30 Dias Para Dizer Que Te Amo
3 Day three - Gaming/watching a movie
Notas iniciais
Aviso: muita gente triste e chorando no capítulo abaixo.
Você foi avisado.
Desde pequeno Lovino sempre fora muito interessado por detalhes, gostava de observar as pequenas partes que formavam um todo, assim como os delicados hábitos que constituíam uma pessoa.
O tempo foi passando e era como se todo dia Lovino percebesse algo novo em Antônio, alguma coisa em que ainda não havia reparado. Ficou sabendo que o mais velho gostava de músicas calmas, que tomava sopa de tomate escaldante e que só conseguia dormir com as cobertas até a orelha. Eram pequenas coisas que poderiam parecer tão desimportantes a outros, mas que significavam o mundo para Lovino, pois era como se descoberta após descoberta, Antônio se tornasse cada vez mais próximo mais dele.
Há vários anos, Lovino descobriu uma coisa um tanto quanto diferente. Não mais do que um adolescente, havia procurado o espanhol pela casa inteira até finalmente achá-lo em um dos quartos, apenas com a fraca luz do abajur acesa e um cinzento jornal nas mãos. Lovino quase entrara no quarto esbravejando sobre esconderijos e hora do jantar e alguma coisa sobre bastardos quando algo o parou antes do batente da porta. Ouviu uma suave fungada e olhou com atenção do lugar onde se encontrava, percebendo enfim que lágrimas silenciosas escorriam pela bochecha do espanhol. Lovino nunca, em toda sua vida, havia visto Antônio chorar e observar seu protetor, seu amante, daquele jeito tão quieto e vulnerável quebrara seu coração em mil frágeis pedacinhos.
O instinto de Lovino gritava para que ele entrasse no cômodo e aninhasse o mais alto em seus braços, sussurrando que tudo iria ficar bem, muito embora não fizesse ideia do que havia deixado Antônio tão chateado. Queria apenas limpar suas lágrimas com leves beijos e fazer carinho em seu cabelo escuro, porém sua consciência não o deixou. Pensou em como Antônio estava em um quarto distante, perdido naquela mansão e praticamente no escuro, tentando não chamar muita atenção. Lovino deu um passo para trás e contrariando sua própria vontade, voltou lentamente para a cozinha, parando apenas por alguns segundos no meio do caminho para limpar com a manga da camiseta as súbitas lágrimas que também começavam a cair de seus olhos.
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Houve uma segunda vez, meses depois, e Lovino ficou tão preocupado que praticamente ignorou tudo em sua volta para tomar desesperadamente o mais velho em um abraço. Percebeu, no entanto, que este assistia atentamente as notícias que passavam em uma velha televisão e só então entendeu, como se de repente fragmentos de um quebra-cabeça tivessem se juntado em sua mente.
Antônio era a Espanha e a Espanha era Antônio. As pessoas, os animais e a natureza, tudo, de certa forma, fazia parte dele.
Olhou para a tela do ponto distante em que se encontrava silencioso, tentando não fazer o menor barulho e viu que era uma reportagem intensa e extremamente triste, sobre um homem que invadira uma creche e matara inesperadamente seis crianças com uma arma de fogo. Todas tinham menos de dez anos e a câmera ocasionalmente se focava nos prováveis pais das crianças: homens e mulheres abraçados e chorando sem vergonha, como se o mundo deles tivesse acabado de ser cruelmente devastado.
Toda a desgraça, destruição e o horror da Espanha, também eram parte de Antônio.
Lovino permaneceu apenas mais alguns instantes, reparando em como os olhos do espanhol estavam inchados e o quão distraído ele estava para nem ao menos reparar em sua presença. Virou as costas e foi embora, sentindo-se um intruso em um momento que era obviamente muito particular.
Se não podia ajudar Antônio diretamente, faria de outros modos: cozinharia com especial carinho seu banquete favorito e coletaria entre revistas e jornais algumas notícias belas e esperançosas, propositalmente deixando-as pela casa, em pontos onde sabia que Antônio iria encontrá-las. Iria lhe dar beijos carinhosos antes de dormir e sussurrar um de seus raros ‘’eu te amo muito’’. Qualquer coisa para fazer Antônio sorrir novamente.
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Conforme os anos se passaram, Lovino encontrara Antônio mais algumas vezes em situações semelhantes. Eram raras, não mais de duas vezes por ano, embora Lovino desconfiasse que na verdade eram muito mais frequentes e que ele via apenas uma pequena porcentagem do total.
Era um daqueles dias deprimentes e chuvosos em Madrid. Embora fosse tarde, o céu estava escuro e fechado, combinando com o humor geral da cidade. Todos ficaram sabendo que logo de madrugada, um fanático religioso havia invadido um hospital e assassinado a maior quantidade de médicos que pode, alegando que curando os doentes, doutores intervinham na vontade divina e que tal ato não merecia clemência. Oito médicos morreram e dois ficaram feridos. O assassino colocou uma bala na própria cabeça após um cruel e último homicídio.
A cidade inteira estava de luto, como se fosse um jeito de demonstrar no mínimo, um pouco de consideração àqueles que tanto se esforçaram pelo bem do mundo. Ao menos um pouco de respeito àqueles que partiram tão injustamente cedo.
Lovino notou o relógio pendurado na parede da sala e percebeu que não via Antônio há mais de duas horas. Olhou para janela, observando melancolicamente que até mesmo as nuvens choravam de tristeza diante tamanha violência. O italiano se levantou e começou a andar.
Procurou por todos os corredores, checando portas abertas e fechadas por pelo menos vinte minutos. Quando percebeu que já havia checado a mansão inteira, não desistiu e continuou a buscar, refazendo seus passos até que um suave barulho lhe chamou a atenção. Seguindo o som, parou em frente a uma porta semiaberta, iluminada apenas pelo brilho de uma televisão. O topo de uma cabeça escura era visível, a face coberta pelas mãos.
Pela primeira vez Lovino entrou no quarto sem hesitação, andando devagar. Antônio não gostava de chorar na frente de ninguém, especialmente de Lovino e o italiano sempre entendera e respeitara tal fato, até agora. Até o momento em que Antônio se encontrava soluçando, encolhido em um canto do sofá, completamente devastado enquanto terríveis imagens brilhavam à sua frente.
- Mi amor, acho que está na hora de desligar isso. – Sussurrou Lovino, sua baixa voz parecendo estranhamente elevada naquele triste ambiente.
Antônio levantou a cabeça de repente, assustado, olhos muito vermelhos encontrando os de Lovino. Violentamente tentou limpar suas bochechas com o braço, sendo interrompido pelo mais novo que segurou firmemente suas mãos. – Pare com isso – pediu gentilmente. – Chorar não é problema algum.
O espanhol apenas olhou para Lovino, esmeraldas marejadas até que mais lágrimas rolaram, como se Antônio estivesse desistindo, como se não se importasse mais com o assistisse chorar, como se estivesse muito destruído para algo tão banal do tipo. – Eu não posso deligar a televisão. – falou em um leve sopro de voz.
Lovino mal aguentava ver a ruína que era o rosto do espanhol. Acariciou a parte de trás do pescoço de Antônio, correndo seus dedos levemente pelo cabelo do outro. – Tudo bem, não precisamos desligar, mas Antônio, por favor, você precisa entender que absolutamente nada disso é culpa sua.
Antônio então deitou a cabeça no ombro do mais novo, sacudindo-o com um dolorido soluço, completamente derrotado. Lovino sentiu os próprios olhos arderem com muita intensidade. – Eu sei que não, mas ainda assim, espanhóis, pessoas que são praticamente fragmentos de minha alma, continuam interminavelmente a matar uns aos outros – Murmurou abafado contra o tecido da camiseta. – Quando aqueles médicos salvavam uma vida, parte de mim era curada também, sabe? Quase como se uma luz fosse acesa. Mas hoje foi diferente e parte de mim aniquilou a outra e uma luz claramente se apagou.
Água quente parecia escorrer do ombro de Lovino, combinando com as que começaram a fluir em seu próprio rosto. Encostou sua face na cabeça de Antônio, envolvendo-o com seus braços e apertando o máximo possível. Nunca havia tido o mais velho assim, de coração inteiramente apertado e tão completamente vulnerável. Lovino entendia, pois compreendia o que era a destruição e a tragédia, compreendia o que era chorar até ter o corpo fraco e a cabeça cansada. Ele sabia, também, que esse sentimento não tinha nome e nem cura, que apenas o tempo o tornaria mais suportável e é por tal exato motivo que Lovino segurou Antônio com força enquanto ambos choravam e vozes estáticas soavam ao fundo.
- Por que esse tipo de coisa continua a acontecer? – sussurrou Antônio, levantando a cabeça e mostrando um rosto tão vermelho quanto maltratado. – Os tempos mudaram, então por que irmãos ainda batalham uns com os outros?
Lovino colocou delicadamente uma mão na face de Antônio e plantou um suave beijo em seus lábios. – Acho que essa é uma daquelas coisas chatas que não possuem resposta. Só o que sei é que de jeito nenhum uma parte da sua alma escureceu. Ela tremulou, mas com certeza não caiu, nem nunca vai cair, não enquanto for parte de alguém como você.
O espanhol fungou, ainda incapaz de parar de chorar e muito menos de responder. Aninhou-se contra o peito de Lovino, que em resposta pressionou ternamente os lábios contra o topo de seus cabelos escuros. Os dois olharam para o noticiário onde uma repórter se encontrava na frente do interditado hospital que estava cercado, não apenas por jornalistas e policiais e sim também por centenas de pessoas com o rosto pintado e carregando cartazes. Um deles dizia “Não desista: os bons ainda são a maioria!”.
- Os bons ainda são a maioria... – Murmurou Antônio.
- Então essa é a contrapartida – disse Lovino enquanto ambos observavam o protesto de uma multidão indignada com solidárias pessoas colocando velas e flores no chão, em uma inocente forma de homenagem e luto. – Para um homem cruel ainda existem milhares de pessoas boas demandando justiça.
- Os bons ainda são a maioria... – Repetiu, como se pudesse se cobrir e esconder atrás daquela frase. Antônio via um mundo triste em que pessoas boas e inocentes morriam nas mãos de homens doentes. Antônio via demasiada tristeza, miséria e solidão.
A respiração de Lovino estava próxima de seu ouvido e o italiano continuava chorando, comovido. A televisão mostrou crianças rezando e lindas flores decorando um deprimente ambiente. Homens e mulheres unidos contra a violência.
Antônio sentira apenas um interminável desespero o dia inteiro, mas agora, no quente e apertado abraço de Lovino, algo diferente começava a formar em seu peito. “Esperança” percebeu, enquanto um pequeno sorriso aparecia em meio às lágrimas.
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