1001 cartas para chegar até você
15 Capítulo 15 – Está escrito, basta ler
Na segunda-feira, Mônica queria um tempo para confrontar DC. Os dois a sós? Não era seguro, não com as imagens ainda frescas na cabeça... Antes da aula, corriam o risco de ficarem a sós, ou seja, péssima ideia. No intervalo? Teriam muitas testemunhas, inclusive a fofoqueira da Denise. No fim da aula? Provavelmente causaria suspeita dos amigos se ela não fosse para casa com um deles... Antes do ensaio? Na casa dele?! Sem testemunhas e com os hormônios em fúria?! Só se ela tivesse perdido o juízo. Quando seria ideal? Onde seria menos suspeito? As imagens de um possível confronto ainda a perturbavam. Ele encostado na parede, à mercê dos caprichos dela... Tentava fugir dos pensamentos, do desejo de estar ali e aproximar-se mais dele... Como um fantasma, ele a perseguia. E ela não queria só a sombra...
Então, na penúltima aula do dia, surgiu a oportunidade perfeita! A professora de literatura pediu aos alunos que se juntassem em dupla para fazerem a análise de um dos livros na lista. A atividade consistia em pegar seu caderno e lápis, escolher uma dupla, pegar um dos títulos que a professora distribuía aleatoriamente e ir para a biblioteca. Perfeito! Mônica levantou-se subitamente ao comando da maestra, ignorando os amigos que estavam de pé do seu lado, cruzou a sala de aula para fazê-lo sua dupla antes que alguém pudesse ter a mesma ideia. Ela sorriu com malícia:
– Posso ser sua dupla, DC? – o rosto dela abriu naquele sorriso que o deixava ser ar. Mônica enlaçou o braço no dele, sorrindo sem esperar a resposta. DC não sabia o que responder, apenas sorriu de volta, pegou seu caderno e deixou-se conduzir pela garota.
A turma toda estranhou, inclusive a professora. No entanto, todos se concentraram em escolher suas duplas e ir para a biblioteca. Denise, que se senta ao lado de DC e fofoqueira profissional, correu puxando sua dupla para alcançar os dois e comentar a audaciosa decisão de Mônica:
– Então, a famosa dona da rua gostaria de fazer algum pronunciamento sobre a escolha de dupla? – simulou um microfone com sua lapiseira rosa – Não é todo dia que ela se esquiva da melhor amiga e dos dois amigos de infância para selecionar um dos garotos perdidos do fundão...
– Preciso de pontos e o DC é muito bom em Literatura. – disse disfarçando a verdade; não era mentira que o rapaz era bom na matéria, nem que as notas dela poderiam melhorar bastante... Ainda que não fosse toda a verdade.
– E de onde você tirou isso? – o garoto ainda enlaçado no braço dela perguntou.
– Não precisa ser modesto nem fingir, você é melhor da turma. Esqueceu da sua nota no último teste surpresa? Eu só preciso de um pouco de reforço com minha análise literária...
– Direta, hein? – tinha um tom debochado na voz dele, uma graça e talvez uma ponta de decepção. – Tiro certo...
– Olha, que interesseira. – Denise disse alto – Larga ela e vem para mim, DC.
– Você fala isso, Denise, mas só está com inveja que não pensou nisso antes. – Mônica se defendeu. DC riu baixinho, não querendo se intrometer demais na briga das duas.
– Convencida... Para sua informação, nesta matéria minha nota é maravilhosa.
– Bom saber, preciso de um milagre, amiga... – Carmem falou alto ao lado da ruiva.
As duas resolveram ir mais rápido. Competitiva, Mônica apertou o passo, puxando DC até a biblioteca. Por um momento, Mônica se esqueceu do ombro machucado. Lembrou-se dele por causa de um gemido de dor baixinho que o colega deixou escapar. DC vestia um moletom naquele dia, roxo escuro e largo. Não fazia muito calor, mas também não fazia um frio que justificasse vesti-lo. Era no mínimo suspeito. Ela o observava, ainda agarrada ao braço dele. Diante da súbita constatação, soltou-o constrangida. A desculpa é que separados poderiam achar mais facilmente o livro deles. A professora tinha distribuído aleatoriamente os títulos assim que as duplas saíam da sala e Mônica nem tinha visto qual era o livro que tinha que analisar, mostrando que não era exatamente com o trabalho que ela se importava. DC entregou o papelzinho para ela que a professora o tinha dado.
O livro escolhido tinha sido A mão e a luva, de Machado de Assis. Eles já tinham lido antes esse clássico. Concluiu que era uma coincidência irônica. Um livro sobre uma mulher com vários pretendentes... Deveriam criar uma análise literária. Cada um pegou um exemplar e foram se sentar em uma das mesas da biblioteca, para poderem discutir o que fariam, trocando ideias com as anotações do caderno. Para a felicidade de Mônica, a biblioteca era um lugar mais quente do que a sala de aula, por isso DC tirou o moletom. A regata preta por baixo não escondeu a marca roxa em seu ombro direito, no mesmo ponto onde Mônica acertara o “anônimo” na noite anterior. O coração dela bateu forte e ela não conseguia tirar os olhos daquela marca. Se ela o perguntasse como ele ganhou aquele roxo, certamente o rapaz florearia uma história sobre pernilongos gigantes chupando seu sangue a noite toda...
Por que ele insistia em mentir? Por que ele não se confessava? E o que ela faria se ele confessasse? Enfiou a cara no caderno para esconder o rubor que preenchia sua face. Uma parte dela queria aproveitar o trabalho em dupla para ficar mais perto dele e talvez obter respostas... Ou simplesmente obrigá-lo a entregar o final da história... Ela não queria mais nada? Nada! Precisava se concentrar no trabalho, focar no livro, na Guiomar, e nos carinhas que querem a Guiomar!
Fizeram o trabalho de forma bastante responsável. Antes do fim da aula, conseguiram criar a estrutura do texto, juntar as peças que a professora queria. Relendo o clássico, Mônica achou graça do fato de Guiomar criar uma artimanha para ser pedida em casamento pelo noivo de sua escolha. O casal principal trazia um novo tipo de amor, tornava-o mais prático e conveniente; a paixão que os une não é necessariamente o amor romântico, mas uma ambição mútua. E isso torna o romance até mais interessante, inspirador. Eram perfeitos um para o outro, como a mão e a luva... O sinal do fim da aula tocou tirando-a de seus pensamentos.
– Encerramos as atividades por hoje, Srta. Souza. Mais tarde podemos nos encontrar para fazer o trabalho, lá em casa talvez... – DC ofereceu com um jeito tímido que lhe caia tão bem, tão adorável...
– Não! – falou alto demais. Ainda era perturbada pelas imagens de ele presado contra a parede preta do quarto dele, onde forçá-lo-ia a confessar seus “crimes”. Não era seguro. – Hoje não dá, esqueceu que temos ensaio, DC? – riu sem graça para amenizar o grito – E se a gente dividir, cada um faz uma parte do texto e amanhã juntamos as duas no intervalo, que tal?
– Ok. – a resposta foi seca, talvez constrangida. Mônica o agradeceu com um daqueles sorrisos, que seria a perdição dele, como ele sempre soube.
Recolheram apressados as coisas espalhadas e foram para a sala de aula para a última aula do dia, antes que o professor ficasse furioso com o atraso dos alunos. Recolhiam com pressa as coisas sem reparar no que pegaram. Sentada em sua cadeira, Mônica organizava as coisas que trouxera da biblioteca, reparando que pegou sem querer um caderninho A5 de capa preta que não era seu... Seu queixo caiu. Precisava devolver! Imediatamente! Bem, não no meio da aula, quando o professor estava copiando a matéria no quadro... Não poderia abrir e ler o que tinha escrito, isso não seria certo... No entanto, de que outro modo ela se certificaria de quem era o caderno? Se não tem cadeado, não é segredo... Não tem problema. Espiou de relance e reconheceu a letra dele. Fechou correndo antes que alguém notasse. Começou a copiar a matéria para despistar e evitar dar mais na pinta... Era do DC. Claro, de quem mais seria? Até porque ele era o único que estava do lado dela na biblioteca...
Ela olhou de um lado para o outro... Estavam todos ocupados anotando a matéria, já que depois que o professor enchia o quadro ele desmanchava sem dó. E ela devia estar focada nisso. No entanto, folhear o caderno não era uma má ideia... Seria ser engraçado se a carta estivesse lá dentro, sendo a prova concreta que ela precisava para confrontá-lo... Abriu de relance, deixando as folhas passarem apressadas, sentindo o cheiro gostoso do perfume que ela reconheceu das cartas. Guardou depressa pra copiar o quadro. Ele não podia distraí-la assim, à distância. Depois do almoço, teriam ensaio, ela devolveria logo assim que chegasse na garagem dele, o que daria a ela um tempinho para folhear bem pouquinho o caderno... Por razões de curiosidade científica, claro. Essa decisão foi o que a motivou se concentrar na aula, ainda que estivesse ansiosa demais para focar em outra coisa que não no segredo.
Não quis dar oportunidade de DC pará-la e perguntar sobre o caderno. Assim que o sinal tocou terminando a aula, Mônica saiu apressada da sala, dando uma desculpa furada para os amigos. Queria chegar logo em casa, queria desvendar mistérios, descobrir segredos... Era bobo, até porque ela não saberia o que dizer a ele se DC confessasse seus sentimentos. Além do mais, o caderninho esquecido devia ser parte de um plano. Há algo escondido naquelas páginas que é para ela ler... Que ele quer que ela saiba...
Dona Luísa recebeu a filha com o almoço pronto. Havia colocado a carta para ela em cima da escrivaninha. Mônica agradeceu a mãe, almoçou rapidamente com a desculpa de revisar a matéria enquanto estava fresca e correu para o quarto. Estava dividida entre a carta e o caderno. Queria saber o futuro de Farhad, queria ler os segredos de DC. Decidiu ler a carta primeiro, por curiosidade: era imperioso saber o que acontecia com o sapateiro agora que ele tinha matado a quimera:
***
Passaram-se quatorze luas e Halam Al-Hakim ainda não terminou seu conto para a Princesa Layla Al-Jamilla. A jovem deleitava-se cada dia mais com a história, apesar de não conter a inquietude e ansiedade. Enquanto penteia os cabelos de sua senhora, Nádia, uma das servas, comentava sobre a segunda troca de luas desde que o mercador começou seu conto maravilhoso. Provocante, perguntou à sua colega, alto o suficiente para sua senhora ouvir: “Que tesouro poderia o mercador querer?” A princesa não dormia direito já algum tempo, refletindo sobre a decisão final. Seu coração não queria ser a razão da morte do jovem que lhe proporcionava tanto prazer, mas como soberana não deveria decidir levianamente. “Que tesouro poderia ele querer?” Perguntou ela mesma à sua serva mais antiga, Zulmira, que estava diante de si. Ela respondeu: “Vossa Alteza, o jovem Farhad Al-Naim, herói do conto, saiu em busca de ter o coração da Fada Jandira Al-Nour e é esta aventura que o mercador Halam Al-Hakim vos conta. Posso apenas supor que se trata de uma indireta ousada do mercador...” A pergunta sobre o tesouro invadiu os pensamentos da Princesa Layla Al-Jamilla quando novamente encontrou-se com o mercador de Zenóbia em seu salão, olhando um de frente para o outro. Depois de uma mordida e um gole, esperou o sinal da princesa para retomar a história. Com o coração eufórico, sinalizou para a serva que virasse a ampulheta:
Farhad Al-Naim mantinha os olhos fechados e rezava pela quimera vencida. Uma voz gentil, semelhante ao som de pássaros a cantar e de crianças rindo em um dia ensolarado de verão, convidava-o... “Para entrar no jardim de Mil Portas, é preciso matar a guardiã, porque o sangue dela faz florescer a neve... Não se preocupe, Farhad Al-Naim, todo corpo padece, mas seus pedaços vivem entre as estrelas... Vá e cumpra sua sina...” Abriu os olhos sentindo seu coração mais leve.
Olhando ao seu redor, percebeu que a paisagem branca tingida com o sangue vermelho se tornava verde brilhante. A neve dava lugar a uma grama macia e cheia de flores miúdas. Não via mais o corpo morto, este devia ter se dissipado com a poeira no vento e transformado na revoada de borboletinhas que dançavam à sua frente. Farhad dava passos cautelosos ao pisar neste solo santo. Parecia uma tarde de primavera no campo florido. O sol brilhava alto no céu, emoldurado por nuvens voláteis a deslizarem no azul com o carinho do vento. O cheiro de flor e grama na chuva davam-lhe paz e por um momento ele pensou em parar e ficar por ali para sempre. Caminhava distraído, absorvendo todas as delícias daquele lugar. Esqueceu-se de quem era e o que fazia. Passeava encantado com as maravilhas de uma manhã no campo. Uma borboleta amarela e branca aproximou-se dele, pousando na ponta de seu nariz. O toque gelado o fez lembrar da fada de gelo, a bela Fada Jandira Al-Nour.
Lembrando-se de sua missão, olhou ao redor em busca da torre da Deusa Um-Carim Tamara Al-Miray. Percebera também que as árvores tinham portas... As pedras também... Deu-se conta de que aquele lugar era o ponto de convergência de muitos portais e que, portanto, teria de prestar bastante atenção para onde ia... O chão à sua frente tinha um alçapão aberto, por onde descia uma escada... A cada ponto onde olhava, havia um caminho a seguir, um lugar para ir... Para encontrar a direção certa, pediu à borboleta que lhe indicasse. Ela pareceu concordar, voando em torno do rapaz. Guiou-o por uma estrada imaginária, esperando pelos passos hesitantes do jovem.
Depois de uma breve caminhada, encontrou a torre de pedra. Uma construção velha, de pedras enormes cuja dimensão era tão alta que parecia tocar o céu. Trepadeiras forravam sua superfície e davam ao lugar o aspecto de abandono. Contornou a torre em busca de uma entrada, topando com um arco de pedra e duas figuras grotescas em cima de colunas a servir de porteiros: dois corpos de cócoras a pesar por debaixo de grandes asas de morcego, queixos protuberantes onde os caninos inferiores sobressaiam, ambos de tez baixa a esconder os olhos pequeninos e puxados como os de um felino, as garras afiadas das mãos e dos pés cujos dedos eram apenas três. Entre eles haviam um marco sem uma porta, apenas uma parede de pedra.
Quando Farhad Al-Naim se aproximou, os porteiros de carrancas horrendas e demoníacas lhe dirigiram a palavra: “Só poderá adentrar a torre aquele que souber quem somos.”, disse o primeiro. “Aquele que não souber quem guarda a porta do Destino, não tem motivo para manipular suas linhas.” Completou o segundo. Ajoelhado, Farhad esperou pelo enigma. O primeiro disse: “Somos dois irmãos inseparáveis, faces da mesma moeda. Tudo que me pertence será dele, que sempre terá nada. Indo e vindo como um sopro, somos levados ao sabor do vento dos caprichos e das incertezas. A mim, todos amam, sempre requisitado e festejado, mas nem sempre bem quisto, pois por vezes me torno insuportável.” O segundo prosseguiu: “Eu, benevolente e justo, sou a quem todos rechaçam, amedrontados ou furiosos, mas sempre acabam por clamar-me desesperados pelo bálsamo do meu fel. Como faces da mesma moeda, jamais existiremos um sem o outro, no entanto, jamais coexistiremos. O que é dele não me pertence, pois nada é tudo que tenho.”
Encarando os guardiões, o rapaz respondeu solenemente: “De frente para a porta do Destino, os dois irmãos com quem me deparo são a Vida e a Morte, as duas pontas entre as linhas que a Deusa Tamara Al-Miray vive a manipular.” As vozes imparciais das feras decretaram em uníssono: “Está correto, Farhad Al-Naim. Permitiremos sua entrada. Lembre-se que para entrar, seu coração não pode carregar nada além que seu peso.” O jovem retrucou: “Não guardo em meu coração nada que o peso da esperança. Não o tenho acorrentado pelas mágoas ou nem ancorado pelos arrependimentos; o que está feito não me cabe mais mudar. Quero apenas o que estiver em meu alcance.”
Da porta surgiu um braço assombroso que arrancou do peito de Farhad Al-Naim seu coração. A mão fechada em punho transformou-se em no prato esquerdo da balança. No prato direito, encontrava-se uma pluma branca, símbolo de um coração leve e justo. O coração pulsante do jovem batia descompassado, tal como faria se ainda estivesse em seu peito ansioso. Farhad Al-Naim fechou os olhos à espera do julgamento. Os porteiros da Torre concluíram que seu coração passara no teste. O prato da balança tomou novamente a forma medonha, e o braço esticou-se até ele para colocar o coração no seu devido lugar. Abrindo os olhos, Farhad Al-Naim percebeu a porta aberta para ele.
Assim entrou na torre, cuja entrada dava para a ponta de uma escada infinita. A cada degrau da longa escadaria circular era atormentado por uma figura demoníaca: pequenos diabinhos voadores que vinham atormentá-lo, mordiam-no, batiam-no, perguntavam-no com vozes estridentes o que fazia lá... Tudo faziam para que o rapaz interrompesse a subida, que desistisse de seu objetivo. Estava tão perto que parar agora não seria apenas tolice, seria imprudente afronta. Subia determinado, suportando quaisquer que fossem os desafios, não importando o quando doessem os golpes, ou quantos degraus regredia, Farhad Al-Naim obrigava-se a seguir em frente. Enquanto ascendia a escadaria que não parecia ter fim, o rapaz refletia sobre Said A-Faruk: teria suportado tudo isso? O quanto Muhtal Al-Jinni teria o ajudado? Em algum momento arrependeu-se? A necessidade de reparar o erro e o desejo de ver a Fada Jandira Al-Nour eram as forças motivadoras que o impulsionavam e o faziam tudo suportar.
Deparou-se com uma pequena porta de madeira que o obrigou a ajoelhar. Não havia maçaneta, apenas a aldrava enferrujada. Segurou a alça pesada e bateu três vezes. A porta, que estava trancada, abriu-se como se uma gentil brisa fosse o suficiente para movê-la. A sala onde estava era biblioteca rodeada por estantes de livros que se estendiam até o teto, tão alto que não se podia ver o fim. As paredes de pedras escuras como se estivessem molhadas de chuva eram iluminadas pela cor de estrelas brancas que vinham do livro da deusa. Na lateral, podia-se ver o céu estrelado do lado de fora das altas janelas da torre. Farhad Al-Naim perdera o fôlego diante de tanta beleza. De frente para ele, uma mulher enorme sorria para ele.
Ajoelhou-se e abaixou a cabeça diante da Deusa Um-Carim Tamara Al-Miray. Esta tinha a aparência de uma mulher cuja altura equivalia a quatro do rapaz; a pele negra coberta por pintas brancas como se ela própria fosse o céu estrelado da noite a expor constelações inteiras por seu corpo. Um-Carim Tamara Al-Miray tinha os cabelos longos, crespos e revoltosos. Suas faces coradas e gentis, eram brincalhonas como as de uma menina travessa, onde residiam seus olhos cintilantes como dois sóis. Tinha o corpo de uma mulher madura, corpulenta e de seios fartos e desnudos, vestia uma túnica branca de linho finíssimo a cobrir o ventre estendido de uma grávida. Tinha seis braços: um par brincava com o pó de estrelas como se fossem tecessem um fio brilhante; outros dois ajeitavam-no tear a formar um pergaminho e os últimos dois escreviam na folha estendida na mesa. Ao olhar para a borda de sua túnica, via apenas uma das pernas, pesada e cheia de varizes como seriam a de uma velha.
Ela lhe cumprimentou sorridente e sua voz parecia trazer o sopro do passado e os ventos do futuro. Quando falava, ouviam-se três vozes: uma voz alegre e infantil como a de uma menina, a voz de uma mulher madura e atraente e a voz rouca de uma velha moribunda. “Seja bem-vindo, Farhad Al-Naim, filho de Nerum, neto de Samael, sapateiro de Girah, ao nosso reencontro.” Ainda prostado, Farhad começou: “Ó, deusa venerada, Um-Carim Tamara Al-Miray, venho em missão...”
Um Carim Tamara Al-Miray completou: “...De desfazer os erros que cometera o inconsequente Said Al-Faruk. Atendendo à súplica da Fada Jandira Al-Nour, ajoelha-se aos meus pés para implora-me que eu desfaça a maldição que une as vidas dos dois pela eternidade afora, ainda que seja exatamente isto o que há várias eras me implorou que fizesse... Aos quatro cantos do mundo já repetiu seu pedido... Diga-me: Seu coração finalmente conseguiu responder o que perguntava até então”
Humilde, o rapaz respondeu: “Vós sabeis melhor que eu, ó, venerada Senhora dos Destinos.” A Deusa gargalhou divertida com a resposta. “Veio me ver antes para fazermos um acordo, porque queria o amor da Fada Jandira Al-Nour. E agora retorna até mim para desfazer o acordo, porque quer o amor da Fada. Diverte-me explicando.” Farhad Al-Naim riu junto dela. “Não estais enganada, Majestosa Deusa. Se antes vim até vós para obrigar a Fada Jandira Al-Nour que me amasse, tentei somente obrigá-la que me entregasse tudo o que lhe pertencia sem oferecer-lhe nada em troca. Hoje, venho até vós, sacrificando tanto quanto posso para dar a ela tudo que tenho, em troca apenas do que a Fada quiser me oferecer... Se inverti os papeis, meu desejo continua o mesmo.”
“Isso posso ver. Reescreve o destino entregando a pena ao léu... Farhad Al-Naim, o que me trouxe de presentes em pagamento por meus serviços?”
Tirando da bolsa, ofereceu à Deusa: “A estimada Fada Jandira Al-Nour mandou-lhe caramelos de rosas, para a doce menina; para a bela mulher, um colar de diamantes; para a velha senhora óleo de lavanda.” Contente, Um-Carim Tamara Al-Miray aplaudiu os presentes, rindo-se bastante satisfeita. “Agradeço a Fada Jandira A-Nour pelos belos presentes. De Farhad Al-Naim, peço a memória mais feliz de infância; três gotas de sangue que queima de paixão; e teu suspiro final.” Ele aceita.
Do alto da estante, um pergaminho abrindo desceu até o colo da Deusa, estendendo-se sobre sua mesa. Fluía como um rio obedecendo ao movimento de um par de mãos, procurando o ponto ideal. Então pousando as mãos sob o fólio, a Deusa faz com que letras escritas se decompusessem em linhas cintilantes a soltarem-se da página, voando como fitas pelo ar. Ao ascenderem até os lábios de Um-Carim Tamara Al-Miray, foram sopradas gentilmente e tornaram-se finíssimo pó. Este juntou-se à poeira das estrelas. Voltando-se para o rapaz, sorriu travessa: “Está feito. O destino mortal do homem Farhad Al-Naim não está interligado ao da Fada Jandira Al-Nour por força do destino. Estão livres seus caminhos para onde quiserem seguir. Não os unem mais os grilhões da eternidade, e por isso toma cuidado.” No piscar de olhos, Farhad Al-Naim estava fora da torre, de volta ao jardim de Mil Porta. Os dois eram livres para se apaixonarem. Pensou com o coração em ebulição.
Lembrando-se do comando da Fada Jandira Al-Nour, bastou apenas levantar uma maçã de rubi e chamar pelo nome de Zyan que o corcel estava ao seu lado. Deu a fruta para o animal, pedindo-o gentil que o levasse até a Fada Jandira Al-Nour. Dando-lhe permissão, o alazão deixou-o que o montasse e foram direto para o Palácio de cristal.
O coração de Farhad Al-Naim não parecia ter mudado. Talvez estivesse mais leve por não carregar o passado nem o peso da maldição. Contudo estava certo de que a amava e que desejava passar com ela sua vida. Pensava então na decisão final da Fada: ela, imortal, que viveu tantas eras e suportou tantas mortes de seu “amado”, teria outra visão de amor. Agora livre da maldição, poderia simplesmente não corresponder a afeição como antes fizera. Sua gratidão obrigá-la ia a recompensá-lo, mas isso não significava que ela o amaria. Teriam seus sentimentos mudado? A esperança, que o acompanhou durante a viagem toda, na reta final fraquejava. Farhad Al-Naim temia que o resultado de seu sacrifício não fosse o tesouro que almejava e, no entanto, não poderia ele esperar outra coisa que não isso. O amor que queria da Fada Jandira Al-Nour só poderia ser o verdadeiro, nada de artifícios ou mentiras. Ainda que não o recebesse, seria infinitamente melhor do que qualquer maldição ou ilusão.
Em dois dias de viagem, chegaram ao Palácio de Cristal, onde foram bem recebidos pelas moçoilas de cristal. No salão, deram ao rapaz e ao corcel o que comer e abrigo para descansarem da longa viagem. Farhad Al-Naim procurava pela figura da Fada Jandira Al-Nour, sem encontrá-la. A fome e o cansaço não lhe pesavam tanto quanto tal ausência. Perguntando pela Senhora do Palácio de Cristal, Farhad Al-Naim só recebeu uma única resposta: “Ainda não é hora de vosso reencontro.” Frustrado e ansioso, almejava apenas ver a Fada e finalmente ouvir dela a decisão tomada. Contudo, por mais que perguntasse, as servas repetiam a réplica: não era a hora do reencontro dos dois. Resignado, aceitou comida suficiente para forrar o estômago e esperou até que Zyan terminasse a refeição e concordasse em levá-lo de volta para casa – quando a Fada Jandira Al-Nour resolvesse recebê-lo, estaria de braços abertos; até lá aguardaria na casa dos pais, matando a saudade que tinha deles.
As moçoilas de cristal preparam para ele um cofre para a viagem, onde continha um tesouro para levar aos pais do sapateiro. Ainda que não quisesse parecer ingrato, Farhad Al-Naim recusou o presente: “Não poso aceitar nada da Fada Jandira Al-Nour se ela não está aqui para me entregar. Aceitarei o que ela quiser me dar de suas próprias mãos.” Terminado de dizer, pediu a Zyan a montaria e rumaram para a casa de seus pais. Ao chegar, abraçou os dois, que suspiravam aliviados ao ver retornar são e salvo o filho amado. Farhad Al-Naim trazia consigo todos os presentes que levou na viagem: a capa mágica, a espada e uma última maçã de rubi que deu ao corcel antes de ele partir. Contou aos pais tudo sobre sua viagem, sobre a missão imposta pela Fada e do tesouro que receberia. “Deixou o ego falar mais alto e não aceitou o presente, meu filho.” Disse sua mãe com a voz tristonha. “Talvez, querida mãe, mas não supôs que seria justo aceitar o presente de quem não estava lá para me dar. Não há tesouro maior para mim do que a resposta da Fada.”
Na manhã seguinte...
A ampulheta calou o mercador Halam Al-Hakim que encarava os gentis olhos da Princesa Layla Al-Jamilla. No fundo de seu coração, a Princesa sabia que a história do jovem chegava ao fim e portanto, cabia a ela logo decidir também se gostava de seu conto ou se permitiria que a lâmina de uma espada o calasse pela eternidade. Seu coração afoito queria o fim da história, mas não o fim do contador. Mesmo que pudesse ordenar que a ampulheta fosse novamente girada, quis dar a ele mais um dia de vida, mais um dia para ela decidir se quer dar a ele o tesouro que ele lhe pedir.
***
Ao fim da leitura, desejou poder encontrar com a deusa do Destino e perguntar a ela o que fazer. Seu coração batia desgovernado. Por que a Fada não veio recebê-lo? Não queria estar com ele? Era essa a forma dela de desprezar o amor do herói? Farhad não merecia tamanha crueldade! E a princesa?! Será que ela gosta de Halam Al-Hakim? Será que ela quer dar a ele seu coração? Como ela poderia decidir? Os pensamentos de Mônica foram interrompidos por sua mãe que tinha o telefone na mão. Magali queria falar com ela, queria saber quando ela iria para o ensaio. Ensaio?! Mônica apressou-se para sair de casa. Tinha estado tão distraída com a carta que havia se esquecido de tudo. Agilizou o passo para chegar o mais depressa possível. A turma toda já tinha começado a ensaiar a música e não pareciam contente com o atraso, mas perdoaram a amiga deles.
Encerraram no fim da tarde. Os quatro amigos caminhavam juntos até suas casas. Mônica estava cansada, mas feliz pela amiga. Magali elogiava o progresso da banda, enfatizando no quão bom era o repertório deles. Também comentava dos detalhes da festa, animada com os planos de domingo. Cascão e Cebola faziam algumas brincadeiras com o que Magali dizia. Iam devagar, aproveitando mais um pouco do tempo juntos. Em casa, Mônica deixou o corpo cair na cama. O cansaço daquele ensaio perturbava seus ossos. Durante a música, ela não conseguiu evitar de olhar para DC, ainda que tentasse ao máximo não dar bandeira, desviando os olhos logo em seguida. Por sorte nenhum dos amigos perguntou do trabalho de Literatura, ela não saberia o que dizer. Lembrando disso, a imagem do caderno preto voltou à sua mente.
Levantou-se depressa e sentou-se à escrivaninha. Mexendo na mochila, encontrou-o em meio às suas coisas. Durante o ensaio, DC não comentou do caderno perdido, seria então um sinal de que ele queria que ela realmente lesse o que estava escrito ali. Seu coração batia tão rápido. Folheou por alto as páginas, encontrou poemas, trechos de história, frases soltas, desenhos rabiscados... Anotações e planejamento da história que ela já tinha lido... Proposital confissão?
Enquanto Mônica folheava por alto, sentia imensa vergonha. Claro que ela teria crises morais, afinal ela era uma boa garota, e invadir a privacidade dos outros é errado. No entanto, conhecendo DC, isso devia ser parte do plano dele, é basicamente ele dizendo: vai Mônica, lê! Igual ele fez com o moletom e a regata preta. Se ele não quisesse que ela visse aquela bola roxa, não teria tirado o moletom – teria assado naquela coisa estúpida ou simplesmente teria usado uma blusa de manga que tampasse o ombro. Ele queria que ela visse, e isso, senhoras e senhores do júri, é prova de que ele deixou o caderno exatamente para ela ler! Pronto, o martelo bateu e ela decidiu xeretar sem culpa. Nas páginas iniciais, somente o trecho da história, o que Farhad Al-Naim precisava fazer na sua missão até a Deusa do Destino. Um rabisco para imaginar a quimera, muito feio por sinal, um rascunho da Deusa Tamara Al-Miray, com seus cabelos estrelados cheios de glitter, frases cortadas... Mônica foi passando as páginas, deparando-se com o poema:
Friendzone
Não me importaria de me candidatar para ser só seu amigo
Mas meu currículo era para outro setor
Ou a agência de empregos cometeu um erro
Ou você não soube encaminhar, meu amor
Não aceito salário menor que beijos e sessões de amassos
Seria castigo me contentar com abraços,
ficar só do seu lado sendo apenas amigos,
enquanto os carinhos no escuro são reservados
para o cargo que você recusa me dar
Não me encarcere na zona de amigos,
Só cometi o crime de querer você demais
Ou me aceita para uma entrevista para o cargo certo
Ou me manda embora de vez, por justa causa
Não posso ser seu amigo querendo você o quanto eu quero
Enquanto escutava à Dimensão de Clarice Falcão e Pretty girls de Prozzak, escrevi:
Garota dos meus sonhos,
Não há ninguém melhor que você para ser
a protagonista das minhas fantasias
Não sei se você gostaria dos papeis que escalei pra você
Mas, toda noite, você encena contente
Os sonhos mais lindos dos quais não quero acordar
Na noite passada, matei o dragão e te tomei nos meus braços, princesa
No barco pirata da semana passada, encontrei meu tesouro nos seus olhos, sereia
Na ilha deserta de uma quinta qualquer sobrevivemos ao naufrágio a base de beijos, salvação
Na terça-feira, te convenci a não fugir do lobo, porque ele não era nada mau, chapeuzinho
No mês passado, na maca do hospital você cuidou da minha dor no coração, enfermeira
No outro dia, você fugiu comigo no avião com destino para as nuvens, andorinha
Ainda que fosse pecado, no sábado passado, queimamos no fogo da paixão, anjo
Bela, você salvou a fera, no domingo à noite, quando prometeu que me amaria pro resto da vida, e eu vou te fazer cumprir as promessas, porque palavra dada é palavra cumprida
Sonho com você é melhor
do que o de padaria
Bem mais doce e gostoso
Comeria todo dia
Não sei como você pode estar aqui se passa o tempo todo na minha cabeça
O tanto que eu penso em você é considerado crime em pelo menos 17 estados...
Diante de tais declarações, Mônica fechou o caderno com as faces rubras. Deixou-o de lado e foi para cama. Apesar de não conseguir dormir, forçou-se a fechar os olhos. Não pôde evitar de ver os olhos negros dele lhe encarando. Se ele a pedia seu coração, ela lhe entregaria? A resposta da princesa não era óbvia, mas Mônica sabia qual era a sentença final, ainda que evitasse admitir.
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