ele suspirou e negou com a cabeça. Era impressionante como ela conseguia ser teimosa, mesmo nos momentos mais difíceis. Sentiu-a puxar seu braço, e ergueu os olhos até o rosto dela, que o encarava.

— Você está bem? – Ela quis saber.

Os lábios de Itachi se estreitaram.

Você está bem?

Ela deu os ombros.

— Um pouco mais aliviada... – Confessou. – Digo, é claro que estou cansada... Mas eu acabei de parir uma criança. – Ela deu um sorrisinho zombeteiro. – Você parece que vai vomitar, e nem viu o parto.

— O médico não me deixou entrar. – Ele sentiu como se precisasse se justificar.

Kasumi anuiu.

— Sakura me contou... De qualquer forma, você parece péssimo. – Ela puxou a mão dele suavemente, e depositou um beijo carinhoso na parte interna do pulso de Itachi. – Devia comer alguma coisa e deitar um pouco.

Itachi não disse nada. Por um longo instante ficou ali, parado, em silêncio, simplesmente olhando na direção dela, com os olhos negros tão intensos e profundos que Kasumi se sentiria constrangida se não estivesse tão cansada.

— Você quase me matou de susto. – Ele foi sincero, e finalmente desviou o olhar. – Eu pensei que... Pensei...

Ele não conseguia verbalizar aquilo.

Quando a encontrou lá, encolhida no chão, cheia de dor e de agonia, pensou em tudo, ao mesmo tempo em que seu cérebro parecia ter parado de funcionar.

— De manhã tudo parecia certo... – Ele balançou a cabeça. – Como isso pôde acontecer?... Seus pais também te acharam normal.

Kasumi não podia ter certeza, mas tinha um ótimo palpite sobre o que desencadeara tudo aquilo. Mesmo assim, deu os ombros e negou com a cabeça.

— Eu não sei...

Sua mentira soou tão natural que ela quase acreditou.

Ela não queria falar disso... Não conseguiria falar disso. Sabia que se falasse de Madara, Itachi ficaria furioso com o avô e com ela, que mesmo sabendo que o encontro poderia não dar certo, insistira.

— Tinha sentido algumas dores de manhã, mas achei que fosse normal. Digo, dizem que é normal sentir dores quando o bebê se mexe, e Akane sempre foi bem agitada, então... – Ela deu os ombros. – Acho que me enganei. Quando vi, as dores estavam insuportáveis...

— O médico acha que algo a estressou.

Kasumi deu mais um de seus sorrisos zombeteiros, e o olhou de rabo de olho.

— Tudo me estressa. – O lembrou.

Itachi não acreditou em uma palavra dela, e percebeu que Kasumi continuaria naquele jogo para sempre. E embora quisesse muito colocá-la contra a parede, decidiu que não devia prosseguir com seu interrogatório por enquanto.

Não era o momento, afinal.

Ele suspirou longamente. Estava tão cansado... Tão irritado... Tão furioso!... Com ela, com a situação e principalmente consigo mesmo. Não conseguia parar de se perguntar se a situação teria sido diferente se ele não tivesse saído de casa... Se ele continuasse com a esposa, Kasumi iria a todas as consultas agendadas; se ficasse com ela, ele insistiria para que se cuidasse melhor, e não permitiria que fizesse qualquer esforço ou passasse por qualquer stress.

Se estivesse ao lado dela... Talvez pudesse ter ajudado antes.

Talvez Akane ainda estivesse segura dentro do ventre da mãe, ao invés de uma incubadora que só trazia incertezas para seu futuro.

— Desculpe por isso, Itachi... – Ele a ouviu dizer; quando ergueu o rosto, viu que ela estava se ajeitando na cama, sentando-se para ficar mais perto dele. – Desculpe e obrigada. Eu... Eu realmente não tenho nem palavras para agradecer...

Ela puxou as mãos dele e beijou cada uma delas, cheia de amor e gratidão.

— Não tenho como descrever o quanto fiquei aliviada quando vi vocês lá...

Itachi negou com a cabeça, e voltou a alisar o rosto dela com os dedos.

— Não fiz mais do que a minha obrigação. – Lembrou-a.

Kasumi sorriu.

— Pode ser, mas seu irmão... Ele não pode vir aqui, então, por favor... Por favor, diga a ele o quanto eu sou grata. O quanto eu sou eternamente grata por ele vir com você, por nos trazer pra cá, por tentar me acalmar no carro... Mesmo depois de tudo...

As sobrancelhas dela estreitaram e seus lábios formaram uma linha reta.

— Não pense nisso, amor. – Itachi se aproximou mais e beijou a cabeleira castanha. – Tudo vai se acalmar agora, você vai ver... Meu irmão é cabeça-dura, mas sabe separar as coisas. Tenho certeza de que quando conversarem, vão se acertar.

Os olhos castanhos se ergueram, tímidos e chorosos na direção do marido.

— Nós também? – Ela perguntou baixinho, num murmúrio envergonhado.

Itachi pareceu refletir por um instante, e então se aproximou, e sem mais nem menos, selou os lábios dela num beijo doce, cheio de saudades, que Kasumi retribuiu timidamente, sentindo-se como uma adolescente boba e apaixonada.

Ele se afastou pouco depois, e encostou a testa na dela.

— Eu amo você, Kasumi... Eu entendo os seus problemas, entendo seus sentimentos, mas você também tem que entender os meus. Meu irmão, meus pais... Meus pais são... – Os lábios dele se estreitaram; não conseguia pensar em palavras que descrevesse o quanto sua família era importante.

— Eu sei, eu sei... – Kasumi alisou o rosto dele com ambas as mãos. – Desculpe, querido... Eu fui tão idiota... – Ela roubou mais um beijo. – Tão, tão idiota... Por mais que eu tenha problemas com seus pais, com sua família, eu não...

Ela balançou a cabeça, perturbada.

— E o Sasuke, por Deus... Ele é como um irmão para mim. Sempre foi. Você sabe disso, não sabe?... Sabe o quanto eu o amo.

Itachi assentiu lentamente.

— O que quero que entenda é... Eu não consigo abrir mão da minha família por você. Não posso fazer isso. Não é como seus pais, Kasumi... Por mais intrometida que minha mãe tenha sido a vida inteira, ela nunca tentou me proibir de nada. Por mais expectativas que meu pai tivesse sobre mim, ele nunca me obrigou a nada, nunca nem tentou isso. Eu não posso...

Ela o calou, tapando os lábios com dele com seus dedos.

— Tudo bem. – Seus olhos estavam apertados quando ela disse. – Eu sei... Eu sei. Eu só estava com raiva, e agi feito uma imbecil... – Quando voltou a olhar para ele, tinha o rosto ligeiramente corado. – Não vou proibir seus pais de verem Akane, Itachi... Não poderia nem que quisesse. Você é o pai dela, e um pai maravilhoso... Um pai, um marido... Uma pessoa maravilhosa. Eu lamento tanto ter te magoado...

Itachi suspirou.

Pelo menos tinha a resposta para a discussão sobre a visita de seus pais à Akane.

— Chega disso... Não vamos conversar sobre coisas ruins, ok? Só... Descanse.

~

Sakura sabia que devia voltar para casa, mas não conseguiu.

Ela sabia que pelo menos devia ter tentado tirar uma soneca no escritório, mas tinha ficado quase uma hora deitada no sofá, olhando para o teto enquanto esperava o sono chegar, e seus olhos nem tinham pesado.

Ela ainda estava estática... Ainda estava nervosa, ansiosa.

Seu cérebro estava à todo o vapor.

Aquela era sua segunda noite seguida no hospital, e se não fossem as sonecas que tirara durante uma hora ou outra do dia, estaria virada há quase trinta horas. E ainda que Ino já tivesse mandado uma dúzia de mensagens preocupadas, exigindo que ela voltasse para casa, a verdade é que Sakura não conseguiria deixar os Uchihas sozinhos.

Itachi e Obito estavam tão desolados, tão perdidos... Rin parecia tão frágil quanto um vidro rachado, e Sasuke... Sasuke parecia como ela: tão preocupado e agitado que tentava correr para todos os lados procurando saber quem poderia ajudar.

Por mais que Sakura adorasse as pessoas com quem trabalhava, sabia que as enfermeiras e médicos em geral tendiam a ficar rabugentos durante os plantões, e podiam muito bem se incomodar com a família que insistira em ficar lá, mesmo quando lhes disseram que não era necessário.

Sakura olhou para o relógio pelo que parecia ser a décima vez desde que havia deitado, e contabilizou exatas duas horas desde a última vez em que tinha conversado com os Uchiha.

É claro que ela tinha avisado para ligarem se precisassem de alguma coisa – o que não tinha acontecido ainda –, mas ela estava agitada demais para continuar deitada, então levantou com um pulinho energético, ajeitou as almofadas e deixou o escritório.

A primeira coisa que ela fez foi ir até Akane, porque sabia que Sasuke perguntaria da sobrinha quando a visse. E foi ali, parada na frente da incubadora, enquanto conversava com a enfermeira sobre a situação da pequena que Sakura finalmente percebeu: 23 de julho.

Ela tinha nascido na madrugada de 23 de julho.

Aniversário de Sasuke.

.

Sasuke não conseguia dormir.

Por mais que estivesse cansado, estressado e morrendo de dor no corpo por estar sentado há horas naquela cadeira horrível de hospital, ele simplesmente não conseguia pregar os olhos.

Esticou-se na cadeira e olhou para os tios discretamente, pelo canto do olho, e ficou frustrado ao perceber que tanto Obito quanto Rin conseguiram dormir, afinal de contas. Estavam encolhidos na cadeira, encostados um ao outro; Rin estava encoberta pelo sobretudo de Obito e encolhida no braço do marido, que a envolvia.

Ele bufou, desacreditado.

Será que era o único que não conseguia apagar?

Foi então que se lembrou que ambos os tios tinham sido medicados durante a cirurgia de Kasumi. Aquilo não pareceu ter tido muito efeito durante a cirurgia, mas Sasuke imaginou que podia explicar seu sono repentino agora, já que as coisas estavam mais calmas desde que Itachi conversara com os sogros.

Ele estreitou os lábios.

— Melhor do que ficarem choramingando... – Murmurou.

Ele paralisou quando viu Sakura se aproximar dos tios.

Não fazia ideia de onde ela tinha vindo, mas Sakura trazia consigo mantas e travesseiros, que deixou de lado numa das cadeiras perto dos tios enquanto os encobria com uma das mantas.

Assim que ela pareceu se virar em sua direção, Sasuke fechou os olhos e tentou simular a dormência. Mas Sakura já tinha dormido com ele, afinal... E perdera as contas das vezes o quanto tinha velado seu sono, então pôde perceber facilmente a farsa do antigo namorado.

Ela revirou os olhos, sorriu de canto e aproximou-se com a manta e um dos travesseiros. Encobriu Sasuke com menos cuidado do que havia feito com os outros Uchihas, e diferente de Obito e Rin, ela ajeitou o travesseiro no pescoço do ex, que fez uma careta e abriu os olhos.

— Não devia ter cuidado?... – Ele resmungou.

Sakura sorriu e sentou-se ao lado dele.

— Não estava dormindo.

Sasuke suspirou; ajeitou-se na cadeira e remexeu os ombros até senti-los estalar.

— É verdade.

Um silêncio incômodo se formou entre eles, e Sakura se sentiu subta e inexplicavelmente constrangida.

— Quer alguma medicação? Pode ajudar... A dormir, quero dizer.

— É claro que não. – Ele negou e fez uma careta. – Já bastam eles. – Apontou para os tios usando a cabeça. – Alguém tem que ficar acordado para qualquer emergência.

Sakura anuiu lentamente.

— Claro... Os médicos, talvez. Mas vocês... – Ela deu os ombros. – Nem vão saber se houve uma emergência até eles quiserem que saibam.

— Meu irmão está lá dentro. – Ele a lembrou. – Se ele aparecer chorando, eu vou estar aqui para ele.

A intenção de Sasuke era fazer com que aquilo soasse como uma piada, mas como era uma verdade inegável, nem ele conseguiu ver graça. Sakura pareceu pensar nisso, e virou-se na direção de Sasuke com aqueles grandes olhos verdes cheios de seriedade, numa expressão tão profunda que fez os pelos da nuca do Uchiha se eriçar.

— Nada vai acontecer. – Ela garantiu suavemente. – Elas estão bem assistidas.

Sasuke deu os ombros, porque realmente não tinha o que falar.

— Você comeu?

— Claro...

Sasuke havia comido metade de um lanche, mas Sakura não tinha pedido detalhes... Ele estava pensando nisso quando ela olhou para o saco de fast-food jogado na cadeira ao lado de Sasuke.

Ela estreitou os lábios, levantou-se e depois de puxar o pacote da cadeira, tirou o lanche meio-comido e exibiu-o a Sasuke com as sobrancelhas estreitas e uma expressão cheia de censura.

E por mais ridículo que aquela cena fosse – talvez exatamente por ser tão ridículo –, ele sorriu.

— Desculpe, mamãe. Eu tinha que comer tudo?

Sakura suspirou e entregou o pacote para ele.

— Sim, tinha. Já bastam duas no soro.

Sasuke negou com a cabeça, guardou o lanche e deixou de lado mais uma vez.

— Sasuke-kun...

— Não consigo. – Ele foi sincero, e quando voltou a olhar para ela tinha os olhos tão límpidos e intensos que ela sentiu as irritantes borboletas se revirando em seu estômago. – Eu sinto uma vertigem a cada mordida, não consigo.

Ele deu os ombros como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Já disse que elas estão bem... Agora você precisa ficar também, não acha? Tenho certeza de que fez seus tios comerem, porque não pode fazer isso por si mesmo?

Sasuke suspirou, encostou a cabeça na parede e olhou para o teto.

— Não sei... Talvez seja a culpa...

Sakura não conseguiu entender.

— É tudo minha culpa, sabe... Ela ficou assim porque faltou às consultas, não é? Se meu irmão estivesse em casa, ele não a deixaria fazer isso. E se eu e Kasumi não tivéssemos brigado aquele dia, tenho certeza de que ele não teria ido embora.

— Sasuke-kun...

— Ah... Eu sou um imbecil... – Ele se encolheu na cadeira e escondeu o rosto com as mãos. – Sou um imbecil intrometido. Não devia ter dito nada... Ela estava grávida, e o idiota tinha que brigar com ela, não é? Mesmo sabendo o quanto Kasumi é teimosa, eu tinha que falar com ela daquele jeito...

Sakura suspirou.

— Sasuke-kun... – Ela tocou seu ombro de maneira consoladora. – Eu realmente acho que não devia ter discutido com ela, mas... Não é culpa sua. Sabe que ela teve uma gravidez perturbada. Todos sabem.

— E mesmo assim ela não demonstrou nenhuma complicação durante a gravidez.

— Isso não é verdade... Ninguém fica hipertenso de uma hora para a outra. Foi um problema que cresceu gradativamente, e se agravou com o descuido da Kasumi-san.

Sasuke balançou a cabeça.

— Meu irmão saiu de casa por minha causa... Se ele estivesse lá, jamais permitiria nada disso. É minha culpa.

Sakura estreitou os olhos, sentou-se ao lado dele mais uma vez e segurou o antebraço de Sasuke e deu um aperto suave.

— Sasuke-kun...

Ele deu os ombros, sorriu e voltou a olhá-la de canto.

— Vou continuar dizendo que é, e você vai continuar dizendo que não é. No fim, essa discussão não vai dar em nada, então não precisa insistir... Você deve estar ocupada, não é?

Ela corou um pouco.

Não tinha nada para fazer. Nem era seu dia de plantão!

— Bem... O movimento é bem calmo de noite. – Ela tentou contornar. – Achei que vocês gostariam de umas mantas. O hospital é bem gelado a noite... Vim pra ter certeza de que não precisavam de nada, e ia aproveitar para tomar um café.

Ele anuiu lentamente. Lembrava-se de ter uma cafeteira no escritório que Sakura – e provavelmente os demais residentes – usava, mas achou que não devia apontar esse detalhe.

— Você viu minha sobrinha?

Ela sorriu e assentiu.

— Como ela é?

Sakura fez uma careta, estreitou os lábios e fez um beicinho pensativo. E então, ignorando Sasuke completamente, ela puxou o celular de um dos bolsos por baixo do jaleco, e começou a digitar qualquer coisa.

Sasuke estreitou os olhos.

— Isso não foi muito educado.

Ele teve que observar, mas ela deu os ombros.

Sasuke ia discutir, mas não demorou nem cinco segundos para sentir o celular vibrar no bolso. Ele suspirou, puxou o aparelho e estreitou as sobrancelhas ao ver que Sakura era a remetente da mensagem. Olhou para ela de canto, com os olhos tão desconfiados que ela segurou uma risada.

Ele balançou a cabeça, desacreditado, e abriu a mensagem, realmente curioso.

Sentiu o coração pesar quando viu que ela tinha mandado um arquivo, e seu peito explodiu ao ver a sobrinha pela primeira vez.

Ela era um pedacinho de gente dentro de uma caixa transparente. Era vermelhinha, pequenininha e com cabelos negros cheios. De fato, parecia ter mais cabelo do que cabeça.

E mesmo que esparadrapos e canos pequenos parecessem rodeá-la por todos os lados, Sasuke soube que era a garotinha mais adorável que já tinha visto na vida, e se apaixonou.

Naquele momento, ele percebeu que sua vida seria impossível.

— Ah, meu Deus... Eu realmente sou tio de uma menina...

Ele se se encostou à cadeira, sorrindo completamente embasbacado.

Sakura se aproximou – não conseguiu evitar.

— Você nem percebeu, não é mesmo? – Ela murmurou, e foi só quando se virou na direção dela que Sasuke conseguiu perceber o quão perto estavam um do outro... Os rostos, os lábios...

Estavam tão próximos que ele podia sentir a respiração calma dela. E por um segundo, ele sentiu seu cérebro parar de funcionar.

— Feliz aniversário, Sasuke-kun. – Sakura sussurrou, sorrindo timidamente.

Ela parou de respirar quando o sentiu encostar a testa na sua.

— Obrigado. Por isso... – Ele ergueu o celular. – Pelo telefonema mais cedo... Por cuidar dos meus tios, dos meus irmãos... De mim... Por se preocupar...

Ele apertou os olhos.

— Só... Obrigado.

— Qualquer um faria isso no meu lugar... – Ela murmurou baixinho, mas Sasuke negou, e agradeceu mais uma vez.

Sakura quis diminuir a distância, mas não pôde. Não conseguiu.

Tudo tinha acontecido rápido demais. Tinha sido um dia agitado, estressante... Mas por mais que durante o tempo inteiro eles tivessem agido como se nada tivesse acontecido, não era como se realmente não tivesse acontecido.

— Desculpe por ter sido grosseiro com você naquele dia. – Ele voltou a falar, e abriu os olhos para encarar os olhos verdes. – Eu só...

Sakura desviou os olhos e se afastou.

— Tudo bem... Uma hora ou outra, vamos ter que superar essa briga, não é?

Sasuke não a respondeu; continuou no mesmo lugar, olhando para ela com tanta intensidade que, mesmo sem olhar diretamente nos olhos dele, Sakura conseguia sentí-los sobre ela.

— Se não for assim, não vamos poder superar, não é? – Tentou continuar, ainda sem olhar para ele. – Acho que só consegui perceber isso hoje... – Ela baixou os olhos e encarou as próprias mãos. – Vamos só... Deixar de lado e seguir em frente, cada um do seu jeito.

— Sabe... Eu não sei o que fiz com a Karin àquela noite. – Ele falou de repente, e ela sentiu o coração ser esmagado. – Não me lembro de nada, mas quando ela me disse que nada tinha acontecido, eu simplesmente acreditei.

Ele deu os ombros.

— Não acho que ela seja o tipo de garota que mentiria para agarrar um homem, mas ela também não diria a mentiria para ajudar com a minha consciência, então imediatamente supus que ela devia estar falando a verdade.

— Sasuke-kun...

Sakura sinceramente não queria falar sobre aquilo. Não de novo... Não agora.

Sasuke levantou-se da cadeira, colocou-se em frente à Sakura e se agachou à altura do rosto dela, que mais uma vez desviou-se dos olhos negros.

— Não quero falar disso. – Ela esclareceu.

— O que quero dizer... É que eu entendo seus sentimentos. Sua desconfiança, sua vontade de seguir em frente... Eu entendo tudo isso. Pelo menos agora, realmente entendo. E por mais que tudo isso tenha me chateado... – Ele deu os ombros. – Talvez você esteja certa em não querer confiar em mim.

Tomando coragem, Sakura ergueu os olhos até os dele.

— Eu não vou pedir pra você voltar pra mim... Também não vou te perseguir, nem nada parecido. Se você quer se afastar, eu vou respeitar... Sinto muito não ter feito isso antes, mas agora... – Ele apertou as mãos dela de leve. – Eu prometo que vou fazer isso, certo? Mas em troca... – Um sorriso pequeno se formou os lábios dele. – Vamos tentar parar de querer matar um ao outro, ok?

Sakura hesitou, mas anuiu lentamente.

— Sabe... – Ele ainda não tinha se afastado. – Hoje... Hoje você fez tanto pela minha família que eu sinto que te devo a minha vida. – Ele confessou, sincero. – Eu... Eu estou tão grato... – Mais uma vez encostou a testa na dela. – E te amo tanto nesse momento que... – Ele riu, e olhou para ela de canto.

Os olhos de Sakura estavam fechados, apertados, e ela parecia lutar contra si mesma. Mas ela não o afastou, nem pediu para que ele se afastasse, mesmo depois da declaração, então Sasuke pensou que talvez pudesse conseguir.

— Por isso... Não fique zangada comigo, certo?... – Ele pediu suavemente. – Pode pensar nisso como um presente de aniversário. Ou como uma despedida, se quiser.

Sakura fungou. Parecia mesmo a ponto de chorar, mas nenhuma lágrima tinha escapado dos olhos fechados. Sasuke esperou... Esperou uma recusa, um pedido, um empurrão – qualquer coisa. Mas Sakura não conseguiu respondê-lo, ainda que soubesse o que estava por vir.

Então ele se aproximou, segurou o rosto pequeno entre suas mãos e roubou um beijo muito doce, suave e carinhoso.

Foi um roçar de lábios, apenas, muito curto, mas cheio de carinho.

— Obrigado...

Notas finais
Sendo bem sincera com vocês, ultimamente eu não tenho me sentido muito bem. Alguns de vocês sabem, faz uns três anos que eu ando passando por uns perrengues com meu pai e a família dele... Eu tenho me sentido depressiva, e provavelmente tenho depressão (não posso afirmar com certeza, porque nunca fui a um médico para ter um diagnóstico). O fato é... Essa doença é bastante complicada. Acho que ainda mais no caso de pessoas como eu, que são idiotas e não procuram ajuda. Por mais que eu venha tentando me reerguer todos os dias, a real é que tem horas que tudo desmorona de novo, e tudo o que eu quero fazer é sumir. Não falo isso pra preocupá-los, mas imagino que seja pra desabafar um pouco. E também para que vocês possam entender os motivos de eu atrasar. Minhas histórias são muito, muito importantes pra mim... E eu nunca vou desistir delas. Vou continuar tentando sempre, todos os dias, mas acho que nem sempre eu vou conseguir, e espero que entendam. Mesmo assim, eu vou continuar tentando, me esforçando de verdade pra trazer os capítulos pra vocês o mais rápido possível. Muito obrigada, gente... E me desculpem qualquer coisa. ~ Agora, falando do capítulo... Eu acho que coloquei tudo o que queria colocar. Até um pouco mais, já que tentei esclarecer algumas questões que leitores me fizeram e que não pude responder @_@ O capítulo ficou gigante, mas ficou do meu agrado. XD Acho que tiveram boas cenas e tentei desenvolvê-las o melhor possível. Tenho que confessar que a cena final não devia ser exatameente desse jeito, rsrs Às vezes fico impressionada como as histórias se escrevem sozinhas, porque por mais que eu planeje uma coisa, as vezes os personagens simplesmente aceitam ou não fazê-las! XD ~ Eu terminei de betar esse capítulo às 23h do dia 6/11, e vou postar assim que terminar de escrever minhas notas. Eu fiz o meu melhor, mas como as coisas tem estado agitada, e eu tenho estado muito molenga, talvez tenha deixado alguma coisa escapar, por isso, desde já peço desculpas por qualquer erro que o texto possa ter. Enfim... Espero ver vocês tão logo possível! Obrigada por tudo sz~