À flor da pele

72 Inferno sangrento!


Notas iniciais
Se esbaldem!!! XD Boa leitura!

Diana

Bem que dizem que namoro suga tempo. E namoro, mais serviço de enfermeira algumas horas por dia, mais trabalhar para Theo no apartamento, mais aturar Tyler e Jane... E os telefonemas sem fim de Terry, que ainda não deu as caras em minha casa, mas que sempre liga animada para conversar por horas...

Meu deus!

Tem momentos que sinto que meu cérebro vai pifar.

Os dias passam voando. Todas as coisas que eu preciso fazer me deixam completamente alheia a qualquer outra coisa. E mais isso agora...

É quinta-feira, dia 18 de dezembro, faltam poucos dias para o natal e eu não poderia me importar menos com isso. Está tudo tão corrido agora que começou a chegar alguns dos móveis do Theo. Em algum lugar no meu subconsciente, eu liguei o fim das obras ao feriado de natal. Me esqueci completamente que espero minha mãe e minha irmã para a data. E só me lembro quando é tarde demais.

Chego em casa por voltas das 17 horas, Theodor ainda vive como recluso. A imprensa nem sabe que ele está na cidade. Então, ele tem passado as tardes com a irmã e com os amigos em minha casa.

Eu pensei que iria pirar sobre isso, mas ele está aprendendo a me conhecer. Os amigos não vão embora antes que eu chegue, ou quando estou em casa, não ficam muito tempo e permanecem na sala. Tudo está sempre limpo após saírem. Amy geralmente passa pano com água sanitária no chão. É realmente tocante isso. Acho que aprendi a gostar desse pessoal.

Mas, de qualquer forma, quando chego em casa e escuto a voz firme de Theodor, não ligo. Até que escuto ele dizer o nome que me causa arrepios.

“Eleonor”.

Sigo o som de sua voz e o encontro na cozinha, com o telefone no ouvido enquanto pica algo em cima da pia.

Meu primeiro pensamento é ir até ele e tomar o telefone, mas não consigo. Estou congelada.

Eu amo a minha mãe. Isso é indiscutível. Ok, talvez nem tanto quanto poderia, ou deveria, mas ainda assim, amo.

— Perfeito. — Ele diz. Parece animado, o que é realmente preocupante.

Eleonor não me ligou e acabei me esquecendo dela. Em outros tempos, isso teria ficado em minha mente. Teria me atormentado terrivelmente. Mas agora... Apenas escorregou para fora. Como se não fosse importante.

— Certo, nos vemos em breve então, estou ansioso por conhecê-la, Eleonor.

Eleonor... Nada de Senhora seja lá qual for seu novo sobrenome.

Me sinto intimidada. E em pânico. E se minha mãe não aprovar Theodor? E se ela o atacar, como fez com meus amigos quando era mas nova? E se ela o fazer fugir por sua vida e ele nunca mais quiser saber de mim? Será que Theodor fugiria por causa dela? Será que ele me abandonaria?

Ele disse que me ama e me sinto da mesma forma. Mas é tudo tão novo, às vezes penso que as palavras foram precipitadas. Que a qualquer momento ele perceberá que não as quis dizer e que todo trabalho não vale a pena. Eu não valho a pena...

Estou tão perdida em minha mente, imaginando os piores cenários, que nem percebo quando ele deliga o telefone e se vira, me encontrando parada na entrada da cozinha.

— Tudo bem? — Ele pergunta incerto, ainda com o aparelho sem fio na mão.

— Sim... — Respiro fundo, sou uma mulher adulta, preciso enfrentar meus problemas adequadamente. Mesmo que tenha vontade de fugir e me esconder em algum lugar escuro. — Era minha mãe...

Ele deixa o aparelho na mesa e se aproxima, tocando meus braços com carinho, acariciando por cima da blusa, acalmando-me lentamente.

— Sim. Você esqueceu de me avisar que ela estava vindo para o natal... Ou será deixei isso passar...

Esqueci? Eu acho que falei... Ou não... Não importa. Quando ela chegar, apenas será o fim de tudo. Eleonor tem esse poder todo. Ela consegue arruinar qualquer coisa que ela coloca as mãos.

— Hey... — Sinto seus dedos acariciarem minhas bochechas. — Fale comigo, amor.

Olho em seu rosto, mas ele está todo borrado. Então percebo que são meus olhos. Olhos marejados. Estou aberta diante de Theodor, completamente vulnerável.

Não gosto disso.

Deixar Theodor entrar é um grande passo que consegui dar, mas não está completo. Tem partes de mim que me envergonho de mostrar a ele. A Diana maluca, que pira com qualquer coisa e tem frequentes ataques de pânico é umas as coisas que tento manter trancada. A Diana abusada e sem voz para impedir é outra. Essa segunda me assusta e envergonha mais que qualquer coisa.

Eu sei que sofri abusos, e muitas vezes minha mente tenta justificar tudo o que minha mãe me fez, mas nada que invente e decida aceitar muda as coisas. Eu fui criada por uma mulher fria, que poucas vezes demonstrou ter um coração. Nem mesmo quando ela estava casada com homem que amava, nem assim ela poderia ser alguém melhor.

Sempre soube como isso era errado. Mas nunca tive forças para ir contra. Acho que aguentei calada porque acreditava que merecia a penitência. Mas agora, parece tão bobo. Tão fraco da minha parte ter me sujeitado a tudo isso. Deixei as coisas chegarem em um lugar onde não tem mais volta. Minha mãe acha que tem poder sobre mim. E ela tem, porque eu lhe dei e não sei como tomar de volta. Eu me envergonho constantemente por ter chego a isso.

Como posso trazer Theodor para isso? Como posso trazer esse cara incrível e controlado, tão dono de si, para uma vida dessas?

Eu nunca poderei ser sincera com ele. Eu exigi isso de sua parte, mas nunca poderei oferecer de volta, porque no dia que eu fizer, saberei com toda certeza que não sou boa o suficiente para ele. Por agora, o mantendo no escuro, assim poso fingir. Fazer de conta de que sou boa para ele. Que somos iguais.

Uma mentira.

— Diana.

Limpo as lágrimas que descem pelas minhas bochechas.

— Estou bem.

— Não está. Será que não se dá bem com sua mãe?

Me dar bem com Eleonor... O eufemismo do ano!

— Sim. Sinto falta dela, na verdade. — Minha boca parece cheia de areia quando digo essas palavras.



Theodor

Encaro Diana, ela oferece um sorriso, mas não é verdadeiro.

Desde começamos a sair, não tenho visto essa expressão tão malditamente sofrida em seu rosto. Isso me quebra.

Eu não sei o que essa mulher fez. Foi ao acaso que ela decidiu ligar e eu estava por perto para atender. Eleonor não pareceu alguém fria. Não estava surpresa quando atendi ao telefone e falou com tanto carinho da filha... Mas, eu sei muito bem como as pessoas podem ser falsas. Como elas podem usar máscaras para enganar o outros.

Diana sempre falou com muito carinho do seu pai e da irmã e adora o sobrinho. Mas, em nossas conversas, a mãe quase nunca foi citada. Tyler acha que o tipo de abuso que a mulher infligiu a Dia foi psicológico, mas começo a duvidar severamente disso.

Diana está congelada depois de perceber que eu falava com sua mãe. Esse não é o tipo de medo que se ganha sem sentir na pele alguma coisa...

— Ela te machucou...? — Eu a puxo para meus braços e beijo sua testa. — Você pode me dizer qualquer coisa, Diana, eu nunca vou julgá-la. Nunca. Eu juro. Qualquer coisa amor.

Diana me afasta e sorri. Outro sorriso falso.

— Não seja bobo. Estou feliz, só isso. Mas acho que você deveria ficar com um dos seus amigos, ela e Julie vão ficar aqui com Liam, não acho que terá espaço para todos.

Ela está me deixando de fora. Isso machuca. Invés de se abrir comigo, ela prefere me empurrar para longe e enfrentar seus medos sozinha.

— Não vai acontecer.

Ela franze as sobrancelhas, surpresa com minha recusa. E não faço ideia do porquê. Já era tempo dela saber exatamente com quem está.

— Theo...

— Vem cá...

Pego sua mão e a puxo. A guio para seu quarto, onde começo a despir suas roupas lentamente. Seus olhos vermelhos não deixam os meus e aquelas bochechas coradas que tanto amo, não estão presentes. Eu não gosto do que vejo. Só em falar sobre Eleonor a deixou assim, o que devo esperar do encontro delas?

Solto seus cabelos do rabo de cavalo que ela fez. Minhas costelas ainda doem com esse tipo de movimento, mas nessa hora, parece que estou anestesiado. Não consigo sentir nada além da necessidade de fazê-la esquecer isso e voltar para mim. Há um mundo de distancia da mulher que amo para essa a minha frente.

— Eu te amo, Diana. — Digo, tentando lembrá-la disso.

Eu nunca pensei que poderia dizer essas palavras com tanta facilidade. A primeira vez que elas escorregaram para fora de mim, foi uma surpresa. Eu sabia como me sentia, mas nunca me vi dizendo isso para alguém que não fosse Jane ou minha mãe. A segunda vez que disse foi mais fácil. Na terceira eu já não queria parar. Queria continuar dizendo e repetindo uma e outra vez. Esse é o efeito que ela tem sobre mim.

Ela finalmente sorri. Um sorriso verdadeiro, do tipo que eu adoro.

— Eu também te amo... — Ela suspira.

— Bem, vamos te dar um banho e deixá-la pronta para o jantar fantástico que a está esperando.

Ela me olha desconfiada.

— Por favor, diga que você pediu para entregar em casa...

Nego e sorrio para ela.

— Eu estou fazendo.

Ela ri e morde o lábio.

— Então é melhor eu ligar e pedir uma pizza...

Puxo ela para mim e a beijo. Estou feliz por conseguir nos reconectar, mas o assunto “Eleonor” não será deixado de lado. Essa mulher já estava na minha mira, agora é certeza, ela não vai ter uma oportunidade sequer de tocar minha mulher e farei o possível para que ela saiba que se isso acontecer de novo, ela vai ter que prestar contas para mim.

Amy

Theodor está hospedado com Diana há duas semanas agora. A mídia não foi alertada sobre o incidente, o que é bem estranho, já que sempre tem alguém disposto a vender os videos que mostram a desgraça alheia. Especialmente se a tal desgraça for com algum cara quente da moda. Para dizer a verdade, eu mesma pensei seriamente em vender o vídeo. Certamente renderia muito para a poupança da minha futura casa, e minha amizade com Theodor me deixaria imune a sua raiva. Ou pelo menos parte dela.

Diana é legal, mas ela não tem uma TV grande e à cabo. Então, é meio que torturante meus dias. Quando meu turno acabava, eu costumava ir para casa com um bom pote de porcaria e ficar assistindo alguma coisa. Atualmente não tenho feito isso. Fico preocupada em deixar Theodor. Então, tomo um banho e pego uma pizza, que devoro enquanto vejo algum filme no DVD da sala de Diana. Acabo dormindo no quarto de hóspedes na maioria dos dias.

Eu nunca fui uma pessoa negativa. Mas sempre tive um sexto sentido muito filho da puta e aprendi, desde cedo, que quando o ignoro, me fodo profundamente. É como se eu tivesse um sentido aranha.

Sentido Amyranha! — Não soa tão mal...

Então, eu tenho vivido assim nessas duas últimas semanas, cuidando de Theo de perto.

Nesse segundo domingo, enquanto faço minha ronda, finalmente começo a entender o que anda me deixando em alerta por todo esse tempo.

Não é algo tão grande a principio. Mas, já fui policial, eu teria seguido carreira e me tornado detetive se não tivesse ignorado essa sensação alguns anos atrás. Teria sido tão grande quanto meu avô foi. Mas, mesmo sentindo que não deveria ter feito nada do que fiz naquele dia, continuei, ignorando meus instinto. Hoje já não faço mais isso.

Lição aprendida.

Então, estou eu ouvindo rádio, depois de andar pela quadra e me certificar que não tem nada de estranho, quando o correio aparece na rua de Diana. O cara caminha diretamente para seu portão e fica parado na frente, encarando o quintal. Ele faz isso por quase dez minutos, coloca a correspondência na caixa de correio, então ele dá meia volta e some pela rua que veio minutos antes.

Isso não é algo tão grande. Ou pelo menos não seria se, A) Não fosse domingo. O serviço de correio não funciona aos domingos. B) Se o carteiro houvesse entregado correspondências em outras casas da rua. C) Se ele não tivesse gastando tanto tempo apenas observando o lugar.

Então, saio do carro e vou até a rua que ele virou. Tudo que eu consigo ver é o cara se afastando em uma moto.

Então percebo outra coisa importante. A placa está coberta. E agora ele usa um casaco por cima da camisa de carteiro. Um casaco com capuz. Bem parecido com o que o invasor da casa da Diana usava quando o persegui.

Corro para o carro e, sem pensar duas vezes, vou atrás do cara, mas ele já sumiu de vista nessas alturas. Mas, mesmo assim, passo por cada rua próxima, olhando em cada beco.

Quando volto para a casa de Diana, quase uma hora depois, vou direto para caixa de correio, retiro o envelope deixado e o abro. Leio a nota que está dentro.

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida!

Mas isso não é tão alarmante quanto a outra coisa que acompanha a carta. No centro de uma foto, riscos foram feitos com um objeto pontudo e formam uma palavra: Minha. E a foto é da Diana. Uma Diana nua e visivelmente inconsciente.

— Inferno sangrento!

Notas finais
É treta! É treta! É treta! Bjs ;)