17º Desafio Sherlolly
2 On Melancholy Hill
Notas iniciais
–Não acorde agora, Molly. Não antes de salvar um pedaço de mim. Por favor, não acorde.
O timbre rouco parecia afastar-se gradativamente, tornando-se cada vez mais distante até ser reduzido a um sussurro quase inaudível. Um frio desespero começou a tomar o lugar da certeza que Molly tivera antes ao decidir apagar Sherlock.
As pessoas estão em constante mudança. O que antes lhes era querido, hoje não é mais e é exatamente aí que mora o perigo em todas as decisões que tomamos. Estufamos o peito e bradamos que estamos certos, é algo imutável, sabemos o que queremos, contudo, ao fecharmos uma porta, somos obrigados a dizer adeus a diversos universos paralelos e eles retribuem o favor negando todas as suas possibilidades e tornando-se inacessíveis. Fora necessário muito tempo e coragem para que Molly finalmente conseguisse atravessar a rua em frente à clínica do Dr. Howard Mierzwiak e, enquanto ouvia o som ritmado de seus passos, acreditou que estava certa. Aquilo era algo que precisava fazer, contudo, bastou ouvir a voz de Sherlock para não estar mais tão segura.
Ela optara por fechar uma porta e agora a mesma se manteria trancada, tampouco importava os apelos e arrependimentos de Molly.
–Sherlock? — a voz soou fraca e não parecia pertencer à ela. — Sherlock?
Girou os calcanhares e olhou ao redor, não estava mais em Baker Street e, acima de tudo, Sherlock havia sumido.
–Não, não, não…
Começou a correr sentindo a areia penetrando entre seus dedos dos pés. Estava frio e Molly viu-se vestindo uma quantidade inapropriada de casacos para aquele momento. As ondas quebravam à sua direita e algumas casas na praia, distantes umas das outras, podiam ser vistas à sua esquerda. O barulho incessante das águas revoltosas preencheu seus ouvidos enquanto ela tentava lembrar-se de algo.
–Molly, querida? Não está com fome? Talvez queira um chá? Olhe só para o céu, dias assim quase imploram por chá, você não acha? — sua mãe perguntou enquanto virava o rosto para o dia nublado. O sol não fizera questão de aparecer, quase como se negasse sua luz à terra. Era um típico fim de tarde londrino. Taciturno, pesado e escuro. Porém não estava em Londres, como veio a constatar depois de alguns instantes.
–Vamos, querida. Você não vai entrar?
Molly começou a caminhar na direção da casa quase que por instinto e espantou-se ao ver uma garotinha correr, com os cabelos sendo chicoteados pelo vento, e agarrar a cintura de sua mãe. Estancou imediatamente e abriu a boca para dizer algo, porém não soube exatamente o que estava acontecendo naquele momento. Subitamente notou que sua mãe parecia mais jovem e aquela criança lembrava muito alguém que vira somente em fotos e vídeos antigos. Ela mesma.
As duas entraram, deixando uma Molly Hooper mais velha e extremamente confusa para trás. Estava prestes à seguir ambas até a casa quando uma lembrança lhe veio à mente com a intensidade de um choque. Precisava salvar alguém, mas não sabia dizer quem.
Toda aquela urgência lhe fez começar a correr novamente, seus pulmões ardiam e imploravam por ar, entretanto ela não parou. Alguém estava em perigo. Alguém precisava da sua ajuda. Mas quem? Quem?
–Molly Hooper? Molly, você pode me ouvir? Ela ainda está apagada, temos que ir embora logo.
Não parou para pensar de onde vinha aquela voz que invocava seu nome, somente continuou correndo. Avistou uma silhueta à distância e cogitou pedir ajuda.
–Senhor! Senhor, com licença — berrou enquanto alcançava o homem. Tocou seu ombro para fazê-lo olhar em sua direção e Molly não pôde reprimir um grito de surpresa e repulsa quando olhou para aquele rosto.
Não havia olhos, boca ou qualquer coisa, era somente um formato, um contorno sem nenhuma feição. A única coisa que o distinguia era um chapéu peculiar que, por algum motivo, não lhe era estranho. No momento em que o desconhecido começou a se aproximar, Molly despertou bruscamente.
Os assistentes do Dr. Mierzwiak já haviam deixado seu apartamento e tudo pareceria normal se não fosse pela estranha sensação de perda que tomava conta de Molly.
Ela jamais se lembraria de ter amado Sherlock ou ter sido desprezada por ele, da mesma forma que nunca recordaria ter adentrado o consultório de um médico que alegava ser capaz de destruir plenamente memórias dolorosas.
–Foi só um pesadelo — confortou-se — Só um pesadelo.
–x-
–Sherlock, você poderia parar com esse barulho? São 7h da manhã e eu não preciso ser acordada com você trucidando a minha parede! Só queria saber que mal a pobre coitada lhe fez…
–Sra. Hudson, faça um favor ao mundo, economize sua garganta enquanto me prepara um chá — retrucou sem nem ao menos olhar na direção da senhora que transitava pela cozinha. Puxou o gatilho mais algumas vezes, fazendo com que a mulher se encolhesse.
–Sherlock! Qual é o seu problema? — vociferou.
–Está interessada em algum especificamente?
–Esqueça — deu de ombros — sinto tanta pena da sua mãe… A possibilidade de ter dois filhos como os que ela teve é a mesma de ser atingida por um raio duas vezes. À propósito, é seguro abrir a geladeira?
–Estou muito ocupado para ridicularizar suas estatísticas absurdas. E sim, claro que é seguro abrir a geladeira, porque não seria? — perguntou enquanto sentava na poltrona para ler o jornal — Nada. Nada. Nada. Chato. Previsível — reclamava conforme passava as páginas.
–Só quero saber se não vou encontrar uma cabeça no compartimento de queijo ou amostras de sangue no lugar dos ovos — insistiu Sra. Hudson.
–Pelo o amor de deus, mulher! Seu maxilar não dói? Faça silêncio e traga meu chá.
–Não sou sua empregada! — repreendeu.
–No tempo que levou para dizer isso já poderia estar colocando açúcar na minha xícara.
Sherlock deixou-se afundar na poltrona, abrindo braços e pernas, como se tivesse simplesmente sido jogado ali.
–Entediado. Entediado. Entediado — queixou-se — Entediado, entendiado, entendiado — arrastava a palavra fazendo-a soar como um mantra.
–Ah, Sherly… — a mulher começou a falar, dando ao apelido um tom zombeteiro.
–Não ouse me chamar assim! Eu conheço várias formas de fazer sua morte parecer um suicídio — interrompeu.
–Onde está o John?
–Foi comprar meu café da manhã — Sherlock ainda estava esparramado na poltrona com os olhos apertados — A senhora me cansa, atirei na parede para lhe acordar por motivo nenhum, pelo visto. Se não for fazer um chá, faça o favor de se retirar.
–Você destruiu minha parede só para me acordar?
–A senhora é insuportável. Oh, estamos brincando de constatar o óbvio, não estamos?
Sra. Hudson aprendera a ignorar os insultos de Sherlock Holmes há muito tempo, somente abafava um risinho e suspirava, tentando manter a sanidade. Já estava se preparando para voltar ao seu apartamento quando recordou algo.
–Ah, Sherlock, chegou algo no correio para você.
–Entediante — repetiu o mantra.
–Vou deixar na sua mesa, de qualquer forma, talvez, quando você estiver com vontade de se comportar como um ser humano normal, queira ler.
–Tchau, Sra. Hudson — disse de maneira enfadonha, expulsando a mulher. — E só volte se trouxer outra coisa que não seja sua mera e dispensável presença.
–Olá, Sra. Hudson — disse John Watson assim que chegara.
–Ele é todo seu, John. Se ele sumir misteriosamente, prometo que criarei um álibi para você — disse enquanto saía.
–Ah, por favor, John não conseguiria me matar nem se eu quisesse morrer — resmungou Sherlock.
John deixou as compras em cima da mesa e, sem notar para quem estava endereçada, foi logo abrindo a correspondência.
“Caro Sr. Holmes,
Molly Hooper decidiu apagá-lo permanentemente de suas lembranças. Por favor, não fale com ela sobre esse relacionamento novamente.”
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