50 Tons De Uchiha
31 Enfim.
Notas iniciais
Capítulo 31 – Enfim.
Quando enfim abriu os olhos naquela manhã, tudo estava escuro. As cortinas escuras e pesadas do quarto de Sasuke haviam sido cuidadosamente fechadas pelo próprio, o que impedia a entrada das luzes da lua e da cidade.
Incomodada com toda a escuridão acompanhada ao silêncio, Sakura revirou na grande cama vazia até encontrar os pontinhos de luz digital que formavam as horas. O despertador do criado-mudo de Sasuke marcava cinco e alguma coisa da manhã, e levou meio minuto para que ela pudesse compreender sua situação.
Eram cinco horas da manhã. E, se já havia amanhecido, só poderia concluir que havia passado toda a noite ali.
Não, ela pensou. Mais do que isso! Havia passado parte da manhã, além da tarde e noite inteira ali, na casa de Sasuke, fazendo amor ou dormindo com ele, quando devia estar cumprindo suas horas no hospital!
– Droga! Droga! Droga!
Ela revirou na cama, procurando inutilmente por suas roupas sobre o colchão.
Desde quando havia se tornado tão irresponsável?!
Desde quando abdicava de seu sonho por um homem?! Tudo bem, ela pensou. Era o homem por quem estava apaixonada, então era mais que só um homem, mas ainda assim era irresponsabilidade. Pura irresponsabilidade!
– Tsunade-sama vai me matar!... – Ela reclamou com a voz chorosa e, desistindo de suas roupas, tentou se levantar.
Lamentavelmente, Sakura não estava acostumada com luxos. E o resultado de sua falta de familiaridade com o colchão luxuoso e desnecessariamente macio da cama do namorado foi um tropeço muito feio, que fê-la cair no chão sem jeito, justamente sobre o pé que havia sido fraturado meses atrás.
– Porcaria! – Ela exclamou alto enquanto se encolhia do lado da cama, subitamente irritada pela dor. – Porcaria! Porcaria! Droga!
Estava explodindo de raiva quando a luz foi acesa.
– Sakura? – Sasuke soou da porta, mas Sak não quis responder. Estava ocupada demais controlando seu gênio e respiração para evitar xingar e ofender alto na casa alheia, mas ele se aproximou. – Sakura?
Parecia realmente preocupado.
– O que houve? – Ele se agachou à frente dela, e franziu a testa ao enxergar as caretas que formavam a expressão de frustração.
– Seu colchão idiota! – Ela gritou, furiosa. – Por que ele tem que ser tão mole?!
Sasuke estreitou uma das sobrancelhas, divertido.
– É de água. – Ele disse aquilo como se a resposta fosse óbvia. – É claro que é mole... – E os olhos negros brilharam com uma malícia que faria Sakura enrubescer, se não sentisse tanta dor. – É bom pra...
– Você quer calar a boca?
A resposta foi natural e imediata, tão irritada que fez com que Sasuke gargalhasse.
– Não ria! – Ela bradou, sentindo o rosto queimar de incômodo. – Eu caí em cima do meu pé! O meu pé machucado!... Ei, pare de rir!
Mas embora Sakura realmente parecesse irritada, Sasuke teve que se esforçar muito para conseguir parar. Ele tossiu, pigarreou e enfim recuperou o controle. – Me perdoe. – Murmurou com um sorriso divertido. – Sua cara fica engraçada quando se mostra irritada.
E, sem cerimônias, ele acertou um peteleco na testa dela, que cerrou os olhos.
– Vamos, deixe-me ver isso.
Sakura hesitou um pouco, mas por fim acabou por esticar a perna na direção do namorado. Sasuke segurou seu tornozelo com cuidado extremo, e o encarou com o rosto sério por alguns minutos que pareciam infindáveis, fazendo com que Sakura se sentisse ligeiramente preocupada. – O que foi?
– Eu não entendo absolutamente nada sobre pés fraturados. – Ele admitiu, soando tão sincero e natural que ela teve que morder os lábios para não rir.
– Só diga se está roxo ou vermelho. – Instruiu, revirando os olhos.
Como ele podia ser tão adorável quando bancava o idiota?!
– Ai! – Exclamou quando sentiu a mão dele apertar um pouco.
– Desculpe... Parece normal para mim. – Ela suspirou. – Aliás, quando é que você ficou tão desavergonhada? – Os olhos verdes se ergueram confusos e ela enrubesceu ao notar o sorriso maldoso brotando dos lábios do rapaz. – Desde quando fica tão a vontade na minha frente? – Apontou com a cabeça de maneira sugestiva, e Sakura quis se jogar da janela ao se dar conta do que ele dizia.
Num piscar de olhos, em uma velocidade quase absurda, Sakura ergueu o tronco e, com uma força surpreendente, puxou a manta pesada da cama de casal, encobrindo-se imediatamente.
Sasuke riu daquilo.
– Eu não vou te violentar. Não sei quantas vezes eu preciso dizer isso para que você realmente possa acreditar. – Ele tornou a observar o pé ligeiramente avermelhado e, levemente, começou a massageá-lo. – Se doer, avise.
Sakura não o respondeu. Continuou encolhida, sentindo o rosto queimar, com um beicinho inconsciente escondido pelo cobertor negro. Que tipo de declaração era aquela?! Ele era tão desagradável! Pervertido! E ao mesmo tempo...
Ela suspirou. Como não se apaixonar por aquele homem?!
Sasuke voltou a olhá-la a tempo de vê-la encostar a cabeça na lateral da cama. Sakura parecia se contentar em ficar ali, paradinha, quietinha enquanto o observava cuidá-la...
E aquilo fez com que Sasuke se sentisse confortável.
Ele já estava pronto para o trabalho, Sakura notou. Ou quase isso.
Trajava a calça social preta, uma camisa lisa e cinzenta, com três botões abertos no peito e os punhos erguidos até os cotovelos de ambos os braços...
Ele tinha braços bonitos. Bem feitos, com os músculos definidos e firmes...
Sakura suspirou mais uma vez, e sorriu quase sem perceber que sorria; aconchegou-se no canto do colchão de água como se fizesse as pazes com o objeto, e Sasuke abafou ma risada. – Por acaso está abusando da minha boa vontade, senhorita Haruno? – Ele quis saber, sorrindo de canto, olhando fixamente para a encantada namorada.
Sakura deu os ombros.
– É você quem sempre abusa da minha boa vontade. – Lembrou-o, parecendo divertida. – Será que você sempre acorda às cinco para trabalhar?
– Às vezes. – Ele admitiu, embora desta vez o fato de estar acordado tão cedo não tivesse nenhuma relação com o trabalho. Na verdade, Sasuke havia se vestido pelo simples fato de não conseguir ficar parado, remoendo seus pensamentos enquanto passava a noite em claro.
Mas ele definitivamente não estava disposto a preocupar Sakura ao compartilhar daquela desagradável experiência. Especialmente em um momento tão confortável quanto aquele estava sendo. – Pode não parecer, senhorita Haruno. – Ele prosseguiu, sorrindo calmamente. – Mas eu sempre dou duro em tudo o que faço.
Sakura abafou uma risada no colchão e Sasuke se sentiu incomodado. Contrariado, ele cessou as massagens. – O que? Não acredita?
Ela deu os ombros. Sasuke deixou o pé dolorido de lado, cuidadoso, e se aproximou lentamente. – Ei, ei... Responda-me com palavras... – Puxou o rosto delicado pelo queixo, obrigando-a a olhá-lo.
Os olhos verdes estavam estreitos, mas brilhavam tanto que por um segundo Sasuke esqueceu-se de como fazer para respirar.
Um sorriso quase inconsciente brotou em seu rostoe, sem pensar, ele roubou um beijo casto e carinhoso dos lábios finos.
– Eu acredito... – Ela murmurou por fim, com o rosto levemente avermelhado, aconchegada pelo carinho que ele lhe fazia, com os dedos, no canto de seu rosto. – Eu acho que ninguém que persegue uma garota por meses, como você me perseguiu, pode ser considerado acomodado.
– Não fale como se eu fosse um stalker. – Ele pediu, mas Sak lhe lançou um olhar tão sugestivo que o fez querer agarrá-la. – Tudo bem. – Ele sorriu. – Talvez eu tenha agido como um.
Confessou, dando os ombros.
– Mas a culpa foi absolutamente sua. – Apertou a ponta do nariz dela, que fez uma careta falsamente irritadiça.
– Eu não vejo como isso pode ser culpa minha. – Ela murmurou, recuando do aperto do amado, que sorria feito uma criança.
– É culpa sua, sim. Pelo simples fato de não sair da minha cabeça.
Ela enrubesceu tanto que Sasuke se sentiu constrangido.
Os olhos grandes estavam fixos aos seus, quase chocados com uma declaração tão constrangedora, mas além de suas próprias expectativas, Sasuke se sentiu... Bem, com toda aquela situação. Bem com o fato de ter a atenção dela.
Quase sem perceber, ele se aproximou novamente; alisou a cabeleira rósea carinhosamente e tocou os lábios dela com suavidade. – Eu posso me atrasar... – Ele murmurou entre beijos curtos, prontamente retribuídos. – E se ficássemos mais um tempo juntos... – O rosto dele se afastou, e gentilmente deslizou pela pele macia de seu rosto. – E tomássemos café na rua... O que acha?
Sakura estava encolhia e sentia sua cabeça flutuar... Ainda assim, franziu o cenho. Era uma ideia muito tentadora, ela tinha que admitir. No entanto...
– Eu preciso voltar ao hospital. – Suspirou contrariada. – Preciso receber minha punição. – E lançou um olhar de desculpas ao namorado.
Sasuke afastou o rosto ligeiramente, inicialmente confuso, posteriormente desagradado. Será que ela não percebia que ele precisava ficar perto dela para se sentir em paz?! Só Deus sabe como ficaria perturbado quando, ao chegar no escritório, voltasse a divagar sobre todas as complicações de seu relacionamento.
– Eu disse três horas, Sasuke-kun. – Ela franziu o cenho quando notou o desagrado dele, mas o encarava com um sorriso claramente contido. – Três horas, não a noite inteira.
Sasuke sorriu mais uma vez. Ergueu a ponta e se enfiou embaixo da coberta, fazendo com que Sakura soltasse um gritinho assustado. Facilmente, ele fê-la deitar-se no chão. – Se você reclamar muito... – Ele murmurou enquanto se punha sobre ela, sorrindo maldosamente enquanto abria os botões da camisa. – Eu vou te segurar a manhã inteira.
E sem esperar resposta, beijou-a.
Sim, ele a prenderia a manhã inteira.
Aquela e a próxima, assim como a posterior.
Enquanto refletia sobre isso, ao mesmo tempo em que se livrava das roupas e comprimia contra o chão o feminino corpo delicado que lhe era tão adorado, Sasuke percebeu que devia ser o pior homem do mundo.
Porque ainda que tivesse ciência e certeza de que Sakura, definitivamente, estaria muito melhor e mais feliz se permanecesse à quilômetros de distância de Sasuke e sua família, ele não podia se afastar.
Que fossem para o inferno, todos os Uchihas! Que todos os pecados fossem para o inferno. Ele não tinha feito nada que pudesse atormentá-lo, então não ia se sacrificar. Então, ainda que fosse o homem mais egoísta do mundo, decidiu perdoar a si mesmo pelos erros de sua família.
Sakura sabia – tão bem quanto ele próprio – que Sasuke Uchiha era um homem egoísta, afinal.
Egoísta e insensível.
E Sasuke estava certo de que uma personalidade tão forte quanto a sua definitivamente não poderia mudar de um dia para o outro... Ainda que fosse por amor.
~
Kasumi não dormira bem. Nem naquela noite, nem na última.
Sentia seu corpo cansado, e sua mente estava exausta.
Sua filha parecia agitada – por culpa dela, Kasumi imaginava –, e enquanto tinha um bebê se mexendo e remexendo euforicamente dentro dela, era simplesmente impossível pregar os olhos. Durante aquele longo tempo, ela pensou em sua vida.
Ainda que sua mente doesse como um inferno, ela não pôde evitar que aquele turbilhão de pensamentos – e sentimentos – a invadissem. Lembrou-se de sua infância, em seu desenvolvimento... E em todo o processo árduo de se tornar quem era hoje.
Kasumi sempre havia se considerado uma mulher inteligente, até bastante sagaz.
Por toda a sua vida, havia se mostrado forte e determinada; possuía uma personalidade provocante, que sabia muito bem ser desagradável às pessoas – ou pelo menos muitas dela – à sua volta... Mas ela francamente gostava de ser assim: irônica, calculista e fria com quem merecia.
Gostava de pensar que sua vida era divertida e emocionante. Gostava de zombar, ironizar e atiçar os nervos das pessoas à sua volta, e sempre esteve muito ciente de que não era a melhor companhia do mundo.
Talvez ela só quisesse atenção. Ou talvez aquelas simplesmente fossem características desenvolvidas ao longo dos anos por sua dura personalidade. Afinal, ferir era muito mais atraente do que ser ferido.
Francamente, ela não sabia explicar os motivos de ser assim nem para si mesma, mas de fato gostava de ser assim. Gostava de ser durona e mandona. Gostava de ter controle sobre tudo e todos e, acima de tudo, gostava de lidar com tudo à sua maneira.
Ela sabia que havia mudado muito desde que conhecera Itachi. Ele mudara seu coração, sua mente e sua alma, e consequentemente a havia tornado mais afável... Mais gentil – porque, afinal de contas, o amor torna as pessoas gentis.
Itachi era gentil e amoroso. E definitivamente havia sido o responsável por fazê-la perceber o quão sem graça era passar a vida sozinha. Ele era confiável e companheiro; a melhor família que ela nunca havia pensado em ter.
Mas mesmo que Itachi a tivesse feito enxergar pela primeira vez o significado das palavras “amor”, “carinho” e “companheirismo”, mesmo que a tivesse tornado uma pessoa melhor e definitivamente mais feliz, não mudara sua essência.
Kasumi gostava da naturalidade de seu relacionamento tranquilo e sem cobranças. Estava satisfeita com ele, do jeito que era, e qualquer possibilidade de mudanças a assustava tremendamente.
Culpar Obito, e só Obito pelas mudanças em sua vida era um tremendo exagero, ela sabia. Porque a dura verdade é que seu mundo havia desabado no momento em que Itachi a pedira em casamento. Mas ela tinha que admitir que fora graças ao pai que todas as suas estruturas emocionais haviam sido realmente abaladas.
Ele fora o estopim para o seu desespero.
Obito havia sido o primeiro a conseguir encurralá-la com eficiência. Ele forçava sua presença, forçava sua alegria, forçava o seu amor. E, mesmo com toda a sua esperteza e dureza, Kasumi nunca conseguia fazê-lo recuar.
Ela havia se acostumado a lidar com as coisas por si só. Gostava de liderar, de comandar, de ter as coisas sobre o seu controle... E era assim que se sentia segura consigo mesma.
Mas aquele homem havia agido feito um excêntrico!
Obito sempre estava lá, disposto a contrariá-la e pressioná-la com sua felicidade e carinho paternal... Estava sempre lá para protegê-la dos problemas que a própria Kasumi parecia perseguir.
Ela sabia que, no fim, ele só esperava que ela sentisse. Sentisse seus sentimentos, e no fim se desse por vencida.
O pior de tudo é que ela havia começado a sentir, mas definitivamente não gostava disso. Não gostava da ideia de sair da zona de conforto, não gostava da ideia de derrubar a fortaleza que havia criado em seu próprio coração.
Mas aquele bebê... De alguma maneira, a vida que crescia dentro dela havia derrubado toda sua resistência. Sua armadura havia sido derretida; as paredes para sua própria proteção haviam sido derrubadas; toda a certeza que um dia havia tido em seus planos e ideias se esvaíram.
Absolutamente tudo havia mudado.
Por aquela criança, Kasumi estava disposta a mudar. Por ela, estava disposta a abrir mão de tudo o que havia pensado por toda a sua vida... Abrir mão de sua teimosia, e enfim se dar uma chance.
Talvez aquela menininha fosse o seu milagre particular. A luz que mostraria o caminho para a família da qual ela sempre tentara se esquivar.
Ser mãe a havia feito pensar em sua mãe.
Porque, se Obito e Rin se amavam tanto quanto Itachi e Kasumi, como poderiam abrir mão de sua pequena luz?...
Kasumi precisava saber a resposta. Precisava entender sua história, para finalmente compreender a si mesma.
Por isso, logo de manhã, quando o sol enfim se pôs, ela revirou-se na cama a fim de despertar o amado. – Itachi... – Murmurou baixo, carinhosa, e tentou acordá-lo com beijos amorosos.
Ele havia estreitados os olhos e franzido o cenho, mas mesmo que estivesse incomodado, abriu os olhos para a futura esposa.
Kasumi amava Itachi. Incondicionalmente.
Ele havia sido seu primeiro porto seguro, e imaginava que seria o maior, para sempre. Por isso, precisava dele... Precisava estar com ele, quando descobrisse a si mesma. – O que foi, amor? – Ele se sentou, parecendo bastante preocupado com a expressão dela. – Não dormiu de novo?
Ela negou com a cabeça, e ele fez uma careta.
– Eu acho que vou tentar falar com alguém do hospital hoje... Deve ter alguma coisa que...
– Itachi. – Kasumi o interrompeu, sorrindo enquanto alisava o rosto áspero pela barba. – Eu quero que me acompanhe...
Itachi havia demonstrado muita hesitação e preocupação quando a noiva lhe expressou sua vontade. Apesar de tudo, não conseguiu se sentir feliz com a decisão da amada. Porque, afinal de contas, absolutamente nada podia feri-la tanto quanto aquele assunto.
Mas, embora realmente não estivesse disposto a concordar, tampouco discordaria. Kasumi merecia isso, afinal... Tanto quanto seus pais.
Por isso, ainda que fosse de muita má vontade, eles estavam juntos na sala de estar da casa de Obito, esperando os donos da casa enquanto sentados à sala de estar. Kasumi segurava firmemente a mão do noivo, ansiosa e temerosa com o encontro.
O rosto dela estava tenso, quase impaciente.
– Você está bem?
Ele teve que perguntar, mas ela sequer conseguiu ouvi-lo.
– Nós devíamos ir. – Itachi murmurou quando notou a situação da amada. – É tudo muito recente para você, amor... Para vocês. Acho que deviam descansar... O seu estado é delicado, sabe disso. Não pode passar por algo tão intenso...
Kasumi estreitou as sobrancelhas e olhou para o noivo com confusão.
– E você não é o primeiro a dizer que eu tenho que deixá-los se aproximar?
Ele suspirou.
– Isso não é deixá-los se aproximar. É forçar o momento mais difícil da sua vida no momento em que se encontra mais sensível... – Ele puxou-a pelos pulsos, e carinhosamente beijou as costas de suas mãos. – Só estou preocupado com você... – Ele murmurou. – Com nossa filha...
Kasumi sorriu timidamente, mas antes que pudesse respondê-lo, a porta se abriu.
Obito surgiu, sorrindo tranquilamente ao empurrar a cadeira da esposa, que parecia confusa. Itachi e Kasumi se levantaram instantaneamente; bastou que os olhares de Rin e Kasumi se encontrassem para que a mãe pudesse entender.
E o sorriso de compreensão que surgiu no rosto dela foi simplesmente radiante.
– Akane...!
Ela sussurrou, parecendo emocionada. E mais uma vez Kasumi sentiu um incômodo revirar em seu estômago.
– Você voltou...
Obito apressou o passo, aproximando-se com mais rapidez.
– Por favor, sentem-se. – Ele pediu aos jovens, claramente feliz. – Pedi que Koharu trouxesse alguma coisa. Um cafezinho quente nessa manhã tão fria. – Ele observou Kasumi e Itachi sentarem-se e seu coração se aqueceu.
– Claro. – Itachi não pôde deixar de sorrir. – Desculpe por aparecer tão cedo, tio.
Na realidade, ele queria se desculpar por aparecer. Era tão constrangedor! De alguma forma, ainda que estivesse prestes a se casar com Kasumi, sentia-se um intruso por estar entre os três. Era um momento deles, afinal!
Obito dispensou suas desculpas com um aceno e um sorriso, e Rin pareceu sequer ouvi-las. Aproximou-se da filha e impulsivamente puxou suas mãos, sorridente. – Fico feliz por ter voltado tão cedo, querida... – Alisou as faces da Aihara, que inevitavelmente sentiu o rosto queimar. – Parece que há um pouco de mim em você.
Ela soltou uma risadinha melódica.
– Obito ficaria um mês inteiro teimando.
Kasumi sorriu em resposta, mas pensou que, se não fosse aquela estranha epifania causada por sua gravidez, jamais estaria ali.
– Nada me deixa mais feliz do que você estar aqui.
Ela murmurou com carinho e naturalidade, e Kasumi pensou que fosse morrer de vergonha. Lá estava ela, na segunda década de sua vida, envergonhando-se por receber o carinho de mãe.
Mas ainda que se sentisse muito constrangida, Kasumi não conseguia se esquivar daquela mulher. Suas carícias eram tão suaves... Tão amáveis e aconchegantes que ela sentia vontade de encolher em seus braços e chorar todas as amarguras que estavam presas em seu peito.
Definitivamente, ela pensou, a gravidez a deixava muito sensível.
Forçando um sorriso, Kasumi ajeitou os cabelos castanhos. Os olhos baixaram ao chão e ela encarou, muito constrangida, o colo da mãe tão próximo ao seu. – Eu sinto muito por tê-la assustado da última vez... – Rin murmurou, soando arrependida. – Não sei o que me deu...
Kasumi ergueu os olhos e percebeu que ela parecia mais tristonha do que envergonhada. Por isso, impulsivamente, apertou a mão que ainda segurava a sua. Um pouco surpresa, Rin ergueu os olhos a filha, que enrubesceu, e instantaneamente recuou.
Aquilo a fez sorrir.
– Obito me disse... Que você quer escutar...
Lentamente, ela anuiu. E, sem saber para onde olhar, baixou o rosto novamente.
Pela primeira vez desde que havia entrado na sala, Rin pareceu hesitar. Ela recuou um pouco a cadeira, fazendo com que a filha se sentisse inexplicavelmente incomodada, e começou:
– Talvez você não acredite em mim, Akane... Mas vou dizer tudo, exatamente como me lembro. – Ela sorriu, olhando na direção de Kasumi, que quase se encolhia ao lado de Itachi. – Obito e eu nos casamos escondidos.
Ela procurou as mãos do marido, que prontamente se pôs ao lado dela.
Ele também se sentia ansioso, já que seria a primeira vez a ouvir a história pela boca da esposa. – Nós nos amávamos... – Ela sorriu quando a filha ergueu o olhar. – E, no entanto, não conseguíamos ser plenamente felizes.
Obito estreitou os olhos, confuso e surpreso.
Não conseguia se lembrar de um momento mais feliz em sua vida do que as poucas semanas em que haviam passado juntos, depois de casados.
– Obito nasceu e foi criado para crescer... – Os olhos castanhos pareciam perdidos, e Rin sorria de maneira tristonha. – Por isso, quando Kakashi apareceu com a ideia de montarem uma empresa no exterior...
Ela não conseguiu concluir o pensamento. Só a lembrança a feria.
Ela piscou rápido, tentando conter as próprias lágrimas, e sentiu o leve aperto do esposo em suas mãos. – Rin...
– Eu não estou dizendo que a culpa é sua, meu querido. – Ela se apressou em explicar, forçando uma risada enquanto alisava seu rosto. – Por que não é. Nós levamos muito tempo discutindo se devia ou não ir, e chegamos a essa decisão juntos, lembra?
Ele estreitou os olhos, incerto, e Rin ergueu suas mãos para beijá-las.
E Kasumi se sentiu encantada com aquilo.
O amor, ultrapassando barreiras da distância, do tempo, da sociedade...
– O fato é que eu e seu pai decidimos que iríamos tentar ganhar a vida. – Ela tornou a olhar para a filha, mas ainda segurava as mãos do amado. – Obito e Kakashi eram talentosos e inteligentes. Eu sabia que em pouco tempo o teria de volta...
Ela ajeitou os cabelos castanhos, parecendo constrangida.
– Mas houve um erro de cálculos... – Admitiu, muito envergonhada. – Quando eu percebi que estava atrasada, Obito já estava se resolvendo no exterior. – Ela suspirou longamente. – Seu pai é uma pessoa muito preocupada. – Estreitou as sobrancelhas ao dizer isso. – E por isso eu decidi que o melhor a se fazer seria não dizê-lo, até que as coisas estivessem realmente acertadas.
Obito pensou em comentar o quanto aquela decisão havia sido estúpida, mas não queria interrompê-la. Aquele possivelmente seria o momento mais importante de sua vida, e ele não queria estragar tudo com seu mau gênio.
– Eu conseguia viver bem com o dinheiro que ele me enviava e aulas particulares que dava. – Ela deu os ombros. – Não fui para a faculdade, mas de alguma coisa serviram as notas do exame nacional.
Obito sorriu ao mesmo tempo em que Kasumi sorrira.
– Nós vivíamos bem juntas... – Rin tremeu levemente ao se lembrar. – Eu e você. – Fixou os olhos nostálgicos nos da filha. – Eu estava realmente feliz... Nós não tínhamos um quarto vago naquela casa pequena, mas de alguma maneira, eu consegui arranjar um cantinho apertado no nosso quarto. – Olhou para Obito... E começou a resfolegar.
Ela não queria chorar. Não ali, na frente das duas pessoas que mais amava na vida, mas era muito difícil. Rin tentou fechar os olhos e respirar fundo, mas sentia seu corpo tremer pelas lembranças.
– Eu estava ansiosa. – Ela confessou com a voz embargada. – Ansiosa para conhecê-la... – Baixou os olhos. – E para mandar uma foto sua ao seu pai...
Obito se aproximou mais, e roçou os lábios sobre a cabeleira castanha da amada, gentil. – Está tudo bem, querida... – Ele murmurou contra a cabeça dela, que anuiu debilmente.
– Senhora Uchiha, se não quiser continuar...
– Não! – Rin a interrompeu. – Você veio ouvir, Akane. E precisa ouvir... Você e o seu pai.
Kasumi se sentia estranha, mas não tentou convencê-la.
Sequer conseguia pedir para que ela parasse de chamá-la de “Akane”! Quem dirá pedir para que parasse de falar.
Ela sentiu o aperto de Itachi, e seu coração instantaneamente pareceu se acalmar.
Aquilo a fez sorrir. Um sorriso tímido, mas de alguma forma corajoso... Então ela continuou a olhar para a mãe, e esperou até que Rin recuperasse o fôlego para prosseguir a história.
– Um grupo de homens... Eu não sei. – Ela pousou as mãos sobre a cabeça, parecendo confusa. – Não me lembro bem, mas suspeito que os conhecia... – Ela suspirou.
– Não se force, querida. – Obito a confortou. – Só diga o que se lembra. – Sugeriu, pois sabia que parar não era uma opção. Ao menos não à esposa.
Rin anuiu.
– Eu não me lembro muito bem, mas acredito que tenham me drogado... Quando acordei, estava em um quarto escuro, presa. – Suspirou longamente. – Eu fiquei desesperada... Não sei ao certo quanto tempo passei lá...
– Seus pais registraram uma queixa, e você apareceu alguns dias depois.
Foi Itachi quem havia respondido, quase automaticamente.
A família inteira olhou em sua direção, e ele imediatamente se arrependeu pela observação. – Dias...?! – Rin pareceu surpresa. – E meus pais?...
– Por favor, querida. – Obito se apressou. – Não pense nisso agora.
O assunto “pais” era tão delicado à Rin quanto à Kasumi. Talvez ainda mais delicado, e Obito tinha total ciência disso. – Kasumi precisa ouvir, certo? – Ele a instigou, e ainda que a esposa continuasse confusa, concordou.
Ela tornou a olhar para a filha.
– Eles tentaram... Tirar você de mim... – Ela baixou os olhos, parecendo assustada com as próprias lembranças. – E eu... – Os lábios se espremeram. – Eu aguentei até onde consegui.
Ela ainda conseguia se lembrar... Dos apertos daqueles homens; das surras em que protegera tão corajosamente a barriga grande e redonda; dos remédios que havia se obrigado a cuspir ou vomitar.
– Toda aquela pressão... Acho que fez a minha bolsa estourar. Os homens entraram em pânico, e acabaram me abandonando... Eu gritei e gritei, até que alguém me ouvisse e me levasse para um maldito hospital.
Ela tomou fôlego como se as lembranças a cansassem.
– Você nasceu em uma ambulância. – Ela sorriu à filha. – Eu me lembro da surpresa nos olhos da mulher que me disse que você era uma menina saudável... Eu estava em um estado deplorável, então você surgiu linda e forte, como um milagre... O meu milagre. – Ela tornou a puxar a mão da filha – Eu passei o caminho inteiro com você nos braços... A minha filha, tão pequena e perfeita... – Ela soltou uma risadinha, como se estivesse se lembrando do momento mais feliz da vida. – Você chorava tão alto que eu me assustei... – Olhou fixamente nos olhos castanhos. – E foi por isso que, quando me disseram que você estava morta, eu nunca acreditei.
Kasumi se sentia... Anestesiada.
Na verdade, ela não sabia como se sentir.
Talvez nem fosse filha deles, mas pela primeira vez, a possibilidade de não ser filha de alguém a fez se sentir triste. – Não chore, querida... – Rin murmurou quando as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto liso da filha. – Não chore...
Mas era simplesmente impossível não chorar.
Ela se encolheu, acolhendo-se quando a mãe a envolveu com os braços, e permitiu-se chorar. Pensava que se tudo aquilo era mentira, Rin Nohara devia ganhar um Oscar. E, se fosse uma história inventada por sua mente supostamente insana, ela devia escrever livros.
– Eu não sei quem, nem o porquê te tiraram de mim... – A senhora Uchiha murmurou com a voz embargada, apertando a filha crescida em seus braços. – Mas eu juro! Nunca quis nada mais do que quis você!...
O choro de Kasumi soou mais alto, e Itachi não soube o que fazer.
Continuou ali, parado, se sentindo o pior de todos os intrusos... O pior de todos os traidores. Ele era o neto do monstro que havia tentado separar aquela família.
Era o filho da mulher que havia enganado Rin.
– Obrigado, Itachi. – A voz de Obito o surpreendeu, mas Itachi não conseguiu tirar os olhos daquelas duas. -... Isso nunca aconteceria se não fosse por você... – O tio murmurou; parecia tão abalado com a história quanto a própria Rin.
Se não mais.
Itachi sabia que ele estava tentando fazê-lo se sentir melhor, acolhido. E Itachi realmente tentou se sentir assim... Tentou pensar que aquela declaração era a prova de que ele fazia bem por estar ali.
Mas não era.
~
Madara arqueou a sobrancelha quando, ao entrar em seu escritório, pôde ver o filho mais velho sentado à sua mesa, ajeitando os porta-retratos da família com um sorriso nostálgico e feliz estampado no rosto.
Era muito estranho ver Fugaku agir de forma surpreendente, ou fora dos protocolos, por isso o patrono da família sinceramente não conseguiu compreender a presença do filho ali.
– Oh! Meu pai! – Ele se levantou quando o viu, e fez uma reverência educada.
– O que o trouxe aqui tão cedo? – Madara realmente estava curioso. – Algum problema com a empresa? – Ele se sentou na primeira cadeira que conseguiu encontrar, mas Fugaku negou prontamente.
– Sem problemas na empresa. – Ele garantiu. – Sasuke é muito competente. – Sorriu orgulhoso do filho.
E Madara percebeu que alguma coisa estava muito errada.
Desde quando Fugaku era tão visivelmente alegre?
– Então...?
– Eu vim trazer isso. – O filho ergueu um convite bonito. – É do casamento de Itachi. Eles mandaram um para cada integrante da família. – E jogou o convite na direção do pai, que – assim como ele havia imaginado – agarrou-o com facilidade.
–... Casamento. – Madara só não estava possesso porque estava chocado. – Está me dizendo que o seu filho rebelde nos chamou para um casamento com uma bastarda. E você está feliz por isso.
Não podia compreender a lógica do filho.
– Estou feliz porque o meu filho vai se casar com a mulher que ama. Com uma mulher que foi vítima de muitas coisas que nossa família fez. – Fugaku pôs as mãos no bolso do paletó, sua expressão se tornou séria. – Estou feliz porque eles sabem disso, e ainda assim nos convidaram.
– Isso é provocação. – Madara murmurou irritadiço, desviando os olhos do filho.
– Não pai. Isso é a nossa chance de redenção. – Lentamente, os olhos negros do mais velho encararam os do filho. Fugaku parecia decidido. – Isso é tudo o que você precisa para conseguir aquele quarto quadro sobre a sua mesa. Com a família do filho que você mais amou.
Subitamente, o velho se levantou. Seu rosto estava vermelho de raiva, mas Fugaku sorriu. – Ou o que? Realmente acha que eu e a Suzuki nunca percebemos?
Os lábios de Madara se estreitaram.
– Ele foi o seu filho mais rebelde, no fim das contas... – Com um sorriso fraco, Fugaku tornou a olhar para o porta-retratos. – Acho que a tendência é nos apegar aos mais cansativos, não é? Porque queremos que eles façam tudo certo. – E tornou a olhar para o pai. – Obito não foi como eu ou Suzuki... Ele não fazia o que você queria.
– E por isso fugiu de casa. Por isso foi deserdado!
Madara parecia inconformado.
– Pode ser... – Fugaku deu os ombros. – E talvez ele nem seja muito feliz com a vida que escolheu, mas ao menos é livre.
O pai não conseguiu respondê-lo.
– Não entenda mal, pai. – Ele sorriu ao notar o quanto sua frase o havia afetado. – Eu realmente não me sinto preso. – Deu os ombros. – Nunca fui pressionado como Obito... Eu, francamente, estava satisfeito com a minha situação. Gosto da empresa, amo a minha esposa, amo os meus filhos... – Ele estreitou os olhos. – Mas, quanto a Suzuki...
– Suzuki sempre se mostrou muito satisfeita com sua vida!
O velho parecia uma criança fugindo de acusações.
– Sempre foi uma boa esposa, uma mãe maravilhosa!
Fugaku estreitou os lábios e encarou o pai de soslaio, sério. – Suzuki abdicou de tudo pelo casamento com o Hyuuga. Com um homem que ela sequer amava! Ela teve que abrir mão da paixão por cuidar das pessoas... Poderia ser uma médica, sabe? Tsunade vive dizendo isso.
– Tsunade não sabe de nada.
– Tsunade pode não saber de nada. – Fugaku concordou, irritando-se com o rumo da discussão. – Mas eu sei. Sei que minha irmã é traída diariamente por aquele homem! – Ele apontou para uma direção qualquer, claramente frustrado. – E sei que ela também sabe disso!
Madara estreitou os olhos, e Fugaku percebeu que havia ido longe demais.
Ele respirou fundo e alisou os cabelos, exasperado.
– Eu não estou aqui para falar da Suzuki. – Ele murmurou a contragosto. – Eu vim aqui para falar de Itachi... Meu primeiro filho. – Ergueu os olhos na direção do pai. – O seu primeiro neto.
– Jamais me rebaixaria a esse ponto.
Madara foi firme.
Fugaku suspirou, balançou a cabeça, parecendo decepcionado. – Eu sei porque você age dessa forma sobre a esposa do meu irmão, pai... – Ele murmurou, pensativo. – Mas nem todos os filhos são como os pais. – Ele garantiu, erguendo os olhos negros na direção do mais velho. – Olhe para mim. Para Obito. Para Suzuki... Você sabe que o que eu digo é verdade.
– Saia, Fugaku.
– Aquela moça é sua neta. – Fugaku insistiu. – Sua primeira neta menina, apesar de tudo... Devia ser sua menininha, não?
– Saia!
Ele exclamou alto, furioso, e o filho se calou. Mais uma vez, ele fez uma reverência ao velho pai, e com a postura rígida, finalmente se retirou.
~
Eram nove da manhã, e só agora eles estavam realmente prontos.
Sakura sentiu seu rosto queimar quando Sasuke tomou sua mão, mas nada disse. Quando as portas do elevador se fecharam, no entanto, ela não pôde resistir: pôs-se na ponta dos pés e depositou um beijo tímido e carinhoso no pescoço do namorado.
Sasuke sorriu, um sorriso claramente feliz, e ajeitou a gravata. Sakura abafou uma risadinha ao notar a marca de batom entre o pescoço e a camisa do namorado, que a olhou de canto com um meio sorriso e uma sobrancelha arqueada.
– O que foi?
Sak deu os ombros, mas apontou para a manchinha. Sasuke olhou para o próprio reflexo nas paredes espelhadas e fez uma careta ao notar. – O terno esconde. – Ele deu os ombros, mas a rosada franziu o cenho.
– Pra quê esconder? – Ela não pôde evitar o tom incômodo na voz, mas enrubesceu quando Sasuke a olhou com a expressão surpresa. – Ah, é verdade... – Ela forçou um sorriso. – Talvez sua secretária ruiva veja, não é? Você não pode perder a sua colega de elevador.
O meio sorriso tornou a estampar o rosto do Uchiha, claramente divertido.
– Como era o nome dela mesmo? Cain?
– “Cain”? – Ele repetiu desacreditado. – Karin. – Corrigiu-a, rindo um pouco. – Karin Uzumaki. É prima do Naruto, não a conhecia?
Sakura deu os ombros e desviou o olhar.
Sasuke aproximou-se furtivamente, e assim como ela, beijou-lhe o pescoço. Suavemente... Gentilmente. – Acho que eu encontrei outra colega de elevador. – Ele murmurou contra a pele dela, que enrubesceu.
– Não sou sua colega de elevador. – Sakura murmurou a contragosto. – Sou sua namorada. – Olhou-o de canto, incomodada. – É muito mais que isso, certo?
Mas Sasuke não teve tempo de respondê-la já que o elevador parou em um dos andares, antes de alcançar a garagem, e um velho senhor entrou. O Uchiha se aprumou, e automaticamente tomou uma distância discreta com a namorada, embora ainda segurasse sua mão.
Hiruzen Sarutobi franziu o cenho ao notar a companhia, mas nada disse ao entrar no cubículo. As portas se fecharam, e o elevador tornou a andar...
Mas o silêncio que se formou foi extremamente incômodo.
Sakura se sentiu confusa, e tentou lançar um olhar interrogativo ao namorado.
– Como já disse tantas outras vezes, Sasuke. – O velho enfim se expressou, e acabou por tomar a atenção da futura médica. – Não tenho nada contra os seus namoricos. Não me importo com eles, embora meu apartamento seja exatamente abaixo do seu.
Sakura notou uma careta irritada no rosto do amado.
– Mas se agarrar no elevador? – O velho olhou-os de canto com uma expressão de pura reprovação. – Quando há crianças no prédio, e câmeras em todo o lugar!... – Hiruzen balançou a cabeça, desgostoso. – Isso é demais.
Sakura enrubesceu, e desejou que o elevador caísse naquele momento.
Os olhos verdes caíram ao chão, muito constrangidos, e ela sequer pôde pensar em algo para falar. – Eu lamento, síndico Sarutobi. – A voz de Sasuke soou, embora não muito sincera. – Não pensamos nisso no momento.
Hiruzen fez uma careta.
– Escute rapaz, eu tenho um neto. O quanto eu teria que explicar, caso os visse naquela situação?... Os guardas de segurança chamaram-me no instante em que viram o seu vídeo!
Sakura apertou os olhos. Aquilo não podia estar acontecendo!
– Eu sinto muito por isso.
A voz de Sasuke parecia conter seu divertimento.
– Realmente, senhor síndico, não vai se repetir.
O senhor Sarutobi não o respondeu, mas ao sair do elevador, no andar do térreo, reclamava como o velho rabugento que era. Sasuke não conseguiu segurar a risada quando o viu se afastar.
Sakura suspirou longamente, cansada.
– Eu acho que quero morrer.
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