À flor da pele

73 A verdade está lá fora


Notas iniciais
(X_X)

Theodor

Estou acostumado a estar sob pressão. Meu trabalho é um grande exemplo. Com exceção dos pais de Thomas e Patrick, aquela empresa é uma zona de guerra e cada pessoa fã de meu pai tem prazer em me deixar em meu pior humor. Só esperando algum deslize.

Em casa não é diferente. Decidi me mudar porque as constantes brigas de Jane e mamãe estavam acabando com a minha família. Saí e tentei levar Janet junto, mas ela acabou encontrando seu próprio caminho com Tyler.

Meus investimentos não são tão seguros quanto minha postura mostra. Posso ir de milionário a sem teto em um estalar de dedos, pelos investimentos arriscados. Gosto de ser pressionado às vezes, isso tira o melhor de mim. Mas, em meu relacionamento com Diana, a última coisa que eu espero é me sentir dessa forma. Não mais, pelo menos, não nesse degrau que se encontra nosso relacionamento.

Amy está sentada no sofá de frente para mim. São duas da manhã e Diana está dormindo. Ela passou as duas últimas noites acordada, ansiosa pela chegada da mãe amanhã.

— Eu tentei entrar em contato com os correios, mas não havia ninguém hoje, mas irei pela manhã.

Olho mais uma vez para a foto que ela me entregou.

Ela me disse o que aconteceu algumas horas mais cedo e repetiu. Talvez tenha até dito uma terceira e quarta vez.

Eu não sei como reagir.

Diana não parece consciente, mas poderia ser apenas uma pose. Poderia ser um Hobby, tirar fotos e mandar. Eu não sei o que pensar.

Eu acho que a conheço o suficiente para afirmar que ela não faria isso. Mas, o que eu sei? Ela não tem se aberto comigo. Tenho sido paciente, disse-lhe que nunca iria julgá-la, lhe dei oportunidades de me falar... Qualquer coisa.

Eu não faço ideia se isso é uma ameaça ou algo que ela tem consciência. Uma vingança estupida de algum ex-namorado que não aceitou bem o fim. Talvez ele tenha tirado as fotos enquanto ela dormia. Talvez ela nem saiba da existência. Mas, se ela soubesse, ela assumiria? Ela mentiria...?

Eu posso lidar com mentiras. De todos os lados. De todas as pessoas. Menos dela. Não quando abri meu coração para ela e lhe disse palavras que nunca imaginei que iria proferir em minha vida.

— O que você acha? — São as primeiras palavras que deixam minha boca desde que Amy me chamou.

Ela respira fundo e levanta, se senta ao meu lado e segura minha mão. Qualquer outra pessoa teria recebido algo bem grosseiro por me tocar dessa forma e achar que preciso de algum tipo de apoio. Mas essa é Amy. E eu realmente preciso disso agora.

— Ele estava com roupas do correio. Duvido que trabalhe lá, provavelmente as roubou, ou é funcionário antigo. Se fosse um ex-namorado, provavelmente mostraria seu rosto, se deixaria ser visto por ela. Com base em tudo que vi de vocês dois juntos... Eu duvido que ela tenha dado permissão para essa foto ter sido tirada. Atrevo-me a dizer que é muito provável que ela nem saiba. O que me leva a outro problema. É possível que haja mais.

— Deus... Amy... — Me levanto e me afasto do sofá. Eu não sei nem o que pensar.

Diana vive sozinha...

— Você está sugerindo que alguém tem entrado em sua casa e tirado fotos suas enquanto dorme? Que alguém tem abusado dela?

— Bem, sim. É o que eu penso. Mas só vamos ter certeza depois de falar com ela.

Fecho os olhos com força, incapaz de conseguir conter minha fúria. Eu quero quebrar alguma coisa, quero queimar alguém, preciso desesperadamente destruir quem ousou se aproximar dela de uma forma tão suja.

— Se ela não souber... — Respiro fundo. — Amy, sua mãe chega amanhã, ela está nervosa, ansiosa, mal come, não dorme direito. Como eu posso perguntar algo assim?

— Não precisa ser amanhã. Olha, eu não sei nada sobre a vida dela. A vida real, não as coisas superficiais que eu pesquisei, estou falando sobre como ela age com as pessoas, como ela socializa com os amigos, ou como se portou com ex-namorados...

— Ela era virgem...

Amy fica quieta. Sei exatamente o que passa em sua cabeça e o que provavelmente está na ponta da sua língua, e como deve estar tendo o inferno de um tempo para manter para si as piadas.

— Eu não posso acreditar que uma mulher tão… Inocente sexualmente poderia concordar com algo assim. Ela é... Tão pura. Mal me toca, ainda estamos aprendendo a lidar um com o outro. E... ainda tem esse problema dela, que eu não faço ideia do que é, mas você sabe, você a viu... Ela se parece muito com Tessa no aspecto emocional. Ela vai... Não posso nem imaginar o que vai fazer com ela.

Eu não sei porque diabos deixo tudo isso sair, mas eu sinto como se precisasse fazer Amy ver Diana como eu vejo, fazê-la entender como ela funciona e como diabos isso vai afetá-la.

— Theo, não precisa tomar uma decisão imediatamente. Me dê alguns dias, eu gostaria de investigar, ir aos correios, falar com os vizinhos, discretamente obviamente, espiar um pouco mais. Seja quem for, não percebeu que temos estado vigiando a casa. Ele provavelmente vai voltar, se falarmos algo, se ela for a polícia agora, isso pode assustá-lo. Especialmente se for alguém próximo e que...

Me viro para ela, sentindo meu rosto queimar de ódio.

— Acha que é alguém próximo?

— Eu não sei. Provavelmente. Nesse momento precisamos saber se essa é a primeira carta. As palavras que ele escreveu... Isso não parece ser algo que acontece do nada, quem escreveu isso se sente ligado à ela. Devemos falar com Tyler, se houve mais, ele deve saber, aí vamos pensar obre como abordar o tema com ela.

Sinto minha cabeça começar a doer. Isso é um inferno de uma bagunça. Estar em perigo naquele estacionamento, no dia do ataque, não causa a metade do medo e da raiva que estou sentindo em imaginar alguém a visitando sorrateiramente enquanto está dormindo.

— Mas e... — Algo me passa pela cabeça. Algo sujo e doentio. – E se isso for coisa do Tyler? Ele tem a chave dela, está o tempo todo dormindo aqui. Como ele não viu nada?

Amy se levanta e para na minha frente.

— Ele provavelmente esqueceria a coisa do “paz e amor” e te socaria nesse momento e ouvisse isso. Não sou uma das suas fãs, mas Theo, você viu como ele cuida da Diana. Ele em uma carinho doentio, mas é mais como se fosse o pai dela. E ele não tem perfil para ser esse tipo de maluco. Tyler é espalhafatoso. Se ele conseguisse uma foto dela nesse estado, teria dito a ela, e a usado para constrangê-la. Mas, seriamente, duvido que ele chegasse tão longe, isso provavelmente custaria a amizade deles. E se tem uma coisa que Tyler Becker valoriza, é a amizade do seu “anjo”.

Passo a mão pelos cabelos, ignorando completamente minhas costelas doloridas.

— Eu não sei o que fazer. — Admito. E isso leva tudo de mim.

Nunca me deparei em uma situação em minha vida em que não soubesse como agir. Geralmente tudo se trata de se manter na linha publicamente e passar por cima nas sombras. Como posso fazer isso? Como posso proteger Diana disso?

Não protegê-la da pessoa que esta fazendo isso, porque certamente o farei. Mas, protegê-la dela mesma. Eu não posso sequer imaginar como ela vai reagir, mas sinto que devo esperar o pior.

— Eu sei o que você deve fazer. — Amy me diz gentilmente. -Ficar com ela, Theo. Deve ajudá-la a passar pelos problemas de amanhã, enquanto eu procuro alguma coisa. Um problema de cada vez, amigo, é assim que se segue em frente.

***

Não consigo dormir. Me sento na poltrona do quarto de Diana e a olho dormir. A única luz do cômodo vem da janela, da lua no céu. Ela parece tão em paz adormecida, com essa luz prateada cobrindo seu corpo.

Fico sentado em alerta. Esperando ouvir qualquer coisa que denuncie alguém se aproximando. Mas não tem nada. A casa está em silêncio.

Me sinto mais ereto de repente. Silêncio... A casa nunca esteve em silêncio antes da reforma de segurança. As madeiras estavam sempre estalando. Diana disse que era comum, que acontecia por causa da temperatura, quando estava muito frio a madeira estalava. Eu nunca parei para pensar sobre isso. Claro, pode ser só a minha mente criando coisas, tentando explicar o que eu não tenho respostas.

Como alguém entraria aqui sem ser notado? Teria que ter...

— Porra, Diana...— Sussurro.

Me levanto e vou para a penteadeira, com meu celular ilumino sua caixa de joias. A abro e a primeira coisa que vejo é a corrente que dei para ela. E a porra da chave que ela deixava de baixo do tapete todos os dias para correr.

Diana

Não acordo com meu celular despertando, como deveria. Acordo com suaves beijos em meu pescoço. Abro meus olhos e encontro Theo inclinado sobre mim, me beijando tão docemente.

— Bom-dia para você também... — Digo sonolenta. — Que horas são?

— Cedo.

Theo acaricia minha bochecha com o polegar. Eu gosto de ser acordada assim, muito melhor que ser despertada pelo alarme do celular.

Olho para seu rosto. Seus olhos sempre gentis parecem um pouco duros hoje. Se maxilar está apertado e alguma coisa não parece bem. Me sento e o encaro.

— O que houve?

— Saudade de ouvir a voz da minha namorada...?

O estudo mais atentamente. Ele tem olheiras profundas.

— Você não dormiu. Está tudo bem?

— Tudo em seu lugar. É só... Algumas coisas que preciso resolver.

Começo a entrar em pânico com suas palavras.

— Você não esta indo comigo ao aeroporto...

Eleonor ligou mais uma vez e, de novo, Theo foi quem atendeu. Ele combinou o horário de buscá-la e disse que iria comigo. Isso foi o que me manteve sob controle nesses dias, saber que ele estaria lá por mim.

— Calma... — Ele segura a minha mão e aperta.

Percebo que estou tremendo. Isso não é bom. Como posso continuar dizendo para ele que está tudo bem quando só pensar em minha mãe me deixa a beira dos nervos?

— Eu estarei lá querida.

— Pensei que não iria aparecer em público até o começo do ano...

Ele se inclina e beija minha testa.

— Eu pretendia, mas a empresa está uma bagunça. Alguns problemas não esperam você se sentir melhor, não é?

Não me sinto confiante. Não quero que Theo se afaste. E se algo o atrasar e eu tiver que recebê-la sozinha? Eu não posso ficar sozinha com ela nem por um momento. Esses instantes são quando o monstro ataca...

Julie esta vindo de carro, Ty e Terry estão trabalhando. Então, a menos que Theo cumpra sua palavra, eu estarei a mercê do meu pior pesadelo.

— Estarei lá. Na verdade... — Ele se inclina e beija minha testa. — Estarei de volta dentro de duas horas, então vou levá-la para almoçar e então vamos buscar Eleonor.

Não perco o fato dele a chamar pelo nome e não se referir a ela como minha mãe. Não importa que eu guarde coisas dele. Theodor Blake desde o primeiro momento parece ler a minha mente. Ele me conhece como ninguém mais. Às vezes acho que nem Tyler poderia conhecer-me tão bem.

— Isso parece bom. — Digo, tentando não perder o controle.

— Sim. E sabe o que seria ainda melhor?

Encosto minha testa na sua.

— O quê?

— Se usasse aquele adorável vestido de inverno que usou no aniversário da Amy... Eu acho que estou apaixonado por ele.

Sorrio.

Depois coro.

Aquela noite é o que Tyler chamaria de... Épica. Eu nunca mais olharei para uma maquina de lavar de novo sem me lembrar do... Bem, das partes baixas de Theodor. E dos dedos selvagens...

— Vejo que ele também te traz boas lembranças...

Mordo o lábio e então o abraço.

— Nada a declarar.

— Certo... Suas bochechas adoráveis já declaram tudo.

Ele encosta seus lábios nos meus, me dá um selinho e então se levanta.

— Eu preciso ir para ter isso resolvido logo. Você volta a dormir. Eu só não queria sair sem falar contigo.

Me deito, sem reclamar. Estou realmente cansada.

Ok...

Assisto Theodor se trocar mas não o vejo sair. Sou vencida pelo sono antes disso.

***

O celular me desperta dessa vez. Estendo meu braço e desligo o alarme. Tudo parece errado.

Já acordo ansiosa, Theodor não está na cama comigo e eu nem mesmo fiz as compras para o natal. Não faço nem ideia de onde vou arrumar um peru nessa altura do campeonato. Duvido que os mercados ainda tenham, e se tiverem, dever estar valendo ouro.

Eu nunca estive tão largada em minha vida. Não me importei com nada, com nenhum detalhe. Theo me disse “Não se preocupe com nada” e eu totalmente fiz isso, mas agora, em pleno dia 23 de dezembro, acho que não deveria ter relaxado demais.

Não me levanto imediatamente, fico enrolando o máximo que dá.

Eleonor disse que seu vôo chegaria às 14 horas, Theodor disse a ela que estaríamos a sua espera as 14:30. Ele não perguntou se estava bom, ele apenas lhe informou e eu fiquei a espera de ouvir algum grito do outro lado da linha, mas a conversa se manteve em paz.

Parando para pensar agora, comprei presente para Liam e Julie faz um tempo. Até o de Tyler e Terry, e algumas semanas atrás estive a procura de algo para Theodor, Jane e até para Amy. Me lembrei de Abby também e lhe comprei um livro de colorir. Não me senti confortável em dar algo para os outros amigos dele, nem os conheço direito.

Meu pai ganhará um livro antigo, versão colecionador, que comprei no início do ano. Era simplesmente sua cara, aposto que vai adorar. Mas Eleonor... Nada. Não consegui escolher algo. Desde que eu era criança parei de lhe dar presentes. O último foi depois de Ren morrer. Mas, teve um, quando Ren ainda era vivo. Ele me levou para comprar algo para ela. Nós andamos por quase duas horas até que encontramos uma echarpe negra com pequenas flores vermelhas e douradas. Nós simplesmente olhamos para a peça e falamos juntos “É essa!”. Foi um grande momento, especialmente porque ela adorou.

Me lembro que ela me abraçou e beijou a minha testa, aquilo me pegou tão de surpresa.

Claro que, no natal seguinte, quando decidi tentar algo assim, me vi tendo um globo de neve arremessado em minha direção. Me esquivei a tempo, mas alguns cacos voaram e entraram em minha pele...

Finalmente tomo coragem e me levanto da cama. Vou até a penteadeira e puxo meu cabelo, dando uma boa olhada em uma pequena marca quase atrás da minha orelha.

Eleonor nunca me deixou marcada realmente. Ela me bateu quando achou necessário. Tipo, 5 vezes por semana, os outros 2 dias eu estava com meu pai... Mas, apesar disso, ela nunca rompeu a pele em suas “correções”. Essa foi a primeira vez. O olhar de pânico quando ela viu o sangue escorrer... Acho que a perdoei no mesmo momento. Achei que tinha feito algo muito errado e merecia, mas que deveria estar feliz que minha mãe sentia algum remorso por me “educar”.

Era um sinal de que ela me amava...

O tipo de educação que eu tive, muitos chamariam de lavagem cerebral. Às vezes eu concordo. Às vezes acho que é só minha mente arrumando desculpas pela situação que eu a deixei me colocar.

Eu não sou mais uma criança. Rezo para que tenha mudado. Para que Deus não me permita ser humilhada na frente das pessoas que amo. Embora tenha certeza que Eleonor nunca faria nada na frente alguém. Ela se preocupa demais com as aparências.

Respiro fundo e vou para o guarda-roupa procurar o vestido que Theodor me pediu para usar.

E por falar em Theodor... Sinto sua falta. O que será que ele está fazendo agora?

Theodor

— Eu serei a policial má. — Amy me avisa.

Até mesmo paro a caminhada. Ela para mais a frente e me encara.

— Que diabos? — Pergunto meio atordoado.

— Você sabe, alguém tem que ser mais duro.

Suspiro alto, imaginando que passar essa manhã com ela será altamente estressante.

— Primeiro de tudo, se um de nós fosse interpretar esse papel, seria eu. Você é simplesmente adorável demais. Especialmente vestida assim...

Amy deixou de lado seu uniforme e vestiu calças verdes e suéter vermelho com estrelas coloridas e uma rena sorridente. Ela adora natal, chega a ser irritante o quanto.

— A roupa não tem nada a ver. Você é um cara que está acostumado a sorrir enquanto alguém enfia uma faca no seu inimigo por você. Tirando seu pai, você não é o tipo de faz as coisas pessoalmente. O que é ótimo, ou já estaria morto.

— Você acabou de me chamar de covarde?

Recomeço a andar até o agência de correios do outro lado da rua.

— Não. Eu diria que te chamei de estrategista. Você planeja coisas, descobre podres, mas não é um apontador. Então, meu amigo, você não pode ser o policial mau.

— E nem você. Se tivesse um decote mais cavado, então poderia conseguir alguma coisa. Caras gostam de pele e não de atitude.

Ela sorri e abre a porta para mim.

— Mentiroso. Vocês adoram o som de um chicote estalando centímetros de vocês...

De onde infernos ela tira essas ideias?

A agência está cheia e isso provavelmente se deve ao fato de que metade dos serviços oferecidos pelos correios está atuando com metade dos funcionários. Essa é a grande desvantagem das festas, todo lugar se torna um formigueiro.

Olho para trás para perguntar a Amy onde devemos ir, mas ela já está fora de vista.

Alguém passa por mim e me dá um empurrão, mas não caio. Tem tanta gente aqui que se torna impossível cair. Fico uns cinco minutos tentando me mover, mas sem muito sucesso.

— Theo! — Escuto, mas não sei dizer de que lado veio. Eu sou alto, mas Amy não. Então, por mais que olhe em volta, não consigo dizer exatamente de onde veio. Especialmente com tantas cabeças loiras espalhadas. Então encontro uma porta escrito "gerência" em cima e vejo uma mão acenando próximo dali. Me dirijo, bem lentamente para lá e finalmente a alcanço.

Amy está parada na porta e quando me vê, dá espaço para que eu entre na sala.

Tem um homem bigodudo sentado atrás de uma mesa com uma pilha de pacotes em cima, quase o escondendo.

— Esse é Trevor Gollin, ele é o gerente dessa agência.

Ela diz essas palavras tão firmes e séria que quase baixo meus óculos escuros para lhe lançar um olhar, mas aí lembro que eu estou “disfarçado”. Minha amiga, vezes bem insuportável, me fez vestir um gorro, que não faço ideia de onde saiu, e óculos de sol. Ela diz que assim ninguém vai me reconhecer. Aposto que as pessoas nem olham para o rosto uma das outras nessa correria de fim de ano.

— Este é o detetive Winchester. — Hein? - Repita o que me contou agora mesmo, Trevor.

O homem parece extremamente sem paciência, mas ele respira fundo e começa a contar.

— O endereço que solicitou está sem entregador atualmente. Os moradores foram notificados e estão retirando suas encomendas nas agências mais próximas até que esse problema seja resolvido.

— E o motivo por não ter um funcionário... — Ela insiste, sem paciência. O homem lhe da uma olhada dos pés a cabeça, com algo bem próximo a luxuria brilhando em seus olhos.

Eca!

— Diversas reclamações sobre o comportamento dos carteiros resignados. Tentamos três trocas ao longo desse ano, mas os moradores estão sempre reclamando.

— Será que tem uma lista das reclamações? Algo com os nomes? — Amy pede.

Me pergunto como ela convenceu o cara de que somos... Policiais? Isso é ridículo!

O homem começa a mexer em seu computador e então a impressora atrás de mim ganha vida e papeis começam a sair. Ele levanta e vai até lá, pegando os papeis e me entregando.

Dou uma rápida olhada, as últimas reclamações são recentes. Diana “Webster”, tem anotado no começo da folha. Olho para a seguinte, o mesmo. E mais outra. As reclamações são sobre o carteiro estar entrando na propriedade e deixando as cartas onde não deve. Uma delas até fala sobre “invasão de propriedade”. E tem o nome do Tyler também em um deles. “Namorado”, diz no papel.

Então passo as que são de Diana e chego a algumas mais antigas. Dois anos e pouco atrás. Mesmo endereço, pessoa diferente.

— Você disse que estava investigando o quê mesmo? — O gerente pergunta, me distraindo.

— Assassinato. — Quase me engasgo com a resposta de Amy. — O suspeito estava vestido com o uniforme dos correios. Camisa e bermuda azul. — Amy acrescenta.

O homem concorda.

— Estamos falando dos uniformes antigos então, os uniformes são marrons agora, faz quase três meses que foram trocados.

— Certo Trevor, se achar algo mais que possa ajudar, não deixe de entrar em contato.

Ela coloca um cartão sobre a mesa e leio “Amy Mulder, departamento de polícia de São Francisco”. Onde diabos ela conseguiu isso?

— Qualquer coisa... — Ela bate na mesa para enfatizar, fazendo Trevor e eu darmos um leve pulo pelo susto. — Não deixe de me avisar. A polícia de São Francisco agradece sua cooperação.

— Certo, mas será que pode deixar de fora, se possível? Eu não poderia entregar isso sem um mandado...

— Claro, Trevor. Como eu expliquei antes, não temos um mandado porque qualquer um pode ser o cara. Não queríamos fazer alarde para nossa presença. — Ela pisca para ele. — Agradeço a ajuda.

Ela se vira e abre a porta, então se perde no meio da multidão e eu sigo atrás.

Quando estamos do lado de fora, já quase no carro, seguro seu braço.

— Como diabos você fez aquilo? Amy Mulder, é sério?

— Fique feliz que não te apresentei como agente Scully.

Ela se solta do meu aperto e pisca, então alcança no bolso de trás sua carteira e me mostra a porra de sua identificação policial. Falsa, é claro!

— Merda, Amy! Isso é crime!

Ela sorri.

— Só se te pegarem.

Entramos no carro, ela com um ego maior que o meu, e começamos a olhar as reclamações.

— Algumas são antigas. — Digo. — Alguns anos atrás.

Ela puxa as folhas da minha mão. Educada que só...

— Bom, meu amigo, nós demos sorte hoje. Olha essa... — Ela ergue uma de 4 anos atrás. — É difícil arquivarem coisas por tanto tempo. Esse lugar deve ser uma bagunça.

— São todas sobre o carteiro entrando na propriedade e sondando pelas janelas... — Observo.

— Nem todas, Theo – Ela ergue uma e me passa. É de três anos e meio atrás. Anita Kelly. — Está pedindo... — Olho de novo para ter certeza que estou lendo direto. — Pedindo para não enviarem as cartas sem remetente. É o mesmo endereço da Diana.

Amy praticamente se joga sobre mim e começa a vasculhar o porta-luvas, então ela tira o envelope e a carta que pegou na caixa de correio da Diana.

— Sem remetente.

— Será que você conseguiria reconhecê-lo caso visse fotos de antigos funcionários?

— Duvido. Só vi os cabelos. E, como já te disse, eu não acho que seja funcionário... Seria muito fácil de encontrar. Se o cara está fazendo isso a tanto tempo assim, com tantas pessoas diferentes, certamente não deve ter deixado meios de ser conectado.

Respiro fundo, tentando manter o controle.

— Se Diana reclamou, ela sabe de alguma coisa, então.

— Sim, mas provavelmente apenas que o carteiro sonda demais, que é o que se resume a maioria das queixas. Duvido que ela saiba sobre a foto. De qualquer forma – Ela pega o celular – Eu conheço um cara na delegacia que me deve um favor.

Bufo.

— E o que vai pedir? Uma identificação falsa para mim?

Ela revira os olhos.

— Como se isso se conseguisse com policiais... Quero saber se alguma dessas pessoas registrou alguma queixa. Então podemos ir falar com o “Namorado”.

***

Amy fica para trás quando entro no escritório de Tyler. Ela recebeu um retorno do tal “amigo”, que pelo tom que ela usou, aposto que acha que vai entrar nas calças dela em algum momento. Coitado! Mal sabe ele que é exatamente assim que ela fala quando quer conseguir algo, depois ela esquece de você. Até precisar do próximo favor...

Amy Scott é uma destruidora de corações! Ela fez isso a vida toda, especialmente com meus colegas, que no fim acabavam sem falar comigo por ficarem com raiva dela.

Vadia total!

— Isso é uma surpresa... — Tyler diz quando me vê.

— Sem férias coletivas? — Pergunto, me sentando de frente para ele sem convite. Tiro os óculos escuros, mas mantenho o gorro.

— Não até amanhã. — Ele acaricia seu topete e então cruza os braços. — Mas duvido que veio para ver a minha agenda.

Tiro do bolso do casaco o envelope com a carta e a foto e entrego para ele.

— Carta do Dalua, hein... — Ele abre o envelope e a primeira coisa que vê é a foto, então tenho certeza que ele não sabia de nada.

A cadeira cai para trás quando ele levanta com tudo.

— Onde você achou isso? É uma piada, Theo?

— Eu esperava que você me dissesse que é uma piada sua. Amy achou isso na caixa de correio depois de ver um carteiro encarando a casa. Ele deixou isso lá e foi embora.

— Merda!

Ele deixa a foto sobre a mesa e abre a carta.

— Quem é Dalua, Tyler?

Ele me olha confuso, parece aéreo.

— Você disse “Carta do Dalua”. — O lembro.

— Um maluco...

Ele se vira, completamente fora de si e esmurra a parede. Em seguida reclama da dor.

— Inferno! — Chacoalha o punho vermelho e então respira fundo várias vezes, até que parece se acalmar. Recolhe a cadeira do chão e se senta nela de novo.

— Quando ela mudou... — Parece levar tudo dele me contar isso. — Tinha essas cartas em sua caixa de correio. Nós achamos que o cara era um admirador da antiga moradora, mas não tínhamos o endereço dela para enviar e o correio não aceitou de volta por falta de remetente, então, nós guardamos. Abrimos algumas, não todas. Achávamos que era... Bonitinho. Inferno, Theo! Ela está nua... Você mostrou isso a ela?

Nego.

— E não pode mostrar. — Me alerta. — Deus do céu, ela vai ter um ataque.

Sinto meu coração se despedaçar aos poucos. Eu concordo com ele. Isso vai levar tudo dela.

— Você acha que há alguma chance de ser de outra pessoa? Um ex?

Ele ega freneticamente.

— É a letra do Dalua, tem até o cheiro dele. E ela nunca deixou namorados irem em sua casa sem que eu estivesse por perto. Na verdade, deve ter deixado dois no máximo pisar lá. Diana é muito reservada. Eu sei que ela não faz ideia disso.

Eu precisava perguntar, mas ouvir sua resposta só me angustia mais.

— Você ainda tem as cartas? — Pergunto, pendurado por um fio de perder controle.

— Ela tem. Diana sempre achou que ele poderia aparecer e as pedir de volta, ou a antiga moradora. Nós não abrimos todas, será que tem algo assim nas outras? Como ele conseguiu entrar lá?

— Eu tenho minhas suspeitas.

— Será que ele a tocou?

E aqui está a única coisa que tenho evitado pensar.

— Eu acho que sim. — Admito. — Isto é tão fodido, Tyler. Eu acho que ele a drogava de alguma forma, como poderia estar em sua casa e ela não perceber?

Uma batida soa na porta e então se abre e Amy aparece.

— Você descobriu alguma coisa? — Pergunto, desesperado por alguma luz.

Amy está séria, ela desvia o olhar por um momento, fecha a porta e então volta a me encarar.

— Houve duas denúncias antes. Ambas foram tratadas como casos diferentes e o culpado não foi encontrado. Uma delas foi quase sete anos atrás. A primeira mulher teve a casa invadida no meio da noite e foi violentada, ela não conseguiu ver o rosto do atacante. E não disse nada sobre cartas no depoimento e tampouco há queixas tão antigas nas declarações. A segunda foi há quatro anos, é umas das mulheres que reclamou. — Ela ergue uma folha e me entrega. — Uma vizinha ligou para polícia porque ouviu os gritos.

— Violentada? — Pergunto com o coração na mão. É angustiante imaginar Diana passando por qualquer coisa desse tipo.

Nega.

— Ela foi... Assassinada.

Notas finais
Daeeee meu povo XD Entenderam as referências da melhor série de TV que existe? (╭☞ ͡ ͡X ͜ ʖ ͡ ͡X)╭☞ Será que alguém já conseguiu descobrir o nome do stalker? Próximo capítulo no forno, com fortes emoções u.u Bj bjs