3 Atos Para Continuar
1 Negação
Notas iniciais
Para Cedrico –
Meu amor por você viverá para sempre. Você não teve a mesma sorte.
A ideia queimava em sua mente dia e noite.
Era a única coisa mais forte do que o luto. Cordélia achava que não era tão mau; outras pessoas se agarravam à vingança ou à culpa, muito mais destrutivas em sua opinião. Sua ideia a trazia uma sensação de esperança, e, afinal, não era uma boa coisa? Seu pai mesmo havia dito; os dois no laboratório 7β do Instituto Flammel, fazendo um teste de um veneno natural para melhorar a eficácia de uma mistura antiga –um projeto conjunto entre pai e filha com o qual ele estava animado e ela se esforçava em ficar.
Seu pai tinha toda a aparência de um acadêmico; usava um conjunto de terno e colete de tweed limpo e novo, calças combinando bem passadas que lhe caiam bem e óculos redondos de aros finos que escondiam seus olhos verdes. Tudo nele indicava, para Cordélia, segurança, inteligência e distração. Era o homem que a sentava na bancada de seu laboratório quando era criança e a dava boldo e hortelã para colocar na água e fingir estar preparando poções.
Alastair a ficara olhando por um longo momento; os olhos verdes dele checando os olhos verdes dela, com surpresa e suspeita. Há quanto tempo não a via parecendo, se não feliz, então tranquila, ao menos? Aonde estavam as olheiras que ela vinha carregando nos últimos sete meses?
—Você parece esperançosa. –Ele decidiu, por fim. Pelo jeito como ele falou, tinha que ser algo bom.
Ela nem dera atenção na hora. Estava medindo o peso de uma raiz de asfódelo e qualquer erro de medição teria custado todo o trabalho que eles tiveram até ali, mas, ao voltar para casa, pensou sobre o assunto –dividia com sua amiga Fleur um apartamento perto do Beco Diagonal, na Londres bruxa. Embora seus pais preferissem que ela voltasse para a Escócia todos os dias, parecia um longo caminho.
Fleur ainda estava fora. Apesar de seu estágio no Gringots ser de apenas meio período, ela passava muito tempo vendo e revendo a papelada com a qual trabalhava, preocupada em fazer o trabalho perfeito, assustada em ser repreendida por algum dos duendes de caras sempre mal-humoradas.
O apartamento era muito parecido com o dormitório que dividiram em Beauxbatons: decorado em branco, dourado e azul, muito arejado e cheio de peônias em cada canto disponível. Seu pai havia mandado uns dos elfos de sua casa para, três vezes por semana, fazer a limpeza. Claramente, Tinker havia estado ali naquele dia, porque a casa estava brilhando de tão limpa; nada de pó de Flú saindo da lareira para o tapete, as almofadas douradas do sofá bem afofadas e as peônias vivas e recentes.
Em cima da bancada da cozinha, porém, estava uma sacola de papelão de sua cafeteria bruxa preferida, a Cafeteria Fortescue, do mesmo dono da Sorveteria, e Cordélia se aproximou para analisar. O cheiro a atingiu deliciosamente. Quando fora a sua última refeição?
Tirou de dentro do papel pardo um muffin de mirtilo saltador ainda quente –provavelmente enfeitiçado para se manter assim –e um copo de café puro, que ela havia aprendido a beber. Era amargo e queimava sua garganta, mas assim era a vida e não havia forma de fingir que tudo era sapos de chocolate e varinhas de alcaçuz o tempo todo. Junto com o pacote havia um bilhete:
Já comeu algo hoje?
—Vítor.
Suspirando, Cordélia pensou se ainda dava tempo de ir no apartamento do colega. Também na intenção de ficar perto do Instituto Flammel, ele havia alugado um lugar parecido com o dela a apenas duas quadras. Levaria menos de cinco minutos andando até lá e tempo nenhum se aparatasse embaixo do prédio. Considerou a ideia seriamente por um minuto, encarando seu reflexo no café. Seus próprios olhos verdes a encararam de volta, pelo líquido escuro, mas também os olhos cinzentos de Cedrico, encarando o céu acima, opacos.
Não, ela não iria a lugar algum aquela noite.
Terminando a refeição, ela faz um feitiço para sumir com as embalagens –afinal, para quê produzir lixo –e segue para um dos quartos no pequeno corredor.
O seu quarto destoa do resto da casa. Os móveis são claros, mas os detalhes são verde-escuro ao invés de azuis. O dossel da cama de casal, os lençóis de seda na cama e a almofada em cima do baú aos pés dela. Na mesinha ao lado da cama, uma miniatura de dragão focinho curto sueco se enrosca em sono pesado, ao lado de um pote que guarda um pomo de ouro dourado. Cordélia mal olha para eles.
Vai até o armário, onde tira as roupas de pocionista; vestes pretas que cobrem bem o seu corpo, enfeitiçadas contra corrosão, explosão e uma série de coisas que podem dar errado num laboratório de poções. Lá dentro, encontra uma peça de seda branca que usa como camisola, mas, com o tempo frio, aproveita para usar também o cachecol amarelo e preto que ainda mantém em seu armário, se inebriando com o cheiro que ele ainda exala.
Está tarde, mas não há pressa em dormir; os sonhos são os de sempre: Cedrico, que nunca volta para ela depois da terceira tarefa. Ela e Cedrico fazendo piquenique à beira do lago –desses ela nunca quer acordar –ou então Cedrico, que nunca vai busca-la no fundo do Lago Negro, enquanto Weasley, Granger e a pequena Delacour são resgatados, a deixando lá, no escuro, até que ela acorde sem respirar.
Então ela levanta o colchão para alcançar os livros que mantém escondidos ali.
Escondidos porque ninguém pode saber. Ela fez um bom trabalho escondendo até ali; primeiro, fazendo sua pesquisa em segredo, procurando o melhor método, então, em seguida, lentamente comprando os ingredientes de diferentes fornecedores, que, separadamente, não poderiam desconfiar de nada.
Ela precisara de uma permissão especial do Instituto Flammel para comprar alguns de seus livros, como; Misturas Antigas, todo escrito em latim, Vida e Alquimia, raríssimo, e Poções Tenebrosas. Não que pretendesse agir com magia negra, Cedrico não gostaria disso, mas nem tudo era magia negra. Algumas coisas eram só tão antigas e perigosas que haviam sido esquecidas. Mas Cordélia não erraria.
Gargamel entrou pela porta nesse momento, o rabo de escovinha cinza-azulado apontando para o ar e sua cara amassada tinha um ar de reprovação. Mesmo assim, pulou em sua cama –Cordélia ainda tentou afastá-lo com a ponta do pé, mas não houve jeito –e se aproximou dela, aninhando-se junto à lateral de sua perna quente na cama fria.
Cordélia então estudou até pegar no sono. Não era um hábito tão incomum agora; melhor do que deitar e se deixar pensar em tudo que havia se passado no ano anterior, antes de dormir. Quando estudava até pegar no sono, não podia dizer exatamente quando a coisa acontecia. Em um momento, lutava contra seus olhos pesados, no outro, era carregada para seus pesadelos.
Quando acordou na manhã seguinte, foi com o feitiço despertador, que tocava como se fosse dentro de seu crânio. Não confortável, mas certamente impossível de ignorar. Alcançando sua varinha, Cordélia o desfez e ainda nem havia aberto os olhos e empurrado Gargamel para longe quando sentiu o cheiro de café que denunciava que Fleur estava em casa.
Sua presença na cozinha era avassaladora. Era como se sua aura de beleza inundasse a cozinha com luz. Às vezes não era fácil ser amiga de Fleur; a maioria dos garotos nem a notava ao lado da parte veela, mas não era como se ela quisesse que garotos a notassem naqueles dias. Então apenas se apoiou no balcão onde a outra garota fazia panquecas.
—Nem vi a hora que você chegou ontem. –Comentou, pegando uma frutinha vermelha sem olhar qual. Era mais azeda que doce.
—Fiquei prresa até tarrde. –Ela admitiu, olhando o rosto da menina de olhos verdes com atenção, mais ou menos do jeito que seu pai fizera. –Conheci alguém.
Cordélia se ajeitou na cadeira. A francesa sempre tinha uma dessas histórias. O fato de que a ex sonserina não estava saindo, nem com vontade de sair, com ninguém não significava que não queria ouvir os relatos de Fleur, que geralmente acabavam com pobres rapazes fazendo a si mesmos de tolos por um pouco de sua atenção.
—Na verrdad’ eu já o havia visto antes. –Ela admitiu um pouco corada. –Em Ogwarrts.
Aceitando um prato de panquecas encharcadas no mel, Cordélia passou em sua cabeça uma lista de setimanistas. Não poderia ser um de seus colegas sonserinos, e provavelmente também não um lufano, pois com estes Fleur convivia. Imaginou se não era algum grifinório muito nobre ou um nerd da Corvinal.
—No dia de últime tarrefe. –Fleur continuou com mais cuidado. Cordélia levou um susto, mas foi pequeno, seu coração perdeu apenas uma batida. –Ele estava acompanhande Potter.
Surpreendentemente, ela achava que sabia de quem a amiga estava falando. Afinal, ela fora convidada por Cedrico a fazer o tour pelo castelo com sua família e, na câmara ao lado do salão principal, estavam esperando os familiares de cada um dos campeões. Potter fora acompanhado por uma mulher ruiva baixinha e gorducha e um rapaz mais alto, com um brinco de osso e cabelos compridos.
A lembrança era muito clara, porque um de seus passatempos preferidos era repassar todas as suas melhores memórias com Cedrico, tentando se lembrar de cada detalhe; cheiros, imagens, sensações táticas, sabendo que um dia essas coisas seriam apagadas de sua cabeça.
—Sei... Weasley, não? –Fleur pareceu surpresa por ela saber. –Ele trabalha no Gringots? Achei que fosse fazer teste para As Esquisitonas com aquele outfit. –Agora a garota francesa pareceu prestes a protestar, mas Cordélia não a deu uma chance. –E então? Ele caiu em cima de um dragão tentando impressionar você, ou fez um feitiço de silêncio em si mesmo?
A bruxa de cabelos mais escuros observou com interesse a outra trocar seu peso de um pé para o outro, parecendo um tanto quanto desconfortável.
—Na verrrdad’ non. –Ela admitiu. Cordélia levantou as sobrancelhas. –Elle agiu muite bam. Come Cedric’ agia, ou Vítorr. Ou Edmunde. Muite... Civilizad’. –Cordélia estava prestes a perguntar porque ela soara tão incomodada, ignorando que a amiga mencionara Cedrico, quando Fleur se adiantou, talvez percebendo como soara. –Isse chegou parra você mais cedo.
Embora fosse uma clara tática para mudar de assunto, Cordélia seguiu. Juntos de algumas peônias no canto do balcão estavam uma caixa envelopada com papel parto e uma carta em cima, que não parecia ter relação com a encomenda. Cordélia se esticou por cima da mesa para alcança-los. O pacote vinha de uma reserva de dragões no Peru e, embora Fleur estivesse claramente curiosa com o conteúdo, justamente por isso a bruxa de cabelos escuros não abriu a caixa na sua frente. Conhecia bem seu conteúdo e o teria que levar consigo para o Instituto mais tarde.
A carta, por outro lado, era de Lucy, e Cordélia se apressou a romper o lacre de cera.
Délia,
A nova professora de Defesa Contra a Arte das Trevas continua se mostrando terrível. Ela é Alta Inquisitora agora, você deve ter lido no Profeta. Eu gostaria de ser do sexto ano, para poder largar a matéria, mas estou num grupo de estudos, com Nigel, Denis, Orla e Natália e um pessoal mais velho, então não se preocupe. Sinto sua falta; Hogwarts é estranha sem você, mesmo que eu a visse pouco entre as aulas, mas papai disse que acha que você está parecendo bem ultimamente. Ele acha que tem alguma coisa a ver com aquele seu amigo que fez o Torneio Tribruxo. É verdade? Você está saindo com Vítor Krum? Você me contaria se estivesse? Eu não quero soar como a mamãe, sei que você ainda não está completamente bem depois do ano passado, entendo isso. Me diga como está no Instituto Flammel; papai ainda a trata como estranha em sala de aula? Eu não sei como reagiria a isso, mas, depois de ter seu padrinho como professor de Poções, você deve estar mais acostumada. O professor Snape, aliás, está mais amargo do que nunca. Você devia visita-lo, ele era mais feliz quando você era aluna dele. Na última aula, ameaçou nos fazer beber nossa Poção para Adormecer se estivesse errada e não acho que ele estava brincando.
Amor,
Lucy Bloxam.
—Gabrielle quase nunca me escrrreve. –Fleur soltou um muxoxo ao seu lado, olhando por cima de seu ombro para a correspondência.
Depois disso, as duas meninas se apressaram em vestirem-se para suas obrigações matinais. Antes de ir para o Instituto, Cordélia tinha outra entrega para pegar na Borgin & Burkes e estava torcendo para não dar de cara com Lana por lá. Não que não fossem amigas, apenas não eram nada próximas depois de Hogwarts, como ela, Mary e Edmundo ainda eram.
Como não era dia de prática de laboratório, Cordélia se vestiu com um vestido mídi florido em tons pastéis, com mangas, meias grossas de lã num tom creme e um casaco longo por cima, de veludo com capuz, que a fazia pensar nas cores de seu dormitório na Sonserina. Fleur aparatou direto para o trabalho, mas, como ia antes à Travessa do Tranco, Cordélia decidiu andar até o Beco Diagonal, não tão longe, e ficou surpresa em encontrar Vítor Krum embaixo de seu prédio, checando um relógio e parecendo esperar por ela, parado enquanto neve se acumulava ao seu redor da nevasca da noite anterior.
Por um segundo, Cordélia parou no hall do prédio trouxa, observando enquanto garotas na rua se viraram para encarar a figura vestida, talvez, de forma pouco usual: usava um suéter cor de creme e calças escuras, mas, ao invés de um casaco, vestia uma capa, onde guardava a sua varinha; porém as meninas pareciam mais interessadas em seu rosto de ângulos masculinos e figura alta do que na estranheza de suas vestes. Ela também o estava admirando, quase que sem querer. Ele era bonito, de um jeito não-usual. O nariz aquilino e as sobrancelhas espessas o dando um ar rabugento, mas havia uma vulnerabilidade no modo como a boca dele apontava para cima nos cantos...
—Oi! –Cordélia saiu do prédio, afastando os pensamentos e abrindo a grade com um estalo; aterrissando a neve fofa do lado de fora com dificuldade, o fazendo dar um pulo de susto. –O que faz aqui?
Ele olhou ao redor como se estivesse se perguntando mais ou menos a mesma coisa, mas então deu de ombros.
—Fleurr disse que focê estava descendo, enton eu esperrei. –Ele disse, oferecendo o braço para que ela segurasse e apontando para o interfone, um surpreendentemente útil aparato trouxa que a avisava dos visitantes. –Muite estranhe esse aparrrelhe.
—É. –Concordou, mas estava distraída. Vítor cheirava muito bem; algo amadeirado e masculino. Ela passou o braço pelo dele para deixa-lo guiar pela neve. –Eu vou passar no Beco Diagonal antes de ir para o Instituto. –Hesitou agora. –Você vem?
Vítor concordou, como se não tivesse nada melhor para fazer. Os dois eram uma visão estranha na Londres trouxa; ela menos do que ele, mas, juntos, chamavam um pouco de atenção. No caminho, teve tempo de agradecer pela comida no dia anterior, mas estava distraída pensando em como pegaria sua outra encomenda –a primeira estava guardada em sua bolsa com feitiço indetectável de extensão –sem que ele notasse do que se trava. Afinal, Vítor também era um pocionista, embora de outra área, e sabia reconhecer um ingrediente raro e poderoso quando via um.
Então os dois caminharam. Vítor, que estava se especializando em venenos como ela pretendera fazer à princípio, admitiu estar pensando em pedir ao seu pai, o Sr. Alastair Bloxam, intimidante pocionista, para ser orientador em seu trabalho de conclusão no ano seguinte, e confirmava com Cordélia que ela não ficaria chateada com isso. A ex sonserina, que não conseguia imaginar uma razão para que isso a incomodasse, deu de ombros.
O par entrou no Caldeirão Furado batendo as botas no carpete enfeitiçado para se livrarem do gelo, onde alguns bruxos sentam-se nas mesas redondas e quadradas, descombinadas, tomando cafés da manhã naquela hora. Alguns lançam olhares para o jovem par quando eles pousam lá dentro, mas ninguém faz um movimento de reconhecimento para o antigo jogador de quadribol que, agora longe da escola e dos campos, deixava crescer o cabelo e uma barbicha.
Tom, o velho e encurvado dono do estabelecimento, faz um aceno para os dois conhecidos –afinal, morando ambos ali perto, estão sempre indo ao Beco para qualquer necessidade –e eles acenam de volta, antes de se dirigirem para a parte de trás do bar. É Cordélia que, mais experiente, tira a sua varinha, tocando nos tijolos certos para assistir, sempre impressionada, o Beco Diagonal se abrir diante dela com magia, como que coberto por uma camada de glacê que era a neve acumulada nos telhados.
Diante deles, bruxos apressados andam em todas as direções. A Floreio e Borrões é menos cheia fora do começo do ano letivo, mas alguns bruxinhos em idade pré-Hogwarts se encontram lá dentro enquanto seus pais fazem compras. Logo após, há a Florean Fortescue e seus sorvetes deliciosos e, de frente, a grande loja de dois andares que é a Artigos de Qualidade para Quadribol, onde Krum coloca os olhos incisivamente para olhar as últimas novidades.
Vítor estanca no caminho, fazendo os dois pararem com o movimento.
—Onde é o melhorr lugarr parra comprrarr vestes? –Ele a perguntou. –Meus casacos de inverne son muito quentes para o inverne inglês.
—Madame Malkin’s é meu lugar preferido, embora eu gostasse da Trapobelo Moda Mágica em Hogsmead. –Cordélia respondeu distraidamente, se desviando de um bruxo baixo em vestes roxo-berinjela e pensando em seu vestido de baile que havia comprado no vilarejo bruxo. –Ou a Talhejusto e Janota, que é mais lá na frente.
Estava na verdade prestando atenção em como os bruxos ao seu redor agiam com tranquilidade e segurança de sempre, como se os primeiros mortos de uma guerra prestes a estourar ainda não tivessem ocorrido. É claro que o jornal estava fazendo um grande trabalho omitindo informações, mas toda vez que ela ia ao Beco Diagonal ficava impressionada com o descaso das pessoas. Então outra ideia surgiu em sua mente.
Cordélia fingiu olhar o relógio, preocupada.
—Acha que dá tempo de você ir lá e eu ir buscar minha encomenda? –Ela apontou a loja de Madame Malkins, apenas a alguns metros deles. –Podemos nos separar e nos encontrar em... no máximo vinte minutos no Gringots, que tal?
—Onde é o corrrreio-corruja? –Ele perguntou a olhando desconfiado.
Ela piscou os olhos verdes inocentemente.
—Ah, não! Eu vou pegar minha encomenda no Apotecário Mullpeppers. –Mentiu, descarada. –Não se preocupe, estarei no Gringots em vinte minutos, tudo bem?
Sem dar a ele a chance de responder, ela se inclinou, beijou a bochecha do búlgaro e o deu as costas mais rápido do que ele poderia ter dito “Evanesco”. Se ele fosse britânico, certamente reconheceria o caminho que ela tomava pela esquerda do Gringots em direção à Travessa do Tranco, um dos lugares de mais má fama do mundo bruxo, mas, sendo estrangeiro, simplesmente seguiu suas instruções para Madame Malkin’s.
A Travessa do Tranco, rua lateral conhecida por ser dedicada às artes das trevas, mas que na verdade vendia todo tipo de feitiços, encantamentos e objetos de origens duvidosas ou simplesmente perigosos, estava um pouco mais vazia que o Beco Diagonal, mas ninguém olhou duas vezes para a bruxa de casaco verde fundo de garrafa que passava apressada, as botas vitorianas fazendo barulho enquanto seus saltos batiam no chão. Cordélia sempre tivera uma teoria de que sonserinos não eram reconhecidos naquele lugar, por ter uma aura que se misturava à estranheza geral depois de sete anos dormindo nas masmorras de Hogwarts.
Finalmente chegou à única loja que já visitara na rua sombria: A Borgin & Burkes, que homenageava um ladrão e um envenenador famosos, e era especializada em uma grande variedade de objetos sinistros. Também era o lugar onde Lana trabalhava, já que um dia herdaria a loja, mas ela não se encontrava ali. Cordélia ignorou com segurança uma caveira de olhos vazios, uma mão da glória e um grande armário de madeira escura ao entrar, embora houvesse olhado o Colar de Opalas –único colar no mundo a já nascer amaldiçoado –com algum interesse, puramente acadêmico.
O Sr. Borgin, um homem de estatura média e olhar permanentemente desconfiado, a olhou por de trás do balcão com reconhecimento.
—Ah. Srta. Bloxam... –Então ele se abaixou, afastando o que soavam como caixas pesadas debaixo da bancada, antes de se levantar com uma caixa não muito grande e bem selada. –A arcada dentária de uma vítima de assassinato embebida em suco de mandrágora. –Ele anunciou, empurrando a encomenda em sua direção. Cordélia não disse nada enquanto abria sua bolsinha de contas cor de creme para tirar os sessenta galeões que custaram aquele ingrediente raro, embora bem mais barato do que a chama congelada de um dragão que recebera mais cedo. O outro bruxo, porém, a olhava com curiosidade. –O que uma menina bonita e jovem como você quer com isso já é outra história, suponho. Você sabe que, em hipótese alguma, deve tocá-los com as mãos desnudas, não sabe, garotinha?
Ele a tratou com familiaridade, mas ela não se importou. O Sr. Borgin era um de seus poucos fornecedores frequentes, pois, desde que ela pagasse bem, ele não se importava com o que ela estava fazendo. O seu tom de voz, porém, deixava transparecer que ele talvez houvesse se afeiçoado.
A cliente o lançou um de seus sorrisos ofuscantes, com covinhas dos dois lados. Eram raros nesses dias, porém ela ainda os tinha guardado; então pôs os galeões na bancada, deixando que eles tilintassem e desviassem a atenção do bruxo, se inclinando para sua caixa.
—Não se preocupe, Sr. Borgin, eu sei o que estou fazendo. –Garantiu antes de, apressada, se virar para a porta e sair acenando. -Muito obrigada. Nos vemos por aí.
Pela visão periférica, ela o viu balançar a cabeça como que desaprovador.
Ainda teve tempo de passar na botica de loções e perfumes Sabrina’s quando voltou ao Beco Diagonal. No meio do caminho, uma garoa fina começou a cair do céu cinza, logo se tornando esparsas gotas pesadas que se acumulavam em seus cílios vastos como lágrimas. Cordélia apontou a varinha para cima e murmurou "Pluviam Praesidio" e, em seguida, um fio branco-transparente saiu e sua varinha e fez abrigo em cima de sua cabeça, a protegendo da chuva como um guarda-chuva mágico. A própria Sabrina Enchantmant, uma bruxa francesa e reconhecidamente nascida-trouxa, famosa por seus perfumes, estava atendendo no balcão, mas, afora uma bruxa ruiva que saiu apressada quando Cordélia entrou, a loja estava vazia.
—Srta. Bloxam. –Ela a cumprimentou do balcão. Sabrina era geralmente alegre e encantadora, mas parecia cansada. –O que posso fazer por você?
Havia um jornal em cima do balcão de vidro; iluminado por luminárias de cristais que refletiam luz nos espelhos e paredes cobertas por desenhos claros; rosé e dourados. A manchete anunciava uma fuga em massa de Azkaban de dez bruxos naquela madrugada. Cordélia se aproximou, alarmada, para ler. Susana nada havia comentado com ela sobre o assunto. Os três Lestrange; Bellatrix, Rodolphus e Rebastan tinham imagens na primeira página, assim como Rookwood e Dolohov.
—Eu... –Cordélia balançou a cabeça para voltar à realidade. –Eu quero uma poção limpadora de cabelos de verbena e flores silvestres e um hidratante com chifre de unicórnio moído, por favor.
Cordélia pensou, distraidamente, que devia ter perguntado a Fleur se a amiga precisava de algo, mas não o havia feito. Vendo o nome de Sirius Black grandemente destacado na página do jornal, também considerou que provavelmente devia visitar sua avó, Asterope, que costumava ser uma Black, em casa.
Sabrina a notou olhando o jornal enquanto, nas prateleiras atrás de si, pegava o que ela pedira.
—Boas notícias? –Sabrina perguntou, testando-a. Como vendedora, provavelmente não poderia supor. Devia ter todo tipo de clientes, inclusive os que achavam que fuga de Comensais era uma boa coisa. –A Sra. Malfoy esteve aqui logo antes de você e não parecia insatisfeita. Eu conhecia Bellatrix Lestrange, sabe? Não era minha cliente, porque jamais compraria a uma nascida-trouxa, mas sua irmã sempre veio aqui. Aliás, chegaram novos sais de banho que explodem flores na banheira, você gostaria de levar para casa uma amostra?
Cordélia soltou a respiração pesadamente por entre os lábios enquanto aceitava o pacote cor-de-rosa que Sabrina embalara enquanto falava. Procurou na bolsa dois galeões, que deixou em cima do balcão.
—Péssimas notícias. –Respondeu, finalmente. –Gostaria, sim, obrigada. Tenha um bom dia, Sabrina.
—Até mais, Cordélia.
Voltou ao Gringots com passos largos e o capuz levantado sobre a cabeça para evitar ser reconhecida. Vítor já a esperava no banco e a olhou com confiança quando a bruxa se aproximou dele, aproveitando-se do calor que o bruxo maior transmitia.
—Prronta? –Ele perguntou e, recebendo um aceno positivo, desaparatou os dois para o Instituto Flammel.
Uma vez no Instituto, ambos se apressaram para a aula de Venenos e Contravenenos; Módulo 2, na sala de aula 4Ω, onde seu pai já se encontrava atrás de um púlpito. A sala era enorme, em formato de anfiteatro, mas apenas cerca de quinze alunos estavam lá dentro, a maioria sentada nas primeiras cadeiras, exceto por dois ou três, querendo se esconder mais atrás. Alastair Bloxam nem dignou um olhar à filha quando ela se apressou, descendo as escadas e, seguida de perto por Vítor, se enfiou em uma fileira de cadeiras dobráveis com acolchoamento vermelho-escuro ao lado de Greta Lestrange, que acenou, os cabelos escuros balançando com o gesto.
Vítor tirou do bolso um pequeno caderno de anotações, deixando a capa na cadeira vazia ao lado, enquanto Cordélia enfiava o braço até o cotovelo dentro da aparentemente pequena bolsa de contas, desviando a mão de seus pacotes –que ela devia deixar em seu armário –antes de encontrar suas penas e tinteiros e pergaminhos.
Olhando para o seu pai, atrás do púlpito, falando sobre os métodos para dissecar poções de forma a diminuir as chances de fazer um contraveneno equivocado, ela lembrou-se da carta de Lucy. Ficou um tanto chateada que o pai estivesse pressupondo que ela e Vítor estavam juntos, mas daí não era difícil imaginar. Eles passavam as aulas que tinham grudados e saiam juntos para o almoço, e como o Sr. Bloxam saberia se ela voltava para casa após aparatar com ele? Mas mesmo assim desejou que seu pai não saísse comentando suas suspeitas com sua irmã –ou pior, com sua mãe, que ficaria animada com a ideia.
Ao fim da aula, quando a bruxa de cabelos cor de mogno já seguia o colega ex-jogador para fora da sala, ela ouviu um chamado.
—Cordélia, fique aqui um segundo. –Seu pai não se dava ao trabalho de chama-la pelo sobrenome em aula como Severus fazia em Hogwarts; afinal, ali, todos sabiam que eram pai e filha.
Vítor a lançou um olhar, antes de murmurar ‘vejo focê na prróxima aula”, enquanto Cordélia descia os degraus de volta.
—Estava me perguntando se você pretendia voltar para casa nesse fim de semana. –Alastair perguntou quando ela se aproximou, sem levantar os olhos de um livro de anotações. –Sua mãe não a vê desde o natal.
—Mamãe costumava passar muito mais tempo sem me ver. –Apontou, lembrando-se de que no ano anterior se quer voltara para casa nas festividades.
—É diferente com sua irmã em Hogwarts. –Ele apontou, finalmente pousando os olhos na filha mais velha. Ela continuava como da última vez que a vira; parecendo melhor. Era um alívio para seu coração paterno, pois havia sido um sofrimento tanto para ele quanto para a esposa naqueles últimos meses sombrios. –Leve seus amigos. Sua mãe gosta de companhia. Aquela Mary é adorável, e Fleur também. Talvez queira levar Vítor.
Cordélia considerou a ideia. Não era ruim. Mary não poderia ir, porque seu treinamento era ainda mais intenso nos fins de semana –viaja para locais misteriosos em testes de resistência e habilidade, mas talvez Susana, que geralmente ficava só em casa quando Mary viajava, quisesse passear. Mas seu principal objetivo era mais egoísta e devia se manter escondido.
—Eu soube que você anda fofocando com Lucy sobre minha vida pessoal. –Disse ao pai, incisiva. –Vítor Krum, hum?
Ele teve a decência de parecer envergonhado.
—Vocês andam muito próximos. –Deu de ombros, então a olhou com interesse. –Não há nada entre vocês, então? É uma pena. Nunca consigo conhecer seus namorados. Aquele Marlon morava na França, depois Diggory... bem.... –Ele se atrapalhou por um segundo. –Apenas acho que seria bom para você.
Cordélia, que havia olhado para longe à menção de Cedrico, olhou de volta para o pai. A insinuação, é claro, criara outra imagem em sua mente; uma lembrança, dela insinuando para Cedrico que seu pai seria difícil quando se conhecessem. Se encontrou desejando que tivesse os apresentado antes.
Ela suspirou, enchendo os pulmões de ar até que ameaçassem explodir, para afastar as ideias.
—Eu vou. –Disse ao pai. –Vou passar o fim de semana com vocês.
Ao sair da sala para um corredor relativamente vazio –afinal, ao contrário de Hogwarts, não deviam haver sequer cem alunos em todo o Instituto e ele era frequentemente vazio e silencioso. Os alunos eram organizados e não faziam bagunça nos corredores; passavam a maior parte do tempo nas salas de aula, laboratórios ou na grande biblioteca no térreo. Como o Instituto não tinha um grande terreno, apenas um gramado de entrada e um simples jardim aos fundos, pois ficava no meio de Londres, eles não eram encorajados a passar seu tempo livre na Academia.
Do lado de fora da sala de aula, encostada numa das paredes de pedra ao lado de um archote apagado, esperava por ela Greta Lestrange, os grandes olhos castanhos curiosos, os cabelos cacheados como uma aura ao seu redor e a pele escura brilhando na falta de luz. Cordélia deu um olhar para dentro da sala, mas seu pai já tinha se distraído com suas anotações novamente, então a garota fechou a porta com um estalo.
—Lestrange. –Cumprimentou. Greta havia sido da Sonserina, um ano mais velha, e estavam agora na mesma turma, porque a outra garota havia passado o ano anterior estudando no Instituto para Bruxas de Salem, nos Estados Unidos. Greta era filha do Comensal da Morte Rebastan Lestrange, preso em Azkaban, e de sua esposa, que adotara o nome de solteira depois da prisão dele, Edith Carrow. Se perguntou se a menina sabia que seu pai havia fugido da prisão apenas algumas horas antes. Se perguntou se o havia visto.
—Bloxam. –Greta aumentou os já grandes olhos castanhos, enquanto, desconfiada, Cordélia estreitava os seus.
Lestrange também usava um longo trench coat, só que marrom, e começou a colocar as mãos no bolso, fazendo o caminho para a aula de Princípios Alquímicos. Cordélia a seguiu, as duas bruxas ombro a ombro no corredor.
—Fui na biblioteca essa semana procurar por um livro. –A bruxa mais velha recomeçou. Cordélia fingiu desinteresse. –E Madame Cohan me disse que você está com um exemplar raro de Construção de Vida e Alquimia.
—Estou. –Disse, tranquila.
—Você vai ficar com ele muito tempo?
Cordélia franziu as sobrancelhas.
—O que você quer com ele, Lestrange? –Olhou a outra garota pelo canto dos olhos. –Achei que sua área era Poções de Cura.
Greta deu um longo suspiro, como se precisasse de muita paciência.
—Não seja superior, Bloxam.
—Não estou sendo superior. –Negou rapidamente.
—Todos vocês de Alquimia, Magia Antiga e Venenos agem como superiores. –Greta quase rosnou. –Magia de cura é difícil. Sem falar em útil. Quantas vezes um bruxo comum usa um veneno de vocês? Muito menos do que uma Poção Contraceptiva ou uma Cura Para Bolhas.
—Tenho certeza disso. –Cordélia pensou na dificuldade que era aprender feitiços de cura avançados como o Vulnera Sanentur. –Foi uma pergunta de curiosidade. E, é claro, se você precisar por uma urgência, eu o devolverei mais rápido.
Lestrange apertou os lábios, como que surpresa. Cordélia não deu atenção ao gesto, parou no meio do corredor e se virou para a colega com as sobrancelhas levantadas.
—É para uma pesquisa que estou fazendo. –O tom da bruxa era menos agressivo agora. –Sobre... poções de reanimação. Você sabe, para mortos recentes. Quanto mais tempo passado, mais difícil reanimar o corpo.
—Eu sei. –A voz de Cordélia foi baixa. –Eu posso trazê-lo amanhã, mas gostaria que você o devolvesse a mim quando acabasse a sua pesquisa.
—Claro.
Cordélia assentiu e abriu a porta para a aula de Princípios Alquímicos, onde a professora Catastrophe Gauche já fazia anotações no quadro. Greta a seguiu de perto e se sentou duas cadeiras ao lado dela quando Cordélia tomou seu lugar ao lado de Vítor. Greta Lestrange era estranha, Cordélia pensou, mas, por algum motivo, a pocionista gostava dela. Havia algo agradável sobre a garota; o modo como, por causa da fama de sua família, fazia questão de se manter longe de artes das trevas.
Se odiando por isso, Cordélia chamou Vítor para a “excursão”. Sabia que provocaria fofocas entre seus pais, mas ela sempre se sentia melhor com o búlgaro por perto e, como ele não fazia objeções em ser sua constante companhia, não parecia fazer mal. Mas também estendeu o convite à Susana, Fleur e Edmundo, que responderam afirmativamente. Cordélia suspirou ao receber as cartas, percebendo que, mais uma vez, teria que esconder de seus amigos suas intenções nefastas.
Havia algo em casa, porém, que ela tinha que conseguir e estaria a apenas um passo de tê-lo de volta.
Para Cedrico –
Preferia que estivesse vivo e com saúde.
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