1001 cartas para chegar até você
13 Capítulo 13 – Lista de suspeitos
Mônica não soube o que responder quando ele sugeriu Cebola como o remetente anônimo de suas cartas. O que ele esperava ouvir? No fundo, DC talvez só quisesse ouvi-la dizer que não, que sabia muito bem que o autor das cartas não poderia ser o rival, já que ele não é bom em Literatura... Se as cartas tivessem fórmulas matemáticas, aí sim. DC acrescentaria cínico: “Ou se tivessem pelo menos três menções ao MIT por página, aí sim era ele.” Mas a reação dela o deixou sem palavras, sem respostas rápidas e insolentes. A boca dele tinha ficado seca quando ela o perguntou direta. “O que o autor quer dizer?” Magali o salvou, ainda que talvez ele não quisesse ser salvo. DC rolou na cama a noite toda, sem conseguir pregar os olhos.
No sábado, depois do almoço teriam de ensaiar mais e ele a veria novamente. A maquiagem da mãe ajudou-o a disfarçar as olheiras, ainda que nenhum mantra fosse capaz de acalmá-lo naquele momento. Será que ela chegaria mais cedo? Será que de novo o confrontaria? O coração dele batia como se tivesse mais de mil baquetas a socar uma bateria. Era alto, doloroso e incessante. As mãos suavam e não conseguia se concentrar nas cordas do violão. Tentar praticar um pouco antes do ensaio mostrou-se inútil.
Mônica chegou ao lado de Magali. Mais uma vez ele ponderou se a bruxinha do Limoeiro estava sendo prestativa ou se estava propositalmente atrapalhando. Disfarçou seu próprio desapontamento e forçou-se a concentrar na música. Tudo pelo bem maior, ainda que isso significasse ajudar a pedrinha no seu sapato. Devia admitir: era difícil recusar qualquer coisa a Magá. Principalmente porque ela estava tão satisfeita com a ideia de serenata, de fazer um gesto tão romântico para o namorado. E DC não pode evitar de sentir inveja disso: da alegria genuína, do empenho constante e da tímida confissão de amor para o público: declararia em voz alta sua paixão não só ao amado, mas a todos em volta. E DC queria ter a mesma coragem, queria esse amor idiota que exige que todo mundo saiba; gritaria no topo de um prédio a plenos pulmões que ele a ama! Mesmo que fosse clichê. No entanto, sua boca ficava seca e ele sentia-se bobo por querer algo tão escandaloso, passional, tolo.
Cascão e Cebola chegaram um pouco depois que as garotas. Logo pegaram o ritmo da canção. A troca de olhares entre Mônica e o garoto de cinco fios era uma facada em seu coração. Ainda que sutil e disfarçado, pareciam compartilhar a serenata de Magali, confessando discretamente seus próprios sentimentos. Mônica, sendo a segunda voz, repete as palavras da amiga como se fossem suas, dirigindo-se ao amigo de infância. E por mais que DC queira desviar o olhar, não conseguia. Ele queria que ela o olhasse ao invés de fechar os olhos, ou olhar de relance o garoto na guitarra bem próximo a ela.
Fizeram um intervalo para comer alguma coisa. Cebola aproveitou para sair mais cedo, já que iria ver a apresentação de ballet de Maria Cebolinha. O pai o buscou. O restante foi para a cozinha, comer os sanduíches que a Dona Keiko preparou. DC não tinha fome, seu estômago estava embrulhando ante os sentimentos revoltosos que o perturbavam. Disfarçou bem, nada era mais normal do que ele agir de forma anormal. Logo voltaram para o trabalho, rendendo mais algumas horas. Consertaram uns versos, alguns pontos da melodia aqui e ali. As horas voaram. Quando terminaram, o trio de amigos ia embora juntos, deixando-o só com seus pensamentos e sentimentos conflitantes. Não demorou muito para Mônica voltar à garagem com a desculpa que esqueceu o celular. Que conveniente. Era perfeito demais para não ser aproveitado.
— Devia ter caído da bolsa. – Mônica desculpava-se, enquanto procuravam pelo aparelho no chão da garagem.
— E a carta, recebeu mais uma? – DC tentou simular desinteresse, mas não pôde evitar o tom ansioso na voz trêmula.
— Ainda não... – Mônica respondeu seca, fingindo procurar o celular, mantendo a cabeça baixa.
— E está gostando da história? – ele continuou vacilante, fingindo ajudá-la, mas tentando ver seu rosto.
Mônica hesitou por alguns instantes, sem saber o que responder. Admitiu por fim:
— Gostaria de saber o que acontece no final, satisfazer a curiosidade... – uma pausa antes de olhar nos olhos dele, como se o examinasse – Há muitas pontas soltas ainda, quero respostas.
— Acho que você devia agarrá-las e amarrá-las. – DC brincou, mas ela não fez caso.
— Não consigo entender muita coisa do que elas querem me dizer... – o ar ficou preso, nenhum riso no mundo aliviaria aquela sensação desconfortável. O que não o impediu de fazer graça:
— Acho que interpretação de texto não é seu forte... – fazendo-se de ofendida, Mônica devolveu a sutil ofensa com um soquinho de leve no braço dele.
A frustração estampada na cara da garota era uma das razões pelas quais DC gosta dela: Mônica era um livro aberto, veste tanto os sentimentos à flor da pele, que se tornava transparente. Devia ser por isso mesmo que o Cebola pensava que ela era invisível... Uma voz interna o condenou: “e o que você está fazendo melhor do que seu “rival”?” Talvez nada, mas DC não tem a vantagem de a Mônica gostar dele, nem de ter a turma toda torcendo pelos dois. Ele nem sabe como conquistar uma garota... Talvez as cartas não sirvam mais do que para isto: ser um jeito de obrigá-la a pensar nele, de tentar decifrar o que o autor quer dizer...
— O que você supõe que isso tudo significa, sabichão? – Ela perguntou como se o desafiasse.
— Passatempo? – o tom de galhofa na voz era mero disfarce.
— Acho que o autor devia conhecer a internet, então. – a resposta dela mesclava raiva e desaforo. Mônica voltou a procurar pelo celular, ignorando-o.
— E qual seria a graça? A tecnologia tirou o prazer da espera, não acha? O endereço IP faz o usuário ser um código traçável, alguém rastreável. Qual é a graça de não ser um fantasma?
— Então é isso que o remetente quer? Ser um fantasma? – ela encarava-o incrédula. Pela cara dela, o remetente se tornaria um fantasma assim que ela o golpeasse diversas vezes com seu poderoso coelhinho ou se apenas usasse o bom e velho estrangulamento.
— Hipoteticamente falando... – ele fez uma pausa, tentando recolher suas ideias – Não é engraçado como os fantasmas são invisíveis? Aqui, agora há vários deles, como na sua casa também tem. Mas eles passam desapercebidos...
— Não é engraçado, é assustador. – ela disse olhando ao seu redor, com medo dos fantasmas.
— Não acho. É legal como, de alguma forma, todas as coisas são meio que fantasmas, são rastros de algo que aconteceu ou de alguém. Servem de âncoras para o que não está mais lá. – ele reparou no olhar dela, confuso, mas atento – Por exemplo: o vestido que você usou no aniversário não te faz pensar naquele dia? Ele é como uma pegada para o fantasma daquela festa... Ou os presentes da sua vó que mora longe servem como um lembrete dela, o fantasma dela. Não significa que ela está morta, significa apenas que ela deixou um pedaço de si nos objetos que deu a você. E eles, por sua vez, fazem você se lembrar dela... Em termo de figuras de linguagem, seriam metonímias: uma parte pelo todo. Um fantasma no lugar de algo ou alguém... Não sei se faz sentido, talvez “fantasma” seja um termo muito carregado de negatividade, mas... Ei, não me olha assim!
— Assim como?
— Como se fosse me internar. – Ela riu. Como os anjos devem rir, porque fazem tudo ficar bom.
— Talvez “fantasma” realmente não seja a melhor palavra mesmo. – ela admitiu – Mas a ideia é... graciosa. Talvez “espírito”? Como Zeitgeist, “espírito do tempo”, que permeia os artistas de um tempo e os faz ter produções artísticas parecidas.
— Pensei que o nome disso fosse “Hollywood não tem ideias originais e quer ficar insistindo no que dá dinheiro até o público se cansar”.
— Zeigeist, para encurtar. – os dois riram.
E o coração dele batia descompassado. O ar ficou retido na garganta e DC quis que o tempo parasse. O celular de Mônica tocou naquele exato momento, chamando-os à realidade. Era a mãe dela, porque estava ficando tarde e ela tinha que ir para casa.
— Vixi, tenho que ir, senão minha mãe vai me matar...
— Pelo menos agora você achou o celular. – sorriu.
Ele quis se oferecer para levá-la, mas é claro que ele não podia fazer isso. E se ela pedisse, ele não poderia simplesmente dizer um sim, o Do Contra tinha que dizer não. Mônica despediu-se apressada, sem se preocupar com os “se”. Por que ele tinha que ser assim? Tinha alguma coisa de errado com o cérebro dele?! Talvez a mãe dele pudesse levá-lo ao médico. Será que lobotomia ainda é legal em algum lugar do Brasil? E no Japão? Uma voz solene dentro de sua cabeça declarou: não se deve mudar pela pessoa de quem você gosta. Alguma comédia romântica um dia falou isso também. Claro que neste mesmo filme, no segundo ato, a garota nerd tira os óculos e passa a usar roupas mais sensuais, conquistando assim o “amor de sua vida”. Mensagem conflitante. É o amor que arde sem doer, ferida que dói e não se sente... Vinícius que o perdoasse, mas essa merda doía sim! E muito. Chegando a doer fisicamente!
Ele jogou o corpo na cama.
— De qualquer forma, para concluir o raciocínio, srta. Souza... Quando você aceita a carta, é como se aceitasse o convite deste fantasma, deixando-o entrar na sua vida... – Era isso que ele queria dizer por fim, mas o celular, essa benção amaldiçoada, não deixou!
Como foi bom ficar com ela... Por que ela tinha que ser assim? Perfeita? O que ela queria que ele dissesse? O que o “eu-poético” planejou com as cartas? Por que ser tão evasivo e misterioso com a garota mais direta do Limoeiro? Porque ele não sabia como chegar no coração dela. E se planos infalíveis garantiram um lugar certo pro Cebola... Não, ele não queria ser o Cebola, queria apenas alguns benefícios sociais que o Cebola tem: estar junto de Mônica; ouvir de todo mundo que os dois são feitos um para o outro; que ficarão juntos para sempre. Ou talvez seja só um capricho dele de contrariar o que o “destino” reservou para a dona da rua, mudar o par romântico... Queria ter os olhos delas fixos nos dele, de poder sentar próximo dela, de ter direito a seus abraços e principalmente de ter uma chance com ela...
Será que Mônica realmente pensou que as cartas poderiam ser coisa do Cebola? E ele por acaso tem tempo para alguma coisa além dele mesmo?! Será que a música foi uma indireta metafórica demais? Ele deixou pistas como João e Maria deixaram as migalhas no caminho. Talvez os passarinhos... Que passarinhos? Tem minhocas na cabeça dele. Mônica parecia tão próxima dele, porque ela continuava tão longe? Porque DC a mantinha a uma distância segura.
Mônica perguntou se foi ele, ele se recusou a assumir a culpa. Ela retrucou: “Quem, então?” e ele disse: “Quem não?” Ela pediu ajuda, e ele ajudou, mesmo que isso fosse um tiro no próprio pé. Ela o perguntou “Por quê?”, mas ele não soube o que responder. Farhad Al-Naim luta para perder tudo que ele mais quer. Errado. Ele busca amor verdadeiro e para isso ele não quer que o destino seja o juiz a proclamar uma sentença. Não importa passar a eternidade se encontrando com a fada, não importa o quão apertadas sejam as correntes que os prendam juntos. Farhad Al-Naim quer ser escolhido e amado por quem ele é...
Mônica guarda todas as cartas em uma pasta, arrumadinhas com carinho. Deve folheá-las como um livro. Escondeu de Magali, provando que não dividiu com mais ninguém. Era o segredinho dos dois. E se DC admitisse ser o remetente anônimo? Será que as cartas ainda teriam algum valor ou a garota ficaria decepcionada demais? No primeiro dia, Mônica invadiu seu quarto com raiva, uma parte dele esperava que ela continuasse sendo impetuosa assim sempre... Claro que ele não ia se contentar em ficar confundindo a cabeça dela... E o que ele faria? Iria encostá-la na parede e, quase a beijando, sopraria na cara dela! Ele pegou o travesseiro e colocou por cima da cara. Seu rosto estava queimando e ele queria rir e chorar, porque isso era exatamente o que ele faria, perdendo assim a chance de um em milhão de ficar com Mônica Sousa. Ela nunca mais iria olhar na cara dele. Imaginar o quanto seria engraçado vê-la furiosa fazia quase valer a pena perdê-la de vez.
Perdê-la? Só o Do Contra para achar que ele tem uma chance com a garota cujo par romântico, “amor de sua vida”, foi escolhido pelas próprias moiras: Clotos, aquela que tece o fio, fez Mônica nascer perfeita e, por desatenção, criou Cebola; Lackesis, a que mede as meadas, deve ser responsável pela sacanagem: entrelaçou os fios da vida dos dois, a tal ponto que parecessem um só; E Atropos, aquela que corta o fio, sentenciou que assim estava escrito e assim seria até o fim... Devia começar a rezar para Hermes, deus dos ladrões? Talvez assim conseguisse roubar o coração da garota. Rezaria ao panteão grego todo se tivesse uma chance ínfima de ficar com ela. Abraçou o travesseiro procurando conforto emocional.
DC refletia sobre a conversa que tiveram. Mônica queria saber as intenções do autor. Por quê? Será que ela o corresponderia? Se ele admitisse que gostava muito dela, o que ela faria? Afinal, o que ele quer? Tornou a pensar na proposta da mãe, o intercâmbio e isso deu um nó em sua garganta. Ele teria que ir para o Japão, era uma oportunidade de ouro! Ele seria estúpido de agir como o Do Contra e recusar a aceitar a proposta. É o futuro dele! O sonho de se formar em Literatura, trabalhar com a língua nativa de seus pais, provar que entende japonês em um nível literário, garantir a realização profissional... Por que ele largaria tudo por um amor inseguro? Não estaria contrariando as expectativas, estaria arruinando sua vida. Seria um completo idiota!
Contudo, seu coração, um tolo apaixonado, gritava com a fúria dos amantes, como se desse voz a todos os namorados que já existiram e como eles repetiu: é por amor e o amor vale qualquer coisa. Lindo na teoria, mas muito pouco prático. Se ele quisesse se casar com Mônica Souza, teria que primeiro considerar uma carreira que garantisse o sustento dos dois, um emprego fixo que pagasse as contas diárias; no momento tudo que ele poderia oferecer era sua adoração. E ainda assim em meias palavras, em segredo, em anonimato. Ela parecia gostar disso, mas não seria um tiro no pé ela descobrir que não é seu amado Cebola o remetente? Tirar dela essa dúvida poderia ser como tirar a boia de um desesperado em alto-mar. Que diferença faria saber quem é o remente ou não?
Toda! DC não gostaria de ir para o Japão sem que ela soubesse de seus sentimentos. Ele quer ser sincero, ser direto, mas ele tem medo. Todos sabem de quem Mônica Sousa gosta... E se ela não corresponder? Ele foge para o Japão; no exílio, há de esquecê-la, contrariando toda literatura que fala de melancolia, nostalgia, saudosismo... A distância traria a saudade, mas seria o bálsamo, obrigando-o esquecimento. E se ela corresponder? Do Contra batia as pernas para cima e para baixo na cama dando chilique, abraçado ao travesseiro em cima de seu rosto.
— E assim é que pretende fazer Seppuku? Não parece muito eficiente nem honrável... – A voz de Nimbus o trouxe a realidade. – Quer uma katana? Vi uma linda na internet hoje de manhã! Vai ser a desculpa perfeita para eu gastar quase mil reais nela...
— E por que eu pretenderia enfiar uma katana nesse corpinho esculpido pelos deuses? – afastou um pouco o travesseiro do rosto, sem deixar de abraçá-lo, apenas para encarar o rosto do irmão mais velho.
— Sei lá, me diz você que está bloqueando as vias áreas com esse travesseiro...
— Pode parecer loucura, mas isso não é uma tentativa lenta e vergonhosa de encurtar minha vida. Eu não tenho nem motivo para morrer agora...
— Não mesmo. Ainda mais que tem ensaio da banda todo dia... A garota de quem você gosta vai passar a tarde com você todos os dias desta semana. Era para você ficar de bom humor... Igual a um cachorrinho abanando o rabo, feliz até que a realidade cruel bata na sua cara: e você se lembra que não estão namorando, que um triângulo amoroso impede a realização plena do seu amor e que a viagem para o Japão...
— Além de me oferecer ajuda para morrer, o que mais você veio fazer aqui? – DC cortou o irmão, sentando-se na cama.
— Estive pensando... – Nimbus adentrou mais o quarto, sentando-se na cadeira do irmão.
— Perigoso isso. Cuidado que para você pode ser fatal...
— Quando é que Mônica Souza vai saber seus sentimentos? Vocês vão namorar? Pretende continuar o namoro à distância? Ela sabe que vocês não têm muito tempo?
— Eu não vou morrer, eu só vou mudar pro Japão!
— Mas vai morrer de saudade... De todo mundo, inclusive e principalmente, senão exclusivamente dela...
— Não pensei sobre isso. – mentiu, desviando o rosto
— Imaginei. Tom Cruise tinha mais chance com a missão impossível do que você...
— De qualquer forma, você está fazendo planos demais para um futuro muito improvável. Sejamos realistas, o oráculo decretou: Édipo vai matar o pai e desposar a mãe. Não importa o que Laio fizer... Não importa o quanto Édipo lutar...
— O que deu em você? Como se isso fosse a tragédia grega! Eu te falei para não ficar lendo esses clássicos... Frankenstein é bem melhor...
— Frankenstein, o Prometeu moderno? O subtítulo faz referência ao mito grego...
— Sim, sim, legal. Mas só responde uma coisinha: quem é você para acreditar no Inevitável? Respeitar as regras do destino como se elas fossem sólidas... Porque, quem quer que você seja, não é meu irmão.
— E por que a torcida insistente? Fez aposta?
— Mamãe apostou vinte pratas que você vai para o Japão solteiro, lá a vovó pode te achar uma noiva de boa família, de valores tradicionais e etc. Eu apostei quarenta que você vai desistir de última hora da viagem, porque sua namorada Mônica vai dizer que está grávida para impedir sua partida. Papai apostou quarenta e cinco que vocês vão manter o namoro a distância, mas que em dois meses você volta, dizendo que não se adaptou ao clima ou alguma mentira do tipo...
— Que legal vocês apostando dinheiro com minha vida...
— Não leva a mal, a gente só queria fazer um dinheiro fácil. – Nimbus alargou o sorriso debochado – Se quiser colocar vinte pratas na sua aposta derrotista, melhor para mim que levo uma bolada maior.
DC jogou o travesseiro no rosto do irmão, que manteve a fachada contente. Devia ser parente do gato de Cheshire. Nimbus levantou-se, jogou o travesseiro de volta na cara do DC, forçando um pouco o corpo por cima do caçula, enquanto dizia sua última palavra de sabedoria: “A hora é agora. Viva o presente para não se arrepender do passado.” Nimbus levantou-se e foi embora, deixando o outro pensativo. A mente de DC foi direto para Mônica, que naquele momento lia a carta que ele deixou na caixa de correio antes do ensaio:
***
No dia seguinte, diante da corte real, Halam Al-Hakim retomou seu conto:
Depois que Zyan deixou Farhad Al-Naim no Extremo Sul, o rapaz lembrou-se da recomendação da Fada Jandira Al-Nour: vestiu a pele de urso, encerrando-se dentro dela como se fora um casulo e fechou os olhos. No momento seguinte, experimentava a metamorfose: o corpo contorcia-se na forma do animal. Altivo, pesado e forte, Farhad sentia-se capaz de realizar a viagem. Definitivamente, agora sentia-se habituado ao clima, guiado pela natureza selvagem. O corpo de urso ajudava-o a se movimentar melhor e suportar o gélido ar que passeava pelas dunas de gelo. Também lhe dava uma destreza ímpar, como se ele fosse um habitante natural daquelas terras que ele próprio jamais vira. Mergulhou na água fria para aproximar-se do continente que ele supunha ter que cruzar. Não esperava que seu corpo agisse tão naturalmente. Sacudiu a água do corpo como parecia ter feito tantas vezes antes e deixou-se caminhar, direcionado por um rumo que ele sabia ser um certo, apesar de não saber explicar o motivo.
Apesar da escuridão noturna e da névoa sombria, ele via bem o caminho à sua frente. O vento carregava a camada mais superficial da neve, arrastando-a como se fosse poeira. Deixou-se dominar pelo instinto animalesco, confiando na sabedoria milenar que sua nova forma parecia ter. Em quatro patas, andava mais rápido e mais seguro. Seus ouvidos eram preenchidos pelos sussurros dos ventos uivantes e o barulho de seus passos, acolchoados pela camada solta de neve superficial. Marchava certo da direção, talvez guiado também pelas estrelas. Acompanhavam-no a esperança e a incerteza. Não havia razão para parar; não viria o sol de um amanhecer amigável e preguiçoso; estava preso naquela arena de gelo, forçando-se a suportar a sensação de desalento. Não se permitiria dar voz aos medos, seriam por demais ensurdecedores. Precisava crer em sua vitória, na felicidade que sentiria a Fada Jandira Al-Nour ao ver-se livre das amarras dos séculos, na possibilidade de beijar seus lábios uma única vez....
A neve cobria seus pés e o coração de Farhad contraía-se apertado. Também sentia dor ao respirar, talvez porque exigia dos pulmões que lhe dessem fôlego e suportasse o frio congelante. Continuava, insistia com o vigor do desespero. Viu aliviado os tons esverdeados brilharem no céu distante. Correu com mais ímpeto, tomado por nova esperança. O coração preencheu-se de uma alegria que lhe consolava. Precisava correr só por mais alguns instantes... Deu o melhor de si e logo viu-se debaixo das luzes mágicas. Sob a cortina dançante de estrelas, safiras e esmeraldas, a figura corpulenta do urso contemplava-a em paz, maravilhado. Permitiu-se sentar pesado sobre o chão de neve, tendo a impressão de que não seria desconfortável. Os uivos do vento soavam como sussurros gentis a cantarem uma canção de ninar. Suspirou fundo com os olhos fechados, absorvendo a calma que aquele local sagrado transmitia. Agora de volta ao corpo humano, abria lentamente os olhos, ainda absorto em sua experiência de plena felicidade...
Estava só. O solo árido do deserto de gelo parecia agora tão distante daquela ilha mágica. Via ao longe nuvens de poeira nevada sendo arrastadas. O céu de estrelas sobre si tinha tons azulados, mais simpáticos do que a escuridão cinza de outrora. Lembrou-se de sua missão. Antes de acessar a torre da Deusa do Destino, Farhad Al-Naim teria de invocar a quimera guardiã. Procurava em sua bolsa pela placa de ouro com as inscrições do encantamento, quando surgiu diante de si uma figura masculina que o fez parar. Nada no homem parecia humano: o corpo imenso, a pele roxa, os olhos amarelos florescente, presas tão grandes como as de um elefante, orelhas largas e pontiagudas. Vestia apenas uma saia de pele de tigre, uma argola na orelha direita e vários colares de contas e ouro. Mantinha o torso nu, que era incompatível com o frio do sul, mas não aprecia afetado de forma alguma. O sorriso de dentes afiados tinha algo de perturbador. Sentado de pernas cruzadas de frente para o rapaz, emanava uma aura imponente, brincalhona e ameaçadora.
Por um breve instante, Farhad Al-Naim cogitou que aquele homem fosse o guardião do portal, mas logo descartou a hipótese. Não era com a espada que teria de enfrentá-lo, uma voz dentro de si alertou-o. O homem gigantesco entre risos fez aparecer do nada uma garrafa de aguardente e dois copos. Sua voz estrondosa e alegre convidou o rapaz a beber com ele. “Brindemos sua vitória, herói.” Estendeu-lhe o copo, abrindo mais o sorriso. Agia como se fossem velhos bons amigos... Farhad Al-Naim estava disposto a escutar o que lhe proporia o desconhecido. Para lhe ser simpático, aceitou o copo, no qual o estranho serviu uma porção generosa da bebida alcóolica. Aceitou, mas não bebeu.
O gigante bebeu o conteúdo todo do próprio copo no primeiro gole, sob o olhar analítico do rapaz, que o encarava com uma expressão indecifrável. O gigante riu, brincando perguntou: “Por acaso precisa esperar o nascer do sol para abrir os portões do Jardim de Mil Portas? Será possível que a querida fada Jandira esqueceu-se de que aqui é sempre noite?” Gargalhou satisfeito com a própria piada. servindo-se de mais um copo. Farhad não acompanhou, observava-o mudo. Por fim, o outro continuou: “O que você faz aqui? Por que está nesta missão, ó Farhad Al-Naim, filho de Nerum, neto de Samael, sapateiro de Girah?” Ouviu a mesma questão de sempre, como tantos outros haviam inquirido. Não mudaria nada responder-lhe a verdade: “Vim pedir à Deusa Um-Carim Tamara Al-Miray que desfaça os laços amaldiçoados que me prendem à Fada Jandira Al-Nour.” Disse com uma voz solene.
Debochado, o gigante replicou fazendo graça: “Então deixou de amá-la? O amor eterno não suportou a prova do tempo? Diga-me, foi o tédio ou a rotina que o matou? Ou melhor, descobriu que é uma farsa o ‘felizes para sempre’? Não o condeno, a eternidade é tempo demais...” Entre risos, bebeu mais um copo e serviu-se de outro: “Não se fazem mais amores eternos como antigamente, não é mesmo?” O escárnio e a galhofa eram componentes intrínsecos à fala dele. O rapaz defendeu-se, encarando-o obstinado: “Amo-a mais do que nunca. Do passado, guardo adormecido o amor que versões anteriores de mim sentiram, como o rastro de um perfume traz uma memória... Do presente, tenho por ela o amor que o feitiço amaldiçoado me obriga além da boa impressão do primeiro encontro. Sei que a amo mais do que antes, porque carrego a soma desses afetos.”
Com o copo próximo dos lábios e o olhar baixo, a criatura declarou: “Pior do que o amor eterno, é o amor impossível... Não se esqueça, nada que fizer mudará o fato de que pra Fada imortal, você não passa de ser humano fraco e perecível. Um amor eterno com data de validade... Ela o vê como mais um que nasceu para morrer. Também, você não deve confiar nas juras de amor: se ela te disser que te ama é porque a maldição a obriga a dizer... Você mesmo sabe que se a ama, são os fantasmas de várias eras lhe soprando os ouvidos. Não podem amar mais do que antes, porque nem é verdadeiro esse amor...”Determinado, Farhad Al-Naim respondeu frio: “E é agora que me oferecerás a chance de torná-la mortal? Ou pretende oferecer-me a vida eterna, Muhtal Al-Jinni?” O gênio foi pego de surpresa.
Nervoso e intrigado, reagiu com uma deliciosa gargalhada, alta, forte e demorada. Divertindo-se, falou: “Vejo que minha fama me precede... E como o bom herói, recusará qualquer proposta que eu fizer, não? Não que você seja covarde e tema o sacrifício... Jamais! Pagaria o preço que fosse por qualquer causa nobre. Porém você é sublime e virtuoso demais para aceitar qualquer proposta vil de um gênio maligno...” O sorriso largo e dentado acrescia mais desdém às palavras debochadas.
Impassível, o jovem declarou: “Não recusarei tuas ofertas, por causa de um senso de superioridade moral nem por me crer um sublime herói. A mim, a eternidade não interessa. Uma vida bem vivida vale mais do que ter todo o tempo do mundo.” Incrédulo, Muhtal Al-Jinni retruca cínico: “Então você não se interessa mais pelo coração da Fada Jandira Al-Nour? Me sinto um idiota por ter vindo até aqui oferecer a você a possibilidade de ter o coração dela...” Bebeu do copo como se estivesse desapontado. O olhar de Farhad Al-Naim caiu para o copo que ainda segurava com as duas mãos. O líquido transparente refletia os tons de verde da brilhante aurora boreal. Voltou a encarar o gênio que o observava suspeito. “Prometes-me o coração dela, como antes prometeras a Said Al-Faruk?” A voz marcava nitidamente asco.
Ignorando, o gênio virou o rosto de olhos fechados para fugir do olhar acusatório do rapaz. Bebeu um gole e prosseguiu com seu típico tom de galhofa. “Admito que esse não foi meu melhor trabalho, mas vim até você, porque tenho uma solução muito mais eficaz.” Estendeu o braço a ponto de ficar bem próximo do rosto do outro. A mão encerrada em um punho abriu-se oferecendo-o um pequeno frasco de vidro brilhante. Farhad Al-Naim olhou-o com uma indiferença curiosa. O gênio prosseguiu: “Garanto que um gole desta poção do amor será o suficiente para que a Fada entregue a você seu coração... Então você me retruca: Uma fada e um humano? Isso não daria certo!” A imitação caricata entra como uma adaga no peito de Farhad, lembrando-o da impossível união; zombando de seu trágico amor e a dúvida faz o coração humano fraquejar. O gênio continua: “O problema: a Fada Jandira Al-Nour é imortal, Farhad Al-Naim é perecível; ele vai morrer, e ela não quer ficar presa a eternidade toda a alguém que um dia vai morrer. A solução óbvia é os dois seguirem seus caminhos opostos e esquecerem um do outro.” A pausa marcava um silêncio pesado, as palavras do gênio eram cruéis como apunhaladas e Farhad Al-Naim parecia desesperado o suficiente para aceitar qualquer solução. Muhtal Al-Jinni sorriu satisfeito, certo de que o fisgou.
Virou a mão estendida a fim de segurar o frasco com a ponta dos dedos, segurando-o bem na frente do rosto do jovem. “Ou a segunda alternativa: a Fada pode beber a poção que a tornará humana e assim os dois pombinhos poderão viver juntos por eras e mais eras, pela eternidade afora... A alma humana está sempre à mercê da roda da vida, subordinada aos caprichos que permeiam tudo que é mortal. Eu sei que você, diferente de qualquer vida passada sua, poderia convencer a fada a aceitar de bom grado esta proposta... Também pode não falar nada, não vejo mal se você quiser dar a ela o líquido sem contá-la, vai ser nosso segredinho...” Soltou um riso baixo e amigável e continuou: “Quando ela beber, nem vai notar. A poção tem um sabor delicioso ao qual ela não resistirá. Garanto que a fada não sofrerá com a transformação, é um processo indolor e rápido... De verdade, todos saem ganhando...”
Farhad encarava o brilho do frasco, com uma expressão enigmática, talvez refletia, ponderando se devia aceitar ou não. Suas reações não respondiam a Muhtal Al-Jinni o que ele gostaria de saber. Portanto, continuou: “Ela o amará como sempre quis. Não precisará se dar ao trabalho de conquistá-la com uma missão tão perigosa, nem matar uma quimera ou atravessar o Jardim de Mil Portas... Também não há o risco de a rotina desgastar o amor; o destino unirá a alma de vocês dois pelas eras: a vantagem de sempre se encontrarem sem ter que viver a mesma vida. Terão eternamente novas chances de se apaixonarem... Tentador, não?”
Como saído de um transe, Farhad Al-Naim voltou o olhar direto nos olhos amarelos fluorescentes do gênio maldito, fungando como um riso de asco. Encarando-o, disse: “Antes Said Al-Faruk devia prendê-la em uma gaiola de ouro e apunhalá-la até a morte, agora devo trair sua confiança e envenená-la? Desculpe-me, mas não vejo a diferença. Oferece-me novamente a mesma promessa falsa de amor omitindo cruel o alto preço que terei de pagar.” A pausa do rapaz fez Muhtal Al-Jinni retrair o braço e guardar o frasco na mão fechada. Escutava atento o que dizia Farhad Al-Naim, com uma expressão de desapontamento. O jovem prosseguiu: “Se um frágil homem mortal não é merecedor do coração de uma fada, só a ela cabe decidi-lo. Se a Fada Jandira Al-Nour rejeitar meu amor, não experimentarei a felicidade que mais almejo; no entanto não seria mais feliz forçando-a amar-me, e atraindo a desgraça àqueles que amo. Não posso destituir uma fada de seus poderes, nem me cabe emaranhar as linhas do destino; muito menos devo esperar que me ame de verdade se um feitiço decide por ela. Muitas vidas pagaram pelo erro de Said Al-Faruk, um alto preço em troca de algo que não merecia tal sacrifício. Quero-a livre, porque assim a amo. E se para a Fada Jandira Al-Nour, eu for pequeno demais, não é diminuindo-a que a tornarei minha igual. Peço então que não tentes me cegar com promessas vãs, pois o preço que me cobras é alto demais.”
Sem muita alternativa, Muhtal Al-Jinni bebeu em um gole único o copo de aguardente, servindo-se logo em seguida de mais um. Seu semblante transmitia enfado e desesperança. Fingindo-se não ter sido afetado pelo humano disse, voltou a encará-lo com escárnio e raiva e falou: “E me diz isso você? Bichinho insatisfeito?! Criaturinha mendicante que a cada chance de vida, pedia uma nova forma? Vai me dizer que está contente, que não deseja mais do que esta vidinha mundana: uma casinha no campo, cinco ou seis filhinhos, uma vaquinha mimosa, galinhas a ciscar e uma terrinha para plantar... Acha mesmo que isso vai me convencer? Eu que vi você passar por tantas vidas, sempre a pedir mais, acha mesmo que eu vou cair nessa lorota?” As palavras do gênio soaram estranhamente tristes.
Respondeu cauteloso: “Não posso falar pelas vidas que tive, pois delas nada me lembro. Não falo pelo futuro, pois ele não me pertence. Falo por meu coração, que agora não quer mais do que lhe ofereceu a roda do destino. Não cabe a mim manipulá-la, nem impor a ela meus caprichos. Espero contente e satisfeito se eu puder terminar esta vida ao lado de quem amo. Não pretendo forçar à Fada uma eternidade sofrendo por quem não ama, nem vou submetê-la a uma violenta transformação. Pedi a ela uma última chance de amor, e somente isso posso almejar.” Com uma gargalhada potente e cínica, Muhtal Al-Jinni retrucou: “Tolo! Pois saiba que está perdendo uma grande oportunidade recusando minha ajuda. Sei que você ainda vai me procurar, vai me implorar de joelhos...”
Interrompendo o gênio, Farhad Al-Naim enfatizou: “Como fizera Said Al-Faruk?” O silêncio entre os dois pesava como uma tonelada. O rapaz prosseguiu solene: “É por causa desta ajuda tua que agora enfrento este desafio... No entanto, agradeço aos dois. Se não fosse o desespero de Said Al-Faruk... Se não fosse tua proposta vil... De outra forma, eu não teria conhecido a Fada Jandira Al-Nour... Graças ao erro do passado, pude pedir em trocar da solução uma chance de merecer o amor da Fada... De certa forma, posso dizer que já me ajudaste o suficiente, Muhtal Al-Jinni. Muito obrigado. Só espero encontrá-lo em circunstâncias mais amistosas, e não a negócios.” Um sorriso gentil surgiu no rosto do jovem, o que deixou o gênio constrangido. Para dissimular o desconforto, a criatura gargalhou alto e demoradamente. Ainda rindo, tomou o copo de aguardente de uma só vez, estalando a língua satisfeito. “Então ainda nos veremos, amigo?”
Pensando em uma resposta, Farhad Al-Naim demorou a falar. Olhou para o lado, contemplativo, e por fim encarou os brilhantes olhos amarelos do gênio com um singelo sorriso: “Vieste me ver como em outras eras fizeras, duvido que este será nosso último encontro. Espero poder convidá-lo para dias felizes, ver em ti um rosto amigo. Também desejo que me enxergue além de uma marionete nos teus planos.” Rindo alto, Muhtal Al-Jinni falou cínico, com os dentes todos a mostra: “Não devia confiar tantos nos outros, Farhad Al-Naim, filho de alguém, neto de alguma coisa, nem todos são bondosos, nobres e elevados como você. Mas... Por alguma razão, gosto de você, e como presente, não farei mal à sua pessoa nesta ocasião. Deixo que vá e cumpra sua sina. Um brinde então.” Levanta o copo. “À sua vitória!”
Farhad Al-Naim encara-o com uma expressão desconfiada, mas divertida. O gênio, com um sorriso cínico, brinca debochado: “Ora, brinde comigo, é só aguardente, nem é veneno desta vez. Vamos, vai ajudá-lo a esquentar a garganta.” O rapaz contempla as alternativas: se ele beber, corre riscos. Infelizmente, não poderia confiar cego em uma criatura tão ardilosa. No entanto, fazer a desfeita significaria denunciar sua desconfiança e provocar alguma retaliação. Levantou o copo, sorridente para o gênio, e simplesmente respondeu: “Brindaremos a vitória quando ela me for concreta. Também sabes que preciso de usar uma espada na luta e para isso devo estar sóbrio. Agradeço-o, mas, por agora, peço que guarde meu copo. Beberemos quando eu tiver uma vitória que comemorar. Que bons tempos o acompanhem, amigo, e que nosso reencontro seja breve.” Muhtal Al-Jinni riu satisfeito com a resposta sagaz. “Até o próximo.” Disse, enquanto seu corpo sumia como se soprado por um vento brando. Novamente Farhad estava só. Respirou fundo preparando-se para a luta...
A ampulheta mais uma vez interrompeu a narrativa do mercador.
***
Mônica suspirava ao fim da carta. As palavras de Farhad eram tão agridoces. O amor que ele pedia era tão singelo e humilde, no entanto exigia dele tantos sacrifícios. Não render às tentações do gênio, não ceder ao desejo egoísta e lutar sem saber se terá o amor da Fada ao final disso tudo. Farhad era integro, firme em suas convicções. Mônica se perguntava quais palavras eram do personagem heroico e quais eram de seu autor. O amor que Farhad almejava seria o mesmo que o remetente fantasma pedia a ela. Relia as falas dele, percebeu o quanto era doloroso para ele ter de recusar a oferta. Contudo, apenas uma pessoa poderia dar a ele o que ele realmente queria. A escolha decisiva estava na mão da amada. Seja ela a Fada ou a própria Mônica.
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