50 Tons De Uchiha
44 Apenas o Óbvio.
Notas iniciais
Capítulo 44 – Apenas o Óbvio.
Sakura não conseguia ver ou sentir nada enquanto era guiada por Naruto pelo prédio: ele a levou pelo corredor, a amparou dentro do elevador e a ajudou a descer as escadas. Depois guiou-a até o seu carro na garagem, e abriu a porta para que ela se sentasse no banco do passageiro.
Em momento nenhum a rosada sentiu que reagia, mas seu corpo automaticamente respondia às ações do velho amigo loiro, que agia cheio de cautela, atenção e carinho.
Sakura sentia-se perdida, completamente à deriva dentro da própria mente.
Ela conseguia ouvir as perguntas preocupadas de Naruto, mas por mais que ele estivesse agindo como um anjo, não conseguia raciocinar para responder nenhuma delas; Naruto levou algum tempo para perceber, mas assim que notou que apesar de assentir e negar, Sakura não estava prestando atenção, simplesmente desistiu.
Ela só conseguiu abrir a boca quinze minutos depois de estarem na estrada a caminho de sua casa, quando num sobressalto lembrou-se de que tinha chegado ao prédio com o carro de Ino, que obviamente ficara esquecido na garagem.
— Preciso voltar!... Ela pode precisar do carro amanhã de manhã...
Mas Naruto negou objetivamente.
— Não se preocupe, vou voltar pra lá assim que te deixar em casa. Quando chegar, mando um motorista deixar o carro na sua casa... Só tem que se lembrar de me dar as chaves.
Sakura nunca tinha confiado naquele tipo de serviço, mas não tentou discutir. Naruto parecia tranquilo, e ela não sentia nem uma gota de força de vontade para respondê-lo ou retrucar, então se aconchegou no assento do carro e passou o resto da viagem encarando a janela em silêncio, observando a chuva de julho.
O Uzumaki não tentou puxar assunto. Imaginou que ela precisava ficar em silêncio, em paz com seus próprios pensamentos. Sakura era aquele tipo de pessoa, afinal: gostava de refletir e resolver seus próprios problemas.
Naruto não se lembrava de uma só vez em que Sakura – ou qualquer um dos Haruno, na verdade – tivesse tentado pedir por qualquer tipo de ajuda, por mais que precisassem.
Os pais de Sakura sempre foram pessoas honestas e independentes, estavam acostumados a se virar sozinhos, mesmo nos tempos mais difíceis, e há muito Naruto percebera que Sakura puxara esse traço.
Mas no geral sua amiga era uma pessoa prática, e absolutamente racional. Não o tipo de pessoa que grita e chora enquanto bate na mesma tecla, reclamando incansavelmente sobre um problema que não tem de fato uma solução.
Ele entendia os sentimentos dela; sabia como era difícil imaginar a pessoa que se ama nos braços de outra, e não importava o quanto Sasuke garantisse que não fizera nada à Karin naquela noite, a situação por si só era estressante, duvidosa, e dava abertura para os piores tipos de pensamento.
Mas apesar de entender, Naruto acreditava que o Uchiha estivesse certo sobre um ponto: não importava o quanto ela chorasse, ou reclamasse ou o culpasse, o tempo não voltaria. O que estava feito, estava feito. E ficar ruminando aquilo só faria com que ambos se sentissem pior do que já estavam se sentindo.
A Sakura que Naruto conheceu a vida inteira não passaria meses remoendo sobre esse sentimento: ela tomaria uma decisão e seguiria essa decisão, fosse esquecer Sasuke ou perdoá-lo.
Mas quem era ele para reclamar sobre isso, afinal?... Sabia que o Naruto que Sakura conhecia também era muito diferente do babaca que assumira seu corpo durante aquele maldito ano, quando Hinata se afastou.
Ele a entendia; sabia que aquele desvio de personalidade se dava as porcarias do amor, mas ainda que a entendesse, ver Sakura Haruno agindo de forma irracional conseguia ser ainda mais absurdo do que ver Sasuke Uchiha sendo indiscreto, e Naruto começou a se perguntar se poderia fazer alguma coisa – qualquer coisa! – para ajudar aqueles dois a se acertarem de vez.
Quando estacionou, Sakura continuava a mesma: encolhida, abatida e silenciosa. Ele pensou em não dizer nada além do esperado “até logo” com o sorriso confiante, mas quando a viu se soltar e sair do carro, não conseguiu se calar:
— Sakura-chan...
Ela parou em frente à porta do carro e o olhou, mas os orbes verdes estavam tão indiferentes que o loiro percebeu que a amiga dificilmente estava interessada em qualquer coisa que ele fosse dizer.
— Eu só... – Ele suspirou. – Eu sei de toda a merda que está acontecendo entre vocês, sabe. Só queria dizer que Sasuke não é mentiroso... – Ele ergueu os olhos azuis tentou fixar o olhar de Sakura; ela tinha os olhos frios como o gelo, mas ele não se intimidou. – Eu sei que é difícil, principalmente do seu lado da situação, mas...
— Não se meta nisso, Naruto...
Sakura soou franca e direta, e tão sincera que loiro emudeceu.
— Por favor.
Naruto continuou em silêncio, e apesar de querer retrucar, sentiu a advertência estampada no olhar sério que a Haruno o dirigia.
Sakura vasculhou a pequena bolsa pendurada no ombro, de onde tirou as chaves do carro de Ino, e jogou-as no banco onde antes tinha se sentado.
— Obrigada, pelo favor e por me trazer... Desculpe por qualquer coisa.
Ela fechou a porta, acenou pela janela aberta e deu as costas ao Uzumaki; fez tudo muito rápido, sem quase pensar nisso.
Sabia que não era a despedida mais cordial do mundo, nem a correta, visto que Naruto tinha se dado ao trabalho de levá-la até em casa e tentou respeitá-la durante toda a viagem... Mas Sakura não conseguiria fazer diferente.
Tudo já estava sendo bastante difícil sem Naruto meter o bedelho.
Passado o choque inicial, Sakura agora se sentia mais calma.
Na verdade, era quase como se os seus sentimentos estivessem anestesiados, porque ela simplesmente não conseguia sentir nada naquele momento; estava exausta, física e psicologicamente. Ela sentia seu corpo pesado e sua mente vazia, mas além disso... Nada.
Nem dor, nem perturbação. Apenas exaustão, e isso até devia ser bom, afinal.
Pelo menos o cansaço a faria dormir, e seu corpo precisava estar descansado para seu turno no hospital, na tarde seguinte.
Ela andou devagar, subiu as escadas do sobrado sem pressa, e entrou em casa sem nenhum alarde. Ino certamente estava curiosa sobre sua discussão, mas Sakura sabia que a amiga não insistiria antes de checar seu estado, e bem... Sakura não estava bem. Calma, sim. Mas não estava bem.
Definitivamente não estava bem.
Ino estava na sala, em pé em frente ao telefone fixo que nunca usavam; ela enrolava o fio cacheado nos dedos, coisa que só fazia quando estava nervosa, constrangida ou ansiosa.
Ou os três.
— Eu sei que está um pouco em cima da hora... – A loira murmurou ao telefone, claramente constrangida. – Mas, não sei... Pensei que podia ajudar de alguma forma... Eu a vi hoje, e cheguei à conclusão de que talvez eu devesse ajudar um pouco... Sei que estive afastada, mas Chouji é um amigo importante e... Ah, droga... – Ela riu, meio sem humor. – Eu sinto muito, Temari-san.
Ino encostou a testa na parede e apertou os olhos.
— Eu nem devia ter ligado, já é tarde. Mas fiquei pensando sobre isso... E comecei a me perguntar se minha ajuda não seria útil em alguma coisa com o aniversário da Chouchou... Qualquer coisa...
A loira foi surpreendida pelo abraço forte de Sakura, que a agarrou por trás. Elas trocaram um olhar amigável e sorrisos desanimados, e a rosada se aconchegou as costas da melhor amiga enquanto a ouvia terminar seu telefonema.
— É claro... Amanhã conversamos, então. Desculpe incomodar tão tarde... Não, sério: me desculpe... Obrigada... Boa noite.
Ino desligou com tanta animação quanto tinha ligado – ou seja: nenhuma. Ela virou o corpo de maneira desajeitada, até estar de frente para a rosada, e a apertou com força, tanto por precisar de contato, quanto por saber, só de olhar para a cara dela, que Sakura também precisava.
— Porque estava falando com a esposa do ingrato?... Ela foi uma vaca escrota?
Ino riu e negou.
— Eu que fui a vaca escrota, ligando pro marido dela a essa hora... – A loira suspirou longamente, roçou a bochecha no rosto de Sakura e soltou um grunhido irritado. – Estou tentando virar uma boa pessoa, Sakura-chan! Ao invés de me instigar a falar mal dos outros, ajude!...
Sakura afastou-se, segurou o rosto de Ino e olhou para a amiga firmemente, com uma expressão absolutamente séria.
— Você é a melhor pessoa que eu conheço. – Afirmou categoricamente, tão sincera que Ino sentiu o peito apertar. – Desculpe por mais cedo... Sei que não estou agindo como a melhor pessoa do mundo, mas você é... Você é tão importante...
Ino negou.
— Talvez eu tenha mesmo sido intrometida, mas só estava preocupada.
Sakura anuiu, e Ino a encarou por um instante longo, pensativa.
— Não vou perguntar o que aconteceu lá... – Ela deslizou os polegares pelas olheiras de Sakura, que precisou apertar os olhos para segurar as lágrimas que mais uma vez tentavam descer. – Só pela sua cara já sei que não foi bom. Mas espero que tenha servido de alguma coisa... Tenha te ajudado a tomar uma decisão.
A Haruno suspirou, deu os ombros e se afastou.
— Eu já tinha tomado uma decisão, Ino... Não terminei meu namoro pra fazer charme, não mandei o Sasuke embora para que ele corresse atrás de mim... Eu tinha tomado uma decisão. Só não conseguia executá-la.
Ela seguiu para a cozinha, e sabia que tinha Ino ao seu encalço.
— E acha que agora vai conseguir?... – A loira quis saber; sua voz era um misto de curiosidade e preocupação. – Seguir essa decisão, eu quero dizer.
Sakura puxou uma latinha laranja e azul de dentro da geladeira, abriu e deu os ombros enquanto bebericava o suco.
— Parece que vou ter que conseguir... – Ela olhou para Ino de soslaio. – Dessa vez foi ele que me mandou embora.
Ino, tal como a Sakura de meia hora atrás, levou um longo instante para absorver aquela informação. Ela ficou chocada, mas tentou não demonstrar isso. Imaginava que Sakura ainda estava digerindo aquilo, apesar de obviamente já ter aceitado a situação.
— Não é tão ruim quanto parece... – A rosada ponderou quando notou que a amiga emudecera. – Na verdade, facilita tudo. O mais difícil era ficar pensando que ele queria voltar, e que eu poderia estar jogando a minha vida fora...
Sakura deu os ombros.
— Agora não tenho que ficar pensando nisso.
— Sakura...
— Não é como se eu estivesse mesmo jogando a minha vida fora... Eu... Gosto...
Ela cerrou os olhos, apertou a latinha e sentou-se; de repente sentia as pernas fracas, e isso a deixou extremamente irritada, porque estava decidida a daqui para frente lidar com sua situação de forma prática.
— Na verdade, imagino que eu o ame... – Ela confessou lentamente. – Mas não é só de amor que um relacionamento vive... Um amor requer sintonia, confiança... E eu não confio nele. Não consigo nem perdoá-lo...
Ino a envolveu carinhosamente quando notou que a voz dela tornara-se chorosa.
— Tudo bem, querida... Não vamos falar nisso, a não ser que você queira falar. – Ela sorriu para Sakura. – Quem precisa de homens?... Vamos para o meu quarto. Tem sorvete, podemos fazer a noite das meninas. Podemos fofocar até o amanhecer...
— Eu tenho que trabalhar, Ino...
—... Ou até você me mandar calar a boca e dormirmos. O que acha?
Ino tinha incorporado a pose alegre, mas Sakura a conhecia: sabia que, para ligar para Shikamaru do nada no meio da noite, alguma coisa a estava perturbando. Mas apesar de saber disso, e Sakura não conseguiu questioná-la sobre o assunto. Por mais que isso a tornasse uma péssima amiga, não conseguiria lidar com mais problemas.
Ela tentou retribuir o sorriso da loira, e apesar de sua expressão não ser muito convincente, foi o suficiente para a amiga.
~
Naruto entrou no apartamento de Sasuke quase cinquenta minutos depois de ter partido; ele já tinha resolvido o problema do carro de Ino, e trazia nas mãos sacolas plásticas e dois pacotes com o logo de um restaurante mixo de comida chinesa.
Sasuke estava deitado no sofá, fingindo assistir qualquer coisa na TV quando o inesperado amigo voltou; ele não queria se levantar, mas foi obrigado quando Naruto, depois de deixar os sacos em um canto qualquer, pousou o pacote pesado de comida sobre o seu colo.
— Eu não vou comer isso... – Sasuke resmungou com uma careta de desagrado.
— Eu aposto o meu carro que ainda não almoçou hoje, então vai comer qualquer coisa que eu mandar. – Naruto soou categórico; sentou-se ao lado do amigo e começou a abrir o próprio pacote. – Não é caro, mas a comida é boa pra caramba, então para de ser fresco.
O Uchiha suspirou longamente.
Devia estar no fundo do poço para acatar ordens de Naruto, mas sua barriga estava vazia, e sua cabeça cheia, o que era uma péssima combinação. Seu estômago roncou só por sentir o cheiro da comida do Naruto, e o moreno decidiu que não fazia sentido nenhum retrucar.
Ele comeu, e comeu bem, apesar de a comida ser gordurosa demais.
— Aliás, — Sasuke murmurou com a boca cheia, enquanto olhava de soslaio para o amigo, que já jogava a própria marmita vazia no saco. – Eu podia pedir seu carro, mas laranja é uma cor horrível pro meu gosto. É claro que eu almocei...
Naruto o olhou com os lábios estreitos e uma expressão duvidosa.
— Sasuke, café não conta como almoço.
Sasuke bufou.
— Tenho cara de idiota?... Liguei pro fast na hora do almoço.
Naruto suspirou, negou com a cabeça e sorriu divertido para o amigo.
— Fast-food também não conta, meu caro amigo idiota. Pelo menos não depois que a gente passa dos dezenove anos.
Sasuke fez uma careta e voltou a comer.
— Essa porcaria é boa, não é? – O loiro comentou com um sorriso de canto.
— Quando você se sustenta com fast-food por três dias consecutivos, qualquer coisa que tenha aparência de comida é boa pra caramba... Mas essa cara de almoço não me engana: – Ele apontou para a marmita. – É mesmo uma porcaria, consigo sentir a gordura até no molho... Vou acabar parando no hospital com dor no estômago.
— Não por causa dessa porcaria. – Naruto pontuou, e Sasuke deu os ombros. – Eu tive uma ideia: a partir de amanhã, todos os dias vou passar no seu escritório e te puxar pelas orelhas prum restaurante de verdade. – Ele se aproximou e afagou a cabeleira morena do outro. – Não pode fazer isso, Sasuke-kun. Vai acabar se matando.
Sasuke bufou.
— Eu até poderia ter tempo pra comer se sua prima incompetente aparecesse no trabalho de vez em quando...
As sobrancelhas loiras do outro se arquearam.
— Ué, ainda não a mandou embora?!
Sasuke o olhou com irritação.
— Como é que eu mando Karin Uzumaki embora, Naruto? Já to ferrado com meu avô, não quero ficar ferrado com o meu pai. E os dois vão me infernizar se eu chutar a filha de um investidor pra fora.
— Meu tio não é assim, Sasuke...
— Bem, ele não vai ficar feliz quando souber que ela foi embora por um problema particular. Com certeza vai ligar esse “problema particular” a mim, e estou fodido do mesmo jeito. Seu tio já não gosta muito de mim, Naruto.
O loiro fez uma careta, mas não negou porque, afinal, Nagato não ia mesmo muito com a cara de Sasuke.
— E ela nem vem, nem pede demissão. Só pode estar querendo me ferrar mais!... O trabalho acaba ficando acumulado, não posso contratar ninguém, nem consigo pedir ajuda, porque a empresa inteira já entendeu que tivemos um “problema pessoal” e ficam falando por todos os cantos. E tudo acaba sobrando pra mim!
Naruto suspirou e negou com a cabeça.
— Vou conversar com ela, mas não sei se vai adiantar. Karin anda bem raivosinha, ultimamente. Se não der certo, vai ter que dar seu jeito... Não dá pra continuar nesse estado. Você tá parecendo um zumbi! – Ele apontou na direção de Sasuke. – Vai acabar tendo um treco.
O moreno suspirou longamente, e deitou a cabeça no encosto do sofá.
Às vezes queria mesmo ter um treco.
— Pelo menos você podia dar uma pausa na reconstrução da sua carreira de Dom Juan. – Naruto observou, e os olhos negros reviraram. – É sério, Sasuke. Tem que escolher se vai trabalhar de dia ou de noite, porque os dois não dá certo.
Sasuke sorriu de canto e olhou para Naruto de soslaio.
— Eu até que estou conseguindo me virar.
Naruto estreitou os lábios, nem um pouco convencido.
— É verdade, e você pode perguntar pra as moças, se quiser... – O moreno esticou os braços até sentir o corpo estalar – Sasuke Uchiha nunca deixou ninguém na mão, não vai deixar agora.
O Uzumaki suspirou, levantou-se, foi até a estante e pegou um dos livros que estavam organizados nas prateleiras; voltou até Sasuke, que o olhava curioso, e bateu com o livro bem na cabeça do moreno, que se afastou com um olhar assustado.
— Que droga...?
— Pare de tentar bancar o babaca. – Naruto voltou a se sentar, ainda com o livro em mãos, o que fez Sasuke tomar distância. – Não vai funcionar comigo. Sou quem melhor te conhece, Sasuke Uchiha. E, caso não se lembre, acabei de presenciar parte da sua DR.
Sasuke fez uma careta.
Não queria falar disso... Na verdade, estava indo muito bem falando sobre comida, trabalho e futilidades. Se divertindo, até. Não tinha motivo pro assunto mudar para aquela porcaria.
— Eu nunca te vi gritando com ninguém... – Naruto refletiu. – Além de mim, é claro. Mas nós gritamos um com o outro desde o primário, é quase um tipo de linguagem alternativa.
Naruto Uzumaki era um gênio em inventar trivialidades, mas nem a perspicácia divertida do amigo conseguiu tirar Sasuke da escuridão em que aquele maldito assunto o afundava. E o pior é que ele conhecia o amigo, e sabia que Naruto insistiria até ouvir o suficiente para se contentar.
Sasuke tentou dar os ombros; deixou as poucas sobras da janta de lado e colocou os pés na mesa de centro imunda que ficava perto do sofá.
— Sei lá, cara... Eu só...
Sasuke suspirou.
— Estou de saco cheio, sabe. Não aguento mais. Ela pisou, pisou... E eu cansei. Não aguento mais ouvi-la gritar que eu fiz isso ou aquilo, que eu traí a confiança dela, que eu traí o nosso relacionamento... Tudo bem, aceito isso. Se é o que ela realmente pensa, eu não vou...
Naruto se esticou no sofá e puxou as sacolas plásticas.
— O que é isso?
— O consolo dos homens. – Naruto ergueu uma garrafa de saquê barato. – De homens velhos, mas era o que tinha no restaurante. Vai ter que servir.
Sasuke estreitou os lábios enquanto viu Naruto servir (com os copos que já estavam lá), e se perguntou se o amigo tinha ido pra lá para consolá-lo, ou para ter companhia para comer e beber aquelas porcarias das quais gostava.
— Aliás, esse apartamento tá imundo... – Naruto tomou um gole de um dos copos e entregou o outro. – Mas prossiga.
— A secretária do escritório não foi a única a me abandonar. – Sasuke confessou, bebeu um gole da bebida e fez uma careta. Não era bom... Mas ao menos era forte, o que talvez tornasse aquela coisa melhor do que se fosse gostosa.
Naruto riu.
— Primeiro a Sakura, depois a senhora Komine, e até a Karin... Todo mundo está me chutando, ultimamente. É a prova de que relações duradouras com mulheres são uma merda, a menos que a mulher em questão tenha o seu sangue.
— Ou o do seu melhor amigo. – Naruto pontuou com um sorriso divertido.
— Karin tem o seu sangue. – Sasuke o lembrou, apontando para ele antes de voltar a beber. – E foi ela quem mais me ferrou, se quer saber.
— Isso me faz lembrar...
Sasuke ergueu os olhos para Naruto, mas antes de conseguir ter contato visual com o amigo, foi acertado com um soco tão forte que derramou metade do maldito saquê nas calças ao cambalear.
— Mas que porra...?! – Ele conteve o grito e olhou furioso para o loiro, que sorria.
— Eu disse que da próxima vez ia te bater. – O Uzumaki o lembrou. – Karin continua sendo minha prima, e bons amigos não dormem com as primas umas dos outros.
Os olhos negros se cerraram.
— Você já...
— Já dormi com a sua prima. – Naruto completou com exasperação. – Eu sei, eu sei. Somos dois merdas, mas você só quer desgraçar a minha prima. Pelo menos eu vou acabar me casando com a sua prima uma hora ou outra.
Naruto sorriu quando disse isso, e Sasuke sentiu uma vertigem ao perceber: Naruto e Hinata deviam ter feito as pazes pra valer.
Não que não ficasse feliz com aquela reconciliação... Mas era difícil decidir se Naruto ficava mais insuportável quando contente, ou quando frustrado. E como o próprio Sasuke não se sentia feliz naquele momento, só de pensar na possibilidade de ouvir o amigo falando besteiras e melosidades o fazia querer vomitar.
— Sasuke, você parece verde. – Naruto soou alarmado. – Quer ir pro hospital?!
— Não me diga que voltou a dormir com a minha prima... – Sasuke bateu a própria mão no rosto, exasperado. Só pensar que os dois podiam estar engatando em um relacionamento era cansativo.
Ele não teria só um Naruto feliz, teria também uma Hinata feliz.
E provavelmente ambos tentariam bancar os cupidos.
— Ainda não. – Naruto deu os ombros. – Provavelmente não vou tão cedo, mas vou voltar. – Ele lançou um sorrisinho ao moreno. – Só voltamos a conversar, estamos investindo na amizade... Mas você me conhece: cedo ou tarde, vou dobrá-la. Não me importo se tiver que esperar meses ou uns anos.
Sasuke sorriu de canto.
— Meses ou anos?... Por acaso vai virar celibatário? O Dom Juan loiro vai deixar a vida de fanfarrão por uma garota. Será que vale a pena, senhor Uzumaki?... E o que te faz pensar que ela vai fazer o mesmo?
— Só está perguntando isso porque nunca dormiu com ela. Nem comigo.
Ele piscou e Sasuke não conseguiu não rir.
Mas rir fez com que seu rosto – que começava a ficar inchado – doesse, então o moreno fez uma careta e pressionou a parte dolorida.
— Já é a segunda vez só esse ano... – Ele resmungou raivoso – Você é mesmo um grande filho da puta, Naruto Uzumaki... E o pior é que eu nem tenho carne pra por nessa merda, vou ficar com a droga do olho roxo.
— Sabe que mereceu. – Naruto observou; encheu o copo de Sasuke mais uma vez e voltou a beber do próprio copo. – Mas voltando aos seus problemas... O que vai fazer? Deixá-la ir?... Não é do seu feitio desistir...
Sasuke suspirou longamente, irritado. Não queria voltar naquele assunto, mas pelo jeito Naruto insistiria até se dar por satisfeito.
— Não desisti, Naruto. Só que o meu saco encheu, a paciência acabou. Nós dois sabemos que eu não tenho paciência para esse tipo de joguinho... Não gosto disso de ficar jogando a culpa um no outro, e é por isso que eu nunca tentei nada sério com ninguém: porque uma hora ou outra sempre acontece.
— Não o ouvi jogar a culpa nela... – Naruto observou curiosamente, e Sasuke riu.
— Não é porque não ouviu que eu não fiz. – O moreno apontou para a própria cabeça. – Só Deus sabe as coisas que eu pensei, meu caro amigo. Mas diferente da senhorita Haruno, eu tenho um filtro.
Naruto estreitou os lábios.
— Sasuke... É óbvio que você gosta dela e que ela gosta de você, mas também está claro para mim que vocês precisam de mais tempo pra esfriar a cabeça... Ela precisa de tempo pra te perdoar. Imagina só a droga que deve ser ficar imaginando o que você e a Karin ficaram fazendo lá.
— Naruto, eu não transei com a Karin...
— Você pode mesmo dizer isso? Porque pelo que eu sei, você estava bêbado. E mesmo que não tenha transado com ela, pode me garantir que não se pegaram? Que não se beijaram, que não se roçaram, que não fizeram todas essas pré-sacanagens?... Eu duvido. Se você ficou tão bêbado a ponto de vomitar sentimentalismo sobre a Sakura, como a Karin me falou, não deve se lembrar de absolutamente nada.
Sasuke emudeceu, e sentiu todo o seu corpo paralisar.
— Eu... Fiz algo assim? Ela disse isso?!
Naruto estreitou os lábios e encarou o copo.
— Eu não perguntei os detalhes, idiota. Não é o tipo de coisa que um cara pergunta pra uma garota, muito menos se essa garota é sua parente... – Ele voltou a olhar para Sasuke. – Só perceba, meu amigo, que a falta de confiança dela não é gratuita. Ela tem todos os motivos do mundo para não confiar em você.
Sasuke praguejou, coçou a nuca e soltou um urro de irritação.
— Você veio aqui pra me consolar ou pra terminar de me ferrar?!
— Eu vim aqui para te mandar a real. – Naruto estava sério. – Porque sou seu melhor amigo, e é isso o que os melhores amigos fazem... Não estou dizendo isso pra você ficar se culpando, porque no fim das contas tem razão: culpar a si mesmo ou até a Karin não vai adiantar nada. O que aconteceu, aconteceu, e não dá pra voltar... Só que você gosta da Sakura-chan. Sei disso. E se gosta mesmo dela...
— Ela não vai me perdoar, Naruto. – Sasuke se levantou, exausto. – Não precisa se preocupar com a possibilidade de ela vir atrás de mim pra tentar voltar, porque isso não vai rolar.
Naruto não tinha tanta certeza.
— É uma possibilidade... – Ele ponderou. – Sakura-chan nunca foi rancorosa, só está com raiva. Na verdade, é uma pessoa que perdoa com muita facilidade... Se você soubesse o que ela passou na escola...
Era impressionante como Naruto só conseguia se importar com os problemas do amigo quando Sasuke não queria que ele se preocupasse. O Uchiha sabia que o amigo tinha a melhor das intenções, mas aquilo já começava a irritá-lo. Ele não queria desabafar, não queria ouvi-lo defender Sakura, perguntar sobre ela ou perguntá-lo sobre seus sentimentos por ela.
Sasuke não queria falar de Sakura.
Naquele momento, ele queria dormir... Ou pelo menos se distrair.
— Naruto.
Sua voz soou cortante, e Naruto finalmente percebeu que devia calar a boca.
— Eu sei que você quer ajudar... E sei que devia estar grato pela sua preocupação... Mas estou exausto. Já estava antes de a Sakura chegar, então, por favor... Eu realmente, realmente to de saco cheio desse assunto.
Os olhos negros se fixaram nos azuis.
— Só seja meu amigo, beba comigo e tente me distrair.
Naruto não sabia se concordava ou não com a postura do amigo; sabia que a mente do Uchiha estava cheia de todo tipo de pensamentos, e entendia como aquilo era uma droga... Mas Sasuke estava falando sério, ele parecia mesmo cansado...
E Naruto decidiu que se aquilo era o que podia fazer para ajudá-lo naquele momento, era o que ele faria.
~
Por causa do gatinho, Kasumi levou mais tempo para chegar em casa do que esperava, então não se surpreendeu quando encontrou ambos os pais na sala, esperando por ela praticamente na porta de entrada.
— Pelo amor de Deus, menina! Onde é que se enfiou essa hora?!
Obito estava tão furioso que ela sentiu vontade de rir.
Às vezes o pai perdia a noção das coisas; ele mal parecia perceber que estava falando com uma mulher de vinte e cinco anos, grávida e prestes a ter a própria filha pra se preocupar. Se estivesse ao menos um pouco mal-humorada, era bem possível que respondesse ao pai de maneira ácida, mas sua mente estava tranquila, a viagem a tinha feito relaxar, então Kasumi não fez nada além de sorrir de canto e olhá-lo de maneira zombeteira.
Ela ergueu a gaiola pequena que comprara minutos antes, num hipermercado qualquer no centro da cidade, e explicou: — Um gato cruzou o meu caminho.
Os pais ficaram mudos de surpresa.
— Vou ajudá-lo a encontrar os donos... – Ela olhou para dentro da gaiola, onde o pequeno Leorio estava deitado e olhava atentamente para sua família – E tive que passar no mercado pra comprar umas coisas pra ele ficar aqui...
Ela voltou a olhar para os pais.
— Espero que não tenha problema...
Obito estreitou os lábios, cruzou os braços e se aproximou para pegar a gaiola.
— O único problema é você agüentando esse peso com essa barriga... – Ele resmungou. – E isso não explica onde estava até essa hora, mas tudo bem... – Obito adicionou ao ver a careta da filha. – Não é da minha conta, mas...
— Estava preocupado. Eu sei, eu sei...
Kasumi o cumprimentou com um abraço e se apressou para ir até a mãe, que estava encostada na parede, com um semblante engraçado, que parecia ser um misto de nervosismo e curiosidade.
Ela a envolveu em um abraço ainda mais forte, e deu um beijo estalado no rosto de Rin, que suspirou como se estivesse cansada.
— Avise-nos da próxima vez, querida... Por favor. Não queremos controlá-la, mas no seu estado... É natural ficarmos preocupados. Já são quase onze horas!
Kasumi riu.
— Mamãe, onze horas não é exatamente “tarde” para alguém da minha idade... Mas tudo bem, vou avisá-los. – Ela se virou para Obito, que já se divertia enfiando os dedos na gaiola do bichinho, que tentava caçá-los. – Papai, pode buscar as coisas no carro? Comprei potinhos, areia, toda essa parafernalha.
Ele anuiu, deixou a gaiola no sofá e ergueu os olhos para a filha.
— Onde ele vai ficar?
Kasumi deu os ombros.
— No meu quarto, acho...
— Não é perigoso? – Rin soou aflita, e Kasumi sorriu para ela.
— Só se ele estiver doente... Mas ele não vai dormir comigo, não se preocupe. Amanhã dou um jeito de levá-lo ao veterinário.
— Se é assim, melhor ficar no nosso quarto. – Obito observou. Kasumi fez um beicinho bastante infantil para uma mulher de vinte e cinco anos, grávida e prestes a ter a própria filha para se preocupar, mas não foi capaz de mudar a opinião do pai.
— Mas ele não vai dormir comigo!...
Rin sorriu.
— Sua cara te denuncia, querida. – Ela observou, e afagou a cabeleira castanha da mais jovem. – Não se preocupe, vamos ficar de olho nele.
Kasumi suspirou, mas se deu por vencida, afinal. Ela viu Obito tirar Leorio da gaiola, erguê-lo e analisá-lo com um sorriso de pura satisfação.
— Ele parece bem cuidado, com certeza tem donos... – Então aproximou o bichano do próprio peito, e o afagou carinhosamente. – Uma pena, não é? É bem bonitinho. – Ele ergueu os olhos para a filha. – Se não achar os donos, vamos adotar.
Ela sorriu em resposta.
— Certo... – Obito colocou o gato ao chão. – Bem vindo...
— Leorio.
— Bem vindo, Leorio. É nosso mais novo convidado. Mas agora, Kasumi... – Ele se aproximou da filha e envolveu seus ombros com o braço. – Nós te esperamos até agora para jantar, e você vai jantar, mesmo que tenha que fazer isso pela segunda vez.
Kasumi deu os ombros e piscou.
— Estou comendo por dois, de qualquer forma.
Rin soltou uma risadinha; se apoiou na bengala que tinha começado a usar fazia algumas semanas se seguiu a dianteira para a cozinha.
Kasumi tentou baixar a velocidade dos próprios passos, e quando notou que tinha tomado distância o suficiente da mãe, virou-se para o pai – que percebera sua desaceleração – e murmurou num tom sério, numa voz que só ele podia ouvir:
— Queria conversar com você uma hora dessas...
Como aquilo só podia ter alguma coisa a ver com Rin, Obito assentiu em silêncio, disfarçadamente, enquanto mantinha o sorriso tranquilo no rosto.
— Uma outra hora.
~
Ainda era manhã quando Hinata chegou à mansão Hyuuga, então ela não se surpreendeu quando se deparou com a mãe na mesa da cozinha, tomando seu desjejum enquanto conversava animadamente com os empregados da casa.
Ao contrário da maioria dos Uchiha, sua família de origem, Suzuki Hyuuga sempre tinha sido um doce de pessoa. Era uma mulher tranquila, sorridente e simpática, que fazia amizades facilmente e conquistava o carinho de qualquer um que cruzasse o seu caminho, exatamente como Hanabi.
Enquanto observava a mãe socializando com os empregados, Hinata se perguntou por que não podia ser mais parecida com ela. Sempre tinha sido muito tímida, e mesmo hoje passava por constrangimentos desnecessários, já que se envergonhava com facilidade extrema.
— Hinata-sama!
A cozinheira exclamou quando a flagrou na soleira da porta, e Hinata se pegou corando. Ela sorriu timidamente enquanto todos os amigos da mãe se voltaram para ela, acenavam e exclamavam “Bom dia!” com muita animação.
— Hinata! – A mãe se levantou ao vê-la, correu até ela e a apertou. – Minha filha!... Por que não avisou que vinha? – Ela envolveu a cintura da filha e a arrastou cozinha à dentro. – Eu a teria esperado, sabe que adoro comer na companhia da minha família, apesar de raramente conseguir.
— Eu não sabia que horas ia conseguir vir... Onde está Hanabi?
A mãe a olhou com um sorriso maldoso.
— No quarto, é claro. Menma dormiu aqui, — Os olhos negros da mulher reviraram. – Passaram a noite inteira acordadas, comemorando a folga da faculdade. Devem dormir até o início da tarde.
Hinata assentiu lentamente.
— Elas não vão mesmo voltar pro exterior? Eu sei que estão no mesmo grupo escolar, mas os recursos de lá costumam ser melhores, e...
— Aaah! Nem diga isso! – Suzuki a censurou enquanto bebericava da xícara de café, agitando uma das mãos. – Estou muito feliz com minha filha em casa! Já basta você ter me trocado por um apartamento velho... – Ela resmungou com um beicinho, e Hinata sorriu.
— Pare de ser dramática, mamãe.
Suzuki fez uma careta, mas deu os ombros.
— Quer um pedaço de bolo, Hinata-sama? – A cozinheira ofereceu gentilmente, sorrindo de maneira convidativa, mas Hinata negou com a cabeça; estava nervosa demais para comer.
— Na verdade, mãe... Eu vim falar sobre algo. É uma boa notícia! – Ela apressou em explicar quando viu os olhos negros se estreitarem em sua direção. – É sobre a banda. Ofereceram um bom contrato, e todos aceitamos.
— Um contrato? – Suzuki estreitou os lábios; não entendia nada de nada sobre trâmites administrativos. – Se é um bom contrato... Fico feliz por você, querida. Mas, ora essa... – Ela sorriu divertida. – Por que teve que vir falar com sua mãe sobre isso?
Hinata sentiu o estômago revirar.
— Na verdade, vamos sair para um tipo de turnê...
— Uma turnê?! – Suzuki exclamou. – Por onde? Talvez eu possa conseguir um jeito de acompanhá-la.
— Acho que vai ser um pouco difícil...
Hinata desviou-se do olhar da mãe, constrangida, e Suzuki riu melodicamente.
— Ah, querida! Seu pai não vai ficar nervoso se eu me ausentar um dia ou outro... Ele sabe que eu vou estar lá para apoiá-la.
Hinata assentiu lentamente.
— A questão é que... A questão é que não é um dia ou outro... Na verdade, mãe, nós vamos passar quase um mês fora, e talvez isso se estenda.
Suzuki arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— É mesmo?... Mas seus amigos trabalham, não? Soube que aquele garoto da bateria, o Aburim, é engenheiro na Uchiha. – Ela continuava comendo, e olhava espantada para a filha. – Será que ele vai conseguir folgar para ir nesse negócio?
— Aburame, mamãe. E sim... Ele já está tomando as providências quanto a isso.
— Ah, mas será que vale a pena? Não me leve a mal, querida. Sabe que eu a apoio, mas esse trabalho é um pouco ingrato. Vocês estão fazendo sucesso agora, mas o que vai ser daqui seis meses? Um ano?... É claro que você e o Kiba têm como se sustentar se isso der errado, mas e quanto aos outros?... Não é preocupante?
Hinata suspirou.
Já era hora de ela começar a implicar com alguma coisa...
— Mamãe, a Time 8 já foi consolidada. Só o Shino ainda trabalha fora da banda, e ele faz isso porque gosta, não porque precisa.
— Já que você diz... – Mas a cara de Suzuki deixava claro que ela não estava certa sobre o assunto. – De qualquer forma, posso pelo menos dar um jeito para passar em alguns shows, o que acha? É importante que a família esteja presente nesse tipo de coisa.
Hinata tentou sorrir, e aproximou mais a cadeira da mãe.
— Mamãe... Nós vamos viajar para fora do país, não da cidade ou do estado. É uma turnê internacional, que pode se estender ou não para shows no fim do ano... – Ela acariciou os braços da mãe, que a olhava embasbacada. – Não faça essa cara, é algo bom para a carreira de todos lá dentro.
Suzuki afastou as mãos do carinho da filha.
— Hinata Hyuuga! Isso já é demais!... Aceitamos seu surto de estrela, aceitamos que saísse de casa para morar sozinha, o que eu já acho um absurdo... Mas agora você quer viajar para fora do país com um bando de desconhecidos?! – Suzuki se levantou, furiosa. – Isso é demais! – Ela bateu o pé no chão. – Não, não e não!
— Não estou tentando pedir permissão, mãe...
— Nem se estivesse! Você não vai! Vai ficar aqui nem que eu tenha que te amarrar na sua cama! Isso não é certo!
Hinata suspirou. Àquela altura já estavam sozinhas na cozinha; tanto a cozinheira quanto os demais empregados já tinham deixado o lugar há muito tempo, já que só de notar o nervosismo de Hinata puderam perceber que alguma confusão estava por vir.
— Pelo amor de Deus, não é a primeira vez que eu viajo pra lá, e nem vai ser a última! Já fui tantas vezes para tratar de negócios da Hyuuga... E às vezes eu ia sozinha, sem ninguém! Agora vou ter os meus amigos por perto!
— Sabe que nunca gostei de ver você viajando, mesmo pela Hyuuga!
Hinata bufou.
— Também nunca me impediu.
— Mas vou impedir agora...
— Mãe. – Hinata a cortou, decidida. – Eu vou viajar. Somos um time, e aceitamos o contrato. Vamos viajar em dois meses, e eu estou aqui para informá-la, não para pedir permissão, porque não preciso dela... Com todo o respeito, eu sou maior de idade, vacinada e independente. Esse é o meu trabalho... E esse contrato pode trazer muitas oportunidades!... Mamãe, por favor, não faça essa cara...
Suzuki parecia estar prestes a desabar em lágrimas. Ela apontou para Hinata de forma acusativa, com os olhos estreitos e chorosos.
— Eu não vou concordar com isso, Hinata! E vou deixar meu descontentamento claro, tanto para o seu pai quanto para os seus amigos!
E saiu da cozinha rápida como um torpedo, tropeçando em Menma e Hanabi no meio do caminho; as duas mais jovens estavam paralisadas na soleira da porta da cozinha, olhando abismadas na direção de Hinata, que enrubesceu ao flagrá-las.
Um minuto constrangedor de silêncio se estendeu antes de Hanabi conseguir se expressar. Ela se aproximou lentamente da irmã, os olhos perolados bastante esbugalhados.
— Aniwe... Isso é sério?! – Ela estava pasma. – Toda a Time 8?
Hinata engoliu em seco e anuiu.
— Nossa, mas... Mas isso é demais! – Hanabi deu pulinhos de animação e envolveu a irmã num abraço apertado e cheio de energia. – Não posso acreditar! Sério que vocês conseguiram isso?!... Mas me fala, aonde vão se apresentar? Quando e como vai ser? Aposto que foi aquele Ootsutsuki, não é? Eu sabia que ele não estava atrás de você só pra flertar!...
Demorou um segundo para que Hinata absorvesse a aceitação da irmã, e a animação da mais nova aliviou de tal forma que ela não pôde evitar ser contagiada pela felicidade que irradiava de Hanabi.
Elas começaram a conversar sobre o projeto, tão alegres que sequer puderam notar quando a pobre Menma Uzumaki decidiu se afastar; ela, ao contrário das Hyuuga, não parecia nada satisfeita com a notícia...
Não sabia se ficava mais zangada com a notícia em si, ou com o jeito que havia recebido ela. Afinal, aquilo a tinha feito perceber o óbvio: que Kiba-Idiota Inuzuka não a estava levando a sério, no fim das contas.
~~
Kasumi fez uma careta quando sentiu parte do travesseiro vibrar em seu rosto; ela se remexeu, afastou o celular e tentou se acomodar na cama, mas a mudança de posição a fez sentir uma pontada.
Aparentemente, Akane não gostava quando a mãe virava de barriga para cima, e como represália à mudança repentina, Kasumi sentiu um pontapé certeiro em algum lugar de sua caixa torácica, o que a fez gemer de dor e murmurar um xingamento.
— Droga, Akane... – Ela se remexeu, e o pequeno Leorio – que dormia em suas pernas – despertou. – Desculpe, Leo. Parece que nenhum de nós vai conseguir dormir direito até a Akane nascer... – Ela resmungou, e se sentou na cama.
Leorio subiu até onde Kasumi estava, e roçou o corpo no braço dela, o que a fez relaxar. Ela já tinha chegado à conclusão de que Leorio era mesmo um ótimo animal; ele parecia entender seus sentimentos, já que na menor demonstração de irritação, aproximava-se para tentar acalmá-la.
Fazia três dias que ele estava com os Uchiha; Obito e Kasumi o levaram ao veterinário na manhã seguinte de sua chegada, e quando foi provado que não tinham nada o que temer, já na segunda noite o bichano já tinha se mudado para o quarto da esposa de Itachi.
Kasumi ainda estava à procura de seus donos, mas ela não tinha nenhum rastro a seguir: apesar de ser bem cuidado, castrado e vacinado, ninguém estava procurando por ele, e não importava o quanto Kasumi procurasse, ela não conseguia encontrar ninguém a procura de um gato cinzento de um ano perdido.
Fosse quem fosse o dono de Leorio, parecia estar em outra dimensão!... E Kasumi estava quase certa que no fim das contas acabaria ficando com ele – o que não era, de fato, uma má ideia.
Leorio era encantador, e quase como para provar seu pensamento, ele se aproximou da barriga e começou a dar cabeçadas em Akane, que se remexeu dentro da barriga da mãe, parecendo erguer as mãozinhas para acariciá-lo.
Kasumi sorriu, encantada, e quando puxou o celular para tirar uma foto, deu de cara com três ligações perdidas do marido. Estava tão sonolenta que mal percebeu que aquelas ligações provavelmente tinham sido as culpadas por tê-la acordado, em primeiro lugar. Ela estreitou os olhos, confusa, e abriu o aplicativo de mensagens.
“Só soube do que aconteceu hoje de manhã. Como você está?”
“Por favor, entre em contato. Estou preocupado.”
“Você não teve nada com o bebê, teve? Me avisaria se tivesse, não é?”
“O stress é perigoso, ainda mais nesse período da gravidez... Como você está?”
Kasumi ainda estava tentando entender sobre o que diabos Itachi estava tentando falar às sete e meia da manhã, mas seu raciocínio foi interrompido por uma nova mensagem, que soava um pouco mais exigente:
“Atenda logo! Estou preocupado!”
A Uchiha fez uma careta, ainda tentando compreender sobre o que ele devia estava falando, mas resolveu tranquilizá-lo ao invés de quebrar a cabeça imaginando: ligou a câmera frontal, fez uma pose e angulou o celular até que ela, a barriga, e Leorio – que agora tentava se aconchegar em Akane. Depois de bater a foto, enviou-a para o marido com a seguinte legenda:
“Meu cérebro ainda não conseguiu entender do que você está falando, mas como prova de que estamos bem, aí vai uma foto. OBS: Esse serzinho provavelmente vai ser o mais novo pet da sua filha”.
Ela sorriu ao reler a própria mensagem, e quase imediatamente outra chegou.
Mas não era de Itachi, e o sorriso de Kasumi se desfez quando leu a identificação do remetente.
.
Do outro lado da cidade, Itachi desabou no sofá da sala de estar dos Uchihas, extremamente aliviado. Sentia seu coração à mil, sua cabeça doía há meia hora e seu estômago já estava começando a revirar de nervoso.
— Ela está bem. – Ele murmurou baixo, aliviado, para o pai.
Fugaku estava sentado à sua frente, com as mãos enlaçadas e um olhar aflito.
— Graças a Deus... – Ele suspirou, coçou a testa e se ajeitou no sofá.
Itachi riu, desacreditado, e exibiu a foto enviada por Kasumi para o pai, que sorriu, claramente aliviado com a despreocupação expressa na postura da nora.
— Agora me diz se não é uma desgraçada de uma cara de pau?...
— Não, não fale isso... É bom saber que ela está mais calma, Mikoto me disse que ela parecia muito nervosa quando saiu do café naquela discussão... Confesso que eu não vi, mas vi o estado da sua mãe, e se Mikoto estava assim... – Ele estreitou os lábios e balançou a cabeça. – É um alívio que tudo esteja bem com ela.
Itachi assentiu, digitou uma resposta rápida e voltou a olhar para o pai.
— Devia ter me avisado. Trata-se da minha esposa E da minha mãe...
— Você estava fora da cidade, Itachi... Eu tentei, mas não foi fácil te contatar. Também estava ocupado com sua mãe, você viu o estado dela...
Itachi sentiu o coração pesar, mas assentiu, concordando.
Mikoto estava pior; num estado tão deplorável que Fugaku estava sendo obrigado a tirar folgas na empresa para cuidar dela. Ela não comia se não fosse obrigada, só conseguia ir pro banho quando o marido a levava para o chuveiro e andava dormindo demais para uma pessoa saudável.
Ela andava falando coisas estranhas... Andava agindo de maneira estranha... E Fugaku estava sinceramente preocupado em deixá-la sozinha, porque Mikoto, de uma hora para a outra, parecia ter perdido a vontade de viver.
— O Sasuke sabe como ela está? – O pai lhe negou. – Pai...
— Sasuke anda muito ocupado... Ele tem trabalhado demais, passou por uma situação ruim com a garota Uzumaki e... – Fugaku balançou a cabeça. – Ele não está bem, Itachi. Eu ouvi dizer que Naruto está aparecendo no escritório todos os dias para arrastá-lo para almoçar, e nem sempre consegue...
Ele passou as mãos pelo rosto, exasperado, e Itachi percebeu que seu pai estava exausto, quase destruído pelo desespero.
— Eu não... Eu sei que deveria dar atenção, ir até ele, perguntar sobre seus problemas... Mas eu nunca... – Ele apertou os olhos e os punhos. – Creio que falhei como pai, porque nenhum de vocês sente confiança o suficiente para vir até mim e falar sobre seus problemas... E eu deveria ir atrás do meu filho, mas... Mas não consigo. Só a ideia de deixar sua mãe sozinha... Desculpe, meu filho. Tenho sido tão inútil, e me sinto tão impotente...
Itachi apertou o braço do pai num gesto afetuoso, e sorriu a Fugaku.
— Você está fazendo o que pode. Não é como se o Sasuke esperasse que a família inteira o rodeasse por causa de seus problemas... Não precisa ficar preocupado: cuide da mamãe. Eu vou falar com Sasuke ainda hoje para entender o que está acontecendo e vou cuidar da Kasumi também.
Fugaku tentou sorrir, mas não foi convincente.
— Sempre foi o que precisava ser... Sempre agiu como todos esperavam que agisse, Itachi... Mesmo quando decidiu sair do ramo da família para fazer o que queria fazer, você nunca deixou a desejar, nunca frustrou nenhum de nós.
Itachi riu.
— Fale isso pra avó Kaede.
Mas Fugaku negou, apertou a mão do filho e fixou os olhos nos dele.
— Você e Sasuke foram os maiores acertos das nossas vidas, Itachi... – Ele engoliu em seco, emocionado. – Não se atente às coisas ruins que já ouviu alguém falar, ou a postura irritante que nós nos acostumamos a ostentar... Jamais pense algo diferente disso, meu filho. Eu, sua mãe, seus avós e até mesmo os seus tios, todos nós estamos orgulhosos por vocês serem quem são.
A vida inteira Fugaku Uchiha tinha sido um homem firme, forte e imponente: o tipo de homem que todos admiravam e respeitavam; o tipo de homem que nunca mostrava fraqueza para ninguém.
Como filho mais velho, Itachi conhecia o pai bem o suficiente para entender quando ele estava feliz, triste, irritado ou emocionado, mas nunca o tinha visto tomado por tantos sentimentos... E vê-lo daquele jeito, de alguma forma, o desconsertou.
— Obrigado, filho. E, por favor... Por favor, me perdoe. Pelo que eu fiz... E principalmente: pelo que eu não fiz.
~
Kasumi tomou café com os pais como fazia todos os dias, brincou com Leorio como fazia ultimamente, ajeitou uma coisa ou outra no quarto de Akane e às onze horas, depois de se despedir de Rin e Obito – que iriam para o hospital, como faziam todas as quartas e domingos – ela se apressou, subiu para o quarto e vestiu a roupa elegante mais confortável que tinha no armário.
Era um vestido longo florido e com saia mole, que mais parecia fazê-la parecer com um botijão enfeitado do que com uma mulher rica e elegante – como ela gostaria de parecer inicialmente –, mas era o melhor que tinha àquela altura de sua gravidez.
Ela fez uma maquiagem leve, colocou uma sapatilha confortável, pegou a bolsa mais cara que tinha no guarda-roupa e ficou satisfeita com o que viu no espelho.
— Certo, Leozinho. – Ela afagou o gato, que a observava da cama. – Devo demorar um pouco para chegar... Deseje-me sorte.
~
Madara não precisou olhar para o relógio.
Quando Hiroto Nohara apareceu na porta do restaurante aonde tinham marcado aquele encontro desagradável, o patrono dos Uchiha sabia que os ponteiros deviam estar batendo no número doze, indicando o meio dia impecavelmente.
Aquele homem sempre era muito pontual em seus encontros com os Uchiha.
— Aah! Meu caro Madara! Há quanto tempo!
Hiroto sorria de um jeito vitorioso, e sentou-se esparramado no banco do restaurante; ele chamou o garçom com um acenar, fez um pedido simples, da bebida mais cara que encontrara no cardápio e em acompanhamento com algum fruto do mar. Ele estava sorrindo enquanto pedia, mas assim que o garçom se afastou, uma expressão de desprezo tomou conta de seu rosto.
— Más lembranças? – Madara fingiu estar chutando o palpite, mas na verdade estava ciente de que Hiroto havia trabalhado como garçom há algum tempo.
O senhor Nohara levou os olhos até os do Uchiha, e sorriu de um jeito divertido.
— Eram tempos difíceis, mas já estão mudando... – Ele se ajeitou na cadeira e esticou os braços na mesa para tentar se aproximar de Madara, que continuava a olhá-lo com a mesma frieza de sempre. – E como anda a família, meu querido amigo? Soube que está aumentando.
— Imagino que saiba mesmo, não é? Já que anda rondando a filha de Obito.
Hiroto riu.
— Eu não rondei ninguém... Foi ela quem veio atrás de nós. Queria descobrir mais sobre a família da mãe... – E riu mais uma vez. – Acho que ela tem a péssima ideia de que Rin sente alguma saudade dos pais... – Balançou a cabeça – Pobre moça.
— Realmente... – Madara bebericou do próprio chá, que descansava sobre a mesa, e olhou para algo além de Hiroto. – Pobre moça...
Os olhos negros voltaram a fixar-se no rosto do Nohara antes que ele pudesse perceber qualquer mudança.
— Mas vamos direto ao assunto, Nohara. Mandou-me aquelas fotos por um motivo, não é?... Eu estou tentando entender até agora o que quis dizer com aquilo.
Hiroto estreitou as sobrancelhas e sorriu de canto.
— Só pode estar brincando. Não ficou claro?... Sakura é minha parente, Madara...
— Sim, sim. Um parentesco dos piores, é verdade. E é verdade que eu deixei isso passar quando a investiguei... Mas por mais lamentável que seja esse parentesco, Hiroto, ainda estou tentando entender porque você acha que eu me importaria com o fato de a mãe da namorada do meu neto ser prima da sua esposa.
O senhor Nohara pareceu desconsertado por um segundo, e isso agradou Madara imensamente; ele deu um sorriso de canto, que fez outro despertar. Hiroto se recompôs e voltou a sorrir zombeteiro.
— Bem, eu pensei que poderia ser do seu interesse... Pensei, quem sabe, que poderia me ajudar mais um pouco, caso eu conseguisse afastá-los. Particularmente, não acho que vá ser muito difícil. Sakura é uma garota prática, se fizermos o acordo certo...
— Sakura Haruno é uma moça honesta, estudiosa, trabalhadora e perfeitamente aceitável, tanto para namorada quanto para esposa, se eles assim desejarem algum dia.
Madara se recostou na cadeira; seus olhos se ergueram sobre Hiroto por mais um segundo, mas logo voltaram a encarar o odioso desconhecido, que já não exibia o sorriso engraçadinho.
— Bem, já que é assim... – O pai de Rin deu os ombros. – O que eu posso fazer?
Com ma expressão entediada e desinteressada, ele voltou a folhear o cardápio.
— Não é como se eu estivesse desesperado, Uchiha... – Ele olhou para Madara de soslaio, e ofereceu-lhe um sorrisinho debochado. – Nossa netinha está ajudando muito. Financeiramente, eu quero dizer...
Ele fez um gesto indicando dinheiro com as mãos.
— Mas você sabe como é: eu prefiro lidar diretamente com a fonte.
— Não vai mais sentir o cheiro de um tostão do dinheiro da minha família, Nohara. – Madara garantiu.
— Bem, há controvérsias. A netinha é uma Uchiha, não? – Hiroto continuava sorrindo. – Mas é uma pena. Pensei que íamos fechar negócio, já que me chamou até aqui... Mas parece que Madara Uchiha anda bem moderninho, não é? Agora você aceita plebéias na família?
— Parece que tem uma ideia errada de mim, Nohara... – Madara se ajeitou no assento e negou com a cabeça. – O motivo de eu querer afastar o meu filho da sua filha naquela época foi porque nem você, nem sua esposa prestavam. O que automaticamente me fez concluir que Rin devia ser, se não igual, ao menos semelhante aos pais.
Mais uma vez, os olhos negros se prostraram a algo acima de Hiroto.
— Foi um erro enorme, do qual eu me arrependo amargamente. Eu fiz meu próprio filho sofrer, e é algo que jamais poderei consertar... Mas estou tentando fazer algo útil te mostrando isso, Kasumi.
Hiroto paralisou; sentiu todo o sangue esvair do rosto, e ao virar sua cadeira de maneira abrupta, enrubesceu ao dar de cara com Kasumi Uchiha em pé, paralisada atrás dele, encarando fixamente os olhos de Madara.
Ela estava pálida, trêmula, e a ponto de chorar, mas apenas um de seus avôs biológicos conseguiu perceber – ou se importar com isso.
— Espero que entenda.
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