Átlas: Rumo à Ilha dos Desejos
3 Orfanato Sol
Notas iniciais
O novo dia finalmente chegou e a claridade batia radiante no quarto de Sophia, era um dia que tinha tudo para ser o dia perfeito. Ela logo acordara com o sol que batia em seu rosto, deitada contra a janela que permanecera aberta durante a noite; ainda com preguiça, ela finalmente decidiu que era o momento de levantar, tomar um banho rápido e começar a arrumar suas coisas. Ela logo saiu pelos quartos vizinhos perguntando para quem encontrava se eles tinham malas vazias, ela esqueceu que não possuía nenhuma além de sua bolsa que guardava seus livros mais preciosos. Depois de muito procurar, a jovem volta para seu quarto com novas três malas, nem grandes, nem pequenas. Talvez fosse o suficiente. Sim, foi. Sophia não tinha muita bagagem.
Enquanto arrumara suas roupas, dobrando-as com carinho, fora descobrindo vestes antigas, peças que nem lembrava mais que existiam. Seria possível fugir desse sentimento de nostalgia? Acho que não. Minutos se passaram quando ela encontrou uma blusa pequena, de quando ainda era criança. Uma blusa azul clara como seus olhos de aspecto velho com um remendo acima do ombro esquerdo. A blusa tinha umas manchas pretas, umas marcas que pareciam de queimado. E eram. Esta era uma das roupas que usara no dia em que perdeu seus pais no incêndio há quinze anos. Sophia não sabia se era uma lembrança que gostaria que passasse pela sua cabeça nesse dia. Ela logo pensara e divagava sobre a lembrança. Se poderia ser boa ou ruim, boa por ter achado algo de seu passado, e ruim pelo o que ele trazia.
Não havia muito tempo para desviar sua concentração, então a jovem logo continuou no que estava fazendo. Vasculhando suas gavetas, achou colares caseiros, pulseiras, alguns desenhos e pôsteres de parede; tudo feito a mão. Ela gostava de guardar tudo o que ganhara das crianças que cresceram com ela, amizades que ela nunca se esquecerá de pessoas que ainda estão com ela e das que não estão mais. Ariel é uma dessas amizades. Havia um desenho em especial no meio desses que era dela, inclusive. Sophia o pegou e olhava com lágrimas para cair em seu rosto. O desenho mostrava duas pessoas, em formato de palito, uma com o cabelo loiro, Sophia, e outra de cabelo vermelho, Ariel. Era o que parecia ser um abraço, abaixo estava escrito: “Melhor amiga... Para sempre!”, com letra tremida, afinal, eram crianças.
Os outros objetos vieram no decorrer dos anos em dias comemorativos no orfanato. Dia das mães, dia do trabalhador, dia dos professores, entre outros, que sempre era comemorado com oficinas de arte para motivar as crianças, adultos e até os simpáticos velhinhos a se divertirem fazendo algo. Dessas oficinas sempre saíam lindos desenhos, colares, anéis, pulseiras e até mesmo roupas que se fossem levados ao mercado seriam comprados como se fossem de marcas famosas. Sophia lembrou-se até de um velho amigo, Anderson, que apenas com 15 anos, há sete anos, chamou a atenção de uma grife importante por seu modo peculiar de desenhar. Fora adotado pelos donos da empresa que viram o grande talento do menino. Hoje, com 22 anos, já deve ter virado uma pessoa rica. Pelo menos era assim que Sophia pensava. E lá no meio de suas coisas havia um desenho dele pra ela. Um desenho quase perfeito da jovem, que na época tinha apenas onze anos, usando um lindo vestido longo e vermelho, um salto preto em pose de uma bela dançarina. Este pode ter sido o primeiro grande amor de infância de Sophia.
Pensamentos à parte, Sophia se deu conta que tudo já estava guardado e tirando os objetos que pudera levar nas mãos, o resto dos poucos móveis que ela possuía em seu quarto seria levado com a ajuda de outras pessoas mais tarde. Isso incluiria seus livros. Ela por um momento se perguntou de onde obtivera tantos assim? Nem se deu conta de quanto tempo passara na biblioteca do orfanato, ou se quer dos presentes que recebera, pois todos sabiam que seu gosto favorito era ler. Ainda amargurada por ter perdido seu mais precioso livro, ela caminha os três andares abaixo e se dirige para a porta dos fundos, caminho mais tranqüilo para seguir a segunda ala onde teria que cruzar o pequeno parquinho que separava as duas alas. No percurso, observou algumas crianças, rostos conhecidos.
– É verdade que você está se mudando, Sophia?
– Sim, infelizmente estou sim. – Respondeu a jovem com pesar.
– Ah, que pena... Adorava quando você lia pra gente.
– Mas eu ainda estarei no orfanato, não pensem que se livrarão de mim tão cedo!
– Haha, tomara mesmo. Você é a melhor pessoa daqui! – Disse o jovem Rômulo, de sete anos, que via Sophia como um exemplo.
– Que isso, garoto. Não sou tanto assim não. – Disse timidamente e com as bochechas rosadas – Bom, agora vou indo porque Dulce estava me apressando. Vejo vocês depois com uma nova história!
– Tchau Sophia! – Responderam as crianças com um sorriso no rosto.
Sophia segue seu caminho até a ala da qual seria sua nova moradia. Ao se aproximar, notou pessoas conversando, uns regando o jardim frontal do prédio, alguns cercando o local arrumando partes da estrutura que necessitavam de remendos. Eram pessoas que ela não tinha muito o costume de conversar, mesmo conhecendo alguns de vista e até mesmo o nome. Talvez agora ela tivesse que agir como adulto, ou seria taxada como criança pelos outros. Ela sempre foi uma pessoa receosa. Logo foi surpreendida por Davi, que chegava a pouco do mercado com algumas frutas, jornais e pedaços de lixo reciclável que encontrara pelo caminho.
– Oi, Davi! – Disse Sophia, mostrando um enorme sorriso.
– Olá, Sophia... Que bom vê-la por aqui! Finalmente está se mudando?
– Sim, Dulce estava tão ansiosa quanto eu.
– Ela é realmente assim mesmo. E o resto das coisas?
– Não tem muito para trazer. Só uma cômoda, alguns cabides e meus livros.
– Entendo, depois vou lá te dar uma mão então.
– Eu ficaria agradecida!
– Já sabe em que quarto ficará?
– Ainda não... Dulce quis manter segredo sobre ele. Queria estar junto comigo.
– E cadê essa mulher?
– Pois é, ela sumiu. Não a vi hoje ainda.
– Logo ela aparece. Nunca vi uma pessoa manter sua palavra tanto quanto ela.
– Sim, ela vai...
Não deu nem tempo de Sophia terminar sua última frase quando escutou um grito de longe chamando por seu nome. Era Dulce, que desconhecia a frase “vergonha alheia”. Ela parecia toda suja de tinta, e aos poucos Sophia já notara o que ela estava fazendo. Dulce estava mexendo seu futuro quarto. Ninguém conhecia Sophia tão bem quanto ela, nem sequer Ariel sabia dos mais profundos detalhes dos sentimentos da jovem que agora adentrava ao mundo adulto. – Te disse que queria estar junto e finalmente estou aqui. Vamos lá? – Complementou Dulce pegando na mão de Sophia e a puxando junto com ela.
Agora a menina não iria morar mais no terceiro andar, seu novo quarto estava no térreo. Pouco foi a caminhada até a porta do local, enquanto a jovem estava nervosa, Dulce sorria. Sabia que ela iria gostar do que lhe aguardava. Ao abrir a porta, Sophia não pode conter a emoção. Nas paredes estavam diversos desenhos, frases e fotografias de amigos, gente que Dulce passou toda a última semana correndo atrás para lhe preparar a surpresa. Eram todos versos de boas vindas e frases de motivação escritas a próprio punho. Sophia entrou e viu Ariel que Ariel já estava lá dentro, afinal, não queria perder este momento também. Sophia a viu e lembrou-se do desenho que viu em seu quarto a pouco e foi logo a abraçando. Dulce também participou, seguido por Davi, que colaborou com a seguinte frase: “Agora é deixar de ser uma criança chorona e aprender a ser uma pessoa amargurada que nem a Dulce.”, em tom irônico. A maioria das mensagens era das crianças e jovens da primeira ala, e Sophia, chorando, ficou sem palavras para agradecer. “Vai ser impossível deixar de ser uma “criança chorona” assim, Davi.”, sorriu. Depois do abraço, Ariel ficou parada onde estava até sua amiga notar que a jovem estava segurando algo em suas mãos, escondido em suas costas. A curiosidade de Sophia disparou.
– O que você está segurando aí atrás?
– Nada que te interesse. – Bufou, só para atiçar mais Sophia.
– Como não? No meu novo quarto, com tantas surpresas, você ainda tenta esconder algo?
– Na verdade sim. Por que este será o clímax. – Apenas o mistério circulava o local.
– Então me deixa ver logo! – Disse Sophia indo pra cima de Ariel.
– Tá bom, tá bom. Mas eu gostaria que Dulce dissesse algo antes.
– Acho que nessa última semana, este foi o objeto mais difícil para se conseguir. – Complementou Dulce que vinha logo atrás de Sophia, apoiando sua mão quente no ombro de sua filha de consideração.
Ariel virou-se de costas e colocou o objeto em cima de uma mesa que estava no canto do quarto. “O que poderia ser?” Sophia não aguentava mais. Quando sua amiga saiu da frente, percebeu que era uma fotografia. “Sabíamos que esta foto tinha de estar num lugar diferente das outras que penduramos nas paredes.” – Disse Ariel, deixando Sophia se aproximar. Ela novamente não conseguiu conter as lágrimas. Reconheceu facilmente a foto, seu pai, sua mãe e sua irmã mais velha. Era uma fotografia que estava pendurada em uma das paredes da sala de estar de sua antiga casa incendiada e agora seria a primeira lembrança visual de sua verdadeira família. “Eu não... Tenho nem como... Agradecer... A todos vocês.” – respondeu Sophia meio gaguejando, enquanto ouvira Dulce dizer que não era nada que precisasse de agradecimento, era apenas um presente. “Revirar aquela casa, ainda com os destroços intactos, foi difícil, mas eu sabia que acharia algo importante pra você.” – Completou Dulce.
– E essa não foi a única coisa que encontramos. Acho que você vai gostar de ver isso... – Disse Davi, com um papel um pouco envelhecido nas mãos.
– O que é? Não vão me fazer chorar de novo, não é?
– Talvez! – Sorriu Ariel.
Sophia pegou o papel e nele estava escrito:
“Eu espero poder te encontrar de novo, minha irmãzinha. Acho que você teve a força necessária para visitar nossa antiga casa como eu não tive até hoje, mas caso venha e encontre isso, saiba que estou com saudades e também com vergonha por não ter dito isso para você pessoalmente aí no Orfanato Sol. Espero que esteja bem e, quando puder, venha ao Vale Verde. É longe, mas estou te esperando...”.
Ao ler, Sophia conseguiu se controlar e não chorou, mas se viu toda arrepiada e sem expressar nenhuma palavra se botou firme no chão, seguiu até uma das paredes e colou o papel do lado de sua cama, onde poderia vê-lo todo o dia. “Obrigada, pessoal. Hoje eu tive o melhor dia que eu poderia ter dito em todos esses quinze anos aqui no orfanato. Vocês realmente se tornaram minha família e eu amo todos vocês.” – Respondeu Sophia, alegre e sorrindo.
Dulce, Davi e Ariel despediram-se de Sophia e retornaram para a primeira ala, onde a jovem retornaria depois para um jantar de comemoração e também de despedida oficial. Enquanto não ia, Sophia parou para olhar com mais atenção os presentes que estavam pendurados na parede. Havia fotos que ela nunca nem se quer pensou que teria tirado, algumas até constrangedoras. Mas não restava nenhuma dúvida: foram bons momentos, inesquecíveis, que faziam Sophia pensar no quão bom fora sua vida até ali, mesmo com os acontecimentos de seu passado. Ela agradecia para si mesma por ter vindo parar na porta daquele orfanato.
Poucos segundos depois de ver mais calmamente todas as mensagens, Sophia escuta batidas na porta; eram Dulce, Davi e Ariel novamente que haviam voltado para buscá-la, mas antes que de fato saíssem, mais uma vez a porta rangia com novas batidas. “Quem poderia ser?” Todos pensaram, foi então que Dulce dirigiu-se e abriu, deparando-se com um garoto com vários cortes nos braços, ferimentos na cabeça, alguns remendos de última hora nas mãos e empunhando uma espada da cintura. Sophia logo se lembrou!
– Você! Eu o vi em Trevizo! – Disse surpresa.
– Sim, você esbarrou em mim.
– Quem é você, garoto?! – Perguntou Dulce inquieta.
– Me chamo Mateus. Desculpe aparecer assim, mas precisava vir rápido.
– E o que quer? – Intrometeram-se Davi e Ariel.
– Vim devolver isso...
O jovem Mateus trouxe em suas mãos um livro, pequeno, de capa azul. Sim, este era “A Cidade dos Sonhos” que Sophia perdera na volta de Trevizo. Todos se entre olharam e a jovem mostrou-se pasma. Ela ficou com várias perguntas na cabeça. Como ele o conseguiu? Não havia sido perdido na Área de Alerta? Porque ele faria isso, aliás? E todos esses ferimentos? Como ele sabia de onde eu era? Eram tantas que ela não conseguiu fazer nenhuma. O silêncio tomou conta do lugar até que o jovem Mateus quebrou toda a calmaria. Ele parecia tão fraco que logo se despencou no chão, desmaiado. Não se sabe como, mas ele veio. Com certeza fora uma longa viagem.
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