0 The Legend Of a Fighter
5 Capítulo 005: Um encontro inevitável.
Capítulo 005: Um encontro inevitável.
Tanto Ryan quanto Maciel permanecem parados diante dos sete corredores, dentro da sala de musculação da academia. Leo está sentado no aparelho do supino, com uma expressão de raiva em seus olhos, que continuam a encarar os dois.
Ryan: Vamos lá Maciel. Faltam apenas mais três estilos de luta pra eu conhecer aqui. Qual nós iremos conhecer dessa vez?
Maciel: Espera, espera...
Maciel mexe seus olhos lentamente através dos corredores até que eles param momentaneamente no corredor logo ao lado direito do qual eles acabaram de sair.
Ryan: A gente vai por este aí?
Maciel: Não, não, eu prefiro deixar este daqui por último.
Ryan: E por que?
Maciel: Quando você for ver, eu tenho certeza de que você vai entender o motivo.
Ryan: Eu espero mesmo, já estou curioso sobre um monte de coisas aqui.
Maciel: Eu já te disse, Ryan, tenha paciência.
Ryan: Sei, sei.
Maciel se movimenta mais um pouco para o lado e pára diante de um corredor mais à direita.
Maciel: Beleza. Vamos conhecer este aqui, certo?
Ryan: Beleza, vamos lá!
O homem continua parado ao lado de Leo, encarando-o nos olhos.
Homem: Você falou que é ele...? Mas o que foi, você conhece aquele garoto, Leo?
Leo: É claro que eu conheço! Esse é o cara que eu falei que estuda na minha escola! Foi com ele que eu entrei numa briga no show de ontem à noite!
O homem arregala rapidamente os olhos.
Homem: Ah! Então foi com ele que você brigou?!
Leo: Sim!!
O olhar de Leo vai ficando com uma expressão cada vez mais raivosa.
Homem: Espera um pouco, Leo, você não ta pensando em...
Leo: Eu não vou me segurar, e nem tente me impedir!
Homem: Pense bem, cara! Caso você acabe arrumando confusão com esse garoto aqui dentro da academia, você vai acabar se complicando ainda mais! Ta ligado que o Maciel acabou interrompendo a briga de vocês ontem à noite, ele com certeza já ta planejando algum tipo de castigo pra você! É sério cara, você só tem a perder mais se for brigar com aquele moleque aqui!
Leo: Eu não vou brigar com ele aqui, cara, eu só vou falar umas boas verdades pra esse vagabundo cretino!
Homem: Mas mesmo assim...
Leo: Cala a boca e me deixa em paz, moleque! Eu faço o que eu quero!!
O homem se cala imediatamente e fica olhando para Leo com uma expressão que mistura sentimentos de raiva e desapontamento.
Ryan: Vamos entrar então, Maciel?
Maciel: Sim, claro!
Os dois começam a entrar no corredor. Neste momento, Leo se levanta rapidamente do apoio do supino e cruza a sala de musculação andando bem rapidamente, o que faz alguns olhares de outras pessoas, que malhavam naquela sala, serem atraídos para ele. Quando Ryan já coloca o primeiro pé dentro do corredor, ele sente uma mão pesada tocando o seu ombro direito. O garoto rapidamente olha para trás e arregala os olhos momentaneamente. Percebendo que o garoto havia parado, Maciel também se vira para trás.
Leo (em um tom irônico): Oi, Ryan, ta tudo bem com você? Como tem passado?
Ryan parecia um pouco surpreso.
Ryan: Le... Leo.
Maciel: Oi, Leo, e você, como vai? Já está melhor de ontem à noite?
Leo lança um olhar extremamente severo para Maciel e então responde à pergunta dele.
Leo: Sim, eu já estou muito melhor, o dano que esse moleque me causou não foi lá essas coisas, o meu corpo já se recuperou bastante.
Maciel: Você ainda ta com alguns machucados no rosto... mas ta certo, se você diz que ta tudo bem, então eu acredito. Bem, eu to mostrando os estilos de luta da nossa academia pro Ryan.
Leo: Sim, eu já percebi o que você está fazendo. Eu só não entendo o motivo de você estar fazendo isso, senhor! Por que está interessado em mostrar a academia pra esse cara?
Dessa vez, Maciel lança um olhar bastante feroz para Leonardo. Ryan interrompe.
Ryan: Fui eu que quis conhecer a academia Leo, por que? Você tem alguma coisa contra?
Leo: Quer saber, eu tenho muita coisa contra você, imbecil!
Leonardo se aproxima mais de Ryan, entretanto, Maciel se coloca rapidamente entre os dois e dá um pequeno empurrão em Leo, que acaba chegando um pouco para trás.
Maciel: Pra que você veio até a gente, Leonardo? O Ryan está aqui quieto, conhecendo os estilos de luta e vem você arrumar confusão de novo! Ontem você me disse que foi o Ryan que começou com as provocações e por isso vocês dois acabaram brigando, mas será mesmo que foi ele quem começou?
Leo: O que você ta falando?! É claro que foi ele quem começou, senhor, eu juro! Mas isso não vem ao caso agora! Eu só estou muito pasmo de que o senhor fique mostrando a nossa academia pra um moleque que nem ele!
Maciel: Eu não só estou mostrando, como também são bem grandes as chances de ele vir treinar aqui! Portanto, Leonardo, deixa eu te dar um conselho desde já! É melhor você parar com essas infantilidades de uma vez por todas, ou a sua situação ainda vai piorar muito!
Leonardo fica calado por alguns segundos e abaixa levemente a sua cabeça.
Maciel: Você já estava malhando, certo? Por que não volta para os seus exercícios agora e pára de arrumar confusão!
Leo volta novamente seu olhar para Maciel com uma expressão de raiva.
Leo: Tudo bem, eu vou voltar sim, mas é melhor se lembrar das minhas palavras, senhor! Você ainda vai se arrepender muito de estar mostrando a academia pra esse cara e o convidando a entrar aqui, tenho certeza de que esse é um dos maiores erros que você poderia cometer!
Maciel: Vá imediatamente, Leonardo!
Leo dá uma última olhada para Ryan, então se vira de costas e sai andando rapidamente, cruzando a sala de musculação na direção de volta ao supino que estava fazendo.
Ryan: Hum, eu já esperava por isso, desde que eu pensei em vir aqui, tinha certeza de que acabaria encontrando o Leo aqui mais cedo ou mais tarde.
Maciel: Mas é aquilo que eu te disse, Ryan...
Ryan: Como assim? Do que você está falando?
Maciel: Daquilo que eu lhe disse sobre não gostar do jeito do Leonardo. Ele sempre demonstra pura violência e desprezo pelo seu oponente nas lutas e além disso, eu não paro de perceber um constante ódio dentro dele. Eu realmente não gosto do fato de ele ser um dos principais lutadores jovens daqui da academia. É por isso que eu quero muito, muito mesmo que você venha treinar aqui com a gente, Ryan.
O garoto fica calado e seu rosto é tomado por uma expressão de dúvida.
Maciel: Você deve considerar essa idéia de entrar pra cá e participar daquele torneio de luta o máximo que você puder.
Ryan: Sim, eu sei... Maciel, eu prometo que vou pensar muito a sério sobre isso, eu juro. Mas por enquanto, eu acho melhor nós irmos conhecer os outros estilos de luta que estão faltando, não é?
Maciel: Sim, sim, é claro. Estão faltando apenas mais três estilos para as demonstrações terminarem. Vamos nesse aqui.
Ryan: Certo.
Os dois então entram pelo corredor e vão seguindo até a porta de ferro. Enquanto isso, Leo já está de volta ao aparelho do supino e rapidamente o seu colega vem para falar com ele.
Homem: E aí, Leo? O que foi que você fez?
Leo: Cala a boca, eu não quero falar sobre esse assunto! Me deixa malhar em paz!
O homem fica completamente calado e com uma expressão de raiva no rosto. Ele então se vira e vai na direção oposta. Leo recomeça a fazer seus exercícios, bufando fortemente.
Leo (pensando): Eu juro que aquele filho da puta vai me pagar! Ah se vai!
Ryan e Maciel já estão dentro de mais uma grande sala, quase igual à anterior, mas com alguns quadros espalhados pelas paredes e algumas estátuas feitas de gesso e cobertas com diversas penas vermelhas e também azuis. Ryan observa rapidamente as estátuas.
Ryan: Caramba, elas são bem maneiras.
Então, o garoto percebe o homem parado diante dele e de Maciel. Ele está vestindo uma camiseta branca sem mangas com uma calça esporte azul e ele tem uma tatuagem de um dragão preto no seu braço direito além de uma pequena tatuagem de leão no centro da sua testa. Seus cabelos são levemente avermelhados e relativamente longos até quase metade de suas costas. Os olhos são verdes e sua altura é praticamente a mesma da de Maciel.
Maciel: Ryan, eu te apresento mais um professor daqui da The Young Fighter. O nome dele é João.
Ryan: Muito prazer em conhecê-lo, senhor. Meu nome é Ryan.
João: O prazer é todo meu.
Os dois novamente se sentam sobre um tatame, logo na frente do professor.
Ryan: E então, João? Eu to curioso, qual é o estilo de luta que você ensina aqui?
João: Sim, claro, eu imagino que você esteja bem curioso, Ryan. O meu estilo de luta é o Indígenas Luchan.
Ryan: Indígenas...? Ah, é óbvio que esse estilo de luta então é proveniente da arte de combater usada por índios, certo?
João: Sim, exatamente. O nome é Indígenas Luchan é do idioma espanhol e em português significa “luta indígena”, do jeito que você disse, esse estilo de luta vem da luta que era praticada pelos índios.
Ryan: Sim, eu entendo. Mas esses índios não eram brasileiros, eram? Senão o nome do estilo de luta não deveria ser brasileiro também?
João: Ah, claro, uma excelente pergunta, Ryan. De fato, os índios que deram origem a esse estilo de luta não são brasileiros, mas sim, argentinos.
Ryan (em tom de surpresa): Argentinos?!
João: Sim. Eles são provenientes da Argentina, mas há muito, muito tempo atrás. Cerca de 1609, mais ou menos, foi fundada a primeira das missões jesuítas guaranis no território argentino. Durante esse período, esse foram se desenvolvendo até totalizar trinta missões, já no século XVIII quando se estabeleceu um modelo de organização social e econômica diferente das demais colônias que rodeavam aquele território. Neste contexto, os jesuítas tinham um grande respeito pela organização realizada pelos guaranis e por este motivo, essas missões foram a base do crescimento. Entretanto, um fator muito importante aconteceu.
Ryan: E que fator foi esse?
João: Ainda no século XVIII, mais precisamente no ano de 1767, a Espanha expulsa a Companhia de Jesus de suas posses, de tal maneira que, já no século XIX, quase todas as missões estavam em ruínas e, num cenário como este, os povos indígenas acabaram tendo que ficar totalmente a mercê dos governadores civis espanhóis.
Ryan: E os indígenas provavelmente sofrerão bastante nas mãos desses espanhóis, certo?
João: Com certeza, Ryan. Durante esses tempos, a repressão espanhola contra os indígenas foi definitivamente grande demais, mas, por outro lado, não tardou muito até que os argentinos começassem a aspirar por sua independência e começassem a enfrentar os seus colonizadores.
Ryan: Eles então começaram a enfrentar os espanhóis?
João: Sim. As idéias liberais na Argentina estavam começando a surgir, não só na Argentina mas em toda a América Latina. Essas idéias, por sua vez, eram fortemente influenciadas por fatores como a recente independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, que tiveram como base as idéias iluministas. Assim, a Argentina começou o seu processo de independência contra a Espanha mais precisamente em 25 de maio de 1810, num evento que acabou ficando conhecido como a Revolução de Maio, que deu início a uma onda de guerras contra os espanhóis e também seus partidários. No fim, os espanhóis acabaram sendo derrotados e a partir de 1865 até quase 1946, deu-se início a um processo que viria gerar a moderna Argentina.
Ryan: Entendi. Foram nessas guerras iniciadas com a Reolução de Maio então que os indígenas começaram a desenvolver as suas lutas e...
João: Sim, e esse conjunto de lutas ficou conhecido como Indígenas Luchan. Agora percebe o motivo do nome desse estilo de luta ser no idioma espanhol, não é?
Ryan: Sim, sim, faz sentido. Até porque esse estilo surgiu nesse contexto de combate contra a dominação espanhola...
João: Sim, é exatamente por isso. Ah, e claro, você deve ter percebidos essas estátuas aqui, certo?
O professor aponta para as estátuas de gesso cobertas de penas vermelhas e azuis.
Ryan: Sim, eu achei bem maneiras, mas... ah claro! Essas estátuas cobertas com penas... são em homenagem aos índios argentinos que deram origem ao estilo de luta que você ensina, não é verdade?
João: Sim, é isso mesmo. Assim que foi construída a academia The Young Fighter, foram feitas também essas estátuas de gesso em homenagem a eles. Ficaram bem legais, não foi não?
Ryan: Sim, sim, eu gostei, são muito bem feitas, realmente.
A sala fica em silêncio por alguns breves segundos.
João: Bem, Ryan, agora eu vou ter o prazer de fazer uma rápida demonstração pra você ver como lutavam esses índios.
Ryan: Ta beleza.
João: Certo, então levante-se.
Ryan: Tudo bem.
O garoto se ergue do tatame e fica parado diante do professor João.
João: Certo, certo... vamos começar então.
O professor flexiona muito ligeiramente a sua perna direita à frente do corpo e estica completamente a perna esquerda para trás. Ao mesmo tempo, ele deixa seus dois braços mais abertos, deixando todo o seu peitoral completamente livre.
João: Essa é a postura do Indígenas Luchan. Logo, logo, você vai entender o quanto ela é importante para as técnicas serem bem realizadas.
Ryan: Ta.
João: Lá vou eu então!
João dá um forte impulso com sua perna direita flexionada e salta a uma altura relativamente alta, indo a uma altura um pouco maior que a de Ryan. O garoto rapidamente se movimenta alguns passos para trás, entretanto, em questão de pouquíssimos segundos, João dá um rápido mortal no ar e fica de pé sobre a cabeça de Ryan, que se assusta momentaneamente, mas ele, logo em seguida, olha para cima, observando o professor em cima de sua cabeça.
Ryan: O que... o que você está fazendo? Isso é uma técnica do Indígenas Luchan?
João: Sim, mas não completamente. Eu só parei em cima da sua cabeça porque eu poderia acabar te machucando, na verdade, a técnica terminaria com um chute com o meu calcanhar direito ao invés de ficar parado na sua cabeça.
Ryan: Ah, ta... entendi.
João rapidamente sai da cabeça do garoto e volta ao chão, ficando na frente de Ryan.
Ryan: Você tem razão.
João: Sobre o que?
Ryan: Você certamente teria me machucado se tivesse me atingido com um chute, porque você saltou bem forte e caiu na minha direção com uma velocidade incrível!
João: Ah, sim, realmente. E, neste caso, não seria possível eu controlar a força do golpe, até pelo que você acabou de dizer, pois eu estava caindo numa velocidade muito grande, por mais que eu controlasse a força, o chute acabaria saindo forte demais.
Ryan: Sim, mas foi bem rápido mesmo a forma como você desceu até mim, caramba!
João: Sim, essa é a base desse estilo de luta, Ryan. Eu diria que o Indígenas Luchan é um tipo de luta mais pra aéreo. Você viu que eu primeiro saltei a uma altura boa pra depois te atingir com um golpe por cima. É nisso que se baseia esse tipo de luta, nos ataques vindos de cima.
Ryan; Entendo, é por isso que você disse que é aéreo... mas por que a postura é assim tão importante?
João: Ah, sim, a postura... bem, olhe atentamente.
Ele novamente fica na postura de luta com a perna direita flexionada, a esquerda esticada para trás e os braços abertos.
João: Ela é perfeita para se realizar um bom salto. Tudo depende disso, porque se o salto for ruim, é natural que o golpe também não saia com força total.
Ryan: Saquei. E os ataque podem ser feitos tanto com os braços quanto com as pernas?
João: Sim, existe uma infinidade de técnicas de ataque e bem, ambas usam pernas e braços, mas eu diria que as pernas ainda são mais importantes nesse estilo de luta porque, além de serem usadas para o ataque, são também usadas para o pulo.
Ryan: Sim, tem razão...
João: Mas é importante deixar bem claro que, apesar de os ataques virem de cima, nem todos eles estão mirando na cabeça, entende?
Ryan: Entendo, mas deve ser difícil golpear as partes mais baixas do corpo realizando um ataque do alto, não é?
João: Não se trata exatamente de ser mais fácil ou mais difícil. O Indígenas Luchan usa o ataque aéreo, pois em geral ele é mais forte, já que vem com uma grande velocidade e conta com a ajuda da gravidade.
Ryan: Sim...
João: Entretanto, o truque está no lutador dominar a técnica. Dependendo da parte do corpo a qual se deseja atingir, o usuário desse estilo de luta deve, de alguma forma, fazer o seu oponente ficar numa posição em que seja possível atingir essa região desejada. Então, por exemplo, se a região desejada é o peito, convém o lutador fazer o seu oponente ficar com o peitoral voltado para ele na hora do ataque e, de preferência, com os braços fora de cena, pra que ele não possa se defender.
Ryan: Mas, como o lutador vai fazer isso uma vez que ele está no ar?
João: Aí é o ponto principal. Todas as técnicas do Indígenas Luchan se baseiam exatamente nisso, em, mesmo com ataques aéreos, fazer o oponente ficar na posição desejada para receber o seu ataque. Na maioria das vezes, são realizados combos, nos quais a parte inicial é para modificar a postura do inimigo e a final é para atingir o ataque, mas, pra que esses combos sejam bem sucedidos, é fundamental aplicar uma grande velocidade, senão o oponente rapidamente volta a sua postura original. Voltando ao exemplo do peito, Ryan. Muitas vezes, o lutador realiza um ataque aéreo não tão potente para fazer o oponente se defender de uma forma que seu peitoral fique desprotegido. Logo em seguida, então, deve ser realizado mais um ataque aéreo, dessa vez, para realmente atingir o peito, mas esse segundo ataque aéreo deve ser feito muito, mas muito rápido mesmo, para que o oponente não se recomponha do primeiro ataque. É mais ou menos assim, parece meio complicado falando, mas depois que você pratica, é bem simples.
Ryan: Acho que deu pra sacar, mas é só ataque aéreo mesmo? Tipo, esse primeiro ataque para quebrar a postura do inimigo, não poderia ser um ataque no chão mesmo não?
João: Ah, sim, claro que pode. Mas tem um problema se você for tentar fazer isso sem ser por um ataque aéreo.
Ryan: E qual é?
João: O seu oponente certamente saberá que você é praticante do Indígenas Luchan, então, ele saberá que os seus principais golpes são vindos de cima, depois de um salto. Então, se você atacá-lo no chão mesmo, ele saberá que vai ser um ataque apenas para quebrar a sua postura e não um ataque realmente pra machucar. Aí, ele já fica mais preparado e pode acabar atacando com mais força logo depois da defesa, mas se o primeiro ataque já for aéreo, aí ele não vai ter certeza se vai ser pra quebrar a postura ou se vai ser pra valer mesmo. Entendeu?
Ryan: Aaah ta, saquei, saquei, eu acho. Puxa vida, vocês realmente pensam em tudo mesmo.
João: É por isso que, um lutador, principalmente os que participam de competições e tal, não devem apenas conhecer o seu próprio estilo de luta mais todos os outros também, porque, dessa forma, poderá achar a melhor maneira de derrotá-lo, ou de desarmá-lo, ou até mesmo algum tipo de ponto fraco, fatores que podem acabar definindo o destino de uma luta.
Ryan: Sim, realmente... gostei muito, João, você é bem habilidoso.
João: Heh, valeu. Eu acho que falei e mostrei o essencial sobre o Indígenas Luchan. Ah, e se entrar pra cá, espero poder ter a chance de treinar você, Ryan.
Ryan: Haha! Ta certo, então. Valeu João, brigadão, cara.
João: De nada.
Ele aperta a mão do professor, logo em seguida, Maciel se ergue do tatame e faz o mesmo. Ambos saem da sala e vão saindo do corredor, de volta à sala de musculação. Enquanto isso, Leo está malhando o seu bíceps, com uma outra barra, tão longa quanto à do supino, só que com mais anilhas de peso em ambos os lados. Pelo espelho, ele vê Ryan e Maciel saindo do corredor. Então, Leo, completamente suado e com as veias do bíceps pulsando bem forte, larga lentamente a barra em um pequeno apoio de ferro. Ele fica encarando os dois pelo espelho, mas ambos estão de costas para Leo.
Leo (pensando): Eu ainda não consigo acreditar nisso! Será realmente que o Maciel vai fazer a babaquice de trazer esse viado vagabundo pra vir treinar aqui?! Eu não acredito que vou ter que aturar o Ryan aqui na academia, já não bastava na escola, puta que pariu!!
Ele então se distancia um pouco da barra e vai até a um canto da sala de musculação, onde há um bebedouro. Enquanto isso, Ryan e Maciel ainda estão parados diante dos sete corredores.
Ryan: Escuta, Maciel, agora só faltam mais dois estilos de luta, certo? Você disse que queria deixar um deles por último, eu to bastante curioso, por que é que você não me mostra esse logo?
Maciel: Hah! Não, nem pensar, Ryan! Eu falei que aquele ia ser o último e vai ser o último mesmo, acredite em mim, por favor, você não vai se arrepender.
Ryan: Caramba, hein... bom, então o próximo só vai poder ser esse aqui, certo?
O garoto aponta para o corredor ao lado do qual eles saíram.
Maciel: Exato. Vamos indo.
Ryan: Beleza.
Os dois entram por mais um corredor e em poucos segundos, já estão novamente diante de uma porta de ferro. Maciel dá duas leves batidas e uma voz rapidamente responde.
Voz: Entra.
Os dois entram dentro da sala. Ela é exatamente igual às outras, entretanto, esta possui diversos sacos de areia bem pesados pendurados no teto além de dois grandes pôsteres em uma parede. Em ambos, os pôsteres ilustravam dois homens, um bem musculoso, negro e com um curto cabelo afro, o outro ilustrava um homem branco, de cabelos pretos e curtos, além de olhos pretos também. Este último homem trajava duas luvas de boxe. Ryan arregala os olhos ao perceber este pôster.
Ryan: Esse lutador de boxe... ele não é o...
Maciel: Sim, é ele mesmo.
Neste momento, um homem sem camisa, de cabelos castanhos e curtos, relativamente musculoso e com olhos pretos, trajando apenas uma bermuda que vai até um pouco antes dos joelhos, vem para cumprimentá-los.
Homem: Oi, pessoal.
Maciel: E aí? Ryan, este daqui é o Carlos.
Ryan: Prazer, Carlos, como vai?
Carlos: Eu estou bem. E você, veio conhecer a nossa academia, não é?
Ryan: Sim. Mas antes de qualquer coisa, eu já estou bem curiosos sobre uma coisa.
Carlos: O que é?
Ryan: Aquele cara ali.
O garoto aponta para o pôster que ilustra o homem com as luvas de boxe.
Ryan: Ele é quem eu to pensando mesmo?
Carlos: Ah, sim, sim, provavelmente é quem você está pensando sim. Ele é o Rocky Marciano.
Ryan: Caramba! Vai dizer que foi ele quem deu origem ao estilo de luta que você ensina?!
Carlos: Bem... digamos que não completamente, Ryan.
Ryan: Como assim?
Carlos: Eu vou te explicar.
O professor se apressa a pegar um tatame em um canto e o coloca no chão para os dois se sentarem.
Carlos: Bom, Ryan, eu devo dizer que o estilo de luta que eu ensino, como você já deve ter percebido, veio dos Estados Unidos, já que ele está relacionado com o Rocky Marciano.
Ryan: Sim...
Carlos: Bem, eu acho que você já deve conhecer o motivo de Rocky Marciano ser assim tão famoso até os dias de hoje... Ele nasceu em Massachusetts, nos Estados Unidos e, bem, a sua carreira de lutador de boxe foi perfeita, já que foi o único campeão de boxe no mundo que conseguiu concluir a sua carreira invicto, sem nenhuma derrota e nenhum empate.
Ryan: Sim, sim, disso eu sei.
Carlos: Pois é. Na sua carreira, de 23 de setembro de 1952 até 30 de novembro de 1956, ele ficou com o título de campeão mundial de peso-pesado do boxe. Sem perder nenhuma luta, ele conseguiu dar origem a uma carreira perfeita e por isso acabou se tornando uma lenda no mundo da luta. Durante esse período em que ele ficou com o título então, acabou sendo desafiado por um homem, também um norte-americano, chamado Jason Norton. Ele não era lutador de boxe, mas sim um lutador de vale-tudo. Acabou se interessando na época pelo Rocky Marciano e o desafiou para uma luta.
Ryan: Disso eu não sabia... mas então, esse tal de Jason Norton deve ser aquele cara do outro pôster ali, não é?
Carlos: Sim, é ele mesmo. Ele era afro-descendente e, naquele tempo, era um dos mais fortes lutadores de vale-tudo que existia no mundo. Você sabe sobre o vale-tudo, certo? Ele mistura diversos estilos de luta.
Ryan: Sim, eu sei, em campeonatos de vale-tudo, não participam lutadores de um estilo específico, um lutador de Tae Kwon Do pode lutar com um de Jiu-Jitsu, por exemplo, certo?
Carlos: Exatamente. Bem, então, esse Jason desafiou Rocky Marciano para uma luta de vale-tudo, mas é claro que Rocky lutou apenas fazendo uso do boxe para atacar Jason. Não era uma luta oficial, era mais pra uma apresentação do que outra coisa, entretanto, os dois acabaram começando a lutar sério e o combate foi além do que todos podiam esperar.
Ryan: E o que foi que aconteceu?!
Carlos: A luta durou horas e os dois ficaram bastante feridos, mas no fim, Marciano acabou derrotando Jason, entretanto, ele ficou bem ferrado também e teve que ficar no hospital por algumas semanas para se recuperar. A luta foi realmente demais.
Ryan: É, eu imagino...
Carlos: Enquanto Marciano teve que ficar algumas semanas, Jason acabou entrando em coma devido aos golpes que tomou direto na cabeça e ficou no hospital por longos seis meses, até que ele conseguiu acordar do coma.
Ryan: E o que ele fez depois?
Carlos: Bem, depois que saiu do hospital finalmente, ele queria voltar a enfrentar Rocky de novo. Portanto, Jason deu início a uma rotina de árduos treinamentos, que, por sua vez, eram muito mais intensos do que todos os que ele já tinha feito em sua vida.
Ryan: Mas esses treinamentos que o Jason fazia... eram de vale-tudo ou envolvia algum tipo de luta mais específico?
Carlos: Em parte eram sim treinamentos de vale-tudo, entretanto, ele se esforçou bastante para fazer algo a mais.
Ryan: O que?
Carlos: Ele tentou desenvolver novas técnicas de combate. Técnicas que não pertenciam a nenhum estilo de luta até então, e ele tentou desenvolvê-las com o objetivo de bater os golpes de Rocky Marciano.
Ryan: Ah, entendi, ele tentou criar novos golpes, defesas e posturas de acordo com os movimentos do Rocky que ele observou, não é?
Carlos: Isso mesmo. E tenho que te dizer que ele teve sucesso nisso. Ele de fato conseguiu criar novas técnicas de combate para tentar mais uma vez vencer Rocky Marciano. Esse conjunto de técnicas que ele desenvolveu acabou recebendo o nome de Snake Venom, que é o estilo de luta que eu ensino aqui!
Ryan: Snake Venom, você disse?
Carlos: Sim, é isso. Em português significa “veneno de cobra”.
Ryan: Veneno de cobra? E o que isso tem a ver com técnicas de combate?
Carlos: Foi apenas um apelido. Considerando que Jason criou essas técnicas para tentar derrotar o Rocky, boa parte delas se concentrava em atacar as pernas do boxeador, já que ele não as usava para atacar. Depois de neutralizar as pernas, o ataque era então feito na parte da cintura pra cima, mas apenas depois de danificar as pernas. Em resumo, foi essa a estratégia que o Jason tentou adotar. Então, por vezes, quando ele tentava de qualquer maneira atacar as pernas de Rocky, parecia uma cobra que desejava picar alguém, pelo menos era o que as pessoas diziam na época, por isso, o apelido de Snake Venom acabou pegando para o novo estilo de luta do Jason Norton.
Ryan: Meu Deus, que apelido mais esquisito para se dar a um tipo de luta...
Carlos: Hehe, realmente, mas até que faz um pouco de sentido...
Ryan: Bem e qual foi o resultado? O Jason não conseguiu derrotar o Rocky mesmo com essas novas técnicas, certo?
Carlos: É. Infelizmente para o Jason, Rocky permaneceu invicto. Mais uma luta sem limites foi travada entre eles dois, mas Rocky venceu mais uma vez e depois dessa, Jason nunca mais quis saber das lutas.
Ryan: E o que aconteceu com ele?!
Carlos: Muitos dizem que ele acabou entrando em depressão por não ter vencido e acabou ficando maluco tempos depois... outros dizem que ele viajou sozinho e nunca mais voltou... enfim, ao certo mesmo, ninguém sabe o que aconteceu com ele. Mas o importante é que seus discípulos acabaram adotando o estilo do Snake Venom e então foram desenvolvendo-o e, por causa disso, cresceu bastante a ponto de conseguir adeptos em todo o mundo como possui nos dias atuais.
Ryan: Sei, então é um estilo inventado pra derrotar Rocky Marciano, mas que não deu certo... incrível!
Carlos: Eu gostei muito desse estilo de luta quando entrei pro mundo dos combates, por isso, dediquei a minha vida a ser professor e a lecionar sobre o Snake Venom. Agora, por favor, deixa eu te mostrar os movimentos básicos desse estilo.
Ryan: Ah, sim, certo, certo.
Carlos: Eu acho que vou precisar que você fique de pé.
Ryan: Beleza.
O garoto rapidamente se levanta do tatame e se coloca na frente do professor.
Carlos: Como eu te disse, Ryan, é fundamental atacar as pernas primeiro para danificá-las, certo?
Ryan: Sim.
Carlos: Uma vez danificadas as pernas do inimigo, o mesmo não vai conseguir se mover com a mesma facilidade de antes e então, digamos que ele se torna um alvo bem mais fácil para o usuário do Snake Venom, portanto, ele poderá atacar mais livremente na parte da cintura pra cima do corpo, entendeu?
Ryan: Entendi.
Carlos: É por isso também que essa parte de ataque às pernas do oponente é muito importante, para que então os outros ataques possam ser realizados. Bem, agora eu irei lhe mostrar.
Rapidamente, o professor levanta seu joelho direito e o deixa quase na altura do peito, ao mesmo tempo em que posiciona as mãos próximas à cabeça, com a mão direita um pouco mais adiantada do que a mão esquerda, ambas fortemente fechadas. Além disso, ele abre bem a sua perna esquerda, deixando-a esticada para o lado.
Carlos: Esta é a postura do Snake Venom. Observe que a posição das mãos é bem importante para a defesa também.
Ryan: Sim...
Carlos: Lembre-se que o Jason desejava derrotar Rocky então, acho que você já sacou o motivo de ser assim a defesa desse estilo de luta, não é?
A expressão do garoto fica pensativa por alguns poucos segundos até que ela volta ao normal.
Ryan: Bem... para se defender melhor... das técnicas do boxe? É por isso?
Carlos: Isso, ta certo, Ryan. Como no boxe os golpes na cabeça são fundamentais, ele acabou desenvolvendo esse tipo de defesa e... ainda mais o Jason, não é, que anteriormente havia ficado em coma justamente por causa dos ataques na cabeça que recebeu do Rocky...
Ryan: Heh! Sim, ta certo...
Carlos: Bem, prepare-se que agora eu irei atacar!
Ryan: Certo!
Num rápido movimento, Carlos dá um forte impulso com sua perna esquerda esticada e se lança totalmente para frente, indo com o peitoral mais aberto na direção do chão. Ele rapidamente se aproxima dos pés do garoto, mas agora já completamente no chão. Quando toca nos seus pés, ele ergue um pouco os joelhos e atinge Ryan com uma leve rasteira na panturrilha, fazendo-o se desequilibrar um pouco. Em questão de segundos, Carlos se ergue completamente e toca de leve com seu punho direito na barriga de Ryan e logo em seguida, ele dá um rápido giro, já se abaixando novamente, e termina esse giro com uma leve cotovelada nas juntas do joelho direito do garoto, fazendo suas pernas se flexionarem um pouco automaticamente e logo depois disso, o professor volta a se erguer em grande velocidade e vai para trás de Ryan, agarrando-o pelo pescoço e o atingindo levemente com uma joelhada no meio das costas.
Carlos: Haha! E agora, gostou dessa, não é, garoto? Heh!
Ryan ainda está de olhos arregalados.
Neste momento, o professor solta o pescoço do garoto e volta a ficar diante dele.
Ryan: Isso foi... foda!
Carlos: Hehe! Bem, agradeça ao Jason, não se esqueça que foi ele quem inventou esse tipo de estratégia de combate. Você conseguiu observar bem como o Snake Venom funciona agora, não é? O truque está em ir na máxima velocidade que conseguir até as pernas do oponente e atingi-las fortemente, não só para danificá-las, mas também para desequilibrar o oponente a fim de torná-lo vulnerável por alguns segundos para que você possa atacar da cintura pra cima. O bom é que, no momento em que você o desequilibra, você deixa seu oponente sem defesa, pois é pego de surpresa e por isso, também são poucas as chances de ele desferir um ataque rápido quando você se erguer para lançar os golpes na parte de cima do corpo... sacou isso, Ryan?
Ryan: Sim, saquei, sim, realmente, se o usuário conseguir realizar o golpe com velocidade e força suficientes, ele pode liquidar o inimigo completamente.
Carlos: Sim. Há diversas técnicas nesse estilo que miram as pernas do inimigo, muitas delas até envolvem mordidas, que se forem bem feitas, fazem as pernas atingidas sangrarem bastante.
Ryan: Caramba! É por essas que o Sanek Venom tem esse nome, não é? Hum!
Carlos: Hehe! Sim, sim, eu disse que fazia sentido as pessoas terem apelidado esse conjunto de técnicas com esse nome... bem, mas eu acho que já terminei aqui. Eu espero que você tenha curtido, Ryan.
Ryan: Sim, claro! Eu adorei, foi muito foda mesmo, Carlos, obrigado por ter me dado a demonstração.
Carlos: Que nada, o prazer foi todo meu.
O garoto e Maciel apertam a mão do professor Carlos e em questão de segundos, os dois já estão de volta à sala de musculação.
Ryan: Beleza, beleza, Maciel! Agora hein! Quero ver o motivo de você ter deixado aquele estilo de luta que eu queria conhecer por último! Eu espero não me decepcionar, de certa forma, acabei criando bastante expectativa!
Maciel: Ta bom, cara, ta bom, que curiosidade! Vamos lá, só falta esse estilo mesmo... vamos indo conhecer o sétimo estilo de luta!
Ryan: “Vamo” lá!
Os dois se dirigem um pouco mais pra esquerda e entram no corredor que Maciel havia passado direto momentos atrás. Ambos se dirigem para a porta de ferro. O coração de Ryan vai batendo cada vez mais rápido.
Ryan (pensando): Quero só ver porque ele deixou esse estilo por último... eu não consigo enxergar nenhum motivo pra ele ter feito isso...
Então, Maciel mete a mão na maçaneta da porta e eles entram. A sala é exatamente igual a todas as outras seis, só que sem decorações, sem sacos de areia, sem estátuas e sem pôsteres, apenas com o grande espelho na parede da esquerda.
Ryan: Beleza então...
O garoto olha a sua volta.
Ryan: Ué?
Maciel: O que foi, Ryan? Algum problema?
Ryan: Deu merda, não é Maciel?
Maciel: Por que?!
O garoto dá mais uma olhada em toda a sala mas não vê ninguém além deles dois.
Ryan: Já saquei! Você pulou esse antes porque o professor não ta aqui e você queria dar tempo pra ele chegar, não é? Mas ele não ta aqui, tua enrolação não deu certo não.
Maciel: Heh! Pior que deu! De fato, o professor não tava aqui antes...
Ryan fica com uma expressão de dúvida.
Maciel: Mas ele acabou de chegar. Muito prazer, Ryan, eu sou o professor que vai te dar a demonstração do sétimo estilo de luta!!
O garoto esbugalha os olhos.
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