Último homem decente
1 Último homem decente
Notas iniciais
there's open spaces and blank faces
when you search for answers in the street.
there's no one left to call, nothing much to say.
(pretty sure the world is gonna end today)
*
Nós andávamos pelas ruas que costumávamos passar quando as coisas ainda estavam nos devidos lugares. Eram as ruas que faziam parte de nossas rotinas e nós as decoramos em nossas mentes, e – pra falar a verdade – nós as odiamos. Nós sabemos a sequência de cada mísera árvore, nós sabemos a cor de cada estúpida casa e hoje, apesar de todo o desprezo, nós sentimos saudades de cada pedaço de concreto.
Tudo ainda está ali, intacto. Intocável. Muito longe de estar remotamente vivo. O concreto, as árvores, as casas. Tudo ainda está ali. Mas em contrapartida, não. Não da forma que deveriam, pelo menos. Não da forma que costumavam estar.
Tudo está acabado, junto com a essência das pessoas que depositaram todas as suas histórias e paixões e dilemas nessas casas e nesses concretos e nesses galhos secando gradativamente. Se foram, com a simplicidade de duas palavras.
Perderam seu significado; já não eram mais as árvores que você rouba os frutos no caminho de volta para casa, já não é mais lar doce lar a casa que você dorme toda noite, e você já não é mais você também. Casa. Árvore. Rua. Substantivos soltos num dicionário mofando numa biblioteca abandonada, perdidos em livros que nunca mais serão abertos, afogados em textos que jamais serão lidos novamente.
Um mês atrás, ao ver o noticiário e me deparar com notícias sobre desastres que cada vez mais destruíam as estruturas da vida ao redor de todo o globo, brinquei:
— Aposto que o mundo acabará hoje.
E acabou. Minha mãe disse, no auge dos meus sete, que eu não deveria falar besteiras dessa magnitude em voz alta, pois quem sabe o Universo decidisse ouvir e tomar tais palavras como uma verdade. Era mais uma forma que os adultos aderiam para fazer com que as crianças se sentissem culpadas, um desses métodos nada saudáveis de educar… Agora, eu riria dela pela trágica ironia.
Mas ela está acabada também, muito provavelmente.
Eu devia estar mais entusiasmada com um evento desses: o fim do mundo; mas não havia muito pelo que se animar. No fim do mundo eu acabei ao lado dele e com sua mão entrelaçada na minha como se uma ocasião desse porte nos desse uma intimidade milenar, seus dedos mornos pressionando os meus com uma força que podia ser tanto confiança quanto um medo descomunal.
E não, isso não é nem uma trágica história de amor.
Seu cabelo escuro era o meio-termo entre o encaracolado e o liso e vivia caindo sobre sua testa, junto com o suor que escorria por seu rosto. Era um rosto difícil de explicar; assim como ele como um todo era difícil de explicar. A indiferença norteou boa parte de nosso relacionamento durante a vida quando ela ainda era algo relevante, tudo isso para que quando os créditos finais começassem a subir eu segurasse sua mão e sentisse a euforia percorrer suas veias.
A indiferença em vida nunca me diria que eu dedicaria tantas palavras à eles nessas em breve narrativas póstumas. Quem sabe eu o faça pois é hilário, quem sabe eu o faça pois a sobrevivência seria árdua demais se eu parasse para pensar nas curvas que eu não entrei ou nos medos que eu alimentei.
“Sobrevivência.”
Uma sobrevivência ligeiramente patética, um silêncio bizarramente desconfortável. Um silêncio preenchido por eventuais suspiros ofegantes e por respirações fundas demais.
Cada pedaço de nosso corpo sucumbindo à exaustão, ainda que não tivéssemos um arranhão sequer em nossas peles — vitória física esta não nos faria sorrir, de qualquer modo. Estávamos com um psicológico fodido. Nós estávamos com conversas inacabadas, com abraços pendentes, com e-mails fechados, com cartas escritas pela metade, com canetas que já não pegavam, num país que já não funcionava, num mundo prestes a interromper seu curso natural.
— Aposto que a rotação da Terra está prestes a parar. – eu disse.
Talvez se achássemos uma cabine telefônica no meio do caos uma pequena chama de otimismo pudesse ser acesa em nossos corpos sucumbindo à desistência. E então, do que adiantaria? Não há muito o que se falar, pensei, logo em seguida. Pior, não há alguém pra nos ouvir.
Era só eu e ele, e o mundo – sem chama de otimismo, sem muito pelo que lutar. O mundo acabando de grão em grão, até não restar nada. E tudo que costumávamos julgar conhecer se esvaindo gradativamente por entre nossos dedos feito areia.
Se eu estivesse sã, seguindo minhas reações normais perante as situações que a vida me impõe, eu choraria. Eu me agarraria em seu suéter cinza e lhe encheria do último catarro que ele limparia no mundo, lhe obrigaria a secar as últimas lágrimas que ele veria, e envolveria seus braços ao redor do último corpo que ele tocaria.
Mas eu não chorava, nem tinha o intuito de o fazer. Eu queria dançar, na verdade. Queria dançar, coberta de glitter e esquecer das noites mal dormidas e das palavras pela metade. Esquecer dos livros que eu não pude ler ou dos álbuns que eu não baixei a tempo.
O fitei, e ele tinha um olhar de tranquilidade. Suas íris escuras que podiam esconder tanto.
Será que ele também queria dançar? Será que ele estava pensando no anel de noivado que ele deveria ter dado para a garota de seus sonhos antes que o mundo batesse em sua porta trazendo seu fim ou nas declarações de amor ou nos filhos que ele nunca teria? Será que, assim como eu, ele tinha demônios em sua mente lhe atormentando bem antes disso tudo acontecer?
Talvez não. Eu não o conhecia de verdade, afinal.
Nós trabalhávamos juntos nesse escritório prestes a falir, e um dia conversamos amenidades e eu pensei que uma amizade floresceria entre a gente – mas no dia seguinte, ele se limitou a me trazer folha sulfite pra por na copiadora. Só.
Não éramos nada um do outro, entende? Eu o conhecia de vista e até sabia fatos aleatórios dele como que ele morava sozinho, mas namorava uma garota do Alabama. Como ele era o funcionário do mês pelos doze meses do ano, mas vivia fodendo o próprio fígado nos finais de semana, roubando cones da rua e vomitando em privadas desconhecidas. Eu nem sabia seu sobrenome, mas eu sabia que adorava ler porque vez ou outra alguma encomenda de livraria vinha lhe encher o saco no escritório, e eu sabia disso tudo porque éramos colegas de trabalho. Só.
Assim como os concretos, as árvores, as casas e as ruas eu o decorei pela rotina que me foi imposta. Eu o via diariamente, cruzava com ele nos corredores monótonos e um dia nós confundimos nossas canecas numa reunião. Eu o via todo dia, e armazenei sua aparência, seus movimentos levemente desengonçados e sua voz esquisita. Veja só, eu até sabia o que ele fazia no final de semana!
E ainda que decorando-o, eu não o conhecia de verdade. Eu conhecia o que ele fazia, eu conhecia seu suéter cinza e sua calça cáqui e seu sapato surrado. Mas eu não conhecia nada das complexidades que o levaram aos caminhos que ele traçou.
Assim como os concretos, as árvores, as casas e as ruas eu também o desprezava de certa forma. Porque eu o via diariamente, e sua existência soava tão ordinária que eu ficava embasbacada. Ele não era nada além de alguém comum, alguém vagando por aí, fazendo o que precisa ser feito sem nada além do usual. Que desperdício de vaga, que vida medíocre, que cara metido a intelectual.
E veja, ele podia se candidatar a ser o peso dos papéis que eu mantinha na minha escrivaninha e, ainda assim, no fim das contas ele tornou-se o semi-conhecido do fim do mundo. O semi-conhecido com os dedos entrelaçados nos meus e um olhar irritantemente tranquilo. A coisa mais interessante que eu "tinha", porque agora eu só tinha a roupa no corpo.
O semi-conhecido que talvez quisesse dançar, assim como eu. Mas que eu não saberia, porque o mundo estava acabando antes de eu conseguir descobrir se ele era o tipo de rapaz que dança ou que liga para a mãe no fim de semana ou mistura a pipoca doce e a salgada no cinema.
— Vamos dançar. – Propus, quebrando o silêncio que havia se estendido por mais tempo que o aceitável.
— Não há música. – Ele respondeu, quase no mesmo instante.
— Tem um bar virando a esquina. – Lembrei.
— É… Não acho que seja a prioridade dos proprietários vender drinques e tocar música diante disso tudo... – e ele ponderou – …Um brinde ao fim do mundo não cairia mal. — "Não é como se você agora precisasse esperar o final de semana pra foder o próprio fígado", pensei.
E nós fomos, ainda de mãos dadas, palavras curtas e pensamentos aleatórios flutuando em cima de nossas cabeças. Eu nunca daria as mãos pra ele num dia comum, ele não dançaria comigo num dia comum.
Mas não era um dia comum.
Chegamos ao bar, o aroma de podridão no ar nos lembrava os velhos tempos, e as escolhas medíocres que fizemos no tempo curto demais. O mundo estava acabando, e nossas memórias eram tolas e superficiais, mas não nos esforçávamos para mudá-las. Nossos pensamentos, em breve, não se tornariam heroicos, nem poéticos e nem profundos e dignos de reflexão – é o fim do mundo, e ao contrário do que os filmes mostram, nossos cabelos não estão impecáveis e nós ainda somos tão babacas quanto éramos antes do mundo chegar ao fim. Voilà.
Pelo menos o bom whisky que bebíamos anulava qualquer peso na consciência.
— Vamos dançar. – Propus novamente, lembrando o intuito de termos ido àquele bar abandonado em primeira instância.
— Não.
— É nossa última chance. – insisti.
— Está bem.
— Dê o seu melhor.
Havia uma jukebox esquecida bem antes dessa merda, mas salva por mim e uma moeda que arranjara um significado em meio ao caos. Nós dançamos. Eu o puxei para a pista vazia, afastei as várias cadeiras e dançamos feito loucos naquele bar que só vimos lotados em nossos dias de verdade.
Nós dançamos uma música que não lembrávamos o nome e nem nunca lembraríamos, e foi bom. E nós caímos de bunda no chão após essa primeira música. Velhos demais para os desejos repentinos de fim de mundo, aparentemente.
— E agora? – ele perguntou.
— Nós gritamos. – propus.
— Gritamos?
— Gritamos para Deus: eu queria mais!
— Você queria mais? – ele arqueou a sobrancelha.
Concordei.
Houve um breve silêncio, não tão carregado de agonia e desconforto quanto os outros silêncios que preencheram o restante de nosso dia.
E, uma vez que o mundo estava acabando mesmo, nós gritamos. Nós gritamos sobre os furacões que nós não vimos, sobre as nevascas pelas quais nunca passamos, pelos copos de bebidas que nunca foram bebidos e pelas danças malucas em nossos apartamentos que nunca foram dançadas.
E, eventualmente, porque o mundo estava acabando mesmo, nós nos beijamos. Um beijo de fim de mundo, porque era nossa última chance. Não nos beijaríamos em dias comuns, mas hoje o mundo estava acabando. E o fim do mundo é o evento mais importante da vida de alguém.
Nos beijamos porque eu era a última garota bonita e ele era o último homem… decente.
Eventualmente, morremos.
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