30-dias (HIATUS)
1 Prólogo
Notas iniciais
_ Lamentável...
Sussurrava o médico – Seu Carlito – ali em pé, em quanto examinava o quadro complicado de sua paciente. Tão jovem...
_O que foi doutor?
Seu Souza temia o pior, e a face do homem não ajudava muito, demonstrava pena e certa impotência. Talvez ele não pudesse ajudá-la.
A jovem que estava deitada na cama respirava com dificuldade, e em volta dela muitos aparelhos a ajudavam a sobreviver, o quarto apesar de inteiramente branco já não demonstrava a paz que deveria transmitir. O cenário era de pura tensão.
_Disse que ela vem tendo algumas crises, certo? Seguidas de dores na região do estômago?
Perguntou com certa esperança, não poderia ser o que ele imaginava. Virou-se para o homem mais velho e o fitou, deixando Souza meio angustiado.
_Correto.
Respondeu frio. Sua postura máscula não o deixaria chorar agora.
_Bem... O que posso lhe dizer é que: o que eu imagino ser não traria como conseqüência essa parada respiratória, mas sua filha tem também uma crise de ansiedade que vem se arrastando por anos. Isso é sério.
Ele dizia tudo olhando atentamente para o pai da paciente. Seu Souza engoliu seco e desviou o olhar.
_Ela vem sentindo mais alguma coisa suspeita por esses tempos?
Perguntou se virando novamente para Mônica – que era a paciente – e soltou um suspiro. Ela parecia estar acordando.
_Sim. Ela vem reclamando de fraqueza, enjoo... Não consegue engolir quase nada direito. Mas isso não é problema já que ela nem sente vontade de comer.
De repente o médico se virou bruscamente e voltou a fitá-lo, desta vez com uma frieza incalculável. Odiava a ignorância dos pais de seus pacientes.
_Como pode dizer que isso não é um problema? Sabia que sua filha pode estar até com um câncer de estômago? E em fase terminal?
Souza levou um susto tão grande que seu coração deu um pulo, arregalou os olhos e ficou incrivelmente pálido. Mas ainda nenhuma lágrima caia de seus olhos.
_Como só procurou ajuda agora? Essa menina tem cara de quem sofreu muito, e em suas mãos, na sua frente, sem que você tenha feito nada!
O médico estava realmente revoltado, era um pai de família e não aguentava ver esses casos.
Lembranças em forma de uma dor aguda começaram a corroer a mente de Seu Souza, que evitava a todo custo olhar em direção do homem furioso.
_Ela ficou com a mãe dela todo esse tempo, pude ver o quanto a situação era crítica apenas agora! Não tenho culpa.
_Claro que tem! O senhor é o responsável por essa menina que agora está agonizando nessa cama de hospital. Faça o favor de apenas ser franco.
Seu Carlito praticamente cuspia em quanto falava de tanta raiva, como ele pôde jogar a culpa na mãe da jovem, se ele também é o responsável por ela?
O doutor sabia que tinha que se acalmar, sua ira não parecia alterar o senhor á sua frente que agora procurava com os olhos um lugar para se sentar.
_Logo ali.
Orientou-o apontando para a cadeira que estava próxima á cama, pelo menos Seu Souza parecia nervoso o suficiente para não ter enxergado algo assim.
Ele se sentou e esperou o médico dizer alguma coisa, mas ele apenas estava admirando Mônica em quanto abria os olhos, aparentemente cansada e com uma falta de ar sufocante, pois ofegava.
_Ela é realmente linda, lembra muito minha filha Magali, até acho que já vi sua filha em minha casa. Minha filha e ela são amigas não é? Pena que trabalho demais para conseguir pelo menos acompanhar a rotina dela.
_É... Ela e Magali foram muito amigas sim.
Ele lembrava pensativo, seu coração fora se acalmando aos poucos, acreditava que tudo teria uma solução rápida.
_O que aconteceu com elas? Adorava quando eram amigas, agora Magali só anda com jovens de mal caráter, inclusive aquela tal de Carmem, não gostei dos modos daquela moça.
_Mônica não me disse.
Na verdade Seu Souza nunca se preocupou muito com a vida pessoal da filha, pessoalmente nem a conhecia, eram poucas coisas que sabia.
_Bem... Voltando aqui, quero fazer uma tomografia completa do abdômen da Mônica, e direi para o senhor se ela corre ou não um risco de morte, por que se for um câncer provavelmente está em fase terminal.
Carlito gostava de ser direto e sem nenhuma hesitação contar a verdade, ser duro para ele diminuía até o sofrimento dos pacientes, pois nesse caso reconhecem a gravidade do problema.
Novamente Souza engole seco e se ajeita na cadeira, olhando sua filha em quanto ela apenas os olhava imóvel como se fosse incapaz de falar. A falta de ar deveria estar dificultando mesmo com os aparelhos.
_Para amanhã mesmo agendarei esse exame, desejo que ela tenha o máximo de chances de se salvar possíveis. Quero que ela passe essa noite no hospital, estará segura caso haja outra parada respiratória.
_Tudo bem.
_Chame a família dela para visitá-la amanhã antes do exame, tenho certeza que ela ficará muito feliz.
Sugeriu o doutor ouvindo um leve resmungo da parte de Mônica.
_Com certeza.
Seu Souza havia se acalmado, mas ainda permanecia sem acreditar. Guardou a parte de que sua filha vomitava apenas sangue só para ele, mas Carlito já deveria ter capitado.
Houve um pequeno silêncio constrangedor, até ouvirem a menina se debatendo na cama, provavelmente uma dor terrível.
Nesse exato momento Mônica começou a tossir e cuspir sangue, manchando grande parte da roupa inteiramente branca do hospital. O doutor foi logo ao seu socorro.
_Esse sangue está muito claro. Ela tem anemia? Notei sua palidez também...
_Não sei dizer.
_Peço que se retire, cuidarei dela como um caso especial.
Ele havia se estressado muito, e não estava a fim de se estressar mais com a negligência daquele pai que parecia mal conhecer sua filha.
Souza até pensou em protestar, mas desistiu em um ultimo momento, beijou a testa de Mônica e saiu encurvado, como quem estivesse carregando uma culpa insuportável.
Assim que ouviu a porta do quarto bater e anunciar que o senhor havia saído, Carlito ouviu um pequeno sussurro, algo como um “obrigado”.
Continua...
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