0 The Legend Of a Fighter
4 Capítulo 004: Shaka Zulu e Romani Artis Pugnae
Capítulo 004: Shaka Zulu e Romani Artis Pugnae.
Na casa de Ryan, sua mãe está na cozinha, preparando o almoço, enquanto que o seu pai está sentado no sofá da sala, lendo jornal ao mesmo tempo em que a televisão está ligada à sua frente.
Mãe (pensando); Puxa vida, o Ryan já está demorando muito, eu disse pra ele chegar rápido... que droga.
Ela se afasta um pouco do fogão e vai até a pia, começando a lavar algumas louças. Assim fica por alguns segundos até que um prato, que ela secava, acaba caindo das suas mãos ao chão, se quebrando e provocando um forte estrondo além de uma pequena exclamação dela. Na sala, o pai momentaneamente arregala os olhos, larga o jornal rapidamente, se levanta do sofá e vai correndo até a cozinha, cruzando os tapetes muito bem cuidados da sala. Ao chegar, ele vê o prato completamente despedaçado no chão e a sua mulher parada diante da pia. Ele corre até ela.
Pai: Meu amor, meu amor! Você está bem? Você se machucou?
Algumas gotas de lágrima começam a escorrer dos olhos dela.
Mãe: Não. Não se preocupe comigo, eu estou bem.
Pai: É óbvio que você não está bem! Por que é que você está chorando então?
Mais lágrimas continuam a escorrer de seus olhos.
Mãe: Eu... eu não sei. Eu não sei! É isso tudo que ta acontecendo. Eu ainda estou pensando no que o Ryan passou naquele show de ontem à noite! Eu não sei, amor, mas eu continuo com um pressentimento muito ruim! É como se... é como se... eu não sei, eu sinto que o Ryan ainda está passando perigo! Eu não sei porque eu sinto isso, mas eu só sei não paro de pensar nisso nem por um segundo sequer!
Ela está chorando cada vez mais. O pai dá um forte abraço nela.
Pai: Tente se acalmar, meu amor, eu sei que o que aconteceu realmente é de se preocupar, mas a gente precisa tentar esquecer essa história, entende?
Mãe: Sim. Eu sei...
Lentamente, ela vai parando de chorar e os dois param de se abraçar.
Pai: Tente ficar mais tranqüila, certo?
Mãe: Ta...
Pai: Bom, não se preocupe, eu vou te ajudar a limpar isso daqui.
Mãe: Sim, obrigada...
Na academia The Young Fighter, Ryan e Maciel estão diante de uma outra grande porta de ferro.
Ryan: Heh! Vamos lá, eu estou ansioso para conhecer mais um estilo de luta que vocês ensinam aqui.
Maciel: Hehehe! Certo, certo.
Maciel dá uma breve batida na porta e vai abrindo-a bem lentamente. Uma voz começa a falar.
Voz: Opa, pode entrar.
Maciel: Certo.
Os dois entram na sala, que é bastante parecida com as demais, exceto pelo fato de o espelho estar na parede oposta e, em uma outra parede, há um grande pôster que mostra um homem bem negro, alto, careca, com poucas roupas tanto na parte de cima quanto na parte de baixo e segurando uma lança na mão direita além de um escudo em sua mão esquerda. Logo ao entrar, os olhos de Ryan param por alguns segundos nesse pôster, mas rapidamente sua atenção é voltada para o homem que vem na direção dos dois.
Homem: Olá, Maciel, como tem passado?
Maciel: Eu vou bem, obrigado.
O homem também é alto, negro, com cabelos indo até a nuca e bem lisos, olhos castanhos e trajando uma roupa toda branca com cordões de pedra pendurados em seu pescoço.
Ryan: Olá, senhor, muito prazer.
Maciel: Ryan, este é o professor Alessandro, ele ensina o estilo do Shaka Zulu aqui em nossa academia.
Alessandro: O prazer é todo meu, Ryan.
Ryan: Bem, então você ensina o estilo conhecido como Shaka... Shaka...
Alessandro: Shaka Zulu.
Ryan: Sei...
Rapidamente, Alessandro apanha um tatame em um canto, logo em seguida, Ryan e Maciel sentam-se nele, ficando de frente para o professor.
Alessandro: Bem, Ryan, eu acho que você já deve ter percebido que esse estilo de luta é proveniente da África, certo?
Ryan fica momentaneamente com uma expressão de dúvida.
Ryan: Ah, sim, sim, de fato, é o que parece.
Alessandro: Certo. É um estilo de luta muito bom. Pra começar, o nome Shaka Zulu é o nome daquele cara ali.
O professor aponta para o grande pôster que ilustra o homem alto, negro e careca.
Ryan: O nome desse estilo de luta é o nome dele. Então, isso quer dizer que foi ele a pessoa que fundou esse estilo, certo?
Alessandro: Sim, foi isso mesmo. Esse homem chamado Shaka Zulu foi, no passado, mais precisamente nos inícios do século XIX, o líder de um povo africano chamado Zulu. Atualmente, os zulus habitam o sul da África, em países como a África do Sul, Zimbábue, Moçambique além de Lesoto e Suazilândia também. Esse povo, por sua vez, se caracteriza por ser um povo bastante guerreiro que resistiu à invasão imperialista britânica e boa parte do espírito guerreiro desse povo foi proveniente de Shaka.
Ryan: É como se ele influenciasse esse povo zulu, é isso?
Alessandro: Praticamente. Eu explicarei passo a passo pra você de como Shaka conseguiu se tornar líder do clã dos Zulus. Inicialmente, o povo zulu é um dos muitos povos que constituem os Nguni. Nguni é o conjunto de línguas nigero-congolesas faladas em diversos países africanos por diferentes povos. Um desses povos, é o povo de Zulu. Shaka, por sua vez, é filho legítimo do chamado Senzanganakhona, o antigo líder do clã zulu dos Nguni. Entretanto, Shaka e sua mãe foram banidos da aldeia e foram forçados a viverem exilados. Neste período de exílio, ele viveu com um outro povo chamado Mthethwa, cujo rei tinha o nome de Dinguiswayo, e acabou seguindo os seus costumes. Mais ou menos na época de sua puberdade, Shaka ingressa nos exércitos de Dinguiswayo efoi se integrando muito bem nessa vida militar. Suam fama e autoridade foi crescendo cada dia mais o que lhe permitiu introduzir alterações no que diz respeito às táticas de combate que eram utilizadas até então.
Ryan: E essas alterações nas táticas de combate que foram feitas por Shaka devem ter a ver com o surgimento desse estilo de luta, não é?
Alessandro: Sim, exatamente. Uma das alterações mais importantes que foram feitas por Shaka foi a introdução do combate corpo-a-corpo, acompanhado de perseguição e a total aniquilação do oponente. Essas novas táticas foram crescendo e se tornando cada vez mais famosas e, à medida que isso acontecia, outros povos dos Nguni se tornavam adeptos dessas novas maneiras de combater. Por alguns poucos anos, o exército de Shaka encarou algumas batalhas, que foram extremamente importantes para que essas táticas fossem aperfeiçoadas. O resultado desse aperfeiçoamento foi que ele conseguiu organizar uma formação de ataque com seus homens que teve um grande êxito nesses confrontos. Essa formação em forma de lua rapidamente ficou conhecida por muitos povos. Foi então no ano de 1816 que Shaka regressou do exílio e, agora com bastante influência, rapidamente conseguiu se tornar o líder do povo Zulu. Foi nesse contexto, portanto, que surgiu esse estilo de luta, Ryan, que é conhecido até os dias de hoje.
Ryan: Mas esse estilo de luta é armado? Como ele surgiu mediante às estratégias de combate de um exército, eles deviam usar armas, não é?
Alessandro: Sim, essa formação de ataque em forma de lua da qual eu lhe falei fazia um grande uso de armas, entretanto, nem sempre na guerra os combatentes podiam contar com as armas já que elas eram perdidas em alguns momentos pelos inimigos, seja por roubos que podiam acontecer ou por qualquer outro motivo. Exatamente por isso, Shaka se preocupou em desenvolver formas de combate corpo-a-corpo e essas formas se juntaram dando origem ao que hoje conhecemos como estilo de luta Shaka Zulu.
Ryan: Entendi, então não é um estilo de luta armado como o Combat au Couteu por exemplo, certo?
Alessandro: Isso. Shaka Zulu é um estilo de luta apenas corporal.
Ryan: Saquei. Esse tal de Shaka era bem guerreiro então... mas depois que ele se tornou o rei dos zulus, o que foi que aconteceu com ele?
Alessandro: Por anos, o seu exército conseguiu vencer inúmeros confrontos, o que permitiu que o domínio territorial do povo Zulu se expandisse por cerca de doze vezes seguidas. Entretanto, mais ou menos no ano de 1828, Shaka acabou sendo assassinado e seu posto foi substituído por um homem chamado Dingane e assim termina a sua história. Após a sua morte, o seu estilo de luta já estava bem conhecido e a partir daquela época, ele foi só crescendo mais e mais.
Ryan: Entendo. Ta aí, gostei desse cara, eu espero que o estilo de luta corpo-a-corpo que ele desenvolveu seja bem foda também.
Alessandro: E é, eu lhe garanto. Agora, você vai ver como que Shaka Zulu praticava esse combate nos seus exércitos.
Ryan: Sim.
Alessandro fica olhando para os lados por alguns segundos até que ele vai ao canto onde estão os tatames e os afasta um pouco com as mãos. De trás deles, o professor retira um grande saco de areia de cor preta com as duas mãos e vem trazendo-o na direção dos dois.
Maciel: Alessandro, você precisa de ajuda?
Alessandro: Não, não, não se preocupe.
Ele chega bem próximo dos dois e coloca o grande saco no chão. Rapidamente, Alessandro sobe no saco e dá um pequeno salto, tocando de leve no teto do salão. Ele volta ao chão, uma pequena parte do teto, onde ele havia tocado, desce, e, do buraco recém-formado, cai um gancho de ferro preso à extremidade de uma corrente, também de ferro. O professor então se apressa a apanhar o pesado saco de areia e o prende nesse gancho, provocando um leve rugido no salão.
Ryan: Caramba, Alessandro! Esse saco parece ser bem pesado, não é?
Alessandro: Sim, é bem pesado. Pesa cerca de quinhentos quilos.
O garoto arregala bastante os olhos.
Ryan: Eu não acredito! Quinhentos quilos?! É meia tonelada! Como que você conseguiu levantar meia tonelada só com os braços, cara?!
Alessandro: Heh, não se impressione, Ryan! Caso você entre para a nossa academia e inicie um treinamento de luta, tenho certeza de que você irá ver coisas muito mais impressionantes do que isso.
Ryan: Incrível. E esse teto?! É seguro você fazê-lo ficar suportando um peso gigante desses?!
Alessandro: Ah, quanto a isso não se preocupe. Os tetos de todas as salas de treinamento daqui da academia têm uma excelente estrutura, justamente para isso, porque em diversos estilos de luta é muito importante realizar treinos com sacos como esse e também com outros tipos de aparelho, que também são bem pesados. Quando a academia foi construída, todos os tetos foram projetados para suportarem pesos até bem maiores do que o desse saco de areia.
Ryan: Entendi. Cara, eu não paro de me impressionar com as coisas aqui dessa academia.
Alessandro: Eu imagino, heh! Bem, eu vou começar a te dar uma rápida demonstração prática de como são os movimentos do Shaka Zulu, certo?
Ryan: Sim.
Alessandro: Beleza.
O professor se coloca na frente do grande saco de areia.
Alessandro: Bom, antes de qualquer coisa, é muito importante saber que no estilo Shaka Zulu, Ryan, as pernas são fundamentais. Praticamente todos os ataques são feitos com elas e os braços são usados quase que totalmente para a defesa.
Ryan: Certo.
Alessandro: Bem, vamos lá.
O professor separa bastante as suas duas pernas, as flexiona e fica quase que totalmente de lado para o saco de areia, o que faz seu peitoral ficar mais voltado para Ryan e Maciel, com a perna direita mais à frente e a esquerda mais recuada. Na parte de cima, Alessandro coloca o braço direito mais à frente e seu braço esquerdo fica mais voltado para trás. Nessa posição, a mão direita dele fica levemente dobrada enquanto que a mão esquerda se mantém completamente fechada.
Alessandro: Ao ataque!
Em uma velocidade muito grande, ele dá um pequeno salto e atinge o saco de areia com um fortíssimo chute do peito de seu pé esquerdo. Como conseqüência do impacto, o saco se movimenta bruscamente para os dois lados. Novamente, numa velocidade ainda maior do que a anterior, Alessandro se movimenta com apenas um salto para o lado direito, dá um pequeno pulo e atinge mais uma vez o saco, só que agora com o peito de seu pé direito, o que faz o saco ir praticamente todo para o lado esquerdo, quase que encostando no teto do salão. Ele volta de cima rapidamente na direção do professor, mas Alessandro se esquiva muito habilmente do saco para o lado esquerdo e num rápido movimento, dá um giro um pouco acima do chão e volta a atingir o saco, dessa vez com um chute rodado desferido pelo seu calcanhar direito. Novamente, o saco de areia se movimenta de maneira bem brusca, indo totalmente ao lado direito e encostando levemente no teto. Ele começa a voltar em uma grande velocidade e então Alessandro coloca seu braço esquerdo ao lado do saco com bastante força, provocando um forte estrondo no salão e parando-o imediatamente, fazendo-o ficar imóvel no meio.
Alessandro: Viu só, Ryan? Esse é um movimento relativamente básico do Shaka Zulu.
O garoto está de olhos arregalados, mas depois de alguns poucos segundos, sua expressão volta ao normal.
Ryan: Que foda... Sua força também é muito absurda, você fez esse saco de areia de meia tonelada se movimentar de um jeito que parecia que ele era feito de vento! É incrível!!
Alessandro: Sim, ele se movimentou bastante, mas isso se deve ao fato de que, nesse estilo de luta, o truque é colocar o máximo de força que você puder em suas pernas. Exatamente por esse motivo é que se realizam os saltos, para que o impacto dos chutes possa se tornar ainda mais poderoso.
Ryan: Entendi, realmente faz sentido saltar antes de chutar para aumentar a força do chute.
Alessandro: E bem, como eu lhe disse anteriormente, os braços são usados quase que totalmente para as defesas e muito raramente fazem parte de algum tipo de ataque, assim como as pernas são usadas para o ataque e raramente fazem parte de algum tipo de defesa.
Ryan: Sim. Então, no Shaka Zulu é importante ter pernas bem fortes para os ataques saírem mais potentes e também braços bem trabalhados para que eles consigam resistir mais aos ataques dos oponentes, não é?
Alessandro: Exatamente. E então? Gostou desse estilo de luta?
Ryan: Sim, eu adorei. Sinceramente, eu gostei de todos os estilos que eu vi até agora, acho que não irá ter algum do qual eu não goste.
Alessandro: Hehe! Certo, certo.
Ryan e Maciel se levantam do tatame e o garoto o entrega ao professor Alessandro.
Alessandro: Bem, foi um prazer, Ryan. Volte quando quiser e se optar por treinar o Shaka Zulu, estarei aqui pra te ensinar todas as técnicas, está bem?
Ryan: Sim, muito obrigado, Alessandro.
Ryan aperta a mão do professor e em seguida Maciel faz o mesmo. Ambos saem do amplo salão e em poucos segundos voltam para a sala de musculação ficando defronte à parede que dá entrada aos sete corredores.
Maciel: Bem, Ryan, até agora, você conheceu três dos sete estilos de luta que nós ensinamos aqui na academia. O Hao Suao, Combat au Couteau e o Shaka Zulu. Você está pronto pra conhecer o quarto?
Ryan: Sim, é claro. Vamos indo.
Maciel: Beleza, vamos.
Os dois entram pelo corredor ao lado do qual acabaram de sair e em poucos segundos estão dentro de mais um amplo salão, exatamente igual ao anterior, entretanto sem o pôster do Shaka Zulu e sem nenhuma decoração nas paredes ou no teto. Um homem com quase a mesma altura de Ryan, cabelos bem pretos e curtos, olhos castanhos, com uma faixa preta presa em sua testa, trajando uma camiseta sem manga e um bermudão que chega até os joelhos, vem cumprimentar os dois recém-chegados.
Homem: Olá pessoal.
Maciel: Oi. Bem, Ryan, esse é o professor Renan.
Ryan: Prazer.
Maciel: Renan, este aqui é o garoto Ryan, que está conhecendo os estilos de luta que são ensinados aqui na academia The Young Fighter.
Renan: Sim, o prazer é todo meu, Ryan.
Neste momento, na sala de musculação, agora com muito mais pessoas do que antes, um garoto com piercings nas sobrancelhas e no nariz, com cabelos ruivos, e com o rosto contendo algumas manchas roxas acaba de chegar e vários dos que se exercitavam deram breves paradas para cumprimentá-lo. Era Leonardo.
Leo: E aí? Como estão?
Um dos homens, que estava levantando uma barra, com diversas anilhas dos dois lados, pára de se exercitar e se aproxima mais do garoto.
Homem: E então, Leo, como está? Eu fiquei sabendo do que aconteceu lá no show de ontem! Você se machucou com aquela confusão toda?
Leo: Não, até que não. Eu acabei entrando numa briga e fiquei com o rosto um pouco machucado, mas não foi nada demais.
Homem: É, dá pra ver que você entrou numa briga ontem à noite, mas foi com aqueles invasores esquisitos lá?
Leo: Não. Foi com um cara que estuda lá na minha escola. Eu acabei me desentendendo com aquele filho da puta e a gente começou a brigar feio, até que...
Homem: O que? O que aconteceu?!
Leo: Até que o Maciel chegou e interrompeu a briga!
Homem: Ah, ta falando sério?!
Leo: Sim. Mas eu nem fiquei tão bolado com isso não, atgé porque eu ainda vou pegar aquele cretino de jeito, aquele canalha vai se arrepender de ter nascido.
Homem: Heh! É isso aí, assim que se fala rapaz!
Leo: Aquele imbecil não perde por esperar...
Homem: E, agora que você falou no Maciel, ele trouxe um visitante aí na academia, talvez ele deva ter a sua idade, sabia?
Leo: Visitante?
Homem: Sim. É um garoto que chegou aqui cedo e bem, eu acho que o Maciel ta apresentando os estilos de luta da academia pra ele, ta ligado?
Leo: Saquei. Hum, eu adoraria demonstrar as minhas técnicas de luta pra novatos. Eles sempre ficam com uma cara de merda, te admirando, achando que você é todo fodão e tudo mais...
Homem: Hahaha! Pode crer, é assim mesmo! Heh!
Ryan e Maciel estão novamente sentados sobre um tatame diante do rpofessor Renan.
Renan: Bem, Ryan, o estilo de luta que eu ensino é proveniente da Itália e se chama Romani Artis Pugnae. Esse nome é do idioma latim e significa “Arte romana de combate”.
Ryan: Romani Artis Pugnae... certo, então é proveniente da antiga Roma, certo?
Renan: Isso. Esse estilo de luta surgiu a partir do Império Romano do Ocidente, que se caracterizava por ocupar a metade ocidental do Império Romano após a divisão que foi realizada por Diocleciano, o imperador romano dos anos de 284 até 305 d.C. Esse império existiu entre os séculos III e V, quando ocorrem as unificações com Constantino, o Grande, e seus sucessores. Essa divisão do Império Romano, por sua vez, era dada em diversos fatores, envolvendo cultura, religião e até mesmo os aspectos lingüísticos. Durante esse contexto, eram muito comuns as rebeliões contra o império, seja por uma tribo conquistada que era contra as formas de governar do imperador, ou seja por uma cidade que era recém-colocada sob o domínio daquele território. Em geral, as legiões do imperador conseguiam afogar as legiões dos rebeldes em sangue, principalmente quando os rebeldes não possuíam uma grande experiência militar, o que era o caso dos levantes nativos. Entretanto, nesse contexto histórico, o Império Romano tinha um grande e poderoso inimigo.
Ryan: E qual era esse inimigo?
Renan: Os povos germânicos, também chamados de bárbaros. A sua relação com o império romano foi dando-se lentamente. Inicialmente, esses povos foram migrando para o território do império de uma maneira pacífica e bem lenta, mediante a diversos acordos feitos pelo próprio império, que permitiam a entrada de povos bárbaros no interior dos limites do território. Com o passar do tempo, os germânicos começaram a ocupar postos auxiliares dos exércitos imperiais, e, dessa forma, somando forças para as defesas das fronteiras de Roma. Os chefes bárbaros, então, foram ganhando cada vez mais créditos e alguns até conseguiram chegar a postos de comando do exército, mas sempre agindo sob os interesses do império romano. Isso, naturalmente, acabou provocando um certo sentimento de revolta por parte de alguns romanos que começaram a demonstrar sua insatisfação para o imperador. A partir daí, já começa um clima de animosidade entre romanos e bárbaros.
Ryan: E isso acabará terminando em alguma guerra, certo?
Renan: Praticamente. Pra falar a verdade, Ryan, o estilo do Romani Artis Pugnae teve os seus primórdios durante esse período, em que as habilidades de bárbaros e romanos se uniram nos combates militares que, além de envolverem armas, também envolviam muito combate corporal.
Ryan: Entendo.
Renan: Entretanto, a história não pára por aí. A partir do século V, os germânicos começaram a ser ameaçados por povos extremamente ferozes que chegavam à Europa durante aquele período e esses povos eram os chamados hunos. Eles eram nômades provenientes da Ásia Central e, por motivos que até os dias de hoje não foram muito bem esclarecidos, esses hunos começaram a entrar em sérios e ferozes conflitos contra os povos bárbaros. Pressionados então pela ameaça dos hunos, as tribos germânicas acabaram começando a penetrar de maneira violenta e em massa no território do Império Romano do Ocidente.Essas invasões germânicas acabaram por trazerem condições ainda piores ao já decadente Império Romano, como a fome, a violência, a desordem entre muitos outros fatores que incluem-se no clima de guerra. Os exércitos romanos até tentaram resistir mediante a diversos combates, mas não funcionou. No século V, o Império Roamno finalmente... se desintegrou.
Ryan: E foram esses combates de resistência do Império Romano é que deu origem ao Romani Artis Pugnae, certo?
Renan: Isso. Entretanto, pelo fato de os bárbaros terem composto o exército romano também é que esse estilo de luta mescla habilidades provenientes tanto dos germânicos quanto dos romanos, entendeu?
Ryan: Sim, saquei. Então o império romano também foi importante para surgir um estilo de luta hoje...
Renan: Sim, de fato, muito importante.
Ryan: É incrível, foda mesmo, todos os estilos de luta têm grandes fatores históricos por trás! Bom, pelo menos, todos os que eu conheci até agora.
Renan: Realmente. Acho que mais de 90 % de todos os estilos que existem nos dias de hoje surgiram devido a importantes e famosos fatores históricos.
Ryan: Sei.
Renan: Bom, agora eu vou te mostrar uns movimentos bem básicos de como se luta ao estilo Romani Artis Pugnae. Preste bem atenção.
Ryan: Certo.
Do lado de fora, na sala de musculação, Leo começa a se exercitar freneticamente em alguns aparelhos. O primeiro é a barra, que ele começa fazendo, erguendo-se com duas pequenas bolas de ferro acorrentadas em ambos os pés, cada uma pesando 20 kg.
Leo (pensando): 56, 57, 58, 59, 60!
O garoto se solta da barra e volta rapidamente ao chão, começando, logo em seguida, a desamarrar as bolas de ferro de seus pés.
Leo (pensando): Ah, eu não vejo a hora de encontrar o Ryan novamente, aquele desgraçado não sai da minha cabeça desde ontem à noite! E além de tudo, ainda vou levar punição do Maciel por culpa dele! Que ódio! Eu não vou perdoar aquele filho da puta de jeito nenhum! Esse vagabundo vai me pagar! Vai me pagar!!
Ele coloca as bolas de ferro com força em uma prateleira de metal, ao lado de muitas outras bolas de variados pesos. Logo depois, o garoto segue para a prateleira das anilhas, começa a pegar algumas e vai lentamente as colocando na barra de ferro, que está mantida no apoio para o supino.
Renan: Bem, Ryan, vamos começar. Esse estilo de luta tem por base aprisionar o inimigo, ou melhor... imobilizá-lo.
Ryan: Imobilizar?
Renan: Isso! Bem, naquelas épocas de duros combates, conflitos e tudo mais, os combates corpo-a-corpo eram usados por aqueles que não dispunham mais de suas armas e então tentavam desarmar e imobilizar seus oponentes para que então esses fossem atingidos por aqueles que ainda possuíam armamentos.
Ryan: Ah, certo, certo, entendi.
Renan: Bem, então, levante-se aí, Ryan, eu te mostrarei como eles faziam.
Ryan: Sim.
O garoto se levanta e fica de frente para Renan, que imediatamente flexiona um pouco os joelhos, dobra os braços, os encosta na cintura e os coloca um pouco para trás.
Renan: Muito bem, essa é a postura do Romani Artis Pugnae. Agora eu irei realizar um ataque em você e fique tranqüilo porque eu não vou machucá-lo.
Ryan: Certo.
Renan: Preparado?
Ryan: Sim!
Num rápido movimento, Renan dá um forte impulso e atinge Ryan com uma leve joelhada na barriga com sua perna direita. O garoto acaba se curvando alguns centímetros para baixo devido ao impacto e em menos de um segundo depois, o professor se movimenta para trás de Ryan e o agarra com o braço direito pelo pescoço além de agarrá-lo no peitoral com seu braço esquerdo.
Renan: Está preso, Ryan! Tente se movimentar agora.
Ryan começa a fazer força nos seus músculos, mas ele não se mexe nem um pouco.
Ryan (pensando): Que merda!
Ele começa a se debater fortemente, mas não sai nem um centímetro do lugar, Renan continua agarrando-o com bastante força.
Renan: Não adianta...
Então, o professor o solta.
Renan: Esse é um movimento bem básico do Romani Artis Pugnae, você acabou ficando completamente imobilizado, sem conseguir mexer um músculo sequer, não foi?
Renan vai andando lentamente de volta para frente do garoto.
Ryan: Sim, com certeza eu não conseguiria me livrar daquela posição em que você me colocou. A sua força foi muito grande, acho que mesmo que eu tentasse o dia inteiro, não iria conseguir.
Renan: Sim, sim, mas acredite, é mais técnica do que força! Entretanto, você observou o que eu te fiz no início do meu movimento?
Ryan: O que você fez...
Um rápido flashback passa na cabeça do garoto e ele lembra da joelhada que tomara logo depois do impulso de Renan.
Ryan: Ah, sim, você me deu um leve golpe na barriga, não foi?
Renan: Exatamente. Essa parte inicial do movimento é fundamental para que prender o inimigo. Caso você consiga atingir o golpe, você consegue quebrar momentaneamente a postura do oponente, o que o torna vulnerável por alguns segundos. Por isso, logo depois que eu lhe atingi, eu me movimentei bem rápido para ir atrás de você e te imobilizar. Aquela joelhada, portanto, é mais um ataque pra distração do que pra ferir de fato o inimigo. Entendeu?
Ryan: Sim, saquei! Faz muito sentido, realmente! Genial!
Renan: É, mas esse deve ser um movimento que deve ser realizado muito, mas muito bem mesmo.
Ryan: E por que?
Renan: Porque caso você erre esse golpe inicial... acaba se tornando uma presa fácil para seu inimigo, porque sua postura estará quebrada e o inimigo, após se desviar, certamente irá se aproveitar disso para partir pro ataque.
Ryan: Ah, sim, entendi. Puxa, tem muitas coisas que devem se analisar antes de fazer qualquer movimento...
Renan: Com certeza. Por isso, essa primeira parte do golpe deve ser feita com bastante atenção e principalmente com bastante velocidade para que o oponente não tenha nenhuma chance de se esquivar. Entretanto, a imobilização no Romani Artis Pugnae não ocorre apenas numa luta em pé.
Ryan: Quer dizer que... ela pode ser feita num tipo de luta de chão, é isso?
Renan: Correto. Agora eu vou lhe mostrar.
Ryan: Sim.
O professor volta a assumir sua postura de combate, com os joelhos flexionados e os braços dobrados colados no corpo posicionados um pouco para trás.
Renan: Lá vou eu!
Ryan: Certo!
Renan dá mais um forte impulso e atinge uma rapidíssima rasteira nas pernas de Ryan com o seu pé direito, o que faz o garoto rapidamente perder o equilíbrio e começar a cair. Antes de Ryan cair totalmente, Renan volta a ficar de pé numa grande velocidade e dá um empurrão no peito do garoto que cai de costas no chão e, logo em seguida, Renan se coloca totalmente por cima dele, sentando-se em sua barriga e colocando suas duas pernas sobre os braços de Ryan, esticando-os totalmente e prendendo-os no chão.
Renan: E então? Não é capaz de se mover novamente, não é, Ryan?
Ele começa a forças os músculos para tentar se livrar, só que é inútil, ele não consegue mexer nem um dedo.
Ryan: Não dá. Realmente não dá.
Renan abre um pequeno sorriso no rosto e se levanta lentamente, libertando Ryan, que também fica de pé.
Renan: Como você pôde ver, essa foi uma imobilização feita no chão, e, da mesma maneira que a anterior, a rasteira que lhe dei no início também foi muito importante para que você perdesse o equilíbrio e aí eu pudesse te colocar no chão, para logo em seguida, imobilizá-lo.
Ryan: Sim...
Renan: E você deve observar também a forma como eu o imobilizei.
Ryan: Como assim?
Renan: Você viu que eu sentei em sua barriga e coloquei as minhas pernas fortemente sobre seus braços, não foi?
Ryan: Sim.
Renan: Essa posição não só permitiu que você ficasse completamente imóvel no chão, como também impossibilitou você de realizar qualquer tipo de ataque, seja com as pernas ou com os braços. Muitas vezes, o inimigo, mesmo no chão, pode ser bem perigoso, por isso, a forma e a posição de como vai imobilizar o oponente é muito importante. E além disso, as minhas mãos ficaram totalmente livres, isso significa que, caso o inimigo ainda consiga oferecer algum tipo de resistência, ainda se tem mais um trunfo, as suas mãos, o que te possibilita de desferir vários socos no oponente e, provavelmente, dar um fim no combate.
Ryan: Entendi. Não só neutraliza todo tipo de movimento do oponente como você também ainda pode atacar.
Renan: Exato. O que eu mais gosto nesse estilo é justamente isso, Ryan. Um usuário do Romani Artis Pugnae pode dar fim a uma luta em questão de segundos, desde que se domine a técnica, é claro.
Ryan: Realmente, caramba! Eu gostei muito desse estilo!
Renan: Eu termino por aqui, afinal já falei demais e tomei muito do seu tempo, creio que ainda tem mais estilos de luta pra você conhecer, não é verdade?
Ryan: Ah, sim, ainda faltam mais três.
Renan: Pois é.
Ryan: Valeu, Renan! Obrigado mesmo!
Renan: De nada.
Maciel se levanta do tatame, ambos apertam a mão do professor Renan e os dois vão embora, cruzando o corredor de volta.
Maciel: E aí? Gostou desse?
Ryan: Claro, adorei! Eu acho que é um dos mais fodas que eu já vi. Ainda faltam três, certo?
Maciel: Sim, só mais três.
Ryan: Certo.
Os dois saem à sala de musculação voltando a ficar de frente para os sete corredores. Neste momento, Leo, que estava levantando a barra no supino, é interrompido pelo mesmo homem de antes.
Homem: Espera só um pouco, Leo! Dá uma parada aí!
O garoto faz uma cara de raiva por um momento e rapidamente coloca a barra no apoio. Ele se senta e olha seriamente para seu colega.
Leo: O que foi? Por que é que você me interrompeu?!
Homem: Olha lá! É aquele garoto ali que o Maciel trouxe para conhecer a academia!
Ele aponta para Maciel e Ryan na frente dos sete corredores. Leo dirige seu olhar para os dois e imediatamente seus dois olhos ficam extremamente arregalados. O homem percebe.
Homem: O que foi, Leo? O que aconteceu?!
O olhar de Leo sai de arregalado para um olhar de pura raiva.
Leo: É ele... É ele... É ele!!!
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