17º Desafio Sherlolly
3 It's raining, it's pouring
Notas iniciais
–Sherlock? — Watson chamou com um tom cauteloso e inseguro. Ainda com a correspondência em mãos, fitava aquele caprichoso pedaço de papel sem ter a certeza de entender inteiramente seu significado. — É possível que… Ahn… — pigarreou — alguém consiga apagar a própria memória?
Sherlock Holmes perdurava em sua posição desleixada. Braços caídos pelas extremidades da poltrona, as pernas abertas em X, a cabeça pendendo no pescoço e os olhos cerrados.
–Quero dizer… Não completamente — John prosseguiu com relutância, sem saber quais palavras escolher para esclarecer a situação. — Mas só uma determinada lembrança de um lugar ou alguém. Isso pode ser feito? — perguntou sem obter resposta alguma. Guardou a carta no bolso do casaco e sentou-se em sua poltrona, próximo à Sherlock. — Você pode, por favor, parar de fingir que não está me escutando? — pela segunda vez, somente o silêncio se contrapôs aos protestos de John. — Sherlock!
Watson levantou-se e apanhou o jornal caído abaixo do braço de Sherlock Holmes, dobrou o noticiário impresso de modo a dar-lhe a forma de um cone e bateu repetidamente no homem que, supostamente, dormia.
–O que há de errado com você? É impossível terminar de escrever um livro nesse apartamento. — reclamou petulante.
–Escrever um livro? Você não estava fazendo nada senão ficar jogado como um inválido! — trovejou Watson.
–Estava escrevendo aqui, John — tamborilou o dedo indicador na testa — O capítulo 20 já estava quase pronto antes que você me obrigasse a perder a linha de raciocínio.
Watson fitou o detetive com uma expressão atônita, mas limitou-se a suspirar e deixar que aquele assunto morresse. Sherlock, que vestia um robe por cima dos pijamas, foi até a janela e mirou a rua com olhos vítreos.
–Lamentável. Nenhum homicídio, sequestro ou roubo. Pelo menos não algum interessante o suficiente. Sinceramente, o que aconteceu com os bons criminosos dessa cidade?
–Como eu estava dizendo… — persistiu John — é possível alguém apagar uma parte específica da memória?
–Depende da área afetava, por exemplo, se você bater uma certa região da cabeça pode prejudicar sua memória a longo prazo. Em outro ponto, afetaria a memória a curto prazo. Por quê? Por acaso você esqueceu como abotoar a camisa apropriadamente ou fechar o zíper, talvez? — falou apontando para os espaços desabotoados da roupa de Watson e, em seguida, para seu zíper aberto.
–Isso chegou para você — disse ignorando a afronta e tirando o envelope, que Sherlock apanhou com desinteresse, do bolso. — É uma brincadeira ou coisa do tipo?
Sherlock Holmes, embora tenha compreendido perfeitamente o significado das palavras desde o primeiro momento que pousou os olhos no papel, releu a carta repetidamente.
–Então? Isso pode ser feito? — Watson rompeu o silêncio frágil que se abatera na sala.
–Pelo o amor de deus, John. Deve ser por isso que a Sra. Hudson gosta tanto de você. Você parece uma velhinha bisbilhoteira! — resmungou, se esquivando da pergunta inicial.
John Watson não retrucou o insulto, limitou-se a franzir o semblante para o amigo mostrando que não desistiria do assunto. Sherlock permanecia desprovido de expressão e constatou ser melhor encerrar a história de uma única vez.
–Há um doutor, um charlatão, melhor dizendo, que afirma conseguir fazer esse tipo de coisa — concluiu austero. — É um americano, chegou em Londres há pouco tempo.
–Ok, vamos supor que ele realmente tenha encontrado um jeito de apagar a memória das pessoas… Não te incomoda que Molly tenha decidido excluir você de suas lembranças? Isso não te deixa nem ao menos intrigado? — perguntou sondando qualquer tipo de reação que Sherlock viesse a ter.
–Na verdade, não. Quer dizer, não vejo motivo aparente para que alguém queira causar danos cerebrais a si para apagar uma pessoa, mas… — fez um meneio com as mãos como se descartasse a teoria.
–Meu deus, Sherlock! Como você consegue ser tão estúpido? Sério, explica isso para mim, eu realmente quero ouvir a resposta. Como um gênio que consegue dizer o que eu comi no café da manhã somente por algumas migalhas na minha roupa não sabe que a terra gira em torno do sol? Ou pior, como você simplesmente não consegue perceber que Molly Hooper é provavelmente a única pessoa em potencial que está disposta a aturar toda a sua canalhice que você prefere chamar de excentricidade? Ou melhor, estava — berrou enfatizando a última palavra. — Porque, pelo visto, você conseguiu repelir até mesmo essa garota.
Watson só veio atentar para o fato de que estava gritando quando finalmente cessou o sermão. Sherlock Holmes permanecia em sua postura incólume e lhe lançou um olhar cerrado, em parte insolência e outra incredulidade. Mantinha aquela expressão superior de quem está cônscio de uma verdade que o resto do mundo nunca estaria apto para enxergar.
–Erro humano — murmurou quase para si mesmo.
Sem dizer mais uma palavra, caminhou até a porta e saiu do apartamento. John deteve-se por alguns minutos, esperando. Instantes depois, Sherlock irrompeu pela porta com uma expressão contrariada.
–Nem comece, John — advertiu enquanto entrava no quarto para trocar o pijama por algo que pudesse vestir em público.
–x-
Um homem usando sobretudo e quepe a ajudou tirar seus pertences do porta-malas do táxi. Molly Hooper nem ao menos notou quando o sujeito esbarrou propositalmente nela e recolheu a passagem que estava guardada no bolso de seu casaco. Agradeceu a gentileza e tropeçou até o balcão de check-in.
Atrapalhou-se, não pela primeira vez, com as malas, deixando algumas bagagens de mão caírem. As recolheu e continuou andando, com o corpo um pouco inclinado devido a todo o peso de sua vida que, concluiu consternada, cabia em uma única mala e algumas bolsas.
–Sua passagem, por favor — pediu uma voz melodiosa cuja dona se encontrava atrás de um vidro que a separava dos clientes. Molly lhe ofereceu um sorriso enquanto tateava o bolso de seu casaco a procura de seu cartão de embarque, porém não o encontrou de imediato. Começou a duvidar se não esquecera de apanhar o bilhete quando deixou o apartamento, mas lembrava-se perfeitamente de tê-lo feito. Olhou para a atendente que usava um coque sem nenhum fio fora do devido lugar e desculpou-se.
–Pode esperar só um momento, por favor? Devo ter colocado em outro... — começou a explicar, mas logo fora interrompida.
–Senhora, devo pedir que saia da fila e volte com seu bilhete em mãos, tudo bem? Pode sentar ali para procurar — instruiu, apontando para os bancos mais próximos ao balcão onde estavam.
Molly assentiu e pediu desculpas mais uma vez, afastando-se e cedendo lugar para os próximos na fila. Despejou todas as suas bagagens nos bancos indicados e começou a caçar sua passagem freneticamente.
–Droga, droga, droga! Tem que estar aqui, eu sei que está aqui — exclamou.
–Alguma coisa errada? — alguém ao seu lado indagou.
–Ah, não, não! Só estou me queixando em voz alta. Desculpe — respondeu sem nem ao menos virar para olhar quem quer que estivesse falando.
–Sem problema. Você perdeu algo?
–Sim, minha passagem. Acredita nisso? Dentre todas as coisas que podia perder, logo a única que eu realmente preciso para embarcar.
Molly ergueu brevemente a cabeça e entreviu o desconhecido com o canto dos olhos. Ele sorriu, amistoso. Não o reconhecera sem o quepe e, mesmo que houvesse visto algum traço familiar, só recordaria alguém que meramente lhe ajudara com a bagagem.
–Ah, não acredito! — disse, depois de um tempo, exasperada. — Desisto! Não está em lugar algum. — recostou-se no banco e suspirou.
–Talvez você realmente não devesse embarcar. Pode haver alguma bomba no voo — disse em um tom brincalhão e deu uma piscadela.
–Você não pode falar isso em um aeroporto! — advertiu sorrindo e olhou para ao redor para ver se alguém estava próximo o suficiente para escutar.
–Sabe quais são as probabilidades de haver uma bomba em um avião? Uma para o número de passageiros — informou.
–Isso me deixa muito mais tranquila, obrigada — ironizou Molly.
–E sabe qual a melhor forma de evitar estar em um voo com um homem-bomba? Levando sua própria bomba, assim, de acordo com as estatísticas, você estaria segura.
–Você precisa parar de falar coisas desse tipo em voz alta — ambos sorriram e o desconhecido ergueu a mão para ela.
–Sherlock Holmes — apresentou-se com uma voz de barítono extremamente encantadora.
–Molly Hooper — respondeu apertando a mão que lhe era oferecida.
–Então, Molly Hooper, você vai ficar aqui esperando sua passagem aparecer magicamente ou ainda há tempo de voltar em casa e ver se deixou por lá? — propôs.
–Meu deus! Por um momento tinha esquecido que tenho uma viagem para fazer daqui uma hora. Preciso correr — recolheu suas malas, desajeitada. -Tchau, Sherlock. Foi um prazer conhecê-lo.
–Não, eu lhe acompanho — afirmou concedendo o sorriso mais simpático que pôde. Apanhou a maior parte da bagagem de Molly e andaram juntos até o ponto de táxi.
–Olha, eu agradeço a ajuda, de verdade, mas realmente não precisa ir comigo — tentou se esquivar, educadamente, do sujeito. Não era do seu feitio não pensar em como aquilo não acabaria com sua cabeça em um freezer. Frequentemente lidava com cadáveres provenientes de assassinatos e a maioria cometera um erro em comum. Confiaram demais.
–Molly, eu não sou um psicopata, se é o que você está pensando. Sou um sociopata altamente funcional — Molly assentiu com um traço de hesitação, sem conseguir deduzir se aquela era a resposta correta — Estou brincando, é claro.
–Ah, sim, claro. — aquiesceu.
Entraram no táxi e Molly indicara o endereço para o motorista.
–Se não se importa que eu pergunte, você não tem um voo para embarcar ou coisa do tipo?
–Não, eu só fico no aeroporto esperando por presas fáceis — deu de ombros, como se aquilo fosse óbvio, contudo percebeu o retesamento de Molly e lhe concedeu outro sorriso — Estou brincando, ok? Tinha ido acompanhar um amigo, ele embarcou e eu já estava de partida, de qualquer forma.
Fez um aceno afirmativo com a cabeça quase imperceptível, contudo ainda não confiava na gentileza demasiada de estranhos, portanto pediu para o taxista estacionar o carro uma quadra antes de seu prédio, pagou a corrida e saiu do carro, surpreendendo-se ao ver que Sherlock a acompanhara.
–Você vai esperar? — questionou incerta.
–Claro, para onde mais eu iria?
–Tudo bem, então. Fique aqui, já volto.
Molly deu às costas e cambaleou na companhia de suas malas, que recusara deixar sob os cuidados de Sherlock Holmes, até a portaria de seu antigo prédio. Somente quando começou a avistar a tão familiar faixada, lembrou-se de já ter devolvido a chave para seu senhorio.
–Ótimo! — exclamou exasperada. Existem dias onde o próprio universo parece estar contra você, mas essa é uma sensação típica dos seres humanos. Todo esse egocentrismo que nos é particular, faz com que pensemos que o universo não tem coisa melhor para fazer a não ser importunar nossas vidas. Acreditamos nisso porque ansiamos por um motivo maior, uma justificativa para nossa presença insignificante no teatro mortal, não conseguimos encarar o fato intimidante de estarmos por conta própria.
Exausta demais para pensar logicamente, Molly tentou lembrar o motivo de toda sua ânsia em deixar a Inglaterra, porém naquele momento, quando tudo estava gradualmente dando errado, como em um sequência de pedras de dominó onde alguém desfere um peteleco na primeira pedra e todo o conjunto a segue na queda, não conseguia mais sentir ânimo para começar uma fase nova em sua vida. Verdade seja dita, o que se abatia sobre ela era uma tremenda preguiça de viver. Sentou-se na calçada do edifício e encarou a noite gélida.
–Molly? — uma voz soou atrás dela.
–Oi, Emily, tudo bem? — cumprimentou com um sorriso a garota que morava no apartamento ao lado do seu.
–Você não ia para Nova York hoje à noite?
–Ia, mas as coisas não saíram como eu planejei — explicou enquanto massageava as têmporas. — Acho que vou ficar por aqui mesmo e isso talvez seja uma má ideia já que estou sem um lugar para morar — riu sem humor.
–Ah, você consegue o apartamento de volta, não creio que alguém tenha feito uma oferta no exato instante que você saiu — Emily sentou-se ao lado de Molly. — Pode passar a noite comigo e amanhã você pede seus aposentos reais de volta — incentivou com um tom zombeteiro.
–É, vou fazer isso e também terei que rastejar para conseguir retomar meu emprego.
–Ah, chegou um pacote para você e diz ser de extrema urgência — informou — quer subir para dar uma olhada?
Molly só lembrou de ter abandonado Sherlock Holmes quando o avistou andando em passadas lentas em sua direção. Vê-lo se aproximar era algo quase onírico, de alguma forma, não parecia real.
–Desculpa por ter deixado você sozinho, Sherlock — apressou-se em dizer. Ele descartou o pedido de desculpas com um gesto de dispensa. — Vou desistir da minha viagem e ficar no Velho Mundo.
–Sábia decisão.
–Aliás, essa é Emily, minha vizinha e, Emily, esse é Sherlock.
Os dois se cumprimentaram e, apesar dos protestos de Molly, Emily convidou Sherlock para subir e tomar um chá. Talvez, ao final do dia, houvessem duas cabeças em um freezer. Uma luz lépida bruxuleava quando os três adentraram o apartamento de Emily, que se desculpou pela lâmpada quebrada e acendeu as outras luzes. Molly recebeu seu pacote e quando o abriu, encontrou um CD. Pediu licença para usar o notebook de Emily e ela lhe indicara o quarto.
–Pode entrar, ele está em cima da cama.
Molly ligou o aparelho e introduziu o CD. Uma voz feminina começou a falar.
“Feliz é o destino da inocência vestal. Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.”
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