Carreguei a última caixa para dentro de casa, o caminhão parado em frente ao belo jardim de cerca branca com rosas vermelhas, ligou o motor, então ouvi o som da buzina duas vezes seguidas, não estava esperando o motorista se despedir de mim, mas pensei que ao menos ele diria alguma coisa como — Boa sorte na casa nova — talvez eu estivesse esperando demais, eu nem ao menos o conhecia, a não ser quando o procurei para contratá-lo para trazer minha mudança para cá. Eu sempre esperava demais das pessoas, não que isso seja uma coisa ruim, mas quando se espera demais de alguém você precisa estar preparado para decepções.

Foi por isso que me mudei para Falls City, precisava me afastar das pessoas que me decepcionaram, mais especificamente uma pessoa, meu ex namorado Theo. A alguns meses atrás ele me procurou, pediu desculpas e disse que não seria mais um babaca comigo, mas bastou uma festa, bebidas e pessoas atraentes para que ele voltasse a ferrar tudo. Eu realmente acreditei que ele seria uma pessoa melhor, eu acredito que as pessoas merecem uma segunda chance, mas eu sempre acabo me decepcionando. E não, eu não estou fugindo, eu só queria recomeçar em um lugar diferente.

Já faz muitos anos que não vinha para essa casa, lembro dos aniversários na minha infância, minha avó descendo as escadas com uma tigela de bolinhos de chuva, enquanto eu assistia desenhos animados deitado no tapete da sala, dos natais, a árvore gigantesca que ficava aqui no canto da sala, com aquele pisca — pisca que espetava o dedo, das festas de final de ano, a mesa cheia de comidas deliciosas. Lembro que era um dos meus lugares favoritos, adorava passar as férias aqui. Depois que minha avó faleceu a casa ficou vazia, eu não digo pelos móveis, ou pelas pessoas, eles continuaram aqui, minha mãe também continuava a vir todos os anos, mas a vovó não estava mais lá, a mesa já não tinha mais as garrafas de chá e de café que eu costumava beber acompanhado de seus bolinhos durante a tarde, os abraços apertados e até suas broncas. Agora era apenas uma casa vazia, minha mãe quis vende-la durante um tempo, mas no meu aniversário de vinte anos ela revelou que deixaria a casa para mim e eu é quem decidiria o que fazer. Já se passaram mais de 13 anos desde a última vez que estive aqui, o cheiro ainda é o mesmo, se fecho os olhos consigo voltar no tempo, mas é claro que os móveis que estão pela casa são novos, não quis usar os antigos, seriam lembranças demais.

Começo a abrir as caixas que estão espalhadas pelo chão, não sabia que eu tinha tantas coisas assim, meus troféus dos concursos de talento, minha coleção de gibis, meus livros, são os primeiros a serem colocados na minha estante. Abro outras caixas e sigo para cozinha, pratos, talheres e copos, isso vai levar uma eternidade.

Já é tarde quando termino de arrumas as coisas, olho para meu celular

— Meu deus nove horas da noite – Falo alto demais

Tomo uma ducha, em seguida procuro algo no ifood, depois de organizar a mudança estou muito cansado para preparar alguma coisa, mas meu estômago insiste em roncar. Encontro uma lanchonete mais próxima no aplicativo, o nome era familiar mas estava com fome demais para prestar atenção nisso agora, as opções eram boas e os preços também, faço um pedido e não demora muito pra chegar, isso é uma das melhores coisas em Falls City, tudo o que você precisa está perto, as vezes não precisa nem pegar ônibus ou uber, uma bicicleta já é o suficiente, eu adorava andar de bicicleta, me lembro de uma vez quando eu tinha doze anos, eu e meu melhor amigo Noah fomos escondidos até a cachoeira, passamos um ótimo dia brincando na água e correndo pelo bosque, foi um dia perfeito, até minha avó descobrir e me deixar de castigo sem poder usar a bicicleta e pior, sem poder ver Noah durante as minhas últimas semanas de férias.

A campainha toca pela segunda vez, eu já estou próximo da porta

— Boa noite, seu pedido – Diz o rapaz a minha frente segurando uma embalagem de papel com a logomarca da lanchonete “Dosson Lanches” assim que eu abro a porta

— Boa noite, desculpa pela demora mas não estou acostumado com escadas – Falo apontando a escada enorme que dava acesso ao meu quarto de onde eu tinha vindo correndo.

— Sem problemas – O Rapaz a minha frente sorri, ele é lindo, bochechas rosadas e algumas sardas no rosto o que o deixava ainda mais atraente – Você não demorou tanto assim

— Obrigado – estico as mão para pegar o pacote e o rapaz que até então estava distraído olhando a tela do celular, resolve olhar nos meu rosto

— To... Tommy, espera essa casa, não, espera... – Ele dá alguns passos para trás e olha novamente para a minha casa, analisando como se não tivesse prestado atenção na primeira vez

Passo a mão atrás da cabeça, confuso com a reação dele

— Meu Deus, Tommy? é você mesmo? – Grita o Rapaz com um sorriso enorme no rosto me abraçando tão apertado que sentia seu coração acelerado no meu peito

— Espera... quem é você? – dou um passo para trás desfazendo o abraço

— Sou eu... Noah – ele aponta para o peito enquanto fala isso

— Não... Noah, mas como? – Agora sou eu quem o agarro e dou um longo abraço tão apertado quanto o dele – Como eu não reconheci você?

— Eu sei, estou mais bonito né? – Ele passa as mãos pelo cabelo fazendo biquinho

Ele realmente estava muito bonito

— Na verdade seu cabelo, está castanho e... diferente

— As vezes mudanças são necessárias – Noah finalmente me entrega o pacote

— Você quer entrar? Podemos conversar, botar o papo em dia

— Infelizmente não posso, estou ajudando meu pai na lanchonete hoje, o motoboy sofreu um acidente e ele precisa que alguém faça as entregas

— Quer dizer então que você tem uma moto? – Espio atrás de Noah enquanto ele dá um sorriso desajeitado – Espera, uma bicicleta?

— Pois é querido Tommy, algumas coisas não mudam

Já fazia alguns anos que não ouvia alguém me chamar de “Querido” minha avó costumava me chamar assim, foi então que Noah ouviu ela dizer isso e passou a me chamar de querido Tommy, no início eu odiava quando ele me chamava assim, depois de um tempo, ele e minha avó eram as únicas pessoas que eu permitia que me chamasse dessa forma. Nem mesmo a mamãe, até porque ela sempre me chamou de Tom. Tive uma briga uma vez porque Theo me chamou de querido, sei que estava errado pois é uma forma carinhosa dos namorados se tratarem, mas eu não suportava a idéia de outra pessoa me chamando assim.

Noah se despediu de mim com outro abraço longo e apertado e eu voltei para meu quarto com meu pacote de lanche.

“Dossom Lanches” – Sabia que conhecia esse nome – disse em voz alta