50 Tons De Uchiha
16 Estranhos Sentimentos.
Notas iniciais
Capítulo 16 – Estranhos Sentimentos.
Durante vinte anos, Obito nunca pensou na possibilidade de constituir uma família, pois estava suficientemente ocupado tentando recuperar a mulher que amava. Ele havia amargado a morte do filho, quando os pais de Rin lhe contaram suas mentiras, mas nunca havia tido tempo para ficar realmente triste.
Não até agora.
Obito tinha passado vinte anos à procura da esposa, e encontrar Rin o aliviava de uma maneira indescritível... E, ao mesmo tempo, ele se sentia mal, triste, já que vê-la naquele estado o fazia lembrar-se de sua incompetência.
Mas ver Kasumi era muito pior.
Pensar em sua filha ou estar ao lado dela... Era muito mais doloroso. Não apenas por sua insistência em afastá-lo, mas porque isso o fazia pensar no que poderia ter sido.
Se ele não tivesse ido até o exterior com Kakashi, não seria tão rico. Talvez trabalhasse em alguma empresa meia-boca, talvez fosse um assalariado, mas sem sombra de dúvidas, seria feliz.
Se ele tivesse ficado ao lado da esposa, cuidaria dela.
Eles teriam ficado muito felizes quando descobrissem sobre o bebê, e fariam planos intermináveis.
Sua filha seria criada em um lar tranquilo e estável. Ele não tinha dúvidas de que Kasumi continuaria uma teimosa, assim como ele, mas imaginou que, se criada pela mãe, ela seria mais dócil.
Talvez ela não fosse tão forte quanto se mostrava agora, mas não precisaria disso, porque ele estaria lá para protegê-la. Estaria lá para ser forte por ela. – Está doendo? – A voz hesitante da médica soou, despertando-o de seus devaneios, e só então o senhor Uchiha percebeu que chorava.
Ele sorriu, constrangido, e limpou o rosto. – Devo estar grogue da anestesia. – A médica pareceu aceitar aquela desculpa, mas seus parentes não.
Obito odiava chorar. Especialmente com plateia, especialmente quando tinham Uchihas como plateia, ainda que fossem Suzuki e Itachi.
Não que ele não confiasse nos dois, mas sabia que, assim como ele os amava, eles também o amavam, e se preocupavam. E a preocupação de Suzuki, em especial, podia causar muitas dores de cabeça ao empresário, já que ela provavelmente as comentaria com Mikoto. – Essa foi uma cirurgia séria, senhor Uchiha. Foi um acidente feio. Teve muita sorte, por pouco perderia os movimentos da perna esquerda. – O homem anuiu.
— Eu fico grato por ter cuidado de mim. – Ele baixou a fronte em reverência. Shizune deu os ombros.
— Passará sessenta dias em repouso. – Ele fez uma careta. – E também vai precisar de algum enfermeiro, ou alguém da família para auxiliá-lo.
— Se conhecer um-... – Suzuki o encarou como se pudesse matá-lo, antes de sorrir para a médica gentilmente.
— É claro doutora. Por favor, me passe todos os procedimentos, eu mesma vou cuidar do meu irmão. – Obito estreitou as sobrancelhas, hesitante quanto às palavras da irmã. Suzuki havia estudado enfermagem por um ano e meio. Ela não teve oportunidade de se formar, graças ao seu casamento, mas sonhava cuidar dos outros.
— Você não precisa, Suzuki. – O Uchiha se apressou ao dizer, além de Rin e Kasumi, ele temia que o cunhado pudesse desagradar-se por ver a esposa trabalhando.
A mãe de Hinata estreitou as sobrancelhas. – É claro que eu preciso, onii-san! – Ele hesitou um pouco.
— Doutora Shizune, poderíamos falar lá fora? – Itachi pediu ao reparar a tensão nos olhos do tio. É claro que ele não poderia explicar nada da situação enquanto estivessem ali pessoas que não pertenciam à família.
Shizune pareceu perceber isso, e constrangeu-se. Levantou-se num pulo. – Decidam-se com calma. – Aconselhou. – O senhor deve passar esta noite aqui, em observação. – Avisou antes de se retirar.
Obito suspirou longamente, mas não tinha como não ser assim. Ele estava agonizando: saber que tinha pinos de metal na perna definitivamente não deixava uma sensação agradável, e ele não sabia o que podia acontecer depois que a anestesia perdesse o efeito. Sim, era natural que ele ficasse em observação. – Onii-san, eu estou preocupada com você. – Suzuki murmurou; aproximou-se e puxou as mãos do mais velho gentilmente. – Não nos vemos há anos, e quando nos vemos... – Obito suspirou longamente.
— Desculpe Suzuki. Você deve estar assustada... – Ela assentiu.
— Você precisa de ajuda. Por que não ficar conosco? Hanabi voltou para casa, tenho certeza que ela e Hinata vão adorar conhecê-lo. – Ele sorriu, constrangido. Fazia anos que não conversavam, e ainda assim Suzuki tentava agir como se sempre estivessem juntos.
— Eu não posso ficar na sua casa, Suzuki... – Ele ergueu os olhos negros com hesitação; a mulher parecia decepcionada, e até magoada. – Não me entenda mal, adoraria ficar com você, irmãzinha. – Ele bagunçou os cabelos dela, exatamente como costumava a fazer na infância, mas diferente de antes, Suzuki não reclamou. Estava muito séria, na verdade. – Mas... Eu preciso ficar com minha esposa. – Ela pasmou. Por um instante, não conseguiu dizer nada, mas então tentou:
— N- Não tem nenhum problema... Eu gostaria de conhecer minha cunhada, e... – Mas ele negou.
— Você conhece sua cunhada, é a Rin.
—... Rin? – Ele assentiu. – Rin Nohara?
— Rin Uchiha – Corrigiu-a. – Eu fugi para ficar com ela. – Aquilo a surpreendeu tanto que ela não soube o que dizer.
Suzuki nunca tinha se apaixonado, portanto, não conseguia visualizar-se indo contra os conselhos – que eram mais ordens – de seus pais e fugindo com qualquer homem. Mas ela sempre soube que o irmão era diferente.
Diferente dela e de Fugaku. Era como se ele tivesse nascido para seguir uma vida, e isso o tornava diferente de todos os Uchihas até então. – Mesmo assim, nós podemos arranjar um quarto onde vocês dois-...
— Ela está doente. – Obito disse antes que ela pudesse terminar. Suzuki lamentou-se, mas não conseguiu verbalizar isso.
Os olhos escuros da senhora Hyuuga caíram ao chão, tristonhos, e ela mais uma vez não soube o que dizer. Àquela altura, nem mesmo se lembrava do acontecimento na mansão Uchiha. – Muitas coisas aconteceram... – O empresário disse, suspirando. – Ela está passando por um tratamento psicológico, talvez volte a ser quem era gradualmente, mas... – Os olhos negros se estreitaram. -... Desculpe, eu não quero falar disso. – Suzuki não discutiu.
Tentou sorrir novamente e apertou as mãos do irmão. – Como quiser. Eu estarei aqui, quando se sentir bem para dizer. – Ele concordou. – Eu mesma vou arranjar um bom enfermeiro, ou enfermeira para cuidar de vocês dois. – Garantiu. – E prometo estar presente sempre que puder, para ajudar. – Obito agradeceu sinceramente, e abraçou-a.
Era estranho contar com a família, mas ele estava feliz por menos um de seus irmãos, ser decente. – Mudando de assunto... – Viu-a estreitar as sobrancelhas perfeitas, adotando uma postura furiosa. – Por acaso você tem ideia de quem foi o marginal que o atropelou?
— Ela não é uma marginal! – Tanto Itachi, que havia acabado de voltar ao quarto, quanto Obito exclamaram com irritação, tanta que assustou a desinformada senhora Hyuuga.
— Você quase ficou manco! – Obito desviou o olhar.
— Eu fui estúpido, me meti na frente do carro. – A Hyuuga revirou os olhos.
— Não é desculpa para alguém passar por cima. – Ele não quis rebater. Itachi respirou fundo, balançou a cabeça e deu os ombros.
— Tio, eu consegui que a Rin fosse liberada com o senhor. – Obito anuiu. – Posso ficar com vocês até conseguir uma enfermeira. – O mais velho sorriu agradecido, e baixou os olhos.
Olhar para Itachi o fazia se lembrar de Kasumi. – Você precisa de mais alguma coisa? – Percebeu o tom ansioso na voz do sobrinho. Ele ergueu os olhos até os de Itachi, fitando-os seriamente.
— Eu estou preocupado com ela.
—... Eu também... – Obito baixou o olhar. – Mas o senhor não pode ficar nervoso... – O mais jovem suspirou longamente, enquanto coçava a nuca. – Não se preocupe, eu vou vê-la.
~
Sasuke não conseguiu mover um músculo.
Estava simplesmente... Chocado.
Sakura Haruno era, sem sombra de dúvidas, a mulher mais difícil por quem ele tinha se interessado. Ela era teimosa, cabeça dura e estupidamente mentirosa consigo mesma. Então, ouvi-la verbalizar suas saudades foi simplesmente chocante.
Ele estava tão surpreso que não conseguiu falar nada para se expressar. Quando ela o beijou, foi como se algo estalasse em sua mente.
O beijo dela foi calmo e romântico, assim como a própria Sakura devia ser em seu íntimo, e ele adorou isso. Tanto, que quando ela fez menção de se afastar, não conseguiu permitir: envolveu-a com os braços e tornou a beijá-la.
Sasuke já havia beijado muitas mulheres ao longo de sua vida, mas nunca havia se sentido tão estranho quanto agora.
Sakura era surpreendentemente desajeitada, mas mesmo assim, muito carinhosa. Ela alisou seu rosto, e depois deslizou ambas as mãos até os cabelos molhados do senhor Uchiha, que se deleitou com o carinho.
Mas então ela simplesmente afastou os lábios. Tinha no rosto um sorriso travesso, que fez Sasuke se sentir estranho. – Eu estava morrendo de saudades, e por isso fui atrás de você... – Ela murmurou baixo, e deslizou o indicador pelo lábio inferior do rapaz, que enrijeceu. – Mas então você fez aquilo. – Ele não respondeu; estava hipnotizado pelos orbes esverdeados. – Você me fez lembrar que é um maldito calhorda... – Ela beijou-lhe o lábio inferior. Sasuke sabia que só o estava provocando, mas não conseguiu resistir. – Então, mesmo que eu vá sentir muita falta de você... Por favor, peço que se afaste. – Ele negou com a cabeça, e Sak sorriu.
Beijou o queixo de Sasuke, que suspirou, e se esquivou do aperto enquanto ele estava “fora do ar”. Ele parecia tão atordoado que não pôde fazer muito além de vê-la sorrir, recuar até dentro de casa e murmurar: – Adeus, Sasuke-kun. – Antes de fechar a porta. Só então pôde notar o tamanho de sua cara de taxo.
Sasuke levou um minuto inteiro para entender o que ela tinha feito, e ficou muito irritado quando conseguiu.
A safada o tinha seduzido para se livrar dele! – Sakura! – Ele exclamou frustrado, e começou a bater na porta. – Abra isso! – Exigiu com irritação. Podia imaginá-la sorrindo do outro lado da porta. – Eu não vou sair daqui até você abrir!
— Boa sorte com o resfriado amanhã, então! – Ouviu-a dizer.
— Sakura! Eu falo sério! – E tornou a bater na porta, mas ela não respondeu novamente.
~
Hinata já estava livre da maquiagem, do cabelo armado e das roupas decotadas.
Incrível como em questões de curtos minutos ela podia se sentir tão diferente, apenas pelo fato de estar vestindo o que usava casualmente: um vestido simples, bonito e de renda, que ia até os joelhos, azul escuro. Mas, embora se sentisse diferente de quando estava no palco, não se sentia a mesma de sempre.
Exceto por Naruto.
Exceto pelos únicos sentimentos que ela realmente queria mudar.
Sua coxa ainda latejava, graças ao beijo cruel que ele havia dado; sentia o corpo tremer, apenas por lembrar-se daquela situação de uma ou duas horas atrás, e isso era tão... Intenso, que ela não sabia mais como poderia encará-lo dali para frente. – Você continua linda. – Ouviu Kiba sussurrar às suas costas. Ele envolveu sua cintura e beijou-lhe o rosto. – Mas tenho que admitir, eu fiquei um tanto... Animado, com sua versão sexy. – Murmurou com um sorrisinho malicioso. Hinata se esforçou muito para sorrir em resposta, e rezou para que ele pensasse que seu silêncio dava-se ao nervosismo. – A sua irmã está lá fora. – Ela estreitou as sobrancelhas, surpresa.
— Mas é quase uma da manhã...! – Ele deu os ombros.
— Vamos, ela e aquela Menma querem te parabenizar. – E sem esperar uma resposta, puxou-a pela cintura.
Hinata estava ansiosa, e não se surpreendeu quando encontrou os três – Naruto, Menma e Hanabi – juntos sentados em uma mesa da boate; ele lhe lançou um sorriso irritante, que ela fingiu não ver.
Menma e Hanabi levantaram-se num pulo para agarrar a moça, embora a Uzumaki não tivesse os mesmos motivos da Hyuuga – na verdade, ela só queria afastar o tal Kiba de sua cunhada em potencia. – Você estava linda, onee-chan! – Hana exclamou orgulhosamente.
— Estava mesmo. – Menma concordou. – Não é, onii-san? – E olhou sugestivamente na direção do irmão, que ergueu o copo de uísque. Hinata sentiu-se despida diante do olhar do amado, e odiou a sensação de ter borboletas em seu estômago.
— Sim, ela estava linda. – Kiba concordou. – Mal posso esperar para que aceite fazer parte do grupo. – Naruto riu enquanto bebia.
— Você não sabe? Hinata é tímida demais para uma vida de estrelato. – Embora estivesse visivelmente querendo levar vantagem da convivência com a Hyuuga, Menma percebeu que o irmão estava incomodado com a possibilidade. – Ela nunca vai aceitar. – A irmã mais velha das Hyuuga estreitou as sobrancelhas.
— Por que eu não aceitaria? – Ela tentou conter o nervosismo na voz. – Por acaso não acha que eu tenho naipe pra ser cantora? – Ele pareceu se surpreender com a exaltação dela, mas então baixou o olhar, pensativo.
— Você tem uma boa voz. – Foi o que disse. Hina apertou os punhos.
— Pois eu acho que tenho mais que isso. – Ele a olhou de canto, surpreso. Hinata não era o tipo de pessoa que se dava méritos.
— Você não precisa disso. – O loiro disse simplesmente, desviando os orbes azuis para o copo de uísque.
— Talvez eu precise. – Ela decidiu de repente, surpreendendo a todos. – Talvez eu precise abrir meus horizontes. – Concluiu, sem tirar os olhos do amado.
Menma e Hanabi se entreolharam, preocupadas, mas preferiram ficar em silêncio. Naruto praguejou baixo antes de se levantar para confrontá-la; estavam perigosamente próximos. – Você não tem porque fazer isso. – Disse-lhe entre dentes. – Só vai se expor! Expor sua família! Você não é desse tipo.
— Ah, claro. Você entende muito sobre o tema “expor a família”, não é Naruto? Mas não se preocupe. A minha imagem não ficaria manchada se eu começasse uma carreira no mundo artístico. Ficaria se eu saísse de bar em bar ficando com qualquer homem que me desse confiança! – Ele bufou.
— E o que é que isso tem a ver com aquilo? Eu sou homem, Hinata! As coisas são diferentes para mim, e para você. Além disso, você vai sim se expor, se ficar dançando feito uma qualquer em cima de um palco, — apontou na direção do palco – como fez hoje! – E mais uma vez sentiu a incômoda pressão no rosto.
Dois tapas em um dia só! E por autoria de Hinata Hyuuga. Ele devia estar batendo o Record de excesso de estupidez.
Praguejou alto, e estava a ponto de voltar à discussão, mas Kiba interferiu, afastando-o de maneira cautelosa. – Já chega. – Pediu calmamente. – As pessoas vão começar a comentar. – Naruto olhou à sua volta e viu que, de fato, algumas pessoas observavam a discussão. – Hinata, você tem o tempo que quiser para pensar no que vai fazer. Mas... – Ele olhou com desdém na direção do rival. – Você estava linda hoje, perfeita. Sensual, mas não vulgar. – E tornou a fitar a namorada; alisou seu rosto na tentativa de acalmá-la, mas ela estava estática. – Você tem o tempo que quiser para pensar. – Garantiu mais uma vez, carinhosamente.
— Não preciso de tempo. – Ela disse decidida. – Se ainda me quiserem no grupo, eu topo. – Mas Kiba não pôde ficar feliz, porque nem por um segundo sequer os olhos dela pararam de fitar os de Naruto, e o Inuzuka soube que ela só estava fazendo isso para desafiá-lo, que só fazia isso pelo maldito Uzumaki.
~
Eram duas da manhã quando Kasumi Aihararesolveu voltar para casa.
Ela havia passado a noite inteira sentada num bar, mas para sua infelicidade, mesmo naquele momento trágico de sua vida, era forte demais para se sentir minimamente alterada com o álcool.
Subiu as escadas lentamente, enquanto amargava sua própria desgraça.
Em toda sua vida, Kasumi Aihara nunca tinha se sentido tão miserável quanto se sentia agora. Era como se o mundo estivesse de cabeça para baixo!
Por que, ela não deixava de se perguntar, por que diabos aquele homem tinha que aparecer?! Ela não conseguia pensar em uma resposta que não fosse “arrependimento”. Sim, ele só podia estar arrependido. O maldito era rico, influente e bonito o suficiente para conseguir outros filhos.
Kasumi suspirou longamente, e balançou a cabeça em negação. – Acho que estou bêbada pra ficar pensando nessas coisas. – Falou para si mesma.
Quando enfim havia alcançado o quarto andar, onde ficava seu apartamento, sentiu o corpo paralisar.
Itachi estava reencostado ao lado da porta de seu apartamento, com as mãos nos bolsos do casaco aparentemente molhado, e Kasumi percebeu que devia mesmo estar bêbada, pois o Uchiha nunca havia lhe parecido tão lindo quanto agora. E, mesmo nas vezes em que eles ficavam distantes, graças às viagens de negócios que ambos eram obrigados a fazer, ela nunca ficou tão sensibilizada ao reencontrá-lo.
Estava emocionada, mas obrigou-se a controlar a respiração de maneira discreta, e piscou rápido para não chorar.
Itachi desencostou-se da parede e aproximou-se, ficando em frente a ela. – Onde você estava? – Questionou-a com a voz tranquila, mas ela o conhecia o suficiente para saber que estava irritado.
— Isso não te interessa. – Murmurou antes de desviar o olhar.
—... Onde você estava? – Ele tornou a perguntar, e Kasumi suspirou.
— Eu estava em um bar. – Confessou; seguiu para a porta do apartamento e vasculhou a bolsa em busca do estúpido molho de chaves – que parecia sempre sumir nas horas mais inapropriadas.
— Nós temos que conversar. – Ela não discordou, mas precisava se sentar. Começava a se sentir zonza, e isso não era bom. Itachi percebeu, enquanto ela caminhava ranzinza até a sala de estar, obrigando-o a fechar a porta.
Ele seguiu desconfiado e sentou-se ao lado dela. – Você está bem? – Ela anuiu.
— Não bem, mas bem o suficiente. – Esclareceu com um suspiro. – Eu bebi demais, estou um pouco enjoada. – Confessou. Ele arqueou a sobrancelha em reprovação. – Precisava me distrair.
— O que você precisava, Kasumi, era socorrer o seu pai. Sabia que ele quebrou a perna? Por pouco não ficou manco. – Aquilo a surpreendeu, tanto que ela não conseguiu saber o que dizer. Não podia imaginar que havia batido com tanta força – mas pensando bem, estava tão emocionada durante toda a situação que não tinha como se lembrar da aceleração do carro. – Ele precisa de alguém para ajudá-lo na recuperação, você devia ir. – Kasumi pareceu considerar a ideia tão absurda quanto o holocausto. – Ou então ao menos devia se desculpar. – Tentou sugerir, mas ela revirou os olhos.
— Eu não vou me desculpar! – Exclamou irritada. – Foi ele quem se jogou na frente do meu carro!
— Isso porque queria conversar. Além do mais, nós dois sabemos que não te dá o direito de passar em cima do seu pobre homem.
— Que de pobre, não tem nada. – Ele pôde notar a amargura na voz dela, e suspirou longamente.
— Kasumi, você atropelou o seu pai! – Exclamou. Ela parecia não entender a gravidade da situação, mas sua resposta foi um dar de ombros, muito desdenhoso.
— Me processe. – Sugeriu, cheia de sarcasmo, mas então, em seus olhos, algo brilhou. Como se ela tivesse acabado de perceber algo importante.
Ela virou o rosto lentamente na direção do amado; os olhos castanhos tremiam, assim como os lábios róseos. -... Foi você... – Disse de repente. – Foi você, não é?! – Exclamou com a voz um pouco mais alta, levantando-se imediatamente. – Não faz tanto tempo que ele chegou ao país. Com toda a burocracia no sistema de adoção, ele não poderia me encontrar tão facilmente. – O rapaz também se levantou. – Foi você! Descobriu que eu era a filha dele, e deu meu endereço! – Ela pôde perceber que Itachi não negou nenhuma acusação, e isso a machucou. Muito.
Ela sentia o corpo tremer. – Você... Você! – Berrou, apontando-lhe o dedo. – Eu nunca vou perdoá-lo por isso, Itachi! Nunca! – Disse aos gritos; sentia as lágrimas banhando seu rosto, mas não se importou. – Por que você fez isso?! Não pode ter ideia do quanto é difícil, do quanto é doloroso para mim! – Gesticulava com as mãos, perturbada. – Eu nunca quis conhecê-los! Nunca os quis por perto! Então porque você o trouxe?! Porque permitiu que aquele maldito homem entrasse na minha vida?! – Sentia como se seu peito fosse explodir. – Eu sofri como um cão abandonado, graças àquele maldito! – Mesmo ela se surpreendeu com a altura de sua voz. – Eu fui abandonada! Tem ideia do quanto isso dói? Do quanto fere saber que nem os seus pais, as pessoas que mais deviam amá-lo, não te queriam?!
Itachi estreitou os olhos; ele odiava vê-la sofrendo. Aproximou-se ainda mais, e agarrou-a pelos antebraços, fitando-a seriamente. Kasumi continuou chorando, desesperadamente, como uma criança em agonia. – Não foi culpa deles, Kasumi... – Tentou dizer. – Não foi culpa deles então, por favor, deixe seus pais se aproximarem.
— Não! – A resposta dela foi um grito estridente.
— Vocês tem que superar juntos, como uma família. – Ele tentou ponderar.
— Não! – Ela tornou a exclamar. – “Juntos”, “família”... Graças a eles, essas são duas das palavras que não constam no meu vocabulário! – Estava fora de si. – Tudo o que eu tenho; tudo o que eu fiz... Tudo que conquistei, foi sozinha! – Bateu em seu próprio peito. – Por mérito próprio! Pelo meu próprio esforço! – Ele franziu o cenho, e forçou seu aperto, obrigando-a a se aproximar.
— Acha que eu não sei por que me rejeitou?! – Questionou com os olhos semicerrados. – Acha que eu não sei por que tem tanto medo de formar uma família?! – Ela empalideceu. – Eu te conheço melhor do que ninguém, Kasumi. Você foge da possibilidade de ter uma família como o diabo foge da cruz! E não é porque não quer ter uma família! – Puxou-a mais, e abocanhou seus lábios, violento e necessitado.
Kasumi cogitou esquivar-se. Cogitou afastar-se, mas a verdade é que o amava, e sentia falta de tudo o que se relacionava ao advogado, então retribuiu, até ele mesmo se afastar. O rapaz encostou a testa na dela, e tentou se concentrar, mesmo que suas respirações mescladas os deixassem tão agitados – especialmente depois de tanto tempo de afastamento. – Eu seu que você me ama... E por isso, sei que vai me perdoar pelo que vou dizer agora... – Encarou-a. – Você é uma covarde. – Ela fungou. – Uma covarde. – Repetiu; ela balançou a cabeça freneticamente, e o empurrou furiosa.
— Eu não sou covarde! Sou forte! Cresci forte! Sem família, sem amor... Mas o que você entende disso, não é? Afinal, você é Itachi Uchiha! – Aumentou a voz ao pronunciar seu nome. – O primogênito do primogênito dos Uchihas! Filho do grande Fugaku, e da adorável Mikoto! – Ele estreitou os lábios. – O que você pode entender? – Ela limpou o rosto, furiosa. – O que pode entender, não é? Para alguém como você, que nasceu num berço de ouro dentro de uma bola de cristal, não dá para sentir empatia por uma pobre medíocre abandonada. Você nunca entendeu, e nem nunca vai entender o que eu sinto! – Apertou os punhos.
Ele xingou alto e alisou os cabelos, exasperado. – Kasumi! – Exclamou. – Você tem ideia do quanto eu a amo? Do quanto me dói vê-la nesse estado?! – Ela desviou o olhar. – Acha mesmo que, se não fosse pelo seu bem, eu o teria trazido até você?! – Kasumi riu sem nenhum humor.
— É claro que traria! Afinal, ele é o seu amoroso tio! O que custa fazer um favor a um parente adorado?! – Ele apertou os punhos, e sua última gota de paciência se foi.
— O seu pai não é culpado. – Ele murmurou de maneira firme. – Ele nunca a abandonaria. – Ela tornou a chorar, e sentou-se no sofá. Sentia sua cabeça girar como um inferno; sentia vontade de morrer. Queria que o maldito álcool fizesse algum efeito para tirá-la daquela dor.
Itachi se aproximou, ainda furioso; agachou-se à altura da amada e segurou seu rosto firmemente, obrigando-a a olhá-lo nos olhos. – Você é Kasumi, não é? É uma sobrevivente. A garota mais forte, mais inteligente que eu conheci na vida. – Ela se encolheu. – Já que é uma jornalista tão corajosa, não seja uma pessoa tão covarde. – Mais uma vez, a moça negou com a cabeça de maneira frenética, mas não conseguiu verbalizar uma resposta.
Itachi nunca a havia visto tão desesperada, e aquilo o desolou. Ainda assim, ele tinha que ser firme. Se não fosse, talvez ela nunca soubesse a verdade, e Kasumi merecia saber sua história. – Sua mãe está doente. – Ele a avisou. Kasumi escondeu o rosto com ambas às mãos.
— Eu não ligo... Eu não ligo... – Repetiu três vezes, como se assim pudesse convencê-lo, como se assim pudesse convencer a si mesma.
— Ela está doente, pelo amor de Deus! – Enfim Itachi gritou. – Ela foi a maior vítima de toda essa história, então nem que seja por humanidade, vá vê-la! – Mandou, mas ela não parava de negar. Itachi suspirou de maneira agonizante. – Pelo amor de Deus, Kasumi... Pare de se comportar como se estivesse para morrer...
— Pare de me machucar! – Ela implorou, e ele percebeu que não podia fazer mais nada. Levantou-se lentamente; beijou a cabeleira castanha, murmurou um “eu te amo” e seguiu para fora do apartamento rezando para que sua conversa tivesse despertado algo a mais na amada.
Nem por um segundo Itachi cogitou contar a história ele mesmo. Imaginava que não seria justo, nem com Kasumi, nem com Obito.
E depois de tudo o que pai e filha haviam passado, eles mereciam esse momento.
~
Sasuke espirrou pela vigésima vez, e se encolheu no canto da porta de Sakura.
Estava ali há horas, sentado, molhado e irritado. Já tinha ligado para o celular da Haruno uma centena de vezes, mas ela parecia disposta a matá-lo.
Ele se recusava a voltar para casa sem uma última conversa com a rosada. Recusava-se a sair daquele lugar sem beijá-la mais uma vez, mas ela claramente queria se vingar pelo flagra.
O ponto de sua esperança apareceu quando Ino surgiu de um carro desconhecido; ela desceu agarrada a um rapaz estranho, que Sasuke não reconheceu imediatamente, mas parecia se vestir como um clássico rock star.
O Uchiha levantou-se, ansioso, e torceu para que a senhorita Yamanaka estivesse tão bêbada quanto Naruto costumava ficar, quando saia para se divertir, e quase soltou um urro de aleluia quando a viu tropeçar nas escadas.
O homem a ajudou, e guiou-a até a porta do apartamento.
A loira estreitou os olhos, desconfiada, ao ver Sasuke. O Uchiha tentou dar seu melhor sorriso, mas foi atrapalhado por um espirro nada galanteador, que fez Ino gargalhar. – Faz quanto tempo que está aqui? – O moreno estreitou os lábios, e deu os ombros.
— O suficiente, para meu gosto. – Ela riu mais uma vez.
— Venha, você pode entrar... Mas se fizer alguma coisa com a Sak... – Estreitou os olhos azuis de maneira ameaçadora. – Eu. – Apontou para si mesma. – E o meu Sai lindo. – Apontou para o outro rapaz, que parecia sóbrio o bastante para aproveitar bem a noite ao lado da ninfomaníaca. – Nós dois vamos matáá-lo! – Ele engoliu uma risada, e concordou.
Viu ansiosamente a Yamanaka colocar, com lerdeza quase cruel, a chave na fechadura e abri-la.
Ino estava tão bêbada que, assim que entrou na casa, se atracou com o tal Sai, e sem nem mesmo pensar em fechar a porta – coisa que ele fez, naturalmente – seguiu para seu quarto.
Sasuke balançou a cabeça, lamentando-se pela imprudência da melhor amiga de Sakura, e se perguntou como as duas, mesmo tão diferentes, podiam ser tão amigas.
Ele deu os ombros para si mesmo, aquilo não importava agora. Foi até a porta do quarto sabia ser o de Sakura – havia perguntado à Ino, em sua segunda aparição na casa – e bateu à porta.
Ela não respondeu, e aquilo o incomodou. Mesmo assim, tentou bater de novo, e mais uma vez não foi respondido. Sasuke sentia que sua cabeça podia explodir a qualquer minuto.
Os gemidos que soaram do quarto de Ino – ela era surpreendentemente escandalosa! – começaram a incomodá-lo, e Sasuke começou a bater de maneira constante no quarto da senhorita Haruno, que em três minutos resolveu atendê-lo.
Ela provavelmente estava à espera de Ino, então ver Sasuke a fez empalidecer.
Isso era muito bom, ele pensou.
Entrou sem pedir permissão, puxou-a pela cintura, sem se importar em molhar o pijama branco de algodão e abocanhou seus lábios de maneira tão brutal que fez a pobre estudante cambalear.
Ele se aproveitou disso, adentrou mais no quarto e empurrou a porta com um dos pés, sem nunca parar o beijo.
Surpreendentemente, Sak não pareceu resistir tanto, passado menos de cinquenta segundos; as mãos que inicialmente empurravam o peito do senhor Uchiha começaram a acariciá-lo. Ela deslizou-as até sua nuca, alisou-a e puxou-o para si, tão desejosa quanto o próprio Sasuke.
O senhor Uchiha rugiu entre seus lábios. – Você é terrível, garota... – Acusou-a, deslizou as mãos hábeis até suas nádegas, e apalpou-as; sentiu Sakura enrijecer, e se deliciou com isso. Tanto, que podia jurar se sentir tonto.
— S- Sasuke-kun! – Ela exclamou, constrangida, mas ele não se importou. Guiou-a até a cama, empurrou-a e se pôs sobre ela.
Sakura estava atordoada; mal havia acordado, pelo amor de Deus! E já estava sendo atacada daquela maneira.
Sentiu-se tremer, quando as mãos gélidas do moreno agarraram suas coxas, deslizando até o canto interior do seu joelho; ele ergueu-a, fazendo a Haruno enrubescer. Sakura bem que tentou impedi-lo, tentou dizer palavras que o fizessem parar, mas se calou assim que os lábios do empresário colaram em seu pescoço. – Eu estou furioso... – Ele disse contra sua pele. – E vou me vingar do jeito mais prazeroso possível. – Afirmou, decidido.
Sakura sentiu seu estômago fechar. Não... Aquilo não podia estar acontecendo!
Era apavorante, e ao mesmo tempo...
Sentiu-o mordiscar seu ombro e ouviu-se gemer. Ela! Gemendo! Quis se matar por isso. – Senhor Uchiha, por favor! – Insistiu, mas Sasuke não parecia disposto a desistir. As mãos dele deslizaram suavemente até o short fino do pijama, e Sakura congelou. – Isso não é nada agradável! – Exclamou de maneira tão rude que o paralisou.
Sasuke se esquivou; sentou-se sobre a cama, confuso e atordoado, e olhou para Sak como se ela fosse um tipo de alienígena. – O que quer dizer...? – Ele questionou lentamente, e Sak revirou os olhos verdes.
Sentou-se, ajeitou o pijama agora levemente transparente e tentou esconder os seios com os braços cruzados. – Eu não faço sexo casual, lembra-se? – Ele assentiu lentamente, e pôs a mão sobre a cabeça.
Por que diabos tudo estava girando? – Eu sei que não está acostumado com pessoas decentes, senhor Uchiha, mas eu não quero isso! – Ela sentiu-se enrubescer. – E- Eu... – Gaguejou, sem jeito. – Eu quero um relacionamento sério, digno! – Mas calou-se quando o viu desabar na cama.
Sakura ficou tão surpresa que demorou cerca de um minuto para verificar o corpo inerte, e se apavorou quando viu que ele estava ardendo em febre.
Ela praticamente pulou da cama, e cautelosamente tirou-lhe os seus sapatos, as meias, o casaco e a camiseta, tudo estava encharcado! Mas não conseguiu ser indiferente quando alcançou as calças. Era estúpido, ela sabia. Seria uma médica! Não podia hesitar assim em tirar as calças molhadas de um homem que ardia em febre!
Ainda assim, pensou ser mais prudente ir até o quarto de Inoichi.
O senhor Yamanaka se sentiu muito irritado por ser acordado, especialmente pelo fato de ser obrigado a ouvir sua filha gemer indecentemente, mas aceitou ajudá-la após ouvir o relato.
Ele pegou um conjunto de moletom e seguiu até o quarto da Haruno, onde fez todo o trabalho. Sakura só voltou ao cômodo quando o pai de Ino lhe deu certeza de que o senhor Uchiha estava vestido de maneira decente. Agradeceu sinceramente ao senhor, desculpou-se pelo incômodo e permitiu que ele voltasse ao seu próprio quarto, garantindo que ela seria capaz de cuidar do rapaz agora.
Ela o fez beber um antitérmico, trocou os lençóis que ele mesmo havia molhado durante o ataque e encobertou-o com um edredom grosso. Colocou toalhas molhadas com água quente sobre sua testa. Toalhas, que, a propósito, trocou por boa parte da madrugada, até que a febre acabasse.
Sasuke delirou a noite inteira, disse os nomes de todos os Uchiha que ela conhecia – de nome, é claro – e até mesmo brigou com alguns deles, divertindo-a.
Deviam ser quase cinco horas quando ele abriu os olhos negros. Sakura estava dormindo ao seu lado, sentada na cama de um jeito visivelmente desconfortável.
Sasuke não conseguiu se lembrar de muita coisa depois de invadir o quarto da rosada, mas pôde concluir, pela toalha gelada em sua testa e a bacia colocada sobre o criado mudo, que ela havia lhe cuidado.
Aquilo o deixou feliz, porque significava que, ainda que ela fosse uma mulher estupidamente teimosa, se importava com seu bem estar.
Suspirou longamente, balançou a cabeça, lamentando-se pela teimosia da moça. Após livrar-se da toalha e afastar a bacia com água – agora gelada – ele puxou-a para ao seu colo cautelosamente, tomando cuidado extremo para não acordá-la, e deitou-a de maneira decente. Ela se remexeu, mas parecia cansada o suficiente para não abrir os olhos até o meio dia, e ele considerou que aquilo era muito bom.
Deitou-se ao lado dela, envolveu sua cintura possessivamente e deliciou-se com o cheiro de cereja que exalava dos cabelos róseos.
Ele riu. – Shampoo de cereja, hein... Você é muito estranha, senhorita Haruno... – Beijou-lhe os cabelos carinhosamente, e sentiu-a encolher-se entre seus braços.
Ele nunca tinha experimentado a sensação de ter uma mulher em seus braços de um jeito tão inocente, mas surpreendentemente agradou-se com isso.
Fechou os olhos, acomodou-se e, em pouco tempo, estava dormindo.
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