Notas iniciais
Como eu disse que iria postar os capítulos ao longo da semana, aqui vai o segundo. Um dos motivos para eu ter escrito esse Spin-Off foi a minha vontade de desenvolver algumas das relações de Cordélia que eu não tive tempo de mostrar em LdCD, como com os pais dela. No capítulo anterior, vocês conheceram Alastair Bloxam, agora será Marilyn. Boa leitura e nos vemos nas notas finais!

Para Cedrico –
Querido, adorado, morto.

O grupo aparatou bem à beira das falésias que foram cenário de várias de suas aventuras de infância.

À frente deles se estendia o Mar Negro, com uma praia de pedrinhas macias lá embaixo, onde, no verão, ela e Lucy costumavam estender toalhas para pegar um bronzeado que jamais as alcançava e tomar banho na água salgada e límpida quando a maré estava baixa. Atrás deles, a Bloxam Manor; um casarão de colunas gregas com hera subindo-as em espirais, janelas altas e uma grande porta de madeira, cercada por uma meia-lua de mata fechada, onde viviam os pomorins e os unicórnios de seus pais.

Cordélia inspirou fundo. O cheiro, sozinho, já a permitia ver as colinas ao longe, nomeadas em homenagem a reais mágicos, Arthur e Lancelote. Ali, ao contrário do ferro de Londres, era aberto e ventilado, verdejante e ondulante. Tinha cheiro de casa, história, magia e contos. Era uma terra de reis e magos e poetas, e seu sangue correu mais rápido ao se ver diante daquilo.

Não havia neve ali em cima, mas o vento era ainda mais cortante que o gelo de Londres. Fleur, que entre eles era a que vinha de um lugar mais ao sul, virou o rosto contra aquela agressividade da natureza, se apressando em girar o cachecol mais uma volta ao redor do pescoço.

—O arrr aqui é.... –Vitor hesitou, procurando a palavra numa língua que não era a sua. –Salgado.

Fleur concordou com um aceno.

—Como em minha casa. –A francesa, como Cordélia, era uma garota do mar, tendo nascido à beira do Mar da Normandia. Fleur sempre dizia que um dia moraria num chalé à beira da água, como o lugar onde ela crescera.

Sua mãe esperava no hall, atrás da porta pesada de madeira com uma aldrava em forma de serpente, pronta para recebe-los com feitiços de secamento e abraços apertados, os cabelos louros bem penteados atrás das orelhas e os olhos azuis enormes, que Lucy havia herdado, cheios de alegria. Suas roupas estavam quentes e havia uma lareira acesa no cômodo ao lado, para onde eles correram quando limparam as botas no tapete enfeitiçado da entrada, que absorveu a umidade com eficiência, então sua mãe os deixou se acomodarem nos dois sofás de tecido diante da lareira, antes de sair para outro cômodo lateral, atrás de chá e biscoitos.

Por sorte, a lareira era grande o suficiente para caber todos eles lá dentro; e estava acesa em sua capacidade máxima. Logo, todos se sentiam quentinhos, especialmente quando a Sra. Bloxam colocou seis pares de xícaras em cima da mesinha de centro, feita de mogno escuro que combinava com os cabelos de Cordélia, e os serviu da chaleira de prata com um chá mágico que mudava de cheiro de acordo com as preferências de quem bebesse e tinha uma aparência rosa leitosa e perolada que refletia seus rostos.

Em cima da lareira, fotos se moviam, sorrindo para a câmera ou acenando. A maior delas era de toda a família junta; seu pai com seus óculos intelectuais e seu tio ao seu lado, igual e diferente, em roupas de viagem. Sua mãe agarrada a ela e Lucy, se inclinando para dar um beijo em sua bochecha. A menor das fotos mostrava três jovens louros, tão parecidos uns com os outros quanto Cordélia e Lucy; eram Marilyn, Marlene e Marcus Mckinnon, vivos.

—Você deve ser Vítor. Eu sou Marilyn, querido, seja bem-vindo, é um prazer. –Ela balançou a mão do búlgaro, que a cumprimentou muito educado. –Edmundo, meu querido, onde está a sua adorável namorada francesa?

Sua mãe passou um bom tempo apenas perguntando da vida deles. Claire, é claro, estava na França, mas pretendia se mudar para a Inglaterra assim que conseguisse um estágio. Perguntou por Mary, que estava em treinamento, e fingiu não ficar confusa com a ideia de que Susana era sua namorada. Susana, aliás, além de Vítor, era a única que sua mãe não conhecia, e ficou bastante surpresa ao saber que havia sido colega de classe e Casa de Cedrico.

—Que perda terrível. –Sua mãe comentou, como se fosse algo distante dela, incapaz de atingi-la, enquanto mordiscava um biscoito colorido. Cordélia ouviu, embora desejasse não ouvir, o modo como ela tratou o assunto com casualidade. –Um menino tão novo. Bem, mas um estágio no Profeta Diário não é pouca coisa...!

Cordélia a deixou falar. Seus amigos estavam confortáveis e seu pai só voltava do dia de aulas no Instituto à noite, com uma chave de portal, que sua mãe considerava mais segura do que a aparatação. Além disso, Cordélia era uma mulher com um objetivo do qual nada poderia distraí-la.

—Sua irmã tem escrito? –Marilyn a perguntou em dado momento, enquanto seus amigos se empanturravam de bolinhos cheios de gordura e açúcar. Cordélia comentou da última carta dela, sem entrar em detalhes, e disse que iria ao correio-coruja postar sua resposta na segunda. –Sim, eu tenho acompanhado pelo jornal a situação em Hogwarts. –Aqui, Susana, que estagiava no Profeta, fez uma careta de desagrado. Não vinha gostando nem um pouco do dinheiro que todos sabiam que o Profeta andava recebendo para apoiar o ministro. –Por que você nunca comprou uma coruja, querida?

Aguentou a ladainha a maior parte da tarde com um sorriso educado e a mente em chamas. Uma fria determinação crescia em seu peito; ela era puro aço por dentro e nem o descaso de sua mãe poderia abalá-la.

Finalmente, sua hora chegou. Quando sua mãe levantou, convidando seus amigos para dar uma volta na propriedade, onde poderiam ver os belos exemplares de cavalos alados que criavam –especialmente os abraxanos, que eram os mais caros, bonitos e fortes –Cordélia declinou o convite, dando a desculpa que tinha algumas coisas para pegar em seu quarto que precisaria levar para o apartamento. Roupas que queria usar, sua escova de cabelos feita de ossos de dragão preferida, alguns livros, casacos para o inverno.

Ao invés de ir ao seu quarto, porém, assim que seus amigos saíram de casa, lançando feitiços de aquecimento em torno de si mesmos, Cordélia deu meia-volta em direção ao porão, onde seu pai sempre mantivera um laboratório pessoal de poções.

Não considerava o que estava fazendo como roubo; afinal, seu pai certamente a cederia o ingrediente se pedisse –porém faria perguntas que ela não queria responder. Poderia mentir. Fios da calda de um unicórnio filhote eram ingredientes de várias poções poderosas, tais quais a Felix Felicis, que não deixaria seu pai desconfiado se ela estivesse preparando.

O laboratório era exatamente como ela se lembrava de ter sido durante a sua infância. Uma poção cozinhava em fogo baixo e prateleiras cobriam as quatro paredes e a porta de entrada, cobertas por ambos livros e ingredientes. Haviam luzes amarelas no teto que impediam que o ambiente fosse escuro, além de uma lareira apagada –menor do que a da sala, mas grande o suficiente para que ela ficasse de pé lá dentro. Seu pai costumava encher um caldeirão com água e a deixar brincar de fazer poções, cedendo a ela ervas para chá e ingredientes que não eram perigosos e assim ela passava tardes fingindo produzir venenos terríveis. Era um dos lugares preferidos de Cordélia na casa desde a infância –sua mãe dizia que ela havia sido escolhida para a Sonserina porque já estava acostumada com lugares sombrios, escuros e misteriosos.

Ela precisou apenas de uma simples olhada analítica para lembrar que os ingredientes estavam organizados por ano, país e, dentro dessas duas, ordem alfabética e validade. Seu pai era bastante meticuloso. Dessa forma, não foi difícil encontrar o que precisava: os fios dourados dentro de um frasco transparente arrolhado com uma rolha de madeira porosa.

Mais difícil foi disfarçar sua expressão quando deu de cara com seu pai na cozinha ao voltar à superfície.

Ele pareceu igualmente surpreso em vê-la. Talvez o suficiente para não notar o modo como ela deslizou o frasco de vidro entre as dobras da saia, suspeitosamente. Ela não precisava ter se preocupado. Com seus óculos de aros finos por cima dos olhos verdes e um casaco de muitos bolsos, que ele começou a esvaziar em cima da mesa, colocando à vista pergaminhos velhos, penas que já viram dias melhores, moedas de ouro e um jornal tão amassado que era difícil ler sua manchete, Alastair Bloxam não era um homem atento.

Finalmente, ele tirou de dentro do casaco marrom um maço de cartas em diferentes tipos de papel e diferentes escritas, pegas na entrada de casa, e os colocou em cima da mesa.

—Veja se há algo para você. –Ele sugeriu a Cordélia.

Soltando seu frasco de ingrediente roubado no bolso de sua saia, Cordélia pegou o bolo de pergaminhos na mão. Havia uma carta da mãe de Cedrico –essa certamente era para ela e a bruxa fez uma anotação mental para mandar à Amelia Diggory seu novo endereço –mas também uma de Lucy, endereçada aos seus pais e outras de alguns clientes. Um nome, porém, saltou aos seus olhos, fazendo seu sangue subir à cabeça.

—Vocês ainda fazem negócios com os Malfoy? –A sua voz estava cheia de indignação, com uma pontada perigosa.

Seu pai pareceu ouvir a pontada, porque foi tirado de sua distração em alinhar a hora de seu relógio de pulso com o relógio da cozinha com mais facilidade do que o normal –geralmente, ela passava longos minutos tentando chamar sua atenção antes que seu pai percebesse que ela falava com ele.

—Eu não sei. –Ele admitiu, sincero. –Fazemos?

Faziam, segundo a carta que ela abrira, escrita por Narcisa Malfoy, requisitando um par de abraxanos fortes e bonitos para a nova carruagem da família. A letra dela era perfeita, absolutamente impassível, floreada, fina e inclinada. O papel era pesado e grosso, denso e liso. A tinta não tinha borras.

Cordélia esperou até que sua mãe e seus amigos voltassem do passeio.

Vozes excitadas –em três diferentes sotaques –preencheram a sala quando eles voltaram. Seus amigos pareciam animados, apesar de provavelmente terem passado frio. Quando sua mãe os mandou para os quartos de cima para que se secassem, Cordélia foi até a sala, onde ela estava de costas, fazendo feitiços na lareira para atiçar as chamas e com a elfa Odette ao seu lado, recebendo instruções para o preparo do jantar, que devia incluir pratos franceses e sobremesa nórdica. Seu pai estava no laboratório, parecendo ter esquecido de sua indignação.

—Como foi? –Sua mãe deu um pulinho e se virou com surpresa, mas relaxou quando notou que a aproximação silenciosa fora apenas de sua filha mais velha.

Marilyn a lançou um grande sorriso.

—Seus amigos amaram os filhotes. –Anunciou, feliz, os olhos azuis brilhando. –Deram sorte de um pomorim lento passar por nós também! Bem redondo e dourado...

—Não. –Cordélia a interrompeu secamente. –Quando Marlene Mckinnon, sua irmã caçula, morreu. Como foi?

A energia foi drenada subitamente de sua mãe enquanto ela abria e fechava a boca. Ela nunca falava sobre isso. Falava sobre Marlene, a “tia Lene” com quem Cordélia supostamente se parecia tanto, embora Marlene houvesse sido uma grifinória, uma auror, uma mulher de ação, loura, olhos azuis como sua mãe, enquanto Cordélia não era nada disso.

—Você faria negócios com os assassinos dela? –Voltou a perguntar.

Como os de Cordélia, os olhos de Marilyn eram grandes. Era uma das poucas coisas que havia herdado da mãe. Mas o efeito era diferente em cada uma delas. Os olhos de Marilyn eram abertos e claros, muito legíveis, quase infantis. Os de Cordélia eram intensos, demandavam atenção e, naquele momento, também eram cheios de julgamento.

—Os Malfoy, por exemplo. –Continuou. –Eles foram comensais na primeira guerra, não foram?

Sua mãe pareceu entender imediatamente do que ela estava falando.

—Eles foram absolvidos. –Disse ela. –Eu estudei com Narcisa Malfoy, Cordélia, éramos da mesma turma... ela e o seu pai eram da mesma Casa! Você acha que não saberia se algum de seus colegas virasse um...

—Lucius Malfoy estava lá! –Cordélia a interrompeu. Sua voz era quase um choro agora.

—Segundo Harry Potter! –O tom de sua mãe foi incrédulo. –Você o acusou de só querer chamar atenção várias vezes quando nos escrevia... –Cordélia pareceu prestes a interrompe-la, então Marilyn ergueu a mão para impedir. –Não é a mesma coisa, Cordélia. Não estamos em guerra! A morte de um garoto, que só Merlim sabe como aconteceu, não significa nada!

Cordélia deu um passo para trás. Teria sido menos doloroso se sua mãe simplesmente a tivesse acertado com um feitiço. Ela também pareceu perceber isso.

—Não foi o que eu quis dizer. –Marilyn ergueu as mãos, andando na direção da filha, que retrocedeu para se afastar. –Eu quis dizer que nem tudo é o que parece. O namorado de Marlene estudou com ela todos os sete anos de Hogwarts, entrou naquela droga de Ordem da Fênix e, no final, traiu seus melhores amigos e matou não sei quantas pessoas. Narcisa não é uma comensal, embora sua família pareça isso.

Parecia haver ferro quente na garganta de Cordélia, mas eram apenas as lágrimas. Já era ruim o suficiente quando qualquer pessoa o citava. Significava algo. Um garoto havia morrido e ela o havia amado tanto.... O suficiente para fazer o que ela estava fazendo, afinal. Tanto amor não podia ser desperdiçado. O futuro brilhante que ele deveria ter tido não poderia ser desperdiçado.

—Eu vou subir. –Anunciou, a voz rouca, cheia de lágrimas. Sua mãe mordeu o lábio, culpada, arrependida, mas não disse nada.

Apesar de tudo, quando chegou ao segundo andar, Cordélia não foi para o quarto de sua infância, mas para o quarto de hóspedes que estava sendo ocupado por Vítor Krum. Hesitou por um minuto na porta de madeira escura, mas, no fim, bateu. Vítor havia trocado suas roupas de viagem por um suéter confortável e calças de algodão e sua expressão confusa não se abrandou quando ela abriu caminho para dentro do quarto –um espaço genérico igual aos outros quartos de hóspedes da casa: um armário de madeira que, na primeira guerra, fora um armário sumidouro cujo par estava na casa de seu padrinho e onde ela era proibida de brincar quando era criança, um espelho grande com feitiços de ampliação e uma cama de ameixeira-brava, com desenhos entalhados na cabeceira.

Cordélia sentou-se na cama e Vítor hesitou apenas um segundo antes de sentar ao lado dela, passando os braços por seus ombros enquanto ela se encolhia contra o corpo quente dele. Não disse nada e não perguntou. Cordélia não chorou, mas seu corpo fazia o movimento de soluços. Há muito não tinha lágrimas. Ali, naquela casa onde tudo era familiar, desde o cheiro à temperatura dos quartos, ela desejou que o tempo não houvesse passado e que Lucy estivesse ali. Desejou que a irmã fosse a garotinha impressionada com tudo que ela tinha a dizer sobre Hogwarts e que Cedrico estivesse vivo. Talvez não com ela, mas certamente vivo.

Meses depois...

No sonho, Hogwarts estava ensolarada e o pátio do relógio, onde ela e Cedrico passaram horas estudando em várias ocasiões, estava vazio e silencioso, além dos dois, que se sentavam em um banquinho: Cordélia apoiada no peito dele, com um livro na mão e uma pena de anotações.

Mas ela não prestava atenção no livro ou nas anotações. O Cedrico de sonho era uma cópia fiel do que Cedrico que ela conhecera e era raro que tivesse sonhos assim tão fidedignos, então estava aproveitando a ocasião para olhar bem os olhos cinzentos dele, o maxilar anguloso, o nariz reto e o sorriso.

Ela sentira tanta falta daquele sorriso. Um sorriso cheio de possibilidades, alegria e adoração. Por ela.

—Por que você parece tão triste? –A voz dele era exatamente como ela se lembrava. Ela apenas queria o fazer falar mais, mas ele estava ocupado enrolando um dedo longo –dedos de músico, ela sempre pensara –numa mecha escura de seu cabelo e Cordélia se inclinou, feliz com a carícia.

—Você não sabe? –Murmurou de volta.

O dedo dele escorregou para sua bochecha, onde delineou o contorno de seu rosto até o queixo.

—Sei. –Ele admitiu. –Não seja boba. Estou aqui.

Cordélia balançou a cabeça.

—Não está.

Como geralmente acontecia, ela acordou às lágrimas, mas manteve a voz baixa para não acordar Fleur no outro quarto. Soluços irromperam sem convite pela sua garganta e ela abafou o som no cachecol amarelo e preto. Cordélia se deixou levar por um ou dois minutos, depois respirou fundo e saiu da cama. Já sabia o que fazer agora quando isso acontecia. Era uma sorte que Vítor não tivesse dormido com ela naquela noite; detestaria que ele a visse daquele jeito.

Cordélia passou por cima de alguns anúncios do Ministério sobre proteção contra inferi e dementadores naqueles tempos sombrios em direção ao seu livro. Ele estava mais bem escondido do que o normal, já que sua irmã passara duas semanas ali com ela depois que saiu de férias, uma vez que Cordélia não concordou em ir para casa. Sua mãe a mandava cartas semanalmente, especialmente depois que Malfoy foi preso numa confusão no Departamento de Mistérios –Mary a disse o que houve, agora que era estagiária oficial dos Inomináveis –mas Cordélia seguia sem responder.

Fleur iria para a casa dos Weasley na manhã seguinte e Vítor estava na Bulgária por duas semanas –a tinha feito um convite para que se juntasse a ele, mas a chave de portal de Cordélia apenas sairia dali a cinco dias. Edmundo havia se mudado para a França, finalmente, e Mary e Susan estavam viajando para visitar Hugh no Brasil, onde ele estava estudando herbologia.

Pelo lado bom, isso a dava cinco dias para resolver o seu último problema –que ela já vinha adiando por meses.

O Levante do Assassinado era a sua melhor alternativa em termos de Poções. Haviam rituais e feitiços também, mas Cordélia pensou que seria melhor tentar algo em sua área. Não significava que era um trabalho simples, porém. Aquela era uma antiga poção romana para que os bruxos da época desfizessem mortes injustas. Os dois requisitos da poção eram que o ressuscitado fosse bruxo e houvesse sido assassinado. Não era amplamente usada, afinal, era difícil e cara. Além disso, Cordélia teve muito trabalho traduzindo o manuscrito em latim de várias fontes confiáveis, para comparar e conseguir uma versão segura, além de pesquisa extensiva sobre os meios de ação da poção.

No fim das contas, a chama congelada de um dragão, dentes de um homem assassinado embebidos em suco de mandrágora e pelos de um unicórnio jovem nem foram as partes difíceis.

A poção também pedia uma gota do sangue do assassino.

Havia uma única pessoa no mundo capaz de conseguir aquilo para ela, mas Cordélia vinha adiando. Primeiro, porque, durante o ano letivo, ambos estavam ocupados. Seu padrinho com suas aulas em Hogwarts e ela com seus projetos no Instituto Flammel. Depois, ela precisava de uma boa desculpa e, em todos aqueles meses, não havia arrumado uma. A sobrara a verdade, mas não sabia como Severus Snape reagiria a ela.

Como costumava fazer para esquecer, Cordélia leu até dormir e não sonhou mais.

De manhã, enquanto Guilherme Weasley aparecia no apartamento para buscar as coisas de Fleur e a própria francesa (“Olá, Cordélia! Vítor não está aqui? Que pena. Ah, você também vai para a Bulgária? Fleur queria que você passasse lá em casa”), Cordélia se ocupava em arrumar as suas coisas para uma visitinha surpresa. Colocou um de seus vestidos floridos vintage, que deixava seu colo à mostra, segurando sua varinha na mão, pegou sua bolsinha de contas, colocou o casaco verde-musgo de veludo e desaparatou.

Apareceu de repente entre um rio sujo entre barrancos cobertos de mato e lixo e a chaminé de uma antiga fábrica fechada, que se erguia agourenta para o céu. Sem se dar ao trabalho de franzir o nariz de nojo, Cordélia começou a subir o barranco a passos largos. Lá em cima, passou pelo gradil que separava o rio da rua estreita calçada de pedras, parando de frente para uma fileira de casas iguais em tijolos aparentes. Alternando entre trechos de sombra e luz, Cordélia seguiu por mais algumas ruas idênticas.

—Nebulus. –Sussurrou para a rua, com a varinha discretamente em mãos quando uma dupla de homens em roupas de operários passou por ela. Uma névoa ainda mais densa se espalhou pela rua, os fazendo segurar o casaco mais fortemente contra o corpo e ela passou sem ser vista.

A Rua da Fiação era aquela sobre a qual se erguia a enorme chaminé macabra. Seus passos ecoaram por todo o caminho até que chegasse na última casa. Ele não entenderia, pensou em pânico, por um segundo, mas bateu na porta mesmo assim. Havia chegado tão longe...

Um movimento do lado de dentro a preparou para dar de cara com seu padrinho quando a porta foi aberta apenas um pouco. Os olhos negros de besouro estavam desconfiados no rosto macilento e pálido, mas brilharam em reconhecimento quando ele a notou, abrindo um vão maior na porta para que eles se vissem por inteiro.

—Cordélia. –A voz dele não era surpresa, mas nunca era, então ela não se abalou. –Isso é inesperado. Entre.

Cordélia entrou diretamente para uma pequena sala de visitas, com paredes cobertas de livros encadernados em couro, um sofá puído, uma poltrona velha e uma mesa bamba agrupados num círculo de luz lançado por um candelabro no teto. De repente, ela não estava tão surpresa que, embora a afilhada tivesse seu endereço, Severus nunca a convidasse para sua casa.

—Aceita vinho dos elfos? Hidromel? Chá? –A voz dele era plana e sombria. Cordélia a achava estranhamente reconfortante.

Considerou a oferta por um segundo. Seria bom ter a boca molhada para aquela conversa e não faria mal um pouco de álcool que soltasse sua língua e desse leveza ao coração.

—Vou aceitar o vinho.

Ele assentiu com a cabeça e, com um gesto de varinha, fez uma porta oculta se mostrar por de trás de uma estante, então subiu pelas escadinhas. Cordélia pensou tê-lo ouvido falar com mais alguém lá em cima, mas poderia ser só impressão. A ideia de seu padrinho com uma mulher em casa a divertiu.

Sem delongas, ele voltou com duas taças cheias de um líquido vermelho como sangue e, quando fechou a estante por trás de si, foi com um pouco de violência, o suficiente para fazer os livros se balançarem em seus lugares, então fez um gesto para que a afilhada se acomodasse no sofá, o que ela fez.

—Então... –Ele começou. –Você não vai voltar para a casa de seus pais nas férias porque está chateada com Marilyn, o que é compreensível. O que a traz aqui? Pensei que sua irmã fosse passar um tempo com você. E seu pai mencionou uma viagem na última carta...

—Lucy foi embora há alguns dias. –Respondeu, dando um gole na bebida doce que descia sua garganta como veludo. –Vítor me convidou para a Bulgária, mas a chave de portal só sai em cinco dias.

—Krum? –Severus levantou a sobrancelha. –Entendo.

Como ela mesma não entendia bem o que estava acontecendo entre eles, Cordélia duvidou que seu padrinho entendesse alguma coisa. Não sabia como as coisas ficariam uma vez que tivesse Cedrico de volta, e estava cada vez mais perto disso.

De qualquer forma, era a sua vez de fazer perguntas agora.

—Você está fazendo isso, então? –Perguntou, quase casual. –Voltou a fazer trabalho de agente duplo?

O olhar que ele a lançou era de aviso. Ela sabia que ele havia sido um comensal, embora só tivesse visto sua marca em seu último ano em Hogwarts. Também soube que Dumbledore o mandara para os braços de Voldemort mais uma vez, mas não era um assunto que discutiam com frequência. Seu padrinho achava que, para sua segurança, era melhor que não soubesse de algumas coisas.

—Estou. –Respondeu, lentamente. –Você sabe disso.

Cordélia ignorou o último comentário.

—Então você tem contato com outros comensais?

—Claro. –O tom dele estava ficando exasperado. –Aliás, você devia me agradecer por isso.

—Devia? –Perguntou, desinteressada. –Por quê?

—Você não acha estranho os comensais a terem deixado em paz enquanto aquele Peter Bulstrode e Lana Burke se escondem para não serem alistados? Sabe quem o Lorde marcou há alguns dias? Lembra-se de Cassius Warrington?

A boca de Cordélia ficou seca e ela tomou um gole generoso do líquido vermelho e rico para molhar a garganta antes de responder, mas ele apenas pareceu amargo no fundo de sua língua. Ela jamais havia sido particularmente próxima de Cassius, mas estavam no mesmo grupo de amigos. Dividiram o mesmo salão comunal e comeram na mesma mesa por seis anos. Sentaram-se lado a lado em salas de aula, trocaram anotações. Ela havia torcido para ser ele o campeão escolhido pelo Cálice de Fogo. Agora, estava simplesmente surpresa que seu padrinho, que mantinha segredos como algumas pessoas mantinham cães ferozes para afastar invasores, estivesse a dizendo tudo aquilo.

—Eles não foram atrás de Mary ou Edmundo. –Apontou.

—Greengrass fugiu para a França, não foi? –O padrinho a ignorou quando Cordélia murmurou que ele havia apenas indo morar com Claire. –E Selwyn está morando com uma mestiça.

Cordélia por um segundo considerou que, se Cedrico não houvesse sido morto pelos Comensais, ela provavelmente não se sentiria tão horrorizada com a ideia. Não que quisesse participar de uma guerra, não que quisesse ser uma assassina. Não que, se Cedrico estivesse vivo, ele fosse aprovar. Se ele estivesse vivo, provavelmente teria achado seu lugar nas fileiras da Ordem da Fênix, outra posição no qual Cordélia não tinha interesse. Mas não acreditava em neutralidade e, se tivesse que escolher um lado, não seria o dos assassinos de Cedrico Diggory.

Considerou como seria fazer como Edmundo e deixar tudo para trás. Afinal, ele tinha seu pai, que estava dizendo não aos comensais, suas irmãs, ambas sonserinas, num meio onde a causa do Lorde das Trevas era comum, famosa, algo para almejar. Mas Cordélia tinha Lucy; tinha Mary, que não iria embora sem Susan, Fleur, que casaria com um conhecido traidor do sangue.

—Como você fez isso? –Questionou, agora interessada. –Os impediu de vir atrás de mim, eu digo.

—Digamos que foi uma troca de favores. –Ele a observava com os olhos ilegíveis. –Prometi proteger o filho dos Malfoy em Hogwarts se mantivessem a lista de pupilos do Lorde sem o nome de minha afilhada. –Ele a dispensou com um aceno de mão quando ela murmurou um agradecimento, sem nunca tirar os olhos dos dela. –Porém, Cordélia, devo avisar que eu apenas ganhei tempo para você. Vai chegar um momento em que precisará fazer uma escolha de lados.

—Não quero nenhum dos lados. –Disse. Não queria lutar, nem ser nobre e corajosa. Não queria matar, ou ter alguém a mandando fazer o serviço sujo.

—Querer não tem nada a ver com isso. –Ele sentenciou, e soou muito sábio quando o fez, e quando ela não respondeu, pareceu dar o assunto por encerrado. –Você não me parece bem. Quando foi a última vez que comeu algo?

Cordélia franziu a testa com a mudança de assunto. Também com o fato de que aquele comentário ia de encontro com tudo que havia ouvido nas últimas semanas. A maioria das pessoas parecia concordar que ela parecia melhor. Mas daí supôs que seu padrinho se lembrava dela como a garota saudável de bochechas coradas que namorara Cedrico em Hogwarts, não como o inferi enlutado que ela fora nos meses seguintes enquanto ele estava muito ocupado com seu trabalho de professor e agente duplo.

—Ontem, acredito. –Cordélia disse quando considerou a pergunta. Sem Vítor e Fleur em casa, vinha comendo ainda menos do que o normal, porque fazer comida ou sair para compra-la parecia um enorme gasto de energia desnecessário.

—Tem certeza? –Ele insistiu, se colocando na beira da cadeira para olhá-la mais de perto.

A afilhada se afastou da inspeção dele.

—Bem, não faria um voto perpétuo afirmando isso, mas acho que sim. –Ela fez um gesto de descaso com a mão. –Pare de me analisar.

Snape revirou os olhos, como se a considerasse um caso perdido.

Aquele era o momento de fazer o que viera fazer –um pedido que poderia ser tão facilmente negado, tanto por ser algo irresponsável a se fazer, quanto porque o estaria colocando em perigo. Não havia mais motivo para adiar, mas ela ainda assim ficou aliviada quando seu padrinho fez uma cara entendida e levantou uma mão para que ela se calasse, o que Cordélia fez olhando ao redor, confusa.

O padrinho tirou a varinha das vestes mais uma vez. Cordélia não fez o mesmo, mas deixou sua mão mais perto do bolso. Era rápida no gatilho e, no geral, não perdia duelos, apesar de nunca haver sido uma duelista.

—Eu disse para parar de ser bisbilhoteiro. –Snape falou em voz alta. Cordélia, à princípio, pensou que ele estava falando com ela, mas com um gesto de varinha ele voltou a abrir a porta escondida na estante, e, na escada, estava parado um homem baixo, de cabelos ralos e olhos chorosos.

A bruxa não o conhecia e não sabia porque o padrinho o tinha em casa, mas o nome que ele disse em seguida iluminou tudo:

—Rabicho!

Sem ter tomado a decisão consciente de pegar a varinha, Cordélia de repente a tinha em mãos, apontada para o bruxo. Rabicho ergueu olhos pequenos e assustados para ela e puxou sua própria varinha mais rápido do que ela teria esperado. De repente, Severus também tinha sua varinha apontando para ele. Os três bruxos na sala apontaram suas varinhas –duas para Rabicho, uma para Cordélia –e se olharam em silêncio. Os movimentos foram tão rápidos que Cordélia nem os notara individualmente, mas o resultado era claro.

O primeiro a falar foi Snape.

—Rabicho, não ouse apontar a varinha para a minha afilhada. –Ele usou sua voz mais perigosa, que fazia seus alunos tremerem e desejarem sumir, mas quase não teve feito naquela sala. –Cordélia, não...

Ela não o deu atenção.

—Você! –Disse baixo para o bruxo, o analisando. Aquilo, aquela criatura digna de pena, matara Cedrico Diggory, e agora nada a impedia de mata-lo. Ela nunca havia matado ninguém antes, e não achava que seria fácil, mas ele estava perto, perto demais e ela conhecia feitiços demais. Poderia decapitá-lo, arrancar seus olhos, fazer todas as suas veias e artérias explodirem. –Você matou Cedrico.

Rabicho não pareceu nem um pouco mais elucidado sobre o porquê de estar sendo atacado por uma completa desconhecida.

—Não! –Ele guinchou. Severus suspirou. –Eu não matei ninguém.

Seu padrinho, com dois passos rápidos na sala pequena, se colocou entre eles.

—Você matou. O garoto no cemitério quando trouxe de volta o Lorde das Trevas. –Explicou, rapidamente. A menção ao evento fez a mão de Cordélia tremer, mas a varinha estava firme. –Cordélia, abaixe a varinha.

Ela não abaixou.

—Você o mantém em sua casa! –Sua voz era cheia de nojo. –Você é tão ruim quanto minha mãe. Ela faz negócios com os Malfoy, você mantém o assassino de Cedrico debaixo de seu teto! O que há com vocês?!

—Eu juro a você que isso não é nada confortável para ele. –A voz de Severus era urgente. –Eu também o odeio. Ele não passa de um rato desprezível, mas é um rato desprezível com a proteção do Lorde das Trevas, Cordélia, e você não quer entrar no caminho dele.

Mas ela estava se sentindo ousada.

—Talvez eu queira. –Disse, incisiva. Seu padrinho apenas balançou a cabeça.

—Ele vai matá-la tão rápido quanto este aqui matou Diggory e não vai se lembrar de seu rosto ou nome. –A voz de seu padrinho não era cruel. A frase finalmente fez os olhos verdes de Cordélia saírem do assassino para fixarem-se no padrinho. Ele pareceu pensar que isso era uma boa coisa. –Eu prometo fazer da vida desse rato miserável. Abaixe a varinha.

Ele não precisava se preocupar. Outra ideia brilhava na mente de Cordélia. Ela não precisava mais pedir nada ao padrinho, porque a oportunidade se apresentara para ela como um pôr-do-sol negro. Não devia se preocupar com Peter Pettigrew. Em sua mão direita, brilhava o que parecia uma luva prateada, mas era a mão em si. Cordélia conhecia bem o Feitiço do Membro Fiel. Era um atestado de morte -Voldemort devia ter feito aquilo, esperando que o rato o fosse trair em algum momento, o que ele certamente iria. Então estaria morto. O próprio membro se viraria contra ele e não havia nada a ser feito para impedir a ação. Ela não precisava ser uma assassina.

—Saia da frente, Severus. –Pediu, a voz ponderada. Snape analisou bem seu rosto, antes de se movimentar.

—Não! –Guinchou Rabicho, para Severus, então se voltou para ela. –Eu não quis! O Lorde das Trevas, ele me obrigou!

Cordélia não tinha tempo para desculpas.

—Astrangulare! –Disse em voz alta, a varinha apontando direto para a garganta do bruxo.

Ele fez um movimento de varinha para se defender, mas foi muito tarde. Cordélia se desviou de seu feitiço que apenas a acertou de raspão no rosto. Quando o feitiço tirou o ar de seus pulmões e o impediu de repor, o bruxo de olhos lacrimosos deixou a varinha cair para pôr as mãos na garganta. Snape, que sabia que o feitiço não era mortal, se deixou cair no sofá com um suspiro, mas Cordélia ficou de pé, observando o pavor do outro bruxo enquanto ele ficava cada vez mais roxo, e seu esforço para puxar um ar que não passava de suas vias respiratórias.

Quando o bruxo caiu desmaiado, ela se aproximou das escadas e se abaixou ao seu lado. Podia sentir o olhar de seu padrinho em sua nuca, curioso sobre o que ela fazia, e fingiu tirar a pulsação do homem desacordado para fazer uma incisão em seu pulso, de onde tirou sangue direto para um frasco enfeitiçado que levava dentro das vestes.

—Satisfeita? –Seu padrinho a ofereceu de novo seu cálice de vinho dos elfos quando ela se voltou para ele.

—Sim. –Cordélia mentiu, engolindo o líquido rico com dificuldade.

Cordélia não sabia explicar como havia deixado a situação chegar até ali. Depois do fim de semana na Bulgária –onde eles haviam encontrado Hugh e Ivan também de férias –simplesmente parecia que continuar com aquilo era o ritmo natural das coisas.

Ela se sentia uma mentirosa, suja.

Mas não importava realmente. Fleur ainda estava na casa dos Weasley pelo verão, e Gargamel gostava quando Vítor dormia em sua casa e, naquele momento, não parecia um problema. No quarto, ela sentava-se na cadeira verde acolchoada junto à escrivaninha, fazendo uma pesquisa sobre as propriedades do asfódelo quando misturado com acônito. Em sua cama de dossel, Vítor estava sentado com as pernas esticadas, fazendo sua própria pesquisa.

Ela também gostava quando ele se esticava e a camisa de mangas subia, revelando entradas musculosas em sua calça, ou do modo como ele esticava a mão pesada e fazia carinho em seu gato, que se inclinava para a carícia, completamente entregue.

Mais ou menos como ela.

Isso não pode durar, lembrou a si mesma. O que Cedrico pensaria quando ela o trouxesse de volta?

Analisando o quarto, agora, ela via uma cópia de Quadribol Através dos Séculos escrita em Búlgaro em cima de sua mesa de cabeceira, uma capa pesada e masculina dobrada no pé na cama e um par de livros de poções que não eram seus na sua estante. Ela fechou os olhos, com um sentimento estranho aquecendo seu estômago e revirando suas entranhas –agradável e terrível.

Vitor por outro lado parecia absolutamente em paz, apesar do cachecol da Lufa-Lufa pendurado ao seu lado na cama e da miniatura de dragão Focinho Curto Sueco dormindo enroscado na cabeceira. Ele reconheceria o dragão, pois ele mesmo tinha uma miniatura de Meteoro Chinês, mas jamais havia comentado nada.

—Focê está encarrando. –Ele disse, passando uma página do livro que tinha em mãos e levantando os olhos escuros para ela.

Cordélia ensaiou um sorriso e voltou a atenção para o que estava fazendo, sem responder. Vítor fez o mesmo do outro lado do quarto e ela ficou aliviada por isso. Foram interrompidos novamente apenas mais de uma hora depois, quando um barulho de fogo indicou que havia alguém chegando pela lareira. Cordélia e Vítor trocaram um olhar e sacaram suas varinhas, sempre ao alcance das mãos, antes de se dirigiram à sala.

Os dois ergueram suas varinhas enquanto a grande lareira crepitava com fogo verde. Segundos depois, uma Mary Selwyn empoeirada e amarrotada foi cuspida, junto com muita fuligem, para o tapete da sala, que a elfa de seus pais havia limpado naquela manhã.

Nenhum dos dois baixou suas varinhas.

—Qual foi a primeira coisa que Mary Selwyn me disse quando nos conhecemos no Expresso de Hogwarts? –Cordélia perguntou, sem dar tempo para que a outra bruxa recuperasse a compostura.

Mary sorriu largamente.

—Eu entrei num vagão ocupado por você e Lana Burke e disse: “uau, aqui cheira à Sonserina”.

Cordélia abaixou a varinha e Vítor a imitou. Depois disso, a pocionista fez um rápido feitiço de limpeza que tirou a fuligem de cima da amiga e a parte grossa do carpete, mas ele ainda teria que ser limpo com mais cuidado por alguém mais especializado.

—Você não avisou que vinha. –Cordélia foi à cozinha, preparar um chá. –Aconteceu alguma coisa? Aceita chá?

—Oi, Vítor. –Mary acenou para o colega. –Ah, não. Eu estava na casa dos meus pais em Sussex e Susana ainda está no Profeta, então decidi passar aqui. Tem chá preto?

—Sim. –Cordélia abriu o armário atrás do saquinho certo. –Vítor? Chá?

O búlgaro trocou o peso de uma perna para a outra na cozinha pequena demais para seu tronco largo e balançou a cabeça.

—Na verrdad, já fou indo. –Ele alcançou a nova capa preta que havia encomendado no banquinho alto do balcão. –Vejo focê amanhã. Marry, até mais.

Com apenas mais um aceno, o búlgaro desaparatou, deixando as duas inglesas sozinhas. Mary ficou observando o lugar de onde ele tinha sumido com um olhar estranho, mas Cordélia se virou novamente para o balcão de madeira clara e mármore que ela e Fleur haviam instalado quando se mudaram e colocou a chaleira no fogo com um feitiço de conjuração de chamas.

—E Fleur? –Mary inqueriu. Quando eram mais novas, pensaram que um dia morariam juntas. Se a Mary do quinto ano em Hogwarts soubesse que Cordélia se mudaria com as “novas amigas francesas”, ela teria uma síncope. O sétimo ano havia mudado tudo entre elas, quando ambas conheceram pessoas com quem pretendiam dividir a vida. Exceto que Cedrico havia morrido e Susana continuava viva.

—Na casa de Guilherme Weasley. –Cordélia se virou na cozinha girando a varinha até que massa pronta de cookies se colocasse no forno antigo para acompanhar o chá. –Ele quer que ela conheça a família Weasley antes do casamento.

Mary bufou em desagrado. Era difícil dizer se por causa dos Weasley –não que ela desgostasse de Guilherme, especialmente, mas a família ruiva não tinha uma boa fama entre as antigas famílias sangue-puro como os Bloxam e os Selwyn –ou se era por outra coisa.

Mas ela mudou de assunto, apenas:

—Vítor tem passado muito tempo aqui? –Perguntou, num tom de quem não queria nada.

—Não você também. –A castanha reclamou. –Meus pais e Lucy já fazem disso uma grande coisa. Não quero nem ouvir falar no assunto.

—Não seja dramática. –A amiga fez pouco caso. –Não é grande coisa. Você é bonita, solteira. Ele é bonito, solteiro. Vocês gostam das mesmas coisas, passam muito tempo juntos...

—Susana não foi com você para a casa de seus pais? –Perguntou Cordélia, sabendo que o ataque é a melhor defesa.

Mary sorriu, amarga.

—Muito bem. Meus pais seguem agindo como se Susana fosse uma amiga com quem eu divido apartamento.

Cordélia teria respondido, mas o chiado da chaleira a fez deixar seu lugar na cadeira que tomara de frente para a amiga para colocar o chá em duas xícaras de porcelana com gestos seguros de sua varinha. Ela pousou uma das xícaras na frente de Mary, que a agarrou com as duas mãos como se para se aquecer, embora fosse verão.

Não que fosse um verão quente. Uma névoa se agarrava às vidraças do apartamento e Cordélia sabia que dementadores tinham sido vistos à solta no mundo trouxa à torto e à direito naqueles dias.

—Foi por isso que veio aqui? –Cordélia perguntou suavemente. –Quer falar sobre isso?

—Na verdade, eu vim pedir seus pais emprestados. Quer trocar?

Cordélia considerou o fato de que não via sua mãe há semanas desde a última visita desastrosa e do jeito insensível que ela tratava a morte de Cedrico.

—Pode levar minha mãe, se quiser.

A bruxa loura bebericou o chá olhando para a amiga.

—Você ainda está irritada com ela por causa da coisa com Cedrico?

Com um gesto de mão, Cordélia afastou o assunto.

—Isso é sobre você. –Apontou.

—Não. –Mary se adiantou, enquanto a amiga se virava mais uma vez, agora para tirar os cookies do forno. –É sobre você e Vítor Krum. Cordélia, não tem nada de errado em se apaixonar de novo.

Colocando os cookies quentes em cima da mesa, Cordélia se sentou de frente da amiga para que se encarassem. Considerou as palavras dela por um momento. Era isso que estava acontecendo? Ela estava se apaixonando por Vítor? Pensou em como a companhia dele era agradável, no quanto ela ficava ansiosa para vê-lo, em como ele a divertia e como os silêncios eram confortáveis e as conversas a faziam se sentir bem.

—Não. –Havia um bolo em sua garganta agora. Do mesmo modo que era fácil imaginar-se apaixonada por Vítor, porque ele era de fato apaixonante, era fácil imaginar perde-lo naquela guerra que vinha se desenrolando desde que Cedrico fora assassinado. Ela já tinha muito com o que se preocupar sem que ele fosse seu namorado. Sem que ela o amasse. Ela tinha espaço para amar e ficar enlutada por apenas um rapaz apaixonante por vez e a vaga já fora preenchida. –Não é assim. –Ela encarou a amiga. –Eu sei que vocês acham que faz muito tempo agora, mas não é o caso. Não faz. Eu ainda...

Sem ar, ela parou de falar. Mary pareceu entender, porque não insistiu –e ela era geralmente muito insistente.

Em silêncio, ela tomou um gole de chá, que a queimou por ainda estra quente. Mary a observava daquele jeito que só melhores amigas podiam fazer; vendo mais do que ela queria deixar transparecer.

No fundo, ela sempre soube que alguém descobriria. Estava até surpresa que demorara tanto tempo para isso.

O laboratório do Instituto Flammel era parecido com os outros laboratórios que ela já havia visto na vida; o de seu padrinho e o do seu pai, mas era maior. Grande o suficiente para que ela, Greta e Vítor ocupassem três bancadas diferentes, trabalhando cada um em seu projeto, sem que seus movimentos para os armários de madeira escura cheios de ingredientes ou para as pias onde lavavam os caldeirões e instrumentos não atrapalhassem o trabalho uns dos outros.

Sob a luz amarelada do laboratório, a porta se abriu com um estrondo. Tanto Cordélia quanto Vítor pularam assustados, a garota deixando cair no chão a colher de prata que usava para mexer a sua mistura. Greta foi a que pareceu mais alarmada, mas ela vinha mesmo andando assim desde que seu pai fugira de Azkaban no ano anterior, com seu tio e tia.

Seu padrinho estava em suas roupas habituais de pocionista; as vestes pretas abotoadas até o pescoço e a capa, mas seu cabelo parecia desordenado como se ele houvesse aparatado e não se olhado em um espelho depois e sua expressão era não raivosa, mas profundamente consternada.

Ela soube imediatamente que o padrinho e ex-professor sabia.

Cordélia nem olhou para Vítor. Abaixou com sua varinha a intensidade das chamas embaixo de seu caldeirão e saiu da sala. Seu padrinho esperou na porta, segurando-a aberta até que Cordélia passasse para o corredor, deixando a bater em seguida para segui-la para uma sala, onde poderiam conversar com privacidade.

A bruxa se acomodou numa das cadeiras acolchoadas de vermelho da sala de aula muito grande, mas então desistiu e ficou de pé, de frente para o homem que a havia ensinado boa parte do que sabia.

Abriu e fechou a boca, sem encontrar as palavras. Não importava. Ele levantou uma mão para indicar que falaria primeiro. Sua expressão era curiosa, Cordélia pensou. Quase triste.

—Não pense.... –Ele deu uma pausa para suspirar profundamente. –Que não entendo o que você está sentindo.

Cordélia não achava que ele entendesse e, pelo seu olhar, ele sabia disso.

—Eu vivi na primeira guerra, Cordélia. –Ele continuou. –Pessoas estão morrendo agora e pessoas morreram antes; eu perdi pessoas também! –Ele deu uma pausa. –Eu sempre achei que você era talentosa, e isso é algo bom, se não fosse o seu descuido com as regras. Nunca pareceu um problema. Você saia para aquelas festas proibidas, é claro que eu sabia, todos os professores sabiam, e saia escondida com seu namorado, mas isso não é mais Hogwarts. O que você pensa que vai fazer? Entrar na minha casa, pegar o sangue de um comensal da morte escondido e trazer seu namorado de volta? Diggory vai ter dezessete anos, Cordélia, você tem quase vinte. Você mudou; ele não vai ter mudado. Então o quê? Ele volta para a casa dos pais? Entra num Instituto para estudar? Ele foi dado como morto. Além disso, nada garante que ele simplesmente não vai ser assassinado uma segunda vez. Estamos em guerra de novo, pessoas estão morrendo de novo; você acha que ele vai ficar escondido esperando acabar?

Com os olhos cheios de lágrimas, Cordélia fungou. Não achava que já o tinha ouvido fazer um discurso tão longo; certamente não com ela. Ele havia posto em voz alta todos os motivos que a haviam impedido de falar com seus amigos sobre o que estava fazendo. Mais do que reprovável, ela sabia que era simplesmente estúpido. Mas se não fizesse, não sabia o que seria dela. Cedrico havia levado tudo com ele.

—Eu preciso. –Disse em voz alta quando pôde confiar em sua voz para não falar.

Seu padrinho suspirou.

—Me diga se precisar de ajuda.

Para Cedrico –
O verão sem você é frio como o inverno.
O inverno sem você é mais frio ainda.

Notas finais
Gostaram? Não gostaram? O que acham que vai acontecer agora? Gostaria de ouvir algumas opiniões. Há apenas mais um capítulo. Vejo vocês ainda essa semana. XOXO