30 Dias Para Dizer Que Te Amo
2 Day two - Cuddling somewhere
Notas iniciais
Lovino estava oficialmente cansado daquele hospital: tudo era tão branco que se sentia preso em uma ala psiquiátrica. Paredes brancas, lençóis brancos, móveis brancos e até mesmo o suporte de televisão que era estranhamente branco. Honestamente, não era como se um pouco de cor fosse endoidar um paciente ou deixar o local com a aparência menos limpa do que seu impecável habitual; apenas não faria mais parecer como se todos no andar estivessem de quarentena.
Suspirou, afofando o travesseiro e colocando-o em posição vertical para que suas costas pudessem se apoiar nele confortavelmente. Queria poder cruzar os braços, mas tinha sua mão direita capturada em um fio intravenoso. As bandagens que envolviam seu pulso também eram brancas. Lovino sinceramente pensou em roubar alguns potinhos de tinta da ala infantil para poder espirrar um pouco de cor pelas alvas paredes.
Não pela primeira vez desejou também que Antônio estivesse com ele, o bronzeado de sua pele contrastaria naquele local e sua risada ecoaria alegremente pelo ar enquanto seus dedos caminhariam suavemente pelo cabelo de Lovino.
No momento em que Lovino chegara à emergência, teve tempo apenas de entregar o celular e sussurrar o nome do espanhol antes que médicos mascarados o enfiassem em uma maca e o levassem direto para a ala cirúrgica. Sabia que haviam telefonado, mas sabia também que Antônio estava na Inglaterra participando há dias de uma ultra-super-importante reunião com Arthur. Tinha certeza de que ao ouvir que Lovino estava no hospital, Antônio tentaria voltar à Espanha nem que fosse a nado. Disso não desconfiava, mas duvidava seriamente que o inglês fosse deixa-lo sair assim de repente, de modo que Lovino não fazia ideia de quando veria o espanhol novamente, o que tornava suas noites ainda mais frias e doloridas.
Foi arrastado de seus pensamentos por uma batidinha na porta. Não era bem um pedido de permissão, pois quando olhou em direção ao som viu seu médico já se esgueirando no cômodo. Havia percebido que privacidade mal era considerada uma palavra neste lugar: em seu primeiro dia tinha presenciado enfermeiras entrando na maior loucura, sorrindo e afagando rapidamente seu cabelo enquanto lhe entregavam algum medicamento ou checavam máquinas em busca de possíveis complicações. Eram moças simpáticas e educadas, mas Lovino realmente gostaria que “porta fechada” significasse algo mais para elas além de “amplo buraco na parede”.
- Estou realmente feliz em ver seus olhos tão vívidos assim, Sr. Vargas – O Dr. Navas lhe deu um amplo sorriso. Era um homem profissional que sabia quando e como falar as coisas, mas que também possuía raro senso de humor. Tinha a mania de ajeitar seus óculos na ponte do nariz e sempre estava devidamente arrumado com seu avental e cabelos claros obedientes. Lovino gostara dele quase imediatamente. – É sempre um bom sinal.
- Eu realmente estou me sentindo bem melhor. – afirmou o italiano.
O médico concordou com um gesto simpático e se aproximou do paciente, delicadamente puxando as pálpebras e examinando seus esverdeados olhos, procurando por qualquer sinal que pudesse indicar icterícia e depois puxou o estetoscópio do pescoço, levantando um pouco a camiseta de Lovino, pressionando em seu peito o aparelho gelado. Deu-se por satisfeito e enrolou o instrumento novamente no pescoço, endireitando as costas. – Os pontos incomodam?
Lovino olhou para o lado direito de seu abdômen onde se podia observar uma pequena cicatriz de bordas vermelhas. Balançou a cabeça negativamente. – Se não soubesse que estão aí, esqueceria deles de vez em quando.
O Dr. Navas sorriu, novamente concordando com a cabeça, tratando tudo como se fosse uma boa e esperada melhora. – E dói em algum momento?
Lovino considerou por um segundo se deveria mesmo dizer a verdade, concluindo por fim que seria melhor do que arriscar ter outra crise e ter de voltar desesperado. – Só quando eu levanto ou faço algum movimento brusco, aí machuca um pouco. Mas isso não é um problema, é? Afinal, um pouco de dor é sempre normal... É o que todos dizem... – Lovino tentou esconder o nervosismo que sentia para que não fosse traído por sua voz. O hospital havia sido muito bom com ele, de verdade, e até mesmo a comida não era ruim, mas estava sinceramente com saudades de casa e não desejava passar nem um dia a mais do que o necessário longe dela e de seus aconchegantes travesseiros.
Os cantos dos lábios do Dr. Navas se moveram para cima e o italiano teve certeza de que o médico havia captado sua ansiedade. – Problema seria se não doesse em momento algum, pois aí sim algo estaria errado! – Os ombros de Lovino relaxaram. – Se continuar assim, mais uma noite aqui e amanhã estará pronto para ir embora.
Lovino sabia que aquela era uma boa notícia, mas não podia evitar em ficar chateado. Seria mais uma noite na mesma cama, no mesmo quarto e sem Antônio.
Uma batida soou na porta. – Com licença, Doutor – interrompeu uma enfermeira de cabelos louros, não esperando realmente permissão para se adentrar no quarto. Lovino não pode evitar outro suspiro diante dessa aparente política de privacidade zero. – O amigo do Sr. Vargas quer saber quando poderá entrar. Seu nome é Sr. Carriedo, se não me engano e ele parece um tanto quanto ansioso para poder visitá-lo.
O coração de Lovino perdeu uma batida. Carriedo? Será que tinha ouvido absolutamente certo ou apenas aquilo que sabia que queria ouvir?
Não percebendo a evidente surpresa de seu paciente, o Dr. Navas colocou um dedo sobre os lábios até que seus olhos se acenderam em iluminação. – Ah, sim! Creio que seja o espanhol que quase me nocauteou na entrada do hospital – Sim, sim. Bem, é claro, se o Sr. Vargas permitir, diga-lhe que deve entrar agora mesmo para matar devidamente a saudades que sente.
A face de Lovino se acendeu ao perceber que sim, não ouvira errado e que sim, de algum modo Antônio estava lá fora, esperando para visitá-lo. Um sorriso se espalhou em seu rosto ao imaginar o espanhol correndo e praticamente atropelando todos que ousassem ficar em seu caminho. Suas bochechas coraram de pura felicidade. Olhou para cima ainda sorridente, percebendo dois pares de olhos o observando com curiosidade e percebeu que esperavam sua resposta. – Claro que ele pode entrar! – As palavras saíram mais altas do que de costume, mas Lovino estava contente demais para se envergonhar como normalmente faria.
A enfermeira loura lhe deu um animado aceno antes de sair do recinto.
O Dr. Navas lançou mais um olhar para Lovino, seus olhos brilhantes e alegres. – Bem, estou feliz em ver que está bem, só não se esqueça de que caso haja algum problema, o senhor não deve hesitar em apertar o botão de ajuda, certo? – Olhou então para o relógio e deu um suspiro tristonho. – Mas como o tempo é apertado, mal tenho espaço para respirar nesses dias de hoje! Temo que deva de ir agora, Sr. Vargas, mas fico menos preocupado em saber que terá companhia. Tenha um bom resto de dia com seu amigo! – E com isso rapidamente encaminhou-se para o corredor.
Lovino acenou enquanto se perguntava se era por acaso alguma espécie de imã para pessoas peculiares. Olhou para suas mãos, tentando esconder sua infantil animação. Antônio estaria com ele, não teria de passaria mais uma noite sozinho. Lovino tentou se reprimir pela desnecessária agitação que acontecia em seu estômago, sentindo um rubor espalhando-se por suas bochechas. “Controle-se”, disse para si mesmo.
- Lovi... – Os olhos do italiano voaram para cima, apenas para encontrar outro par, insanamente verde, o encarando de volta. Seu coração deu um pulo involuntário, como se estivesse voltando a vida após de dias em repouso.
- Antônio... – Sussurrou Lovino, sua boca entreaberta, a mera visão do espanhol expulsando de sua mente qualquer pensamento de autocontrole.
Em um segundo Antônio havia corrido para o lado de sua cama, zerando imediatamente o espaço entre eles com um apertado abraço. – Ah, mi amor! Lo siento por no haber estado aqui durante tu cirugía! – murmurou enquanto aplicava suaves beijos no pescoço e ombro do outro.
Lovino passou carinhosamente as mãos nos fios escuros do espanhol e pressionou seu nariz neles, inalando o cheiro adocicado e de Sol que não sentia há vários dias. – Não se desculpe por algo que não pôde controlar, bastardo. Você está aqui agora e é só isso que interessa, nada mais.
O espanhol levantou a cabeça e riu, optando por responder pressionando seus lábios uma vez contra os do italiano, como se dissesse “Estou tão feliz que esteja bem o suficiente para continuar sendo emburrado”. Lovino, em resposta, abraçou seus ombros, preenchendo sua boca com outros diversos beijos, mal podendo acreditar que era realmente Antônio e que ele dera um jeito de sair da Inglaterra a qualquer custo por causa dele.
Suspirou contente, acariciando a nuca de Antônio. – Então Arthur deixou você escapar da tão importante e temida conversa que vocês estavam tendo? Ele mencionou até mesmo para mim como deveria durar dias para que os dois governos chegassem a um acordo ou algo assim.
O espanhol deu uma risadinha alegre. – Arthur adora dramatizar as coisas, juro não foi nada tão sério assim quanto ele deu a crer, só complicado de se solucionar por completo. E além do mais, não sei se ele já sabe que fui embora, mas vai ficar furioso quando descobrir, nós tínhamos o acordo de ficar em Londres por ao menos uma semana inteira antes que pudéssemos ir a qualquer lugar, mas eu não tinha como saber que meu Lovi teria apendicite aguda quando concordei com os termos.
- Você fugiu?! Inacreditável... – Disse Lovino, meio impressionado, meio exasperado, porém definitivamente com certa alegria ao perceber que Antônio cabulara algo tão importante apenas por ele. Balançou a cabeça, sem saber o que pensar. – Mas... Isso ainda vai te causar um problemão.
O espanhol deu de ombros, despreocupado. – Não me importa, até porque aposto que Arthur faria o mesmo se fosse Alfred ao invés de você. Eu queria ter chegado aqui vários dias antes, na verdade, mas infelizmente só consegui escapar hoje. Sinto muito por não ter estado aqui quando você precisava, Lovi, espero que não tenha ficado muito chateado comigo.
Lovino sentiu um pequeno nó na garganta, percebendo que Antônio desbravaria os sete mares para poder lhe ter em seus braços e que simplesmente pediria desculpas por não ter chegado antes. Isso enchia seu corpo com um sentimento extremamente agradável, que misturava felicidade, ternura e principalmente amor. Seu coração parecia inchado em seu peito. – Ei, suba aqui comigo.
Antônio ainda estava com os braços apoiados no colchão o mais perto de Lovino que podia. Subiu as sobrancelhas em surpresa e depois deu uma risada. – Acredite quando eu digo que quero muito, mi príncipe, mais do que você até, mas não acho que a cama aguente o peso de nós dois juntos.
Lovino fez um beicinho levemente emburrado e cruzou os braços. – Eu tenho que te expulsar da minha cama diariamente, mas quando te peço para deitar comigo uma única vez, você recusa.
A voz do italiano soou tão mimada e normal, tão saudável, que Antônio gargalhou, plantando diversos beijinhos na bochecha de Lovino. – Prometo que ao chegarmos em casa, a primeira coisa que faremos será deitar e dormir na minha cama.
- Antônio – gemeu Lovino em uma voz pidona. – Você acabou de vir de uma reunião com aquele bastardo do Arthur e de um voo cansativo enquanto estavam retirando meu apêndice. Nós dois estamos cansados, além de não termos nos visto há mais de uma semana e você está realmente preocupado com a estabilidade da cama? Se isso aqui ceder, a gente coloca o colchão no chão e dorme do mesmo jeito, oras.
Antônio sacudiu a cabeça, parecendo maravilhado. – Precisou de um órgão problemático e algumas noites sozinho para que você concluísse que dormir comigo é praticamente terapêutico? Caramba, Lovi, você realmente é difícil de conseguir!
Lovino optou por ignora-lo, pois viu com inocente satisfação que o espanhol já estava escalando sua cama por um canto. Lovino segurou os braços do outro homem, puxando-o para seu lado e se aninhado rapidamente em seu peito, deixando de fora apenas sua mão direita que recebia soro e ainda doía um pouco. Os dois corpos, porém, se encaixaram perfeitamente no calor dos lençóis.
- Como foi a cirurgia? Não machuca mesmo ficar de lado assim, amor mio? Eu posso ir mais para o canto se você quiser... – Antônio disse em uma voz baixinha.
- Não, não, você fique exatamente assim. A cirurgia foi ruim, mas eu felizmente não estou machucado e a cicatriz dói muito menos nessa posição, então nem pense em me soltar, bastardo. – Murmurou, sentindo-se completamente confortável e seguro nos fortes braços de Antônio, de um jeito que não sentia em nenhum outro lugar. Apesar de ainda mal ter anoitecido, suas pálpebras já começavam a pesar.
O espanhol sorriu, beijando a testa do mais novo. – Gostaria de ter estado aqui mais cedo para ficar com você no pós-operatório.
- Duvido muito, uma enfermeira me falou que é comum que os pacientes percam um pouco do bom-senso com a anestesia. Ela mencionou que contei a todos que passaram por mim que eu falava com dragões e que até tinha alguns de estimação.
Antônio riu alto. – Arthur me contou a mesma coisa ontem, só que sei que ele também vê fadas e cavalos alados, além de não ter a desculpa de estar drogado.
Lovino também soltou uma gostosa risada, abraçando Antônio com ainda mais força. – Pelo menos eu consegui te tirar de uma reunião com ele, veja só, ter um apêndice que explodiu até que tem suas vantagens.
- De jeito nenhum, eu enfrentaria mil Arthurs para não ter que te ver passar por isso novamente. – O espanhol proferiu com sinceridade, ganhando em resposta um barulho feliz da garganta de Lovino.
- Hmmm. Pelo menos eu estou tão cansado que nem vou precisar fingir que estou dormindo quando as enfermeiras vierem.
- Acho que com nós dois adormecidos há poucas chances de uma delas me chutar daqui. Vão ficar com pena de te acordar ou, pelo menos, é o que eu espero.
Ficaram em um confortável silêncio por alguns minutos até que Lovino decidiu quebrá-lo. – Obrigado... Você sabe, por ter vindo. E por ter deitado aqui comigo. Significa o mundo para mim. – Sua voz já estava embaraçada de sono, mas Antônio entendera as palavras perfeitamente.
- Por esse momento eu faço tudo, Lovi. – Sussurrou, ouvindo segundos depois a respiração pesada de Lovino, indicando que o mais novo havia pegado no sono. Antônio fechou os olhos, deixando o cansaço finalmente tomar conta de seu corpo.
Não havia descansado desde o telefonema que recebera do hospital e não relaxara até ver o rosto de Lovino em sua frente. Agora que tinha seus braços em volta do italiano, assegurando-se de que ele estava ali, vivo e saudável, permitiu finalmente que seus pensamentos vagassem para longe em uma confusa nuvem branca e tranquila.
Os dois, por fim, dormiram naquela apertada cama, um nos braços do outro, sem se preocuparem com prováveis visitas médicas. Era quase como se não estivessem em um hospital, como se Lovino não tivesse sido operado e como se Antônio não tivesse se metido em um baita problema. Apenas se abraçaram e dormiram, suas pernas entrelaçadas, as respirações tranquilas e os corações perfeitamente sintonizados.
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