30-dias (HIATUS)
10 Sétimo dia- Que venha o passado.
Notas iniciais
Pov Mônica.
Mais uma vez eu estava vendo meus pais brigando, um gritando com o outro sobre assuntos bobos e banais, mas o que mais me doía é que minha mãe chorava, e meu pai avançava nela como um leão para espancá-la covardemente.
Mais uma vez por minha causa.
_Vagabunda! Não vê que Mônica está doente? Encontrei-a chorando de novo em um canto, o que anda fazendo com ela heim?
_É o jeito dela! Não tenho culpa.
Ela dizia com a maior cara de inocência do mundo, mas somente eu sabia o que ela era capaz, minha própria mãe me deixava por ai, doente e sozinha, mas ainda a amava.
Meu pai dava de pai protetor agora, se preocupando, mas a verdade é que ele havia bebido de novo e por isso ficava fora de si, procurando qualquer motivo para brigar com ela, sempre assim.
Eu chorava impiedosamente, mas nenhum dos dois se importava, apenas com a briguinha deles, que estava ficando feia, assim, logo ouvi minha avó chegando perto de mim.
_Vamos, você não pode ver esse tipo de coisa.
Luisa tinha chamado minha avó – Dona Merlinda — para poder ficar comigo em quanto ela saia se divertir com meu pai, e para evitar que eu visse esse tipo de coisa.
Merlinda aceitou ficar comigo pois nunca tinha o que fazer, já era bem idosa e portanto já era até aposentada, tinha brigado com o marido e agora o emprego dela era cuidar de mim, mas era só mais uma que só sabia encher minha cabeça e me importunar.
Ela me levou até seu quarto – que antes era um quarto de hospedes – e me fez sentar em sua cama, e novamente ficou resmungando e me enchendo, sinceramente preferia ter ficado lá e visto aquela briga.
Fiquei com babás quase minha vida inteira, meus pais nunca tiveram responsabilidade o suficiente para cuidar de mim.
_Você só sabe ficar nesse computador, inútil! Por sua causa seus pais estão brigando e não conseguem nem ser mais felizes.
_Não tenho culpa de nascer.
_Cala a boca!
Rapidamente me deu uma chinelada na cara, ela odiava que a respondesse, logo meu choro virou algo compulsivo, não conseguia parar e os soluços já eram freqüentes, por que tinha que ser assim? Às vezes não queria nem viver.
_Quero sumir daqui.
Eu sussurrava em meio aos soluços, minha voz saiu tão falha que duvidava que tivesse ouvido.
Ela saiu do quarto com uma cara de poucos amigos, acho que tinha ido separar os dois, mas aquilo sempre acabava do mesmo jeito, minha mãe acabava querendo se matar... E aquilo me machucava muito.
Sai tomando cuidado para não fazer nenhum barulho, e andando pela cozinha, sai pela porta dos fundos e caminhei até o portão, mas logo me lembrei que ele fazia muito barulho, não sabia como, mas queria sair dali.
Pensei um pouco e conclui que mesmo que levasse xingo ou fosse espancada depois, queria poder sair um pouco dali, meu coração doía e eu precisava de um pouco de ar.
Sai pelas ruas sem nenhum rumo, eu tinha apenas treze anos e estava vestindo algo que parecia até trapos, apesar de meus pais ganharem uma renda muito acima da média.
Eu corria muito rápido, acabei me desmontando no chão, até sentir o sangue vindo e as feridas começando a arder.
_Droga.
Mantinha meu rosto no chão, sem nenhuma coragem de levantar, não queria ver as pessoas que riam ao meu redor.
Senti uma mão quente me puxando para levantar.
_Você está bem?
Um rapaz perguntava, em quanto me ajeitava e gemia de dor, seu semblante era de preocupação apesar de nem me conhecer.
_Estou sim.
Sentia muito dor, mas não achava necessário compartilhar isso com um estranho, ainda mais se ele estava ouvindo meus gemidos, já devia ter percebido.
_Obrigado, eu já vou indo.
Tentei ir embora para evitar me constranger ainda mais, mas por descuido e vergonha de minha parte, quase cai novamente, mas dessa vez sendo segurada pelo rapaz desconhecido.
_Desastrada você heim? Também sou assim, só essa semana pisei no prego duas vezes.
Aquilo me surpreendeu, uma pessoa como eu afinal, ele parecia ser roqueiro e quem sabe emo, achava charmoso esse estilo, apesar de não ter nada a ver com o mesmo.
_Obrigada.
_Não tem de que fofa, estava fugindo de mim? Eu não mordo.
Ele sorria ironicamente, mas não havia malícia em seus lábios. Acho que tinha gostado do meu jeito, estava morrendo de vergonha, afinal, não é sempre que um garoto me vê cair duas vezes e me espatifar no chão.
_Claro que não.
Tentei fingir confiança e frieza, mas acho que falhei nessa tarefa, pois minha voz saiu trêmula. Ouvi-o dando uma risada divertida, gostei de ouvir aquele som.
_Gosta de ouvir Slipknot?
Agora tive mais do que certeza de que era roqueiro, fiquei meio desconcertada por não gostar, mas não iria mentir para ele.
_Não gosto de rock.
_Que pena.
O rapaz pareceu meio desapontado, será que ele estava gostando de mim? Claro que não! Tinha que parar de pensar besteiras, mal me conhecia. Estava tão desesperada para encontrar um amor que para mim qualquer um que sentisse ao menos compaixão já bastava.
_Qual seu nome?
Ele me perguntou, pelo menos pareceu demonstrar interesse.
_Mônica e o seu?
_Do Contra.
Segurei o riso novamente, outro nome bizarro? Já não bastava aquele moço que também mexeu com meu coração, o tal de Cebola, nunca mais tive noticias dele.
_Não é meu nome verdadeiro, apenas um apelido.
Esclareceu com um sorriso contagiante, adorava quando sorria, era fascinante.
_Qual seu nome então?
Estava com uma vontade imensa de saber tudo sobre ele, era uma curiosidade fora do comum para mim, mas com certeza eu não iria chegar e fazer uma penca de perguntas.
_Prefiro não dizer.
Aquilo pareceu deixá-lo nervoso, então resolvi deixar para lá.
_Gostei de você.
Soltou. Fiquei envergonhada com aquela revelação, acho que fiquei meio vermelha, disfarcei olhando para os lados, mas logo que fitei seu rosto notei algo de diferente nele, em seus olhos, uma tristeza fora do comum, algo que ele não queria transparecer. Eu tinha o dom de conseguir ler a face das pessoas.
_Por quê? Não tenho nada de especial, na verdade acho que sou até meio inferior ás outras pessoas.
_Não diz isso, notei que é diferente de qualquer uma, mesmo não te conhecendo, na verdade estou até estranhando estar me identificando com alguém... Que conheci agora.
Do Contra falava com um nervosismo transparente, também olhava para os lados e parecia pensar em várias coisas.
_Isso é muito louco sabe, mal ouvi você falar.
O desconcerto era aparente em sua voz, gostava daquele tom grosso e aveludado.
_E não vai ouvir muito...
_Gosto disso.
Retribuímos sorrisos cúmplices, e por um momento nos olhamos nos olhos, algo que não durou muito, pois ele também parecia expor a mesma timidez que a minha.
_Agora preciso ir, tenho que ajudar meu pai.
Explicou. Será que todo garoto que conhecia tinha pais que precisavam de ajuda? Minha vontade era de ficar o dia inteirinho sabendo mais sobre ele.
_Bem responsável você.
Tentei elogiá-lo, mas acho que pareci mais uma idiota.
_Faço por obrigação.
Seu rosto endureceu, parecia ter uma grande mágoa com seu pai assim como eu.
_Desculpe.
_Não é nada, bem, agora preciso ir, espero te ver por ai novamente.
Novamente expôs um lindo sorriso no rosto, deve ter gostado de mim realmente, seriamos bons amigos.
_Claro...
Num gesto rápido e singelo, me deu um beijinho na testa, que me deixou voando por um instante, até perceber que ele havia ido embora, e nem percebi.
_Vou dormir de couro quente.
As lágrimas me vieram novamente, quando lembrei que tinha que voltar para casa, estava bom demais para ser verdade. Subitamente senti um formigamento, o nervoso já estava tomando conta de mim.
Se os que chamava de família me fazia se sentir assim, com quem eu poderia contar?
Ajoelhei-me no concreto pontiagudo, machucando os joelhos, mas não me importei, clamei para os céus em busca de ajuda.
Continua...
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