30 Dias Para Dizer Que Te Amo
1 Day one - Holding hands
Notas iniciais
Roma não era apenas uma cidade bonita. Suas árvores eram cheias, o sol alaranjado, os pássaros cantantes... Encantadora, sem dúvida, mas também muito mais. Cada pedrinha naquele lugar fazia parte da história. Uma pessoa podia andar pela terra na qual, 2000 anos antes, imperadores, soldados e Augustus também pisaram. As cicatrizes das violentas lutas ainda eram visíveis no Coliseu, assim como o passado ainda era presente em Roma.
Antônio caminhava ao lado de Lovino, observando atentamente o semblante do italiano: seu rosto estava mais sereno do que de costume e os olhos mais claros, quase despreocupados. Fora Lovino quem quisera sair para um passeio, vestindo bermuda e chinelo ao invés de botas e uniforme. Antônio percebera que o mais novo era assim quando estava em casa, que era deste modo que agia quando se sentia seguro em um lugar familiar ao invés de em uma mansão desconhecida numa Espanha distante.
Sentiu, naquele momento, o coração pesar no próprio peito.
Caminharam sem pressa pelas estreitas e largas ruas enquanto iam conversando sobre tudo e também sobre nada, parando de vez em quando para observar um grupo particularmente engraçado de turistas ou para colher algumas amoras de longas e finas árvores.
Chegaram à calçada de uma pouco movimentada ponte e observaram que a água do rio debaixo deles refletia o intenso dourado do sol. Lovino sorriu um de seus raros sorrisos, aquele que Antônio tanto amava, um que não tinha malícia ou aspereza alguma. Era apenas um suave sorriso e nada mais.
- Lovi... – murmurou Antônio antes que perdesse a coragem, fazendo o mais novo parar. O espanhol então fechou os olhos, pensando que talvez devesse deixar para lá, porém no íntimo sabia que não podia, não quando o rosto de Lovino estava assim corado, saudável e feliz. Precisava saber ou a alternativa seria ter aquele pensamento incomodando-o para sempre. – Eu preciso fazer uma pergunta.
Lovino franziu as sobrancelhas ao ver o quão tenso Antônio estava. Geralmente gritava mais do que devia e ria abobalhadamente enquanto fazia piadinhas, mas seu olhar estava muito sério e Lovino podia jurar que se encarasse bastante, encontrava por lá uma pontada de culpa. – Vá em frente, então.
Antônio mordeu o lado de dentro das bochechas. – Você se arrepende de ter ido morar comigo? Responda com sinceridade ou vou saber se não o fizer, pois percebo quando está mentindo. – As palavras saíram em um jato, um tanto mais rápidas do que o planejado.
Lovino apenas o encarou por alguns incrédulos instantes antes de suspirar dramaticamente. Quase soltou um casual “bem, na verdade eu fui meio que obrigado a ir”, mas achou que não era realmente uma boa hora para suas respostinhas afiadas: Antônio parecia verdadeiramente chateado e ansioso por uma resposta.
- Às vezes sim – respondeu por fim, com honestidade. Percebeu que os verdes olhos à sua frente praticamente perderam o brilho. Lovino usou sua mais gentil voz antes de continuar, tentando que Antônio não ficasse pelo menos tão chateado com ele. – Mas na maioria das vezes não. Eu sinto falta de Roma, é claro, porque eu nasci e cresci aqui, mas agora eu moro na Espanha e não tem como mudar este fato. Não que eu realmente queira, se é o que te preocupa, porque estou bem lá, de verdade. Eu tenho você.
O espanhol, porém, balançou a cabeça não convencido. – Eu realmente sinto muito, Lovi. Esqueço que você não pertence a meu país como eu e que deve ficar louco de saudades da Itália. Eu... Eu deveria levar isso mais em consideração. Sinto muito mesmo, principalmente por não ter percebido antes. Acho que fechei meus olhos, não querendo acreditar que algo estava errado.
O lábio inferior de Lovino se moveu um pouco para frente, formando uma expressão triste e preocupada. Não era normal ver Antônio tão abalado assim. – De onde veio tudo isso, afinal?
Antônio passou uma mão pelos cabelos escuros parecendo um tanto quanto frustrado. – De você, Lovino. Dos sorrisos bonitos e chinelos confortáveis que eu vi hoje pela primeira vez. Da sensação de paz que você emana aqui e só aqui, em Roma, que é sua casa e eu nun-
- Antônio! – interrompeu Lovino aborrecido, decidindo que estava na hora de acabar com esse drama. Segurou o rosto bronzeado do outro em suas mãos, forçando o mais velho a prestar atenção em cada sílaba que pronunciava, ignorando completamente os olhares que os motoristas provavelmente mandavam em sua direção. – Eu amo a Itália, é verdade. Amo porque cresci aqui com meu avô e irmão e porque é um belo país, um lugar que me traz alegria e prazer. Quando eu me mudei, chorava toda noite contra meu travesseiro, pensando em como deixei para trás tudo aquilo que gostava. Na verdade, você, acima de todos, também sabe disso.
Pausou. Nunca tinha expressado o que realmente pensava sobre sua mudança ou como se sentia em relação à Espanha. Queria fechar a boca, sentia que aquilo era algo pessoal e só dele, pensamentos que foram guardados para si próprio durante anos. Entretanto, era Antônio quem estava se sentindo culpado e, além do mais, se não pudesse confiar nele, tinha certeza de que não poderia confiar em mais ninguém.
Inspirou pesadamente antes de continuar. – Mas tinha um certo espanhol que vinha ao meu quarto e limpava minhas lágrimas, toda santa noite, por meses, sussurrando que tudo iria ficar bem. E era verdade, eu percebia isso nas esmeraldas que eram seus olhos. Ele me abraçava e por breves minutos eu me sentia tranquilo, quase como se estivesse em casa. E aos poucos fui percebendo que não importava realmente o lugar e sim o que você leva consigo: da Itália eu tenho belas memórias e da Espanha eu tenho ainda mais... Eu tenho você.
Lovino tinha certeza de que nunca havia se explicado assim para ninguém, quanto mais dito frases tão pessoais e cheias de sentimento. Imediatamente sentiu suas bochechas queimarem.
Antônio puxou Lovino gentilmente pela camiseta, encostando a testa dele na sua, tentando desaparecer com qualquer espaço que ousara ficar entre eles. O vento soprou gentilmente o cabelo de ambos, levando embora o eco daquelas palavras. Antônio sabia que não fora bem um “eu te amo”, mas por enquanto, era mais do que o suficiente.
- Quando estivermos em casa, é só você mencionar que quer voltar para cá e estarei comprando passagens antes mesmo de você terminar a frase. Eu prometo. – Antônio disse, plantando um leve beijo acima das sobrancelhas do mais novo e entrelaçando seus dedos com os dele.
Lovino inalou profundamente o cheiro de perfume espanhol antes de conseguir se afastar.
- Eu acredito. Mas para que isso não aconteça assim tão cedo, que tal aproveitarmos que já estamos aqui? Nós podemos ir comer alguma coisa ou talvez... – Seu rosto se iluminou como se tivesse acabado de ter uma brilhante ideia. – Conheço um lugar que você com certeza vai amar.
Antônio deu de ombros com um sorriso, mais feliz do que ousava demonstrar pela incrível reação de Lovino à sua pergunta. – Se eu estiver com você, sei que vou.
Lovino bufou, mas não pode evitar um sorrisinho de volta. De mãos ainda entrelaçadas, puxou Antônio para seu lado e recomeçou a andar, guiando o caminho.
- Então eu não apenas ganhei o discurso mais lindo do mundo como também vou passear pela bela Roma de mãos dadas com meu Lovi? – perguntou Antônio maravilhado. – Uau, nós realmente deveríamos vir para cá mais vezes.
Lovino deu um soco com a mão livre no braço de Antônio, o que o fez rir. O italiano adorava aquela risada, embora nem pensasse em admitir. Encostou o rosto no ombro do mais alto, desacelerando um pouco o passo e tentando capturar o máximo da essência de Antônio que podia.
- Nem pense em ir se acostumando, bastardo. – disse com um beicinho levemente irritado.
- Você sabe que eu nunca faria algo tão absurdo, Lovi. – sorriu Antônio, percebendo como os dedos de Lovino se encaixavam perfeitamente nos dele, em como suas alturas combinavam para poderem andar assim, como um típico casal. O calor que já sentia em suas mãos começou a se espalhar rapidamente por seu corpo inteiro, como um intenso jato de água morna.
Apertou delicadamente a mão de Lovino enquanto plantava um outro beijo em seu cabelo castanho. Era o mais perto que ousava de dizer que o amava.
Lovino hesitou um pouco, como se entendesse o sentimento, até que apertou devagarzinho de volta. Não era nada mais do que um gentil gesto, mas Antônio sabia que era como se Lovino estivesse dizendo, em seu jeito tímido e hesitante, um “eu também te amo”.
Antônio suspirou contente, percebendo que começava a gostar de Roma quase tanto quanto Lovino.
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