17º Desafio Sherlolly
4 Utopia still unborn
Notas iniciais
“Tudo se esmaecia na névoa. O passado fora anulado, o ato da anulação fora esquecido, a mentira se tornara verdade (...) Se tanto o passado como o mundo externo existem apenas na mente, e se a própria mente é controlável — como fazer então?”
George Orwell
As vozes no disco prosseguiram, alheias a quem quer as estivessem ouvindo, a inexorável ladainha seguiu seu curso. Perguntas e respostas secas eram rebatidas entre dois estranhos. Molly, cônscia de que era uma das vozes, manteve a postura rígida, mais por choque do que autocontrole. Não recordava ter dito nada daquilo e, no entanto, lá estavam as palavras zunindo ao seu redor, formando inúmeros rodamoinhos em sua mente. Simplesmente não fazia nenhum sentido, mas seria possível protestar contra uma prova irrefutável como aquela?
“Meu nome é Molly Hooper e estou aqui para apagar Sherlock Holmes.”
“E a srta. entende as implicações disso, não?”
“Sim, sim, entendo com clareza o que isso quer dizer.”
“Então, srta. Hooper, comece me falando por que isto é o que deseja — a voz fez uma pausa antes de prosseguir, em um tom menos contido que o anterior — Não precisa ficar nervosa, querida, caso não esteja certa de sua decisão, reflita mais e volte, se sentir que realmente precisa fazer isso.”
“Não. Todo mundo tem que aprender uma hora.”
“O que isso quer dizer, querida?”
“Quer dizer que não se pode ter um futuro sempre moldado pelo passado. Queria que houvesse uma forma de enterrar as lembranças ruins e preservar as boas, porém isso só iria me fazer ficar, pois eu esqueceria o motivo principal da minha partida. E não posso ficar.”
“Tudo bem, então… Por que deseja apagar Sherlock Holmes?”
“Porque eu o amo. E, meu deus, isso é como uma estadia no inferno!”
“Todos nós já amamos alguém que não correspondeu tal sentimento, mas isso não é motivo para sair apagando as pessoas completamente da nossa vida.”
“É egoísmo incumbir à uma pessoa a tarefa de retribuir um sentimento na proporção do nosso, eu sei disso. É algo que simplesmente não podemos pedir para alguém, mas… É horrível ter que encarar a própria insuficiência todos os dias e lidar com ela como se não fosse algo importante. Logo de início, você não percebe o que está acontecendo, depois que se dá conta, repete consigo mesmo que aquilo vai passar, porém fica. Se aloja em uma parte dentro de nós que nos é inalcançável e, enquanto permanece, os anos passam. Chega um dia em que você percebe que todos a sua volta seguiram com suas respectivas vidas, mas você continua acorrentado a um sentimento autodestrutivo que parecia passageiro, mas que, àquela altura, se tornara um hóspede. Esses tipos de coisas mudam uma pessoa, a tornam amarga e cega para outras oportunidades. Então, gradativamente damos mais espaço a esse hóspede até que nos perdemos... Nos transformamos em desconhecidos. E essa nem aí a pior parte. Não, com certeza não é. O mais difícil de tudo isso é a espera, a expectativa do dia em que todo aquele entulho vá embora. Eu já estou esperando há muito, muito tempo, Dr. Howard. Todos os dias em que eu representei um papel patético tentando atrair a atenção do grande Sherlock Holmes ficam sempre ressoando na minha mente, apontando um dedo na minha cara, me acusando e isso… Isso faz com que eu tenha mais vergonha ainda da minha estupidez. Sério, não deveria existir um limite para nossa ignorância? Um saldo? Eu já devo ter esgotado o meu e de várias pessoas. Não, chega. Simplesmente, chega. E além de tudo isso, como eu, que durante toda a minha vida fui o plano de fuga das outras pessoas, poderia competir com Irene Adler? Ele a chama de “a mulher”, sabe? Talvez esse seja o título mais honroso concedido por Sherlock a alguém. Ouvi boatos de que ela está morta, mas não para ele. Ela nunca vai estar morta para ele. Aos seus olhos, ela eclipsa e domina todas as outras.* Eu nunca poderia lidar ou estar à altura do temperamento de Sherlock, não se passaria uma semana antes que ele ficasse entediado demais.”
A voz embargada soava exausta e ia cuspindo as palavras com uma mágoa contida, eventualmente entrecortada por uns ruídos estáticos. Molly não conseguia acreditar que tudo aquilo tinha sido dito por ela. Não, de forma alguma, ela não era patética a esse ponto!
“Tudo bem, você mostrou seu ponto… Me acompanhe, por favor…”
Nesse ponto, a gravação fora bruscamente interrompida e a voz feminina melodiosa do início prorrompeu novamente.
“Não precisa saber quem eu sou, isso não mudaria nada, mas gostaria que ouvisse o que tenho a dizer. Você decidiu apagar alguém das suas lembranças e, sei que na hora parecia a coisa certa a se fazer, mas não era. Alterar o passado nunca é sensato, porque uma vez que mexemos nisso, mudamos nossa essência. Muitas coisas são amargas e dolorosas demais para serem recordadas, mas isso não quer dizer que não devam. Sem o passado, não teríamos uma base para o futuro e cometeríamos sempre os mesmos erros e isso foi exatamente o que eu fiz. Errei, deletei da minha memória e me arrisquei no mesmo engano novamente. Por mais que sejam dolorosas, são suas recordações. E, acima de tudo, tumultuar nosso cérebro não modifica o que sentimos. Eventualmente, você acabaria sendo atraída novamente para quem desejou esquecer e se perderia mais uma vez. Talvez Nietzsche estivesse errado. Os esquecidos não me parecem mais tão abençoados como uma vez pensei que fossem.”**
Molly deixou os ombros despencarem, maculando a postura reta e aquiescendo. Não tinha certeza da plena compreensão do que acabara de ouvir, porém sentia-se exaurida. Em menos de dez minutos, um turbilhão de informações foram despejadas em cima de suas ilusões. Aquilo era fantasioso demais para estar presente na vida real e não na ficção, contudo… Ali estava.
–Com licença — a voz grave e levemente rouca a deixou em estado de alerta. Sherlock Holmes se postava no vão entre porta e parede, uma fenda de luz aproveitou o espaço para invadir o quarto lúgubre. — Está tudo bem?
Molly abriu a boca para falar diversas vezes, porém não encontrara palavras. Estava esquiva, tal qual um animal machucado que não sabe exatamente qual a mão que lhe ajudará ou qual trará seu ferimento final. Quase que involuntariamente, deu play na gravação, avançou alguns minutos e sua voz sufocada preencheu o silêncio.
“Todos os dias em que eu representei um papel patético tentando atrair a atenção do grande Sherlock Holmes ficam sempre ressoando na minha mente, apontando um dedo na minha cara, me acusando e isso… Isso faz com que eu tenha mais vergonha ainda da minha estupidez. Sério, não deveria existir um limite para nossa ignorância?”
Sherlock, com o cenho franzido e a expressão estupefata, encarou o notebook. Molly encerrara o áudio mais uma vez e levantou-se, assumindo um porte rígido.
–Você sabia disso, não sabia? — dentre todas as coisas que tinha para falar e que borbulhavam em seu interior, somente aquela pergunta conseguiu ser formulada. — E, por favor, não gaste sua energia mentindo. Eu recebi um formulário junto com o CD e nele está escrito que as pessoas que são apagadas recebem uma carta solicitando que não mencionem qualquer tipo de relacionamento com os pacientes. — Sherlock fez um breve aceno afirmativo com a cabeça. — Então, você decidiu que a melhor opção era me manipular? Fingir que não sabia quem eu era e… — ela suspirou, enojada e cansada — Você não tinha o direito o voltar.
–E você não tinha o direito de me apagar — vociferou. Ambos assustaram-se com tamanha oscilação no comportamento de Sherlock e Emily foi até o quarto verificar o que estava acontecendo. Molly pediu desculpas a ela e dirigiu-se até a porta do apartamento, em meio aos protestos da vizinha. Caminhou em passadas largas até o fim do corredor, porém na metade do caminho um puxão em seu braço a deteve.
–Você continua agindo como se fosse a vítima nessa história toda, Molly, mas já parou para pensar que não se toma uma decisão dessas sem afetar outras pessoas? Isso ao menos passou pela sua cabeça? — seu tom era severo, mas dessa vez ele controlara o volume da voz. Estava levemente inclinado devido as diferenças de estatura de ambos. Molly sustentou aquele olhar inquisidor, decidida a não deixar que ele exercesse o mesmo controle que um dia teve sobre ela.
–Larga o meu braço — disse enfaticamente, pronunciando cada palavra com lentidão.
Sherlock a libertou de seu aperto e ela lhe deu as costas, prosseguindo no mesmo caminho que ele bloqueara. Não fazia a mínima ideia de para onde estava indo, aliás, não tinha mais casa em Londres, entretanto precisava urgentemente sair dali.
–Ah, então é isso o que você faz? Se algo dá errado, você simplesmente vira as costas e sai andando. Se alguém te decepciona, você decide apagar aquela pessoa da sua vida permanentemente?
Ela estancou e respirou fundo, controlando sua fúria. Deu meia volta e encarou Sherlock com impetuosidade contida.
–Você não consegue aceitar que certas coisas não são fáceis?
Molly ergueu a mão e desferiu um tapa contra ele.
–Como se atreve a sugerir que eu fiz isso por medo? E como tem a coragem de sugerir que isso fez alguma diferença para você? Você não se importa, Sherlock! — berrou.
–Então porque diabos eu corri até o aeroporto para impedir que você entrasse naquele avião? — retrucou.
–Porque você não aceita que exista alguém no mundo fora do seu controle. Tudo precisa gravitar ao seu redor! Você não tinha o direito de se meter na minha vida mais uma vez.
–E quem te deu o direito de simplesmente ir embora da minha?
Molly não respondeu, limitando-se a fitar aqueles olhos em busca de algum tom de zombaria ou coisa do tipo.
–Você entendeu tudo errado, Molly. A única pessoa que você pensou não ter importância para mim era a única que mais me importava.
Sherlock estreitou mais ainda a distância entre eles e inclinou-se para beijar Molly, que ainda estava atordoada demais para processar todas aquelas informações. Separou-se dele abruptamente e o encarou, a boca entreaberta e o semblante franzido.
–Você vai se cansar. Eventualmente, vai ficar entediado e começar a se perguntar por que fez tudo isso. — sussurrou. — Talvez não agora, mas isso vai acontecer.
–Se essa for sua única objeção, é um argumento horrível.
Ele sorriu abertamente encostando sua testa na de Molly e ela o imitou, gargalhando.
O brilho eterno de uma mente sem lembranças, esquecendo o mundo, mas nem sempre sendo por ele esquecida.
“As vantagens imediatas de falsificar o passado eram óbvias, mas a razão profunda era um mistério.”
George Owell.
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