13º Instituto Remanescência

23 Capítulo 23 - Tubulações


Eles precisavam pensar rápido, pois os Cranks já deviam estar subindo o primeiro feixe de escadas.

— A gente já era! – gritou Bia em histeria.

Aline e Joana olhavam o corpo suicida pela janela. Vico, também da janela, revezava entre olhar para Taciana, que andava em círculos com uma mão na cintura e outra enrolando os cachos do cabelo, e Bia, que estava sentada e tremendo.

— Não tem mais como sair desse prédio! Só se for pulando pela janela e morrendo de vez! – gritava Bia.

—Alguém cala essa menina? Que coisa chata! – disse Aline, voltando-se para Bia enquanto demonstrava incômodo com seu olhar. A garota estava nervosa também, mas muito séria, a histeria de Bia apenas a fazia ficar mais nervosa e isso não ajudava em nada.

— Calma, a gente vai dar um jeito. – Joana tentou consolar o grupo.

De repente, Taciana corre até a porta e confirma se o balcão está firme. Ela volta correndo até os garotos e fala baixo:

— Não vamos sair. Vamos ficar aqui até entender o que está acontecendo.

— Parece ser a melhor solução mesmo. – Vico concorda.

— Eu creio que eles querem chegar até onde estava a pessoa no momento em que ela caiu do prédio, ou seja, acima de nós. Vamos ouvir a movimentação, quando tivermos certeza que estão acima deste andar, nós descemos com cautela. – completa Taciana.

Todos no local concordam, pois parecia realmente a melhor coisa a se fazer no momento. Eles, mesmo dentro da sala, procuram ficar escondidos, de modo a evitar que alguém os visse pela abertura da porta.

Os garotos esperam quietos. Cada segundo uma alfinetada. E se os Cranks descobrissem que eles estavam ali naquela sala? Vico prendia a respiração. Seus olhos se moviam de um lado a outro sem focar em nada, mas seus ouvidos estavam atentos a qualquer ruído. Cada um dos seus ferimentos doía, principalmente o mais recente em sua perna, causado pelo caco de vidro que o Crank usou para rasgar sua pele por puro prazer.

Bia respirava ofegante e passava a mão na testa com suavidade para diminuir a dor no local. Estava exausta física e mentalmente devido à situação. Joana estava preocupada, não apenas com ela própria, mas principalmente com Bia, já que sabia de suas limitações. Aline tinha uma respiração inconstante, prendia o ar por um tempo e o soltava de vez, dando início a uma respiração frenética logo em seguida. Taciana estava aparentemente tranquila. Tinha a respiração normalizada e não suava frio, seu suor era apenas devido ao ambiente abafado.

Taciana e Vico desviaram subitamente o olhar para a porta, mesmo que não conseguissem vê-la. Haviam começado a ouvir o som dos Cranks subindo as escadas. Um misto de conversa de restaurante lotado e de barulho de briga de cães que ficava cada vez mais perto e mais disperso. Logo depois, as outras garotas começaram a ouvir o barulho também. Aline passou a tentar controlar sua respiração, mordeu os lábios para se acalmar e empunhou a tesoura com força. Joana fechou os olhos e fez o sinal da cruz, estava rezando para que tudo desse certo. Beatriz colocou o punho cerrado na frente da boca e arregalou os olhos. Vico engoliu seco antes de aumentar o ritmo de sua respiração. Colocou a mão sobre seu último ferimento para amenizar a latência. Taciana se manteve praticamente imóvel, seu único movimento foi arquear a sobrancelha esquerda.

O barulho começou a ficar mais audível ainda. Eles estavam já no mesmo andar que os garotos. Todos ficaram apreensivos, mas esperaram em silêncio. Quando o som indicava que os Cranks estavam ainda subindo, Taciana sussurrou:

— Subiram! É melhor irmos agora antes que comecem a descer.

— E se tiver mais algum subindo? – perguntou Vico.

— Eles estavam em um único grupo, pelo que pudemos perceber. Acho melhor irmos logo. – Taciana responde.

— Tudo bem. – Vico concorda.

— Sim, sim! Vamos sair rápido daqui! – diz Bia.

Os garotos começam a se dirigir cautelosamente à porta, mas em seus primeiros passos, alguém do lado de fora fala:

— Eu sei que vocês estão aí! Venham logo! – a voz se projeta para dentro da sala como se alguém tivesse colocado a cabeça para dentro através da abertura da porta.

Os garotos travam sem saber o que fazer, mas, um segundo depois, Bia se precipita e fala em bom tom:

— Alguém pra nos tirar daqui! – diz a garota se dirigindo à porta o mais rápido possível.

— Não, Bia! – Vico grita ainda sussurrando – Alguns Cranks também sabem falar!

Bia não precisou absorver o que Vico disse para perceber que se tratava realmente de um Crank. Pela luz do luar que batia bruxuleante no rosto do homem, a garota notou que ele estava destruído demais para não ser uma daquelas aberrações. Ela ficou atônita olhando para a porta enquanto o sorriso do homem se transformava em uma gargalhada discreta. O Crank vira a cabeça para o seu lado esquerdo e respira fundo. Quando ele abre bem a boca, uma barra de metal atravessa a sua cabeça.

— Ele ia gritar pelos seus amiguinhos! – Diz Taciana enquanto solta a barra de ferro e começa a empurrar o balcão que segurava a porta. Vico corre para ajudar a empurrar o móvel e Aline faz o mesmo, antes de lançar um olhar de reprovação a Bia, que já tinha seus ombros acolhidos pelas mãos de Joana.

Eles abrem a porta e saem para o corredor, sem tirar os olhos do Crank caído no chão. Ele estava imóvel. Os garotos logo começam a correr em direção às escadas. Vico mancando e Bia com a ajuda de Joana. Quando chegam a um certo ponto, Taciana pede para que parem.

— Eu vou observar a situação das escadas primeiro. Fiquem aí, quando eu der o sinal, vocês vêm. – ordena a garota.

Todos obedecem e esperam Taciana se aproximar da escada com sua lanterna. O primeiro feixe que ela observa é o que dá no andar de cima. Ela olha bem e se certifica de que não há ninguém. A garota continua andando e vai lentamente até o feixe que leva ao andar inferior. Ela aponta a lanterna para os degraus e não tem tempo de reagir. Um Crank puxa sua perna, fazendo-a cair e bater a cabeça no chão. Taciana fica atordoada e nem consegue sentir as dores causadas pelos impactos em cada degrau. O Crank começou a puxá-la escada abaixo e sua cabeça se chocava com um degrau por vez.

Os outros fazem menção de correr atrás da garota, mas Aline impede que Vico e Bia saiam de onde estão.

— Vocês fiquem aqui! Cuidem um do outro! – diz a garota antes de se virar e seguir Joana até as escadas.

— Vão ouvir! Vão ouvir tudo! – Bia diz olhando para o chão, desolada.

— Vou te colocar em um lugar seguro. Vem. – diz Vico com seriedade.

— Eu não confio em você! Vê lá o que vai fazer! – diz Bia, em seu princípio de histeria.

Vico não se esforça em pedir para que Bia confie nele, ele apenas a puxa pela mão enquanto anda apressado na direção da qual tinham vindo. Eles passam pelo Crank caído no chão e continuam. Alguns passos depois, Vico para. Ele puxa para cima uma porta quadrada que ficava no meio da parede e sugere que Bia entre.

— Não vão te achar aqui dentro. Talvez feda um pouco, mas é seguro, confia em mim. Vou resolver as coisas com as meninas e a gente volta para te buscar.

— Tá bem! Vou suportar ficar aqui na tubulação do lixo! – responde a garota.

Vico a ajuda a subir e entrar no local. Era estreito e apertado. Se a garota se movesse um pouco para a frente, poderia cair até o local onde os lixos de cada andar se acumulam.

Vico começa a fechar a porta quando Bia o interrompe:

— Obrigada. Se cuida. Vou esperar vocês aqui. – diz a garota com uma feição triste.

Vico faz um sim com a cabeça e fecha a porta. O garoto corre em direção às escadas novamente. Ele passa mancando pelo Crank ainda imóvel e chega ao primeiro degrau. Ele desce com pressa na esperança de se deparar logo com as garotas.

Enquanto isso, Bia está sentada e imóvel. Ela já sabia que, se fizesse o mínimo movimento, escorregaria até todos os lixos do prédio. O tempo parecia demorar mil vezes para passar enquanto ela estava ali, mas não tardou para que a garota ouvisse uma pancada na porta atrás de si. Ela se assusta e se esforça para não gritar. Um esforço desnecessário quando ela começa a escorregar tubulação abaixo. Era impossível não gritar naquele momento. Enquanto descia, alguém arranhava a porta de metal acima.

A garota se arrasta pelas paredes de metal enquanto segue velozmente do quinto andar para o térreo. Por sorte, a tubulação faz algumas curvas que reduzem a velocidade da queda. Durante os segundos da viagem, Bia nota uma mudança no ambiente, que havia se tornado relativamente mais claro. Ela não assimila direito a mudança, pois logo em seguida está sobre um monte de sacos de lixo.

Já Vico dobra após o primeiro feixe de escadas e começa a descer o segundo quando, de repente, a luz do corredor se acende. Ele para assustado e esquece o que estava fazendo. Fica curioso e olha pela janela o lado de fora do prédio. A energia em toda a escola havia voltado. Só depois de perceber isso, ele nota que as garotas estavam no próximo feixe de escadas. Elas também estavam confusas. Taciana segurava a sua perna enquanto Joana lhe dava auxílio. Aline limpava o sangue de sua tesoura na roupa de uma mulher caída sobre os degraus. Era a Crank que havia puxado Taciana.

— A energia da escola... – Joana começa a falar.

— Sim. E isso é estranho. Porque o professor de Física havia falado que desligaram propositalmente todas as fontes de energia daqui. – Vico introduz seu pensamento de estranheza com a ocasião. – Precisamos buscar Bia e planejar algo logo, mas em um lugar seguro.

— Você deixou ela para trás?! – grita Joana, mas não com raiva. Sua voz demonstrava uma preocupação exagerada.

— A deixei escondida em um lugar. Onde colocam os lixos do prédio. – o garoto se explica.

Eles ajudam Taciana a se levantar e correm de volta ao quinto andar. Vão até a porta da entrada da tubulação de lixo e a abrem. Quando olham o interior do local, não veem a garota.

— Será que ela caiu? – pergunta Vico, confuso.

— Muito provável, seu imbecil! – diz Aline com rispidez – Notou agora em quanto é perigoso esse lugar no qual você a deixou?

— Gente... – Taciana aponta para a frente da sala onde estavam. Ela não precisa continuar. Todos já haviam notado que o Crank caído não estava mais lá.

— Ele viu você colocando ela aí e a pegou! – Aline grita com Vico antes de empurrá-lo contra a parede e aproximar a ponta da tesoura de seu rosto. – Eu só pedi para que você cuidasse dela e você faz uma porcaria dessas! Ela só pode estar morta agora! E por sua causa!

— Calma, Aline! – Joana segura o braço da garota e tenta apaziguar seus ânimos.

— A culpa é minha também. Não me certifiquei direito de que havia matado o Crank e tudo só aconteceu porque eu fui pega na escada. Se for culpá-lo, terá de culpar a mim também. – diz Taciana.

Aline apenas respira fundo e anda em pequenos círculos, nervosa.

— Quatro coisas podem ter acontecido: Beatriz caiu pela tubulação e o Crank saiu em outra direção; o Crank viu que ela estava aqui e a pegou; o Crank viu que ela estava aqui, tentou pegá-la e caiu com ela pela tubulação. – raciocina Taciana – O que devemos fazer é ir até o local onde os lixos ficam, já que a maioria das possibilidades nos leva a esse local e não é recomendável nos separarmos, portanto precisamos ir juntos a apenas um lugar.

— Vamos logo então! – diz Aline, já correndo em direção às escadas — Os Cranks podem começar a descer as escadas depois de todo o barulho.

Taciana e Joana seguem Aline até que notam que Vico ficou para trás.

— A culpa é minha. E há a possibilidade de ela estar com o Crank ainda por aqui. Eu vou procurar. É meu dever não deixar que nenhuma chance de sobrevivência dela seja deixada de lado. – diz o garoto.

As garotas refletem sem ação até que Vico grita para que continuem. Ele corre em uma direção e elas vão em outra, rumo ao térreo.

Enquanto isso, Bia tenta se levantar e superar as dores da queda. Os sacos de lixo amorteceram bem o impacto, mas seus ossos fracos ainda sentiram com força o choque. Ela se põe de pé, mesmo escorregando na pilha de lixo, e olha ao redor. Uma lâmpada fraca iluminava o local com uma luz branca e ela podia ver paredes relativamente limpas e vazias e sacos de lixo pelo local. De repente, uma das paredes se move de maneira estranha. Bia se esconde atrás da pilha de lixo e a observa. Uma espécie de passagem secreta começa a se abrir. Barulhos sucessivos de tilintares metálicos e jatos de gases começam a acontecer até que uma luz mais forte irrompe pela abertura que vai se formando ao passo que portas se abrem enquanto outras se fecham mais atrás ao longo de um corredor. Entre essas portas, duas pessoas que usam roupas de cientistas: jalecos muito brancos, luvas azuis e óculos. Uma pessoa era um homem muito alto e outra uma mulher muito baixa.

— Já imaginava que ia sobrar para a gente resolver esse problema, Eduardo. – diz a mulher.

— Obedecer ao protocolo é nosso dever, Dulce. – responde o homem – Precisamos mesmo ter que nos deparar com essa imundície sempre que é necessário sair do laboratório pelos meios convencionais? – ele muda de assunto após observar o ambiente e colocar a falange média do dedo apontador na frente de suas narinas.

— É o nosso drama. – concorda a mulher enquanto se dirige até outra parede. Ela coloca sua digital em uma mancha e isso libera um painel digital. A cientista tecla alguns números, espera um sinal e começa a falar com alguém em outro lugar — Liberação dos Caimanores no 13º Instituto Remanescência. Confere?

— Confere. – diz uma voz que sai do painel.