Faz dois dias que Noah e eu nos beijamos, dois dias que ele contou para mim que tem um namorado, dois dias que eu não saio de casa, dois dias que a campainha toca e eu me recuso a sair, dois dias que eu descobri que eu me apaixonei pelo meu melhor amigo. Nós voltamos pra casa sem dizer nada um para o outro aquele dia, a música no rádio era a única coisa que quebrava aquele silêncio horrível, nos despedimos de um jeito formal, algo que era tão estranho entre a gente, sem um abraço, sem Noah tocar meu rosto ou meu cabelo, sem sorrir pra mim.

Esqueceu os amigos Tom? – Dizia a mensagem em meu celular, era Sarah, parte de mim queria desabafar com ela, mas eu tinha mudado de cidade para recomeçar, se eu contasse esse drama ela com certeza viria aqui só para dar um tapa na minha cara.

Desculpa, ainda estou me adaptando ao ambiente – Menti

Vou deixar passar dessa vez... Ah adivinha quem vai te fazer uma visitinha esse final de semana?

Ah meu Deus, você vai vir pra cá? Sério?

Sei que está com saudades, eu também estou, mas infelizmente... ou felizmente depende do ponto de vista, não sou eu que irei

Então quem é que vai vir? – Não conseguia imaginar ninguém vindo me visitar, meu ciclo de amizades não era assim tão grande a não ser que....

Nick, ele disse que precisa ir para Falls City resolver alguma coisa, vai ficar ai por alguns dias e eu acabei falando que era onde você foi morar, então...

Espera o Nick vai vir me ver? – fiquei surpreso, da última vez que nos vimos na festa de aniversário de Sarah, depois de beber um pouco acabamos nos pegando dentro de um dos armários da casa dela, o que não foi uma boa idéia pois o espaço era muito pequeno para o que tentávamos fazer.

De nada rsrs vê se dá notícias, preciso ir agora bjs

Sarah se despediu, eu apenas curti a mensagem com um coração, estava atordoado com o que ela me disse. Nick era um garoto maravilhoso e digo isso em todos os sentidos. Conheço ele antes mesmo de começar a namorar Theo, ele estava do meu lado em todos os momentos de decepções, me aconselhava quando eu voltava com meu ex, puxava minha orelha mas não me julgava, no final quando eu estava na fossa, ele me ajudou a superar, foi quando nos beijamos pela primeira vez. Depois disso teve a festa da Sarah, Nick me pediu em namoro, eu tive um surto, não estava preparado, nós nos afastamos por um tempo.

Passei quase o dia todo mergulhado no trabalho, sentado em uma mesa de escritório que eu fiz questão de deixar em um canto da sala, pois era o lugar mais iluminado da casa, tinha grandes portas de vidro, dando vista para o belo jardim que eu tanto admirava. Era tardezinha quando peguei meu celular que estava carregando, fechei o notbook e estralei os dedos me jogando no sofá, foi quando ouvi a campainha, eu sabia que era Noah e não porque a porta era de vidro, mas ele tinha vindo os dois dias anteriores no mesmo horário, eu sinceramente já não via sentido em ignorá-lo, decidi abrir a porta.

Assim que eu abria a porta ele me abraçou, tão forte que eu não estava conseguindo respirar

— Ei.. Noah.. é bom te ver também – Falei retribuindo o abraço

— Pensei que você nunca mais iria querer me ver novamente – ele segurou meu rosto daquele jeito

— Eu só estava chateado... precisava de um tempo, mas não estou bravo com você Noah, você não fez nada de errado – passei a mão no cabelo dele, era tão macio quanto eu lembrava – bom, na verdade fez, deveria ter me avisado antes de me beijar que tinha um namorado, mas tudo bem, vamos esquecer isso

— Me desculpa, quando estava com você lá na cachoeira eu....

— Ok, vamos parar de falar sobre isso – eu o interrompi puxando para dentro de casa – vamos assistir um filme, como a gente fazia antes? Você está livre? Eu terminei o trabalho agora a pouco e já ia colocar algum pra assistir

— Você sabe que convidar alguém pra assistir um filme hoje em dia significa outra coisa né? – Noah deu um sorriso antes de se sentar no sofá com uma cara de safado

— Você quer que eu passe mais dois dias te ignorando? – fechei a cara

— Desculpa

Eu ri

Fiz pipoca, joguei as almofadas no chão em cima do tapete da sala assim como quando éramos crianças, claro que dessa vez não teve guerras de almofadas e nem qualquer outro tipo de brincadeira parecida, apenas ficamos assistindo os filmes clássicos que nós amávamos, Abracadabra, A volta dos mortos vivos e a pedido de Noah Anaconda. Assim que a sessão de filme terminou, olhei no celular e já era oito horas da noite, não me preocupei com o horário, apenas me deitei no tapete e fiquei olhando para o teto, Noah fez o mesmo deitando do lado oposto ao meu ficando com a cabeça bem ao lado da minha, nossas orelhas estavam quase se encostando.

— Eu tinha me esquecido de como era bom assistir esses filmes – Noah estava rindo

— Espera, vai me dizer que você nunca mais assistiu esses filmes – Perguntei curioso

— Ah é claro que assisti, até convenci meus amigos a assistirem comigo, mas não é a mesma coisa – Ele alou tentando me espiar com dificuldade

— Lembra quando a gente estava assistindo Bolha Assassina e a vovó ficou com nojo e saiu da sala – eu comecei a rir lembrando daquele momento

— Ela perguntou porque a gente não assistia Teletubies como as crianças normais

Rimos por alguns minutos, depois içamos em silêncio, os dois olhando para o teto, cada um com seus pensamentos.

— Tommy, posso te perguntar uma coisa? – Noah quebrou o silêncio

— Claro – eu fiz um sinal de jóia para o alto – manda ver

— Está claro que você não voltou a morar aqui por saudades, qual foi o real motivo de você ter voltado a Falls City?

— Espera... como você sabe que não foi por saudades?

— Depois de todos esses anos? Se você sentisse saudades teria vindo pra cá antes, se voltou só agora deve ter um motivo – Noah era sempre bem direto

— Está bem, não posso mentir pra você de qualquer forma – Me sentei cruzando as pernas – Eu tinha um namorado, Theo, por muito tempo ele me tratou de uma maneira muito ruim, a gente se separava e voltava, no final ele acabou me agredindo, eu sabia que aquela era uma relação tóxica, não sei porque insistia em continuar.

— Se um dia eu ver esse Theo na minha frente... Deus me ajude... eu.. nossa... – Noah estava com os punhos cerrados.

— Tudo bem, já ficou no passado, eu me mudei pra cá pra esquecer tudo isso, pra recomeçar, sem o perigo de encontrá-lo em alguma festa, ou nos barzinhos que eu freqüentava e que ele sempre fazia questão de aparecer com seus novos namorados.

— Ainda bem que você terminou com aquele idiota, ele é um lixo e não merece uma pessoa tão especial como você – Noah se sentou cruzando as pernas de frente pra mim.

Por alguns minutos ficamos em silêncio, Noah pegou as pontas dos meus e foi escorregando até ficarmos de mãos dadas com os dedos entrelaçados. Os créditos do filme ainda estavam subindo na tela da tv, eu observava cada detalhe do rosto de Noah, enquanto ele parecia admirar o meu, nos aproximamos um pouco mais, nossas pernas estavam batendo uma na outra, então abrimos e encaixamos de uma forma a ficar colados um no outro, nos abraçamos ali sentados no chão de uma forma que se alguém visse diria que estávamos fazendo sexo, o que na verdade, não seria uma má idéia, mas eu não podia fazer isso, Noah tem um namorado.

— Está ficando tarde – Falei me afastando assim que me lembrei que ele é comprometido

— Acho que é melhor eu ir – Noah se levantou, mas antes deu um beijo em minha bochecha

Eu o acompanhei até a porta, foi menos estranho dessa vez, tudo bem a gente quase se pegou de novo, mas dessa vez nos despedimos da mesma forma carinhosa de sempre.

Acordei tarde essa manhã, Noah e eu ficamos conversando até tarde, o engraçado é que tudo pareceu tão rápido, é assim quando estamos nos divertindo ou curtindo a companhia de alguém. Tomei um banho rápido, peguei o carro e sai pela cidade, não precisava mais me esconder dentro de casa, passei pela loja de café do dia emque fui com Noah, peguei o mesmo capuccino e depois segui para a lanchonete dos Dosson, era minha vez de visitar o meu melhor amigo. Quando cheguei o Senhor Dosson fez questão de me receber e me oferecer um lugar para me sentar.

— Por favor peça o que quiser Senhor Maxford, é por conta da casa – Ele disse enquanto fazia sinal para um dos atendentes que estava com um avental amarelo.

— Obrigado Senhor Dosson, mas eu prefiro pagar

— Na próxima.... sua avó era muito querida aqui, nos ajudou muitas vezes, eu faço questão que a sua primeira vez aqui seja por conta da casa – ele disse isso, deu dois tapinha nas minhas costas e saiu sorridente

Assenti e o atendente se aproximou

— Então você é o famoso Tommy? – Disse o rapaz segurando um tablet, era muito lindo, não o tablet, quero dizer o rapaz

— Eu famoso? – Brinquei enquanto olhava para o cardápio

— Desde que você chegou na cidade, só se fala em você nessa lanchonete

— Bom, cidade pequena, alguém chegando de mudança, as pessoas comentam é normal

— Desculpa, sou Alex, muito prazer – ele soltou a caneta para apertar minha mão

— Prazer Alex, você saberia me dizer se o Noah vem para o trabalho hoje?

— Bom, a essa hora provavelmente ele ainda está no hospit....

Antes que Alex terminasse de falar, uma garota se aproximou e deu um empurrão no garoto olhando para ele com um olhar de reprovação.

— Não se preocupe Senhor Maxford, ele deve estar chegando em breve, Boby ficou de trazê-lo hoje – a menina falou olhando friamente para Alex

Achei toda aquela situação estranha, mas não queria perguntar e se o intrometido que queria saber de tudo o que estava acontecendo na vida de Noah, Boby que provavelmente era seu namorado estava com ele, então eu não tinha mais motivos para ficar aqui esperando ele. Acho que ainda não estava preparado para vê-lo beijando alguém na minha frente. É engraçado, não vejo Noah a muitos anos, mas assim que nos vimos, assim que nos tocamos, era como se a gente se conectasse novamente e voltássemos a ser os dois meninos inseparáveis, como a vovó costumava nos chamar.

— Bom, acho que é melhor eu voltar outro dia para vê-lo, vou ter uma visita, preciso voltar pra casa – Falei enquanto me levantava da mesa – e por favor, me chame de Tommy, vocês tem quase a minha idade, é estranho me chamarem de Senhor Maxford

Os dois riram.

Sai apressado da lanchonete, não queria correr o risco de encontrar os dois chegando abraçados e fazendo carinho um no outro. Voltei pra casa e coloquei uma música, we can’t be friend da Ariana Grande, enquanto colocava um pouco de vinho na minha taça, ouvi a campainha, assim que abri a porta, um buquê de rosas, só poderia ser uma pessoa

— Nick – Falei abraçando o rapaz a minha frente, ele parecia bem mais encorpado, seus braços estavam maiores.

— Pequeno Tom – ele retribuiu o abraço me girando no ar

— Rosas? É sério? — peguei o buquê e senti o cheiro, era realmente muito bom

— Você sabe que eu sou brega – ele entrou deixando sua mochila em cima do sofá – essa música é uma indireta pra mim?

— Bobo, dei um tapa em seu braço

— Sei que não é mais surpresa, a Sarah provavelmente já te falou que eu viria né?

— Ela alou sim, inclusive... – ouvi a campainha tocar mais uma vez

— Esperando mais alguém? Vamos ter uma esta? – Nick não fazia cerimônia, já foi logo pegando uma taça e colocando vinho

— Engraçadinho

Assim que abri aporta lá estava ele, Noah ele correu e me deu aquele abraço que eu amava, mas não tanto dessa vez, pois atrás dele estava um cara muito bonito que não pareceu gostar daquela recepção.