Ícarus, anjo noturno

3 O mesmo garoto, o mesmo túmulo


Olá, senhor,

Posso lhe incomodar novamente? Quanto tempo que não venho aqui, trouxe mais flores para o senhor. É estranho a paz que só esse cemitério me traz, diferente dos outros que me assustam, esse é tão bonito esteticamente, todo plano com suas graminhas e me concede uma tranquilidade que busco já há algum tempo. Tranquilidade e paz são as duas coisas que não tenho mais aqui dentro de mim.

Espero que de onde esteja o senhor possa me perdoar por estar aqui lhe incomodando com minhas ladainhas de sempre, mas o senhor talvez é o único que não pode me julgar pelo o que sinto. Novamente estou sofrendo e com aquela imensa vontade de chorar e pedir ajuda para alguém, mas quem? Não tenho ninguém, meu caro amigo falecido, já estou cansado de querer desabafar e não ter alguém para me escutar, às vezes exponho alguns dos meus sentimentos e sou julgado negativamente por isso, como sendo dramático, não ter auto estima e até não ter amor próprio.

Por que vivemos hoje em um mundo onde o fato de sentir e demonstrar é errado? Quando o senhor estava vivo também era assim ou era um tempo completamente diferente?

Ei, às vezes fico imaginando o senhor como herói de guerra, noutras como aqueles vovôs que se vestiam de Papai Noel nos shoppings para alegrar as crianças. É tão estranho alguém com a minha idade ficar fantasiando com essas coisas, acho que é esse o meu problema: fantasiar. Eu fico imaginando coisas que nunca poderão acontecer e isso me deixa doido, pois mesmo sabendo que 99% de improbabilidade eu acabo me chateando.

Ando tão confuso nesses últimos dias, peguei-me parado embaixo do chuveiro com crise existencial e eu não tenho isso desde meus 16 anos. Querido amigo, está tudo confuso na minha vida, está tudo uma merda total. O ambiente familiar em minha casa está prestes a ruir, brigas entre meus pais e eu, e entre eles. Eu sei que a família perfeita é aquela que tem seus problemas e brigas, mas eu não aguento mais, penso em pegar meu dinheiro e fugir para bem longe, abandonar trabalho, faculdade, família e sumir.

Faculdade é outra coisa que anda me deixando a beira dos nervos, estou no meu último e não sei se é isso mesmo que eu quero. Deveria ter pensado melhor ou até mesmo trancado logo no comecinho dela, mas fui praticamente induzido a continuar pelos amigos e meus pais. O fato da pressão da sociedade impor a todos os adolescentes a entrarem em uma universidade assim que termina o Ensino Médio pesou bastante sobre meus ombros, nunca que eu, com apenas 17 anos, teria mentalidade suficiente para decidir meu futuro logo de cara, não apenas eu, mas qualquer um jovem com as mesmas condições. Meu caro amigo, na sua época também havia toda essa pressão da sociedade? Hoje em dia ter um diploma significa tanto, é só um pedaço de papel... entrar em uma universidade com 18 anos e terminar com seus quase 23 não vai formar ninguém para enfrentar a vida de forma como pensam, ninguém tem maturidade para isso. Bom, essa é minha opinião, senhor.

Fico imaginando o que estou fazendo com a minha vida, porque sério, estou apenas sendo levado por uma onda, sem ter controle do meu caminho. É como se eu estivesse em piloto automático, faço tudo por rotina e tenho medo de arriscar, sair da minha zona de conforto.

Novamente sento na grama do cemitério, de frente para seu túmulo com a ideia de falar uma coisa, mas acabei falando de outras que eu não tinha a intenção.

Hoje faz 2 meses que ouvi coisas que não merecia — só de lembrar me dá um aperto no coração e um arrepio em cada pelo do meu corpo – perdi uma amiga tão importante pra mim, uma que eu considerava muito. Ela me disse coisas tão banais sobre o que pensava de mim, não ligou para as minhas explicações e simplesmente virou as costas e saiu andando para longe, de repente eu já não a enxergava mais. Era como se a única luz de um quarto escuro se apagasse. Eu tento não lembrar disso e supero a cada dia, porém chega um momento que todas aquelas frases batem na minha cabeça como se fossem marteladas e meu coração dói com elas.

Meu horário de almoço já está acabando, preciso ir. Agradeço pela compreensão e peço perdão por novamente não olhar seu nome, na minha compreensão isso deixa nossa “relação” melhor. Até a próxima, meu querido, porque agora tenho que voltar para a minha triste vida de robô dentro de um escritório. Espero poder voltar logo para te fazer uma visita e quem sabe contar coisas felizes.