À Sombra da Justiça
25 Definições
Notas iniciais
Londres, Inglaterra. 15 de Junho de 1894.
Sinagoga de Fleet Street.
(Dois meses depois...)
O rabino Samuel Ben-Ya'akov estava caminhando pela sinagoga, depois de fazer suas orações do período da manhã. Tinha conversado com outros dois homens judeus, que também faziam suas orações na Sinagoga. O rabino, de barba longa e feições tranquilas, caminhava calmamente.
Holmes adentrou a sinagoga respeitosamente. Usava um quipá sobre cabeça, entregue ainda na entrada. Embora fosse gentio (não-judeu), sua convivência com Esther lhe tinha ensinado muitas coisas sobre aquele povo, que sempre lhe pareceu tão distante.
–Sir. – chamou educamente Holmes, sentado na sinagoga. O rabino lhe reconheceu.
–Shalom, Mr. Holmes. Como vai? – ele disse.
–Shalom, sir. Bem, eu gostaria de saber... A respeito daquela tradução...
O semblante do rabino se fechou. Holmes, que se sentia sempre pisando em ovos com o sacerdote, mesmo ele aparentando ser gentil com um “goy” como ele, ficou temorizado. Será que ele fez algo de errado?
–Gostaria de falar a respeito disto, mas não aqui dentro. Acompanhe-me.
O rabino levou Holmes até sua casa, que ficava ao lado do templo.
–Meu irmão foi levar os filhos à escola. Creio que temos privacidade o bastante para isto. – disse o rabino. – Pode se assentar, Mr. Holmes.
Holmes o obedeceu. Observou o ambiente ao redor. Era tudo muito simples, mas o que lhe chamou a atenção eram duas velas, pousadas sobre uma mesa, apagadas.
–É sexta-feira, Mr. Holmes. Acendemos as velas para o sábado, o Shabat. Iremos acender assim que o sol se pôr. – ele disse. – Deseja alguma coisa? Um copo d’água, um chá...?
–Não, muito obrigado, Sir.
–Eu vou trazer um chá. – disse o rabino, praticamente ignorando Holmes. Rapidamente, o rabino retornou, com chá fumegante. Sabe-se lá como, pensou Holmes.
–Mr. Holmes... – ele disse, enfim, retirando o diário, e mais algumas folhas de papel. – Eu devo confessar que não esperava a natureza do conteúdo deste diário. Não depois de tanto tempo.
–Não entendo... Você já tinha lido este diário?
–Não exatamente, mas seu conteúdo... Ele é familiar a mim. Sabe, há cerca de oito anos atrás, um dos judeus desta comunidade, chamado Jeremy Cohen, começou a fazer-me perguntas estranhas. Perguntas sobre a Lei, e pior: ele questionava nosso modo de viver, de agir. Dizia que nós, judeus, éramos “passivos” diante da promiscuidade e do pecado do mundo, dos gentios.
–Sim, eu ouvi a respeito de um homem que criou uma seita, ao que parece...
–Hum... Então, você esteve com Miss Katz.
Esse rabino é bem esperto. – Mrs. Sigerson, agora. Ela se casou.
–Realmente? E pelo que vejo, com um gentio. Pena, se ela tivesse permanecido mais um pouco em nossa comunidade, eu poderia ter lhe arranjado um casamento mais apropriado.
–Mrs. Sigerson encontra-se feliz, Sr. Rabino. E o marido dela permite a prática de sua religião.
–Hum, isto sim é algo raro de se ver. Geralmente, jovens como ela são logo convertidas ao Cristianismo. Isto é, até que venham os filhos... Mas enfim, não estou aqui para discutir as famigeradas escolhas de Mrs. Sigerson. Quero dizer que, o que está neste Diário, não é total novidade para mim. Infelizmente.
–O que há neste diário, Sir?
O rabino ficou em silêncio.
–Uma confissão. Creio que a última confissão que eu gostaria de saber. – ele disse, com o semblante sério.
–Confissão? Mas do quê? E de quem? – Holmes parecia preocupado.
–A sombra que espreitou nosso povo há anos atrás, e que felizmente se dissipou. E agora, este diário a trouxe à tona outra vez. Adonai... – o rabino parecia desconcertado, e emocionado.
Holmes não sabia o que fazer, diante do sacerdote emocionado.
–O que está havendo, sir? Eu não entendo...
–Os policiais vieram até mim uma vez... Um homem chamado Abberline, veio me pedir informações sobre Jacob Levy. Ele é um judeu, mas afastado. Uma ovelha desgarrada, infelizmente. Trabalhava como açougueiro em Whitechapel.
Holmes lembrou-se da história. Não eram necessárias perguntas.
–Então, esta é a confissão de Levy? – ele perguntou.
–Não. Algo ainda mais grave. É a confissão de um gentio, claramente influenciado a cometer estes tipos tão grotescos de crime por um judeu de credibilidade. Um dos nossos, eu temo.
Os olhos cinzentos de Holmes se arregalaram. O rabino continuou.
–Jack, o Estripador... É um homem chamado Lewis Stewart.
Holmes fechou os olhos, e suspirou fundo.
–É um relato grotesco, Mr. Holmes. Grotesco! Eu o traduzi a muito contragosto. Todos os detalhes, os mais atrozes imagináveis... E se justificando com preceitos distorcidos da Torá! Por Adonai! Isso seria o fim de meu povo! Poderia ver a destruição, morte, expulsões por toda a Londres, que dirá a Inglaterra! – bradava o rabino, desesperado.
–Este Cohen... Fale-me mais dele. – disse Holmes, ainda sem acreditar.
–Cohen é um intelectual. O nome lhe é estranho, creio eu, porque ele é da área da Psicologia. Judeu, de bons pais, seguidores da religião. Ele mesmo era um estudioso da Torá, chegou-se a pensar que se tornasse rabino algum dia. Mas ele era um amante dos estudos da Mente. Não sei quando seus caminhos se entorteceram. Ele começou a distorcer as coisas, e queria levar ovelhas consigo. Estava montando reuniões secretas com outros judeus, mas eu consegui desfazê-las. Chamei os envolvidos, expliquei-os que estavam sendo persuadidos, iludidos, e eles voltaram aos caminhos corretos. Cohen permaneceu, ainda que não tenha voltado mais à Sinagoga. Levy era um dos que quase foi conduzido por ele. Eu cheguei a tirá-lo da seita, mas ele acabou se afastando do Judaísmo por completo. Até onde sei, é um homem sem religião, mas creio que incapaz de ter cometido esses crimes. Quanto à este Lewis Stewart, que narrou todos estes feitos... Eu não o conheço para julgá-lo. Pode ser mais um manipulado pelas idéias loucas de Cohen.
Holmes levantou-se, de posse do diário.
–O que fará, Mr. Holmes?
–Terei de pensar, Sir. Não se preocupe, eu estou ciente de todas as consequências. Ainda assim... Estas pessoas precisam pagar por isso.
–Cohen está morto. Um acidente ferroviário, em Devon. Tem 2 anos.
–Este rapaz, Lewis Stewart, também está morto, mas ainda assim. Alguém precisa ser creditado por estes crimes. Antes que inocentes continuem sendo considerados suspeitos e sofrendo acusação injusta.
O rabino parecia preocupado.
–Um homem lhe pediria para queimar este livro, Mr. Holmes, em prol de seu povo. Mas não posso colocar-me em tal posição, além de esperar que a vontade Dele cumpra-se. E acredite, o senhor, sendo judeu ou goy, é um objeto Dele.
Holmes acenou respeitosamente, já com cartola sobre a cabeça.
–Eu lhe incluirei em minhas orações, Mr. Holmes, para que tome a decisão correta. – ele disse, enquanto se despediam. – E dê minhas saudações à Esther.
–Obrigado pelo auxílio e preocupação, Sir.
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A polícia ainda estava atrás de John Sigerson, mas aparentemente, não havia qualquer vestígio dele na Inglaterra. Como se o homem não existisse. Reid se quer dava ao trabalho de colocar alguém da Divisão H sobre esta tarefa, tão inútil. Deixou a cargo de órgãos policias superiores, com prazer, pois sabiam que iria fracassar. À medida que Constable Lloyd trazia mais papéis sobre suas incursões pelos principais cartórios, repartições públicas e tudo o mais imaginável não só em Londres, mas também em outras cidades, mais o quebra-cabeça sobre a misteriosa Sigerson, bem como sua esposa Sophie Sigerson (que ele percebeu, igualmente suspeita) estava completo. Não havia mais como negar que Sigerson e Holmes era a mesma pessoa, concluía o inspetor, feliz e imaginando como se utilizaria dessa informação.
Stewart confessou seu envolvimento com a primeira vítima, Miss Bryant, e disse que planejava colocar a moça em um trem para a Escócia, mas Jeffrey descobriu seu plano e decidiu mata-la, apenas para utiliza-la como primeira vítima. Outros assassinatos, em circunstâncias parecidas, ocorreram, apenas para incriminá-lo. A segunda vitima, Lisbeth, que era grevista na fábrica, foi a dita “mais fácil” de ser morta, pelo seu grau de intimidade com Carlston e também por seu amor platônico por ele. As demais vítimas foram escolhidas porque tinham um rotina que lhe permitiam se encontrar, por algum momento no East End, sozinhas e vulneráveis, foi o que Carlston concluiu após estudar a vida não só delas, mas de outras garotas, que tiveram a sorte de não ter sido escolhidas pelo maníaco. O conjunto de faca, objeto de família penhorado pelo irmão usuário de ópio, fora arrematada por Jeffrey com o intuito de ser plantado propositalmente nas cenas do crime, apenas para ligar a tradicional família Stewart aos assassinatos.
O corpo da prostituta Flora foi encontrado na casa usada por Jeffrey para encontros comunistas. A moça tinha morrido à míngua, sem água ou comida desde que fora aprisionada. Em depoimento, Rose Willians reconheceu, por meio de fotografias, Jeffrey como o homem que levou Flora. Em três meses, aconteceria o julgamento, a respeito da inocência de James Stewart quanto à nenhuma ligação ou facilitação do caso. Sob investigação, o rapaz perdeu a vaga de Diplomata Russo, e também porque tinha ido muito ruim na linguagem russa nos exames de admissão do Corpo Diplomático.
Esther tinha pedido demissão da Universidade, apesar dos protestos do diretor e do Grupo Feminista, e de sua nova amiga Norah Reid. Ela estava tentando colocar sua vida na normalidade. Lia os classificados, à procura de emprego, mais uma vez, como tutora ou professora de Colégio de Meninas. Fazia um mês que ela voltara a colocar os pés na rua, graças às insistências de Watson, que fora gentil com ela desde que saíra do hospital. Suas férias na Agência inham terminado, mas ela estava assistida por uma licença médica, dada por Mr. Sparks, que por meio de um gentil buquê de tulipas e um pedido – sutil, como sempre – de volta à Agência. Ela ainda ponderava a respeito, pois não sentia-se capaz de voltar ás suas antigas funções. Não depois de tudo que lhe acontecera.
Quanto á Holmes... Ele estivera ausente todo o tempo. Ela não sabia dizer se devido à constante presença de Watson em sua vida nos últimos tempos, sempre ao seu lado prestando assistência, ou se ele já não mais a queria. Ela sequer sabia o porquê desse afastamento repentino.
Até o dia em que, Watson, sem querer, deixou escapar que Holmes já sabia da gravidez. Exatamente na época em que as coisas começaram a esfriar. Ela percebeu também certa ponderação em Watson. Como se tivesse algo de errado com a gravidez. Ou mesmo, como se o bebê fosse...
Por Deus, o que ele estava pensando esse tempo todo? Que o filho não era dele?, pensava Esther, ainda pasma com a remota possibilidade.
–Watson, eu sinto que deveria agradecer ao Mr. Holmes de maneira correta. Afinal, ele foi uma das primeiras pessoas a me encontrar, depois de Sigerson... – ela disse, sustentando a mentira.
–Bem, eu posso combinar um jantar e...
–Não, nada de jantares. Eu quero falar com ele, e às sós. Sinto muito, Watson, espero que você não se incomode com isso.
–Não, minha cara. Se você se sente mais à vontade desse modo...
–Obrigada. – ela disse, timidamente. – Eu queria agradecê-lo. Desde aquele... Dia... Eu não mais o vi.
–Ele vem andado muito ocupado, cheio de casos. Mas a sua saúde é o que me preocupa. Ele está comendo pouco, dormindo pouco... Ele não é mais um rapaz, precisa tomar mais cuidado... Se ele me ouvisse, ao menos.
Esther sentiu preocupação a respeito da situação de Holmes nos últimos tempos, mas escondeu isso muito bem, como sempre.
–Bem, se quiser, eu posso leva-la a Baker Street hoje. Ele solucionou ontem de madrugada um caso e deve estar em sua casa. Eu a deixo por lá e volto para o consultório, se preferir.
–Tudo bem, por mim está ótimo.
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