13º Instituto Remanescência
26 Capítulo 26 - Caimanores
A garota ficou observando atentamente toda a cena. Seus olhos esbugalhados acompanhavam a mulher terminando de digitar algumas coisas no painel e o homem andando vagarosamente pelo local. Ele não parecia ter objetivo algum além de esperar que a mulher terminasse o que estava fazendo.
— Terminado, Eduardo. Podemos estartar quando chegarmos ao laboratório.
— Certo, Dulce. Vou abrir passagem então. — responde o cientista.
Ele anda até duas portas de metal no outro extremo da sala e aperta um botão ao seu lado e então as portas se arrastam para a lateral, abrindo uma passagem que dá acesso a uma rampa ascendente. Contudo, a porta da esquerda emperra e não abre completamente. O homem resmunga e a empurra com as mãos para abri-la. Funciona. Ele faz uma cara de nojo e anda rapidamente em direção a mulher. No caminho, vai tirando suas luvas azuis e, ao passar pelo monte de lixo, as joga fora com desdém.
As luvas batem no rosto de Beatriz, que solta um suspiro audível e logo se arrepende disso. O homem, que não havia olhado para o lixo ao jogar as luvas, vira o rosto abruptamente em direção à garota, com uma feição contraditoriamente calma e assustada. A mulher observa com olhos atentos a alguns passos de distância.
— Você está infectada? — pergunta o homem com rispidez.
— Eu… eu não sei… — responde a garota.
— O que você está fazendo aqui? — pergunta o homem, claramente estressado.
— Eduardo, não temos tempo! — a mulher o apressa. — Corremos o risco de ficarmos expostos.
— Mas se ela não estiver infectada… — o homem responde pensativo.
— Nós iremos descobrir agora mesmo! A programação deles vai nos dar a resposta. Apenas venha! — A mulher insiste sem paciência.
O cientista lança um último olhar para a garota. Seus olhos escondiam curiosidade e preocupação atrás de uma aparência de inabalável tranquilidade. Dulce e Eduardo entram pela porta secreta de onde haviam saído e Bia vê a passagem se fechando ao passo que outra porta mais para dentro se abria. Segundos depois, havia só uma parede lisa e sem vestígios de entrada para lugar algum.
A garota fica nervosa e começa a sair da pilha de lixo para tentar fazer algo. Ela olha para a passagem que o cientista acabara de abrir, mas tem medo por não saber a que lugar ela levará. Quando ela pondera que pode ser para a área externa do prédio, por onde andam alguns Cranks errantes, o som de passos podem ser escutados. Alguém vem descendo a rampa em direção ao cômodo. Bia, então, decide se esconder novamente atrás dos sacos de lixo, mas quando dá o primeiro passo nessa direção, seu pé pisa em um copo plástico que quebra, fazendo um barulho alto que ecoa por toda sala. O barulho de passos para por um instante, mas logo começa novamente, porém ainda mais rápido. Como se alguém viesse correndo.
A garota entra em pânico e vai em direção ao seu esconderijo o mais rápido que pode. Para deixá-la ainda mais nervosa, barulhos surgem do outro lado do cômodo. Novamente como portas secretas se abrindo, mas dessa vez unidas a algumas batidas violentas, tilintares metálicos e sons guturais. A pele já pálida de Beatriz tem então um tom esverdeado e seu suor reflete o pouco de luz que entra no local.
O som era realmente de portas se abrindo. Bia observa que outra passagem secreta começava a se abrir, mas a garota tinha quase certeza de que esta nova passagem não estava no mesmo lugar onde a primeira havia se aberto. Essa era um pouco mais para a esquerda e ao invés de sair uma luz branca e forte, era uma luz verde quase sem vida que saía pelas frestas. No segundo seguinte, a luz ilumina um corpo que acaba de chegar a porta de metal que fora aberta pelo cientista. A pessoa que descia a rampa correndo para bem na entrada e parece tentar entender tudo que se passa no local.
Bia não sabe para onde olhar. Para a porta que se abre e revela sons cada vez mais fortes e descuidados ou para a porta já aberta onde há um corpo estático. É tudo muito rápido. O corpo pareceu ter ponderado seus movimentos apenas por um segundo. A luz, que ficava mais forte à medida que a passagem se abria, agora iluminava o corpo. O tom verde da iluminação tornava ainda mais assustadora a imagem que Bia agora conseguia definir. Um Crank. Seus olhos furiosos e penetrantes fixavam os de Bia de um jeito ainda mais forte enquanto refletiam o verde esmeralda que saía da passagem que agora estava completamente aberta, pois não emitia mais nenhum barulho, exceto pelos tilintares metálicos e sons guturais que ficavam cada vez mais próximos.
Beatriz ainda tinha dúvida sobre qual dos lados olhar, então começou a olhar de um para o outro alternadamente. Até que o Crank começou a correr em sua direção. Beatriz nunca havia sentido tanto medo na vida. A garota fica paralizada. Seu cérebro parece ter desligado. Seus ouvidos captam apenas um som etéreo e difuso, como se tivesse ocorrido uma forte explosão ao lado da garota.
Quando o Crank está a um metro de distância da garota, algo grande e forte pula sobre ele e começa a dissolvê-lo e triturá-lo. Bia pisca os olhos e consegue focar uma figura que parece um grande jacaré composto por metal e por uma gosma verde pântano. O torso é composto pela parte gosmenta por onde saem algumas lâminas metálicas nas costas, enquanto as patas e a cauda são metálicas e cheias de partes afiadas e dobras que parecem compartimentos que guardam ainda mais armas. Poderia ser qualquer monstro, mas a cabeça metálica é claramente uma referência a um jacaré. Achatada, longa e cheia de dentes afiados e, quando aberta, revela uma língua do mesmo material gosmento que o corpo e que tem algumas agulhas flutuando em seu interior.
O monstro começa a se debater sobre o Crank, triturando-o e dissolvendo-o como se fosse realmente uma máquina de trituração. Bia fica ainda mais assustada, pensando no que a figura fará com ela quando terminar de dissolver o Crank a sua frente. Mas não há tempo de planejar nada, pois logo ela sente algo gosmento passando em seu pescoço. A textura suave e fria ajuda a manter a garota petrificada. Ela sente a gosma agora também eu sua mão e, de repente, algo fura o seu dedo. No segundo seguinte, toda a gosma se desprende dela e ela vê três jacarés gosmentos saindo pela porta de metal, arranhando o chão com suas lâminas.
No seu dedo indicador, uma gota de sangue. No chão à sua frente, ossos humanos como vestígios de um Crank que não existe mais.
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