Notas iniciais
Yo! Aah, minhas crianças! Eu estou atrasada, não é? Eu sei, eu sei. Sinto muito por isso, mas as coisas estavam difíceis na minha cabeça x.x Como amanhã é o meu aniversário, espero que me perdoem sz~ Pois é! Tia Candy passou o último domingo dos 23 anos da vida dela terminando o capítulo, haha! Como foi beeem demorado de sair, eu tentei compensar em tamanho, espero que fiquem felizes por isso sz~ Enfim, fiquem com o capítulo, meus amores! Espero que curtam!

Capítulo 46 – Lacunas.

Fugaku sabia que não era um homem bom.

Ele era honesto, e tentava agir sempre da forma mais correta possível, mas sabia que tinha o egoísmo – e talvez até mesmo a prepotência – dos Uchihas impregnado até o fundo de sua alma.

A primeira vez em que percebeu o tamanho de seu egoísmo fora duas décadas atrás, no nascimento de Sasuke, quando ele finalmente pôde perceber que sua ausência era grande ao ponto de não conseguir enxergar a situação da própria esposa, que havia passado meses sofrendo sozinha e em silêncio.

Na época, Mikoto estava doente, consumida pela culpa que sentia pelo que fizera à Rin e a filha, e quando Fugaku descobriu o que se passava, já era tarde: não podia fazer mais nada além de tentar dar apoio à esposa.

Fugaku duvidou da palavra dos pais sobre a suposta morde da filha de Obito, e após alguns meses de uma sigilosa e discreta investigação, conseguiu descobrir a verdade sobre a sobrinha: descobriu que ela estava viva, num orfanato, e não moveu uma palha para dizer ao irmão.

Não moveu uma palha para ajudar sua sobrinha.

Foi a segunda vez que Fugaku percebeu o tamanho de seu egoísmo.

Os motivos dele eram muito diferentes do que Obito julgava: ele não havia feito aquilo pelos pais – é claro que não! – e muito menos pelo nome da Uchiha; tinha ficado calado por Mikoto, por Itachi e por Sasuke.

Porque por mais que Kaede e Madara Uchiha merecessem pagar pelo que haviam feito à família de Obito, Fugaku tinha plena consciência de que todos os crimes que tinham arquitetado cairiam na conta de Mikoto. E ainda que a esposa estivesse longe de ser inocente, ela não era nem de perto a maior responsável pela tragédia.

Pela própria família, Fugaku Uchiha abriu mão de fazer a coisa certa.

Pela própria família, ele simplesmente desistiu de juntar a família do irmão.

Ele sabia que sua atitude era egoísta, cruel e injustificável, sabia que aquela atitude iria contra todas as obrigações morais que ele tinha perante seu irmão, mas ainda assim, ele foi em frente. E sua vida não parou um segundo por causa disso.

Mikoto também se afastou de seus demônios: pelos filhos, ela tinha conseguido deixar de lado suas memórias de culpa, e por eles, seguiu sua vida como se nada daquilo tivesse acontecido. E por mais que o sentimento de culpa sempre estivesse ali, corroendo cada um deles, Fugaku e Mikoto seguiram em frente.

Depois de destruírem a vida de Obito, Madara e Kaede condenaram Suzuki.

Com medo de que a filha pudesse seguir os passos do irmão – e assim como Obito, perder-se da própria família –, Madara e Kaede resolveram casá-la com um homem que correspondesse às suas expectativas: Hiashi Hyuuga.

Ele era rico, de família poderosa e influente, mas Fugaku o conhecia: tinham estudado juntos, e ele sabia que o cunhado não passava de um mulherengo cafajeste, que com o passar dos anos só fez apagar a luz de sua irmã.

Suzuki abriu mão de seus planos e sonhos, e da irmã caçula barulhenta dos Uchihas, transformou-se na “esposa perfeita”: mal saía de casa sem a companhia do marido, e embora continuasse linda e doce, tornou-se polida e muito educada, discreta e extremamente reservada, mesmo perante sua família de sangue.

E Fugaku, mais uma vez, calou-se.

Madara e Kaede costumavam se gabar da grande união UchihaxHyuuga, e adoravam falar sobre o sucesso de Obito para os amigos nas festas e reuniões que freqüentavam. E por mais desprezível que tudo aquilo fosse para os ouvidos de Fugaku, com o tempo, ele sentiu seu coração esfriar.

O rancor, tão fervoroso na juventude adormecera dentro dele, e a frustração em relação aos pais aos poucos foi transformada em indiferença. Ele tinha a própria família com que se preocupar, afinal de contas, e aquilo era o que realmente o importava.

Por mais que quisesse acreditar naquilo, a verdade é que não tinha um só dia em que ele olhasse para os filhos sem se lembrar da filha de Obito. E por mais que aquilo doesse – uma dor física­, de puro arrependimento—, ele continuou se fazendo de cego, surdo e mudo, coisa que só serviu para aumentar mais o ódio que nutria por si mesmo.

Fugaku sabia exatamente onde a filha de Obito estava, e apesar de nunca ter tido coragem para saber quem era ela de fato— ainda que essa informação estivesse dentro de um envelope intocado, trancado em uma gaveta em seu escritório na empresa –, ele fez o que achava que podia fazer para ajudá-la.

Ele apadrinhou anonimamente a instituição em que a sobrinha vivia, e se tornou seu maior doador: financiou estudos e eventos; enviou dinheiro, roupas e suprimentos e tentava ser solícito a qualquer necessidade das meninas de lá.

Ainda assim, não era o suficiente.

Quando Kasumi alcançou a idade ideal, ele ofereceu sete bolsas de estudos para o exterior, e apesar de se sentir aliviado quando seu secretário o avisou que a garota tinha conseguido uma delas, ainda não era o bastante.

Nada, jamais seria o bastante.

Descobrir que Kasumi era a filha de Obito foi uma surpresa, mas também um alívio. O medo da retaliação do irmão ainda estava lá, vívido e latente dentro de Fugaku, mas era uma verdadeira libertação saber que Obito sabia que a filha estava viva.

O casamento de Kasumi e Itachi, e a notícia da gravidez tinham sido as informações mais difíceis de processar em sua vida, mas Fugaku chegara à conclusão de que talvez esse fosse um tipo de castigo divino para os seus pecados: agora ele tinha uma filha e uma neta, mas jamais poderia se aproximar delas de verdade.

Era quase irônico o fato de que Itachi literalmente viveria ao lado de Obito e Rin ao invés de seus próprios pais, mas Fugaku realmente já tinha aceitado isso, quando se deparou com a informação de que a nora havia se envolvido com os Nohara.

Descobrir que os Nohara – que eram tão podres, se não mais do que os próprios Uchihas – estavam se aproveitando de Kasumi era quase uma afronta. Fugaku se sentiu tão ofendido e furioso que teve a necessidade de interferir, e por mais que se arrependesse da maneira como havia feito aquilo, não se arrependia de tê-lo feito.

Talvez por isso não tivesse culpado o pai na noite passada.

Mesmo diante da lamentosa confissão de Madara, Fugaku nem se exaltou, nem tentou discutir sobre o tamanho de sua irresponsabilidade. De fato, mesmo com a nora internada e a neta enfurnada em uma incubadora, Fugaku sequer pensou em julgar a as ações do pai.

Seria muito hipócrita se o fizesse.

Afinal, ele entendia perfeitamente a frustração de Madara: entendia a necessidade de tentar fazê-la enxergar quem eram os Nohara, a necessidade de fazê-la ver o tamanho da injustiça com que tratara Itachi, e até mesmo Sasuke.

Mikoto encarou o rosto perturbado do marido, que parecia completamente perdido em seus pensamentos. Mesmo diante da luz fraca do abajur, ela conseguia enxergar as olheiras e as rugas de preocupação estampadas no rosto de Fugaku, que só a percebeu minutos depois de ela despertar.

— O que houve? – Ela perguntou suavemente, a voz ligeiramente rouca de sono.

Mikoto tinha um olhar preocupado e os olhos escuros sonolentos.

Fugaku deitou-se ao lado da esposa e a envolveu carinhosamente; alisou as costas, e subiu a carícia até que os dedos agarrassem o coro cabeludo da mulher, que se encolheu aconchegada em seu peito.

Fugaku hesitou. Para tomar coragem, ele aproximou-se ainda mais da mulher, e afundou o rosto no pescoço da esposa, aconchegando-se lá. Ele apertou o abraço e respirou fundo antes de dizer:

— Akane nasceu.

~

Kasumi não conseguiu dormir mais do que poucas horas àquela noite.

Ela passou a maior parte do tempo revirando na cama desconfortável do hospital; vez ou outra encarando o teto, vez ou outra encarando Itachi, que estava desmaiado de exaustão na cama ao lado da sua.

Sentia-se com os nervos à flor da pele: nervosa, ansiosa... E apesar de saber que talvez devesse tomar alguma coisa para dormir e descansar, quando a enfermeira entrava no quarto – algo que ela supôs ser uma verificação noturna padrão –, Kasumi fingia estar dormindo.

Ela estava mais do que acordada quando amanheceu, e só pôde realmente respirar quando uma enfermeira da maternidade apareceu para buscá-la para ver Akane.

Itachi já estava acordado àquela altura – embora sonolento –, e foi categórico quando disse à esposa que a acompanharia até a filha, uma preocupação que Kasumi só pôde realmente entender quando entrou na UTI neonatal.

Ela quase desabou.

A UTI neonatal era uma sala de hospital – obviamente. Era mais colorida do que a maioria das salas, mas ainda parecia uma sala de hospital. E apesar de ter um clima menos hostil do que o resto do lugar, Kasumi achou um pouco assustador ver o tamanho do cuidado das enfermeiras.

Lá dentro a Uchiha viu duas: uma regularizando as bolsas que pareciam de medicação, outra ajeitando alguma coisa em um dos bebês; além delas, uma mãe estava sentada ao lado de uma incubadora, ninando um bebê minúsculo, e todas essas mulheres usavam luvas, máscaras, toucas e uma roupa especial.

Kasumi sabia qual eram os perigos de um parto prematuro – ela havia lido bastante sobre isso quando a obstetra a alertou sobre seus picos de pressão –, mas ver era muito diferente de ler sobre aquilo.

Estar naquele lugar finalmente dava consciência à Kasumi sobre os riscos que havia corrido na última tarde, dava a consciência sobre os riscos que a filha podia estar exposta ao nascer tão antes da hora... Tudo por causa de sua teimosia.

Ela teve que se segurar muito para não chorar.

E apesar de parecer firme aos olhos da desconhecida enfermeira que a tinha guiado até ali, Kasumi não conseguiu entender sequer uma palavra que saía da boca daquela mulher.

Diferente da enfermeira, Itachi conseguiu captar o estado de espírito da esposa. Ele já tinha passado pelo choque inicial da UTI, mas ainda era difícil ver a filha ali, tão frágil e pequenina, tão exposta a perigos que não devia.

Compreensivo, ele aconchegou a esposa, e re-explicou pacientemente todos os procedimentos previamente comentados pela enfermeira; ajudou Kasumi a vestir-se adequadamente e tranquilamente a guiou até a filha.

Kasumi já tinha tido o primeiro contato com Akane durante o parto: o médico – ou um enfermeiro, ela não sabia dizer – a tinha aproximado de seu rosto até que elas se tocassem, sem se importar com o choro desesperado ou as tentativas de beijo da mãe. Mas aquele contato foi tão rápido, e tão estressante, que era quase como a lembrança de um sonho.

Foi só quando a enfermeira a colocou em seus braços, embrulhada em uma manta rosa fofinha, que Kasumi sentiu que realmente estava conhecendo a filha.

E não soube ao certo o que sentir.

Desespero, emoção.

Alegria, tristeza...

Ansiedade, medo.

Era como se todos os sentimentos a tivessem engolido; como se ela sentisse tudo e nada, e a sensação de não saber o que estava sentindo só tornava a experiência ainda mais angustiante.

Sua Akane era miúda, rosadinha e cabeluda.

Seus cabelos eram tão negros quanto os de Itachi, mas a expressão rabugenta de bebê que acabava de ser despertado decididamente era uma herança de Kasumi; mas mesmo que perceber isso fosse adorável, o coração da mãe ainda pesava.

— Ela é tão pequenininha...

Kasumi lamentou-se, sentindo um bolo se formar na garganta.

Sempre imaginara que a filha nasceria enorme.

— Se quer saber, ela não é tão pequena para a idade. – A enfermeira afirmou num tom otimista, tentando inutilmente acalmar o coração da nova mãe.

Ela se aproximou mais de Kasumi, e com muito cuidado, ajeitou a menininha no peito da Uchiha, que a envolveu carinhosamente.

Akane se acomodou no peito da mãe como se a tivesse reconhecido; ela bocejou preguiçosamente, roçou o rostinho na roupa de proteção fina e transparente que a Uchiha usava e voltou a dormir com facilidade, mesmo que a respiração de Kasumi estivesse tensa graças à emoção.

Ela se sentia tremer.

Talvez por perceber isso, a enfermeira a guiou para a cadeira.

Kasumi tinha consciência de que a mulher estava dizendo alguma coisa, mas francamente, não conseguia ouvir nada além dos bipes à sua volta – que nem deviam ser de Akane – e a respiração suave da filha.

Sua menininha respirava fraquinho, com certa dificuldade, e perceber isso foi o fim do mundo para Kasumi.

Por que ela tinha ido àquele encontro?...

Por que tinha faltado às consultas?

Por que tinha brigado com Sasuke e Itachi?

Por que tinha se aproximado dos Nohara?

Por que, em nome de Deus, teve a brilhante ideia de vasculhar o passado da mãe, afinal de contas? Ela sabia que não era uma história feliz: sabia que a história de Rin era uma tragédia, sabia que a mãe tinha sido a vítima de um crime cruel, e que tudo isso estava diretamente ligado a ela, Kasumi.

Ela sabia que meses atrás, tinha motivações compreensíveis para fazer isso. Mas agora, com a filha nos braços, e sentindo de um jeito quase palpável todos os perigos que a rondavam, Kasumi não conseguia entender a razão de tudo aquilo.

Sabia que estava grávida. Sabia que, pela filha, devia cuidar de si mesma, e mesmo que amasse Akane praticamente desde o momento em que a tinha descoberto, Kasumi não tinha feito nada para evitar que Akane passasse pelo que estava passando.

Que tipo de pessoa era ela?... Que tipo de mãe ela era?

Akane devia ter sido a primeira, e maior preocupação nos últimos meses, mas Kasumi tinha agido como se fosse a última de sua extensa lista. Ela devia ter vivido por ela, e não simplesmente com ela.

— Kasumi-san.

A voz de Sakura se destacou entre os sons confusos que buzinavam na cabeça da esposa de Itachi, que ergueu os olhos chorosos até a residente, que estava agachada à sua altura, na frente da cadeira que ela se sentava.

— Tudo vai ficar bem. – Ela garantiu, e os olhos verdes de Sakura pareciam tão sinceros e decididos que Kasumi quase acreditou nela.

Ela apertou mais a filha, que parecia uma bonequinha em seus braços.

— É tudo culpa minha. – Sussurrou com a voz chorosa, e estreitou os olhos ao enxergar a negação de Sakura.

— Não é culpa de ninguém. – Ela garantiu, e deu um aperto suave no joelho da Uchiha. – E mesmo que seja culpa de alguém, nada disso importa agora... O que importa agora são o presente e o futuro, o hoje e o amanhã. Precisa entender isso e ser forte, porque Akane-chan vai precisar que seja.

Kasumi fungou, apertou os olhos e assentiu.

Sakura suspirou; olhou ao seu redor e, ao notar que ninguém estava por perto, se aproximou ainda mais das Uchihas.

— Se ficar muito nervosa, — ela disse num sussurro. – as enfermeiras vão tirá-las de você. Não quer isso, quer?

Kasumi apertou os olhos, respirou fundo e negou.

— Respire fundo... – Sakura instruiu. – Ninguém aqui vai mentir sobre nada para vocês, então não precisa ficar aflita imaginando se algo está acontecendo, ou que vai acontecer sem que saiba.

A Uchiha concordou mais uma vez, e só então conseguiu reunir forças o suficiente para erguer os olhos e buscar Itachi. Notou que ele e a enfermeira estavam afastados, conversando, e apesar de vez ou outra mandarem um olhar em sua direção, dificilmente seriam capazes de ouvir o que ela e Sakura falavam.

Kasumi tomou fôlego, e assim como a Haruno pediu, tentou se acalmar.

Tinha que se acalmar.

Precisava fazer tanta coisa... Organizar tanta coisa!... Ela olhou para a filha, uma bonequinha minúscula em seus braços, e foi como sua mente estalasse: ela viveria por aquela menina. Faria tudo, possível e impossível para que a filha fosse saudável e feliz.

— Sakura...

Sentiu um aperto no coração.

— Meus pais...

Ela voltou seu olhar para a ex-cunhada, e Sakura lhe sorriu.

— Eles ainda estão aqui. – Afirmou, assentindo. – Estão na ala de espera... Precisa que eu os chame? Posso conversar com o doutor.

Kasumi negou.

Mais calma, ajeitou Akane em seus braços e roçou os lábios na cabeleira negra da filha, num carinho que servia tanto para acalentar a pequena, quanto para acalmar a mãe.

— Não é isso... – Ela negou lentamente. – Não agora... Mas eu... – Ela apertou os olhos, e afundou o rosto suavemente na cabeça delicada da filha – Eu preciso pedir um favor...

.

O favor de Kasumi não era algo exatamente difícil de fazer.

Mas para Sakura foi no mínimo constrangedor quando, quase meia hora depois de sair da UTI, teve que ir até o lugar em que os demais Uchiha estavam reunidos, aguardando a liberação de visitas.

Obito e Rin estavam sentados nos mesmos lugares da noite anterior: Rin estava encostada ao marido, com quem dividia um dos lanches da cafeteria, embora Obito parecesse muito mais interessado no copo de café que estava segurando.

Sasuke também estava lá, como ela esperava.

Ele parecia exausto: estava jogado no banco, estirado de maneira preguiçosa, e tinha nas mãos um único copo de café, que parecia ter sido esquecido a tempo suficiente para que a bebida esfriasse.

Sasuke foi o primeiro a notá-la, e levou meio minuto para isso; mas Sakura estava estática, paralisada por perceber que ele se sentava no mesmo lugar que ela tinha ocupado na madrugada anterior.

O mesmo banco em que a tinha beijado.

Os olhos deles se encontraram, e Sasuke lhe ofereceu um sorriso simpático; um sorriso que ela simplesmente não conseguiu retribuir.

Sakura não estava zangada com Sasuke, mas também estava feliz.

Ela não o tinha empurrado na noite anterior, nem tampouco corrido para fugir dele depois daquele beijo. De fato, sentiu-se bastante madura quando, ao vê-lo se afastar, simplesmente se levantou, desejou boa noite e voltou para o lugar onde os médicos, residentes e enfermeiros descansavam durante os plantões. Ela tinha as pernas bambas e o coração acelerado quando fez isso, mas não achava que Sasuke tivesse notado nada.

Sasuke não se sentiu magoado, nem ofendido com a reação da amada. Na verdade, Sakura reagira de um jeito muito melhor do que ele esperava, mostrando-se muito mais tranquila e madura do que nos últimos tempos, e apesar de aquele beijo não ter sido nem minimamente retribuído pela rosada, ele ficou feliz com isso.

O Uchiha, que até então recostado preguiçosamente no banco em que havia passado o resto da noite, se ajeitou. Remexeu os ombros até sentir as costas estalarem, levantou-se e seguiu até a Haruno, que o olhava com uma expressão séria e reflexiva.

Não pôde negar a satisfação que o invadiu quando notou que o rosto dela enrubescera com a aproximação, e ele não pôde evitar o sorriso quando a viu fugir, seguindo na direção de seus tios – mesmo quando ele claramente estava indo até ela.

— Obito-san. Rin-san. – Ela os cumprimentou com uma reverência educada acompanhada de um sorriso simpático. – Bom dia, espero que tenham conseguido dormir pelo menos um pouco.

Sasuke sabia que não, eles não tinham dormido o suficiente, mesmo para ser considerado “pouco”, mas mesmo assim Rin ofereceu um sorriso afetuoso para Sakura.

— Sakura-san. – Ela baixou a fronte num cumprimento educado.

— Tem novidades? – Foi Obito quem perguntou, ansioso demais para cortesias.

— Não é exatamente uma novidade, mas podem ir vê-la. Na verdade, Kasumi-san pediu que eu viesse buscá-los...

Ela finalmente olhou na direção de Sasuke.

— Ela... – Sakura pigarreou, um pouco sem jeito. – Ela também quer falar com você depois, mas pediu que acompanhasse seu irmão. Ele tem que buscar algumas coisas em casa.

Sasuke nem tinha terminado de assimilar a frase quando Sakura, ansiosa demais para seu gosto, virou-se novamente na direção dos tios. – Podemos ir? Ela deve estar no quarto, esperando.

Ela não queria ficar ali, e não estava nem tentando esconder.

Se tivesse feito isso dois dias atrás, Sasuke ficaria furioso. Ele não gostava de ser evitado, muito menos ignorado, e ser evitado E ignorado pela garota por quem nutria sentimentos era absolutamente irritante. Mas, por algum motivo – talvez pela gratidão que sentia pela amada, talvez pelo simples fato de estar morto de cansaço –, ele só podia achar graça nas ações da Haruno.

Obito e Rin se afastaram para descartar as embalagens do café da manhã, e Sakura voltou-se na direção do Uchiha, que cruzou os braços e lhe lançou um olhar divertido e zombeteiro, que ela fingiu não entender.

— Itachi-san deve vir logo. Pode esperá-lo aqui.

Ele sorriu de canto, deu os ombros e assentiu.

Não ia provocá-la, nem persegui-la, e muito menos flertaria com ela – apesar de querer muito fazer tudo isso, e talvez um pouco mais. Tinha prometido, afinal; e por mais difícil que fosse tentar cumprir aquilo, ele tentaria.

— Obrigado.

Sakura corou um pouco, e tentou sorrir; um sorriso que saiu tímido e desajeitado, e durou apenas um instante, já que logo depois ela teve que voltar sua atenção aos tios do Uchiha.

.

Sakura não era nenhuma adivinha, mas não teve que se esforçar muito para perceber que, o que quer que Kasumi fosse falar com seus pais, era um assunto particular; então tão rápido quanto os levou até lá, deixou o quarto.

Kasumi estava instalada em um quarto normal e genérico: muito pálido e com duas camas à disposição. Para Rin, aquilo parecia perfeitamente aceitável, mas Obito sentiu-se um pouco frustrado com a simplicidade nas acomodações da filha.

Mas a tranquilidade de Rin e a frustração de Obito sobre o quarto não eram nada em comparação aos sentimentos que os invadiram ao enxergar o rosto da filha: apesar de Kasumi lançar um sorriso tímido e otimista em sua direção, ela estava pálida demais, com os olhos inchados demais e um semblante exausto: mais parecia um zumbi que uma pessoa, e para seus pais, foi muito difícil vê-la naquela situação.

Rin teve que se controlar muito para não ter um ataque de nervos: ela se soltou de Obito – que a auxiliara na caminhada até o quarto – e correu – ou ao menos tentou correr – desajeitadamente até o leito da filha, que ficou ainda mais sem graça.

— Rin, eu...

— Pelo amor de Deus, Kasumi! Olhe para você! – Após um abraço longo e algumas lágrimas derramadas, Rin sentou-se ao lado da filha e praticamente agarrou o rosto dela, que fez uma careta constrangida. – Mais parece um fantasma!...

— Eu sabia que não era uma boa ideia deixá-la sozinha em casa... – Obito se lamentou, e caminhou passos lentos até uma cadeira que havia sido deixada ao lado da cama de Kasumi na noite anterior. Ele puxou a mão da filha timidamente, e deu um aperto leve e amoroso. – Foi muita sorte ter sido socorrida rápido.

Kasumi não achava que seu socorro tinha chegado rápido, mas sorriu ao pai mesmo assim. Ela retribuiu ao aperto dele, e envolveu a mãe carinhosamente.

— Estou bem agora. – Garantiu. – Eu os chamei porque precisava conversar... – Os olhos castanhos caíram até os lençóis, evitando o olhar dos pais. – Na verdade... Eu preciso avisar algo...

— Tudo bem com Akane? – Rin a questionou com a voz ansiosa de nervosismo, e embora a pergunta tivesse feito nascer um bolo de angústia na garganta de Kasumi, ela negou lentamente.

Teve que respirar fundo para voltar a falar.

— Não... Na verdade, tem a ver com vocês.

Rin pareceu relaxar.

— Sabe que pode falar o que quiser conosco, querida.

Kasumi tinha lá suas dúvidas quanto àquela afirmação, mas assentiu. Um tanto sem jeito, a morena afastou a mão do aperto do pai. Ela precisou tomar fôlego mais uma vez, coçou a cabeça e tentou olhar para Obito e Rin.

— É sobre... – Ela engoliu em seco. – É sobre meus sogros.

~

Sasuke tentou ligar o celular pelo que devia ser a décima vez só na última hora, e fracassou mais uma vez. Ele suspirou, irritado, e se ajeitou da melhor forma que conseguiu na desconfortável cadeira de hospital em que tinha passado a noite.

Entediado, Sasuke batucou no assento e ergueu o rosto para encarar o teto branco, e pela primeira vez em seus vinte e cinco anos de vida, conseguiu entender o motivo de Hinata sempre trazer um livro na bolsa, independente de onde fosse.

Ele bem queria ter um maldito livro agora.

Qualquer coisa que pudesse tirá-lo daquele tédio mortal!

Por que Itachi estava demorando tanto?... Se fosse parar demorar, Kasumi devia ter tido o bom senso para chamá-lo ao quarto também; ver a cunhada o tranquilizaria um pouco, e pelo menos ele teria alguém para conversar.

Ele bufou.

Sakura poderia estar ali àquela hora, não podia?... Ele tinha certeza de que, se quisesse mesmo, poderia fugir do serviço e tirar uns minutinhos de seu dia para jogar papo fora com ele, mas é claro que ela não faria isso.

Frustrado com tudo e todos à sua volta, Sasuke ergueu o celular mais uma vez; ele cerrou os olhos para o elegante modelo negro. Seu celular era um dos modelos tops da Uchiha Technology, e prometia aguentar até dois dias com o uso de bateria moderado.

— Mentiras e mais mentiras... – Resmungou.

— O que?

Sasuke se levantou num pulo, quase voando de susto quando ouviu o irmão – que só Deus sabia quando tinha sentado na cadeira ao seu lado – se pronunciar. Ele estreitou os olhos negros na direção do mais velho com irritação palpável, e foi respondido com um sorriso tranquilo e apaziguador de Itachi.

— Vamos, aniversariante...

Itachi se levantou e remexeu os ombros.

Estava cansado... Cansado, sonolento e irritado. Suas roupas estavam amarrotadas e desajeitadas, e Itachi parecia prestes a explodir de frustração. Nada disso escapou aos olhos de seu irmão, que estreitou os lábios e refletiu sobre como poderia ajudá-lo.

— Talvez devesse dormir um pouco em casa. – Sasuke tentou sugerir, embora já soubesse a resposta do irmão. De fato, Itachi sequer se preocupou em respondê-lo: ele deu os ombros e seguiu em frente, fazendo um gesto com a cabeça para que Sasuke o seguisse.

— Pelo menos alguns minutos... – Sasuke insistiu, seguindo-o, mas Itachi não se preocupou em respondê-lo. – Tsc!... Pelo menos se lembre de trazer um carregador. Papai, tia Suzuki e Hinata devem estar se descabelando sem notícias. Até o Shikamaru me mandou mensagens perguntando sobre notícias... Eu não sabia que Kasumi e Temari eram tão amigas.

Itachi acenou com a cabeça lentamente, e percebeu que não tinha checado o celular desde que o médico o guiara até o quarto de Kasumi. É claro que todos procurariam Sasuke para receber notícias.

— Elas estudaram juntas por um tempo... – Ele murmurou. – De qualquer forma, Kasumi sempre leva um carregador na bolsa. Vou dar uma olhada pra você depois que sairmos da maternidade.

Sasuke parou de repente, no meio do caminho.

— Maternidade?... – Ele ficou estático de ansiedade. – Mas... Eu pensei...

Itachi o olhou com confusão.

— Não quer ver sua sobrinha?

~

Obito quase não conseguiu se mover.

Era curioso: ao mesmo tempo em que ele sentia cada um de seus músculos anestesiados, ele também sentia seu corpo tremer. Seu estômago parecia congelado, mas revirava, e doía insuportavelmente. Sua cabeça zunia, latejava.

Ele simplesmente não podia acreditar no que sua filha – sua única filha, que ele tinha acabado de encontrar – acabara de dizer.

— Entendo...

A voz de Rin soou baixa e hesitante, mas tinha uma doçura que irritou Obito profundamente; ele olhou com estranhamento para a esposa, tão furioso que mal conseguia enxergá-la.

— Entende? – Ele riu. – Entende mesmo? Porque eu ainda não consegui.

Os dois pares de olhos castanhos das mulheres da sua vida se ergueram em sua direção: os de Rin exalavam censura e os de Kasumi esbanjavam convicção: estavam firmes, e encaravam os olhos negros do pai como se sua reação não a intimidasse.

— Quem mais vai vir? Madara?

Obito quase podia sentir o veneno em suas palavras, mas não se importou, nem tentou se conter. Estava machucado e queria que ela visse, queria que entendesse, queria que sentisse ao menos parte de sua dor.

Os olhos de Kasumi continuavam fixos aos do pai.

— Não faça isso ser difícil... – Ela pediu suavemente, quase implorando.

— Difícil? – Obito soltou o ar. – Não tem como isso ser fácil... – Os olhos negros se estreitaram. – Não tem como isso ser possível. Sabe o que eles fizeram, Kasumi... Comigo, com sua mãe, com você. E mesmo assim...

Ele cerrou os punhos.

— Mesmo assim vai recebê-los?!

Kasumi apertou os lençóis que cobriam suas pernas e tentou controlar a própria voz; precisava ficar calma, precisava ficar ; sabia que entrar numa discussão com Obito àquela altura só deixaria as coisas mais difíceis, e por mais que ele estivesse tentando fazer isso, teria que resistir.

— São os pais do Itachi. – Ela o lembrou. – Eles foram ao nosso casamento, não é? Não entendo porque está surpreso em saber que vão vir ver a minha filha.

Obito bufou.

— Por acaso acha que eu não sei que Fugaku foi o motivo de sua briga com Itachi?... – Ele apontou para Kasumi. – Talvez até seja o motivo de você estar aqui agora!... Como é que eu posso aceitar algo assim? – Os olhos negros se estreitaram, e a voz de Obito soou ligeiramente cortada. – Você podia ter... Podia ter morrido...

Finalmente, Kasumi desviou os olhos dos dele.

Ela se odiou por não ter coragem o suficiente para dizer o que realmente a tinha feito ir parar naquele hospital; odiou-se por não se sentir forte o suficiente para contar os verdadeiros motivos de Fugaku ter ido até ela naquela tarde, e tampouco para falar o que haviam dito e feito durante aquela terrível discussão.

— Não sabe do que está falando. – Foi tudo o que ela conseguiu dizer, e sua voz saiu murmurada, arrependida e dolorida.

Ninguém era tão culpado quanto ela, e ainda que não fosse sua intenção, Obito tinha acabado de lembrá-la que ela era a culpada do estado da filha.

— Realmente, não sei. E sabe por que eu não sei, Kasumi?

Ela ainda não conseguiu olhá-lo.

— Porque você não me diz.

Kasumi sentiu o coração se despedaçar em mais mil pedaços; apertou os olhos para não chorar e pressionou a testa, em um ponto entre as sobrancelhas, na tentativa de recuperar a calma e a concentração.

— Pai...

— Eu não quero mais ouvir. – Obito foi sincero. – Pelo jeito, está decidida, então não há como mudar de ideia. Eu não tenho como impedir aqueles dois de freqüentarem o maldito hospital, Kasumi, mas ele não vai pisar na minha casa.

Rin, que estava voltada para a filha e a olhava com um semblante preocupado, de repente se virou na direção do marido. Obito viu os olhos castanhos brilhando com uma raiva mal contida, Rin bufou de maneira furiosa antes de respondê-lo:

Sua casa?! – Ela soou irada. – Não é sua casa, é nossa casa!... E Kasumi não é uma criança, Obito, nem está nas nossas costas para que você decida quem ela vai ou não receber. Se ela quiser...

— Tudo bem. – A voz de Kasumi soou ainda mais alta que a da mãe, interrompendo-a de um jeito quase grosseiro. Quando seus pais olharam em sua direção, perceberam que a calma que havia passado tanto tempo tentando segurar tinha ido para o espaço. – Se é assim que se sente, senhor Uchiha, parece que minha família vai ter que procurar outro lugar para morar.

Rin sentiu seu coração quebrar.

Levou quase um minuto para conseguir voltar a falar, e mesmo assim, quando o fez, sua voz soou quebrada, baixa e dolorida:

—... Outro lugar?... – Ela perguntou baixinho, tristemente.

— Prefere ficar com as pessoas que te arrancaram dos seus pais?

Obito soou furioso.

— Prefiro escolher por mim mesma quem eu ou minha filha recebemos em casa.

— Kasumi... – Rin sentiu-se sufocar; estava desesperada!... Ao ver que a filha não lhe daria atenção, tentou voltar-se na direção do marido. – Obito! Pelo amor de Deus!

Rin estava chorando, mas Obito sequer foi capaz de perceber isso.

Ele ainda estava olhando na direção da filha, que parecia decidida. Perceber isso o fez balançar com a cabeça em negação, e ele riu, uma risada sem humor e totalmente desacreditada.

— Só cuidado pra eles não sumirem com a sua também.

Ele a alertou num tom sarcástico; pegou o casaco que havia deixado nas costas da cadeira e saiu do quarto sem se despedir, nem da filha, nem da esposa, deixando ambas paralisadas.

Rin foi a primeira a conseguir se mexer: ela tremia claramente nervosa, e respirava de um jeito descompassado. Agarrou ambas as mãos da filha, e tentou fixar os olhos chorosos nos dela.

— Por favor, Kasumi... – Ela alisou desajeitadamente as mãos da mais jovem. – É claro que seu pai vai reconsiderar. Por favor... Por favor, não pense coisas assim... Não fale isso de novo. Prometa que não vai falar isso de novo.

Kasumi apertou os olhos e tentou controlar os próprios sentimentos. Limpou o rosto com uma das mãos e soltou uma risada furiosa, mal acreditando no que tinha acabado de ouvir.

— Seu pai não está em si... Ele vai reconsiderar, querida. Sabe disso.

Kasumi não estava muito certa daquilo, mas ainda assim assentiu; ela assentiu rápido, enquanto tentava segurar a própria voz na garganta. Queria tanto gritar!... Gritar, chorar... Desabar. Mas não podia fazer nada daquilo na frente da mãe.

Não quando Rin estava naquele estado de desespero.

Se Obito não era capaz de pensar na esposa, ela seria.

— Tudo bem, mamãe... – Kasumi conseguiu soltar, mas sua voz saiu esganiçada. Tentou tossir, pigarrear, mas não adiantou muito. – Obrigada por ficar do meu lado...

Ela apertou as mãos da mãe com força, realmente grata.

— Eu sei que é difícil pra você, e mesmo assim... – Ela balançou a cabeça, desviando toda a raiva momentânea que a invadia. – Obrigada. De verdade.

~

Para que Sasuke pudesse entrar na UTI, o vestiram com uma touca de cabelo, uma roupa cirúrgica, luvas e uma maldita máscara. Em qualquer outra situação, Sasuke teria apenas se irritado com aquilo, mas agora era diferente: a ideia de que todo aquele cuidado devia ter uma razão o invadia, e ao invés de irritado, ele sentiu-se aflito.

Akane era fraca a esse ponto?

Ele se perguntou se realmente deveria entrar lá para vê-la. Havia passado a noite no hospital, afinal... E embora não tivesse ficado em uma área necessariamente perigosa, ainda era um hospital. E se ele tivesse pego alguma coisa?... E se passasse alguma coisa para a sobrinha?

Mesmo com as garantias da enfermeira, ele ainda ficou nervoso.

Sentiu que devia perguntar à Sakura, mas ele não fazia nem a menor ideia de onde a rosada poderia estar, e a bateria do maldito celular já tinha morrido há tanto tempo que ele nem conseguia ligar o visor, que dirá mandar uma mensagem.

Quando chegou de frente à incubadora, todo o medo se multiplicou.

Akane era tão, tão pequena... Tão frágil! Como ele poderia segurá-la?

O medo que o invadiu foi tão grande que ele mal conseguia respirar enquanto observava a enfermeira – que falava alguma coisa com Itachi – tirá-la de lá.

Akane era muito pequena, e sua pele era tão rosada que beirava o vermelho; diferente da foto que Sakura o tinha dado na última madrugada, agora a sobrinha vestia uma touca branca e um body vermelho sem mangas, que parecia surpreendentemente grande dentro dela.

A mulher a entregou primeiro para Itachi; Sasuke viu o irmão aconchegá-la cuidadosamente no peito, balançá-la suavemente e alisar suas costas com os dedos de um jeito carinhoso, cheio de cautela.

Como ele ia conseguir ser tão cuidadoso?!

— Sasuke!

A voz de Itachi conseguiu despertá-lo.

Sasuke o olhou atônico, perdido e aflito, e arrancou uma risada do mais velho.

— Você sequer está me ouvindo?

Um pouco envergonhado, Sasuke negou.

— Desculpe...

Sentia-se um idiota.

— Preste atenção. – Itachi comandou. – Tente segurá-la assim, nessa posição...

Ele repassou à Sasuke mais algumas instruções antes de finalmente estender a filha para os braços do irmão, que parecia sentir um misto de pânico e ansiedade.

Sasuke segurou a sobrinha como se ela estivesse sentada em um de seus braços, e a aconchegou no peito exatamente como Itachi havia feito mais cedo. Uma de suas mãos servia de apoio para o corpo da sobrinha, e a outra estava pousada entre as costas e a cabeça da pequena Uchiha.

— Pronto. – Itachi sorriu e cruzou os braços. – Muito bem, tio Sasuke.

Foi como se a cabeça dele explodisse.

Sasuke percebeu que aquela era, sem dúvidas, a experiência mais controversa de sua vida: ele estava morrendo de medo ao mesmo tempo em que explodia de alegria; e mesmo que se sentisse completamente apavorado, ele não queria soltá-la nunca mais.

— Isso é... Muito estranho. – Ele riu; aproximou o rosto da cabeça da sobrinha e roçou a bochecha nela carinhosamente. – Muito mesmo. – Confessou, lançando um olhar confuso ao irmão, que sorria, parecendo muito divertido.

— Espere até ser a sua.

.

Sakura precisava ir embora.

Chegara a essa conclusão meia hora antes, quando a bateria de seu celular finalmente esgotara. Não que ela não pudesse viver sem o celular carregado, mas Ino não parava de mandar mensagens, e ela sabia que se não fosse embora até o horário do almoço, a amiga não só iria buscá-la, como a levaria do hospital pelas orelhas.

Pela primeira vez na vida, ela lamentou a idade de seu celular.

Se ele fosse um pouquinho mais moderno, poderia conseguir um carregador emprestado... Mas seu aparelho antigo não era bom o suficiente para os carregadores padrões de suas colegas de trabalho, e estava fadado ao desligamento até que Sakura alcançasse o quarto, então não tinha jeito.

Ela percebeu, no entanto, que deveria ao menos se despedir de Kasumi.

Apesar de não ser uma pessoa tímida, a cunhada de Sasuke estava perturbada pelos últimos acontecimentos, e era muito fácil para Sakura perceber que ela se sentia mais à vontade em sua presença.

Temendo que a Uchiha ficasse chateada se descobrisse que Sakura deixara o hospital sem se despedir, ela seguiu para seu quarto na maternidade, torcendo para que Obito e Rin ainda estivessem no quarto, e assim pudesse falar com todos de uma só vez, sem correr o risco de topar com Sasuke de novo.

Sakura estava nervosa e exausta, e talvez tenha sido exatamente por isso que entrou no quarto de Kasumi sem se lembrar de bater à porta. Como resultado de sua impertinência e falta de senso, acabou entrando num péssimo momento: Rin e Kasumi estavam abraçadas, chorando em silêncio.

Ela quis fugir.

Teria fugido, mas Kasumi pareceu ouvir o barulho da porta, e ergueu a cabeça de supetão. Ao encontrar uma Sakura surpresa e envergonhada, tratou de sorrir; ela limpou o rosto rapidamente, deu tapinhas nas costas de Rin e riu como se todo aquele chororô tivesse sido resultado de uma emoção feliz.

— Sakura! Que surpresa!...

Sakura hesitou, mas acabou entrando quarto adentro.

— Bem... Desculpe, eu só... Eu vim me despedir.

Kasumi negou com a cabeça como se não se importasse com o incidente, e balançou a mão, pedindo que Sakura se aproximasse.

— Ora essa! Estamos num hospital, é claro que não precisa se desculpar... Ah! Mamãe, até me esqueci de dizer! – Kasumi apertou a mãe – que ainda estava abraçada a ela, com o rosto escondido em seu peito.

— Mamãe, olhe para mim... Está tudo bem agora.

Rin fungou, afastou-se e limpou o rosto.

Diferente da filha, não conseguia simular felicidade, e Kasumi, muito carinhosa e ainda sorridente, alisou as faces dela.

— Sakura Haruno é um nome familiar para você?

Sakura enrubesceu e sentiu o corpo paralisar.

— O- O que?!

— Sakura?... – Rin pareceu refletir, e voltou seus olhos na direção da rosada. – É claro que é familiar... Digo, Sakura-san me ajudou na fisioterapia, e é uma grande amiga do Dr. Yamanaka, que é meu médico...

Kasumi negou.

— Na verdade, — Ela lançou um olhar travesso em direção à Sakura. – Eu descobri algo muito mais interessante... – E voltou a olhar para a mãe. – Sakura é filha de uma parenta sua, mamãe. Deve se lembrar pelo menos da mãe dela.

Rin pareceu surpresa.

— Parenta?... – Ela olhou para Sakura mais uma vez, agora com os olhos castanhos bem abertos e curiosos. – Parenta? Mas eu não me lembro... Ah! – Os olhos se arregalaram em dois “o”s perfeitos. – Não pode ser!... Filha de Mebuki?!

O rosto de Sakura queimou, mas ela sorriu; baixou o olhar e assentiu, tímida.

— Sim... – Confessou com hesitação.

— Minha nossa!... Eu nem sabia que ela tinha tido uma filha!

Rin olhou perplexa para Kasumi.

— Querida, como conseguiu descobrir isso?

Sakura se perguntou exatamente a mesma coisa, mas Kasumi negou com a cabeça e deu os ombros, como se a fonte da informação não fosse importante.

— O que importa é que eu descobri. Isso não é incrível? – Ela lançou um olhar animado para a Haruno. – Significa que somos primas!...

Sakura riu ao se aproximar, e teve suas mãos agarradas pelas de Kasumi, que as balançou de um jeito animado ao mesmo tempo em que soltava um gritinho alegre, dizendo “priimaas!”, que a fez rir ainda mais.

— Na verdade, ela é minha prima. – Rin pontuou de um jeito tranquilo, e tanto Kasumi quanto Sakura se sentiram tranqüilizadas.

Sakura, pela certeza de que Rin lembrava-se de sua família.

Kasumi, pela certeza de que os Haruno não traziam más lembranças à mãe.

— Mas como vai Mebuki? Minha nossa, você é mesmo muito parecida com ela! Como nunca percebi?... – A mais velha segurou o rosto de Sakura de um jeito que constrangeu a moça, e estreitou os olhos para analisá-lo de perto.

— Aposto que acabei de te surpreender, prima.

Sakura fez uma careta para Kasumi.

— Na verdade, não... Eu já conhecia Rin-san. – Os olhos verdes se voltaram para a mãe da Uchiha. – Nos conhecemos há uns anos, quando meus pais foram visitar sua família. Lembra-se?

Um silêncio incômodo se formou por mais que um longo instante.

Tão incômodo que Sakura se sentiu obrigada a se afastar da cama.

— Na casa da minha família? – Rin voltou a sorrir, mas seus olhos estavam vazios, e sua voz soava oca, sem sentimentos. – Não, não me lembro.

— Mas garanto que vai se lembrar agora. – Kasumi interveio, afirmando tanto para a mãe, quanto para a nova prima, que lhe sorriu em resposta. – Não é, mamãe?

— Claro... – Rin pigarreou discretamente, e tentou levar a mente para um assunto mais ameno. – E como vão seus pais? Eu adoraria ver sua mãe de novo.

— Ela deve aparecer para o feriado de natal. Tenho certeza de que mamãe também vai gostar muito de vê-la. – “assim”, Sakura quis adicionar, mas imaginou que seria no mínimo deselegante fazer Rin lembrar-se de sua fragilidade mental. – Pode ter certeza de que ela vai me fazer levá-la até a senhora.

Rin riu melodicamente.

— Eu adoraria!

— Poderia nos deixar o telefone...

Sakura fez uma careta; tirou o celular do bolso e ergueu o aparelho apagado.

— Um dos motivos de eu precisar ir logo. Não tenho nem uma gota de bateria, e a Ino já está entrando em desespero porque eu ainda não fui para casa.

Kasumi fez um biquinho, mas assentiu.

— Certo... Também deve estar exausta. – Ela sorriu. – Obrigada por tudo, Sakura. Realmente foi de grande ajuda... – Ela esticou as mãos para segurar as de Sakura mais uma vez. – De verdade: você não tem nem ideia do quanto nos ajudou.

Sakura deu os ombros, um tanto constrangida.

Toda a gratidão dos Uchihas realmente a estava tirando do sério. Ela não tinha feito nada demais, afinal... De fato os acompanhara, de fato tentou tornar a estadia deles no hospital o mais tranquila possível, mas aquilo não era nada em comparação ao que o médico havia feito naquela sala de cirurgia.

Mas não adiantava nada discutir com os Uchihas. Então Sakura deu um leve apertão nas mãos de Kasumi antes de se afastar, acenou timidamente para mãe e filha, e se afastou para sair.

Enquanto caminhava pela maternidade, Sakura se perguntou por que o clima mórbido havia se alastrado quando mencionara que tinha conhecido Rin na casa dos Nohara, e mais uma vez Sakura quis saber o que os Uchihas tinham contra Hiroto e Seiko Nohara.

Perguntou-se se realmente tinha sentido criar uma inimizade com os próprios pais só porque eles foram contra o seu casamento, e os motivos reais de Rin se afastar deles, que tinham cuidado dela por anos, no momento mais difícil de sua vida.

Sakura balançou a cabeça, e decidiu que fosse qual fosse a resposta para o caso UchihaxNohara, não era algo em que ela deveria se meter, e decidiu que talvez se despedir de Akane ajudasse a acalmar sua mente.

O quarto de Kasumi era bem próximo à UTI neonatal, então ela não demorou mais do que minutos para alcançar o lugar. E apesar de a ideia inicial ser entrar, dar um “tchauzinho” para a bebê Uchiha e sair, ela sequer teve presença de espírito para passar pelas portas de vidro.

A UTI neonatal era uma sala grande, e assim como o berçário comum, estava às vistas de qualquer pessoa que passasse por aquele corredor, graças às paredes e às portas de vidro enormes.

É claro que toda a visibilidade externa seria inútil para enxergar um bebê pequeno dentro de uma incubadora, mas Akane estava fora dela, nos braços de ninguém mais, ninguém menos do que Sasuke, então foi muito fácil vê-la.

Sasuke estava perto da porta, um pouco ridículo dentro de todas aquelas roupas de hospital. Ele conversava alguma coisa com Itachi e com a enfermeira, ao mesmo tempo em que ninava e mimava a sobrinha em seus braços.

Akane estava sentada sobre um dos braços do tio, e tinha o rosto acomodado em seu peito; ela parecia dormir profundamente, enquanto uma das mãos dele alisava carinhosamente suas costas e nuca. Sakura não sabia se Sasuke estava fazendo de propósito, ou sem pensar, mas ele vez ou outra esfregava o rosto na cabeça do bebê, e vez ou outra dava um beijinho doce sobre o capuz branco que ela usava.

Sakura ficou encantada.

Toda sua pressa sumiu diante a imagem daqueles dois Uchihas, que pareciam absolutamente adoráveis juntos, e a tocavam de um jeito que nem ela conseguia explicar direito, tão profundamente que Sakura se sentia quase paralisada.

Ela não notou quando Itachi acenou para ela, mas foi impossível não notar quando os olhos negros de Sasuke, percebendo a ação do irmão, foram até o vidro, de encontro aos grandes orbes verdes da Haruno.

Sakura estava tão impressionada que nem corou; ela continuou olhando para eles de um jeito curioso – e adorável aos olhos do Uchiha –, parecendo muito perplexa com o que via.

Sasuke, bastante constrangido, não pôde fazer nada além de sorrir.

Um sorriso tímido e doce, que ela retribuiu sinceramente.

~~

Hinata nunca fora uma boa esportista. Ela costumava ser preguiçosa, e sempre acabava arranjando uma ou outra coisa mais importante para fazer do que se exercitar, mas de uns tempos para cá, vinha tentando se dedicar a caminhadas matutinas.

Era uma ótima escolha, já que quase não tinha tempo – nem vontade – para dedicar a outras atividades físicas, e a ajudava a pensar.

Sempre ficava impressionada com o efeito das caminhadas: ela voltava mais calma, mais sã, mais leve e mais limpa.

E apesar de os últimos dias terem sido horríveis, ela decidiu que não só podia, como devia continuar se dedicando às suas caminhadas, e fez isso religiosamente, todas as manhãs, até sentir-se tranquila.

Era impressionante como as coisas vinham dando errado de uns tempos para cá.

Os ensaios haviam aumentado, tal como as gravações e as sessões promocionais, e apesar de saber que isso era natural e ótimo do ponto de vista artístico – afinal, a Time Oito estava a ponto de dar um passo para a carreira internacional! – Hinata acabara se afastando demais do trabalho na empresa, do trabalho voluntário, dos amigos e até mesmo da própria família.

Hinata sabia que ninguém a “condenava” por ter tanto trabalho, mas era triste o fato de sequer ter conseguido visitar a filhinha de Itachi ainda. É claro que ela tinha falado com Kasumi por telefone, é claro que tinha mandado presentes e lembranças por Hanabi, mas era horrível não ter tempo para estar de fato.

A noite passada tinha sido especialmente desanimadora.

Ela tinha ido jantar com a família a pedido do pai, e mais uma vez teve que lidar com o descontentamento da mãe com a turnê. Por mais que Hiashi e Hanabi tivessem ficado ao lado de Hinata, ela vinha ficando cada vez mais frustrada com a falta de aceitação da mãe em relação à sua carreira, e o último jantar tinha sido a última gota.

Ela mal podia acreditar que Suzuki – sua própria mãe! – ameaçara contar a Naruto e Sasuke que a sua “falta de consideração” com Akane era o resultado de uma “turnezinha sem sentido”, que ela, em sua “crise de estrelismo” tinha decidido fazer.

Só de lembrar ficava irritada.

Ela nem tinha falado com Naruto ainda!...

Estava tão irritada, tão frustrada que nem os quarenta e cinco minutos de caminhada resmungona foram suficientes para colocar suas idéias no lugar.

Ela tinha que contar para Sasuke... E Naruto.

Hinata sabia que a mãe não a delataria, mas a ideia de que pudessem ouvir de outra pessoa que não fosse ela era perigosa. Eles ficariam chateados, afinal...

Menma também sabia da turnê, e por mais que a irmã de Naruto tivesse prometido que não contaria nada, ela estava tão temperamental nos últimos tempos que Hinata se surpreendia por ela ainda não ter dado com a língua nos dentes.

Também tinha que ir ao hospital... Tinha que falar com Kasumi pessoalmente, parabenizá-la pelo bebê e enfim conhecer a nova Uchiha por outra coisa que não fosse fotos ou vídeos. Ela sabia que não era íntima da esposa de Itachi, e sabia que o estado de Akane era delicado; ainda receava causar algum tipo de aborrecimento com a visita, mas Hinata sempre fora muito próxima dos primos, e estava preocupada com Itachi.

Ela suspirou.

Puxou o celular, desligou a música alta e enviou uma mensagem para Itachi.

“Posso dar uma passada aí?”

Era simples e direto, mas o primo certamente daria uma resposta sincera.

Ela não tinha ações promocionais hoje, então se a resposta de Itachi fosse positiva, daria um jeito de matar o ensaio, independente de Kiba chiar ou não sobre isso.

Hinata ainda estava pensando se devia ou não avisar o Time Oito previamente quando alcançou seu prédio, mas parou de andar antes mesmo de alcançar os portões, já que Naruto estava lá, parado em frente ao interfone em plenas oito da manhã.

Ele trajava terno, parecia pronto para o trabalho, e por isso Hinata sentiu-se confusa; ela tirou os fones, sentindo-se subitamente nervosa. Fazia dias que não o via, e apesar de estarem bem, não era exatamente normal para Naruto aparecer do nada daquele jeito.

Sentiu o coração acelerar.

Menma finalmente teria dito algo?

— Naruto...? – Ela tentou chamá-lo com hesitação.

Ele, que estava justamente tentando tocar o interfone pela segunda vez, virou-se na direção de Hinata, e mostrou-se igualmente surpreso.

— Hinata?... O que faz aqui?

— Bem... Eu moro aqui. – Lembrou-o.

Naruto fez uma careta.

— Eu quis dizer desse lado. Você não... – Ele pareceu um pouco confuso ao notar o traje esportivo que a morena usava, e se obrigou a pigarrear quando notou que emudecera. – Quero dizer...

Ela não conseguiu evitar um sorriso.

Depois de tantos anos sem ser retribuída, era muito satisfatório ver Naruto ficar sem palavras perto dela, ao invés de o contrário.

— Quer dizer...?

Ela experimentou aproximar-se mais, mas arrependeu-se instantaneamente, já que quando o suposto tímido Naruto ergueu os olhos em sua direção, não parecia nada nervoso; seus olhos estavam brilhando de um jeito divertido, e um meio sorriso brincalhão surgira em seus lábios.

— Não sabia que tinha começado a se exercitar.

Com a cabeça, ele apontou na direção do uniforme dela, e Hinata sentiu o rosto queimar; ela baixou os olhos, tímida, e quis praguejar.

Aquele maldito!...

Mas pelo menos agora tinha certeza de que Menma não abrira a boca.

Naruto definitivamente não tentaria fazer gracinhas se soubesse da turnê pelas bocas de Menma; na verdade, Hinata mal podia imaginar como ele reagiria quando ela o dissesse.

— São só caminhadas... Ajudam a pensar.

— Ajudam a pensar? – Ele arqueou a sobrancelha.

— Sim. – Hinata cruzou os braços e o olhou de soslaio. – Talvez você devesse fazer isso também de vez em quando.

Naruto sorriu.

— Essa doeu.

Hinata suspirou e balançou a cabeça; por mais que estivesse satisfeita com o atual relacionamento com Naruto, detestava o fato de sempre ficar nervosa perto dele.

— Relaxe... Só vim te oferecer uma carona.

— Carona? – Ela arqueou uma sobrancelha e sorriu, divertida. – Naruto, eu tenho certeza de que você se lembra de que eu não só sei dirigir, como também tenho meu próprio carro.

— Ah, vamos lá... Pense comigo: só vamos usar um carro, ao invés de dois. – Ele demonstrou com os dedos. – Menos um carro, menos poluição. Não é ótimo? Vamos, Hinata: você estudou sobre isso, sabe como funciona. Temos que pensar no meio ambiente, não é?

Os olhos claros da moça se estreitaram, desconfiados.

— Vamos lá, senhorita Hyuuga. É o semananiversário da pequena Akane: você não quer perder isso, quer? O Sasuke já foi pra lá, e eu garanti que ia conseguir te arrastar de um jeito ou de outro.

Hinata suspirou longamente, e estreitou os lábios; queria e precisava ir até o hospital, tanto por Akane quanto por Itachi, mas não sabia se uma visita surpresa seria de bom tom, mesmo que estivesse acompanhada com Sasuke.

— Sei que quer ir. Pode colocar a culpa em mim quando for contar para a banda.

Ele piscou, e ela sorriu.

— Isso não seria tão mal... – Teve que confessar, e coçou o queixo, numa pose de quem pensa no assunto. – Realmente não é uma má ideia...

Naruto lhe sorriu.

— Certo. Tem razão. – Ela assentiu, dando-se por vencida. – Eu vou com você, então. Só vou lá em cima tomar um banho e trocar de roupa, você pode ficar esperando...

O sorriso maroto que surgiu nos lábios do Uzumaki fez com que as palavras se perdessem na mente de Hinata. Ela estava pronta para convidá-lo para subir e comer alguma coisa, mas aquele olhar...

—... No carro. – Ela concluiu depois de um instante de hesitação.

Mas o sorriso não deixou os lábios do loiro.

— No carro? Você já foi mais gentil com isso.

Hinata deixou uma risadinha escapar.

— No carro. – Ela pontuou, e apontou para o automóvel. – Eu vou ser rápida.

~

Fugaku sabia que não era exatamente correto usar seu nome para certas coisas, mas não se sentiu nem um pouco culpado quando se identificou como Fugaku Uchiha na recepção do hospital de Tsunade naquela manhã.

Ele sabia que era muito cedo para o horário de visitas, mas bastou uma curta discussão sobre quem ele era e o que fazia por aquele hospital para que a recepcionista concordasse em guiá-lo até o quarto da nora.

Kasumi estava instalada em um dos quartos particulares, e apesar de saber o preço daquilo, Fugaku achou o lugar muito normal: era um quarto branco e genérico, típico de hospital.

Ele viu a sobrinha sentada na cama, sozinha – como ele sabia que ela estaria –, lendo um livro qualquer quando entrou. Kasumi ergueu os olhos na direção da porta, e pareceu bastante surpresa quando o reconheceu.

A enfermeira que o tinha guiado perguntou se precisariam de qualquer coisa a mais, e quando o próprio Fugaku dispensou qualquer cortesia, ela se retirou, deixando-os definitivamente a sós.

— Senhor Uchiha? – Ela parecia pasma. – O que...? Itachi não está aqui.

Ele assentiu, e depois de um minuto de hesitação, decidiu aproximar-se, tomando a cadeira que ficava ao lado do leito da Uchiha.

Pela visão periférica, ele viu o corpo de Kasumi se aprumar, e se perguntou se ela assumiria uma postura defensiva sempre que eles se encontrassem.

Só o pensamento o deixou nervoso... Constrangido. E ele teve que reunir muita coragem para erguer o rosto e olhar nos olhos da filha de Obito, que parecia surpresa, constrangida e um pouco consternada com sua presença.

— Eu sabia que estaria sozinha... Mas precisava falar com você.

Kasumi desviou os olhos dos dele.

— Sinceramente, senhor Uchiha... Não. Não precisamos conversar. É claro que não vou me meter entre você e seu filho, mas quero deixar claro uma coisa: — Ela hesitou, mas conseguiu voltar a olhar nos olhos dele. – Eu não gosto do senhor. Não acho que vou poder perdoá-lo pelo que... – Ela balançou a cabeça, afastando as lembranças da cabeça. – Bem, imagino que o senhor saiba a que me refiro.

— Seus pais. – Ele supôs, e Kasumi concordou.

— Meus pais.

Fugaku assentiu lentamente; conseguia entender a posição dela.

— Mesmo assim vai nos deixar ter contato com sua filha?... – Ele soou incerto.

— O senhor e sua esposa, sim. Não por mim, mas por Itachi e por Akane.

Fugaku assentiu mais uma vez, lentamente, compreendendo.

— Obrigado. – Ele não conseguiu pensar em outra coisa para dizer. – Para ser sincero... – Suspirou. – Eu sei que conversou sobre isso com Itachi, mas não conseguiria vir aqui até conversar com você, e ouvir você dizer isso.

Os lábios de Kasumi se estreitaram.

— Akane também é filha de Itachi... E ele os respeita, os ama. Eu não poderia proibi-los de se aproximar dela nem se eu quisesse, nem que realmente abrisse mão do meu casamento para isso.

Fugaku negou.

— Não, você pode... – Ele garantiu, e os olhos se fixaram aos dela. – Se você me disser que não quer me ver perto da sua filha, eu vou entender, e vou respeitar isso. Só...

Os olhos dele caíram ao chão.

— Só peço que reconsidere se tiver esse pensamento em relação à Mikoto. Ela realmente... – Ele apertou as próprias mãos. – Ela realmente... Ela é uma mãe maravilhosa, entende? – Um pouco perturbado, ele voltou a olhar para a nora, que parecia um pouco surpresa com sua expressão.

Fugaku engoliu em seco.

— O que eu quero dizer é que... Mikoto ama os filhos. Viveu a vida inteira por eles, e ainda vive. Akane é parte de Itachi... Ela é parte do nosso filho, então... Eu... – Fugaku apertou os olhos e coçou a testa; era tão difícil se expressar!... – Eu não estou dizendo que sou diferente dela, mas... Mikoto é mais fraca do que eu, ela está mais fraca do que eu. Por isso... Se puder permitir que ela se aproxime da Akane...

Kasumi suspirou longamente.

— Senhor Uchiha, não precisa fazer isso. Eu já disse, não disse? Não vou negar que vejam sua neta, nem você, nem sua esposa.

Fugaku assentiu lentamente.

— E eu sou grato por isso, mas... – Ele respirou fundo, apertou os olhos e soltou o que o vinha perturbando há dias, antes que se arrependesse: — Não precisa sair da casa de seu pai para isso, Kasumi... Eu entendo os sentimentos do meu irmão, não precisamos ir até sua casa.

Kasumi nunca quis tanto acabar com a vida de Itachi.

Era claro que ele tinha que dizer tudo aos pais.

— Não acho que isso seja assunto seu, Fugaku. – Ela foi sincera, mas Fugaku não se importou com o tom grosseiro com que havia dito.

Era o mesmo tom que Obito costumava usar quando mais jovem, e como irmão mais velho dele, Fugaku já estava calejado há muito tempo.

— Eu sei... Tem ideia do quanto é difícil ter que dizer isso? Mas não posso ser egoísta de novo. Não quero que você... – Ele passou as mãos pelos cabelos, exasperado. – Não quero que você se afaste dos seus pais, Kasumi. Sinceramente, desejo toda felicidade do mundo para sua família.

Kasumi soltou uma risada sarcástica, mas não tentou contradizê-lo.

— Eu garanto que posso me acertar com meu pai sem ter que morar com ele, senhor Uchiha. Não precisa se preocupar com a minha família. E se era só isso que tinha a dizer, pode tranqüilizar seu coração e deixar meu quarto.

Fugaku suspirou.

Por que aquela menina tinha que ser tão Obito?

— Não... Era um dos assuntos que eu tinha a tratar, mas não o único. – Ele confessou, e finalmente pareceu tomar a atenção de Kasumi. – O que causou isso tudo... – Ele apontou para a cama de um jeito sugestivo. – Foi o encontro com meu pai, não foi?... Por isso se estressou.

Kasumi enrubesceu de nervoso.

— Ele mesmo me contou quando descobriu que você tinha sido internada.

— Ele...? – Ela bufou, desacreditada. – Espero que não conte ao Itachi. Ele finalmente deixou esse assunto de lado, e eu realmente odiaria voltar a ser interrogada de hora em hora.

Você não vai contar? – Ele pareceu um tanto surpreso.

— Não. – Kasumi cruzou os braços. – Isso me traria mais dores de cabeça do que benefícios. A culpa não foi só do grande-pai-Uchiha. E, além disso... – Ela desviou os olhos do sogro e pareceu hesitar.

— Além disso? – Fugaku tentou encorajá-la.

— Não quero... Não quero que Itachi fique igual ao meu pai. – Os olhos castanhos se estreitaram ligeiramente.

Itachi amava Madara... Provavelmente tanto quanto Obito tinha amado enquanto mais jovem. E por mais que para Kasumi ele fosse um monstro, ela sabia que, para o marido, Madara Uchiha era um avô querido, que o tinha criado, que o ajudara a crescer na vida e a ser quem ele era.

— Cheio de rancor, cheio de raiva... – Ela negou com a cabeça; ainda estava magoada com as atitudes do pai, e imaginar que Itachi poderia sentir um sentimento tão pesado quanto Obito fazia doer seu coração.

Fugaku ficou mudo por um instante, tão chocado que mal conseguia raciocinar.

— Obito... Obito tem seus motivos para ser do jeito que é. – Ele garantiu quando conseguiu falar. – Não é como se ele gostasse de ser paranóico, ou como se gostasse de odiar a família.

Kasumi o olhou de canto.

— Eu sei... Mas porque está defendendo o meu pai, ao invés de defender o seu?

Fugaku sorriu.

— Faz muito tempo que eu não tenho a capacidade de defender o meu pai, Kasumi... E embora eu entenda os motivos de ele querer te mostrar aquilo... – Ele balançou a cabeça. – Eu mesmo tentei fazer isso...

— Você e Sasuke tentaram me alertar. Ele só tentou me humilhar.

As sobrancelhas de Fugaku se estreitaram, e ele ergueu o rosto.

— Humilhar?... É isso que acha que ele foi fazer?

Kasumi riu.

— Acho que está claro como água.

Ele hesitou.

— Ele não queria te humilhar, Kasumi. Queria te mostrar... Queria te mostrar quem era aquele homem. E eu sei que ele fez isso da pior maneira possível, foi um inconseqüente, mas... – Ele se recostou na cadeira. – Sinceramente, fico feliz que você tenha descoberto quem é Hiroto Nohara.

— Eu já tinha descoberto sozinha, senhor Uchiha. – Os olhos dela se estreitaram ao encará-lo – E garanto que aquilo só serviu para reviver a lembrança de como eu tinha sido estúpida por acreditar naquelas pessoas.

Fugaku arqueou as sobrancelhas, ainda mais surpreso.

— Então... Então por que foi até lá?

— Para começar, eu não fazia ideia do que seu pai queria. Imaginei que fosse algo relacionado ao que aconteceu a minha mãe, então... – Ela balançou a cabeça, tentando afastar as lembranças da mente. – Pensei... Eu queria respostas.

Fugaku ficou impressionado.

— Respostas?

Ela assentiu, e pareceu tão frágil...

Tão frágil quanto Obito ficava ao se decepcionar.

— Você se parece muito com seu pai. – Ele refletiu em voz alta, e conseguiu a atenção da nora. – Eu não sei que respostas você quer, Kasumi... Mas se eu puder te dar algumas, eu vou dar.

Kasumi já tinha desistido de cavucar o passado.

Já tinha decidido que o presente e o futuro de Akane eram mais importantes do que qualquer passado, e tinha prometido a si mesma que jamais se colocaria em risco, por mínimo que fosse, para descobrir o que tinha acontecido em um passado que ela nunca poderia mudar.

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Mas o que poderia fazer quando a resposta batia à sua porta?...

Quando todas as respostas estavam bem ali, diante dela.

Kasumi tinha todo o esquema que montara ainda em sua mente, fresco como se a tinta tivesse acabado de deixar o papel; mas mesmo assim, mesmo que todas as perguntas importantes estivessem saltando em seu cérebro, a primeira coisa que ela conseguiu perguntar foi:

— Por que fizeram isso com ela?...

Ela sentiu as lágrimas finas, quentes, rolando por seu rosto, e se odiou por isso. Tentou limpar, mas não adiantou muito, já que mais e mais lágrimas insistiam em escapar de seus olhos.

— Por que...? Por que me tirar dela? Por que interná-la?... Eles podiam simplesmente... – Ela apertou os olhos, e sentiu sua mente zunir quando imaginou o corpo morto de uma Rin jovem e grávida abandonado em algum lugar deserto.

— Eu nunca vou poder explicar o que passou na mente dos meus pais... Mas, até onde eu sei, nenhum deles já matou alguém.

Era ruim olhar nos olhos dela, ainda mais quando Kasumi parecia tão frágil e descontrolada, mas Fugaku achou que devia isso, não só a Kasumi, que era sua sobrinha, como também a Obito, seu irmão, e principalmente a Rin, que no fim das contas tinha sido a maior vítima.

— Eles não queriam que o casamento do meu irmão desse certo. Queriam que Obito fracassasse e viesse choramingar pra voltar para a Uchiha, mas sabiam que isso nunca aconteceria se você nascesse... Acredito que por isso tenham agido de maneira tão desesperada.

Kasumi riu, sem humor.

— Então não estavam tentando se livrar da minha mãe... Mas de mim.

Fugaku suspirou.

— Eu acho que das duas. – Ele confessou. – Eu... Não sei se eles realmente desconfiavam da sua paternidade, ou se só tinham medo de ele nunca mais deixar a Rin. Nenhum deles sequer me confessou o que fizeram a você: eu descobri por conta própria, muito tempo depois de você ter nascido.

Kasumi limpou o nariz com o braço.

— Onde estava meu pai? Quando minha mãe realmente precisava dele... Quando precisava de apoio, de proteção. – A voz dela se tornou mais alta e ansiosa. – Onde ele estava?! Se ele estivesse lá, não acho que teriam duvidado... Se ele estivesse lá... Não teriam feito isso, não teriam...

Ela se calou quando sentiu Fugaku apertar seu antebraço.

Foi só então que percebeu que agia com um nervosismo descontrolado.

— Não culpe seu pai. – Fugaku parecia estar implorando, e perceber isso a paralisou. – Obito... Ele... Ele nunca teria como sonhar que nossos pais fariam isso. Nenhum de nós nunca... Nunca pensaríamos que eles seriam capazes de algo tão grande. Obito tentou crescer por conta própria... Ele queria dar uma boa vida a sua mãe, a vida que ele tinha se acostumado a ter.

Kasumi fungou e limpou o nariz.

— Por que ele demorou tanto?... Por que não percebeu logo?...

— Você tem vinte e cinco anos, Kasumi. Há vinte e cinco anos era muito difícil manter contato com alguém no exterior... Seu pai abriu mão de muita coisa por sua mãe, inclusive da presença dela. Eu sei que para você é difícil entender o que eu quero dizer...

— Não é difícil, Fugaku: é impossível. Ele largou a Uchiha pela Rin, mas não podia se acostumar a uma vida simples por ela? – Ela balançou a cabeça. – É um pensamento tão hipócrita que eu nem consigo...

— Eu sei que estão brigados. Sei que está com raiva dele, mas pare de culpar seu pai. – A voz de Fugaku soou firme, cheia de censura, e Kasumi se sentiu uma criança de oito anos levando bronca de um tio.

O que era absolutamente irônico, diante do fato de que ele era, de fato, seu tio.

Ela se afastou, frustrada com seu descontrole emocional, e puxou a garrafa de água que descansava sobre o criado-mudo. Tinha que se acalmar...

Kasumi limpou o rosto, e murmurou um “desculpe” constrangido.

— Não precisa se desculpar... Eu preciso, na verdade.

Ela tentou respirar fundo.

As perguntas importantes, Kasumi!

— Pelo que eu ouvi e investiguei, soube que os homens que levaram minha mãe não eram nada além de amadores. Por que seu pai os escolheu para um trabalho tão delicado?

Pela primeira vez, Fugaku pareceu hesitar.

— Disse que me contaria tudo o que sabe.

— E vou contar... – Ele suspirou. – Mas não quero que pense que estou mentindo para proteger meu pai. Meus motivos para... Me omitir sobre tudo o que aconteceu... Meus motivos eram baseados na minha família: minha esposa e meus filhos, não nos meus pais. Eu nunca concordei, nunca apoiei, nunca...

— Fugaku.

Aquilo não era o que ela queria ouvir.

Fugaku bufou, mas ainda hesitava.

— Não foi meu pai quem arrumou aqueles homens. Ele pagou por eles, mas Hiroto Nohara foi quem os encontrou, contratou e armou o sequestro da filha.

Kasumi ficou muda.

— Não estou mentindo... Não sei onde ele arranjou os caras, mas eram da região deles. Sua mãe inclusive os conhecia, pelo que investiguei na época. Não sei se ela pôde reconhecê-los, mas...

Kasumi engoliu em seco e assentiu.

— Mas... Seiko Nohara foi quem denunciou o sumiço da Rin.

Aquela informação não fazia muito sentido na cabeça dela.

Fugaku concordou.

— Também sei disso. Francamente, não tenho certeza se ela estava envolvida no sumiço da sua mãe, mas foram os Nohara que ficaram com você depois que Rin foi internada, e foi ela quem assinou sua ficha de adoção.

Kasumi ergueu os olhos castanhos até ele, chocada.

— Até disso você sabe?

Fugaku assentiu.

— Eu sabia de tudo sobre você, Kasumi... – Ele baixou a cabeça e se ajeitou na cadeira, desconfortável. – Tudo, exceto quem era você.

Um bolo se formou na garganta de Kasumi.

— “Exceto” quem eu era... – Ela refletiu debilmente. – E não sabia disso porque não descobriu, ou porque não quis descobrir?

A isso, Fugaku não conseguiu responder.

Mas o silêncio dele foi mais do que o suficiente para que assinasse sua culpa.

Por mais que Kasumi desconfiasse de Fugaku, ouvi-lo dizer aquilo da própria boca foi tão intenso que ela mal conseguiu raciocinar. De fato, ficou tão perturbada que levou minutos para se recompor.

— Já é o bastante, senhor Uchiha. – Ela soltou quando finalmente conseguiu colocar a mente no lugar. – Eu... Eu agradeço por suas respostas e... – Ela precisou respirar fundo para prosseguir: — Quero deixar claro que isso não vai mudar minha decisão sobre seu contato com Akane. Não precisa se preocupar com isso.

Fugaku tentou sorrir, mas não sentia nenhum ânimo.

Não sentia nada além de culpa e vergonha.

— Obrigado... – Ele murmurou antes de se levantar.

~

Sakura andava passando tanto tempo na maternidade que, de uns tempos para cá, tinha voltado a refletir sobre o que deveria ou não fazer durante sua especialização.

Mesmo que fosse seu sonho de vida, mesmo que estivesse estudando há tanto tempo, ela não tinha realmente se decidido sobre qual seria seu campo de atuação na medicina.

Ela sabia que Tsunade esperava que ela fosse atuar na área neurológica – que era a área em que a própria Tsunade atuava –, mas Sakura nunca esteve certa em relação a isso.

É claro que ela gostava de neurologia, mas também gostava de cardiologia, pediatria e mais uma dúzia de ias. Por muito tempo havia refletido sobre investir como clínica, ou cirurgiã geral: ela gostava da ideia de cuidar de todo tipo de pessoa, mas esperava que a residência lhe apresentasse as áreas além dos livros, e que assim lhe trouxesse a certeza de que precisava.

Mas a maternidade havia aberto os olhos da Haruno para a neonatologia, uma área em que ela até então não tinha prestado muita atenção. Por mais trabalhoso que parecesse, era realmente gratificante cuidar de bebês, especialmente quando eles demonstravam melhoras tão rápidas, como Akane Uchiha vinha mostrando.

Sakura estava sentada na cantina, refletindo sobre tudo isso e fazendo algumas anotações sobre a última aula prática que tinha tido quando alguém roubou seu sorvete e ela se virou, pronta para discutir com Sasuke.

Desde que Akane tinha nascido, ele estava sempre por lá: todos os dias, em todos os horários de visita, ou para ver a sobrinha, ou para ver a cunhada, e sempre a procurava. Vez ou outra com alguma dúvida boba, que claramente era uma desculpa, mas de vez em quando assumidamente para vê-la.

Ele não tinha tomado mais nenhuma liberdade com Sakura, e era bem verdade que estava se comportando, agindo mais como amigo do que como ex-namorado – ou pretendente –, o que fazia com que Sakura o aceitasse por perto.

Mas roubar o seu sorvete não era uma liberdade aceitável, especialmente quando ela tinha saído de casa sem tomar café, então ela estava pronta para discutir sobre isso quando se deparou com Sasori Akasuna – e não Sasuke Uchiha – apoiado em sua cadeira, lambuzando-se descaradamente com seu sorvete de chocolate branco.

— Sasori?! – Ela pareceu realmente surpresa, e o ruivo lhe piscou.

Sakura bufou, estendeu a mão pro sorvete e o encarou com os olhos estreitos, numa ordem muda; e apesar de o ruivo ter feito uma careta, ele o devolveu enquanto tomava a cadeira ao lado dela.

Numa tentativa de evitar que um pedaço do sorvete caísse, Sakura abocanhou uma área molenga do doce.

— Você tem noção de que acabou de me dar um beijo indireto?

Sasori apoiou a bochecha na mão enquanto a observava; suas sobrancelhas estavam estreitas de um jeito sugestivo, e apesar de Sakura revirar os olhos, pareceu se divertir com a insinuação estúpida.

— É verdade, oras.

— Claro. – Ela deu mais uma lambida. – Eu poderia me preocupar com isso se tivesse quinze anos de idade, mas por sorte esse não é o caso.

Sasori estreitou os lábios e soltou um suspiro ao observá-la.

— Eu tenho que confessar em voz alta: assisti-la tomando esse sorvete foi a coisa mais agradável dos meus últimos dias.

Sakura soltou uma risadinha divertida.

— Está viajando com sua avó de novo?

Ela podia mesmo entender como as viagens com a senhora Chiyo eram cansativas, estressantes e nem minimamente felizes, mas para sua surpresa, Sasori negou, e fez uma careta ainda mais lamentosa.

— Quem dera estar com vovó... É trabalho, Sakura: trabalho escravo.

Ela estreitou uma das sobrancelhas e lhe ofereceu um sorriso de canto, como se não acreditasse realmente no que ele dizia.

— Não me olhe como se eu estivesse mentindo. Estou mesmo trabalhando como um escravo!... Um colega meu teve um filho, e fiquei com o trabalho dele. Pode acreditar nisso?! Agora tenho os meus casos, e os dele: trabalho dobrado, senhorita Haruno, e meus chefes não estão nem aí.

Sakura riu do tom dramático que ele usou.

— Te garanto que não está tendo tanto trabalho quanto seu amigo.

Sakura deu uma mordida na parte dura de chocolate do sorvete, e Sasori fez uma careta dolorida.

Isso não foi muito agradável.

Ela riu mais uma vez, e o golpeou com o ombro.

— Se não está com sua avó, o que faz aqui? – Deu uma última mordida, finalizando o sorvete, e puxou os guardanapos para limpar as mãos.

— Obviamente vim matar a saudade dos seus belos olhos verdes.

Ela estreitou os olhos.

— Eu acabo de dizer que meu colega teve uma criança, mulher! O que mais ia vir fazer no hospital? – Compreendendo, Sakura assentiu. – Mas claro que jamais perderia a oportunidade de cruzar com seus belos olhos verdes.

Ela bufou.

— É verdade, oras...

— Ainda falta um tempo para dar o horário de visitas na maternidade, então não acho que o seu amigo já esteja no hospital... Mas podemos tentar procurá-lo, se quiser. Como ele se chama?

— Ah, não se preocupe. Não precisamos ter pressa, menina Haruno. Pelo que eu vejo. – Ele apontou para a mesa. – Está na sua hora de descanso. Se quiser, podemos tomar mais um sorvete... Ou um lanche, o que acha?

Sakura bufou.

— Sasori...

— Sasori!

.

Sasuke tinha chegado cedo demais, mas não se importou.

Na verdade, até tinha gostado disso.

Sua sobrinha vinha melhorando a cada dia, e hoje completaria uma semana.

Fazia sete dias que Akane Uchiha tinha chegado ao mundo, isso por si só já era o suficiente para ser o motivo da felicidade de Sasuke, mas não era o único: afinal, aquele sétimo dia também significa que ele havia passado praticamente a semana inteira no hospital, o que significava que relembrara praticamente todos os horários de Sakura.

Claro que de vez em quando os horários das pausas variavam, mas no geral, ela tinha um horário bem certo para as pausas, o almoço e o descanso.

Era quase certeza de que Sakura estaria na cantina, e ele poderia facilmente chegar lá como quem não queria nada, encontrá-la coincidentemente e, quem sabe, se juntar para tomar um café.

Sasuke sabia que aquilo não era exatamente certo.

Há quanto tempo ele tinha prometido a si mesmo que iria se afastar dela?... Mas era simplesmente impossível se manter longe de Sakura enquanto freqüentava o hospital onde ela trabalhava o dia inteiro.

E não é como se ele estivesse tentando investir nela... Queria vê-la, é claro. E no geral estava tentando se aproximar, mas não estava forçando nada, nem tentando agir com segundas intenções. Estava agindo como amigo, e nada mais.

Amigos costumavam se encontrar por acaso, não é?

É claro que costumavam.

E foi pensando assim que ele seguiu na direção da cafeteria, certo de que a encontraria, e ainda mais certo de que passariam um tempo tranquilo, conversando como amigos, enquanto ele esperava que a pausa dela acabasse.

Ele sempre encontrava Sakura sozinha em uma das mesas da cafeteria, fazendo anotações enquanto comia ou bebia qualquer coisa – eram sempre novidades. Então ficou realmente surpreso quando a viu àquela manhã.

Sakura ainda estava lá, na mesma mesa de sempre. Estava sentada, e tinha uma embalagem de qualquer coisa deixada de lado, mas sua agenda estava fechada, os olhos verdes brilhavam e sorriam para outro cara.

Sasuke não sabia quem era o indivíduo, mas certamente trabalhava no hospital: o infeliz, que a propósito era ruivo, usava um terno caro, negro e com uma horrenda gravata cor de areia.

Mas o que chamou a atenção de Sasuke não foi o vestuário do maldito imbecil, e sim Sakura, que parecia absolutamente confortável ao lado de seu novo amigo. Tão confortável que Sasuke sentiu seu cérebro explodir de irritação e frustração, e ele mal pôde controlar seus próprios passos.

De fato, só percebeu o que estava prestes a fazer quando alcançou a mesa.

—... tomar mais um sorvete, ou um lanche. O que acha?

Sakura bufou, mas os olhos brilhavam em diversão mal contida.

— Sasori...

E, num estalo, Sasuke o reconheceu.

Sasori Akasuna, amigo de faculdade e colega de trabalho de Itachi na Akatsuki.

— Sasori!

Sasuke falou tão alto que chamou a atenção do casal e de metade da cafeteria, que de repente pareceu muito interessada na vida da jovem residente Haruno, que enrubesceu ao sentir os olhares – que eram em sua maioria de colegas – em sua direção.

— S-Sasuke-kun! – Ela exclamou com censura, as sobrancelhas estreitas.

— Sasuke!

Sasori, sem perceber o mal estar que havia se instaurado entre Sasuke e Sakura, levantou-se rapidamente, e o cumprimentou com um aperto de mão animado e fraternal.

— Há quanto tempo, garoto!... Meus parabéns pela sua sobrinha! – Ele deu um tapa amigável no ombro do Uchiha, que sorriu de um jeito quase mecânico. – E onde está o seu irmão? Preciso tirar algumas dúvidas sobre os casos que ele deixou.

Sakura voltou-se para Sasori, surpresa.

— Esse seu colega é o Itachi-san?

Sasori assentiu, parecendo espantado pelo reconhecimento da amiga.

— Vocês se conhecem?... Ah, é verdade! – Ele estalou o dedo, parecendo lembrar-se de algo importante, e apontou para Sakura. – Então realmente foi você que eu vi no casamento deles!... – Ele sorriu a rosada. – Mas vocês não parecem freqüentar os mesmos lugares. De onde se conhecem?

Sakura estava pronta para explicar quando Sasuke a atravessou.

— Ela é minha...

As palavras se perderam em sua boca, e ele pigarreou.

— Minha...

— Nos conhecemos por Naruto Uzumaki. – Sakura sorriu ao explicar, atravessando Sasuke sem nenhum peso na consciência. – Minha mãe trabalha para os Uzumaki... Ele é um grande amigo em comum, foi quem nos apresentou.

Sasuke não conseguiu evitar: lançou um olhar decepcionado na direção de Sakura, mas ela ainda estava olhando – e sorrindo – para Sasori, que assentiu alegremente perante aquela simples explicação.

E pela primeira vez em uma semana, Sasuke se sentiu mal humorado.

— Meu irmão já está aqui, afinal. Chegamos juntos, e ele foi ver a Kasumi.

Sasori assentiu, e mais uma vez levou sua atenção à Haruno.

— Me leva lá?

Sakura tentou sorrir; apesar de constrangida, ela claramente estava pronta para aceitar o convite do Akasuna – se é que aquilo podia ser chamado de convite –, e Sasuke sabia que – por mais frustrante que isso pudesse ser – não poderia intervir.

Ele estava pronto para pelo menos se oferecer a acompanhá-los quando sentiu alguém envolver seus ombros de um jeito íntimo demais.

— Eu estava te procurando, querido...

A voz soou suave e provocativa ao pé de seu ouvido.

Uma voz que Sasuke conhecia perfeitamente.

E Sasuke teve certeza de que hoje devolveria aquele soco a Naruto.

Notas finais
Faltam três capítulos para chegarmos ao fim! Tia Candy está tão ansiosa~~!! Vou me esforçar muito para terminar a história ainda esse ano! n.n ~ Tenho que dizer que demorei pra postar porque 1) estava passando por uns perrengues comigo mesma, e 2) estava me esforçando por conta de outra história, também muito importante, que eu sei que alguns leitores vão ficar muito felizes em saber que está prestes à voltar! Eu não vou me prolongar nas notas porque, bem... tenho algumas coisas pra fazer. ~ Eu vou tentar aproveitar a semana para responder os comentários. Tudo anda muito difícil porque eu ando meio sem tempo, mas vou me esforçar! n.n Quero agradecer a todos que reservam um tempinho para vir comentar o capítulo, isso é muito importante para a tia Candy sz~ Espero que tenham aproveitado o capítulo! Até a próxima! sz~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.