13º Instituto Remanescência
25 Capítulo 25 - Abacaxis
— Vocês sabem que não fomos os únicos a ouvir isso, não é? – Cláudio alerta os outros dois. – Precisamos ir com cautela. Outras pessoas também devem ter ficado curiosas. E não só elas, Cranks também.
— Você tem razão... mas na verdade isso pode ser útil! – Luiz fala como se uma ideia magnífica tivesse vindo em sua cabeça.
— Como assim, Luiz! Explica logo, menino, que a gente não tem tempo pra conversa! – Juliana fala apressada ao garoto.
— Se os Cranks estiverem indo até o lugar de onde veio o barulho, teremos o caminho livre para ir ao Transportal do Bloco A! – o garoto começa a explanar o plano que tem em mente.
— Mas a energia da escola foi desligada, o Transportal não deve estar funcionando. – Cláudio procura raciocinar, para evitar atitudes imprudentes e sem resultados. Ele estava cansado disso e sentia que tudo o que foi feito até ali se tratava exatamente desse tipo de atitude.
— A gente pode tentar alguma coisa quando chegar lá. Pode dar certo! – Luiz insiste.
— Parece uma atitude desesperada, Luiz! Precisamos ver o que aconteceu e voltar aqui para esperar o pessoal. – Cláudio defende seu ponto de vista de maneira paciente.
— Eu vou lá de qualquer jeito. Não vou perder a oportunidade. – não havia tempo e Luiz não queria desperdiçar a chance de fazer o que sua mente sugeria. – Nos encontramos aqui no tempo combinado.
Luiz corre de volta pelo caminho de onde vieram e sobe as escadas que levam ao primeiro andar do Bloco A. Cláudio observa o garoto e balança a cabeça em negativa, enquanto Juliana olha de um para o outro sem reação.
Juliana e Cláudio seguem com cautela pelo estacionamento, procurando sempre estarem próximos aos arbustos perto das paredes do Bloco A para ficarem mais escondidos. Chegando próximo à quina do prédio, eles param e colocam a cabeça para observar a movimentação. Estava escuro, mas uma luz amarelada iluminava um pouco do ambiente à frente. Eles veem parte do estacionamento e a rua que leva a ele, bem como a passarela que leva do primeiro andar do Bloco A ao primeiro andar do Bloco F. A cancela embaixo da passarela estava levantada, como um sinal de que a passagem estava livre para um bando de Cranks que saiam desenfreados pelo corredor do Bloco A.
A reação de Cláudio e Juliana foi recolher o corpo e se esconder, deixando de olhar a cena. Fizeram isso por um breve segundo devido ao susto e logo retomaram a observação com discrição. Juliana segurando a furadeira instintivamente com mais força. Lá iam eles, aos tropeços, indo pelo estacionamento que agora estava muito mais iluminado. O fogo, que Cláudio e Juliana julgavam ser a fonte da luz, deveria estar mais forte. Eles se apressaram e seguiram pelo caminho que os Cranks tomaram.
Desceram os poucos degraus que levavam à rua, que ficava em um plano um pouco mais baixo, e a atravessaram, indo até as paredes do Bloco F. Com cuidado e pressa ao mesmo tempo, os dois foram como dois espiões até a quina do prédio novamente. Colocaram a cabeça para fora para observar o local e viram parte do fogo violento. A vista não era completa, pois o ônibus que eles iam pegar para fugir ainda estava estacionado no mesmo local. A observação do fogo foi rápida. Eles se surpreenderam com a poder das chamas, mas por alguns três segundos. Depois disso, uma explosão violenta os assustou.
A parede no qual estavam encostados tremeu um pouco, assim como os próprios corpos de Cláudio e Juliana ao se assustarem. O barulho os deixou atordoados por uma fração de segundos. Depois de reagirem involuntariamente da mesma forma como fizeram quando o grupo de Cranks saiu do Bloco A, eles respiraram fundo e voltaram a observar o local. Havia agora alguns objetos em chamas pelo chão mais à frente. Era também possível ouvir alguns gritos desesperados e sem forças.
Juliana faz um sinal para Cláudio e eles começam a correr em direção ao local da explosão, sempre muito alertas, observando tudo ao redor. Eles passam por perto de uma das escadas do Bloco F e se aproximam do ônibus, lembrando-se dos acontecimentos conturbados ocorridos naquele lugar. O professor batendo em Débora, a vingança de Eliza, a ida à sala onde estavam Andreia e Adrielly e o caos no momento em que que esbarraram nos Cranks, dissipando o grupo. Acontecimentos recentes, mas que pareciam distantes temporalmente. Pensavam em como estavam os outros. Não sabiam de nada que havia acontecido com eles depois que se separaram. Será que o acidente de carro envolvia algum deles? Tudo se passava na cabeça dos dois.
Eles andam devagar, encostados no ônibus, em direção aos muros da lateral do Instituto. Observam atentos o ambiente. Veem dois veículos em chamas e alguns abacaxis pelo chão. Os pequenos fogos pelo chão estão mais próximos, provavelmente destroços sujos de combustível que foram atingidos por alguma faísca. Eles demoram a processar a informação de que há abacaxis espalhados pelo chão. Custam a acreditar até lembrarem que há um professor fazendeiro na escola. Ele era conhecido principalmente por ir com seu Gurgel branco para o Instituto. Muitos achavam engraçado o fato não só por se tratar de um carro extremamente velho, mas também por estar sempre cheio com algo relacionado à sua fazenda. Dessa vez, eram os abacaxis.
Cláudio e Juliana passaram a observar a cena com muita atenção, procurando tanto alguém que pudesse ter se ferido quanto os Cranks que foram até o local na sua frente. Aos poucos, atentando aos detalhes, os dois notaram que alguns abacaxis eram, na verdade, pedaços de carne. Não podiam identificar um braço ou uma mão, mas podiam ver que era próximo disso. Um corpo estava escorado no murinho de pedras que separava a rua do plano elevado do Bloco F. Estava sentado. Sua perna dobrada de maneira anatomicamente impossível. Sua cabeça destroçada no muro. Parecia um musgo avermelhado que brotou entre as pedras. Cláudio e Juliana olharam chocados para o corpo úmido, cheio de sangue que cintilava à luz amarela, e logo ficaram atentos ao seu redor novamente, após concluírem que se tratava de alguém do setor administrativo devido às vestes.
Havia um corpo rastejando mais à frente e era notavelmente um dos donos dos gemidos de dor que assolavam o ambiente. Parte de suas roupas pegava fogo. Os dois se aproximaram para observá-lo. Talvez ajuda-lo, talvez mata-lo de vez, caso fosse um Crank. Os olhos de fúria e as veias escuras e saltadas na face provavam que se tratava de um Crank mesmo. Juliana colocou a furadeira em sua cabeça, fechou os olhos e ligou o equipamento, perfurando o crânio da mulher.
A garota não teve coragem de repetir a ação com outros três corpos no mesmo estado. Apenas confirmou se eram Cranks e os deixou de lado. Cláudio avista alguns corpos mais à frente e chama a atenção de Juliana quando eles começam a se levantar. Eles se aproximam lentamente. Poderiam ser alguns de seus amigos, poderiam ser outras pessoas sobreviventes, poderiam ser Cranks. Eles caminham na direção deles com cautela. Passam por um corpo ensanguentado de alguma garota. Observam outro corpo de um homem estirado no chão e sobre uma poça de sangue.
— Vocês estão bem? – Cláudio grita para as pessoas. Confiante de si, mas tomado por desconfiança.
Juliana dá uma cotovelada leve em Cláudio, como um pedido de silêncio. Ela não queria chamar a atenção do grupo, pois só imaginava que fossem Cranks.
— Cláudio?! – uma das pessoas grita. – Sou eu! Thaís!
Cláudio e Juliana se entreolham e sorriem antes de correrem até o grupo. Eles se aproximam e dão suporte ajudando-os a se levantar.
— Que bom que são vocês! – Juliana fala com sua voz que é incapaz de disfarçar alegria.
— Vocês estão bem? – Cláudio pergunta aos quatro, mas principalmente a Thaís e a Rayanne.
— Que pergunta idiota, Cláudio! Claro que não estamos bem! – Thaís responde com sua sinceridade de sempre.
Rayanne começa a chorar e tentar ir ao corpo de Luana, chamando baixinho por seu nome. Cláudio corre até ela e a abraça, impedindo-a de prosseguir. Também estava chocado, pois acabara de perceber que o corpo que vira há pouco tempo e associado a alguma jovem aleatória se tratava do corpo de sua colega de classe.
Linda também chora, mas recebe apoio de Jacob, que coloca a mão em seu ombro enquanto olha para o chão, desolado. O momento é dramático, mesmo com Jacob estando sem suas calças.
O grupo se junta e Thaís apresenta rapidamente Linda e Jacob a Cláudio e Juliana e vice-versa. Eles decidem se esconder na sala onde estavam quando o grupo maior encontrou Andreia e Adrielly, de modo a evitar que ficassem vulneráveis em um local muito aberto. Eles seguem discretos e apressados até a sala antes que mais Cranks aparecessem no local da explosão.
Por sorte, não se depararam com nenhuma surpresa desagradável. Na sala, explicaram rapidamente uns para os outros o que aconteceu com cada grupo. Cláudio e Juliana, que achavam que Thaís havia morrido, passam a entender como ela se salvou. Alguns deles também falaram sobre como estão preocupados com os outros que estão espalhados pelo Instituto. E a conversa seguiu em um ritmo rápido até que, minutos depois, Cláudio se lembrou que precisava voltar ao ponto de encontro e o grupo se começou a se organizar para ir até o local encontrar Andreia, Adrielly e Vitor.
Estavam prestes a sair da sala quando as luzes e os ares-condicionados da sala começam a funcionar.
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