1001 cartas para chegar até você

14 Capítulo 14 – Sombras na parede da caverna


O ensaio terminou tarde, porque, além da música especial, Magali quis passar mais outras duas. Algumas pequenas mudanças finais, a música tinha ficado perfeita. DC gravou a versão final, fez algumas correções imediatas e pronto! Tinham a demo da “Música para Joaquim”. Comemoram com um lanchinho antes de irem cada uma para suas respectivas casas. Aproximadamente às 18h, Mônica saiu do longo banho, vestiu um lindo vestidinho de verão e sentou-se na varanda para descansar. O céu estava colorido pelo o pôr-do-sol, que tingia os tons de azul e cinza com rajadas laranjas e rosa choque. A garota tomava um suco gelado e admirava a paisagem monótona do fim do domingo. O vestido balançava de tempos em tempos quando uma lufada de vento fresco passava, refrescando ainda mais a temperatura amena. Bebeu mais um gole do suco de laranja, sentido as mãos molhadas pelo copo que suava. Observava a atenta caixa de correio. Ainda não tinha carta.

Já tinha conferido a caixa postal algumas vezes desde que chegou em casa. Também perguntou à mãe um número razoável de vezes, evitando levantar suspeitas. Nada. O correio se atrasou? Tudo indicava que sim. Era aquele ponto que o “plano infalível” falhava, dando a ela a chance de ouro de desvendar o mistério? Não pôde conter o sorriso matreiro. Da varanda aguardava: faria a emboscada e finalmente desmascararia o “carteiro”. Se por alguma razão não fosse ele o autor das cartas, seria ele um cúmplice naquele plano. Já era alguma coisa... Suspirava torcendo para que alguma carta chegasse.

A rua já tinha se esvaziado; a maioria das famílias já estavam em casa, aproveitando as últimas horas do domingo, preparando para a segunda-feira. Viu de relance algumas crianças correndo, voltando da sorveteria na esquina. Os carros passavam bastante espaçados. Risos de crianças brincando de bola na rua ao lado, fora do alcance de sua visão, mas dava para ouvir os gritos. Era uma tarde gostosa, mas estava preocupada com a possibilidade de não receber a carta... Será que o fantasma se cansou? Com a promessa das 1001 noites, supôs que teria ao menos 1001 cartas. Temia que anônimo desistira cedo demais... Como um fantasma, se foi.

Algo a tirou de seus pensamentos. Uma figura encapuzada na esquina destoava na cena. O moletom de frio era inadequado para a temperatura amena daquela tarde. O desconhecido escondia o rosto baixo sob o capuz e andava a passos bastante apressados. Mônica achou-o curioso demais, suspeito até. De longe dava para ver apenas que era um rapaz vestindo um moletom vermelho escuro, calças jeans desbotadas e rasgadas, um tênis preto e branco. O estranho mantinha as mãos no bolso e vinha na direção de sua casa. Mônica concentrou toda sua atenção na figura, fixando seus olhos na silhueta peculiar, suspendendo involuntária a respiração. Ele aproximou-se da caixa de correio, que fez um barulho discreto. Era o “fantasma”! O coração de Mônica batia mais forte. Droga! Ela estava na sacada, não tinha como pular de lá e emboscá-lo. Teria que ser bem rápida se não quisesse perdê-lo de vista.

Saiu de casa correndo, o que sua mãe estranhou de imediato. Mônica não teve tempo de explicações, gritou que iria comprar um picolé enquanto saía de casa. Corria o máximo de suas habilidades, mas ela não era uma corredora nata. Viu seu alvo correndo a duas quadras de distância. Sentiu que jamais iria alcançá-lo! A não ser que aprendesse a voar! Corria insistente, mas sem muito sucesso. Ela precisava pará-lo se quisesse alcançá-lo. Teria que fazer algo para fazê-lo atrasar um pouquinho o passo. Sem muito refletir, Mônica parou em frente a um jardim vizinho, de onde pegou uma pedra um pouco menor que sua palma e atirou no rapaz de moletom vermelho. Acertou em cheio, bem no ombro direito. Viu-o cambalear distante, talvez machucado, definitivamente assustado com o golpe. Tentou aproximar-se dele, reparou que ele se virou para encará-la, sem poder ainda ver o rosto dele. De novo, o estranho tomou impulso e fugiu da cena antes que ela pudesse aproximar-se dele, ou agarrá-lo. A pedrada não fora o suficiente para parar o desconhecido, que continuou a correr em linha reta, sumindo longe dos olhos dela. Droga! Suspirou derrotada.

Voltou para casa refletindo, enquanto sua respiração normalizava. Talvez teria alcançado ele se não tivesse parado para pegar a pedrinha e arremessar. Ou teria sido mais proveitoso mirar na cabeça dele... Não, com a força dela, o desconhecido acabaria morto. Culpada, torcia para que a pedra o tenha acertado de raspão... Quanto a rota do desconhecido, ele parecia ter tomado uma direção aleatória. Como ela não conhecia ninguém que morasse na direção para onde ele fora, supôs que seguiu em linha reta apenas para despistá-la. Ele foi muito mais rápido, também tinha as pernas mais longas que as da baixinha. Mônica era forte, mas correr não era sua melhor expertise. Se tivesse o Sansão, ele teria caído de cara no chão. Consolou-se da derrota ao encontrar o envelope na caixa de correio. Quando entrou em casa, reagiu impulsiva escondendo o envelope, enquanto a mãe perguntava sobre o picolé e Mônica desconversando, replicou que não tinham o sabor que ela queria. Foi para a varanda ler a carta que tinha nas mãos:

***

Halam Al-Hakim, de volta ao palácio da Princesa Layla Al-Jamilla retomava seu conto:

Ele estava só. As luzes da aurora boreal tilintavam esverdeadas, como se esta fosse formada por milhares de vagalumes a dançar na escuridão da noite e a tocar sininhos minúsculos e alegres. Farhad Al-Naim olhava para o horizonte distante ainda se preparando para o que estava por vir. Respirou fundo mais uma vez antes de pegar a placa dourada da bolsa e segurá-la firme com as duas mãos. Levantou-se determinado a enfrentar o oponente. O vento rondava seu corpo, fazendo com que a pelagem de urso balançasse sutilmente. Leu as palavras solenes sem titubear por um momento sequer. A voz lhe saía forte e segura, como uma ordem, enquanto, à sua frente, formava-se um redemoinho de neve fina e de pequeninos pontos de luz neon a piscar revoltos. Impetuosas rajadas de vento atraiam-no para o olho do ciclone, puxando com tamanha intensidade que os pés dele tinham dificuldade de se fixar ao chão. A garganta pareceu bloqueada, como se estivesse prestes a se fechar, mas Farhad Al-Naim recusava-se a interromper o encanto. À medida que lia, a placa de ouro desfazia-se como se fora feita de areia fina, e seus fragmentos juntavam-se ao redemoinho.

No olho do furacão, uma figura bestial formava-se: primeiro surgiram os olhos brilhantes, um par a mais do que se esperaria. Centralizada, havia a cabeça de um javali, cujas presas tinham o tamanho de um braço humano. Enroscada em seu pescoço, traçava-se o corpo de uma naja de escamas pretas e vermelhas, que olhava para a mesma direção que o javali. As duas cabeças estavam atreladas a um corpo que tinha os mesmos contornos de um touro parrudo e agressivo, de pelo curto e espinhento como se fora coberto por milhares de agulhas. As patas dianteiras distinguiam-se: a esquerda era tal como a de um tigre, enquanto a direita parecia as garras de uma águia. Apoiava-se nas patas traseiras, iguais às de um elefante feito de pedra. A calda erguia-se arisca tal como faria a de um escorpião pronto para atacar. A estatura impressionante equivalia a duas vezes a altura de Farhad. Encaravam-se. Enquanto o javali grunhia animalesco, a voz que saída da boca da naja era uma mescla de duas vozes humanas: uma feminina e outra masculina. A voz da quimera retumbava vibrante em todo seu ser, o que fez o rapaz estremecer e perder o ar de seus pulmões ao ouvia-la falar: “Farhad Al-Naim, filho de Nerum, neto de Samael, sapateiro de Girah, selou o destino ao chamar-me. Se quer adentrar o Jardim de Mil Portas, pague então o preço: mate-me. Se falhar, a mim pertencerá sua morte.”

O coração dele batia desregulado. Empunhava a espada, segurando-a tão forte que seus dedos esbranquiçaram. Mantinha o olhar fixo na quimera, que se preparava para o eminente ataque. De frente um para o outro, os movimentos de ambos tinham uma harmoniosa simetria. A fera andava cautelosa e vagarosa, encurralando-o dentro de uma arena imaginária. Em contrapartida, Farhad Al-Naim dava um passo equivalente na direção oposta, sem deixar de encarar seu oponente majestoso. Olhavam um nos olhos do outro quando finalmente o rapaz se deu conta do perigo que corria e teve medo. De que valeria sua força? Se ele era tão diminuto em relação à criatura magnânima à sua frente, como poderia vencê-la?

A quimera avançou sobre o hesitante Farhad Al-Naim. Era tão pesada que o chão próximo tremia com o impacto de cada pisada. A cabeça de javali vinha abaixada de modo que as presas pareciam espadas em punho. O rapaz correu de encontro à fera, desviando-se diagonalmente: supunha ser mais rápido que ela, por isso escaparia antes que ela tivesse tempo de virar o corpo denso. A quimera tinha a vantagem de ser maior e mais sólida, imponente como seria uma muralha. Seus movimentos eram impactantes, porém lentos. Supôs que o javali controlava os agressivos rompantes do ataque, mas que ele não tinha muita resistência, cansava-se mais depressa. O rapaz foi feliz em suas suposições e bem-sucedido em sua fuga. Recuperando o fôlego e vendo-se fora do alcance dela, dirigiu-se à quimera: “Mut, guardiã do portal, poupai-me. Venho em missão de paz, quero apenas consertar os erros do passado. Não desejo a morte, nem mesmo se ela me poupar. Não quero machucar mais ninguém nesta jornada. Como posso matar-vos? Não desejo mal algum a vós. A espada que empunho não precisa ser assassina. Das minhas mãos, não vos quero vítima. Imploro, dai-me outro desafio.”

A quimera bufava, balançando a cabeça violentamente enquanto virava o corpo para encarar Farhad. O javali tinha uma expressão de frustração raivosa. No entanto, quem fazia a espinha do rapaz gelar era o olhar da naja, uma expressão enigmática, como se preparasse o bote. Foi ela quem lhe dirigiu a palavra, isenta de qualquer sentimento, sentenciando o inevitável: “É louvável o tom passional, mas não importa o quanto argumente pela lógica ou convença pela emoção; o preço que se cobra é o sangue e um dos dois terá de morrer. Se é de alguma valia, este corpo para nada mais serve que guardar a entrada. A existência da guardiã se limita a guardar o portal; assim que cumprida a função, ela voltará a não ser, juntando-se à poeira das estrelas... Se quer entrar no Jardim de Mil Portas, Farhad Al-Naim, o único jeito é derramar o sangue do oponente. Todavia, se recusar, então terá de morrer...”

Dito isso, avançou novamente sobre o rapaz. Correu tão rápido que a terra tremeu sob seus pés. Quando estava próxima do humano, levantou o tronco de modo que a pata de tigre e a garra de águia estavam livres para atacá-lo. Uma das patadas foi suficientemente forte para arremessá-lo longe. O rapaz erguia-se devagar enquanto Mut vinha em sua direção. Em meio à batalha, Farhad Al-Naim não teve tempo de pensar em uma boa estratégia. Tinha que correr bastante para fugir da fera, perdia o fôlego e seu pensamento era interrompido constantemente pela necessidade de fuga e sobrevivência. A quimera não lhe dava descanso. Ora o perseguia, ora o atacava com alguma de suas partes animais, tendo a imprevisibilidade como sua melhor arma. “Proponde um enigma, por favor!”, gritou a plenos pulmões, antes da pata de Mut acertá-lo e arremessá-lo mais uma vez para longe.

O corpo de touro avançou bruscamente e lançou-se sobre o humano caído, impondo uma das patas dianteiras sobre ele. As garras de águia cobriram o peito do jovem, impedindo-o de levantar e de respirar. Talvez Mut se preparava para destrinchá-lo como faria o predador com sua refeição. A cabeça da naja, próxima ao rosto do rapaz, mantinha o olhar fixo no dele. A voz dela o trouxe à realidade: “Se aqui está, bem sabe o que procura, deve bem saber o preço que se cobra. Não pode adentrar o Jardim de Mil Portas sem antes fazer escorrer sangue. Se não pretende matar, então aceita tua morte. Nada é mais simples que isso.”

Ao terminar a fala, a naja esboçou um ataque direto pescoço de Farhad Al-Naim, que reagiu sem muito pensar: com a força do desespero, ergueu o braço que tinha a espada, forçando a lâmina contra as garras que o prendiam, assim fazendo-a recolher a pata. Vendo-se livre, investiu a espada contra a perna de águia, cortando-a. Mut agonizava de dor, enquanto o rapaz levantou-se para correr para longe. O rabo de escorpião acertou-o em cheio, arremessando-o longe. O ataque surpresa desnorteou-o. Enquanto recuperava o fôlego, Farhad Al-Naim só pensava em uma coisa: não podia morrer. Sua morte e vida não os pertencia mais, não antes de cumprir sua missão. A liberdade da Fada Jandira Al-Nour dependia de sua vitória e nada era mais importante do que pôr um fim à maldição.

Com dificuldade em apoiar-se somente nas três patas, a quimera ia em direção ao rapaz, mais lenta e ainda mais furiosa. Os grunhidos do javali continham ira, ainda que abafados. Seus ataques exigiriam cautela, a fim de suprir a falta do membro. Por isso caminhava com calma ao invés de atacar com um rompante desgovernado. O rapaz encerrou-se dentro da pele de urso, certo de que este seria o melhor escudo contra a furiosa reação de Mut. Farhad Al-Naim aproveitou a lerda caminhada para formular um plano. Sua estratégia consistia em imobilizá-la e neutralizar o máximo dos seus ataques para ter uma chance de acertar seu coração e matá-la. Fechando os olhos, pensava na forma de urso, que seria mais hábil e mais veloz que seu corpo humano. Os dois animais digladiariam em pé de igualdade... Deixou-se metamorfosear.

Certamente, o corpo do urso era mais forte. Sentia-se poderoso e com vontade de rugir. O semblante surpreso da quimera serviu de incentivo. Confiante, Farhad Al-Naim avançou contra Mut, seguindo um instinto mais primitivo: vencer para sobreviver. Corria veloz, animado por um espírito ancestral de luta. Ainda que fosse pesada como uma muralha, a quimera cambaleou ante cabeçada que o urso deu em sua barriga, talvez por estar instável com só as três patas. O rabo de escorpião investiu contra o urso, procurando aferroá-lo. Mesmo que a pele fosse capaz de resistir, o veneno parecia deixá-lo atordoado. A visão tinha se tornado um pouco turva, exigindo dele uma resposta imediata antes que o ferrão pudesse injetar mais veneno, sendo fatal. Antes de mais nada tinha que eliminar a ameaça que o rabo do escorpião.

Concentrando toda sua força e energia, correu para montar o dorso de touro, onde os pelos assemelhavam-se a milhares de pequenas agulhas. Tinha a vantagem de não o machucarem por causa da pele mágica. No entanto, tinha que prestar atenção na calda de escorpião, na instabilidade do dorso e da naja, que o espreitava próxima. O rabo parecia ter vida própria, tal como se fosse ele mesmo uma serpente. O urso avançou contra a calda, instintivamente, e arrancou-a com os dentes afiados. As duas cabeças de Mut urraram de dor. O corpo revolveu agitado até que o urso saísse.

Desequilibrando-se, Farhad caiu no chão, próximo às patas traseiras. O reflexo fez com que se afastasse rapidamente para que a quimera não o esmagasse. Atordoada, a fera urrava de frustração e sofrimento. Apesar de não conseguir acompanhar os movimentos rápidos do urso, investia ao máximo pisadas violentas contra ele, sempre errando o alvo. O semblante do javali era irritado, fungava com raiva e grunhia constantemente. O corpo do urso, por ser menor, esgueirava-se com facilidade pelos pontos cegos da criatura. Os olhos da naja acompanhavam-no silenciosa e atenta, sempre à espreita da oportunidade de dar o bote. O urso correu entre as pernas da fera, evitando ao máximo as pisadas. Usando toda sua força e o peso do seu corpo, investiu contra a perna de tigre para que assim a quimera caísse por terra. Como previsto, ela desequilibrou-se e acabou caindo sobre o peito e o próprio peso esmagou a pata. Um estrondo acompanhou a queda e o chão tremeu assustado. Ouviu mais forte o grunhido choroso do javali, enquanto afastava-se a toda velocidade.

Precisava ser rápido. Agora que Mut estava imobilizada, Farhad Al-Naim tinha que empunhar sua espada, a única que seria capaz de matar a quimera. Fechando os olhos, deixou o corpo tomar novamente as formas humanas. Segurava a espada com as mãos firmes e o coração dolorido. Agora aproximava-se da fera abatida, sentindo pesar a obrigação: sabia que era necessário matá-la, mas isso não tornava o sacrifício mais fácil. Ele tinha que sacrificar Mut para salvar a Fada Jandira Al-Nour, não havia outro meio, e repetir isso para si servia de algum consolo momentâneo.

Empunhando a espada, Farhad Al-Naim encarou Mut, quimera guardiã, triste. O rapaz concentrou-se no semblante do javali, que parecia derrotado. O animal não sentia mais capaz de controlar o corpo, nem ao menos pretendia se levantar, já que não poderia mais se equilibrar. Ao que tudo indicava, ele entregou-se. A naja não. Enquanto o jovem aproximava-se de Mut, a naja o acompanhava com um olhar indecifrável. Silenciosa, prepara-se para o bote. Quando se viu próxima, a naja investiu contra ele com toda força. Por sorte, a mordida foi contida pela pele de urso, mas Farhad Al-Naim sentiu a força da mordedura e o tamanho das presas que tentava perfurar sua armadura. No fundo de seu âmago, o rapaz sabia que aquele veneno seria mortal, por isso não poderia se dar ao luxo de poupá-la. Sem hesitar, cortou o corpo da serpente. Soltou os presas do braço do rapaz e caiu morta no chão. Apesar do semblante derrotado do javali, ele urrava ante a dor imensa, bufando em sinal agonia ao invés da ameaça de um novo ataque.

Com a espada na mão, Farhad Al-Naim tremia. Nunca houvera matado nada em sua vida. Sua profissão não exigia isso dele. Lidava com a carcaça, mas jamais tivera que combater um ser vivo, nem lutar por sua vida. Quanto à carne que comia, cabia às mulheres da cozinha matar o animal que preparariam, ou cabia aos caçadores trazerem mortas suas presas. Naquela hora ele entendeu o preço da vida e da morte. Primeiro aproximou-se cauteloso, apesar de ter certeza de que Mut não reagiria mais. Pediu-lhe desculpas, ao que fez a quimera fechar os olhos, passiva. Com toda a seriedade do mundo, passou a espada no pescoço do javali, rezando para que não sentisse mais dor. A espada cortou-o sem nenhuma dificuldade. A cabeça rolou no chão sem vida.

Da boca aberta, escorria um fio de sangue. Os dois pares de olhos sem vida da quimera trouxeram uma dor imensa a Farhad Al-Naim que pensou em Said Al-Faruk e o que o inconsequente sentiu diante de uma cena semelhante; se por algum momento sequer ele entendera o peso de suas escolhas, se sentiu arrependimento e se cogitou desistir do plano tolo. Sentiu lágrimas escorrerem de seus olhos, ajoelhou-se e rezou de olhos fechados pela oponente caída.

Depois de ter saído vitorioso, Farhad não se viu um herói, sentia-se mal por ter trazido à vida uma criatura somente para matá-la. A Fada lhe havia avisado que sua missão seria difícil; não exigiria dele somente força física ou inteligência estratégica, ele teria de sacrificar-se. Agora pesava-lhe mais ainda o erro de Said Al-Faruk. Impôs a si fervorosamente a reponsabilidade de reparar o mal: ninguém mais deveria carregar aquele peso, que os sacrifícios fossem só os dele e que não se fizesse mais vítimas...

A corte toda da Princesa Layla Al-Jamilla sentiu o pesar pela fera morta e o jovem herói, mas teriam que esperar ansiosos pelo dia seguinte para saber o que aconteceria em seguida...

***

Por uns instantes ficou ainda contemplando as dolorosas palavras. Via a cena em sua cabeça, a pobre fera abatida. A carta que leu fê-la sentir-se culpada, revivendo o episódio de agora pouco: o golpe no braço do desconhecido. Devia ter feito um belo machucado. Maldita a força dela! Pensando melhor, achou até que não era uma coisa tão ruim assim. Machucados deixam marcas, e o jeito como a pedra o acertou, com certeza ia deixar um roxo. Era o preço a se pagar. Satisfeita, pensou que isso a ajudaria a encontrar seu “anônimo”, ainda que estivesse convencida que não haveria outra pessoa para ser. Mônica poderia conferir a ferida quando estivesse próxima do suspeito. Também poderia voltar à casa de DC naquele instante, com a desculpa que esqueceu um caderno lá, assim comprovaria sua teoria. Essa prova irrefutável obrigá-lo-ia a admitir tudo! Prensá-lo-ia contra a parede, seguraria seus braços, encostaria no rosto dele e perguntaria o motivo de ele estar mentindo para ela. Imaginou-se lá, segurando os braços dele contra a parede, olhando-o no fundo dos olhos, os dois rostos bem próximos...

A boca dela ficou seca e seu coração batia desgovernado. Não era seguro confrontá-lo assim. Poderia fazer coisas estúpidas. Os pernilongos cupidos pareciam tê-la picado também.

Pegou o livro de filosofia, para dar uma passada por alto na matéria daquela semana, precisava de alguma distração. Coincidiu de abrir na página sobre o mito da caverna, de Platão. Já tinham lido sobre ele antes, várias vezes. O protagonista sai da caverna, finalmente consegue ver o mundo real, a verdade. Percebe que as sombras na parede, outrora imagens de seu mundo real e verdadeiro, não passam de projeções, cópias infiéis de coisas que existem fora da caverna, muito mais belas e complexas. Alguém passa a vida inteira acreditando em uma mentira que ela passa a ser a única verdade, sendo impossível aceitar outra coisa. As pessoas na caverna não acreditaram no protagonista que disse o quanto o mundo era diferente, belo...

O que é de fato real e irreal? A professora disse que todos nós vivemos em cavernas, dado suas devidas proporções. Temos valores, ideias e conceitos arraigados, e por estarmos tão confiantes nessas ideias, rejeitamos o novo, temos dificuldade de aceitar inovações... Talvez porque em paralelo, ao sair da caverna a qual se está tão acostumado, o sol, apesar de ser brilhante e esplendoroso, queima os olhos. É uma metáfora para o primeiro choque antes de se acostumar à realidade.

Mônica se perguntou se havia um mundo mais bonito do que as sombras na parede para as quais ela ficou olhando a vida inteira... Será que para sair da caverna, ela também precisa se libertar das amarras do destino? Contrariar o que todos dizem? Ir contra a corrente? Folheando o livro viu a ilustração do conto de Ícaro. As asas de cera possibilitaram ao jovem voar alto, dando-o alegria e liberdade, mas aproximar-se demais do sol o fez sucumbir... Mônica fechou o livro. Já teve Filosofia demais para uma tarde.