Átlas: Rumo à Ilha dos Desejos
2 Trevizo, a cidade sem lei
– Ei, Sophia! Vamos logo acordando, pois hoje o dia será puxado... Hoje é o dia que vamos para o reservatório da cidade abastecer os tanques do orfanato! – Comentou de longe uma voz suave de uma senhora que vinha do outro lado da porta do quarto de Sophia que ainda estava dormindo. A voz era acompanhada de batidas na porta. A jovem abriu os olhos, azuis como a água do mar, que ainda pareciam cansados; quinze anos haviam se passado desde o ocorrido com sua família. E ontem o dia foi muito conturbado, a vontade de se levantar não vinha. Seria a preguiça? Sophia não sabia, mas não podia evitar... Dulce não a deixaria continuar dormindo mais. Ela sentou na cama, coçou seus olhos e dirigiu-se para o banheiro, onde tomou um banho rápido para trazer mais disposição. Ao sair, olhou para o relógio que marcava seis e trinta da manhã. – Nossa, e eu já até tomei banho! – Comentou para si mesmo, surpresa por ainda ser tão cedo.
Era sexta-feira, dia em que ela e outros dois órfãos ajudavam Dulce a buscar água no centro da cidade onde viviam: Trevizo. Trocou de roupa com calma, pois sabia que o dia seria cheio também, e partiu para a saída onde desceu três lances de escadas até chegar ao térreo, onde foi para a cozinha. Ela e Dulce tomaram um café da manhã reforçado, e prepararam o que seria o alimento controlado da ala dos idosos do orfanato, que para alguns era chamado de asilo também.
O Orfanato Sol funcionava com três grandes alas, prédios de cinco andares que eram separados por lindo jardim estreito onde no centro de cada um deles havia formas de entretenimento para quem vivia lá. O primeiro prédio, que dera início ao orfanato há quase duzentos anos atrás, era a ala das crianças. Este possuía vários bebês, crianças e jovens que iam até dezoito anos. Ao completar dezoito, agora atingindo a maioridade, este seria encaminhado para a segunda ala, onde ficava o prédio dos adultos. Este abrigava pessoas de dezoito a sessenta anos, e estes, que tinham a opção de ficar no orfanato ou partir, teriam de ajudar nas tarefas diárias do local e, se possível, contribuir financeiramente. A terceira ala era destinada aos idosos, senhores e senhoras que em sua maioria foram deixados lá pelos familiares e abandonados, pois estes davam muita despesa.
Sophia agora era maior de idade e teria que começar a ajudar nas tarefas diárias, assim como teria que se mudar para a segunda ala; mudança que já estava agendada para o próximo dia, após as tarefas de hoje. Dulce queria que, junto de Ariel e Davi, fosse à cidade buscar água para abastecer o reservatório do orfanato. Todo mês era necessário ir até lá para evitar problemas. Seria a primeira vez de Sophia. Ariel já estava indo pela terceira vez e Davi completaria dois anos que acompanhava Dulce, todo mês sem falhar.
– Tudo pronto, pessoal? – Comentou Dulce, animada!
– Sim! – Respondeu os outros três juntos.
– Então vamos lá.
Ariel notou que Sophia estava nervosa, pois nunca havia ido para a cidade antes, Dulce nunca a deixara ir sozinha, pois havia medo de que ela se perdesse ou coisa pior. Ela acompanhou Sophia até seu quarto para pegar um agasalho e alguns livros, que guardara numa mochila pequena, sabia que seria uma viagem longa e gostaria de passar o tempo no ônibus lendo, ela adorava ler. – Não sei preocupe, Sophia! Apesar dos perigos, ir para a capital é incrível! Você vai adorar! – Disse Ariel, com sua franja da cor do fogo caindo constantemente em seus olhos por baixo dos óculos, enquanto apoiara sua mão no ombro de sua amiga. – Espero que sim! – Respondeu, sabendo o que poderia acontecer. Sophia lia constantemente o jornal da semana que corria pelas cidades em volta da capital, lia dos crimes, lia das injustiças do governo e o que acontecia quando uma pessoa pobre pisava onde não devia ou falava o que não poderia. Não eram perdoados.
Os quatro partiram após o sinal de Davi, que as esperava junto com Dulce no ônibus de excursão do orfanato, e com tudo preparado partiram para Trevizo. Pelo caminho, passaram por uma enorme floresta, não em largura, mas sim em altura. As árvores eram imensas. Talvez se escalasse uma, poderia ver todo o resto do planeta. Talvez chegar até a lua! Sophia pensava assim, sua imaginação sempre ultrapassava os limites, às vezes chegava a comentar o que sonhava ou pensava e Dulce logo a fazia colocar os pés no chão, sempre em tom humorado.
– Como estão vocês aí? – Perguntou Davi enquanto dirigia. Sophia não sabia o que responder, talvez estivesse muito nervosa para falar, ou com medo. Ariel, pelo contrário, gostava de falar, se comunicava muito bem. Dulce a chamou para ir, pois sabia que com ela todas as negociações estariam bem feitas, além de ser muito bonita. Davi ia por que era o único que sabia dirigir rápido o suficiente para não perder tempo, além de proteger as mulheres que o acompanhavam. Se bem que Dulce era tão brigona quanto ele.
– Como é lá? – Perguntou Sophia, curiosa!
– Lá na capital tem muita gente, é um lugar fácil para se perder.
– Sem contar nos enormes prédios, acho que tem uns oitenta ou noventa andares!
– Ah, e tem saqueadores por todo lado!
– Saqueadores? – Espantou-se Sophia, que já estava mais nervosa.
– Sim, lá tem todo tipo de gente, e como pessoas como nós vamos com dinheiro para comprar água nos postos, tem muita gente que tenta nos roubar.
A conversa das três logo fora interrompida por Davi, que pediu silêncio. Estavam chegando à fronteira que dividia sua vila, uma área abandonada e a capital. Essa área abandonada era temida por que o tempo costumava deixar de ser estável além de conter outros perigos. Uns diziam que havia monstros, outros diziam que eram espíritos. Havia vários lugares assim pelo mundo que dividiam as capitais, chamadas também de Zonas de Segurança, de lugares inabitáveis, conhecidos como Zonas de Alerta. Eles iam atravessar uma dessas zonas. Davi sabia por onde seguir, afinal passava por ali todo mês. Dulce e Ariel se aquietaram, pois o menor ruído além do ônibus podia ser ouvido por aqueles que habitavam ali. Sophia aproveitou para pegar um livro em sua mochila para começar a ler. Era um livro curioso, pequeno, parecia um livro de contos. Possuía uma capa azul, grossa, e seu título era “A Cidade dos Sonhos”.
Enquanto lia, Sophia desligou-se do que estava a sua volta e não notou que o ônibus havia parado, nem sequer prestou atenção de que já haviam saído da Zona de Alerta e estavam no portal de entrada de Trevizo. Era um enorme portal que se iluminava a noite, seguido por vários prédios enormes como Ariel havia comentado antes de partirem. Sophia ficou maravilhada com tudo o que via, mas sua visão mudou de esplendor para choque assim que avistou o primeiro crime, sua viagem mal completara cinco minutos na capital. Ela fixou seus olhos em uma moça, de cabelo castanho enrolado que batiam em seus ombros, roupas que pareciam trapos e muito magra com uma menina em pé ao seu lado que parecia chorando. O pouco que a jovem conseguiu ouvir foi: “Você não tem o direito de pedir nada neste lugar. Quer? Compre!”; disse um comerciante impiedoso, e notou que o pouco dinheiro que tinha era o suficiente para comprar um misero copo de água que logo deu para sua filha. Num segundo de desatenção, a pequena garota logo foi surpreendida por um saqueador que roubou o copo da moça e sumiu de vista... Ninguém fez nada.
Seguindo viagem, finalmente chegaram ao primeiro posto. Ele parecia um dos prédios que avistara antes, porém menor. Tinha o formato de um enorme cano e era cercado por pelo menos dez seguranças que circulavam todo o diâmetro do mesmo. Ao desembarcarem no portão, Dulce logo saiu na frente onde tirou da bolsa um papel que parecia uma autorização oficial o que logo fez o portão se abrir. Todos deixaram o ônibus na entrada, onde iria sofrer uma revista minuciosa da polícia local, e seguiram portão à frente onde foram recebidos por um homem que vestia terno e gravata com uma expressão fechada, não parecia nada feliz. O sol batia muito forte no rosto dos quatro que andavam, estavam contra a luz, mas dava pra ver claramente quem os esperava.
– Vamos logo, Samuel, estou com pressa! – Disse Dulce logo de cara, não queria perder tempo.
– Bom dia para você também, coração! – Respondeu o homem que olhava fixamente para Sophia. – E essa moça aqui, quem é? Ainda não a conhecia!
– Ela se chama Sophia, acabara de completar dezoito, então quis trazer ela pela primeira vez.
– Entendo, seja bem vinda, minha cara! Este é o meu paraíso, a Doca #23 da Capital Trevizo!
– Obrigada! – Respondeu Sophia timidamente apertando a mão de Ariel.
Davi e Samuel não trocaram olhares, parecia que não se gostavam. Sophia notou, mas não quis comentar nada, não ali. Queria esperar até que fossem embora. Foi então que o anfitrião da Doca #23 os chamou para entrar. Dulce não gostou, não queria demorar. Ariel não viu problema, adorava aquele lugar e parecia conhecer todo mundo que trabalhava ali e meteu-se na frente do grupo. Sophia seguiu para junto de Dulce que estava acompanhada também por Davi. Ao entrarem, logo subiram dois lances de escada e entraram numa sala estranha, aquele era o escritório de Samuel.
– Bom, vejamos... Este mês completa cinco anos desde sua última renovação do contrato. Você sabe o que significa, não é Dulce?
– Sim, vim preparada, não se preocupe.
– A taxa infelizmente vai subir. Não gostaria de fazer isso, mas sigo ordens.
– Tudo bem... Você não é um cara ruim, mesmo eu não indo com a sua cara.
– Disso eu sempre soube! – Comentou Samuel enquanto os dois começaram a sorrir. – Enfim, quanto vai pegar este mês?
– Eu gostaria de pegar o de sempre, mas como terei que pagar uma taxa extra, vou pegar dez mil litros a menos.
– Mas isso não te fará falta?
– Fará sim, mas damos um jeito... São tempos difíceis.
– E como são! – Completou Samuel, que assinara vários papeis na seqüência. Dulce levantou-se e chamou os outros três para fora enquanto esperavam pelo homem que disse que logo traria o que precisavam.
Não demorou até que Samuel finalmente retornou, veio com mais papeis, onde mostrou para eles que o reservatório do orfanato seria reabastecido na segunda-feira que viria, sem mais delongas todos se dirigiram para a saída.
– É sempre bom te ver, Samuel! – Comentou Dulce, com uma voz suave e carinhosa.
– Digo o mesmo, Dulce. Sabe que sempre torço para o melhor do orfanato, não é?
– Sei sim.
– Espero ver todos vocês aqui no mês que vem.
– Pode ter certeza que voltaremos!
Voltando por todo o percurso de volta até o portão, o segurança da frente comentou que o ônibus em que vieram fora deixado no estacionamento da Doca #23 que ficava a duas quadras dali, os quatro imediatamente foram até lá. No caminho, Sophia olhou para Davi e decidiu saciar sua dúvida anterior.
– Você e Samuel não se dão bem?
– Hm, na verdade, sinto que ele não vai com a minha cara.
– Mas por quê?
– Não sei, nunca cheguei a conversar com ele diretamente. Mas começou a ficar chato perguntar coisas para alguém que não te responde direito. Por isso prefiro deixar todas as negociações para Dulce e Ariel.
– Nossa, imagino que seja ruim mesmo.
Enquanto conversavam sobre Samuel, sobre como Ariel ficara animada com a capital e em como a Dulce estava com a cara feia, Sophia não percebeu até que esbarrou com alguém na rua, na hora não deu importância, mas notou com este ficou com os olhos fixados nela. A batida havia feito o livro que segurava em mãos e sua bolsa cair. O jovem logo a ajudou a juntar tudo, mas notou algo em Sophia quando pegou o livro “A Cidade dos Sonhos”. A jovem, por sua vez, não gostou de ver o garoto olhando sem ao menos piscar para o livro e pegou de volta de suas mãos.
– Muito obrigada, moço! – Disse agradecidamente, com voz firme; o garoto apenas olhou para Sophia e para o livro e saiu correndo. – Nossa, nem se quer disse “de nada”. – Completou.
Continuaram até o ônibus e o encontraram. Estava intacto e muito bem estacionado. Não perderam tempo e logo partiram de volta para a casa. No caminho até a Zona de Alerta foram conversando sobre Ariel, que ficara sem falar desde o encontro com Samuel. – Você nunca é tão calada assim, menina! Está apaixonada? – Disse Sophia em tom de humor, Ariel negou, mas não foi convincente. Por diversas vezes a jovem encarava seu livro e se lembrava do ocorrido, mas logo esquecia quando começava a ler.
– Sempre te vejo com esse livro, porque gosta tanto dele? – Perguntou Davi curioso.
– Não sei dizer, eu o tenho desde que me lembro.
– Ganhou quando era criança? – Intrometeu-se Ariel.
– Talvez, não me lembro mesmo. Acho que foi dado pelos meus pais.
– Você o tem desde quando apareceu na porta do orfanato. – Comentou Dulce.
– É possível mesmo que tenha sido dado pelos meus pais mesmo.
– Se é tão importante, deveria cuidar melhor dele. Olha só! Todo rasurado e feio! – Brincou Ariel.
– Para, criatura! Não fale mal dele! – Completou Sophia em tom humorado.
– Agora se acalmem, estamos chegando à Zona de Alerta novamente. – Interrompeu Davi.
Após passarem pelo portal de entrada da capital, eles logo ficaram em silêncio e prosseguiram a viagem. Estranhamente, o ônibus decidiu parar de funcionar no meio do caminho. Problema de motor? Água? Combustível? Ninguém soube responder, e apenas o medo plainava pelo ar. Dulce foi a que melhor mantinha a calma nessa hora, sabia que o automóvel era velho e que tinha que ter passado por uma revisão há muito tempo atrás. Davi logo saiu do carro para ver o que pudera ter acontecido de fato. Sophia tentou se acalmar lendo seu livro e Ariel começou a dormir em plena viagem.
Enquanto Davi tentava descobrir, Dulce, que não enxergava muito bem, viu uma sombra por entre a nuvem de poeira que rodeava o lugar. Logo bateu no vidro da frente para chamar a atenção de Davi. Ele olhou uma vez, duas, e na terceira viu que não era seguro ficar ali fora. Voltou para dentro do ônibus e esperou. Talvez fosse melhor esperar que o automóvel esfriasse. De dentro do veículo todos começaram a ver sombras espalhando-se por todo lado da área onde estavam, estavam vindo de todas as direções, fosse lá o que se aproximava. Sophia parou de ler de imediato e aproximou-se da janela quando foi surpreendida por um rosto muito feio. Era realmente um monstro. Um dos muitos que estavam vindo! Com o sustou, Sophia pulou para trás, caindo em cima de Ariel que acordou no pulo. A jovem de cabelos loiros não notou quando seu livro caiu para fora da janela. Davi deu partida diversas vezes, mas não surtia efeito. Foi quando Dulce mandou todos se abaixarem e ficarem em silêncio. A poeira rodeava o ônibus e durante vários minutos ficaram ali. Escutavam os monstros rodearem o lugar com passos fortes e barulhentos... Eles gemiam muito também.
Mal passou meia hora quando perceberam que os passos haviam parado. Teriam ido embora? Talvez. Davi levantou-se aos poucos e viu que não havia mais nada ali. – O que será que houve? – Perguntou para si mesmo. Quando sentou no banco do motorista novamente viu que havia uma mensagem escrita no meio da poeira que estava presa no vidro da frente: “É melhor se apressarem, esses estavam só chamando o chefe deles! Ande logo e dê a partida!”; o carro teria voltado a funcionar do nada? Quando Davi pisou no acelerador e ligou a ignição, realmente estava funcionando novamente. Sem pensar duas vezes, continuaram seu caminho em direção ao Orfanato Sol.
Eles partiram e Sophia ficou olhando pelo vidro de trás, de relance viu uma nova sombra por entre a fumaça, já estava longe, mas dava pra ver claramente. Essa parecia pelo menos quinze vezes maior do que os monstros que interceptaram o ônibus anteriormente. Quase chegando à fronteira da vila onde viviam, a jovem se deu conta que não estava mais com seu livro. Procurou e revistou tudo o que podia dentro do ônibus, até mexeu nas roupas do corpo de Ariel que poderia ter pegado para lhe fazer uma brincadeira. Mas realmente não estava ali. Davi viu os olhos de Sophia, mas antes que a mesma pudesse pedir algo, explicou que seria impossível voltar agora. – Desculpe, Sophia. – Disse com pesar.
De volta ao orfanato e com o relógio quase completando seis horas da tarde, Dulce alegou-se de ter chegado a tempo para entregar ela mesmo a janta na ala três, dos idosos. Ela chamou Sophia para ajudá-la e ver se ela esquecia um pouco do ocorrido. A jovem conhecia quase todos os velhinhos dali pelo nome, muitos ela já era amiga, de alguns ela ia durante sua infância ler algum livro para alegrá-los. Alguns deles já conheciam sua história favorita.
O relógio já mostrava quase nove da noite, quando Dulce chamou Sophia para retornar a ala um. Ela precisava dormir cedo, pois amanhã seria o dia da sua mudança para a ala dois. Agora ela não era mais criança. Ela sabia que amanhã receberia uma pergunta de Dulce, uma pergunta que ela já sabia que receberia, mas por anos pensou que o dia nunca chegaria. Ela ficaria ou não no orfanato? Estaria pronta para seguir sozinha? Ou seria melhor ficar e ajudar Dulce no dia-a-dia do lugar? Era muita coisa para se pensar após o dia conturbado de hoje, sem contar na tristeza de ter perdido seu livro favorito. Ela logo vestiu sua roupa de cama, estava cansada demais para um banho, despediu-se de todo mundo e foi dormir.
Fale com o autor