À Sombra da Justiça
24 Conflitos de Identidade
Notas iniciais
Lemon Street, Whitechapel. Londres, Inglaterra
Delegacia de Whitechapel, Divisão H.
06:45 p.m.
Era final de tarde, quando Holmes estava nos escritórios da Delegacia de Whitehcapel, sendo questionado pelo inspetor Reid. A cena deveria ser normal, rotineira, mas algo soava patético ali. Embora Holmes fosse apenas uma testemunha, Reid parecia se divertir com a situação de ter o arrogante Engomadinho de Baker Street sendo interrogado.
–O senhor alega em depoimento oficial ter ficado cerca de vinte minutos sozinho, com a vítima, Mrs. Sophie Sigerson,...
Porquê esse sobrenome me parece familiar?, pensava Reid.
–Exatamente, Mr. Reid. – respondeu Holmes.
–Não pensou, um só momento, em retirá-la dali e prestar socorro?
–Não queria comprometer a cena do crime. – ele respondeu friamente.
–E como era esse John Sigerson, citado nos autos? John Watson o acusa de ser um marido ausente para Mrs. Sigerson, e disse que jamais o viu pessoalmente... Pode nos fornecer uma descrição de sua pessoa, Mr. Holmes?
–Não pude perceber direito os detalhes de seu rosto, ele usava um chapéu de abas largas, talvez com a intenção de se esconder. Notei que ele tinha barba escura, negra e espessa, e a pele queimada de sol.
–Hm... – Reid anotava. – E suas vestimentas?
–Cinza, com um sobretudo creme, que ia próximo dos pés. Um tipo exótico, o sujeito era. – afirmou Holmes. – Parecia mesmo um aventureiro, tal como dito por Mrs. Sigerson.
–E Carlston já estava morto quando ele ia embora...
–Exatamente.
–E como pode afirmar que foi Mr. John Sigerson o assassino?
John Sigerson... Onde eu ouvi esse nome...?, lamentava-se ainda Reid.
–Bem, ele estava com um revólver na mão, eu o vi recolher em um coldre. Como chegar a outra conclusão?
Reid parecia considerar por um tempo. Depois, positivou com a cabeça.
–Tudo bem, Mr. Holmes. Seu depoimento foi deveras satisfatório. Na qualidade de testemunha, deve permanecer na Inglaterra enquanto perdurarem as investigações, bem como...
–Sim, Mr. Reid, eu sei como funciona o procedimento. – interrompeu Holmes. – E faça uma boa investigação, a respeito desse farsante louco. Ele pode estar morto, mas merece ter seus crimes creditados. Tenha uma boa noite.
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221-B, Baker Street. Londres, Inglaterra.
02:15 a.m.
Passava das duas da manhã e Holmes, já vestido com suas roupas de dormir, encontrava-se sentado em sua poltrona, fumando, com o olhar distante. O remorso e a culpa corroíam-lhe, de um modo que ele jamais imaginara. Se Esther estivesse ao seu lado, como sua esposa, longe dessa farsa, ela certamente não teria sido atacada por um homem vulgar que pensava que ela era uma mulher sozinha e desprotegida. O lugar de Esther era ali, em Baker Street, ao seu lado.
Havia também o bebê. Não era seu, mas o que isso importava? Quantos homens não criavam filhos de outros homens? Além de quê, era filho de seu melhor amigo, não de um inimigo ou um marginal. Por quê sentir repulsa, decepção por isso? Esther ficara dois anos em uma cidade estranha, era natural que se apegasse à um homem honesto e íntegro como Watson. E ele, fora infiel com ela? Deitara-se uma vez com uma mulher, uma prostituta. Vergonhosamente, foi sua primeira vez, embora sequer se lembrasse dos detalhes disso. E ele não tinha o direito de cobrar-lhe nada. Se Esther estivera com outro homem antes de si, ao menos estivera com um honrado, não com uma prostituta de cinco xelins, como ele fizera.
–Holmes, você ainda está acordado? – perguntou Watson, com a voz sonolenta.
–Estou, meu caro.
Watson sentou-se, cansado e aparentemente triste.
–Então, como ela está? – perguntou Holmes, pondo frieza na voz.
Watson suspirou, tristemente. – Destruída, quebrada por dentro e por fora. Aquele homem, ele... Ela foi estuprada. – ele disse, com choque. – ele estuprou uma mulher grávida e...
–O que foi, meu amigo?
–O bebê, Holmes... Eu pensei não viver o bastante para ter de presenciar algo assim, mas... Deus levou outra criança de mim...
Holmes suspirou, também triste. – Céus...
–Ela perdeu o bebê. Estava em início de gestação e o estupro... Deus, fora muito violento... Aquele filho da mãe desgraçado...
–É tudo culpa minha.
–Não se martirize, Holmes. Você fez o que pôde. Mas ao menos, ela está viva. Está internada em estado de choque, incapaz de dizer uma palavra. Ela não olha para mim, não esboça qualquer reação. Espero que não fique neste estado para sempre.
–Ela é forte, Watson. Ela superará isso.
–Isso é o que esperamos, Holmes. E na Yard? O que ficou resolvido por lá, a respeito do caso Carlston?
–A perícia foi enfática: Mr. Carlston recebeu primeiro um tiro no abdômem e mais cinco tiros na cabeça. De acordo com Lestrade, sua morte perde o caráter de legítima defesa e passa a ser vista como uma execução, afinal Carlston não mais acarretava perigo.
Watson concordou. – Talvez o marido de Sophie tenha sido um tanto duro, energético, mas não posso culpa-lo. Se eu me encontrasse em situação semelhante, meu comportamento não teria sido diferente. Também iria querer ver esse desgraçado morto diante de tudo que ele fez...
–O fato é que estão preparando um mandado de prisão contra John Sigerson por homicídio. Isso dá pena capital, Watson, ainda mais porque ele matou um homem de família importante.
–Pois eu duvido que encontrem esse Sigerson. Esse homem parece ser algum mestre em ser invisível. Isso é o que ele foi o tempo todo na vida dela. Bem, ao menos ele teve alguma dignidade, ou mesmo masculinidade, e soube defende-la daquele monstro. Agora, se me permite ocupar seu quarto de hóspedes, meu caro... Está tarde e achar um cabriolé essa horá será deveras complicado.
–Ora meu amigo, você é sempre bem-vindo. Amanhã falaremos mais a respeito disso.
Sozinho na escuridão de seu quarto, Holmes deixou escapar algumas lágrimas.
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Lemon Street, Whitechapel. Londres, Inglaterra
Delegacia de Whitechapel, Divisão H.
02:30 a.m.
Era alta madrugada quando Reid terminou o relatório do dia, e toda a papelada costumeira que estava acumulada. Estava esperando os exames do St. Mary Hospital a respeito de Sophie Sigerson para concluir o relatório de abuso e fazer a denúncia de estupro. Nenhuma mulher merecia sofrer tal crime asqueroso, ele se lamentava com o resultado, que era evidente, diante do estado da mulher.
Ele estava perto de voltar para casa, depois de um dia cheio. Reunia suas coisas para guarda-las quando seus olhos passaram mais uma vez no depoimento oficial de Sherlock Holmes.
Delegacia de Whitechapel. Divisão H.
Lemon Street, 145D. Londres, Inglaterra.
Depoimento: Mr. Sherlock Willian Scott Holmes
Dt. Nascimento: 07 de Janeiro de 1854.
Filiação: Siger Adalbert Scott Holmes e Violet Holmes (neé Vernet)
Mr. Sherlock Holmes adentrou ao local do crime cerca de duas e trinta e cinco da tarde. Disse que avistou Mr. John Sigerson (suspeito), marido de Mrs. Sophie Evans Sigerson (vítima), recolher o revólver em sua cintura. Seu semblante era de preocupação e temor. Não trocaram nenhuma palavra. Em menos de um minuto, Mr. John Sigerson (suspeito) abandonou o local do crime. Vinte minutos depois, a polícia chegou.
Com seus olhos azuis atônitos, Reid começou a balbuciar.
–Sigerson... Siger’s son* (filho de Siger, em inglês)... Sigerson...
Oh, meu Deus!
–SIGERSON!!! – ele gritou, por fim, assustado com suas conclusões.
Não... Eu só posso ter enlouquecido... É isso. Está tarde... O que me falta agora é uma boa noite de sono, para meu cérebro parar de me pregar tais peças... Imagine, Sigerson e Holmes serem a mesma pe...
Os olhos de Reid voltaram-se para o seu relógio de bolso, que ele costumava deixar sobre a mesa. O mesmo relógio que Holmes lhe tomara no East End e que depois devolvera.
De repente, um estalo de memória lhe ocorreu.
"-Mr. Sigerson! – disse Hans, a um disfarçado Holmes, no coração de Whitechapel."
Brotou-se, então, um sorriso do rosto de Edmund Reid. Os céus sabiam que aquilo era loucura, sim! Mas o que se poderia esperar de um homem engenhoso e atrevido como Holmes? Claro, tudo parecia se encaixar perfeitamente!
Deus! O homem era uma fraude! Quer dizer, continuava a ser o mesmo detetive impertinente, mas... Máquina de calcular, impassiva a sentimentos? Não...
Oh, Edmund Reid, como você é inteligente!
–Lloyd! Constable Lloyd! – gritou Reid, inquieto.
–Oh, Mr. Ried, o senhor ainda está aí? Meu turno acabou e...
–Não, Lloyd, eu não vou manda-lo a nenhum trabalho. Pelo menos não hoje. Eu quero que você comece amanhã a investigar o paradeiro desses nomes, anote aí: John Sigerson, Sophie Evans e Sophie Sigerson. Essas duas últimas são a mesma pessoa, o primeiro é o nome de solteiro e o segundo, de casada.
–Sophie... Sigerson... Certo, senhor. – ele disse, terminando de anotar. – Algo mais, senhor?
–Não, está dispensado por hoje.
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