13º Instituto Remanescência

24 Capítulo 24 - Chaves


Após se entreolharem confusos e assustados, eles decidem ir atrás do barulho para entender o que aconteceu.

— Não! Esperem! Eu e Andreia vamos ao gerador tentar trazer a luz de volta! Não podemos perder tempo!– diz Adrielly.

— Eu vou com vocês. – completa Vitor.

— Tudo bem. A gente se encontra aqui em vinte minutos. Se vocês não aparecerem, iremos até o gerador. – Cláudio planeja a situação para evitar desencontros.

O grupo concorda. Cláudio, Luiz e Juliana seguem com cautela, mas apressados, para o estacionamento do instituto. Adrielly, Andreia e Vitor correm para a parte de trás da escola.

Os três seguem olhando para todos os lados ao longo do corredor aberto que dá para o pátio. Eles veem algumas manchas de sangue igualmente distanciadas pelo chão, mas consideram as marcas algo banal para aquele contexto. Vitor, embora não dê importância para as manchas de sangue, as observa para saber para onde elas levam. Chegando ao pátio, as manchas dobram à esquerda, se dirigindo ao Bloco B, mas se perdem na grama próxima a um dos lagos. Vitor observa e volta a acompanhar as garotas, que seguem em frente. Elas reduzem o ritmo da corrida antes de dobrarem à direita, com a intenção de ter cautela em relação ao ponto cego bem em frente. Os três encostam-se à parede da lanchonete do pátio e andam lentamente até a quina, onde Andreia coloca a cabeça para fora para observar o caminho à direita.

Não há movimentação. Os três, então, dobram e dão alguns passos, se preparando para correr novamente. Nesse meio tempo, alguém dobra mais à frente, vindo da direção do Bloco F. A pessoa para e corre para a primeira porta perto de si, uma porta de vidro fumê que leva ao ambulatório. Vitor, Andreia e Adrielly, que haviam ficado estáticos com a aparição repentina, tentam recalcular sua rota.

— Se fosse um Crank teria vindo nos atacar... – Andreia raciocina.

— Ainda bem que não era um Crank, porque eu conheço aquela pessoa... – diz Vitor.

As garotas fazem uma cara de surpresa que Vitor não consegue ver bem, mas o silêncio é a deixa para continuar sua fala.

— Aquilo era um casaco listrado de um colega de classe meu. Deu pra ver as silhuetas das orelhas de panda no capuz e as bolinhas amarelas perto da barra. Tenho quase certeza que é Vico. Ele tinha ficado para trás há pouco tempo quando estávamos fugindo.

— Ele deve estar ferido, já que entrou no ambulatório. – diz Adrielly.

— Ou achou que éramos Cranks e se trancou lá. – completa Andreia.

— Dá tempo de falarmos com ele antes de irmos aos geradores. É importante ficarmos unidos, não podemos deixa-lo só. – Vitor tenta convencer as garotas a convidar Vico para o grupo.

— Tudo bem. Vamos logo. – Diz Adrielly antes de correr para a porta do ambulatório.

Vitor e Andreia a seguem, sempre olhando para trás e para o lado esquerdo, que dava no lago com um formato que lembrava um coração. Os três param em frente à porta do ambulatório e tentam abri-la. Com sucesso. A porta estava não estava trancada. Eles entram no local silenciosamente e fecham a porta. Um tilintar metálico quando a porta bate faz os garotos notarem que a chave estava na fechadura, pelo lado de dentro.

— Ele deve estar escondido em alguma sala daqui do ambulatório, se chamarmos pelo seu nome ele vai saber que somos amigos – diz Andreia.

— Pensando bem, há a possibilidade de não ser ele... Mas mesmo assim, chamando por um nome, a pessoa vai confiar de certa forma e se revelar. – diz Vitor, depois de ter franzido as sobrancelhas e pensado com cautela.

— Se não for ele, estamos perdendo tempo! – Adrielly sussurra um tanto alto.

— Vico! – Vitor fala baixo, mas de maneira que quem estivesse na recepção do ambulatório pudesse ouvir. Ele evita prolongar uma discussão com Adrielly e ser objetivo – Sou eu, jogador. Vitor! Pode confiar na gente!

Vitor anda mais para o fundo do ambulatório e se aproxima da primeira porta de madeira, que dá em uma sala de um dos médicos. Ele aperta a maçaneta lentamente para baixo e empurra a porta devagar. O garoto olha para dentro da sala, apesar de não estar enxergando quase nada, já que há poucas entradas de luz no ambulatório, e novamente chama pelo nome de Vico. Adrielly está logo atrás dele e Andreia ainda na recepção, olhando para os dois à sua frente.

A chave que estava na porta repentinamente faz um barulho. E em seguida, o som da trava da porta indica que ela foi trancada. A pessoa de casaco havia saído de debaixo das cadeiras próximas à porta e agora estava parada em frente a ela. Sua silhueta relativamente definida em frente ao vidro que deixava passar um pouco da luz do luar que chegara há pouco tempo no céu. Sua silhueta ficou marcada por apenas um segundo. Depois disso a pessoa já estava sobre Andreia. Adrielly e Vitor se viram e esboçam uma reação, quando a porta de madeira abre de maneira brusca e um Crank pula em Vitor.

Adrielly se desequilibra assustada. Vitor cai no chão com o Crank sobre ele. Na recepção, a pessoa de casaco listrado está sobre Andreia. O Crank sobre Vitor é magro e tem cabelos relativamente longos e negros. Tem um rosto esquelético e feminino. Vitor luta contra ela. Seria mais forte se não estivesse com o ombro ferido. Suas mãos tocam o pescoço molhado da Crank enquanto uma das mãos dela vez ou outra tocam o ferimento em seu ombro, causando pontadas de dor que o desconcentram. A outra mão portava uma seringa com uma agulha e Vitor focava em bloquear os movimentos dela.

Adrielly demora um tempo encostada na parede, olhando para Vitor e para Andreia, sem saber a quem ajudar. Ela fecha os olhos com força por um breve segundo e corre para ajudar Andreia. Nesse momento, um zumbido de motor e rotação toma conta do espaço. Andreia não reage mais. O barulho asqueroso de carne foi breve, mas deixou Adrielly atordoada. Tão atordoada que a impediu de ouvir bem as risadas que tomaram o espaço.

Vitor consegue jogar a Crank para o lado para tentar se afastar. Ele se arrasta um pouco, antes de se apoiar com um braço para ficar de pé. A Crank tenta pegá-lo, mas Adrielly chuta sua cabeça. Para ajudar Vitor, precisou esquecer o que havia acontecido na recepção e isso foi fatal. A pessoa de casaco pulou sobre ela. A Crank enfermeira passou a lidar com o peso de Adrielly e da pessoa de casaco sobre si. Adrielly se desesperou. Esperneava e desferia socos em todas as direções para escapar. O zumbido de motor e rotação toma conta do ar novamente. Vitor tenta ir ajudar, mas pensa que é tarde. A Crank morde o pescoço de Adrielly, que grita de dor antes de ter seu olho esquerdo perfurado por uma agulha. A garota grita ainda mais alto. Um grito angustiante e assustador.

Tudo se move rapidamente. A furadeira na mão da pessoa de casaco acerta a Crank de cabelos negros bem na testa. O sangue jorra indiscriminado pela cena. Vitor só consegue pensar em uma coisa: fugir. Ele entra em outra sala e arrasta o máximo de móveis possíveis para a porta, após trancá-la com a chave que estava na fechadura, algo que parecia comum naquele lugar. Há muito barulho no espaço enquanto ele arrasta mesas, armários e cadeiras, o que o impede de distinguir os sons que vêm de fora. Seu ferimento lateja, mas ele se esforça com garra na missão de bloquear a porta.

Quando ele para de arrastar os móveis, há apenas silêncio.